Kitabı oxu: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа»
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Nariz de cera de amigos e xeretas
Um fato se repete, constante e monótono, à publicação de cada novo romance do autor desta história de dona Flor e de seus dois maridos: há sempre um(a) cabotino(a) a meter-se na pele de algum personagem e a proclamar em altos gritos o escândalo, fazendo-o através das colunas dos jornais, com publicidade, brilho e ameaças ao romancista: bofetões, processo ou morte. Para impedir suceda o mesmo desta feita, o autor avisa a todos que nejansonnhum vivente aqui, nesta obra de ficção, se encontra retratado. Identidade de nome e sobrenome, de apelido, de profissão, de idade, de detalhes físicos ou morais, de feiúra ou de beleza, de celibato, matrimônio ou amigação, de cor de pele, de mistura de sangues, de virtudes e de vícios, de qualidades e defeitos, de tudo, enfim, sem exceção, terá sido a clássica, pura e simples coincidência, ocorrida à revelia do ficcionista. Quis ele fixar apenas aspectos do viver baiano e, em companhia dos leitores, sorrir à custa de certas ambições e certos hábitos da pequena burguesia definitivamente sem jeito, de quando em vez enternecido com essa ou aquela figura torta porém humana.
Eis por que qualquer parecença entre a realidade da vida e a realidade do romance – uma nascendo da outra e a recriando – é conseqüência de experiência e busca; mas, se por azar alguma semelhança existir entre pessoas vivas e personagens do romance, terá sido casual e inocente, por vezes divertida coincidência.
Assim, quando nas páginas das aventuras matrimoniais de dona Flor o leitor encontrar um(a) fulano(a) cujo nome, profissão e aspecto lhe recordem conhecido(a) com o mesmo nome, a mesma profissão e o mesmo aspecto, fica sabendo desde já: o(a) persona gem do romance não retrata seu conhecido(a), e qualquer semelhança entre eles não é culpa do autor e, sim, do tal sujeito(a) que anda por aí a parecer-se com figuras de romance como se isso fosse ocupação de gente séria. Mania de grandeza de certos tipos, doidos por se mostrar. Agora, com esta nota, fica tudo esclarecido e o assunto encerrado de uma vez. Ainda bem.
Sendo o autor, em matéria de culinária, apenas comilão, deve ele agradecer às suas boas amigas dona Carmem Dias, dona Dorothy Alves e dona Alda Ferraz, três mestras da grande arte, que forneceram receitas para a escola de dona Flor, algumas das quais reproduzidas no romance com os ingredientes precisos e as medidas justas, podendo assim servir a quem deseje utilizá-las para os petiscos suculentos – sem no entanto garantir o autor pelos resultados pois, para a arte culinária, não bastam os materiais e suas quantidades: sem o gênio dos temperos, sem a vocação dos molhos, sem a intuição do ponto exato, ninguém chega ao paladar de dona Flor.
Coisas de farmácia soube o autor pelos drs. Alberto Schmidt e Paulo Paternostro, ambos gentilíssimos, e aqui lhes agradece a ajuda cordial.
Agradece também ao maestro Carlos Veiga e à jovem musicista Ieda Machado. A ele pelas explicações sobre músicas e instrumentos e sobre a orquestra de amadores onde brilha seu pai ao violino, a ela por lhe ter, com graça e paciência, posto em intimidade com o fagote, preparando o autor para os aplaudidos solos do boticário Teodoro, cujos méritos de fagotista serão constatados no decorrer da história.
Ainda quer o autor agradecer a dona Edna Leal de Melo, diretora da Escola de Culinária Sabor e Arte, sita no número 5 do antigo Areal de Baixo, em Salvador, a autorização que, a rogo de dona Norma (a do romance ou a verdadeira, quem é que sabe?) lhe concedeu para dar à escola de dona Flor o mesmo saboroso nome da sua, tão conceituada – o nome e o renome. Ficou na ocasião sabendo o romancista ser primo segundo da mestra dos quitutes, provando-se assim como a vida é mais surpreendente do que qualquer romance em seus acasos e azares, sal da existência. Por fim agradece (em transe) ao poeta e magno guerreiro, inventor e navegante, astrofísico, eletrônico e vidente, ao pintor Cardoso e Silva, capitão do astral, piloto do mistério, amigo milenar: sem preconceitos, ele assessorou o materialismo do romancista no onírico e mediúnico universo, nos espaços siderais. Juntos foram, o autor e o múltiplo Cardoso, aos mundos conhecidos e desconhecidos; só em Marte estiveram umas quatro vezes.
Como se vê, não lhe bastando a própria experiência, recorreu o autor à erudição e gentileza de seus amigos, mestres em artes e milagres, para que dona Flor pudesse viver sua pequena vida nesta cidade mágica da Bahia, de onde se data este romance, escrito nos anos de 65 e 66. Entre as chuvas do inverno e a doce brisa do verão, respeitando-se os preceitos e as quizilas de Oxóssi e de Xangô.
O romancista
Bilhete recente de dona Flor ao romancista
Caro amigo Jorge Amado,
o bolo de puba que eu faço não tem receita, a bem dizer. Tomei explicação com dona Alda, mulher de seu Renato do museu, e aprendi fazendo, quebrando a cabeça até encontrar o ponto. (Não foi amando que aprendi a amar, não foi vivendo que aprendi a viver?)
Vinte bolinhos de massa puba ou mais, conforme o tamanho que se quiser. Aconselho dona Zélia a fazer grande de uma vez, pois de bolo de puba todos gostam e pedem mais. Até eles dois, tão diferentes, só nisso combinando: doidos por bolo de puba ou carimã. Por outra coisa também? Me deixe em paz, seu Jorge, não me arrelie nem fale nisso. Açúcar, sal, queijo ralado, manteiga, leite de coco, o fino e o grosso, dos dois se necessita. (Me diga o senhor, que escreve nas gazetas: por que se há de precisar sempre de dois amores, por que um só não basta ao coração da gente?) As quantidades, ao gosto da pessoa, cada um tem seu paladar, prefere mais doce ou mais salgado, não é mesmo? A mistura bem ralinha. Forno quente.
Esperando ter lhe atendido, seu Jorge, aqui está a receita que nem receita é, apenas um recado. Prove o bolo que vai junto, se gostar mande dizer. Como vão todos os seus? Aqui em casa, todos bem. Compramos mais uma cota da farmácia, tomamos casa para o veraneio em Itaparica, é muito chique. O mais, que o senhor sabe, naquilo mesmo, não tem conserto quem é torto. Minhas madrugadas, nem lhe conto, seria falta de respeito. Mas de fato e lei quem acende a barra do dia por cima do mar é esta sua servidora, Florípedes Paiva Madureira ou dona Flor dos Guimarães.
( bilhete recente de dona Flor ao romancista )
Esotérica e comovente HISTÓRIA VIVIDA por DONA FLOR, emérita professora de arte culinária, e seus dois maridos – o primeiro, vadinho de apelido; de nome dr. Teodoro Madureira, e farmacêutico, o segundo ou a espantosa batalha entre o espírito e a matéria
Narrada por Jorge Amado escriba público estabelecido no bairro do rio vermelho, na cidade do salvador da bahia de todos os santos, ñas vizinhanças do largo de santana, onde habita iemanjá, senhora das águas.
MCMLXVI
Para Zélia, na tarde quieta de jardim e gatos, na cálida ternura deste abril; para João e Paloma, na manhã das primeiras leituras e dos primeiros sonhos.
Para minha comadre Norma dos Guimarães Sampaio, acidentalmente personagem, cuja presença honra e ilustra estas pálidas letras.
Para Beatriz Costa, de quem Vadinho foi sincero admirador.
Para Eneida, que teve o privilégio de ouvir o Hino Nacional executado ao fagote pelo dr. Teodoro Madureira.
Para Giovanna Bonino, que possui um óleo do pintor José de Dome – retrato de dona Flor adolescente, em ocres e amarelos.
Quatro amigas aqui juntas no afeto do autor.
Para Diaulas Riedel e Luiz Monteiro.
Deus é gordo
(revelação de Vadinho ao retornar)
A terra é azul
(confirmou Gagarin após o primeiro vôo espacial)
Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar
(dístico na parede da farmácia do dr. Teodoro Madureira)
Ai! (suspirou dona Flor)
Capítulo I
Da morte de Vadinho, primeiro marido de dona Flor, do velório e do enterro de seu corpo
(ao cavaquinho o sublime Carlinhos Mascarenhas)
Escola de culinária sabor e arte Quando e o que servir em velório de defunto
(resposta de dona Flor à pergunta de uma aluna)
Nem por ser desordenado dia de lamentação, tristeza e choro, nem por isso se deve deixar o velório correr em brancas nuvens. Se a dona da casa, em soluços e em desmaio, fora de si, envolta em dor, ou morta no caixão, se ela não puder, um parente ou pessoa amiga se encarregue então de atender à sentinela pois não se vai largar no alvéu, sem de comer nem de beber, os coitados noite adentro solidários; por vezes sendo inverno e frio.
Para que uma sentinela se anime e realmente honre o defunto presidi-la e lhe faça leve a primeira e confusa noite de sua morte, é necessário atendê-la com solicitude, cuidando-lhe da moral e do apetite.
Quando e o que oferecer?
Pois a noite inteira, do começo ao fim. Café é indispensável e o tempo todo, café pequeno, é claro. Café completo com leite, pão, manteiga, queijo, uns biscoitinhos, alguns bolos de aipim ou carimã, fatias de cuscuz com ovos estrelados, isso, só de manhã e para quem atravessou ali a madrugada. O melhor é manter a água na chaleira para não faltar café; sempre está chegando gente. Bolachas e biscoitos acompanham o cafezinho; uma vez por outra uma bandeja com salgados, podendo ser sanduíches de queijo, presunto, mortadela, coisas simples pois de consumição já basta e sobra com o defunto.
Se o velório, porém, for de categoria, dessas sentinelas de dinheiro a rodo, então se impõe uma xícara de chocolate à meia-noite, grosso e quente, ou uma canja gorda de galinha. E, para completar, bolinhos de bacalhau, frigideira, croquetes em geral, doces variados, frutas secas.
Para beber, em sendo casa rica, além do café, pode haver cerveja ou vinho, um copo e tão-somente para acompanhar a canja e a frigideira. Jamais champanha, não se considera de bom-tom.
Seja velório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boa cachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seu conforto não há velório que se preze. Velório sem cachaça é desconsideração ao falecido, significa indiferença e desamor.
1
Vadinho, o primeiro marido de dona Flor, morreu num domingo de Carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabeça onde o uísque correra farto às custas de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.
O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violões e flautas; ao cavaquinho, Carlinhos Mascarenhas, magricela celebrado nos castelos, ah!, um cavaquinho divino. Vestiam-se os rapazes de ciganos e as moças de camponesas húngaras ou romenas; jamais, porém, húngara ou romena ou mesmo búlgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas, cabrochas na flor da idade e da faceirice.
Vadinho, o mais animado de todos, ao ver o bloco despontar na esquina e ao ouvir o ponteado do esquelético Mascarenhas no cavaquinho sublime, adiantou-se rápido, postou-se ante a romena carregada na cor, uma grandona, monumental como uma igreja – e era a igreja de São Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejoula doirada – , anunciou:
– Lá vou eu, minha russa do Tororó…
O cigano Mascarenhas, também ele gastando vidrilhos e miçangas, festivas argolas penduradas nas orelhas, apurou no cavaquinho, as flautas e os violões gemeram, Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pela boca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora.
Os amigos ainda pensaram tratar-se de cachaça, não os uísques do fazendeiro: não seriam aquelas quatro ou cinco doses capazes de possuir bebedor da classe de Vadinho; porém toda a cachaça acumulada desde a véspera ao meio-dia quando oficialmente inauguraram o Carnaval no Bar Triunfo, na praça Municipal, subindo toda ela de uma vez e derrubando-o adormecido. Mas a mulata grandona não se deixou enganar: enfermeira de profissão estava acostumada com a morte, freqüentava-a diariamente no hospital. Não, porém, tão íntima a ponto de dar-lhe umbigadas, de pinicar-lhe o olho, de sambar com ela. Curvou-se sobre Vadinho, colocou-lhe a mão no pescoço, estremeceu, sentindo um frio no ventre e na espinha:
– Tá morto, meu Deus!
Outros tocaram também o corpo do moço, tomaram-lhe do pulso, suspenderam-lhe a cabeça de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar do coração. Nada obtiveram, era sem jeito. Vadinho desertara para sempre do Carnaval da Bahia.
2
Foi um rebuliço no bloco e na rua, um corre-corre pelas redondezas, um deus-nos-acuda a sacudir os carnavalescos – e ainda por cima a escandalosa Anete, professorinha romântica e histérica, aproveitou a boa oportunidade para um chilique, com pequenos gritos agudos e ameaças de desmaio. Toda aquela representação em honra do dengoso Carlinhos Mascarenhas, por quem suspirava a melindrosa de faniquito fácil – dizendo-se ela própria ultra-sensível, arrepiando-se como uma gata quando ele dedilhava o cavaquinho. Cavaquinho agora silencioso, pendendo inútil das mãos do artista, como se Vadinho houvesse levado consigo para o outro mundo seus derradeiros acordes.
Veio gente correndo de todos os lados, logo a notícia circulou pelas imediações, chegou a São Pedro, à avenida Sete, ao Campo Grande, arrebanhando curiosos. Em torno ao cadáver reunia-se uma pequena multidão a acotovelar-se em comentários. Um médico residente no Sodré foi requisitado e um guarda de trânsito sacou de um apito e nele soprava sem parar como a advertir a cidade inteira, a todo o Carnaval, do fim de Vadinho.
“Pois se é Vadinho, coitadinho dele!”, constatou um careta, com sua máscara de meia, perdida a animação. Todos reconheciam o morto, era largamente popular, com sua alegria esfuziante, seu bigodinho recortado, sua altivez de malandro, benquisto sobretudo nos lugares onde se bebia, jogava, e farreava; e ali, tão perto de sua residência, não havia quem não o identificasse.
Outro mascarado, este vestido de aniagem e coberto com uma cabeçorra de urso, varou o cerrado grupo, conseguiu aproximar-se e ver. Arrancou a máscara deixando exposta uma cara aflita, de bigodes caídos e crânio careca e murmurou:
– Vadinho, meu irmãozinho, que foi que te fizeram?
“Que foi que deu nele, de que morreu?”, perguntavam-se uns aos outros, e havia quem respondesse: “Foi cachaça”, numa explicação por demais fácil para tão inesperada morte. Uma velha curvada parou também, deu sua olhadela, constatou:
– Tão moderno ainda, por que morrer tão moço?
Perguntas e respostas cruzavam-se, enquanto o médico colocava o ouvido sobre o peito de Vadinho, numa constatação final e inútil.
“Estava sambando, numa animação retada, e sem avisar nada a ninguém caiu de lado já todo cheio da morte” – explicou um dos quatro amigos, curado por completo da cachaça, de súbito sóbrio e comovido, meio sem jeito nas roupas femininas de baiana, as faces vermelhas de carmim, fundas olheiras negras, traçadas com cortiça queimada, sob os olhos.
O fato de estarem fantasiados de baiana não deve levar a maliciar-se sobre os cinco rapazes, todos eles de macheza comprovada. Vestiam-se de baiana para melhor brincar, por farsa e molecagem, e não por tendência ao efeminado, a suspeitas esquisitices. Não havia xibungo entre eles, benza Deus. Vadinho, inclusive, amarrara, sob a anágua branca e engomada, enorme raiz de mandioca e, a cada passo, suspendia as saias e exibia o troféu descomunal e pornográfico, fazendo as mulheres esconderem nas mãos o rosto e o riso, com maliciosa vergonha. Agora a raiz pendia abandonada sobre a coxa descoberta e não fazia ninguém rir. Um dos amigos veio e a desatou da cintura de Vadinho. Mas nem assim o defunto ficou decente e recatado, era um morto de Carnaval e não exibia sequer sangue de bala ou de facada a escorrer-lhe do peito, capaz de resgatar seu ar de mascarado.
Dona Flor, precedida, é claro, por dona Norma a dar ordens e a abrir caminho, chegou quase ao mesmo tempo que a polícia. Quando despontou na esquina, apoiada nos braços solidários das comadres, todos adivinharam a viúva, pois vinha suspirando e gemendo, sem tentar controlar os soluços, num pranto desfeito. Ao demais, trajava o robe caseiro e bastante usado com que cuidava do asseio do lar, calçava chinelas cara-de-gato e ainda estava despenteada. Mesmo assim era bonita, agradável de ver-se: pequena e rechonchuda, de uma gordura sem banhas, a cor bronzeada de cabo-verde, os lisos cabelos tão negros a ponto de parecerem azulados, olhos de requebro e os lábios grossos um tanto abertos sobre os dentes alvos. Apetitosa, como costumava classificá-la o próprio Vadinho em seus dias de ternura, raros talvez porém inesquecíveis.
Quem sabe, devido às atividades culinárias da esposa, nesses idílios Vadinho dizia-lhe “Meu manuê de milho verde, meu acarajé cheiroso, minha franguinha gorda”, e tais comparações gastronômicas davam justa idéia de certo encanto sensual e caseiro de dona Flor a esconder-se sob uma natureza tranqüila e dócil. Vadinho conhecia-lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela ânsia controlada de tímida, aquele recatado desejo fazendo-se violência e mesmo incontinência ao libertar-se na cama. Quando Vadinho estava de veia, não existia ninguém mais encantador e nenhuma mulher sabia resistir-lhe. Dona Flor jamais conseguira recusar-se a seu fascínio nem mesmo se a tanto se dispunha cheia de indignação e de raiva recentes. Pois, em repetidas ocasiões, chegara a odiá-lo e a arrenegar o dia em que unira sua sorte à do boêmio.
Mas andando agoniada, ao encontro da intempestiva morte de Vadinho, dona Flor ia zonza, vazia de pensamentos, de nada se recordava, nem dos momentos de densa ternura, menos ainda dos dias cruéis, de angústia e solidão, como se ao expirar ficasse o marido despojado de todos os defeitos ou como se não os houvesse possuído em “sua breve passagem por este vale de lágrimas”.
“Foi breve sua passagem por esse vale de lágrimas”, pronunciou o respeitável professor Epaminondas Souza Pinto, afetado e afobado, tentando cumprimentar a viúva, dar-lhe os pêsames, antes mesmo dela chegar junto ao corpo do marido. Dona Gisa, também professora e até certo ponto também respeitável, conteve o açodamento do colega e conteve o riso. Se em verdade fora breve a passagem de Vadinho pela vida – vinha de completar trinta e um anos – , para ele, dona Gisa bem o sabia, não fora o mundo vale de lágrimas e, sim, palco de farsas, engodos, embustes e pecados. Alguns deles aflitos e confusos, sem dúvida, submetendo seu coração a árduas provas, a agonias e sobressaltos: dívidas a pagar, promissórias a descontar, avalistas a convencer, compromissos assumidos, prazos improrrogáveis, protestos e cartórios, bancos e agiotas, caras amarradas, amigos esquivando-se, sem falar nos sofrimentos físicos e morais de dona Flor. Porque, considerava dona Gisa em seu português arrevesado – era vagamente norte-americana, naturalizara-se e se sentia brasileira mas o diabo da língua, ah!, não conseguia dominá-la – , se houvera lágrimas na breve passagem de Vadinho pela vida, elas tinham sido choradas por dona Flor e foram muitas, davam de sobra para o casal.
Diante de tão súbita morte, dona Gisa não pensava em Vadinho senão com saudade: era-lhe simpático, apesar de tudo; possuía um lado gentil e cativante. Nem por isso, no entanto, nem por ele encontrar-se ali, no largo Dois de Julho, morto, estendido na rua, vestido de baiana, iria ela de repente santificá-lo, torcer a realidade, inventar outro Vadinho feito de um só pedaço. Assim explicou a dona Norma, sua vizinha e íntima, mas não obteve da parceira o esperado apoio. Dona Norma muitas vezes dissera as últimas a Vadinho, brigava com ele, pregava-lhe sermões monumentais, chegara um dia a ameaçá-lo com a polícia. Naquela hora derradeira e aflita, porém, não desejava comentar as predominantes e desagradáveis facetas do finado, queria apenas gabar seus lados bons, sua gentileza natural, sua solidariedade sempre pronta a manifestar-se, sua lealdade para com os amigos, sua indiscutível generosidade (sobretudo se a praticava com o dinheiro alheio), sua irresponsável e infinita alegria de viver. Aliás, tão ocupada em acompanhar e socorrer dona Flor, nem tinha ouvidos para dona Gisa com sua dura verdade. Dona Gisa era assim: a verdade acima de tudo, por vezes a ponto de fazê-la parecer áspera e inflexível; talvez numa atitude de defesa contra sua boa-fé, pois era crédula ao absurdo e confiava em todo mundo. Não, não relembrava os malfeitos de Vadinho para criticá-lo ou condená-lo, gostava dele e com freqüência perdiam-se os dois em longas prosas, dona Gisa interessada em apreender a psicologia do submundo onde Vadinho se movimentava, ele a contar-lhe casos e a espiar-lhe no decote do vestido o nascer dos seios pujantes e sardentos. Talvez dona Gisa o entendesse melhor que dona Norma, mas, ao contrário da outra, não lhe descontava sequer um defeito, não ia mentir só porque ele morrera. Nem a si própria dona Gisa mentia, a não ser quando isso se fazia indispensável. E não era o caso, evidentemente.
Dona Flor atravessava o povo no rastro de dona Norma a abrir caminho com os cotovelos e com sua extensa popularidade:
– Vai, arreda minha gente, deixa a pobre passar…
Lá estava Vadinho no chão de paralelepípedos, a boca sorrindo, todo branco e loiro, todo cheio de paz e de inocência. Dona Flor ficou um instante parada, a contemplá-lo como se demorasse a reconhecer o marido ou talvez, mais provavelmente, a aceitar o fato, agora indiscutível, de sua morte.
Mas foi só um instante. Com um berro arrancado do fundo das entranhas, atirou-se sobre Vadinho, agarrou-se ao corpo imóvel, a beijar-lhe os cabelos, o rosto pintado de carmim, os olhos abertos, o atrevido bigode, a boca morta, para sempre morta.

