Kitabı oxu: «Amor Crioulo vida argentina»
Abel Acácio de Almeida Botelho
Amor Crioulo vida argentina

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066407834
Índice de conteúdo
DO MESMO AUTOR
Amor crioulo
AMOR CRIOULO
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
DO MESMO AUTOR
Índice de conteúdo
| I | — | O Barão de Lavos, romance, 4.ª edição, 1 vol. br. |
| II | — | O Livro de Alda, romance, 1 vol. br. |
| III | — | Amanhã, romance do proletariado, 2.ª edição, 1 vol. br. |
| IV | — | Fatal dilema, romance, 2.ª edição, 1 vol. br. |
| V | — | Próspero Fortuna, romance, 2.ª edição, 1 vol. br. |
Sem remédio..., romance, 1 vol. br. Os Lázaros, romance, 2.ª edição, 1 vol. br. Mulheres da Beira, contos, 1 vol. enc. Amor crioulo, 2.ª edição, novela.
ABEL BOTELHO
Amor crioulo
Índice de conteúdo
(vida argentina)
novela
Ahi està, si, magnifica, opulenta, La codiciada tierra...
Guido y Spano.
segunda edição

PORTO
LIVRARIA CHARDRON
de LÉLO & IRMÃO, L.da—editores rua das carmelitas, 144 Livraria Aillaud e Bertrand, Lisboa-Paris 1921
A propriedade literária e artística está garantida em todos os países que aderiram à convenção de Berne—(Em Portugal, pela lei de 18 de Março de 1911. No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Janeiro de 1912.)
propriedade absoluta dos editores
Porto—CompanhiaNacional Tipográfica
AO DOUTOR
BRITO CAMACHO
AMOR CRIOULO
Índice de conteúdo
I
Índice de conteúdo
Naquela tarde mormacenta de fevereiro, João da Silveira embarcára em Lisboa, no Almería, com róta à America do Sul. Considerava-se um sem-pátria, agora, na sua bôa e amorável terra, sôbre cujo manso e carinhoso seio não fumegavam senão escombros; terra perdida e maldita, pelo jacobinismo vermelho do 5 de Outubro abalada nos seus fundamentos e furtada criminosamente ao seu destino. Todo o ambiente tradicional em que havia sido criado, êste parasitário rebento do vélho regímen vira-o derruir de roda de si com estrondo. Crenças, privilégios, isenções, benesses e preferências, tôda essa contrafeita armadura de iniqùidade e obscurantismo que sustinha ainda de pé a combalida ficção monárquica, tudo rolára desfeito, num epilepsiado arranco, numa comoção formidável, enquanto invadia ferozmente o espaço em tôrno um caótico fumo de confusão e de treva... e a visão inquieta do futuro envôlta num tôrvo mistério, como um polvoréu de ruína.
Tudo lhe havia quitado descaroávelmente esta estúpida idéa da Rèpublica: os cincoenta mil reisitos que êle, mensalmente, ia ou mandava com tôda a pontualidade receber, a título dum amanuensado hipotético na Junta do Crédito Público; as bôas graças da sua apetecida noiva, a Laurita, filha dum acaudalado burguês e pelo pai abominávelmente educada, a qual agora, com o Afonso Costa no poleiro, já cantava tambêm de papo; e até,—o seu pensamento hipócrita rematava,—e até as nobres, as suavíssimas côres da bandeira de seus avós, êsse azul calmo e êsse branco ingénuo, símbolo irrefragável da alma nacional, ora via suplantadas por um vermelho de açougue e um verde de curral, duas tonalidades irreconciliáveis, duas côres ásperas, irritantes, heréticas, como punhais, como blasfémias.
Durante os primeiros meses da Rèpublica, João da Silveira, como tantos outros, conspirou. Aquecia-lhe a alma êste vago sebastianismo solapado no íntimo de todo o bom português, acicatava-lhe o desejo a gulosa lembrança daqueles magros cobres orçamentais que, somados ao activo do seu escasso património, lhe serviam a governar sofrivelmente a vida. Assim, na sua ferina hostilidade contra o novo regímen, concorriam simultâneos a alma e o estômago, uma predilecção ancestral e um instinto devorista. E foi certamente esta dualidade antinómica de inspirações que, embora visando ambas o mesmo fim, cardou a sua actuação de conspirador de todo o carácter excessivo. Porque êste cauto Silveira firmou várias adesões e compromissos, fez nutrida propaganda verbal entre os rústicos, prontificou-se a recrutar gente, enviou mesmo algum dinheiro; mas sem arriscar-se nunca pessoalmente no campo da luta militante. Após a frustrada incursão de Chaves, não quis mais. Os seus 40 anos previsores e calculistas haviam grado em grado esmoitado, na gafa estrutura moral dêste malogrado d'Artagnan, o espírito de aventura. Vendeu a sua reputada vinha do Pinhão, arrendou a linda quinta da Folgosa com o solar «de sete capelas», seu fidalgo berço natal e residência muito em conta quando em apuros de dinheiro; à noiva escreveu «que a sua dignidade, em briga com o seu amor, o forçava àquele exílio doloroso»; e aí o temos agora dobrado com indolência sôbre a amura do Almería em marcha, vergado o busto, as mãos pendentes ao abandôno, evitando olhar o manso deslise da cidade donde sentia que lhe vinha um frio vento de repulsa, com as pálpebras froixas seguindo, em baixo, o rasgar da prôa pela limosa torrente caudal do rio, e os lábios vorazes vagamente encrespados na voluptuosa antevisão do Desconhecido.
Primogénito dos três filhos dos Silveiras Lôbo, de Mosteirô, o pequeno João fôra criado com tôdas as mimadas preferências e tôda a jactanciosa despreocupação dos antigos morgados. Todos os perniciosos desvíos lhe havia consentido o dissolvente meio familiar e êste odioso prejuízo educativo, todos: desde o achincalho, o abandôno burlão dos mestres, até ao abuso feudal das raparigas. Daí que, resultando uma organização inadaptável ao trabalho e um carácter voluntarioso e cego, o Silveira havia consumido o melhor da sua vida ou bambochando em saborosas sensualidades, ou luzindo em bárbaras pimponices, porêm um mísero hóspede sempre da pura emoção, sempre refractário às reacções da alquimia ideal do sentimento. Alto, forte, moreno, com uns negros olhos dominadores e uma estrutura apolínea, entretanto no seu belo rosto varonil espatinava-se a tinta de vulgaridade que imprime às fisionomias de hoje a dureza, a ausência do sentir. Pronto sempre e álerte ao galanteio, à volúpia, à brutalidade, ao prazer, nunca até àquele momento se sentira capaz duma paixão que o arrancasse a si mesmo, que montasse o seu egoísmo e as suas ambições tacanhas, que lhe pusesse asas na vontade e lhe espiritualizasse o desejo. Nutria um tédio altaneiro pelos aspectos triviais da vida,—êste tédio que é o triste apanágio das almas sem vôo, dos corações vazios. Jàmais consentira intimidades e votava, pelo geral, aos homens um desdêm cortês, às coisas uma indiferença amável. Podia ser assim na medida do seu critério material, o mais feliz dos homens, de vida rolando e fluindo suavemente como um exercício de patinagem, se não tivera a furuncular-lhe, como uma fatalidade ancestral, a crôsta da alma empedernida, o culto ardoroso, despótico, incessante, bárbaro, da mulher. Era êste o flanco vulnerável do seu eu, o único ponto em brecha naquele carácter dominador e altivo. Abstenção feita da condição, da raça e da moral, o alarmante odor di femina, fôsse urbano ou rústico, fidalgo ou plebeu, negro, amarelo ou branco, amolecia-o. Posta em conflito com o perturbador mistério feminino, a sua melindrosa sensibilidade capitulava, cedendo a um vício de receptibidade extrema que se traduzia na falta absoluta de energia.
Nem por isso o nosso herói consentira nunca em descer aos atormentados abismos da paixão, ou se deixára enlear no labirinto vêsgo da loucura. Mal aflorava com o desdenhoso lábio o mel turvo do prazer, saltitando despreocupado dum amor a outro amor,—epidérmicos todos, breves, fugazes, como frutos apenas mordidos e logo deitados fóra. Era de ordinário a vulgaridade do instinto que o dirigia, arrastando-o não raro a scenas ridículas; mas já tambêm, uma que outra vez, a virtude suprema da emoção, transfigurando-o, o erguera a desgarradas alucinações de artista. Nesses altos, raros momentos de libertação êle sofrera, numa atónita inconsciência, o puro domínio da Beleza. E agora mesmo, nesta sua voluntária demanda da Solidão, neste atoado caminhar para o Infinito, sem o amparo duma doce mulherita ao lado, o Silveira sentia o coração árido e triste como o ardido leito duma torrente sem água... Tremeu um instante, como no terror mortal de ir transpôr o vácuo, e sacudiu-o um confrangido alvorôço, uma como que compaixão de si mesmo, que o fez aprumar-se, esperto, na amurada, erguendo os inquietos olhos ao espaço, por onde lhe parecera ouvir bater um esparrôdo incerto de asas, e depois, com as pálpebras húmidas num ensopamento de ternura, querendo reter o perfil indeciso da cidade que lhe fugia, na magoada luz do crepúsculo, envôlta em lívidas musselinas de mistério.
Para onde ia êle? que ignorados destinos o aguardavam lá longe, nesse novo grande mundo, para êle um enigma, e onde tudo era colossal,—o progresso e a barbárie, a miséria e a riqueza?... Interrogações que naturalmente lhe acudiam e vinham, freqùentes, cocegar-lhe a inculta mas viva inteligência. Vagamente sentia que o homem que viaja aumenta sempre e a cada momento enriquece a sua bagagem impressionista interior, a qual, bago a bago, se vai então enceleirando, como um precioso tesouro sentimental, no arcão das íntimas recordações, das lembranças carinhosas. Cada povo, cada ambiente, cada país, cada raça deixam aí a sua marca indelével, e essas pitorescas estratificações são outras tantas parcelas novas que veem somar-se à história da nossa vida, despertando-nos cordas inéditas no sentir ou alargando a latitude moral da experiência. Não eram estas coisas postas bem a claro nem sentidas nítidamente pela insuficiência mental de João da Silveira; nítidamente, contudo, êle sabia,—isto sim!—ser a América do Sul terra «de lindas mulheres»; e o relâmpago desta promessa acirrante fazia-lhe o passo leve, encrespava-lhe a medula e acendia-lhe o desejo. Depois, havia ainda que ver os seus sócios de viagem, havia que observar e indagar quem, quanta e que qualidade de gente vinha ali a bordo com êle. Sem que soubesse explicar-se bem porquê, tomava-o êste antecipado encanto dos conhecimentos adquiridos em viagem, breves contactos de almas volitando ligeiras entre os dois infinitos do céo e do mar, qualquer coisa de adorávelmente vago, de efémero e profundo ao mesmo tempo. São como que brisas do sentimento: se não prendem o coração tonificam a alma.
Os primeiros dois dias de viagem, té à Madeira, foram maus. Tempestade constante. Aquele primeiro mormaço ameaçador engrossára e fechára té disparar na trágica violência dum temporal desfeito. A chuva, a cerração, o mar revôlto e o sudoeste rijo, soprando contrário, atrasavam o barco e com êle jogavam perdidamente, sacudindo o transatlântico em rijas convulsões que reduziam a arrogância industrial do seu poderoso arcaboiço a proporções irrisórias. Nada estava seguro, pairava-se indeciso na comoção e na treva. De quando em quando, varria de lés a lés a embarcação uma ráfaga mais intensa, e tudo então a bordo dançava, estalava, tiritava e gemia, no estrangulamento brutal da garra do Desconhecido. Grupos descalços de marinheiros, trotando rápidos, faziam, aqui, ali, a sua aparição fantástica, cerrando escotilhas, aprontando escaleres, correndo presto a manobra. E agora, a intervalos, na opacidade da noite como tinta, acima do ranger do cavername do monstro e do rugir cavo das águas, por sôbre tôda essa brava orquestração da Morte roncava e erguia-se alarmante o grosso apitar da máquina em desespêro.
E era como se não houvesse viv'alma ali dentro. A ninguêm era permitido estacionar nos salões, no bar ou nas cobertas; mas de horas antes que perante a ameaçadora fúria do vendaval, poucos se sentiam em segurança, e daí que uns pelo enjôo, outros pelo terror, outros por méra prudência, tudo, na timorata demanda do seu beliche, fôra sucessivamente desertando. João da Silveira, tomado dum indefinível mal-estar, com a cabeça como chumbo, descera tambêm ao seu camarote, que era situado num dos extremos do barco, formando esquina, junto à prôa. Tinha uma ventanilha sôbre o mar e outra sôbre aquele ângulo avançado da coberta, descobrindo assim um trecho dessa renovação iníqua das galés, essa enorme grilheta ambulante, onde, sob um miserável tôldo, à intempérie, ao abandôno, no mais absoluto desamparo, na mais sórdida promiscuidade, num baralhamento ignóbil de idades, de sexos e de raças, rolando ao áspero sabor da tormenta, como lastro, como calhaus, como lôdo, como viva espuma, seguiam, empilhados a monte, os passageiros de 3.ª classe. Foi a primeira sorte de gente que, a bordo, se lhe antolhou ver mais de perto; tinha agora ali assim, ao alcance inevitável, próximo da atenção, misérias, tristezas, espantos, dores que até ao momento êle arredára sempre com dureza do seu coração, de ordinário avesso à piedade. Agora tinha que forçosamente senti-las, ouvia-lhes o singelo relato das suas penas e angústias, chegavam-lhe lamuriados protestos, tímidos gritos de rebelião, surdas frases doloridas; começava a interessá-lo o aspecto resignado, humilde, sofredor daquelas rôtas máscaras de agonia, vinha-lhe o fartum nauseabundo da comida que lhes serviam; e durante a sua primeira noite de mar, noite de pesadelo, noite de insónia, noite de incomportável pavor, em que a madorna do cansaço lhe era a cada momento posta em sobressalto pelo súbito martelar dos mais estranhos ruídos,—o ferrolhar brusco de cremalheiras, silvos raspantes de cordagens, choques brancos de metais, ringidos como rasgões, estalidos como pragas,—quem, neste poema de extermínio, dava ainda a nota mais sinistramente aguda, era essa atormentada frandulagem humana, quando, sôbre o convés encharcado rojados à mistura, os seus altos gemidos em súplica rasgavam ululantes o espaço, formando um concertante macabro com o alarído bárbaro da tormenta.
Quando o Almería conseguiu por fim fundear, frente à Madeira, a caligem persistente no céu, as grossas cordas de água e as vagas alterosas não permitiam fácil às pequenas embarcações acercarem-se do paquete, e furtavam arreliativamente à contemplação do Silveira a maravilha habitual dêsse scenário paradisíaco,—o amoroso encanto da luz, a aragem perfumada do ambiente, a graça ingénua das construções, o azul translúcido das águas, a esmeraldina frescura, o contôrno sensual daquele monte atrevido de colinas salpicadas de claras harmonias, o deslumbramento sem par e a euritmía incomparável dêsse atrevido anfiteatro pagão, único no mundo, apenas agora entrevisto pelos claros farpados na neblina, como através um entremeio de renda. Entretanto, bôjo acima da pequena cidade flutuante, os vários decks começavam a animar-se; de tôda a parte surdiam lindos rostitos timoratos, cautelosos bustos, ou enérgicos perfís, duras e arrogantes linhas masculinas, incrédulos ainda, ávidos, curiosos, abertos numa cantante expressão de alívio ou movidos numa alegre inquirição de interêsse; miravam-se solícitos, acercavam-se efusivos e palreiros, formando vivos grupos de acaso, intromiscando-se, reconhecendo-se, beijando-se; no salão aparatoso da 1.ª classe, todo em boiseries e estofos, os compassos da orquestra espraiavam-se em molhadas ressonâncias; no extremo oposto, pela grossa atmosfera heteroclita do bar, as rôlhas do Champagne saltavam, preludiando estúrdiamente o distanciar do perigo. Mas o Silveira, de fito sempre ao largo, não cessava de considerar o deslumbramento panorâmico da ilha; e então viu como de roda do grande barco, arfante ainda e a escorrer, sôbre a juba crespa e revôlta do mar, dezenas de lanchas bailavam doidamente, em riscos de, num choque mais violento, se estilhaçarem contra o colosso, na impossibilidade duma aproximação tranqùila. E notou que vinham atulhadas de emigrantes, outros tantos míseros foragidos como aqueles seus tristes vizinhos de bordo, uns centos mais de desgraçados que iam ser pasto da voragem insaciável dessas regiões intérminas onde fulgura o mito precário da riqueza; protéico enxurro humano, encarnação polimorfa da desgraça na demanda hipotética da fortuna. Eram carne votada à gleba, vítimas forçadas da iniqùidade económica, a quem nem por isso o duro mercantilismo reconhecia a importância do seu valor, como utilidade social. Eram lágrimas que vão trocar-se em pérolas, vidas heróicas que vão fundir-se em oiro, e que, não obstante, são tidas por nada por aqueles mesmos para quem o seu descraziante esfôrço é tudo. Eram almas tratadas como coisas, e que ali em baixo esperavam transidas, no mar em cólera, sob a chuva, que os içassem como fardos miúdos, como valores mercantís, como bagatelas, como bugiarías, como sucata, por uma corda. A operação era primitiva: atados em pequenos molhos por um grosso cabo, sem escolha, não importa como nem por onde, lá vão subindo em cachos, escorrendo água, atoadamente, morosamente,—as mães com os filhitos a dôrso, chorando, agitando no espaço as mãos como vermes; os vélhos pendendo resignados na frouxidão da impotência; os moços ganhando distância em arrancadas simiescas, e todos numa ansiada alternância movendo os olhos pávidos entre a promissora segurança do navio, ao alto, e em baixo a fúria glauca do abismo.
Passada, porêm, a Madeira, o tempo amainára, e agora, enquanto a dupla hélice do Almería fazia o seu arroteio manso de espuma, pela imensidade movediça do oceano o espelhamento límpido do céu prolongava-se, águas adentro, em opalinas suavidades, em claridades duma transparência infinita. Como conseqùência, a bordo restabelecia-se a tranqùilidade e pelas diferentes cobertas a mancha buliçosa e a sonora chalra dos viajeiros alastravam, cruzavam-se, demandavam-se e cresciam numa algarada cantante de alegria. Á hora de comer, já noite, João da Silveira baixou, entre os primeiros, a ocupar o logar de acaso que lhe haviam indicado e êle aceitára dócilmente, no seu altaneiro desdêm por aquela camaradagem fortuita de gentes vindas não sabia bem donde e destinadas a desvanecer-se pronto, finda a viagem, no distanciamento vago da indiferença. Era o único logar que havia ainda vago, numa pequena mesa para cinco talheres. Sentou-se. Até àquele momento, mal havia tido ocasião de encarar os outros comensais, abotoados naturalmente na constrangida reserva em que se nos fecha de ordinário a expressão, à visinhança de estranhos; porêm, agora começava a vê-los sob um novo aspecto, voltava cada um aos seus gestos habituais, mutuavam-se olhares de confiante inquirição, saùdavam-se efusivos, seguros, contentes. Fizera-os comunicativos a simultânea vibração do perigo. Á direita tinha o Silveira um curioso espanhol, abundante, palreiro, grosso tipo de homem roçando pelos 50 anos, calvo, vermelhaço, grandes dentes ralos nos grossos lábios gretados e rôxos, a barba grisalha curta e mal cuidada. Vestia com vulgaridade, e na lapela usada do smoking ostentava a roseta de Isabel a Católica, sofrívelmente suja. Á esquerda ia um italiano, já entrado em anos tambêm, ponderado, gordote, a papugem flácida das olheiras denunciando um grande viveur, a pele rosada e fina passada de cosméticos, um ar importante, as mãos muito cuidadas. Seguia depois um joven chileno, irrequieto, pomposo, farta cabeleira revôlta pastichando a indumenta cerebral dum génio, um colarinho mole inverosímil, os olhos negros e ardentes como carbúnculos, os dedos como que modelando incansavelmente no espaço abstrusas, incompreendidas formas, O quarto comensal era um puro gentleman, de finas maneiras, olhar inteligente e doce, um riço buço incipiente sôbre a lisa cútis morena penujando, e uma linha geral atraente, correcta, comedida.
—Rijo temporal, hein?—comentava com vivacidade, sacudindo a cabeça, o espanhol, quando o Silveira tomou logar à mesa.
—Foi de respeito!—acentou pronto o chileno.
—Não acha?—tornou o primeiro interpelante, adiantando com intimativa o busto para o italiano, que se limitou a baixar a cabeça num tácito assentimento.
O joven brasileirito julgou oportuno corrigir:
—Foi forte, sim... ah! mas não se compara com as borrascas da Biscaia ou da Mancha.
Ao que, num abundôso gesto de desaprovação, o espanhol, agitando o guardanapo:
—Não, isso lá... O meu caro marinheiro, bem sei que é homem da profissão... desculpará, mas não estamos de acôrdo. Então, eu não sei?—E em tom convincente para o grupo:—Olhem que foi um passo... um passo de ponersele à uno los dientes de vara y média!
—Mas, parece que não houve desastres a bordo?—aventurou quáse maquinalmente o Silveira.
E logo o outro, tranquilizador, dogmático:
—Ah! não senhor. Nada! Nem desperfectos nem doenças. É um grande barco êste. Acabo de o assegurar ao comandante, que deposita em mim tôda a confiança. Ah, lá isso...—E, num risinho envaidecido, atestou:—Amigos vélhos!
—Contudo, aquela pobre gente da 3.ª classe...
O soi-disant íntimo do comandante teve um desprezível encolher de ombros:
—Ah, sim, naturalmente... alguns resfrios. Mas eu já por lá andei. Que o comandante, já digo, para estas coisas não quére outro... Pois não há nada, não... Vão tomar musgo e leite. Una jugadita pasajera, no más.
O caso foi que a familiaridade banal desta aresta de diálogo determinou um começo de conciliação do Silveira com o ambiente. Êle passeava agora distraídamente os olhos pela trivialidade cosmopolita do recinto,—êsse vasto quadrilongo sussurrante e refulgente, todo em branco e oiro, com os seus colunelos tarracos, os metais scintilantes das vigías dos flancos, o tilintído límpido dos cristais e loiças, e,—constatava com orgulho,—as lusas caravelas simbólicas pinturiladas com arrogância nos luxuosos vitrais do teto. Interessava-o o ambiente e atraíam-no as figuras. E com os seus eventuais companheiros de comida, agora, numa saborida mutuação de impressões, ia travando gradualmente conhecimento.—O espanhol, dr. Contreras, era médico, pelos modos: um pobre diabo espalhafatoso e inofensivo... quando não exercia a profissão, e em quem a arrogância dispersiva da figura buscava caridosamente iludir a inércia tacanha do intelecto. Parece que o seu govêrno, para se descartar dum importuno e juntamente evitar ao país o aumento na cifra da mortalidade, o comissionára in perpetuum para seguir estudando as condições de sanidade a bordo dos grandes transatlânticos. Um pretexto inocente e a missão mais a carácter para êste pobre Esculápio à rebours, cuja educação profissional cristalizára na terapêutica obnóxia dos purgantes e das sangrias. Norberto Mackenna, o joven chileno, era um pintor cubista que ao seu país tornava, após 4 anos de regalona vida em Paris, sectário enragé de Picasso e grande devorador de azeitonas. O moço brasileiro era o tenente da marinha Euclides Pereira, que ia matrimoniar-se a S. Paulo, de regresso tambêm duma viagem oficial de estudo. O italiano, finalmente, êsse dizia-se marquês e da mais alta estirpe. Descendia dos Colonna di Mafiori, e em lances sucessivos de azar desbaratára ao jôgo o melhor da sua fortuna. Esta maldita obsessão desfolhára e deixára totalmente a nu, de prosápia e de oiro, o seu frondoso e arcaico talo genealógico, abatido agora burguêsmente ao mercenário ofício de balcão. Porque o marquês ia a Buenos-Aires negociar em alfombras. E dizia estas displicentes coisas numa resignada bonomia, com clara singeleza, com altivez, quáse com brio, mirando as unhas; e imobilizava-se em atitudes de dignidade distraída ante a natural incidência da atenção alheia.
Com o brasileiro seguiu o Silveira, no ascensor, ao salão da 1.ª classe, pronto irmanados os dois nesta instintiva aproximação em que os prendiam identidades seculares de língua e de raça. Em cima, o recinto estava pleno da mais variada gente, e havia o confiante abandôno familiar dos estômagos contentes. Ás curiosas, inquirições do Silveira mal podia o tenente Euclides, tam hóspede ali como êle, cabalmente responder, limitando-se quáse a informá-lo sôbre o que sabia das famílias suas compatriotas. E é que estas não só abundavam ali, como tambêm, com a sua vivacidade despretenciosa e a sua bonachona loqùacidade, davam a nota dominante. Norte-americanos, e ingleses—êles e elas,—mal avançavam, um instante, pelas portas laterais, as cabeças arrogantes e logo partiam, por um momento desviados na sua desportiva tarefa de fazer indefinidamente o circuìto do barco, em largas e sólidas passadas. Havia chilridos, cantos, vôos, jogos inocentes de crianças; implicativos snobs que continuavam a imperturbável leitura trazida, sem intervalo, do comedor, forrados agora na apática moleza dum fauteuil, cruzando as pernas; e ao lado duma aparatosa francesa, de cabelo duvidosamente loiro e traje não menos equívoco, um derrancado vélho sonoleava.
Mas o Silveira, que se dirigia a Buenos-Aires, buscava de preferência exemplares argentinos; queria verificar ali, em documentos vivos, flagrantes, se lhes assentava bem essa fama de galhardia, de distinção, de urbanidade e opulência, da beleza soberana nas mulheres e de enfatuado estiramiento nos homens, que fazia do nome argentino o giro dominador pelo mundo.
—De argentinos, aqui a bordo...—informou, circunvagando em tôrno a vista, o Euclides, hesitante,—não é esta a época... Não dou conta senão duma família.
E apontava-lhe, em cauteloso grupo à parte, num dos tôpos do salão, um homem grosso e grisalho, todo de negro, a face totalmente escanhoada, com uma senhora idosa, vestida de negro tambêm, muitos anéis e colar de pérolas, sentada em meio das duas filhas. Poisavam singelamente, sem estudo, sem afectação, o ar abstracto, numa atitude natural de abandôno tranqùilo. As duas senhoritas principalmente parecia quererem delir-se numa suave atmosfera de simplicidade e renúncia que era a antítese formal de todo o propósito de exibição galante: contudo havia na sua linha geral, sobretudo duma delas, um não sei quê de espiritual selecção, de fino, de subtil, de espontâneamente belo e vagamente alado, que começava por fixar com agrado a atenção e gradualmente nos trazia à alma um superior encanto.
Seguia interessadamente o Silveira, por entre as volutas quiméricas do fumo do charuto, o exame desta esquiva e singular figura, quando, todo sorridente e afável, se aproximou dêle o marquês: «que perdoasse, se acaso o vinha molestar... mas queria apresentar-lhe um compatriota assaz distinto, fidalgo tambêm, como êle... não tanto... e como êle arruìnado». Amávelmente o Silveira acedeu, e daí a instantes sentia o efusivo apêrto de mão do conde Améglio di Paoli, espécie de emérito charlatão internacional, vivo, matreiro, na larga face a inalterável palidez dos cínicos, farta cabeleira negra, a mirada penetrante e fugaz, os gestos abundantes. «Duros golpes da fortuna,—dizia,—o haviam constrangido a demandar a América para ver se conseguia colocar aí meia dúzia das melhores telas da sua esplêndida galeria. Telas dos séculos XV a XVIII. Ricos pedaços da sua alma! Um sacrifício enorme... Não tivéra a coragem de o consumar na Europa, onde o extraordinário valor das suas colecções era aliás bem conhecido». Exprimia-se com abundância teatral de efeito, num atropêlo de frases mortificadas exteriorisando como que o pejo da sua precária situação; e tudo era desatar-se em atenções e lisonjas perante êsse «grande aristocrata português» em que a sua cabotina codícia farejava erradamente uma vítima. Luzia no smoking uma roseta vermelha e branca. Porêm, o Silveira achava-o plebeu, mórmente posto em confronto com o divino perfil, de Madona, da irlandesa que se lhe sentava ao lado. Era sua mulher. Num dado momento, a querer captar a confiança do Silveira, apresentou-a; depois, sempre nas suas prolixas aclarações e deferências, ia atropelando: «que levava aí assim... havia de ver! um pequeno mostruário de obras tôdas de mestres, que eram puras maravilhas. Vendê-las-ia mesmo perdendo, que remédio!... E que, em Itália, êle era assim um como que avaliador oficial de objectos de arte, pois fôra o inventor dum engenhoso processo de constatar a autenticidade dum quadro por meio da microfotografia. O único infalível! Não sabia?... Era um método ignorado, exclusivo seu, porêm a um tam nobre senhor,—batendo-lhe amigávelmente no ombro, epilogava,—não teria dúvida nenhuma em o fazer comparte do segrêdo».
O Silveira escutava-o numa indiferença cortês, distraídamente; enquanto o melhor da sua atenção se fundia com deslumbrada ternura na figura adorável da irlandesa, que lhe agradava enormemente, com o seu ar repousado e cândido, a linha puríssima das feições, o arranjo ático do cabelo castanho, o busto sóbriamente redondo, o gesto singelo e nobre. Daí que, nos breves claros de repouso que lhe consentia a chalra interesseira do marido, êle fez perante a diva o ensaio de algumas amabilidades discretas... deplorávelmente perdidas,—logo êle desolado verificou,—porque esta deliciosa filha de Erin não falava nem compreendia senão a língua do seu país natal, de que o nosso desapontado galã não percebia patavina.
Quando, pelas 11 horas, desceu à cabine, o Silveira trazia vivo e palpitante no cérebro o baralhamento policromo e difuso de tôdas aquelas figuras, tôda essa efémera kermesse de notas de acaso, na aparência desconexas e de cujas cruas tintas, bruscas oposições e antitéticas formas, reçumava contudo um encanto especial, uma clara e singular harmonia. Enquanto se despia, êle notou que ali assim fóra, à sua ilharga, no triângulo aberto da prôa, havia tambêm alegria. Ali, a noite era quási total. Uma única pêra eléctrica, com reflector, esclarecia apenas o limitado espaço ao seu alcance, e a maior porção do recinto ficava sob o domínio impreciso de vagas sombras dançando sôbre montes de andrajos. No aplastamento próprio desta hora de repouso e sob o mesmo invariável tôldo negro, os grupos, sórdidos, compactos, alargavam-se e faziam monte sôbre rolos de cordas, sôbre as bagagens, sôbre mantas vélhas, troixas, sacos, sôbre esteiras; e a escassez da luz erguia em deformações de pesadelo, emprestava monstruosas ampliações de horror a êsse caprichoso arranjo de cansaço e de miséria. Mas havia ainda muita gente desperta; mesmo encostados à cabine do Silveira, dois rústicos italianos faziam pausadamente o interesseiro cálculo de quanto poderiam vir a forrar, em cada mês, dos seus hipotéticos salários; um francês, mais longe, trauteava couplets canalhas; e tôda a sorte de vozes, de idiomas, de murmúrios, gritos, expansões, risadas que eram lamentos, suspiros que eram bocejos, tôda a gama fruste da animalidade, tôdas as brutas explosões do instinto, se entrechocavam e faziam côro nesta exótica Babel flutuante, grosso concêrto bárbaro que afogava o marulho manso das águas e que ainda o sôpro galhofeiro dum harmonium vinha cobrir, a espaços, com a sua toada chillona.
Acomodado já o Silveira entre os lençóis, pareceu-lhe distinguir o quebrado dedilhar duma guitarra, acompanhado duns acordes de violão... Apurou o ouvido, não havia dúvida... aí voltam êles, trinaditos, leves, como quem está afinando, êsses sons tam seus familiares, tam seus queridos. E agora são já os prelúdios dengues do fado, um fado choradinho e autêntico como só a alma portuguesa, enamorada e fatalista, é capaz de bem sentir. Daí a momentos, em bom português, alguêm cantou:
Das barbas do Afonso Costa Mandei fazer um pincel Para escovar as botinas Do querido D. Manuel.
O Silveira saltou no leito, radiante, e ergueu meio busto, à espera de mais, ávidamente. Já não se sentia tam só. A ironia gaiata daquela trova fê-lo estremecer de vindicadora alegria. Esta descoberta inesperada espancava-lhe o sono, aclarava-lhe a alma. Oh, a justiceira voz do povo! O desdobramento do mote devia ser impagável. Vamos a ver que mais viría...
O ignorado trovador cantou ainda outras duas quadras, porêm já sem interêsse para o Silveira, porque gemiam lamechas trivialidades de amor. No entanto, o grato alvorôço daquela primeira impressão ficou. «Não era só êle...» comprazia-se em repetir no íntimo, vivamente sensibilizado por êste traço imprevisto de afinidade moral com gentes de condição tam abaixo da sua. Tinha ali assim, tam perto, analogias de sentir e fêveras de ódio como as dêle, e a súbita descoberta desta conformidade palpitante trazia-lhe confôrto. Inimigos tambêm do novo regímen... dando-lhe costas, maldizendo-o como êle. E mais eram do povo, pudéra!... do povo, sim... êsse pobre e sempre ingénuo povo português, de cuja hipócrita adulação os rèpublicanos haviam feito plataforma essencial de propaganda, e que depois do triunfo estavam agora burlando iníquamente. Ah, mas êles lhes diriam! Brava gente! E tinha-os ali seus visinhos... «Havia que conhecê-los, vê-los de perto. Bem...»
E adormeceu contente.
II
Índice de conteúdo
O dia seguinte amanheceu para o Silveira outra claridade. Esta inefável sensação de calma, de liberdade, de plena posse de si mesmo, que as viagens em nós despertam, fazia-lhe querer a vida e sacudia-o num alviçareiro estímulo interior. De tudo quanto o rodeava crescia para êle o interêsse. Livre, pelo momento, de preocupações sôbre o futuro e assediado por todo um mundo de sons, aspectos, côres, idéas e coisas novas, todo o seu encanto de viver se resumia na hora presente, e a alma dilatava-se-lhe num voluptuoso apaziguamento sem têrmo, como essa lisa toalha imensa de mar, sem perfídias e sem cóleras.
A corneta chamara para o primeiro almôço. Fóra, pelo espaço, havia sol, havia luz, e o tépido acariciamento da brisa casava-se numa euritmía perfeita com o manso ronronar das águas. Neste plácido ambiente de espuma e oiro, as silhuetas saltavam nítidas, as tonalidades ganhavam valor, sentia-se mais amigo e mais próximo, mais potente, mais cálido, mais fecundo, o divino alento criador da Natureza: e, perante o olhar extasiado do Silveira, todo o bigarrado movimento de bordo se esmaltava de tintas de relêvo, de cânticos pagãos, de brados genésicos, de inusitados brilhos, e os seus mesmos companheiros de embarque lhe pareciam os habitantes dum outro planeta, onde as paixões fôssem mais fortes e a vida mais consciente e mais intensa. Saíndo, na direcção do refeitório, para o longo corredor, veio-lhe a viva lembrança dos seus ignorados, dos seus humildes correligionários da passada noite, e ia a demandá-los, com piedosa atenção, através a gradeada porta da masmorra que ali assim perto os mantinha a distância, quando uma outra solicitação mais empolgadora e mais instante lhe rompeu da alma em alvorôço: a imagem fugidía e alada da joven argentina, entrevista tambêm na véspera, no salão. Mas, por azar,—debalde o Silveira esperou!—nem ela nem ninguêm da família baixou a comer.
Não havia então remédio senão confiar do acaso o providencial milagre de a ver aparecer.—Mas quando? mas aonde?...—E aí sóbe êle de golpe no ascensor e vem atravessar o salão e faz o giro afanoso do barco, mirando em tôdas as direcções, perquirindo os bizarros grupos distribuidos preguiceiramente ao longo das cobertas, no alinhamento marcial das cadeiras de repouso. Absorto nesta preocupação essencial, o resto marcava zero para êle, nada mais via ou pretendia, de nada queria saber. Acotovelava insensível os arremangados homens do sport, cortava indiferente as interesseiras chalras de grossos burgueses, vestidos de fustão branco; por duas vezes houve que furtar-se, um pouco bruscamente, às louvaminheiras investidas do dr. Contreras, em termos de passar por malcriado; e por um triz não préga de bôrco sôbre o convés com uma barafustante paqueta baíana, magra, pequenina, ictérica, que comandava a poder de gritos e truanescas evoluções uma chusma de pequerruchos.
Por fim, essa adorável argentina ei-la que aí vem agora avançando... Vem só. Era alta, esguia, frágil e avançava leve e aérea, como um reflexo de si mesma, lembrando no porte e na frescura um dêsses longos, finos e erectos fustes da palmeira imperial, com o vértice perenalmente verde. Seguia breve e alheadamente, com uma simplicidade não isenta de nobreza, e foi sentar-se junto da mãe, uma repousada e aparatosa senhora que nos parecia forte da robustez peculiar que circunda certas mulheres e que denota honestidade. E de hora em diante o Silveira, feliz por aquela segurança de tranqùila contemplação que emfim conseguia, já não abandonava mais o alvo querido do seu cuidado e atento ia e vinha, e desdobrava arteiras pausas, disfarces e rodeios, para poder, sem que fôsse notado, entregar-se a esta viva e desbordante análise que a sua alma se comprazia em prolongar, porque ela respondia à excitação misteriosa que dentro de nós faz chispar o maravilhoso reflexo interior da simpatia.—Era curiosa, enternecedoramente curiosa, com efeito, esta linda desconhecida. Aparentava 20 anos, não mais. Farto cabelo castanho, mousseux, sem brilho, descendo em bandós singelos a juntar-se sôbre a nuca; pequenina testa espiritual, em triângulo; os olhos castanhos tambêm, de leve desenho mongol, as sobrancelhas erguidas e lançadas sôltamente; o nariz projectado direito e um pouco longo, toda a face alongada por igual, perfil grego, traçado num como que afinamento idealista e ingénuo; o queixo pontuado finamente, os dentes brancos, muito iguais, e a bôca breve, os lábios finos mas expressivos, resumindo o que porventura havia de vida e de paixão nesta criatura reservada e tímida. Nenhuma espécie de atavios: nem espartilho, nem jóias. Apenas na base do pescoço, ático e longo como um mármore da Jónia, um colar de corais napolitanos. As suas mãos, de dedos brancos e finos como longos estames, e mais claras que o tom mate do rosto, eram o prolongamento lógico de tôda a figura, lembrando os tenros rebentos duma árvore de sonho. E, quando sorria, os olhos perdiam-se-lhe no vago, enquanto na filigrana húmida dos lábios perpassava um frémito breve de emoção.
Na alma ardente do Silveira rompêra agora o desejo veemente, irreprimível, de mutuar impressões com a linda desconhecida.—Mas como consegui-lo, como chegar adonde a ela?...—considerava com afinco, instalando-se-lhe na frente, numa atitude de estudado abandôno, os cotovelos sôbre a amurada.—Tinha que haver uma apresentação, manobra táctica reconhecidamente difícil para o investimento cortês duma família como aquela, que êle não via comunicar-se com ninguêm, que ninguêm saùdava e que a ninguêm retinha, mantida mui deliberadamente no seu desprendido círculo de isolamento e indiferença. Assim, uma aproximação em condições favoráveis, segundo as regras do bom-tom, não era empresa vulgar.—O Silveira, de lábio pregado, reconhecia-o, e esta descoroçoadora evidência, longe de o desalentar, mais o enardecia.—Havia que buscar...—Numa fêvera crescente de impaciência, planizava estratagemas, ideava hipóteses, amontoava projectos, que, mal esboçados ainda, todos logo fracassavam. Então, em alternâncias de dulcíssima pausa, como um bálsamo, o áspero aguilhão do seu cuidado amolecia na contemplação deliciada e atenta dêsse baluarte suave de isenção e de virtude. Mas logo, mais despótica, mais tenaz, a sua amoruda obsessão voltava, por cada um destes venusinos exames trazida a um enternecido exacerbamento que mais lhe acicatava a vontade e lhe acendia o desejo.
Um momento veio então em que o Silveira notou que, um pouco mais ao largo, à ilharga e um tanto recuado das duas argentinas, um joven glabro e calvo, com o engerido busto dobrado sôbre uma destas pequeninas mesas portáteis de bordo, escrevia nervosamente. As garatujas do lápis seguiam numa carreira febril, dir-se-ia ao atropêlo cálido da improvisação, enchendo fôlhas sobre fôlhas sôltas, que a aba loira dum grande panamá protegia da aragem dispersiva. E, sempre no mesmo propósito exibitivo e grotesco, a intervalos o iluminado escriba parava na empolgante labuta e imobilizava-se, como que colhido em pausas de transcendente laboração interior, com os olhos vagos postos ao alto e o lápis erguido digitalmente sôbre o lábio sibilino. Depois, num ímpeto criador, um estremeção simiesco o sacudia, e, com um risinho envaidecido, êle recomeçava inflamadamente a escrever. Ora, aconteceu afigurar-se ao Silveira que, numa destas estases de espiritual concepção, o biltre encarára particularmente a adorável argentina, a criatura esfíngica do seu sonho... pareceu-lhe mesmo que cambiára com ela um qualquer familiar sinal de inteligência.—Talvez tivesse a sorte de a conhecer! Feliz até à insolência... Bem, mas então, nesse caso... havia que conhecê-lo a êle tambêm!—E forte nesta idéa, feliz por êste relâmpago de aproximação salvadora, o Silveira estudava agora com agrado e analisava mais de espaço a espaço aquele que presumivelmente ia ser o auspicioso traço iniciai à sua fortuna.—Era uma figura abortiva e grotesca, assim tortuoso, magrote, pequenino, com o seu bigodito loiro, raso à raíz dos lábios, com os seus olhos dum cobalto inexpressivo, com a cabeça tôda em tortumelos, romboidal, enorme, e, a partir do queixo para o coronal, aparada caricaturalmente em ponta, num dêsses estiramentos cucurbitáceos peculiares do Greco. E ainda o alongamento filiforme do pescoço sôbre a ladeira débil dos ombros mais acentuava o desliamento quebradiço e vacilante daquela estranha figura. Coisa curiosa: sôbre êste pescoço estriado, sôbre estas mãos nodosas, sôbre esta cabeça paradoxal que parecia recêm-saída dum cataclismo, não havia a epiderme rugosa e áspera que seria a condizer, antes se arredondava a macieza penujosa e clara duma pele de efébo, mate, adoçando os contornos, com transparências de aguarela e velaturas de arminho; a pele virginal e doce dum adolescente; a qual, entretanto, pelo mais irritante dos contrastes, passava súbito a uma rubefacção herpetizada e adusta no revestimento crassoso das desertas grimpas do cránio luzidío.
Vestia um jaquetão negro de lustrina, colete e calça de flanella créme, sapatos brancos, peúgas rôxas, a camisa mole ajourée, e a farta gravata de sêda negra caída e sôlta num desmanchado laço de artista. Um mixto de pedantismo e inconsciência, de garridice e desmazêlo. Propunha-se o Silveira abordá-lo, quando um pequeno incidente surgiu, a cortar-lhe o propósito e colocá-lo num passo difícil... Era o conde Améglio que passava, mais a mulher, e que apenas avistou o «grande fidalgo português e seu não menor amigo», logo de acercar-se-lhe, expansivo, sorridente, num afectuoso desbarato de gestos e mimadas atenções, pouco mesmo faltando para lhe acarinhar com a mão, familiarmente, o queixo. E assediava-o com perguntas, com propostas, ofertas, lembranças, solicitudes.—Que fazia ali assim? porque não vinha com êles?...—A adorável irlandesa, numa sublinha cativante, sorria tambêm. O Silveira tinha calafrios, colhido assim de improviso, de súbito posto à prova na duplicidade egoísta dos seus instintos. Gaguejava de embaraço, não acertava com uma posição, as palavras não lhe acudiam. Tomava-o uma espécie de embrutecedora raiva interior, ao ver-se assim entaliscado estúpidamente entre essas duas solicitações, qual delas mais viva e mais tenaz, do seu desejo. Ardia por fazer-se notar, por fazer-se admitir ao convívio da linda americana, cuja linha patrícia e esquiva tanto o intrigava; e muito lhe agradava por igual Mrs. Edith, cujas bôas graças não queria perder, mas junto da qual tambêm não lhe convinha fazer demasiado ostentiva parada de atenções, neste momento. Defendia-se por monossílabos, numa grande instabilidade de movimentos, còrando como um colegial e mirando de escape, numa idiota solicitação de escusa, a bela argentina, que nem dava por êle. Por fim, ante a insistência pegajosa dos dois, cortou a dificuldade prometendo que breve iria, a estibórdo, ter com êles; e tornou a còrar mais forte quando o conde, já longe e ao dobrar a esquina do deck, se voltou num gesto afável, acenando-lhe convidativo com a cabeça.
Daí a instantes, liberto do arreliativo pesadelo, acercou-se dissimulado do incansável rabiscador, o qual, no momento justo, arredára, num desvio brusco do antebraço, a grande aba do panamá protector de sôbre as tiritas de papel, que logo desparramaram ao acaso, como arvéloas, pelo espaço. E logo tambêm o Silveira, agarrando o pretexto, acudiu solícito, baixando-se e ajudando o desconcertado escritor a recolhê-las.
—Un millón de gracias, caballero.
—De nada...—obtemperou, amável, o Silveira; e com discreta atenção:—São produções inéditas?
—Apuntes del natural,—tornou singelamente o outro, sempre em espanhol,—esquissos, impressos, simples notas do momento, fugazes como êste instante de vida em que voamos.
—Deve ser interessante.
—Não vale nada...—derivou o iluminado anotador, num gesto desprendido.—Um modo inofensivo de matar o tempo.
Convidou o Silveira a sentar-se e acercavase-lhe, solícito, insinuante.—Sem dúvida era português? Pelo modo, pelo acento, via-se logo... Muito folgava! Êle era andaluz. Um pouco periodista e um pouco homem de negócios.—Impingia-lhe o seu cartão de visita, impresso em tipo gasto e vulgar, modestamente.—Ramón Alvarez, tout court.—Mas, sôbre a caligrafia tôrpe dos caracteres, um empenachado elmo luzia heráldicamente, mais tôrpe ainda.—Êle era duma família da mais antiga linhagem, família de cronistas, de poetas, de galans... e tivera sempre um grande fraco pelas letras. Tinha dois livros em preparação, uma novela e um poema épo-histórico, e tambêm um drama prestes a ser pôsto em scena pela Maria Guerreiro.—Oh, os intelectuais!—exclamou o incompreendido escriba, desarticulando o busto, rolando os olhos em êxtase e, num bravo arranque de entusiasmo, atirando a enormidade paradoxal da cabeça sôbre a nuca.—São a flor por excelência, a suprema exaltação da terra!—Infelizmente, êle vivia... viviam os dois, que lhe perdoasse se tomava a liberdade de o dizer... mas lá como cá... viviam numa peste de países de analfabetos, onde por via de regra os pensadores, os génios, os grandes eleitos do talento e do saber, morriam de fome. De sorte que, assim, havia que ser-se ao mesmo tempo um pouco prático.—Que remédio!—com enfado soberano rematou. E iludia o seu prosaico mistér de caixeiro viajante num vago eufemismo, dizendo «que vinha à Argentina estudar o país».
—E conhece argentinos?—logo o Silveira indagou com calor.
D. Ramón meneou negativamente a cabeça.
—Alguma das famílias que vão aqui a bordo?
—Tampouco.
—Nem aquelas senhoras, ali assim, à nossa direita?
Essas menos do que nenhuma. Alvarez não conhecia nem tinha ganas de conhecer.—Muito cheias de prosápia. No le gustaba.—E franzia o nariz com displicência. Na irritação do desapontamento, o Silveira é que teve ganas de lhe bater... Entretanto, na sua abundosa loquela, o Alvarez insistia que nunca podéra aturar gente pretenciosa. Ele queria-se com gente alegre, comunicativa, franca, sencilla, gente à moda do seu país, da sua terra... com pessoas que nos põem à vontade, no fraternal empenho de nos fazerem sentir que são nossos iguais, em vez de parecer que nos querem impôr uma humilhante adoração.—Olhe! como aquilo.
E apontava, de olhar incendido, uma linda morenita, mui viva e coquetona, tôda de branco, que justo lhes passava na frente. Ia ladeada por dois outros tenros amorinhos, e as três realizavam o mais delicioso grupo etrusco, assim caminhando rítmicamente, sôltas e leves, as cintas enlaçadas, os bustos dançando, o cabelo ao vento.
—Què monada! Aquilo, sim... Veja! Veja!
Dizendo, o desengonçado Ramón exagerava a sua abominável aparência fetal, ao erguer-se, todo dobrado, sôbre a mesa, para corresponder às provocadoras saùdações que, passando, a rapariga lhe fazia com a cabeça, com os olhos, com o leque, com as mãos, batendo forte o tacão, bolinando os quadrís lascivos. E quando a perturbadora visão se desvaneceu, êle, familiarmente:
—Prometi-lhe um soneto e neste momento mesmo o terminava. Quere ver?
Procurou, com a pupila febril, nas tiras sôltas, e erguendo uma por fim entre os dedos trémulos, leu então, enfáticamente, com cabotina audácia, como sua, o puro decalque duma das líricas mais inferiores de Manuel Palácio. Contára antecipadamente o seu instinto com a iletrada ignorância do Silveira, o qual, tomando naturalmente por original a cadenciada toadilha, em marretadas de admiração vislumbrava agora nas insondáveis cavernas cerebrais do Alvarez tubérculos autênticos de génio. Porêm já êste, num lume de vaidade, colhendo presto a papelada:
—O meu amigo perdoará... mas ocasiões destas não se podem perder. La muchacha con seguridad espera-me. Está impaciente... Hay que aprovechar, por Dios!
E, arredando brusco a mesa, partiu de abalada, pequenino e torcido sob a aba descomunal do panamá, como um chaparro anémico.
Desapontado, o Silveira quedou-se uns segundos sentado ainda e imóvel, na sua atitude de irremediável lamecha, o busto abatido, as mãos pendendo tristes entre os joelhos. Depois, tendo enviado um derradeiro olhar de desconfortado apetite sôbre a espalda esquiva da linda argentina inabordável, ergueu-se e partiu tambêm, sacudidamente. Mal tinha dado a volta para estibordo, quando viu que a êle se dirigia o seu afável comensal, Euclides Pereira, ladeado por dois graves e idosos senhores, que deviam ser ingleses, a avaliar pelos cómicos desmanes em que êles buscavam amávelmente contrafazer a sua imperturbável e habitual tesura. O joven brasileiro apresentou:—The Right Honorable the Earl of Horrowby—The Captain John Stayton. Este segundo tartamudeou umas curtas frases guturais, que o Silveira não percebeu, lardeadas de profusas reverências; e o tenente Euclides explicou então que vinham pedir-lhe a honra de consentir em fazer parte do grande Sports and Entertainment Committee, e ao mesmo tempo convidá-lo a assistir à reùnião preparatória, que devia realizar-se, aquele dia mesmo, no salão de 1.ª—the Social Hall,—ás 9 p. m. Erguido e dobrado numa atitude de nobre aquiescência, o Silveira agradeceu, no íntimo envaidecido. E como que sentindo-se crescer, importante, alegre, seguiu com afectada indolência direito ao conde Améglio, que de longe observára e compreendera a scena, e por isso o acolhia agora entre atencioso e mordaz, num risinho de conformidade patusca.—Êle tinha adivinhado... muito bem! muito bem! Fizeram o que deviam fazer, era de esperar.—E todo em aprovativas mesuras:
—Sim senhor! muitos parabens.
—Very, praiseworthy,—completou Mrs. Edith, com o seu cândido sorriso. Mas, encolhendo, modesto, os ombros, o Silveira:
—Uma simples amabilidade. Nem eu esperava. Que valor pode isto ter?
—Ah, pois então não tem! Êles bem sabem a quem escolhem...—acentuou, lisonjeiro, o conde, com ar convicto; e maliceiramente rematou:—Olhe, a mim não me convidaram êles.
—Mas, é que o devem convidar!—corrigiu com amável intimativa o Silveira; e, num generoso assomo de importância:—Se o conde quere, logo à noite lembro o seu nome.
—Oh, não, não... por amor de Deus! Essas honras, aqui, não trazem senão incómodos e maçadas. Para o efeito, sou da plebe, prefiro que me considerem um anónimo, um zero. Não, não... Muito obrigado!
Trocaram depois uma meia dúzia de frases banais sôbre a monotonia da vida de bordo, a extensão fatigante da viagem, a vulgaridade chocante dos passageiros, a má comida, o calor, o belo tempo que fazia. O conde tinha no regaço um livro copioso,—L'Argentine telle qu'elle est, de Paulo Walle,—cuja leitura recomendou ao seu amigo; mas a êste interessava-o mais a silhueta ateniense, o abandôno repousado e lânguido da irlandesa,—sôbre a armchair, frente à luz, estendida longamente, com os pèsitos brancos traçados fóra, no ar, deixando a divina modelação da perna a descoberto bastante acima do artêlho, com uma cadência suave e tranqùila na ondulação rítmica do seio, os braços em ansa, as mãos inertes em concha sob a nuca, e os grandes olhos de veludo mirando vago, ao longe, reflectindo não sei que molhado encanto, da ardósia fluida das águas, e parecendo seguir o vôo dalguma quimérica visão na claridade material do espaço.
O toque para o lunch veio cortar brusco êste primeiro ensaio de flirt, com o qual a alma oblíqua do conde não parecia aliás preocupar-se... Em baixo, à mesa, a conversação arrastou-se monótona, cortada e dispersa, como se cada um daqueles cinco fortuìtos comensais trouxesse agora por distintas e opostas coisas dividida a atenção e solicitado o espírito. Apenas, com familiar insistência, se falou dos próximos festejos, sendo o Silveira e o tenente Euclides felicitados cordialmente por fazerem parte do grande Committee directivo; e tambêm o abstruso Mackenna se desatou num panegirismo entusiasta daquela aparatosa francesa cuja identificação moral e social trazia todos a bordo intrigados, graças à mirabolância equívoca das toilettes, e à suporífera mansidão e à consciência não menos letárgica do presumido marido.—Helena d'Ellery se chamava ela, já conseguira saber... mas, jurava! ainda havia de saber-lhe tambêm práticamente a biografia.—O flácido marquês di Mafiori teve um risinho enigmático, imperceptível; ao passo que, na sua libidinosa querença, o outro:
—É deliciosa! Tem o chic, o aperitivo acre do escândalo. Hay que gustarla!!
E na gulosa antecipação dêsse defeso prazer sonhado atacava furiosamente o pires das azeitonas.
A interminável sucessão da tarde arrastou-a o Silveira enfastiadamente, em grande parte pelo braço solícito do tenente Euclides, que não se cansava de o apresentar às numerosas famílias suas compatriotas. E assim andaram deambulando amávelmente de grupo para grupo, sem que o Silveira conseguisse dominar a impaciência e vencer o tédio. As jovens brasileiritas, algumas bem interessantes, com as suas meigas expansões e a sua vivacidade ingénua não logravam entretanto cativar-lhe o espírito, enleado teimosamente naquele obsessivo empenho de se aproximar da argentina; os homens, êsses sem maior atenção, mal trocadas as primeiras saùdações, logo reatavam o interesseiro diálogo interrompido, não falavam senão em cotações da borracha e do café, perseguiam miragens de fortunas fabulosas, desfiavam cálculos que davam vertigens, denunciavam burlas que pediam galés, antecipavam quebras iminentes, todos ávidamente engrenados no travamento egoista e brutal dos negócios, a que durante tôda a sua vida o Silveira, por temperamento e por educação, se mantivera sempre altivamente alheio. Nada disto o satisfazia, nada o interessava, nem por momentos o prendia sequer. Então, num dos seus vagos e atoados giros de bordo, atingiu o Silveira o têrmo da coberta, à prôa, mesmo sôbre o amontoamento heteroclito e sórdido dos seus vizinhos da cabine, em baixo, aquela pobre gente da 3.ª classe. No trecho luzidío e nu do convés que a projecção do grande tôldo gris deixava a descoberto, êle viu que vários bigarrados e mansos grupos subiam e desciam ao acaso, num constante vaivêm, pelo sujo rasgão duma espécie de negra fossa, a um canto, e vinham em cima amadornar-se, plácidos todos e delidos como um sol de outono, todos na mesma calma resignada e humilde, apagados, doces, tranqùilos. Os homens, pelo geral, em camisola e arremangados, a cabeça nua, alguns descalços, estremavam-se segundo as afinidades de raça, e fumavam, assobiavam, rilhavam fruta, falavam tímida, espaçadamente, como que narcotizados por aquele embalo monótono da vida que, durante dias e dias, havia de baloiçá-los entre a água e o céu. Muitos, num confiado abandôno animal, dormiam. As mulheres, acocoradas, remendavam-se, preparavam tisanas, amamentavam os filhitos de colo ou catavam os mais crescidos. Numa clareira de escasso prazer, ao centro, e de roda do mesmo incansável e folgazão harmonium, passava numa tropeada cantante um círculo folião, dançando,—cujas atitudes pagãs uma loira e delgada touriste ia esquissando a correr no seu carnet, deliciadamente. E o Silveira fazia a aproximação mental desta suave chusma humana, na sua conformidade evangélica, na sua inconsciência fatalista, na sua plácida singeleza e passiva sujeição ao destino, com os gestos duros, a pupila metalizada, a frase breve e a sôfrega ardência dos seus insatisfeitos companheiros de 1.ª... e achava aqueles mais felizes.
Tocava o sol o ocaso, e o Silveira como que via agora, de roda de si, a uma outra luz, os homens e as coisas, cujos contornos se debuxavam numa agonia de tôda a sua vida exterior, acendidos em tons violentos num esfumaçado fundo de tristeza. Encarou numa instintiva interrogação o céu e surpreendeu, no seu desdobramento esfusiante, êsse maravilhoso e deslumbrante scenário cuja amplidão magnificente tanto lhe haviam encarecido.—Era com efeito uma imensa, uma transcendente e apoteótica sarabanda de luz, que mais que aos olhos lhe falava à alma, e que em parte nenhuma como ali, em pleno oceano, podia abranger-se íntegra na sua avassaladora majestade, na sua incomparável beleza, tomando totalmente meio céu, descendo suavemente do frio azul mineral do zénite a um loiro cálido de paixão, para depois, à raíz do mar, inflamar-se em sanguíneas vigorosas, esbrasear-se em línguas de incêndio. Na difusão ofuscante desta auréola de sonho, as walkirias fantásticas de nuvens, encapeladas cêrca do horizonte, debruadas por aquela gama infinita de côres, facetadas nas mais atormentadas e imprevistas formas do relêvo, tinham movimento, tomavam volume, intenção, vida, alma, carácter, improvisavam grupos que eram símbolos, formavam cruas oposições, saltavam em rondas caprichosas; e por fim tôda essa manante claridade sideral despenhava-se, como um Niagara de oiro, macia, translúcida, impecável, sôbre a imensa alfombra rútila das águas. Aí, na linha molhada do horizonte, o mar era fogo líquido, e nesta enorme brasa, crespa e fluída, a granada quáse extinta do sol estrelava-se ainda para o alto num imenso leque de violeta e oiro, que a algodoada capela das nuvens contornava, e cujas últimas trepidações vinham, crepitantes e dispersas, morrer pelas silhuetas errantes, pelas escaiolas claras, pelas arestas vivas do navio arfando... ao passo que já, pelo diáfano e desbotado azul da metade oposta do céu, da penumbra vaga do oriente, o plácido véu da noite vinha subindo.—Era tôda uma revelação esta soberba e inimaginável orquestração aérea de aspectos, de formas e de tintas; convertia num absurdo a impassibilidade tradicional do céu, fazia-nos crêr na clássica sublimidade da vida olímpica dos deuses, dava-nos como que a sensação viva do Infinito.
Seguia o Silveira desta hora doce e imensa a magia incomparável, quando sentiu um toque familiar no ombro, que o fez estremecer. Era o pomposo Norberto Mackenna, que com um gesto alto e desdenhoso:
—Então, que faz aqui assim, tam só, meu caro?... Admirando o pôr do sol, não é verdade?
—É lindo!
—Ya lo creo.
—É maravilhoso!
Mas, num rebarbativo freio a êste entusiasmo ingénuo, o joven chileno:
—Sim, é bonito, é... mórmente para quem o contempla pela primeira vez. Mas não nos podemos ficar por aqui!—E ante a muda interrogação do Silveira, com infatuado ar, esclarecia:—Ora! Nas minhas primeiras viagens, fartei-me de fixar colisões de côres como estas; mas não passavam de cópias servís, hoje não lhes atribuo importância nenhuma.—Plantava-se com intimativo vigor diante do Silveira, que começava a imaginá-lo maluco.—Porque isto de pintura, meu caro amigo, tem que progredir, como tudo o mais; tem que radicalmente mudar de processos, entende-me?... Os valores éticos e estéticos actuais são uma lástima... adstritos como ainda andam à passividade idiota e servil de gastas formas milenárias. Temos que fazer mais do que ficar-nos a objectivar interminavelmente as vélhas concepções convencionais da beleza e do amor. Hay que poner patas arriba a tôdas essas fórmulas mesquinhas. Oh, seguramente Picasso, Boccioni, Metzinger, Matisse, estão na razão! Há que derribar por completo, que arrancar pela raíz tôda essa floresta vazia e pedante do Passado. Pois se nós temos de roda de nós, flagrante, inexplorada, imensa, uma nova maneira de criar e de sentir... Temos que renovar ao mesmo tempo o instrumento e a música.—E movendo desordenado a cabeça, os nervosos dedos arranhando inspiradamente o espaço, a grenha revôlta ao vento:—Há que fixar o movimento, a velocidade, a conquista do espaço, o delírio da carreira, a embriaguez do vôo, as palpitações do éter e as vibrações anímicas, todo êste travamento volátil e febril da vida, tôdas as grandes conquistas arrancadas últimamente pelo génio humano à Natureza inerte e hostil... Não lhe parece?
—Sim, acho que sim...—aventurou maquinalmente o Silveira, que o escutava indiferente, sem perceber nada, como quem ouve chover.
Entretanto, diante do seu olhar deslumbrado e absorto, e como um eterno protesto à vacuìdade insolente daquelas palavras, continuava a desenrolar-se a beleza perenal dessa agonia de luz dulcíssima, salpicando de brilhos fugazes a capela rasteira das nuvens, que como que se abriam agora em magnólias, hortênsias, lótos, orquídeas e outras flores maravilhosas, semelhando um imenso fogo de artifício imobilizado, no seu fulvo esplendor e no seu rasgo alado.
Breves horas depois, no Social Hall, a prefixada reùnião do Committee directivo de sports e festas decorreu serena e rápidamente. Para ganhar tempo e facilitar trabalho, o secretário leu um programa de diversões já préviamente elaborado, o qual foi aprovado sem discrepância. Procedendo-se em seguida à distribuìção das respectivas funções pelos membros do Committee, João da Silveira veio a saber, com verdadeiro regosijo, que não lhe competia mais do que o encargo de fazer entre os seus compatriotas de bordo a quête voluntária para as despesas.—E que não se aceitavam donativos superiores a uma libra.—Por outro lado, a tarefa era-lhe um tanto ou quanto fastidiosa. De portugueses, a bordo, o Silveira não se dava conta de mais que alguns, poucos, pequenos proprietários e comerciantes, seguramente republiqueiros... bastava vê-los. Não lhe era nada agradável tratar com essa ordem de gente. Mas, em suma, por uma vez e como eram poucos, a coisa resultava fácil, afinal. Era um alívio!
Daí a pouco, sôbre uma das mesitas do smoking-room, iniciava êle o seu trabalho, passando ao papel os nomes daqueles que já conhecia, quando súbito se lhe interpõe arreliativamente à luz a figura abundosa e afável do dr. Contreras.—Não sabia se vinha molestarlo...—Tinha um risinho solícito, de pretendente, ao explicar:—Êle estava cêrca, ali assim, vendo jogar, quando deu conta dêle.—E apontava uma mesa de brigde, em que eram parceiros o Mafiori, o Mackenna, um inglês engelhado e esguio como um arenque sêco, e aquele misterioso e derrancado acólito de M.me d'Ellery, a qual, complacente, se lhe sentava ao lado, de perna traçada e fumando, num à vontade petulante. O Contreras continuou:—Estava vendo jogar, por ver... Não que fôsse aficionado. Más bien le gustaba tratar com as pessoas de verdadeira distinção. Oh, sem favor nenhum! Por isso tomára aquele atrevimento.
E levemente incrédulo, dobrando-se para o Silveira, com o olhar astuto:
—Es usted republicano?
O Silveira teve um gesto solene de protesto. E servilmente o outro:
—Ora! via-se logo... Podia lá lêr por semelhante cartilha un caballero tam distinto! Eu, que sou eu, p'r'aqui um pobre come-meajas, e com republicanos tambêm nunca quis nada. No parto buenas migas con ellos. Gente sem modos, sem educação... Nem a rèpública, meu caro sr., é para nós.—Dogmáticamente confirmava, arregalando os olhos:—Veja o que ela durou em Espanha!—E, com dulcerosa expressão, batendo a espalda do Silveira:—Pois, meu caro amigo, faço votos para que êsse grande dia da restauração lhes venha breve.
O Silveira poisára a pena e erguera uns grandes olhos de esperança para o generoso interlocutor, seguro senhor agora da sua grata simpatia, e que com abandôno familiar, sentando-se:
—Diga-me, meu amigo... êlea rèpública portuguesa sempre suprimiu as condecorações?
—Suprimiu tudo!
—Es lástima...—comentou, de pálpebra murcha, o Contreras; e depois duma pausa, coçando a barba, tímidamente:—Eu muito gostava de ter uma condecoração portuguesa!
—Sim? Pois deixe estar, que quando a coisa volte...
—De seguro, promete?
—Alcanço-lhe uma... a Conceição, por exemplo. Palavra!
—Ah, que agradecido eu lhe ficarei!—lamuriou o Contreras, enternecido, de mãos erguidas.—En cambio tambêm prometo fazer-lhe un regalo, un regalo precioso...
Achegou-se e com afável intimativa, muito em segrêdo:—Dou-lhe uma das carabinas apreendidas aos monarquistas portugueses, de que me fez presente el alcalde de Vigo, grande amigo meu... É uma carabina autêntica de Toledo, como aquelas que os jornais disseram que o govêrno espanhol havia vendido para o Paraguay...—Aqui ria grossamente, mostrando a rala devastação dos dentes:—Para o Paraguay, hein... Não foi má broma essa!
E outra vez sério, e com um encarecimento hipócrita, premindo o pulso ao Silveira:
—Uma preciosidade, uma verdadeira peça de museu... Era do Paiva Couceiro.
III
Índice de conteúdo
Na manhã seguinte, ao lunch, já ao lado de cada talher, no comedor, havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado of games and sports para durante a viagem. A primeira sessão,—jogos sôbre a tolda,—realizar-se-ia já nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira havia visto, logo de manhã, um grande quadro negro posto a prumo no Social Hall, o qual era destinado à inscrição geral dos jogadores, e que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias exóticas, hieroglifando nomes bárbaros. Agora, no comedor, o Silveira demorava com particular agrado a atenção sôbre a beleza daquela composição tipográfica feita a bordo, e no íntimo rendia o seu mais admirativo preito à celeridade e à limpeza como tudo ali assim caminhava.
A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente Euclides o mirava com uma expressão singular, entre alviçareira e irónica, alegremente. E como a insistência maliciosa dêste prazenteiro olhar se prolongasse, levemente intrigado êle então aventurou:
—Como o nosso Euclides está hoje contente!
O brasileirito fez uma pausa de importância, e depois olhando-o fito, com um cocegante ar de mistério:
—Tenho uma grande novidade a dar-lhe!
—Coisa bôa?
—Bem agradável, creio, lhe deve ser...
—Homem, diga lá! desembuche,—comandou, já tambêm interessado, o Contreras dando um murro na mesa.
Porêm, numa suave negativa de cabeça, o tenente Euclides:
—Nada! O meu amigo perdoará... mas é assunto só p'r'os dois. Não pode ser...
O Silveira, razoávelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreção, levou a mão ao peito, fazendo luzir as unhas. Porêm, a tudo resistiu a alviçareira e enigmática expressão do brasileiro, que se manteve impenetrável.
Por fim, quando em cima, no salão, o Silveira, devorado de impaciência, voltou a interpelá-lo, o bom Euclides aclarou:
—Não sabe você?... Já sei quem é o nosso misterioso argentino!
—De-veras!?... Falou com êle?
—Sim! falei...
—E com as filhas?
—Tanto, não. Mas poderá você fazê-lo... Está aplanado o caminho.
—Então? então?...
E ante os olhos interrogativamente abertos e a bôca espectante do Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe então, por entre cautas miradas em tôrno, espaçadamente,—que se tratava, não dum argentino de nascença, mas dum vélho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, há trinta anos estabelecido no formoso país Del Plata, para onde viera, moço ainda, exercer a advocacía, e onde fôra cumulativamente jornalista e pedagogo, sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande proprietário no norte e homem de fortuna.
—Como diabo soube você tantas coisas?—exclamou, maravilhado, o Silveira, sacudindo a cabeça numa comoção de espanto.
—Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,—o Euclides aclarou singelamente.
—E que santo fez êsse milagre?
—Milagre nenhum... É que o homem é um grande filólogo, pelos modos; conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivação scientífica das línguas. Quere obter certas indicações prosódicas e sintáxicas sôbre o português. Uma madureza como outra qualquer.
E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sôbre brasas, o Silveira:
—E depois? e depois?...
Que, depois,—continuou, aprazivelmente irónico, o brasileiro,—depois, a pretexto de êle falar português, aquele celebrão, rompendo com a sua engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai então êle, para se descartar da estopada e simultâneamente fazer um serviço a um amigo, escusára-se, alegando a própria incompetência, e inculcára-o a êle, Silveira, como um chavão na matéria.
—O quê!?—bradou êste, num salto de pavor, mas no íntimo radiante.
—Assim mesmo!—confirmou jubilosamente o amigo.—A estas horas você é considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...—E levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:—Agora, veja lá como se porta. Olhe que eu disse que você era um grande professor.
—Quere não que a fez fresca!—lamuriou, atarantado, o Silveira, rascando a testa.—Indicações prosódicas, sintáxicas... sei lá o que isso é! Estou bem aviado!
—Ande, vamos!
Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salão, frente a uma mesa, sentado gravemente. No seu invariável traje negro, e gordote, rosado, o sulco devastador das múltiplas rugas cortando em fundas ranhuras a descaída oval do rosto totalmente escanhoado, com o seu ar didáctico e tranqùilo êle parecia desfiar coisas transcendentes a dois desconhecidos, igualmente vélhos, que num religioso êxtase o escutavam.
Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber urbanamente os recêm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximação feliz no seu primeiro apêrto de mão ao Silveira. E, depois de todos mútuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar doutoral, num francês correctíssimo:
—Eu estava expondo a êstes srs. a minha teoria sôbre a morfologia secular das línguas. É a química do pensamento. É uma coisa evidente, racional, matemática, infalível. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar a sua axiomática divulgação pelo mundo... As línguas não são mais do que puros agregados... atómicos, por assim dizer. Creiam nisto... É das relativas combinações e reacções dos elementos radicais e fonéticos dumas e outras que deriva a seriação fatal do seu parcelamento.
—Mas, como se explica então a formação caprichosa, arbitrária, de tantos idiomas e dialectos?—aventurou, com timidez, um dos vélhos ouvintes.
—Ora essa! São as migrações, são os embates dos povos, é a acção das latitudes, dos climas,—aclarou o vélho pedagogo com decisão, a fria pupila azul momentâneamente acesa.—Nada há aí de arbitrário. Tudo obedece ao jugo imutável de grandes leis de que ando perseguindo o segrêdo. São afinidades que se exteriorizam, são electrons étnicos que se expandem. E são êstes biológicos reagentes que lenta e fatalmente opéram o desdobramento das raízes primitivas em grupos progressivamente diferenciados, na tessitura incomovível dos quais se vão manifestando e impondo então modismos e qualidades peculiares, que lá residiam já no estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o celta e o latim, entre o mosárabe e o português...—E aqui, enviando uma terna olhada ao Silveira:—É sôbre o que eu tenho que pedir bastante à sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo.
O Silveira fez-se pálido e tartamudeou um vago assentimento.
Veio tirá-lo do embaraço uma cantante voz feminina, clara e virginal, que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francês, aventurou com meiguice:
—Poderias conceder-me um momento, papásinho?...—E logo, um pouco perturbada e dobrando-se, ao notar a assistência:—Ah, perdão... mas eu não queria desarranjá-los.
Perante a deslumbrante aparição, o Silveira pôs-se de salto em pé, aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em branco... Mas já o encadernado professor estava de pé tambêm e cortêsmente solicitava vénia para ausentar-se. Apresentou com simplicidade à filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe interpusera no caminho.—Era Iréne, a mais nova das duas... «A doutora da casa»,—sublinhou o pai com afável desvanecimento. E daí a instantes seguiam os três, fácilmente acamaradados, para a coberta de bombordo, onde o dr. Wimeyer, na sua experiência de vélho viajeiro e por ser êste o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a família. Aí estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de abandôno, a espôsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vélha, Dolores,—esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira, entre D. Catalina e Irene.—Que sorte!... nem de propósito...—E, trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o salão, a reatar a sua voluntária catequése interrompida.
O Silveira ficou então só e inteiro senhor do campo, na sua tam apetecida situação junto das três senhoras. Encareceu com lisonjeiro calor o seu inexprimível prazer de travar conhecimento com uma família tout-à-fait distinguée como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se logo... Na mais amável solicitude, buscava pela louvaminha à outrance insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingénuo, D. Catalina corroborava, explicava então,—que era argentina, aparentada ainda com os Alvear, uma das raras famílias de aristocracia autêntica que podiam contar-se no seu embrionário, no seu mesclado país de chacareiros sem passado e adventícios sem escrúpulos. Regressavam duma viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.—E, a propósito, iam preguiçosamente arrastando êsse mais ou menos sabido travamento de vagos comentários, de estribilhos banais, tôda a sorte de frases feitas, sôbre os encantos de Paris, as maravilhas da Suíça, as preciosas coisas da Itália. Neste terreno fácil de consabidas baboseiras, o tacanho Silveira, que tinha viajado algo e não era de todo alheio ao francês, acompanhava as três senhoras lindamente. Mas, à medida que o diálogo aquecia, o espírito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um critério seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por vezes imprevistos. Discreteava com elevação sôbre coisas da arte e do espírito. Em tôda a Itália, nada a cativára tanto como Florença.—Que ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente lançado e superiormente belo.
—É certo. Até as mulheres...—arriscou, com instintivo acêrto, o Silveira.
—É a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradição espiritual. Da sua arte divina a mesma Natureza é tributária. É o coração do mundo!—epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua tímida reserva habitual, singelamente:—Mas tambêm, a propósito de arte, deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rápido estudo da arte europeia, não há duvida. Oh, mas é uma arte demasiado sábia, uma arte tôda facturada e etiquetada de antemão, um curso forçado de savoir-faire em que os rasgos de génio são espontados como se castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a espontaneidade, que sómente o viço criador dos países novos poderá voltar a restituir-lhe.
—O quê! tu crês na possivel afirmação duma arte americana, ché?—acudiu a irmã de Irene, parando de lêr, num desdem incrédulo.
—Tanto como creio em Deus! É uma questão de tempo.
O Silveira prometeu-se interiormente consultar sôbre o caso o Mackenna. E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, côr, interêsse, e travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a presenciar o primeiro número dos jogos sportivos. E é de saber que entre os mais entusiastas e ligeiros aficionados passou a pequenina e desmanchada figura de Ramón Alvarez, o qual, ao ver assim de súbito o Silveira já mano a mano com as três sechoras, teve um saltinho de angurú e fechou num piscar de olhos patusco a parópsia do seu espanto.
No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas, falou-se na variedade, na magnificência e beleza da paisagem europeia, na doirada opulência da sua luz, nas carícias infinitas do mar, nas perspectivas majestosas da montanha. Mas tambêm aqui a longa e espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o braço, sempre na mesma toada modesta e simples:
—Aí está outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a deslumbramentos e pontos de vista inéditos, hão-de-me permitir que discorde; porêm tenho minhas restrições a fazer.—E com a expressão sincera e calma, sob o olhar atento da assistência:—Eu não sei... talvez seja por efeito de haver nascido num país horrivelmente chato e monótono, mas a verdade é que no meu conceito a Natureza, ao contrário dessa apregoada opulência, dessa mirabolante fecundidade e viva sucessão de aspectos que tôda a gente lhe atribui, é duma indigência manifesta de iniciativa e invenção, não consegue renovar mais que os mesmos invariáveis coups de théâtre e os mesmos cansados e gastos espectáculos, seja qual fôr a altitude ou o clima. Repete-se a cada passo.
D. Catalina, no íntimo desvanecida, julgou oportuno intervir:
—Lá volta esta minha filha às suas originalidades... Por mais que o pai a corrija...
—Mamita! original, eu?... quando exponho coisas que os outros podem observar por igual?
—Os outros, não!—objectou Dolores, com mal contido azedume:—Eu pelo menos encontrei, e creio que encontraria sempre, o contraste mais formal entre os nevoeiros sujos de Londres, por exemplo, as imaculadas neves alpinas e as escarpas sangrantes da Sicília.
Mas, na mesma dogmática singeleza, Irene, de mão estendida, fechando com o polegar o indicador e abatendo as pálpebras:
—Tudo a mesma coisa! No dia em que tu tenhas o coração destroçado, essa corôa alvíssima dos Alpes aparece-te suja como um trapo servido. O chamado esplendor do Mundo é tudo quanto há de mais convencional. Depende de nós... de nós exclusivamente. Êsse consagrado chavão do deslumbramento pagão das coisas não é, no fundo, mais que o espelho da nossa sensibilidade, o reflexo exterior dos nossos estados de alma.—A irmã e a mãe sorriam, com um ar incrédulo; e ela, persuasivamente:—É certo! Tal a sensibilidade no nosso íntimo braveja ou esplende, tal vemos de roda de nós a vida. São as mais das vezes as vibrações cantantes do nosso mundo interior que ao mundo exterior emprestam todo êsse decantado brilho objectivo. É um esplendor de empréstimo. Sem nós não valeria nada.
—Está bem, está bem...—comentou D. Catarina, prolongando um risinho irónico em que havia um mal reprimido brilho de vaidade.
De sua banda, o Silveira, de olhos muito abertos e não sabendo que contestar, limitava-se a assentir com vagos acenos de cabeça, idiotamente.
Assim, à medida que o diálogo ganhava interêsse, ia-o Irene esmaltando de notas originais, de impressões verídicas e frescas que ela extraía e desdobrava do íntimo, como um perfume que impregnasse o seu sangue, espontâneas, vivas, palpitantes, e que deixavam o Silveira imerso num atolondrado mutismo, por serem coisas impenetráveis à sua ignorância e inacessíveis ao seu critério. Entretanto, o seu temperamento sensual, agora, acobardava-se... sofria a influência transcendente e dominadora daquela nobre e espiritual figura. Irene inclinava-se de preferência para êle, naturalmente, e naturalmente ia desfiando os seus amáveis paradoxos, sempre com a mesma voz límpida e virginal, em frases breves como toques de pincel, vincadas pelo acento imperativo das inquietas mãos, incendidas no lume sideral das grandes pupilas sombrias. E era como se na espiritualização crescente das frases e dos conceitos a sua indumenta animal gradualmente se fundisse. Tôda a impressão de matéria desaparecia... os seus olhos eram reflexos de astros, os seus lábios eram tintas de emoção, os seus braços eram volutas de sonho; e um nimbo de harmonia dulcíssima emanava, como um fluído mágico, de todo o seu atenuado ser, simples e tranqùilo. Não obstante, junto dela o coração do Silveira, como se aspirasse um ramo de flores de aromas violentos, batia mais apressado.
Por fim, quando, passado algum tempo, as primeiras velaturas do crepúsculo começaram a abater sôbre o barco o seu véu de tristeza, D. Catalina ergueu-se, com as filhas, pedindo vénia para retirarem-se.—Aproximava-se a hora de comer.—Houve uma afectuosa saùdação de despedida,—para Irene a última,—e depois o Silveira, imóvel e em pé no mesmo logar à medida como ia vendo esta fina, longa e clara figura esfumar-se na luz fugacíssima da tarde e delir-se na distância, tinha a ilusão de que ela não era mais do que uma pura abstracção, imaterial, intangível, como êle se lembrava de ter uma vez lido de Pierrot,—que nascera da projecção de um raio de luar sôbre um muro branco...
Essa noite levou-a deliciadamente o Silveira, embalado na casta volúpia dum vago e alado sonho, erguido nas espírulas de oiro dum alheamento alto e inefável. A ablução espiritual daquele curto diálogo com Irene afinára-lhe o sentir, infiltrára-se nas mais nobres e puras radículas do seu ser, e como que alimpára por momentos a sua alma fruste das escórias brutais do instinto. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que o Almeria ralentára a marcha, e que lhe montava ao coração e lhe toldava o cérebro o que quer que fôsse de opressivo e cálido. Ganhava-o a depressiva molenta do aproximar dos trópicos. Pela ventanilha, mesmo da cama, olhou ao largo e viu que barrava cêrca o horizonte uma espécie de ciclópico muro negro. Era o arquipélago de Cabo-Verde,—recordou. Lentamente, com uma delidora quebreira nos músculos dormentes, reagiu, ergueu-se.—Em cima, na tolda, não havia sol, e a luz diluia-se em grisáceas e densas toalhas, dispersa como andava no peneiramento molhado da neblina, cortada como era por êsse formidável circuìto de montanhas áridas e a prumo, escalando sinistramente o espaço. Não se divisava em tôda esta imponente massa, de ruína e de sombra, uma nota clara, um cântico de luz, uma choupana, um rebanho, uma árvore, qualquer perdido oasis de frescura e de repouso. Era o repúdio formal da Natureza. Dentro dêste revôlto anfiteatro de maldição e de treva, o mar, fundo, plácido, dum tom uniforme de pêz com espelhamentos lívidos, parecia amortalhado, era como um lago dantesco estrangulado na convulsa paralização dum cataclismo. E tudo falava de desolação e de morte neste atormentado pórtico do Averno, nesta monstruosa cavalgata petrificada, paìsagem de pesadelo tôda em pontas ásperas e hostis, em escarpas que davam vertigens, em agulhas topetando o céu, em rampas escalavradas e adustas; terra de abominação onde a vida parára por completo... arestas sôbre arestas, abismos sob abismos... e cuja trágica insensibilidade o mar, com os seus mansos rolos, buscava em vão comover, mandando-lhe o acariciamento deslumbrante das suas franças de espuma.
Mal tinha o barco lançado ferro e já era simultâneamente invadido, a bombordo e a estibordo, por um duplo cordão de negros,—puros bronzes vivos,—ágeis, luzentes, hercúleos, a maior parte vestidos apenas dum pó ainda mais negro do que êles, e que trepavam lestos à amurada ou marinhavam pelas cordas como símeos, para deixar-se escorregar depois sôbre as várias cobertas, trejeiteando, garatujando, saltando e em risinhos duros, como de canibais, mostrando o impecável marfim dos dentes. Eram os carregadores de carvão que acudiam à faina. Porêm, seguidamente, da ensurdecedora algarada que subia do sem-número de pequeninas embarcações rodeando, em baixo, o vapor, um outro impúdico enxame de simiescos truões agora surdia, igualmente ágeis e negros, igualmente nus, mas êstes na maior parte ainda impúberes, limpos e de formas delgadas, desdobrando na sua exótica invasão adoráveis linhas de graça gentílica,—e todos na vibrante impaciência de disputar pelo mergulho a caça das moedas que de bordo os passageiros lhes atiravam, por divertir-se. Uns da casca frágil dos botes, outros pelas enxárcias e mastaréus do vapor suspensos, toda esta coreia juvenil se agitava sôfrega, todos pediam clamando, cabriolando, encrespando a figura, erguendo os joelhos, batendo as mãos, desmanchadas nas mais inverosímeis atitudes, zurrando tôda a classe de ruídos bárbaros; depois, quando a tentadora rodelita de prata ou de oiro traçava o seu meteórico brilho pelo espaço, êles atiravam-se a nado, de braços em ponta, como flechas, havia um abundante chapinhar nas águas, e daí a segundos um dêles reaparecia, amostrando e apertando a codiciada moeda na ponta do focinho triunfante.
Com tôda a sua abominável selvajeria, o espectáculo tinha um impressionante sabor pagão a que o Silveira não pôde manter-se alheio. Seguiu-o por algum tempo com agrado, vibrando ao contagioso estímulo daquele torneio brutal de agilidade e de fôrça; e apenas, uma que outra vez, ao lembrar-se de Irene, olhava receoso em tôrno, tomado por ela dum instintivo pejo... no apreensivo temor de quanto o seu virginal recato por aquela impudente exibição animal se sentiria ofendido.
Nem ela, nem ninguêm dos Wimeyer apareceu, felizmente. O Silveira descortinou porêm, não sem uma certa surprêsa, gozando muito compadres aquele sport bárbaro, Helena d'Ellery e o Mafiori, ombro com ombro, e furtados discretamente ao besbelhoteiro rodeio das atenções no mais escuso ângulo da ré, em cima, sôbre a última coberta.
Um vélho negro, derreado e esquelético, se lhe acercou entretanto, ofertando produtos da indústria rudimentar do país: colares, anéis e broches de coral, saquitos de junco, bôlsas de sementes luzidías e duras como azeviche, grossas gargalheiras policromas tecidas de conchas, de corais, de pedras polidas, de caroços de plantas indígenas e gomas aromáticas. Exprimia-se com dificuldade, gaguejando e mascando, num galimatias gutural todo em monossílabos, adulteração burda do português, cortada, áspera, intraduzível. De roda, uns tantos mais mercadores mendigos, como êste, circulavam tambêm, oferecendo laranjas, bananas, côcos. E, vista assim de perto, a hirsuta e negra turba perdia aquela nativa selvajeria da sua primeira investida feroz ao vapor; buscavam suavemente comover a esquiva indiferença dos clientes, em gestos não isentos de docilidade, dobravam-se tímidos, humildes, e apenas se lhes traía a braveza inculta da condição no ávido dilatar das chatas narinas, na escrutadora dureza do olhar astuto.
Entretanto, por efeito do transbôrdo do carvão, ganhava mais e mais a imobilidade gorda do ar um pó negro finíssimo, imponderável, que tudo inquinava, que tudo afogava, que tudo invadia, e que levado na asa fuliginosa do seu irresistível poder emporcalhante, não havia brilho que êle não apagasse, não havia limpa claridade que êle não pontilhasse de sombra. Então o Silveira, que começava a ver o seu rico fatinho claro salpicado e mordido de minúsculas lâminas negras, como coleopteros daninhos, teve que renunciar a seguir aquela picante aproximação de Helena e do marquês, e resolveu deixar a tolda e internar-se no salão, seguindo o exemplo do maior número. Mas aí logo, do canto duma mesa, o pequenino Ramón Alvarez a chamá-lo em grandes gestos, com uma intimativa insistente, quáse aflita.—Queria em primeiro logar felicitá-lo... Que bem dirigido assalto, que sorte fulminante! Estava um outro Júlio César... Maganão!—Depois, ao notar a expressão de desagrado do Silveira, numa brusca reviravolta, com um tom insinuante e outra vez aflito:—Que estava muito atrapalhado... Uma andaluza, que era um vivo demónio, pedira-lhe para escrever um pensamento no leque. E êle, embaraçado na escolha, não sabia bem por que decidir-se...
—Tenho aqui tantas, tantas coisas!
E estrangulava nas mãos nodosas a cabeça descomunal, nesta hora crítica por fôrça ardendo em plena gestação de baboseiras.
Daí a umas horas, no bar, juntavam-se os parceiros habituais do bridge, faltando apenas o marquês, que num estranhável desmentido à sua habitual correcção, já ia tardando. Faltava tambêm M.me d'Ellery, e o seu imprescindível assessor, o vélho bonzo, fazia maçaneta com as mãos sôbre o paninho verde e franzia a bôca exangue, em mal reprimidos sinais de impaciência.
Então, manhosamente o Silveira tomou o Mackenna de parte, e por entre um risinho cheio de reticências, cujo significado exacto êste não podia apreender, perguntou-lhe «como ia a coisa?» E logo, todo jactancioso, o outro segredava-lhe que ia lindamente! era uma conquista segura...
O intrometido Contreras, que viera familiarmente imiscuir-se na conversa, tossicou, amolou, coçou as barbas, incrédulo. E, com ar ofendido, o chileno:
—Parece que o amigo duvida?
—É que o vejo tornar as coisas fáceis... Não se caminha assim. Devagar, devagar... Entre o pensar e o fazer, hay que tomar el tranvia.
—Se queria apostar?
Porêm o Silveira, que tinha dançando-lhe pícaramente diante dos olhos o inopinado grupo do tópe da ré, naquela manhã, encolheu os ombros numa ironia mansa:
—Eu já não digo nada...
Havia agora cinco longos dias a passar antes que volvessem a avistar terra firme. Uma larguíssima sucessão de horas, sempre as mesmas, que seriam vividas inevitávelmente sôbre a cálida opressão daquela atmosfera pesada e espessa, que haviam de arrastar-se numa monotonia sem fim entre o proceloso encapotamento do céu e a opacidade revôlta das águas. Então, tôda esta grande família que o acaso improvisára ali, sôbre o piso encerado das várias pontes e cobertas, naturalmente, a iludir a anestesia morna do tédio, vinculava-se, cingia-se mais, buscava a cada momento pretextos novos de aproximação, lances de mútua intimidade; teciam-se correntes súbitas de simpatia, havia um efusivo desborde de galanteios, atenções, franquezas; concertavam-se negócios e associavam-se interêsses;—como se no precário âmbito daquela enorme jaula ambulante êles constituissem um universo novo, como se dentro dêsse frágil circuìto de madeira e aço coubessem tôdas as suas preocupações, planos, sonhos, febres, ambições, desejos... o concêrto do seu futuro e a incógnita do seu destino. Contudo, sobrelevando a irresistível sugestão dêste acercamento crescente de relações e intimidades, o Silveira teve ocasião de notar que as senhoras Wimeyer, coerentes e imutáveis na sua linha de inviolada isenção, não se davam senão com êle.
Mrs. Edith, que se havia despido sensivelmente da sua dignidade senhoril, andava agora tôda entregue à divertida seriação dos jogos. O ardente sôpro panteísta da desgarrada vida de bordo acendêra-lhe a repousada candura infantil em espontâneos ímpetos; e a cada passo ela vinha e interrogava com vivacidade o Silveira, na sua qualidade de membro do Committee, sôbre horas, datas e mais circunstâncias e pormenores, que a redonda ignorância do interpelado tinha que deixar invariávelmente sem resposta. Ela reptava-o amavelmente, em graciosos chistes e coquetonas burlas, a que servia de intérprete a complacência cínica do marido.—Estranhava realmente não o ver inscrito em nenhum dos números do Programa. Já não dizia, em suma, no Passo entre as garrafas ou na Luta dos travesseiros, que requeriam predicados especiais de agilidade e de fôrça; mas em qualquer outra coisa... por exemplo, na Corrida das batatas, tam fácil... ou então no Combate dos galos.—Ao desenho grotesco desta idea, tôda a patrícia figura da irlandesa estremeceu num júbilo: e arrebatadamente, batendo as mãos:
—Ah, sim! sim! aí está... Queria vê-lo de galo... Seria tam interessante!
Redondamente, o Silveira, entre bisonho e indignado, escusou-se. Ela então, num procurado ar inocente e um fiosinho meigo de voz, cheio de promessas:
—Bem, mas promete-me que vai ao menos inscrever-se no Enfiar da agulha. É fino! é lindo!
E com um risinho provocador a erguer-lhe a púrpura sensual dos lábios:—Que fôsse, que fôsse... que ela lhe procuraria a vitória.
Avizinhava-se a passagem do Equador, que seria celebrada a bordo por um grande baile de fantasia, antecipação muito a propósito do Carnaval, que vinha próximo, pois terça-feira gorda era já cinco dias depois da «passagem da linha», por alturas do Rio de Janeiro. Prometia vir a ser êste Baile o número mais brilhante do Programa das festas, e, dois dias antes, já a população feminina de bordo quáse se não preocupava de outra coisa. Haveria prémios, adjudicados por votação geral; e admitiam-se duas classes de trajes de disfarce,—os improvisados a bordo e os trazidos já entre a bagagem. De família para família, de grupo para grupo, fantasistas, curiosas, insistentes, as interrogações cruzavam-se; porêm, naturalmente, cada um furtava-se, guardando absoluta reserva, e então as mais aventurosas hipóteses, as mais abstrusas e sôltas imaginações cresciam e batiam asas, como borboletas demandando a luz, de roda dêste fechado círculo de mistério. Boquejava-se apenas que o Alvarez preparava um número de sensação; que Pilarita Gomez, a desenvolta morenucha que êle cortejava, figuraria, a conselho seu, num travesti algo picante; Mrs. Edith resistia inflexível às inquirições dulcerosas do Silveira, que apenas conseguiu registar a renovação freqùente das conferências dela com o cabeleireiro; e sabia-se que a petulante d'Ellery ostentaria um primoroso traje de odalisca. Por sinal que, como ela, uma noite, na pequenina tertúlia habitual do bar, se lastimasse de que lhe faltava um adôrno a condizer, para a cabeça, logo todo solícito e importante o Mackenna prometteu arranjar-lhe uma linda peça a propósito, meio turbante, meio diadema, havia de ver... qualquer coisa de abracadabrante, de sumamente artístico e grandemente extraordinário. E o caso foi que, na manhã seguinte, êle aí vinha instalar-se afanoso a uma das mesas do salão, munido de tesoura, compasso, régua, esquadro e um frasco de cola, e sobraçando um volumoso fardo; e convertia abusivamente êste liso rincão do Social Hall em oficina, logo extraíndo dessa boceta de Pandora pelintra a mais desconcertante, a mais imprevista miuçalha, rodeando-se por um abundoso aparato de fôlhas de lata, de cartão, de vélhos retalhos de cachemiras, sêdas, veludos, de lantejoulas, sequins, rolos sujos de algodão e tiras de papel doirado. E dois dias pegados levou ali assim, riscando, talhando, cortando, ageitando, unindo, compondo prègas, chumaçando relevos... enquanto limpava açodado o suor e arredava a melena, nos intervalos de pausa benefica que raro lhe concedia a congeminação febril dos dedos; e sempre espargindo uma nuvem impertinente de ciscalhos, de trapos, de escórias fulvas, perante a admiração trocista dos passageiros e a muda indignação do steward da sala, chocado por esta suja infracção dos regulamentos.
Por fim, naquela «quinta-feira de compadres», logo na antemanhã, o amplo convés de bombordo sofria uma transformação completa. As cadeiras de repouso haviam sido recolhidas aos flancos, e agora a marinhagem fazia àquele largo recinto um emparedamento vistoso, colgando-lhe em tôrno bandeiras e flâmulas de tôdas as nações, sujeitas de alto a baixo por argolas e cordagens, batendo multicolores ao vento. Até aconteceu que, por um lapso aliás fácil de explicar, dada a mudança tam recente das instituìções portuguesas, a respectiva insígnia que aparecia desdobrada ao contôrno drapejante do improvisado salão, era ainda a bandeira monárquica. Não escapou êste inocente anacronismo ao Silveira, que, radiante mas cauto, se limitou a esfregar as mãos num raivoso júbilo, felicitando-se no íntimo por êste como que público e espontâneo desagravo que aos seus fidalgos brios o acaso, ali assim, vingadoramente lhe oferecia. Mas o pior foi que daí a instantes passaram tambêm dois outros compatriotas seus,—um caixeiro da firma Brandão Gomes, de Espinho, e um agente da «Camisaria Confiança», do Pôrto—adoradores incondicionais do Basílio Teles e antigos revolucionários do 31 de Janeiro, os quais, tomando por uma deliberada afronta internacional aquela inofensiva exibição da bandeira azul e branca, logo protestaram indignados e, de caminho passando palavra aos correligionários que iam encontrando, breve foram todos levar exibitivamente perante o Comissário de bordo a expressão do seu veto colectivo, em termos que o escandaloso símbolo teve de ser retirado. Enquanto a reparadora desmontagem se fazia, aqueles dois primeiros estrénuos zeladores da verdade histórica miravam de soslaio, trocistamente, o Silveira, com a pupila triunfante. E êste então, como não havia a nova bandeira rèpublicana a bordo, monogolava com tristeza:—Afinal, aí se fica o meu pobre país sem representação!—E depois, num soberano ar de desdêm, com um risinho perverso:—Que realmente era como estava bem... que aquilo agora, com a rèpublica, não era nação, não era nada.
Fechado assim por essa improvisada cinta internacional o recinto, a mesma marinhagem com uma vivaz e alegre solicitude, festoava-o em abundância de renques de flores de papel, aplicava-lhe, a multiplicar a iluminação, pêras eléctricas policromas. Por último, o piso encerado foi passado a gis, para garantir a integridade corporal dos bailarinos. E durante todo o dia pode dizer-se que nesta parte reduzida do convés se resumiu o melhor da vida de bordo. Os que não trabalhavam, vinham ver. A certa altura, desceu mesmo a inspeccionar amávelmente o andamento dos preparativos, a sêcca figura esquiva do comandante. Tambêm os Wimeyer vieram, num rápido giro, ver todo aquele arranjo, ao que êles chamavam uma diversão cursi, mantendo-se altivamente alheios. Ao almôço, no comedor, foi sensível a ausência das senhoras. E, fechados como se mantinham nas respectivas cabines, uma bôa parte dos passageiros, no vivo empenho de ultimarem a tempo os seus disfarces, resultava assim que, por momentos, e a não ser a mancha arrogante de um ou outro contumaz grupo sportivo, o dilatado stand do tombadilho aparecia deserto.
Ao anoitecer, mal a corneta deu o primeiro sinal para o jantar, logo o comedor foi assaltado e invadido com uma grossa presteza, como até àquela noite, em tôda a viagem, não havia memória. É que a direcção do Committee rogára aos senhores mascarados a fineza de descerem a comer, trajando já os seus disfarces; e assim os simples mirones davam-se pressa em ir ocupar os seus postos de observação, na ânsia natural de gozarem bem, desde o começo, a aparição picante das figuras. Daí a minutos, os primeiros máscaras, logo acolhidos com palmas, desciam leves os cinco envernizados degraus da escada. A seguir, outros e outros, aquecendo de passo o ambiente do salão, que estimulado por esta ronda bufona de côres estrídulas, de silhuetas, formas, gestos, símbolos e brilhos imprevistos, vibrava e estralava de notas alegres, de comentários patuscos, de aplausos, vaias, interjeições, pilhérias, burletas e volatas de risos. E é que havia de tudo nesse desfile bigarrado e inédito: traços ingénuos e arripios bárbaros, a trivialidade e o inédito, a brutalidade e a elegância. Ora, eram selvagens negruscos que vinham aos saltos, guinchando e rolando, e boy-scouts, zuavos, marujos, pierrots, fazendeiros, gauchos, tangedores de gaita de foles; ora, insulsas meninas de bôas famílias, que, ao amparo discreto de consabidas e recatadas formas, vestiam apagadamente de Fada, de Noite, de Minerva, de cigana ou ledora da buena-dicha.
Na mesa do Silveira, só se mascarava o Mafiori, que não acabava de aparecer. Não aparecia tambêm, por igual, o Alvarez. A sua endiabrada Pilarita, numa louche figuração de apache, estava lindamente, adorável de canalhismo galante e desinvôlta graça. M.me d'Ellery ostentava uma riquíssima túnica oriental, tôda oiros e sêdas, a cabeça sumia-se-lhe estrangulada no turbante birsamal do Mackenna, e vinha pelo braço passivo e solene do seu derreado protector, de laço branco e frac, tendo na lapela uma palma de esmalte verde. Tambêm vinha em grande toilette, com a espalda provocadoramente nua e altos tacões doirados, a jovem multimilionária Nora Scott, uma histérica mordida de zelos pela irredutível esquivança do Silveira. Mrs. Edith foi das últimas a descer, tôda grave e senhoril, a par com a complacência orgulhosa do marido. Trajava um elegantíssimo costume Pompadour, que como que a aligeirava, lhe adelgaçava a redondeza helénica das formas e lhe punha asas na figura,—e que era todo êle do mais puro bom-gôsto e do mais escrupuloso rigor, desde a maranha luxuriante do penteado, desde as miuditas flores e as prèguinhas leves da saia e corset, até às leves mouches do rosto, à fina pinturilha do leque picado de oiro, e à ténue e espumosa renda do lenço minúsculo, amarrotado entre os dedos.—Oh, que esplêndida!—rompeu extático, sacudido de admirativa gula, o Silveira, mal que a viu aparecer e batendo palmas:—Bravo! bravo! Aquilo sim!...—E com a face congestionada, num cotovelão persuasivo ao Contreras:—Há-de ter o primeiro prémio!
Quando, por fim, uma redonda e rija morenita apareceu, com o busto saltante envolto na bandeira brasileira, os seus compatriotas, postos súbito em pé, aclamaram-na num brado unísono, ao tempo que de todos os pontos da sala os aplausos estrugiam com delírio. E no atropelado desdobramento desta sôlta feira animal, o vasto recinto perdera o seu frio e composto aspecto habitual, na sua disciplinada ordenança um tolerante parêntesis folião se abrira. Por entre o estrilante chocalhar das loiças e talheres, a cada momento os comensais paravam de comer e os moços cessavam de servir, cortados e suspensos no contágio truanesco dêste concertante bárbaro, fustigado a espaços por frémitos de loucura. Pouco depois, em cima, ao compasso dum two-step sofrivelmente semsaborão, a quêu cabriolante dos máscaras, desfilando marcialmente, fez o circuìto do tarraco salão de baile. Apareceu então o Mafiori, que vinha soberbo, encadernado em mandarim. Porêm agora o grande êxito da noite foi para Ramón Alvarez, que ideára realmente uma improvisação feliz,—montado em andas e rodeado por uma espécie de grande roca cilíndrica, feita em madeira leve e de cima a baixo encoberta por uma túnica de chita roçagante, à maneira dos santos de aldeia, na sua terra. Assim realizava um picaresco gigantón, que êle animava procazmente, ao alto, com a autêntica enormidade da cabeça, prazenteira e afável oscilando, tôda em mesuras. E nenhuma sorte de máscara ou atenuador disfarce nesta estadeação impudente da figura. Apenas êle avivára a sépia e nankin a dura projecção das feições, e asperisára a poder de caio e zarcão a macieza juvenil da face, tornada assim a raíz lógica, natural, da adusta rubefacção do cránio. Era um prodígio de bom humor esta valente ampliação caricatural, êste autocomentário alegre à própria disformidade.
Entretanto, de roda, à parede drapejante das bandeiras viera cingido e compacto inscrever-se o muralhão dos curiosos. Grupos surrateiros conseguiam vir de fóra e insinuar-se, impávidos e de pé, avivados pelos rostitos frescos das midinettes da 2.ª classe, trazidas arteiramente pelos oficiais de bordo a gozar o espectáculo. O Silveira não teve descanço enquanto não abordou a irlandesa, para lhe enaltecer numa mímica eloqùente a impecável distinção da toilette. E ela, infantilmente:
—You like?
Êle, incendido e vibrante, confirmava,—que sim,—e sentindo um desvanecimento ingénuo em acompanhá-la, procurava fazer-se compreender, num desbarato exultante de admirativas olhadas, galanteios, vénias e lisonjas, que só cessaram quando o impróvido galã notou que as Wimeyer tinham vindo plácidamente tomar, num reservado cantinho, as suas cadeiras. Êle então desligou-se da irlandeza, e mudando de tática, forte no seu propósito de fazer triunfar aquela deliciosa figura, digna de fixar amorosamente as prodigiosas faculdades de realização dum Boucher ou dum Latour, tudo era chamar para ela as atenções, encarecer-lhe a propriedade impecável do disfarce, a beleza galante do arranjo, e onde quer que êle visse alguma pessoa do seu trato, na disposição de preencher a respectiva lista,—fôsse embora um quáse desconhecido,—aí corria logo a tentar persuadi-lo, a pressioná-lo com vivacidade, a suborná-lo pela lisonja, no implacável desígnio de fazer vingar o seu desejo.
Grado e grado, porêm, a pressão sufocante do ar, a aglomeração, o calor, o contágio erótico das danças, iam determinando na foliona turba um começo de enervamento que se exteriorizava em sensíveis mostras de enfado, em estases mórbidos de cansaço. Já os homens passavam os lenços pelo pescoço, arejavam o nariz, enxugavam a testa; as ventarolas e os leques andavam abundantes de mão em mão, sempre na sua palpitação tremulante de passaritos assustados; e aos compassos convidativos da orquestra a ronda flamante dos pares ia rareando. M.me d'Ellery tinha calor, afogada no largo e fulvo amplexo da sua rica túnica oriental, molestada sobretudo por essa desgraciosa bisarma que lhe oprimia a cabeça,—uma obstrusa composição da qual, para mais, ela notava que todos em roda mais ou menos claramente se burlavam. Porque nesta criação infeliz o Mackenna, fiel aos seus ideais cubistas, realizara, não o canto harmonioso de curvas que seria a condizer com o voluptuoso coleamento e as lânguidas suavidades daquele traje magnífico de sensualidade e de sonho, mas uma desconforme tôrre de pesadelo, tôda em ásperas e duras linhas, em rasos planos, em projecções maciças, em cruas e vivas oposições, em ângulos que se penetravam, em pontas que se hostilizavam, em arestas que ofendiam a vista. Era a cabeça do Alvarez estilizada. Um retalho de pagode primitivo incrustado num ângulo da muralha da China. Por fim, num gesto de definitiva emancipação, a insofrida Ellery atirou com o molesto diadema para trás do piano, despiu a túnica, e provocadora e ardente, com a frescura roliça do busto bailando agora sob a branca blusa transparente, como lobrigasse perto o Alvarez,—que tambêm se desembaraçara do rodapé de chita e das andas, ficando em mangas de camisa,—travou-lhe súbito do braço e rompeu com êle num desenfreado can-can, que foi um escândalo para a porção grave e burguesa da assistência.
As Wimeyer haviam-se retirado antes; propícia eventualidade que o Silveira aproveitou para ir valsar com a irlandeza. Depois, como o momento das votações se aproximava, ei-lo aí de volta na sua furiosa, na sua amoruda galopinagem, de grupo a grupo mendigando votos, captando adesões, forçando vontades. E o caso foi que logrou o apetecido êxito; o primeiro prémio para os trajes já de antemão preparados foi com efeito conferido a Mrs. Edith, por maioria enorme. Dos homens, alcançaram naturalmente a primeira votação o Mafiori e o Alvarez. O prémio para o melhor disfarce feminino, improvisado a bordo, fê-lo adjudicar a colónia dos saxões e yankees, por um sufrágio esmagador, a uma inglesa esnalgada e longa como uma chaminé de fábrica, a qual tivera a suculenta idéa de se mascarar, figurando uma espécie de cozinha ambulante,—para o que se deu ao trabalho infantil de semear e pendurar pródigamente, doidamente, ao acaso, pela sua vestimenta servil, cortada em grossa sarapilheira, uma heteroclita profusão de caçarolas, tachos, cafeteiras, abanos, tenazes, pás, colheres, ramos de cebolas, toros de couves, mólhos de rabanetes, nabos e cenouras.
Entretanto, o Silveira, querendo tirar partido da situação, havia passado com Mrs. Edith ao restaurant improvisado no convés de estibordo, para celebrar com ela, a champagne, o seu triunfo. Breve apareceu porêm o conde a cortar-lhes a efusiva comunhão dos toasts, ponderando—que era tarde, tinha sono... e ela tambêm devia estar fatigada.—Bebeu ainda uma taça de champagne, brindando pelo Silveira, e, em grossos bocejos, despediu-se e partiu, amparado em pêso ao busto airoso e leve da mulher.
Os outros comensais, de momento ali, foram tambêm passo e passo desertando; de sorte que, em breves minutos, o Silveira surpreendia-se quáse só e como que restando o único assistente ainda aos últimos acordes da festa agonizante. Sem embargo, não se sentia em disposição de descer à cabine. Aquecia-o uma instintiva febre de movimento; carecia do róce fresco do ar e do embalo manso das vagas, que lhe mitigassem a mordente excitação, derivada das múltìplas e opostas comoções da noite. Fazendo então o giro distraído do barco e erguendo ao alto a espertinada cabeça, fixou naturalmente o seu perdido olhar na imensidade calma do céu e da sua eterna abóbada constelada. Liberta por agora da forte evaporação do dia, a atmosfera alimpára e despojára-se do véu cendrado da neblina. Apenas a diafaneidade imponderável do éter se baloiçava entre as sombras vagas do mar e o vago luaceiro do Infinito. Eram sempre as mesmas constelações fulgurantes, a mesma pregaría de fogo, o mesmo brilho orgíaco, aqui semeado ao acaso por entre flócos de neve ardente, ali afirmando aladamente no espaço o seu fulgor solitário. Contudo, era êste um céu diferente do que êle estava habituado a ver na sua terra, era um céu menos povoado, menos esplendente, menos loução, e que por isso mesmo lhe parecia mais amplo, mais distante, mais solene, mais profundo. Não tam densos e brilhantes se desparramavam aqui, e distribuidos por outra forma, os pregos de oiro dessa incontável poalha sideral, esparsa pelo espaço. Seguramente era êste o cósmico scenário próprio, a divina cúpula de protecção adequada às ignoradas regiões aonde êle se dirigia, de mudas solidões intérminas e imensas extensões desertas.
Dentro, porêm, da relativa parcimónia e o discreto brilho dêsse caminho dos deuses, alguns sóis se afirmavam potencialmente em fulgurações vibrantes. Um dêles, principalmente, que bastante acima do horisonte se erguia tremulante, faíscando, ardendo... Um grande diamante azul, prodigioso altar tendido ao fogo entre os astros e mantido pelas vestais incoercíveis da Via Láctea,—suspenso pomo de luz viva, como que prestes a desprender-se da abóbada celeste, atraído pela noite insondável do mar e ancioso por descer a traspassá-la com o dardo deslumbrante da sua claridade, para decifrar-lhe o mistério e desvendar-lhe os segredos.
IV
Índice de conteúdo
Com a atenção dispersa e a alma prendida nesta viva e inédita sucessão de impressões, dos últimos dias, o Silveira esquecera fácilmente os seus humildes vizinhos de bordo, e nunca mais a sua grata sensibilidade estremecera no interrogativo anseio de conhecer bem na essência, de palpar mais de perto, os sentimentos, opiniões, tristezas, projectos, angústias, condições e desígnios daquela corda fruste dos seus presumíveis correligionários, que ali assim seguiam, mesmo a seu lado, promíscuamente esmagados, baralhados, baldeados, delidos no empilhamento sórdido da desgraça. Agora, porêm, o vago amadornamento em que a temperatura tropical como que ensopava as vontades, e as tranqùilas solicitações que à batida brava dos vários jogos e diversões naturalmente se seguiam, déram azo a que na alma dolente do Silveira a imagem saùdosa da Pátria esfumadamente esvoaçasse, e, junto, a sacudisse o comovido cuidado pela sorte daqueles tantos ignorados irmãos seus, atirados, sabia Deus por que duros e encontrados azares, ao traiçoeiro baloiço da Fortuna.
Por isso, numa linda manhã serena e cálida, logo a seguir ao lunch, ei-lo que transpõe a portinhola gradeada do termo do seu corredor, e se aventura curioso pela suja e triste coberta da prôa.—O mesmo mesquinho e sórdido espectáculo de sempre. No seu passivo abandôno às ignotas flutuações do destino, aquela caravana compacta de obscuros ilotas da Dôr ia e vinha, anudava-se e distribuía-se em formações de acaso, era como um grosso formigueiro humano, incansávelmente montando e sumindo-se pelo negro óculo que dava ao porão, cavado a um canto, fundo e insondável como um abismo.—Porêm a inesperada aparição do Silveira causou ali geral estranheza. A descida dêste importante, dêste flamante e feliz desconhecido, té as patentes e repulsivas angústias daquela densa colónia eventual do infortúnio, fazia que as suas desprotegidas camadas, dando-se um instintivo alarme, se repregassem,—uns por uma vaga e hostil desconfiança, outros como que pelo pejo da própria miséria. E o Silveira ia passando, ia seguindo compassadamente, manso e afável, nos forçados torcicólos a que o obrigava o atravancamento pelintra do recinto; ia cruzando os grupos, com o ouvido colhendo, atento, os cortados trechos do diálogo, com o olhar mirando fito o desenho e o arranjo das figuras; e, por sentir-se ali o alvo admirativo das atenções, no íntimo contente. Até que, por fim, se acercou familiarmente dum reduzido círculo de rudes gentes do campo, quáse todos de pés nus, que se lhe afiguraram portugueses, pela linha, pelos trajes, pela expressão, pelos gestos tacanhos, pelo olhar ingénuo. Eram patrícios seus, com efeito. E êle então, protector, insinuante:—Que era tambêm português e ia para Buenos-Aires. Muito estimava conhecê-los... E àqueles que seguiam por igual para a Argentina, muito prazer teria em vê-los e servi-los por lá...
—Agardecido, muito agardecido, senhor!—balbuciou, de lábios confusos, um meio ancião vestido de saragoça, rapado e calvo, descobrindo-se.
Dulcerosamente o Silveira completou:
—Em fazer-lhes todo o bem que possa.
—Ai, que palavras de anjo! que rico senhor!—exclamou, com a voz molhada, uma trigueira e rude quarentona, de saia de fólhos, cabeção de morim branco e uns pequeninos olhos doces, perdidos na aspereza da face enrugada e curtida. E num cotovelão entusiasta ao companheiro:—Ouviste?
Êste arrastou meladamente, dobrado numa mesura e parando de rilhar uma banana:
—Não faltará ocasião.
Procurando gradualmente insinuar-se, o Silveira tornou:
—Vêem então procurar fortuna?
—Se aquilo por lá está tam mau... senhor!
—Então?—o Silveira logo comentou, com um risinho perverso:—É o que vocês ganharam com a rèpública.
—Eu cá nisso, senhor, não sei falar...
—Êle a coisa já lá vinha detrás...—aqui se permitiu arteiro observar, adiantando-se um rapagão amplo e forte, de calça de bombasina, camisola e grande chapéu cinzento, enquanto raspava um fósforo no quadril, para acender o cachimbo.
O Silveira teve uma azêda, imperceptível contracção dos labios.
—Parece-te?
—Sim, que isto é com'o outro que diz...—retrucou, sempre no mesmo ar intencional e altivo, o marmanjão.—Com rei ou com roque, nós cá, os pobres, ficamos sempre com'o o carrapato na lama.
E aspirava voluptuosamente as primeiras fumaças do tabaco ardendo.
O Silveira, despeitado, manteve uns segundos de arreliativo silêncio; mas logo, dominando-se:
—Bem! pois, repito, naquilo em que eu os possa servir... Interessam-me todos muito. Já vêem que vim de propósito para conhecê-los.—E num refinamento interesseiro da sua amável solicitude:—Qual de vocemecês é o que canta tam bem o fado?
Houve de roda uma vibração unânime de envaidecimento alegre.
—O guitarrista? Ah, isso há-de ser ali assim o Matias gingão.
—Matias! ó Matias!
—Adrega aqui, demónio!
Dirigiam-se a um pobre rapaz, delgado, pequenino e doente, que junto dum outro grupo, de pernas cruzadas, no chão, estava vendo jogar as cartas; e que ao ouvir que chamavam pelo seu nome com tam empenhada intimativa, rolou moroso os olhos, primeiro, depois ergueu-se com dificuldade, indeciso, e veio por fim avançando, a cabeça nua, arremangado, descalço, derreado e inerte, preguiçosamente.
Acolheu-o o Silveira numa efusiva expansão de agrado, ameigando a voz, erguendo os braços.
—Ora viva lá! meu caro Matias.
—Em bem o diga e bem lhe vá tambêm, senhor,—murmurou com humildade o recêm-vindo.
—Algarvio?
—De Fornos de Algodres, fidalgo.
—E p'ra onde se dirige vocemecê? Argentina ou Brasil?
—Com sua licença, vou-me até à Argentina, senhor.
—Bem, muito bem! Palpita-me que ainda lá havemos de ser dois bons amigos.—E ante o olhar oblíquo e a bôca de espanto do Matias, batendo-lhe afável no ombro:—Eu queria —Bem, muito bem! Palpita-me que ainda lá havemos de ser dois bons amigos.—E ante o olhar oblíquo e a bôca de espanto do Matias, batendo-lhe afável no ombro:—Eu queria felicitá-lo pela sua rica voz, por aquelas tam lindas trovas... cantadas realmente com uma intenção, com uma expressão, com um mimo e uma fé que querem dizer muito...
—Nada, senhor.
—Ora! não me diga você que as não escolhe, que não exprime nelas o seu verdadeiro, o seu íntimo sentir...
Mas simplóriamente o Matias, de braços pendentes, como um môno, encolhendo os ombros:
—Eu não sinto coisa nenhuma.
—Então, aquela piada ao Afonso Costa, na outra noite?
—Sei lá! Aquilo é uma moda que anda lá na minha terra. Que seja essa ou que seja outra, que minga faz?
O Silveira estremeceu e os olhos chisparam-lhe furiosos, num repelão de contrariedade. Os demais sorriam.
—O quê!? pois, verdade, você não liga maior sentido aos versos? não é contrário à rèpública?
—Ó fidalgo, é que a minha pobre guitarra está um chanfalho vélho, e eu mesmamente de políticas nada entendo...—E, estimulado pela olhada atrevida que o homem do cachimbo lhe mandava, o Matias acentuou com firmeza:—E é como está certo, sim! Que essa gente graúda, com o devido respeito, faz tam pouco caso de nós, que ainda o menos que nós podemos fazer é pagar-lhe na mesma moeda.
Desconcertado, nervoso, o Silveira mendigava de roda, com o olhar imperioso e intranqùilo, uma simpatia, uma adesão, um qualquer desmentido a estas descabidas e arreliantes afirmações, tam longe da sua espectativa como fóra do seu desejo; e como fixasse com particular insistência um aldeão alto, espadaúdo e sêco, logo êste, singelamente, o destroçado chapéu de palha girando na concha das mãos calosas:
—Eu cá, meu senhor, a minha política é ver se alcanço a juntar uns cobres com que possa depois viver tranqùilo no meu torrãosinho, mal'a mulher e os filhos. E já que me não fui à África, malhar nos pretos, resolvi deitar té ao Brasil, em cata da famosa árvore das patacas. O que a sorte quiser...
—Quere então dizer que tambêm você se conforma com essa usurpação tôrpe da rèpública?
—Se ela está, já agora deixá-la estar.
No íntimo vèxado por mais êste desengano, renitia entretanto o Silveira na sua raivosa inquirição.—E você?... E tu?... E tu que dizes?—Todos se fechavam porêm no seu invariável obstinamento humilde; e foi ainda o mocetão do cachimbo quem pôs termo ao inquérito, sentenciando implicativamente:
—Está muito bem! O que é que se ganha agora com mudanças?
E atirava, arrogante, o chapéu para a nuca, as narinas e os lábios fumarando num regalo.
—Súcia de palermas!—não se pôde o Silveira conter que não exclamasse, na insofrida explosão do seu despeito.—Por isso haveis de ser sempre os eternamente explorados.—Deu de roda umas passadas curtas, arrepelou o bigode, coçou a nuca; e depois, conciliadoramente:—Mas, em suma, não vale zangar... Sou aqui vosso vizinho, e amigo, repito, apesar de tudo.—Deu dinheiro ao Matias para uma guitarra nova; depois, num largo gesto altaneiro, ao grupo:—Bem! adeus! Ainda vos hei-de fazer abrir os olhos.
E desandou bruscamente, perante a indiferença burlona da assistência.
Daí a minutos, em cima, e amarfanhado numa das espêssas poltronas do Social Hall, ruminava em desalento êste propagandista infeliz o imprevisto e burlesco insucesso do seu inquérito, quando se lhe dirigiram Euclides Pereira e o conde de Horrowby, que precisamente o andavam buscando. Tinha que descer com êles à peluqueria, a escolherem as prendas para os prémios ganhos nos diferentes jogos, e cuja distribuìção solene estava marcada para antes do grande Concêrto final, naquela noite. Era uma diversão a propósito, à quebrantada pressão do seu desânimo. Não se fez rogar; e aí descem os três a internar-se na cabine inimaginável do barbeiro de bordo,—um cubículo acanhado e abafadiço, batido àquela hora ardente pelo sol, com duas exíguas lucarnas apenas sôbre o mar, e que alêm do mobiliário e utensílios indispensáveis ao completo exercício da profissão, era todo riscado em prateleiras, e oprimido, atravancado, estrangulado, povoado de lés a lés, tomado de alto a baixo, por uma aluvião inverosímil de tôda a sorte de pequenos artigos para negócio, desde as jóias, as mil luxuosas bugigangas de perfumaria e toilette, até às peças mais comuns de vestuário e adôrno, e um perfeito arsenal de brinquedos infantís. Havia espaço para tudo, menos para o ar, neste pequeno recinto aplastador que realizava um paradoxal desmentido à impenetrabilidade da matéria. Uma temperatura de fogo e um arranjo de casa de prego.
A bonachona espôsa do conde chegou ao mesmo tempo. E logo o mestre-barbeiro,—um francês ruivo e claro como um cacho da Champagne,—a saltitar vivo e ligeiro em tôrno dela, pedindo indicações, apontando, mostrando, trazendo coisas. A cada nova oferta, que o meliante sabia alertemente encarecer, a bondadosa e imperturbável senhora, sossegadamente, examinava rejeitava ou escolhia, e solicitava gentilmente o parecer dos seus três colegas, que se limitavam a baixar num assentimento cortês a cabeça. Então, logo o esperto figaro apartava contente a mercadoria, anotava qualquer coisa no seu carnet e passava a impingir outro artigo. E assim monótona, infindável, secante se foi prolongando a tarefa, êste duelo picante de aplicação ferido entre a esperta indústria do barbeiro e a solicitude impávida da condessa, insensível ao calor, refractária à impaciência. Não assim o Silveira, que enjaulado naquela inacção e enervado pela temperatura asfixiante, mudava de posição a cada momento, tressuava, sentia tonturas, e ia buscar a incidência mais favorável do ventilador ou abanava-se com duas ventarolas ao mesmo tempo, increpando-se íntimamente por ter vindo. E neste abrasador suplício passou uma hora que lhe pareceu um século.
Pulsuz fraqment bitdi.