Kitabı oxu: «Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863)»
Antero de Quental
Raios de extincta luz poesias ineditas (1859-1863)

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066406615
Índice de conteúdo
RAIOS DE EXTINCTA LUZ
TIRAGEM ESPECIAL
ANTHERO DE QUENTAL
A
EXPLICAÇÃO PRÉVIA
ANTHERO DE QUENTAL
CARTA AUTOBIOGRAPHICA
A OBRA POETICA DE ANTHERO DE QUENTAL
I
PALAVRAS ALADAS
II
LAÇO D'AMOR
III
FORÇA—AMOR
IV
PAZ EM DEUS
V
N'UMA NOITE DE PRIMAVERA
VI
PSALMO
VII
Á BEIRA-MAR
VIII
ASPIRAÇÃO
IX
A PYRAMIDE NO DESERTO
X
DESALENTO
XI
A SENDA DO CALVARIO
XII
A JOÃO DE DEUS
ADEUS
XIII
PER AMICA SILENTIA LUNAE
XIV
NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE
XV
DANTE—DIVINA COMEDIA
XVI
MOMENTOS DE TEDIO
I
II
III
IV
V
VI
XVII
AMOR DE FILHA
XVIII
GARGALHADAS
XIX
Á ITALIA
XX
A GENNARO PERRELLI
XXI
GUITARRILHA DE SATAN
XXII
SERENATA
XXIII
O POSSESSO
I
II
XXIV
EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL
XXV
ZARA
TRADUCÇÃO ALLEMÃ
XXVI
GLOSA CAMONIANA
XXVII
AS FADAS
XXVIII
O SOL DO BELLO
XXIX
IBERIA
XXX
EXCERPTOS DE UMA TRADUCÇÃO DO FAUSTO
I
II
III
A DÔR
A CASA DO CORAÇÃO
ESTANCIAS
ROMANCE DE GOESTO ANSURES
XXXI
A M. E.
AD AMICOS
A Q. M. Q.
IGNOTO DEO
IGNOTO DEO
XXXII
FIAT LUX!
XXXIII
OMBRA
COM OUTRAS PELA PRIMEIRA VEZ COLLIGIDAS
PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO
POR
THEOPHILO BRAGA
LISBOA *M. GOMES, Livreiro-Editor* 70, Rua Garrett, 72 1892
RAIOS DE EXTINCTA LUZ
TIRAGEM ESPECIAL
Índice de conteúdo
D'esta edição tirarem-se:
4 Exemplares em papel das manufacturas imperiaes do Japão, numerados de 1 a 4.
16 Exemplares em papel Whatman, numerados de 5 a 20.
ANTHERO DE QUENTAL
Índice de conteúdo
RAIOS DE EXTINCTA LUZ
POESIAS INEDITAS (1859-1863)
com outras pela primeira vez colligidas
PUBLICADAS E PRECEDIDAS DE UM ESCORSO BIOGRAPHICO
POR
THEOPHILO BRAGA
LISBOA *M. GOMES, Livreiro-Editor* 70, Rua Garrett, 72 1892
A
Índice de conteúdo
Wilhelm Storck, Oliveira Martins
Eça de Queiroz, Alberto Sampaio, Jayme Batalha Reis
Luiz de Magalhães, Joaquim de Araujo
João de Deus
D. Carolina Michaelis de Vasconcellos
Santos Valente, Alberto Telles
Antonio de Azevedo Castello Branco, José Ben Saude
F. Machado de Faria e Maia
José Falcão, Manuel de Arriaga
Anselmo de Andrade, Manuel Duarte de Almeida
etc., etc.
a todos os que amaram e admiraram Anthero
C.
EXPLICAÇÃO PRÉVIA
Índice de conteúdo
A publicação d'este livro é um phenomeno litterario de alta importancia. Compõe-se de uma collecção de Poesias ineditas de Anthero de Quental, na primeira phase artistica, de 1859 a 1863, quando o seu ideal era ainda religioso, romantico e espiritualista. Phase ignorada do publico, acha-se descripta pelo poeta na sua Autobiographia, quando allude á «educação catholica e tradicional de um espirito naturalmente religioso, nascido para crêr placidamente e obedecer sem esforço a uma regra conhecida.»
Ao dar á publicidade o livro revolucionario as Odes modernas, em 1865, accentuada poesia de combate, Anthero rasgou todas as composições anteriores, para que não ficassem vestigios d'esse periodo contemplativo. Dera então o maximo relêvo á «revolução moral e intellectual», como o facto mais importante da sua vida, segundo confessa na Autobiographia. Truncando as suas origens artisticas, apagava uma pagina psychologica, tão cheia de verdade e naturalidade, que a critica nunca poderia reconstruir.
Por uma casualidade feliz um companheiro de Anthero de Quental, que por esse tempo frequentava a faculdade de medicina, copiára todas as poesias romanticas: chamava-se Eduardo Xavier de Oliveira Barros Leite, fallecido prematuramente em 1872. Por um enlace de familia, obtive por occasião da sua morte o caderno das poesias que copiára, e que o proprio auctor, que lhe sobreviveu vinte annos, mal suspeitava terem sido conservadas. Guardei-as pois, como um valioso documento, onde estavam os primeiros germens do talento poetico de Anthero de Quental; publicando-as depois da sua morte desgraçada, restituimos-lhe á vida subjectiva uma pagina luminosa e sympathica que faltava á sua obra e á litteratura portugueza.
O titulo do livro, Raios de extincta Luz, tem a significação do seu apparecimento posthumo, e o valor de exprimir um presentimento do poeta, ao começar com este hemistychio a invocação escripta em 1860 para uma colleccionação projectada.
Para completar este monumento, fizemos pesquizas por albuns particulares, onde ainda encontrámos primorosos ineditos. Ao dr. José Bernardino agradecemos a contribuição valiosa com que enriqueceu este livro; e a Joaquim de Araujo os excerptos ineditos da traducção do Fausto e outras composições dispersas, que Anthero reservava para incluir em uma futura edição das Odes modernas e das Primaveras romanticas. Manda o dever moral que se reconheça a cooperação do activo e intelligente livreiro-editor Manuel Gomes, que ligou a sua iniciativa á publicação das poesias ignoradas do excelso poeta. Incorporando-as n'este volume, aqui ficam reunidas a primeira e a ultima maneira artistica de Anthero de Quental, podendo agora ser julgada de um modo definitivo a sua obra poetica completa.
ANTHERO DE QUENTAL
Índice de conteúdo
ESCORSO BIOGRAPHICO
Bem conhecida é esta alta individualidade, que se manifestou entre a moderna geração com um extraordinario temperamento de luctador, e que de repente caíu em uma apathia invencivel, em um desalento moral progressivo, em uma decadencia physica precoce, e por ultimo no desespero, que em 11 de setembro de 1891 determinou o suicidio. Quando em tão breve espaço vemos essas bellas organisações litterarias, como Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado e Anthero de Quental truncarem a sua carreira pelo suicidio, não pode deixar de explicar-se essa fatalidade pela nevrose que n'elles era o estimulo do seu talento e o motor das suas desgraças. E essa mesma nevrose, que se manifestava brilhantemente pela invenção imaginosa, pela graça delicada ou pela inspiração poetica, nunca lhes deixára adquirir uma disciplina mental que os levasse á analyse de si mesmos, nem uma subordinação moral que os fortificasse contra o seu espontaneo pessimismo. A critica da acção litteraria de Anthero de Quental está implicita n'esta caracteristica do seu organismo.
Anthero de Quental nasceu na Ilha de S. Miguel em 1842, em uma familia de morgados; n'aquella pequena ilha a falta de cruzamentos nas familias aristocraticas tem determinado uma terrivel degenerescencia, que se manifesta pela idiotia e pela loucura. Na familia de Anthero de Quental existem casos d'esta terrivel tare hereditaire. A frequencia na Universidade de Coimbra, desorientadora para as mais fortes organisações, não deixou de actuar profundamente no espirito de Anthero de Quental, lançando-o em uma dissolvente anarchia mental pelos habitos das arruaças escolares e pelas leituras radicalistas que o levavam a uma grande sobreexcitação. Foi n'esta crise da adolescencia que em Anthero de Quental desabrochou o talento poetico e a paixão revolucionaria, que deu origem a uma liga de espiritos emancipados de todo o supernaturalismo e de toda a auctoridade temporal, que se denominou a Sociedade do Raio. Este titulo provinha das imprecações que lançavam ao espaço em occasião de trovoadas, provocando o raio para que os fulminasse, como expressão de uma vontade individual no universo. As perseguições contra a Polonia e as luctas pela libertação e unificação da Italia, tambem acordaram o interesse de Anthero para as questões politicas. As suas leituras favoritas eram os livros de Proudhon, de Feuerbach, de Quinet e Michelet, e isso rapidamente, vivendo em uma atmosphera de discussão permanente, de uma dialectica de sophismas, aggravada por uma irregularidade de vida, que veiu mais tarde a determinar a doença que o embaraçou na sua actividade. Anthero de Quental vivia entre um grupo de estudantes que o divinisára, considerando-o como um apostolo, um iniciador da humanidade. E elle proprio chegou a acreditar n'aquella missão, e passados annos, em uma carta autobiographica, definia-se como o porta-estandarte das idéas modernas em Portugal.
N'este periodo da vida de Anthero era elle dominado por um condiscipulo natural de Penafiel, chamado Germano Vieira de Meyrelles, a quem dedicou a primeira edição das Odes modernas. Este Germano Meyrelles era um typo rachytico e aleijado, dotado de um sarcasmo maligno, resultado da sua imperfeição physica; exerceu no espirito de Anthero uma acção corrosiva, privando-o de todos os enthusiasmos, e levando-o quasi á apathia mental. Quando Germano Meyrelles morreu miseravelmente, deixando duas crianças filhas naturaes, Anthero tomou conta d'ellas e educou-as em sua companhia, deixando-lhes o remanescente da sua herança.
O talento de Anthero revelou-se pela poesia no jornal O Academico; em 1861, levado pela admiração do lyrismo de João de Deus, cultivou a fórma do Soneto, que estava longe ainda da belleza que attingiu na sua ultima phase pessimista.
As idéas politicas revolucionarias e negativistas de que se deixára possuir determinaram a primeira alteração nas suas concepções poeticas. Em 1865 publicou em Coimbra a collecção de poesias d'esta phase revolucionaria com o titulo de Odes modernas; mas os productos da sua actividade poetica, transição para as Odes modernas e Sonetos, são totalmente desconhecidos, porque Anthero de Quental rasgou todas as composições que não se harmonisavam com o seu novo ideal revolucionario. Um dos adoradores de Anthero de Quental, que o acompanhava nas tropelias nocturnas, e que tambem morreu doido em 1872, Eduardo Xavier, colligira em volume essas poesias da phase romantica; é essa collecção que possuiamos que hoje publicamos, da existencia da qual o proprio Anthero nem suspeitava.
A crise moral de Anthero começou propriamente em 1865, quando se achou sósinho em Coimbra; o curso juridico a que elle pertencia acabára a formatura em 1863; Anthero teve de repetir um anno, e ao terminar a formatura em 1864, achou-se sem estimulos que o obrigassem a saír de Coimbra. Vivia então solitario, meditabundo, desenfadando-se em digressões nocturnas. Foi n'esse anno de 1865, que irrompeu a celebre Questão de Coimbra; eu é que o estimulei a saír á estacada, dando réplica ás insidias de Castilho.
Anthero publicou n'esse anno a carta Bom senso e bom gosto, que o revelara ao paiz um polemista ardente, um estylista vigoroso, um espirito possuido de uma alta inspiração. Anthero de Quental contrahira perante o paiz e a geração moderna o compromisso de pôr em obra essas generosas aspirações. De dia a dia tornava-se mais reparavel o seu silencio, mais censuravel a falta de actividade litteraria. Anthero soffria um profundo mal estar, que o não deixava entregar-se ao remanso do estudo; saíu de Coimbra para ir viver em Penafiel com o seu amigo Germano; depois foi para Guimarães para ao pé de Alberto Sampaio; foi para o Algarve para o seu amigo Negrão; foi á America, a Pariz, aos Açores, e por ultimo fixara-se mais algum tempo em Villa do Conde. Não estava bem em parte alguma.
Os trabalhos litterarios não o seduziam; em Lisboa achou-se com José
Fontana, que se aproveitou do seu perstigio moral para a organisação do
partido socialista, e junto com outros rapazes, Eça de Queiroz, Jayme
Batalha Reis, inaugurou em 1871 as Conferencias democraticas do Casino, mandadas encerrar pelo ministro marquez d'Avila.
N'estes dous actos Anthero foi impellido, caindo outra vez na apathia de onde nunca mais saiu, promettendo apezar de tudo vir a publicar um Programma para os trabalhos da Geração moderna. Por occasião da encyclica de Pio IX proclamando o Syllabus, e por occasião da revolução de Hespanha em 1868, Anthero de Quental publicou dous opusculos, mais para mostrar as suas aptidões de folliculario do que a vista clara e o seguro juizo dos acontecimentos. A sua doença moral tornava-se uma lesão physica, accentuando-se a sua doença nervosa em 1874.
Na impossibilidade de toda a ordem de trabalho, mas carecendo de occupar a imaginação no meio dos seus soffrimentos, Anthero de Quental ia dia a dia burilando um ou outro soneto, em que dava expressão ao estado moral em que se achava; os amigos foram colligindo estes sonetos, vindo ao fim de algum tempo Oliveira Martins a formar um precioso volume de que elle mesmo foi o editor carinhoso. Fez a esse livro uma introduccão vaga sobre intenções buddhicas e intuições nirvânicas, mas não nos deu a nota viva do poeta. Os Sonetos de Anthero produziram uma forte impressão, não só pela profundidade dos sentimentos como principalmente pela perfeição esmeradissima da fórma; porque os versos das Odes modernas, na expressão das paixões revolucionarias, eram pouco plasticos, e revelavam mais o philosopho do que o artista.
Nos Sonetos Anthero transfigurara-se. O Dr. Storck, que acabava de traduzir em bellos versos para a lingua allemã a obra completa de Camões, ao receber um exemplar dos Sonetos de Anthero fez a alta consagração de os traduzir para essa lingua eminentemente philosophica. Para acompanhar a sua traducção pediu o Dr. Storck a Anthero algumas notas biographicas; em carta de 14 de Maio de 1887 escreveu o poeta uma especie de Autobiographia que vem junto dos Sonetos. É um documento importante, não pelos dados biographicos, que são vagos e exagerados, mas pelo alcance psychologico, porque pelas phrases com que Anthero se glorifica dando-se como o estylísta dotado com o dom da prosa portugueza e o porta-estandarte das ideias em Portugal, vê-se que obedecia a uma certa vesania mental, que lhe motivava fundas decepções e terriveis desalentos. N'esta phase de espirito, Anthero caiu debaixo da influencia de Oliveira Martins, que não foi mais saudavel do que a de Germano Meyrelles. Oliveira Martins tinha sido um dos seus collaboradores na organisação democratica e socialista em Lisboa, quando publicava a Republica e o Pensamento social; mas um dia abandona o seu ideal, e filia-se em um esgotado partido monarchico a que pretendeu ir levar vida nova. Foi esta apostasia uma desillusão para Anthero; soffreu-a calladamente, pedindo aos amigos que lhe não fallassem n'isso. Vivia então em absoluto isolamento em Villa do Conde, onde era visitado como um pontifice. Em Janeiro de 1890 deu-se o facto brutal do Ultimatum do governo inglez sobre a questão africana; da natural reacção do sentimento nacional contra este acto de selvagismo diplomatico, nasceu no Porto o movimento de agremiação da Liga patriotica do Norte.
Para dar aos espiritos uma certa unificação moral, lembraram-se do nome de Anthero de Quental; foram buscal-o a villa do Conde, e conseguiram interessal-o pelo movimento nacional. Prezidiu a alguns comicios e a sessões preparatorias da Liga patriotica do Norte; mas o poeta não conhecia a mechanica das assembléas parlamentares, foi facilmente envolvido por todos aquelles que procuravam desnaturar um movimento tão saudavel, e por fim quando a Liga patriotica se dissolveu com o mais escandaloso fiasco, Anthero de Quental retirou-se á sua impotencia, ferido com um desalento mortal. A data do seu testamento em 9 de setembro de 1890 revela que elle já pensava em acabar com a existencia. A dissolução dos caracteres dos seus contemporaneos de Coimbra mais o desalentava; partira para a ilha de S. Miguel em Julho de 1891, e a falta de interesse e o tedio de aquella solidão augmentada pela mesquinhez da vida de Ponta Delgada, determinou a fatal resolução de 11 de setembro, em que se suicidou com dous tiros de rewolver na bocca. Foi uma existencia verdadeiramente desgraçada; não se revelou com a pujança que possuia. Herdeiro de uma terrivel nevrose, não teve a ventura de deparar uma doutrina moral, uma philosophia que lhe fortificasse o espirito; pelo contrario, as suas leituras de Schopenhauer, e a cultura do ideal pessimista em que se enlevava artisticamente, incutiram no seu espirito a ideia do suicidio que involuntariamente se tornou effectiva. A sua obra é mais um documento psychologico do que um producto esthetico; e n'este sentido será estudada e confrontada com a de outros genios egualmente desgraçados.