Kitabı oxu: «Portugal perante a revolução de Hespanha»

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Antero de Quental

Portugal perante a revolução de Hespanha

Considerações sobre o futuro da politica portugueza no ponto de vista da democracia iberica


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066410995

Índice de conteúdo

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

PREÇO 200 RÉIS

I

Índice de conteúdo

Ha dois mezes que admiramos a revolução de Hespanha: será tempo talvez de tratarmos de a entender. O enthusiasmo é bom, porque eleva o espirito; mas a critica é melhor ainda, porque o esclarece. As revoluções, sem por isso desdenharem a commoção e o applauso, não pedem ao mundo senão uma coisa: serem comprehendidas. Dramaticas, épicas, phantasticas, as revoluções não são todavia nem dramas, nem epopeias, nem contos de Hoffman: sob as apparencias ardentes e brilhantes da paixão e da poesia são simplesmente, friamente problemas. O olhar impassivel d'essas esphinges não diz aos povos-edipos, que as encontram no seu caminho secular, ama-me ou odeia-me: dizem apenas explica-me. Sómente o abysmo que se abre ao lado, lá está commentando, com a sua bocca tenebrosa, aquella serena palavra...

Reduzido aos seus termos mais simples, o problema que a nação hespanhola acaba de escrever nas paginas da historia do seculo XIX, póde formular-se d'este modo:{4} «menos um throno em Hespanha; mais uma mulher em França; mais um povo livre no mundo.» A incognita do problema vem envolvida n'esta ultima proposição: mais um povo livre. Traduzindo-a para a sua verdadeira fórma, que é a interrogativa, fica-nos isto: o que vae a Hespanha fazer da sua liberdade?... O destino de 18 milhões d'homens depende da palavra que se escrever adiante d'aquella interrogação. E depende irremediavelmente, fatalmente. Irremediavelmente, porque n'este caminho d'uma nação que abandona uma fórma social condemnada, como a familia de Loth a condemnada Sodoma, não ha retroceder, não ha mesmo volver atraz um olhar saudoso ou simplesmente curioso: fatalmente, porque todos os interesses, todas as questões, todas as paixões, crescidas, accumuladas, em fermentação no seio da sociedade hespanhola desde 1812, acabam de ser por ella jogadas, n'uma hora só e sobre uma só carta, no jogo sangrento das revoluções...

Alea jacta est.

II

Índice de conteúdo

Entretanto essa resposta, essa palavra, é o mysterio do destino. Ámanhã póde radiar brilhante como a consciencia visivel d'uma grande raça. Hoje é ainda obscura como uma inerte possibilidade. O que a Hespanha fará da sua liberdade é o seu segredo d'ella. É um problema que agitado no mundo dos factos, só os factos têem de resolver. Mas, para a philosophia politica, que vive de idéas, é no ponto de vista das idéas que o problema tem de ser formulado. Não perguntaremos pois o que vae, mas sim o que deve a Hespanha fazer de sua nova liberdade...{5} Isto só nos interessa. Os factos sociaes, sem as idéas que os virificam, são inertes e incomprehensiveis, são corpos sem alma. Ora a alma, no mundo da politica, chama-se logica. A revolução de Hespanha, consequente, é uma coisa viva, cheia de luz, de espirito, de palavra fecundissima. Inconsequente, é uma massa desorganisada, sombria, informe, tediosa para si mesmo, e para o resto do mundo despresivel e vã... A philosophia politica, hoje, e já ámanhã a philosophia da historia, passarão por ella sem a verem, ou, se a virem por acaso, um sorriso de desdem com estas palavras não fostes logica, senão o epitaphio miserando das vidas, do sangue, das paixões, que uma manhã se ergueram ardentes ao bello sol da liberdade, para cairem á tarde extenuadas, descrentes, exsangues, só por isto, porque não foram logicas. Sim, Hespanhoes! a magnanimidade da vossa revolução, a fraternidade, o heroismo, tantos rasgos admiraveis, tantas veneraveis dedicações, tudo isso será vão e esteril no momento em que não for consequente, assim como o melhor grão, caído no chão mais fecundo, não germina, apodrece, morre, se lhe falta o calor e a luz eterna do sol... O sol da seara das revoluções é a coragem dos principios.

III

Índice de conteúdo

Mas o que é a logica para um povo em revolução? Facil resposta: ser revolucionario.

Ser revolucionario! grande palavra, e coisa maior ainda! mas coisa tão terrivel quanto grande! momento solemne, mas fatal, e cheio d'uma responsabilidade tamanha,{6} que não é raro encontrarem-se na historia dez seculos votados á miseria e ás luctas, e vinte gerações condemnadas á oppressão e á dôr, só pelos erros ou pelas traições commettidas n'um d'estes momentos rapidos e sinistramente decisivos...

Se apenas se tratasse, com effeito, de exalar no ar ardente das praças publicas a alma enthusiasta e fraternal que ainda os mais frios e os mais timidos sentem agitar-se-lhes dentro n'estes momentos de fermentação universal; se apenas se tratasse de nobres sentimentos, de inspirações formosas, de palavras de fé--nenhuma missão tão bella como a do revolucionario e nenhuma tão facil...

Se se tratasse ainda de concentrar todas as forças da revolução, as boas como as más, as violentas com preferencia ás outras todas, n'um momento de lucta supprema, louca, feroz; se se tratasse de metter medo como Mario em Roma e Danton em Paris--a missão do revolucionario seria formidavel, tremenda, mas era, ainda assim, facil...

Mas essa missão é, pelo contrario, de paz, de reflexão, quasi de sciencia. N'isto está a sua superioridade, mas n'isto tambem a sua difficuldade suprema. Não se trata de palavras, mas de obras; de proclamações sonoras, mas de estabelecimentos duraveis; de sentimentos, mas de instituições. Uma das muitas traducções livres da palavra revolução é esta: revelação. No momento da crise apaixonada, as forças mais intimas, os elementos mais profundos da sociedade revolvida nos seus abysmos, agitando-se por chegar á claridade, sobem até á superficie e mostram-se á luz do dia com uma energia, uma verdade irresistiveis. É uma revelação: vê-se o{7} que ha, e vê-se com que tem de se contar, em bem e em mal, durante o longo periodo que se segue sempre áquelles momentos de impulso decisivo. Por vinte, por quarenta annos, por um seculo ás vezes, a vida nacional não é mais do que o desenvolvimento, a combinação ou a lucta d'aquelles elementos revelados na hora prophetica da revolução. A França do seculo XIX viu-se toda, sem lhe faltar um traço, como reflectida n'um espelho concentrador, nos dez annos terriveis mas gigantescos de 89 a 99.

E Roma, a Roma imperial e plebeia, que tinha de durar quinhentos annos, revelou-se inteira no dia em que Julio, Cesar apoiando-se no hombro rude dos seus legionarios, atravessou o Rubicon para inaugurar sobre as ruinas da legalidade aristocratica a egualdade despotica dos Cesares. N'estes momentos de crise, parece que cada um dos elementos da nova sociedade, cada uma das classes, cada um dos interesses que se repartem o chão e o sol da patria, levanta a mão diante da estatua velada do futuro, com esta exclamação: contae commigo!

Tomar nota de cada um d'estes gritos supremos, dar o seu logar, na constituição futura, a cada uma d'estas forças, pôr em harmonia, como diz Proudhon, a politica com a economia, crear uma fórma á imagem da substancia social revelada, um governo, emfim, que seja a expressão completa da vida intima da nação--eis a alta, a verdadeira missão do revolucionario, ou antes, a missão das gerações revolucionarias. Uma grande epoca historica, ou um miseravel aborto, podem sair (e irremediavelmente) das mãos d'aquelles que recebem nos seus braços o recemnascido das revoluções, o futuro, conforme--intelligentes ou inhabeis, generosos ou perfidos--o{8} envolvem em veste que, acalentando-o, o deixe mover-se á vontade, crescer e desenvolver-se, ou o apertam em faichas estreitas e duras aonde se atrophia, estrebucha e morre. Ai da nação, que no dia seguinte ao do seu renascimento revolucionario, só encontrou nas fontes do baptismo politico, traidores ou imbecis por padrinhos! Os maiores heroismos tornam-se então infecundos. Um sophisma gangrena todos os centros da vida nacional. Os protestos e as revoltas estereis, as repressões e as tyrannias absurdas succedem-se, redobram-se, tão inuteis uns como os outros, porque o mal é intimo e indestructivel. A politica não corresponde á economia, o governo é uma coisa e outra coisa a sociedade, os interesses são de uma naturesa e a direcção dos interesses obedece a principios de naturesa opposta, povo e administração, governados e governantes, como duas raças hostis, sentindo e pensando de modos desvairados, fallando diversas linguas, adorando deuses diversos, não fazem em cada dia senão cavar o abysmo aonde se affundem a liberdade, a honra, a moral, a riqueza, a intelligencia e, a final, o corpo todo da nação. Este é o segredo das grandes decadencias que têem affligido e escandalisado a humanidade. Por aqui se têem arruinado as mais florescentes civilisações, porque nenhum organismo, por mais robusto que seja, resiste a esta dilaceração intima de cada dia e de cada hora, em cada membro e em cada parte de cada membro...

É n'este abysmo que não quizeramos ver despenhar-se a nobre, a heroica, a inspirada Hespanha. Para isso só temos a dar-lhe um conselho: é o da philosofia politica d'este seculo: o conselho que lhe dá Victor Hugo,{9} Girardin, Cremieux; que lhe dariam Tocqueville e Proudhon, ou antes, que lhe dão através do tumulo, e mais alto e mais eloquente ainda, porque o espirito d'estes nobres apostolos vive e cresce, á maneira que se desenvolvem e frutificam as verdades descobertas por elles, e por elles depositadas no seio da sciencia, entre todas humana e entre todas divina, a sciencia da Justiça social.

Eis aqui o que ella diz, a sciencia, e o que elles repetem, os seus prophetas. «Não atraiçoeis com fórmas timidas e mentirosas a originalidade e a franqueza da vossa revolução. Hespanhoes, não encarcereis nas vestes estreitas da Hespanha velha e rachitica, a Hespanha rejuvenecida e engrandecida. O moço coração d'esta, que quer bater em liberdade, estalaria comprimido pelo duro espartilho de que aquella, impotente e senil, precisava para se suster direita. Não comeceis por baptisar a nova sociedade com um nome de contradicção e de guerra. Olhai para ella na sublime nudez d'este momento unico, e tal como a virdes, o que virdes que ella é, seja esse o seu nome de baptismo, embora estranho e incomprehensivel para uns, inaudito e terrivel para outros, com tanto que seja o seu nome verdadeiro. O governo é para a nação, não a nação para o governo. A nação é o navio, o governo a vella. E dareis vós á nau alterosa, para a levar pelos mares aparcelados da historia, a vella esguia e estreita do humilde barco costeiro? E essas construcções simples, geometricas, rigorosas da arte nautica do seculo XIX, sobrecarrega-las-heis vós com a armação pesada, grosseira e complicada dos galeões do seculo XVI?

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Yaş həddi:
0+
Litresdə buraxılış tarixi:
15 yanvar 2025
Həcm:
37 səh. 1 illustrasiya
ISBN:
4064066410995
Naşir:
Müəllif hüququ sahibi:
Bookwire
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