Kitabı oxu: «A Primavera»
Antonio Feliciano de Castilho
A Primavera

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066413101
Índice de conteúdo
PROLOGO.
Post Scriptum.
EPISTOLA Á PRIMAVERA
DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO
EPISTOLA Á PRIMAVERA .
O DIA DA PRIMAVERA POEMETTO EM DOIS CANTOS
HISTORIA DA FESTA DA PRIMAVERA .
O DIA DA PRIMAVERA.
O DIA DA PRIMAVERA.
OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.
ADVERTENCIA.
OS CANTOS DE ABRIL IDILLIO.
A Festa de Maio POEMETTO EM DOIS CANTOS.
HISTORIA da Festa de Maio.
A Festa de Maio.
A Festa de Maio.
MAIS PRIMAVERA.
ADVERTENCIA.
MARÇO (PRINCÍPIO DA PRIMAVERA)
ABRIL
MAIO.
ÁCERCA DA PESSOA DO Sr. Antonio Ribeiro dos Santos.
INDEX.
Lista de Assignantes.
PROLOGO.
Índice de conteúdo
Não erão vãos os meus receios; acabo de visitar a Primavera, não ainda para lhe emendar as miudezas, mas para a conhecer por alto, e podê-la sentenciar no todo. Reconheci-a, mas demudada, mui outra da que a tinha deixado na graça, geito e amores; trocarão-ma os annos, trocando-me. Desama-la ainda não, mas ama-la tambem ja não! Se lhe não quero mal, he só porque lhe quiz muito bem, e foi minha; mas como ja me risquei de seu namorado, não hei de chamar-lhe formosa, que o não he, nem dissimular que sejão defeitos, muitos que em bom tempo ja talvez lhe tive por perfeições e primores. Não ha remedio, prometti-me seu juiz, passará por onde houvéra de passar, se de inimigo fôra. Se ella perder do seu preço, e eu do meu, consolemo-nos ambos d’esse pouco damno; ella por não receber de mim injustiça, eu com ter obedecido á consciencia, que tambem em letras a ha. Antes porem que entremos a contas e lhe formemos o summario, releva anticipar uma dúvida não leve, que se me pode pôr, e desfazer um reparo, que deixado a si pareceria de fôrça.
He o reparo e a dúvida; que pois he o Livro inamavel por defeitos a seu proprio autor, não havia porque de novo o semear em público, antes importava pôr todos os meios para que o nunca mais vissem, nem d’elle se fizesse menção; que o contrario he faltar a toda a reverencia, que aos leitores se deve, dando-os por broncos para conhecer o máo; ou á caridade natural comsigo proprio, expondo-se sem fôrça de obrigação a menoscabos, se não injurias.
Não quero responder que em dar o que ha quando ou emquanto não ha melhor, ja o que o faz se ha de haver por desempenhado; nem que, para reo que sem tratos e sôlto confessa os delitos, sempre por bom direito se usou de misericordia; melhores me parecem do que estes, os meus fundamentos: e ei-los aqui.
Primeiro: que andando a Primavera ja impressa e corrente por muitas mãos, e não podendo ser recolhê-la eu de novo, e desluzi-la da memoria de muitos que a bem agazalharão, melhor arbitrio he, pois que tem de se conservar no mundo, renascer n’elle expurgada de muitos vicios da primeira impressão, e se a paciencia me acudir com o preciso valor, retocada no que pertence ao literario.
Segundo: que havendo talvez ainda, e podendo vir a haver, moços que se dem a poetar, acontecerá que entre os mais livros portuguezes que ás mãos lhes cheguem, vão de envolta os meus (assim mo promette sua boa fortuna, que os livros a tem como os homens, e ás vezes os mais ruins muito melhor do que os bons): mãos de principiantes não sabem escolher, os amores, amenidades e branduras da Primavera cáem muito a gente moça, ir-se-hião traz o gosto, e beberião muitos defeitos; do que seria minha a culpa, se eu não procurasse agora arrancar boa parte d’elles, e contra os demais os não precavesse com honestas advertencias.
Terceiro, finalmente: que eu pretendo antes ser bem conhecido pelo que fui, sou, e hei de ser, do que só pelo que sou; porque nascendo-nos o presente do passado, ainda que diverso, e produzindo-nos ainda que tambem diverso, o futuro, o sermos só conhecidos pelo que somos não he sermos conhecidos. He pensamento que merece ser entendido. Alexandre Dumas o explicará. Sem pedir venia traduzo o passo, com quanto seja longo, certo de que o não parecerá.
—“A maior desgraça da crítica, ainda quando se não sae com ignorancias e velhacarias (diz elle no prologo da Catharina Howard) consiste em sentenciar uma Obra nova desmembrada do feixe literario cuja he parte: ahi está porque nunca se póde avaliar um livro com exacção antes da morte do autor; e mais ainda he preciso que Deos lhe haja concedido desde o primeiro até o ultimo, os dias, que para acabar seu edificio se lhe fazião mister; por quanto, se antes de tempo morreo, o monumento que traçára tem de ficar incompleto para sempre como a Sé de Colonia, e os homens mal justos para com elle ainda para alem da sepultura, lançar-lhe-hão á conta de humana fraqueza o ter-lhe ficado certo vão por tapar, quando a morte de invejosa e apressada lhe veio atar as mãos, e ja talvez para se arrematar mais não faltava que uma só pedra: ora por aquelle vão, he que a crítica se mette e entra, quer o autor esteja vivo, quer defunto.”
“De trez idades se compoem a vida de quem nasceo fadado a dar de si produções, e em trez periodos se desparte: como couza alta e nobre que he, tem primeiramente sua base por onde se começa; depois um cume onde se chega; ultimamente la por dentro um motivo, tenção e fim particular para onde se torna a descer. Pelo que, he necessario que o homem tenha vivido todas estas trez idades e que o seu talento haja cursado estes trez periodos, para se poder avaliar aquelle talento no seu todo, aquelle homem na sua produção.”
“Primeira idade, quando a fantasia prevalece á rasão. A esta idade de viço pertencem as horas que tão despedidas voão dos vinte e cinco aos trinta e cinco. He o periodo para dever inventar Hamlet quem se chamar Shakespeare, o Cid quem tiver nome de Corneille, os Salteadores quem for Schiller.”
“Segunda idade, em que a fantasia e a rasão se embalanção, ajudando-se mutuamente, e vindo a formar das suas duas uma só força neutra. A esta idade vigorosa pertencem os dias que vão correndo dos trinta e cinco aos quarenta e cinco. He o periodo em que os mesmos trez sujeitos produzem O Rei Lear, Cinna, Wallenstein.”
“Terceira idade, em que a rasão prevalece á imaginação. A esta idade de reflexão pertencem os annos que descem dos quarenta e cinco aos cincoenta e cinco. He o periodo em que elles compoem Ricardo III, Polyeuctes, Guilherme Tell.”
“Ora pergunto, ficarião completos Schiller sem Wallenstein e Guilherme Tell, Corneille sem Cinna e Polyeuctes, e Shakespeare sem O Rei Lear e Ricardo III?”
“Parece-me portanto que nunca devêra a crítica requerer de um poeta, senão as obras de sua idade; e bem sabemos nós como o faz ella sempre ao revez, sendo as obras que mais se empenha em querer extorquir de um engenho as dos annos que ainda não vingou, ou as dos outros annos que ja deixou transpostos. Pelo que toca a uma obra que vem condizendo com o periodo d’onde dimana, nunca a impertinencia dos juizes a dá por cabal: são uns Aristarchos sem paciencia, que acodem logo com a crítica a cada pedra de per si, ao passo que ainda se está guindando, sem advertirem que aquella pedra só assente e junta com as outras pedras he que ha de dar prova da traça e desenho geral do architéto: são como uns pomareiros esquipaticos, que não tomando em conta o inalteravel fio das quadras do anno, pedem fruta madura á primavera, frutos verdes ao verão, e ao outono flores.”—
Bem haja Alexandre Dumas, que tão artificiosa e claramente me decifrou, e me ajudou a pôr em limpo uma verdade, cujos ares muito ha que eu tomava de longe; uma verdade que eu andava adivinhando como por entre nevoas.
Ora pois, dos trez apontados motivos de determinação, foi este ultimo o de maior momento: quiz dar completo o meu retrato, menos o intellectual do que o moral, a quem desejasse conhecer-me: não podia omittir como feição o que eu havia sido, e ainda antes d’aquella primeira idade, que dos vinte e cinco decorre até os trinta e cinco annos. A Primavera, escrita aos vinte e dois, tinha por tanto de entrar encorporada na collecção das minhas Obras. Se a refundisse pelo meu gôsto de hoje em dia, não sei se ficára melhor, mas sei que ficára outra, e por conseguinte falsa como feição. Tudo quanto era seu geito, seu pensar, seu ser proprio passará intato; e n’isso, se se hão de perdoar gabos a quem sem disfarces nem dó se disciplina deante do Povo por peccados poeticos, n’isso digo, alguma couza ha de bom, sem o que não tivera agradado a tanta gente. O por onde a lima pode e deve correr afoita e sem dó, são—as numerosas faltas de boa falla portugueza—desleixo de frase—e estiramento de períodos.
Quero-me explicar, não para os Mestres, sim para os novéis no officio de escrever, com os quaes particularmente converso nos meus prologos; e porque não havia eu repartir do fruto de minha tanta ou quanta experiencia com quem não a póde ainda ter, nem suppri-la com seguir cursos de Bellas-letras que entre nós se não ensinão? Um dos maiores delitos literarios, e em que mais usualmente cáem os moços, he o desprezo de lingua e corréção; delito que per si basta para descontar muitos meritos intrinsecos de escritura. Sem bem saber sua lingua, diz Boileau, o autor mais divino nunca passará, por muito que faça, de máo escritor. He ella a ferramenta para este genero de lavor da alma; e quem poem as mãos na obra sem primeiro ajuntar, conhecer, escolher e apontar bem os instrumentos de que se ha de valer, nem se pode mostrar bom artífice, nem merecer desculpa de o não ser.
Toda a Musa em creança padece dispepsia de versos, diabetes disséra quem se menos prezára de cortez com Divindades. Na primeira idade he costume, e por muitas rasões, das quaes não será a mais fraca a aversão ao trabalho, presumir-se antes de facilidade e presteza no escrever, do que de corréção e primor: coração e fantasia tudo anda ligeiro, querem que a penna lhes obedeça, como se ella podesse; forção-na, e dahi resulta que pensamento ou afféto que lá dentro era soberbo, apparece cá fora frio, mesquinho, desengraçado; e maravilha-se o escrevedor quando a mesma couza que valentemente o agitava, em quanto em si a revolvia, depois de passada para o papel adormenta os ouvintes, e a elle proprio o desconsola. De todos os defeitos de autor, talvez se podesse affirmar que só este he verdadeiro, real e absoluto defeito; porque, se os pensamentos e affetos de cada idade são della, e dessoão e descontentão a todas as outras, tem por si o serem d’ella, e como taes se defendem por conterem verdade e pintarem o homem; não assim a lingua, que em todas as idades he ou deve ser uma, não provando outra couza o faltar-se a ella, senão que se quer fallar antes de se ter aprendido. Sou experimentado, e por bem do proximo direi com vergonha minha, que no que me ficou escrito d’essa quasi infancia poetica, as couzas nem me espantão nem me offendem, ainda quando as desapprovo, mas a linguagem e o dizer me fazem de continuo caír as faces; e por isso que he escolho em que naufraguei tão desastradamente, o assignalo com tanta miudeza e teima; nem cançarei de o assignalar e accender-lhe em cima boa luz de farol, em quanto vir, como vejo, outros, que nem por idade se absolvem, esbarrar n’elle e perder-se a todas as horas. Mancebos, (se os ha ahi que se dem ás letras) vós que encetaes a mui ardua e perigosa vereda que pelas letras conduz á fama, seja qual fôr o genero de poesia para onde propendais, seja qual fôr o vosso não vulgar engenho, sejão quaes forem os louvores que os velhos na arte vos concedão, e os applausos com que as sociedades vos afoutem, não vos deis pressa de apparecer: os conselhos que Horacio vos deu, durão com toda a fôrça que a natureza e a pratica lhe bafejarão. Deve-se compor de espaço, consultar os bons e peritos, guardar por nove annos, chamar, e tornar a chamar dez vezes á unha a obra ja perfeita. O amor proprio nos persuade e impelle a apparecermos cedo, devia elle, se não fôra cego, ter-nos mão para nos não sairmos senão a horas;
A melhor fruta colhe-se mais tarde.
(F. R. Lobo.)
Muito mais vale começar jornada com dia claro, do que, para adeantar horas, largar a pouzada pelo escuro da noite, em que os tropeços são faceis, perigosas as quedas, e quasi certo o extravio, que a final lançadas as contas nos farão chegar mais tarde e menos gostosos ao lugar que demandâmos. Repetirei, porque nunca o repeti-lo será de sóbra, o que ja por semelhante occasião disse em outro meu livrinho, contra esta enfermidade que se tornou praga, e nos traz a todos lastimosamente gafados; não ha mais remedio senão soccorrermo-nos aos livros mestres de nossa lingua. A aversão que vós outros, gente moça, lhes tendes, bem sei d’onde nasce, que tambem eu por ahi passei: correm para vós como rio caudal os livros d’essa França, todos especiosos e doirados, todos galhardos e louçãos, arrebicados e argutos no dizer, promettedores de maravilhas nos titulos e indices, conversando comvosco paixões fortes e brandos affetos, uns vomitando republica por todas as folhas, outros por todos os poros exhalando commodissima incredulidade, e todos á uma embebidos do presente, afinados pelo vosso ponto, e se o posso dizer, mancebos como vós mesmos. Não ja assim os nossos patrios autores: estes não vos sáem ao caminho; pouzão, antes jazem, pela escuridão êrma das bibliothecas, mal envoltos na grosseira capa de seu tempo, enterrados no pó, meio devorados dos bichos; se os olhais por fóra, parece-vos que a vida vos não daria para um só volume: se os consultais por dentro ja os titulos vos não namorão, os indices vos descoroçoão: folheai-los por alto, vem os milagres incriveis, a historia encarecida ou chã, a poesia enleada e escura, o estilo incorreto e desflorido, o amor grave e sizudo, os costumes castos, a moral severa, a fé religiosa e inconcussa: cada pagina na sua simplicidade apregoa Deos, revem por cada poro o cheiro do mundo velho: mas esforçai, affazei-vos por alguns dias a soffrê-los e comsenti-los; continuá-los-heis sem tedio, logo com gôsto, com ancia, reconhecendo a final quanto as primeiras mostras vos havião mentido, como pelo meio e fundo d’aquelle enganoso dissabor andavão sumidas galas, joias, riquezas, maravilhas, que vos enchem os olhos, vos cativão a vontade, e fazem que vos peze do tempo que os não conhecestes. Assaz nos divertimos do caminho, rasão he que a elle nos tornemos.
O segundo defeito geral que me occorreo n’esta leitura, foi o que eu chamei desleixo de frase. He este muito menos grave que a impureza da lingua, sendo-o todavia assaz que mereça quanta reformação lhe eu possa fazer. Quando quem não cura da pureza de sua lingua, cura ao menos de lhe não deitar remendo de panno estranho ou novo que não seja vistoso e garrido, quando o que se não preza de dizer limpa e castamente, ao menos timbra no exprimir com viveza não vulgar, com certo matiz, com certa novidade, algum passo mais se lhe póde conceder. Procurei se ao menos teria eu posto algum pouco d’isto, e achei um desconsolado não. A locução não me pareceo tão poeticameme figurada como convinha em poesia, ainda pastoril; os epíthetos erão tão sem succo e bastos como a caruma no mato. Uma e outra couza requerião, em quem as quizesse bem emendar, muita paciencia, e muitissima mais da que eu tenho. De ambas, mormente dos epíthetos, procurarei limpar a maior; todos não he possivel: tanto e por tal geito estão com toda a Obra cozidos e enraizados, que lhes vale o que ás ervas parasítas em parede velha mas necessaria; foução-se-lhe algumas demazias, perdoa-se ao resto, com o medo que em faltando, se esboroe a parede, e venha ao chão toda delida.
Tambem me queixei de estiramento de períodos. He defeito portuguez, peninsular, meridional. Dava-me agora na vontade tornar a culpa ao sol, que n’estas suas terras faz que tudo se desaperte, e derrame, e desate em viço e sobejidão: mas fiquem esses milagres do sol para os esquadrinhadores metafisicos, a quem inda assim, não quero mal; e eu, melhor que a nenhuma outra causa, lançarei aquella minha diffusão ás costas dos annos em que escrevia, com o que sempre fico de bom partido, por das minhas a tirar. O que he grandemente verdade, he ser este defeito para muitissimos leitores, principalmente mancebos ou hospedes nas regras de escrever, virtude, e a virtude contrária vicio. Saírão a Noite do Castello e Ciumes do Bardo muito mais contraídos e apanhados em couzas e palavras, do que estes Poemettos e as Cartas de Echo: pois comtudo muitos houve e ha, que por isso mesmo ficárão preferindo aos novos os antigos e até velhos opusculos. A cada hora me diz um que me torne ao meu primeiro caminho; outro que não desampare o novo: uns, que estas ultimas obras se não lem senão de escaço numero; outros que as passadas não occupão meia hora os olhos dos homens graves e bons juizes. Oh! quem reconheceo nunca a verdade da fabula do velho, do rapaz e do burro como o triste, que para expiação talvez d’algum grande peccado, entrega e desampara a público os partos do seu tinteiro! Pois que não póde ser contentar a todos, ir-me-hei como e por onde o meu juizo, gôsto e natureza me levarem.
A poesia substancial e severamente escrupulosa, he o mais das vezes descontada por uma certa desharmonia: a muita harmonia, ainda quando mais apoucada de ideas, ja entretem suavemente: qualquer leitor se entende com taes escritos, ninguem com elles se cança; são um genero de musica facil, que ainda quando não exprime affetos, se ouve com gosto; são como um deslizar de barco por uma agoa mansa: por isto he que os livros do Porto e Tristezas de Ovidio se lem de um cabo a outro com muita deleitação.—Inter utrumque: nem tanto apêrto como Almeno na chamada tradução de Ovidio; nem tanta soltura como o seu amigo, e outr’ora meu mestre, Elpino Duriense[4] nas poesias originaes; nem tanto pospor a harmonia e clareza á brevidade como Filinto; nem tanto sacrificar o entendimento ao ouvido como Elmano. Isto foi o que me pareceo lograr na Noite do Castello, e Ciumes do Bardo, e não me arrependo se por ventura o consegui.
Tanto não, mas alguma couza d’isto fôra o que eu quizera na Primavera: alguma couza, para poder com ella reconciliar os severos; tudo não, por não dessimilhar em demazia esta parte do retrato.
Até aqui descubrimos defeitos que importa emendar, agora os vamos ver do outro genero, em que me não he licito bolir, por serem essencia do livro: erão aquelles no tocante á lingua, estilo, e metro, que ainda que importantes, não passão de accidentes da obra; estes são da alma, vida, e pensamento da mesma obra. Entremos pelo descritivo (não será portugueza a voz, mas o uso e necessidade lhe valeráõ.) Descritivos se chamão em geral todos os poemas deste genero, e como a taes, parece que tudo quanto for pintar dentro do quadro do seu painel, lhes compete e convem. Não he comtudo bem assim, porque as descrições, por mui formosa e naturaes que se ostentem, tambem canção a imaginativa de quem lê, quando umas ás outras se vem succedendo perennemente e sem um bom entremeio de narração, ou outro valente interesse, que por um modo verosimil as reuna, separando-as ao mesmo tempo, para que se não confundão, nem se afrontem, nem esmoreção. Não o advertio Delílle, e d’ahi procedeo não bastar seu altissimo engenho para livrar seus poemas de enfadosos. Ora este livro he quasi um embrechado massiço de descrições; e assim, se o posso dizer, mais para ou olhos da alma do que para o seu entendimento. Mas serão ao menos estas pinturas, consideradas uma por uma, de algum preço por fineza de tintas, ou pontualidade de desenho? autos são em que me não compete dar sentença. O Padre Kinsey, ou o Portuguez que em seu nome escreveo, disse que eu não pintava bem a natureza; talvez que outro tanto, e ainda peór, se devesse dizer da mór parte de nossos poetas; mas não he contra elles, senão contra mim só que eu enfeixei varas no princípio d’este prologo: como os applicados noviços se não enganem comigo por minha culpa, que se desvairem e percão com os outros, paciencia! Aqui está comtudo o que me parece; este descritivo he desbotado e de côres pouco vivas e proprias se com o de Gessner ou Kleist se compara, mas he o melhor que eu soube; eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo, como de si dizia Kleist, caçadas poeticas de imagens, nem discorrê-los como Gessner, de lapis na mão. Ja póde ser que o Padre Kinsey, ou o seu ponto, não houvessem de se me avantajar muito, se lhes coubesse tirar ás escuras, ou quasi, o retrato da natureza: muito mais faz quem atravessa o Tejo a nado, do que hum Almirante Inglez que em segura e bem apercebida náo rodêa a esfera; poderá este trazer mais riquezas e informações, mas á fé que não prova mais fôrças e esfôrço que o desconhecido nadador de uma só corrente.
Passemos ávante, e das descrições entremos nos affetos. N’esta parte direi pouco, porque sem embargo de que o desabrimento com que me castigo onde entendo merecê-lo, me podia deixar alguma licença para tambem me louvar pelo que em mim visse de bom, melhor he que nos louvores, em que mais facilmente nos podêmos enganar, nos contentemos de ser ouvintes. Ainda assim, não acabo eu de dizer tão pouco, que muito bem se não entenda ja que no tocante a affetos não quero muito mal á minha Obra: fallo dos affetos em geral, porque passos ha n’ella a cujo affeto não sei ja hoje querer mal nem bem; honesto, formoso, e macio me parece, sei que n’esse tempo devia ser meu, porque eu não compunha, tirava do coração, mas ja o não posso entender cabalmente, e avaliar. Esses passos, apezar de tudo e de mim, hão de passar intatos, que em assunto de branduras o eu de hoje respeita religiosamente ao eu de algum dia; e porque tudo diga, ainda que quizera emendar, não saberia. Sim me inclino a que haverá (e ja de alguns m’o boquejarão) excesso, redundancia, languidez em tantas suavidades, caricias e extremos de bem querer a tudo, e a todos. Inclino-me e talvez o creio: mas que havia de cortar? a que havia de perdoar, se assim como o eu antigo valia tanto mais que o eu presente, póde ser que o melhor se me figurasse agora peór, e o peór melhor?
Digamos duas palavras da Mithologia. Ja não sou tão emperrado pagão como n’outro tempo; desconsola-me ver o desmedido uso que d’ella fiz. Não se entenda por isto que me alistasse debaixo das bandeiras triunfaes dos modernos espanca-numes, nem que tiro vãgloria de botar pelo mundo pregáõ, como Beranger, que os Deuzes ja saírão do meu credo. Todo o excesso em crer ou não crer, em admittir, ou recusar me parece hoje em dia um disparate, de que sempre, mais por aqui mais por ali, vem a resultar contras e arrependimentos. Enjoa-me a fabula dos Lusiadas, e muita, e muita, e muita outra: aborrece-me quasi todo o emprego que dos Romanos para cá se tem feito d’ella, incredulus odi. Só consinto na fabula parca, explicavel, e só a amo quando soberbamente poetada. Alumiarei com um exemplo: quero-a assim como a derrama ás mãos chêas por suas tão poeticas prozas o christianissimo Chateaubriand, esse mesmo que de longe visto, assim parece guerrea-la. Nada d’isto acho eu pelo commum no meu livro: de cada canto me surde uma Divindade; a boa parte d’ellas não responde verdade, e se alguma couza ahi vierão fazer, certo que não foi inspirar-me um só rasgo poetico. Porque pois as deixarei? porque não substancia do livro, e n’elle tem posse velha e apozentadoria.
Dêmos a derradeira parte do prologo, que em prologos deve ser sempre esta a de vantagem, a algum poucachinho dizer sobre a moral. Moral hoje, moral em livro de poeta, grande novidade e grande estranheza! Sim hoje, que ainda ha muito quem se preze de viver honesto, virtuoso e pela antiga: sim em livro de poeta, e por isso mesmo; visto como tudo quanto era contra ella o tem a proza a si tomado, não será muito que lhe abra sua porta a poesia, e lhe dê guarida em um pobre cantinho térreo de sua pousada, como he este: inda mal, que até cá, no fundo de tamanha escuridão e penuria, por todas as fendas e agulheiros do mal reparado edificio poetico lhe chegaráõ as risadas sem alma nem sal de seus inimigos, e contra essas não ha valer-lhe. Ha pois do titulo d’este livro a dentro, dado se não prometta senão primavera, um como ar de bondade e saude para o animo, de socego e bemaventurança para a vida: e por isso he que, a despeito da todas suas manchas, me parece bem, como ja no Ante-Prologo deixei tocado, atira-lo, como sementinha de erva medicinal, ao baldio sáfaro e corruto d’esta idade. Bem estou eu antevendo quantos de mim hão de haver lástima, por me assentar no meio de tão ferida e accesa batalha, por cantar entre tantas vozerias de odios. Paciencia! tambem sei que homem sentado não sóbe, nem a trôco de cantigas se comprão riquezas e valimentos: mas cada qual tem sua estrella, e a minha, que outra vez descobrio depois de largo eclipse, esta foi, e esta ha de ser; oxalá que para sempre! Com o bom de Archimedes me pareço n’isto, o qual na hora que a cidade estava sendo entrada do inimigo, e alagada das torrentes de ferro e fogo, nem tinha ouvidos para o estrondo, nem deixava de proseguir na composição da lustrosissima esfera celeste, unicos amores que no canto calado de sua casa o desvelavão. Havia ahi uma não sei que magnanimidade; e a ninguem deixa de doer a cutilada do soldado feroz que despede tal cabeça para cima de tal obra. Mas quando me ólho, e me vejo a brincar com flores e cordeiros, ao tempo que em redor de mim estão no chôco tão grandes destinos do mundo, não me lastimo, porem rio-me, e cuido estar vendo em mim proprio um menino, que por um dia de tempestade, enthesoura conchas e forma lagoazinhas na praia, emquanto andão á vista galeões alterosos á luta com os elementos, e na mesma praia uns pasmão, outros se aterrão, outros suspirão pelo instante do naufragio para se arremessarem aos despojos, apenas o mar os cuspir.—Fugindo me hião agora outra vez os pés pela antiga ladeira abaixo: e a moral, esquecida até por quem lhe deo couto! Com ella sou, e com ella determino acabar.
He a moral na maior parte d’estes poemas pura, facil e amavel; e se não tão efficaz como a de Gessner, não he porque o eu dezejasse menos, he porque podia menos atavia-la, e aformozea-la do que elle, e atavios e formozuras até servem para fazer do bom optimo. Todos os amores de que se urde e tece a domestica felicidade, se achão aqui representados por um modo que se recommendão, e d’elles se imbue de mui bom grado o animo; o amor filial, o paterno, o materno, o conjugal, a amizade, até o affeto aos animaes, arvores, flores, e mais creaturas de Deos, companheiras nossas n’este mundo, aqui vem de envolta com a recreação. Porque tudo diga, pelo gostador ou gostadora d’este livro daria eu mais, e mais quizera viver com elle debaixo do mesmo telhado, e tratar quer negocios quer passatempos, do que, se dizê-lo ouro, com gostadores e pregoadores d’outros livros que estamos vendo rebentar de muito mais avultados engenhos. Se eu tivesse filhos e filhas a quem dar criação, sei que emquanto não podessem ler Gessner, e seus bons imitadores estrangeiros, lhes daria a Primavera; e ja não digo o mesmo das Cartas de Echo, e muito menos da Noite do Castello, e Ciumes do Bardo. Mas, acudirá algum prudente, couzas se deparão na Primavera que mais são para ser defendidas a donzellas, e resguardadas de fantasias ainda verdes, do que para se aconselharem por doutrina. Sim as ha, e todas essas paginas que para idades encorpadas e apercebidas de experiencia bem podem não ser damnosas e parar em mero deleite, todas rasgára e déra ao fogo antes de lhes entregar a obra para lição: e porei exemplos; na Festa de Maio, os fins dos episodios de Galatea e Ignez de Castro, no mesmo poema boa parte da republica de Chipre, como o culto religioso da Natureza, os bens em communidade, a nudez, o divorcio, o cazamento de um com muitas et cetera. Antes de passar adeante, trasladarei, que alguma couza fará para aqui, parte de uma Nota que ácerca da republica de Chipre se lia na primeira edição, a pag. 169.
—“Note-se que este poema está muito longe de dever ser considerado como didático; que toda esta republica de Chipre he meramente um Dithirambo, aonde a licença do poeta he muito mais ampla do que em outro qualquer genero de poesia; que esta sociedade de que se ha de formar a republica, he de poetas, homens de quem vulgarmente se diz que mais dão ao prazer do que á rasão; e que em boca de poeta se poem a arenga recitada no templo. Para os avisados escusada fôra a nota, mas para os fanaticos, que ignorão ter a Musa do Dithirambo licença para nos seus delirios arremetter contra tudo, he indispensavel.”
Era este arrasondo o melhor que o caso admittia, porem melhor houvéra sido não carecer d’elle; e se ainda por elle se pode perdoar á republica de Chipre, não assim ás demais desenvolturas, como as dos dois ja apontados episodios. Porque as puz umas e outras? vá mais penitencia. Puz as pinturas amorosas em quasi nudez, porque estava n’aquella sazão da vida e do anno, em que todos nos deliciamos nas fantasias sensuaes, e se somos poetas, cuidamos morrer abrazados e afrontados em não desabafando. Porque não expurguei d’ellas esta segunda edição? pelo mesmo motivo do retrato, e não outro. Quanto ao culto da Natureza, e á gente nua, e aos maridos de muitas mulheres, são necedades taes, que não merecem que nos detenhâmos em as refutar: são d’aquellas demencias, cujo aggregado dá o que entre moços que esfolheão livrinhos bem doirados e térsos, se denomina filosofia, e que só dura emquanto a experiencia e o tempo nos não desmamão da presunção; pelo que, e pela rasão geral, ja muitas vezes apontada, de querer mostrar-me qual fui, vivão, durem e passem, que depois d’isto ja a ninguem farão mal.
Eis aqui por alto, mas com toda a lealdade, o juizo que da Primavera formei; he primavera por matos de serra, com mais flores do que graças, com mais ares saudaveis do que ervas medicinaes, mui tibia de fragrancias mimosas, mui nua em muita parte de terreno, mas com seus longes de campos e cazaes felizes, e muitas saudades lá pelos extremos confusos do seu horizonte. Quem se d’estas cousas contenta, fico se recreie com ella; e quem com ella se recrear, para amigo o quero, que esse saberá, como eu, amar muito os homens, fugindo-os; e enfadado, como eu, das terras onde não ha ver passaros senão em gaiola, nem verdura fóra de gigas, nem arvoredo que não seja pintado, nem pastores e innocencia senão na opera e trajados de seda e veludo, nem felicidade senão em promessas de políticos, irá procurar-se, achar-se, e lograr-se de Deos, de si, e dos penhores de sua alma no seio e entranhas da vida campestre. Oh, se assim fosse!... e se Deos a um tal me désse ainda por vizinho!...
Lisboa 4 de Dezembro de 1836.
Post Scriptum.
Índice de conteúdo
Lisboa 29 de Março de 1837.
Quando todo estava no trabalho de desempenhar minha palavra, e fazer ainda mais do que no Prologo deixára promettido, revendo cuidadosamente, afeiçoando, podando e enxertando de novo este volume, sobreveio-me aos 2 de Fevereiro passado, o maior infortunio de minha vida, uma perda de que em nenhum tempo se me poderá o coração consolar. Quebrarão-se-me as forças para continuar no trabalho, bem como se esvairão muitos, antes todos, meus projetos. Ja não arrancarei (e para que?) este pouco e inutil resto de mim mesmo da terra que encobre a minha melhor metade: aqui procurarei, se tanto podér ainda, pagar com uma pouca fama e muitas lagrimas, a quem a mim me deo até á sua ultima hora seus olhos, seu amor, toda sua alma. Qual ficou este livro tal sae, e muito inferior ao que eu promettia, podia e devia fazer. Se algum de meus leitores entende por experiencia o que seja padecer n’uma viuvez uma completa orfandade, esse passará com indulgencia, e ainda suspirando, pelos muitos defeitos que na leitura lhe occorrerem. Aos sem alma não tenho que dizer: se quizerem castigar o espirito meio morto, porque não pôde mais, fação-no, que dôres d’essas não acharáõ ja em mim lugar nenhum.
EPISTOLA
Á
PRIMAVERA
Índice de conteúdo
Vai a Epistola em tudo outra da que fôra na primeira Edição: conserva a invenção e os pensamentos, mas emendou-se a linguagem, apertou-se o estilo, deu-se alguma côr mais ás imagens, explicarão-se melhor alguns pensamentos, reformarão-se e afinarão-se quasi todos os versos.
DEDICATORIA
A MINHA IRMÃ.
Índice de conteúdo
Eu mandei o meu Genio campestre apanhar flores por entre os gelos do inverno. Formosas não saírão, bem o sei, porem n’esta estação do anno não mas dá melhores o estreito jardimzinho que me as Musas doarão nas fraldas do Parnaso. A ti, minha Irmã, me ordena o coração que as offereça. Felicidade será para mim, se quando para o teu lado me tornar, tu me disseres abraçando-me:—“Eu amo as flores que tu me enviaste, no meu seio as guardo: as da primavera menos me contentão do que estas, que o teu Genio campestre colhe no teu jardim, por entre os gelos do inverno.”
DUAS PALAVRAS DE INTRODUÇÃO
Índice de conteúdo
Fôra o inverno de 1821 para 22 dos mais desabridos e temerosos de que entre os vivos se faz memoria. Na Beira, onde me então achava, vião-se arrancados e espedaçados bosques, olivaes e pomares, sementeiras afogadas, pontes demolidas, e os rios sem margens. Dos 25 de Dezembro até os 9 de Janeiro, que me demorei em uma aldeinha, uma legua desviada de Coimbra, saboreando no trato cordeal de alguns amigos e parentes as férias, então mui festivas, de meus estudos, foi sempre tão atada e rigorosa a porfia das invernadas, que nos falseou quasi de todo a recreação mais apetecida dos que fartos da cidade, vão alguma hora ao campo desenfadar-se. De não passear nos vingavamos o melhor que o tempo e lugar no-lo consentião: práticas desaffrontadas de constrangimento, temperadas de bom sal, e muitas vezes substanciaes; a voltas d’ellas, leituras accommodadas ao mais dos gostos, poesia, e improvisos de charadas e adivinhações nos enchião as horas não contadas. As espaçosas noites e boa parte dos dias, se levavão n’estes e semelhantes passatempos, em de redor de uma farta fogueira, segundo he costume d’aquellas terras. Por alguma rara tarde, quando o sol descobria, e o ar um pouco mitigado nos consentia saír, nos hiamos, ora pelo jardim onde se explanava um soberbo lago, outr’ora pela orla mais assoalhada dos laranjaes, que mui corpulentos e viçosos, acenavão de seus ramos com frutos e flores, pondo a vista, o cheiro e o gôsto em doce competencia de delicias. Era ainda aquillo, ou ja era, umas lembranças, uns longes de primavera no coração do inverno, saíamos da prisão dos lares, aproveitavão-se com sofreguidão: talvez nenhum dia de perfeita primavera na longa cadêa d’elles me pareceo nunca melhor e mais ledo, do que estas pobres tardes sonegadas ao mez do Natal. A fantasia enganada do sol, toda se me desatava em poeticas flores, o que n’esses tempos só por maravilha me acontecia fóra da primavera, e luares do verão. Quando vinha a noite, acceita ao meu coração, (que sempre de si o conheci, não sei porque, amigo de com ella suspirar saudades), e ja todos ao conchego do nosso lume fiel nos tornavamos alvoraçados, comigo só me hia pouzar a um canto, colhendo, concertando e accrescentando com mui entranhado contentamento, quantas florinhas me havia brotado a fantasia. De saudades da primavera me parece ainda agora que nascião todas; o que certo sei, he que ahi, e n’um imaginar d’estes meus, me veio a lembrança e desejo de escrever á Primavera uma Epistola. Se n’isto abusei ou não da licença tão concedida a poetas, não o sei; sei que no ditar estes versos para se escreverem, e no conceber-lhes o assunto a passear ou a seroar, gozei prazeres que ja a crítica me não póde tirar. Se contra o bom juizo pequei, todo o meu pezar he não poder outra vez peccar pelo mesmo modo, nem outra vez namorar-me da Primavera: os annos que a trazem ás arvores no-la levão a nós, e ja la vão quinze, (quinze annos!) sôbre o tempo em que eu brincava com estas innocencias.
Lisboa: 9 de Dezembro de 1836.
EPISTOLA
Á PRIMAVERA.
Índice de conteúdo
Corre a Noite, jaz muda a natureza;
Os campos solitarios esmorecem;
Mal se ouve ao longe o estrondo da corrente:
De quando em quando a lua desmaiada
Mergulha em nuvens, surde, outra vez morre;
E das planicies a extensão geosa
Ora resae e alveja, ora se apaga.
N’esta cabana de grosseiros troncos,
Tecido vime e colmo, onde sereno,
Vento, e cuidados não coárão nunca,
N’esta onde habita perennal fogueira,
E onde he Penate o Genio da hospedagem,
Venho entre amigos deslembrar tristezas:
Do frio lá de fóra o ultimo resto
Ja o atirei á chama tragadora.
Em ti, Amores meus, em ti só fallo
Ó Primavera minha; em ti só cuido;
A ti quero escrever: inda ha bem pouco
Em meu passeio a flor das larangeiras,
E do sol que hia a pôr-se o extremo raio,
Cá me derão de ti saudades tristes.
Desde que ao scetro do raivoso Junho
Tu doce com teus Zéfiros fugiste,
Meu dia estendo em languidos suspiros.
A noite em vagos sonhos me afigura
Ver-te, cantar-te, desfrutar teus mimos:
Mal desponta a manhã, mal foge o sono,
Desespero-me, lido entre amarguras;
Peço aos bosques sem folha, aos ermos campos,
Aos rochedos de neve, ás turvas fontes,
Ao ceo toldado, aos ares tempestosos,
E a toda a natureza, a minha Amada.
“Primavera, onde estás?” do outeiro exclamo;
De valle em valle, de um cabêço em outro,
“Primavera, onde estás?” responde o echo:
No prado o guardador, no monte o Fauno,
Pelo arvoredo as Dríades á escuta,
“Primavera, onde estás?” depois exclamão.
Emquanto assim fiel, por ti ó Deosa
Me desentranho em ais, onde te escondes,
Perguiçosa gentil? onde vagueas
Bella inconstante que estes ais não ouves?
Algum Deos namorado, em plaga estranha,
Encheria de amor teus olhos livres?
Esquecer-te-hião, (Ceos!) promessas tantas?
Sim: que te importa o definhar de um vate?
Do vate que te amou, te adora ausente?
Tu folgas e elle gema; elle delire,
Tu a prados sorris vestindo prados,
Revês-te, amante nova, em novas flores:
Fontes ha tambem lá, que importão éstas?
De fonte ao claro espelho te engrinaldas;
E ufana de encantar sensiveis peitos,
Tambem, como entre nós, por lá dardejas
Fogo de amor aos entes insensiveis.
Volta, volta, ó cruel, aos campos nossos.
Qual paiz no universo, a não ser Pafos,
He mais digno de ti? ¿por onde achaste
Para o cortejo teu, Ninfas, pastoras,
Como éstas que entre a murta o ceo nos cria?
Amantes mais fieis? florestas, rios
Namorar-se, mais frescas, mais formosos?
Mais doces flautas quando amor entoão,
Aves mais doces quando amor gorgêão?
¿A tua Cintra, Elisio dos desejos,
Nobre jardim do Oceano, onde folgavas
Contemplar na alta noite em mista dança
Ninfas das ondas, Ninfas das florestas,
Assim te descaío? ja não proteges
Os córos virginaes que ali passêão
Sorrindo ao ver seu nome em bosque e bosque?
¿Por toda a parte as Graças que espairecem;
Do aligero esquadrão travêssos brincos,
Frechas doiradas em contínuo vôo
Aqui e ali aos peitos descuidados,
E se errão corações, ferindo os bosques,
Porque os bosques ali tambem suspirão,
Tudo pois te esqueceo? Volve, ó Querida;
Cede, não sejas dura, a amor, aos versos.
Desde que te ausentaste ahi pende a lira
Nos braços nus de um álamo sem folhas,
A minha lira ao vento abandonada!
A lira d’oiro, onde entoei teu Nome,
Onde a minha paixão soou mil vezes
Na linguagem dos ceos a teus ouvidos,
Ei-la sem honra; os ventos lhe roubárão
Dos antigos festões o escaço resto!
Ao passar com seu gado, e vendo-a muda,
Diz suspirando a turba dos pastores:
“E’sta a que dava alento ás nossas festas:
Mal haja quem a trouxe a tal desterro!”
Dríades ternas, que meu canto ouvião
Não talvez sem prazer, dizem passando:
“O vate emmudeceo longe da Amada!”
Mas apenas teus Silfos precursores,
C’roados de violetas assomarem
Na ethérea região de nossos climas;
Apenas este ceo pezado e turvo
Mandar á terra os ultimos chuveiros;
Apenas rebentando as novas folhas
Se remoçar esse álamo tristonho,
E entre a nova ramage, emtorno á lira,
Cançada de seguir-te andar pouzando
A rolinha estrangeira, e sócia tua,
Á lira despirei do inverno o musgo;
E n’ella, de aureas cordas melhorada,
Só de ti chêo, na presença tua,
Brotarei versos, como brotas flores.
Oh voa, acode a consolar Cibele,
Cibele a térrea mãi da especie humana,
Cibele, amores teus, qual tu Deidade!
Se ora a visses! ... do carro verdejante
Os rebeldes tufões a derrubarão:
Co’a trança descomposta, o manto em rios,
A altiva c’roa em parte destruida,
Nua jaz á vergonha, ao vento, á neve.
Seu tanto desamparo he mágoa aos filhos:
Mas para dar-lhe a mão, torna-la a Nume,
Poder, qual em ti ha, não ha nos homens:
Do fundo do teu lodo a ti só chama,
Ai, leve-te algum vento as queixas d’ella!
As torrentes sem freio divagando
Contra marmóreas pontes indignadas,
Investem, chocão, despedação, rojão
Ruinas em montoẽs aos fundos mares.
As Dríades, teu povo e tua gloria,
Tremem, oh dor! ao furioso assalto
D’Euros, e Notos, e Africos em guerra:
A seu brutal furor nenhuma escapa:
Crer-se-hia que as prisões da Eolia furna
Para sempre arrazára a mão de Jove.
Dríades nobres de arvores antigas,
Refugio outr’ora das calmosas séstas;
Dríades bellas de arvores vaidosas
Co’a idade juvenil, verdura e fôrças,
Tem a seus pés quaes vítimas caído.
Co’os negros frutos oliveira amiga
Baqueou; não lhe valeo celeste guarda;
E Minerva prantêa o estrago enorme:
Cáe o pinheiro amedrontando os valles,
E Pan, sentado nos troncados restos,
Triste espera por ti co’a flauta muda.
¿D’esta cabana a rustica fogueira
Sabes quem a sustenta? ah! corre, vôa:
Cedro, que eu te sagrei, caío por terra,
E onde brincou favonio estalão chamas.
Mui tarde chegarás se não-te apressas;
Do colono e pastor os ais te invocão,
A mesma natureza he morta quasi!
Que fragor, que trovão! piedade ó Numes!...
Este deu raio, e pérto.—Outro rebrama!...
O Olimpo sobre nós desaba em fogo!
Chlóe, e Amarilis trémulas, gritando,
Desfeita a rubra côr em côr da morte,
Enchem de seu terror esta cabana.
O’ innocentes, miseras pastoras,
Não griteis, não tremais; vereis em breve
Dissipado este horror nos longes ares;
Contra o crime orgulhoso os Deoses troão,
Não fere o raio a rusticos alvergues.
Não, não me engano, ouvís como se afasta?
Como la vai ja longe? o mais do estrondo
Ja he toada vã no vão dos bosques.
Chuva propícia em caudalosa enchente
Desce na escuridão; resoa o této
Com o crebro saltitar das frias gotas:
Sibila o vento na vizinha serra.
Chlóe a porta fechou: nós apertâmos
O cerco estreito em deredor do fogo.
Cantou o gallo esperto: he meia noite!
E eu vélo ainda, e velarei saudoso
As horas todas que á manhã precedem!
Horas, horas de paz no horror das trevas;
Horas de estro, misterio, omnipotencia
Ao que nasceo das Musas bafejado!
Sonhe a ambição com purpuras, e scetros;
Torpe avareza com os inuteis cofres;
A vingança, fatal a si e aos outros,
Cogite embora nas traições, no engano,
Nos agudos punhaes, no sangue em jorros;
Vulgar amante afine, esmere astucias,
Com que succumba a tímida innocencia,
E aos laços venha destramente armados:
Eu dando a amor o que se deve ao sono,
Em chama pura, porque he tua, ardendo,
Alégro com teu Nome a horrenda noite,
A saudade em saudades apascento,
E inda ausente, comtigo ausente fallo.
Como o perdido em temeroso escuro,
Que ao mais leve rumor trémulo pára,
Assacinos agoura em cada tronco,
Não ouza resfolgar, prosegue a medo,
Aqui lhe surde a silva, alem penedos,
E lhe abrem fauces mil os precepicios,
Só tem na aurora esp’rança, e mal que ao longe
Annuncios d’ella vê, canta e renasce;
Serei mais que feliz pois vas ser minha,
Mal te sonhar ao longe, ó Primavera.
Sim: eu te amo inda mais que a vide ao tronco,
Mais do que o touro em maio ama a novilha;
Quero-te mais que o Deos de amor ás trevas,
Mais do que Flora ao Zéfiro inconstante.
Eu suspiro por ti, como suspira
Murchada planta por sereno orvalho,
E ardente ceifador por fresca fonte:
Es-me tão cara como a bella esposa
A seu amante de chorar cançado,
Quando no dia d’hirneneo se abração:
Tão doce emfim como o primeiro beijo,
Que uma terna pastora, a medo e a furto,
Consente ao seu pastor levar-lhe aos labios.
Qual dos amores, que no mundo girão,
He mais grato que o meu? Este em delícias
Excede tanto aos mais, como tu vences,
Tu belleza do ceo, do mundo as bellas:
Eu amo e para amar não me recato,
Ao mundo inteiro meu ardor confesso,
Tenho rivaes e do ciume zombo,
Gozo-te, e nem pudor nem leis mo estorvão.
Inda me está lembrando (hora doirada!)
Quando longe do mundo, e a sós comtigo,
Pela primeira vez te disse “Eu te amo!”
Abria a Aurora o roxo mez das flores:
Juntas em córos no arvoredo as aves,
De ramo em ramo aos ranchos adejando,
Em nunca ouvidos sons a luz saudavão:
Inda do puro rio a opaca nevoa
Bem não era desfeita ao sol nascido;
Inda das folhas concavas pendião
Trémulas gotas de luzente orvalho,
Que depois leva o brincador Favonio;
Quando (ai memoria doce!) eu dei comtigo
Inda meia a dormir na fofa relva.
N’alguns louros de roda entretecida
Hera tenaz um toldo te formava:
O melro grave, o rouxinol cadente,
Para encantar-te os sonhos, diffundião
Entre uns rosaes a musica dos prados;
Enchia aroma puro os puros ares.
Ligeiras, bellas Sílfides, velando
Invisiveis teu placido retiro,
Impedião que um Fauno petulante
Ou rustico pastor pozessem olhos
Em teu corpo sem véo, cheio de encantos.
Alí me conduzio propicio acazo:
Não mo impedirão Sílfides zelosas,
A natureza inteira he franca ao vate.
Ridente sono, da innocencia imagem,
Cerrava ainda os olhos teus ao dia:
Todo brandura o juvenil semblante,
Até sem o saber, até dormindo,
Faria suspirar homens e feras.
Entre a face mimosa e a fria relva
Tinhas meio curvado o braço lindo:
Como ao desdem, na esquerda seguravas
A cornucopia, a não poder com flores:
Halito doce de fragancia amena
Sáe do seio, que túrgido se eleva;
Dos roseos labios, da pequena boca
Vem tão doce, vem tal, que um peito humano
Bafejado por elle, excede os numes,
E a alma, em vez de pensar, delicias volve.
Tal eras, tal fiquei ó Primavera!
Espertaste de todo; e toda risos,
E todos luz e amor os olhos verdes,
O que era ja sem termo accrescentaste,
Dobrou-se a graça ao mundo, o fogo aos peitos.
Um mar de deleitosas fantasias
Me soçobrou, confesso, e tempo largo
Jazi com o ledo mundo em braços da alma.
Depois tornando em mim, ví-te ja prestes
Para baixar do outeiro aos amplos valles:
Quão mais louçã, e em galas mais garrida!
¿Que muito, se a mais nova das trez Graças,
De tuas mil Oréades servida,
Pozera as proprias mãos ao vago enfeite?
Erão-te manto ondado, e roupas simples,
Quanto verde ha na terra, e flor nas plantas;
Mas triunfava a rosa! aos botões d’ella,
Nem ja todos botões, nem flores todos,
Fôra o tépido seio em throno dado,
E em vez de o embellezar, se ornavão d’elle:
Erão raios do Sol a c’roa tua!...
Parei de embevecido! e quem no mundo
Te vio jamais como te vio teu vate?
Em teu seio amoroso um Cupidinho,
Qual borboleta d’oiro, esvoaçava
De botões a botões, na escolha incerto.
Vio-me; e curto farpáõ, doirado, agudo,
Curto farpáõ que os olhos não percebem,
Me arrojou, me sumio dentro no peito.
Graças ao tiro do mimoso Alado!
Na profundez da f’rida, e gôstos d’ella,
Contente reconheço, adoro um Nome.
Amante, desde então, ditoso amante,
De dia a dia te encontrei mais terna.
Incenso, que antes dava a falsas Musas,
Off’reci-te, acceitaste, e foste a minha.
Abriste-me a Aganippe em cada arroio,
Cada monte foi Pindo, e Tempo os valles:
E tu em cada valle, em cada monte,
Ante a lua, ante o sol, me estavas sempre
Musa do coração, presente aos olhos.
De poetas foi sonho a voz das outras,
A tua graciosa ciciava,
De toda a parte vinha em tom macio,
Que filtra inspirações, e a amor contenta.
Se os de ambições miserrimos forçados
Que ás cidades dão vida, e a si a roubão,
Podessem vir um dia onde tu reinas!
Se a mente que as paixões lhes anuvião,
E olhos em que os cuidados, seus verdugos,
Atárão com trez nós perpétua venda,
Podessem ver-te a luz deliciosa,
O manso da alegria, os gostos puros!...
Deixando sem adeos tumulto e pompas,
Mais de um, mais de um, salvando a tempo os filhos,
Co’as pouzadas dos bons unirra a sua.
E a quem darás tu nunca o riso cheio,
Como o déras a este, que trocasse
Oiro a virtude, e marmores a flores?
¿Que ja sôlto de si e a si tornado,
Viesse pôr, para os livrar de queda
E adora-los em ocio, os seus penates
Á beira de uma límpida corrente,
Que de um bosque atravéz susurra e foge.
Víra os Genios da terra o anno inteiro
A lhe aprestar a mesa; aqui brotando a
No pomar curvo, ali na horta regada,
Lá no chão da seara, alem na vinha
Que o recôsto do outeiro alastra e enreda,
Mais longe nos cabeços verdejantes
Onde o gado em socego os leites cria.
Não lhe ameaçára o raio o této humilde:
As manhãs, d’entre as ramas espreitando
Pela aberta janella, o acordarião,
Por lhe alargar a vida: os passarinhos
Lhe dirão nas frescas alvoradas
“Bem vindo, alegre amigo, ás nossas casas!
Nós cantamos teu Deos, somos felizes,
Tu louva o nosso, e goza d’este mundo.”
Se algum cuidado a vespera deixasse,
Levar-lho-hia na vêa murmurante
A correntinha onde lavasse o rosto.
Vê zagalas fieis, vê perigrinas
De formosura e joias não compradas,
(Que uma da-lha a saude, outras o prado);
Com ellas espairece a fantasia,
E se inda o coração quer mais ventura,
Ama; ao ceo que ja tinha, um Deos lhe accresce!
Quanto via e pasmava em mortos quadros,
Onde astuto pincel prodigios obra,
Sombras vãs, cujo preço he rios d’oiro,
Tudo agora real, vivo, mais bello,
De mais subida mão pintura immensa,
De graça lhe cercára o lar e a vida.
Mas ah! porque me sólto em vãs ideas!
Embora o preço teu não saiba o mundo,
Primavera, eu te adoro e tu me afagas:
Caro co’a lira vezes mil teu nome,
E tu me infloras magamente a lira:
Em longo mútuo abraço almas trocâmos;
A minha he mansidão, frescor, perfume,
Toda a tua, poesia, amor, extremos.
Lanças-me em teu regaço, e quando a noite
A lira e cornucopia aos dois nos furta,
Das-me dormir co’a fronte no teu seio,
D’onde me vem coando uns sonhos leves,
Todos teus, todos candidos, na fórma
De flores, de aves, de amorinhos, de auras.
Assim, me queres teu até no sono!
E porque sombras más o não perturbem,
Mo ficas a velar á luz dos astros,
O semblante pacífico ao sereno,
Os olhos no ceo da alva, e o peito amores.
Mas tu ... porque não vens?—Não não me engano,
Inda agora os trovões rijo batalhão.
Talvez rola n’esta hora a tempestade
Pelo oceano de Atlante ondas sobre ondas;
Rugindo estoira o mar em crespas serras:
Possança de baixeis, esfôrço, industria
Não vale a contrastar-lhe a valentia;
De toda a parte a morte esvoaça, ruge
Na horrenda cerração com sons do averno;
O náufrago abraçado a sôlto lenho,
De toda a parte a vê, a ouve, a sorve;
Vai a abismos e a ceos repulso d’ambos,
E perde, antes da vida, a luz e a mente.
Sumio-se o ultimo audaz de sôbre as aguas!
De nuvens atro veo submerge a lua;
Não luz na escuridade alguma estrella;
He o luto do Homem forte! Ó Mar és livre!
Triunfaste, adormece.—Ah que de vezes
Taes scenas, tal horror, maior, mais negro,
Nos tem de si brotado a umbrosa quadra!
Ó tu contrária sua, o tu dos homens
Sempre invocada amiga, ethéreo Nume,
A quem ceo, terra e mar dão vassallagem,
Onde estás, que não vens com um leve assopro
Trazer serenidade aos elementos?
Se inda és a mesma, e súpplicas te movem,
Sobe ao carro da aurora, os ares fende,
E acode ao Luso clima, onde te invocão.
¿Lembra-te a gruta, a gruta onde Amarilis
De seu ja quasi esposo Umbrano, o astuto,
Acceitou, de sincera, a grave aposta?
Qual era, que o pastor lhe não podia
Dar n’uma tarde tantos beijos, tantos,
Como as folhas do plátano vizinho,
Sendo o premio da aposta inda outro beijo?
¿Aquella gruta, onde ambos consumirão
Um dia teu, a adivinhar a ponto
Todas as graças do primeiro filho;
E só no sexo os votos discordavão,
Porque Umbrano pintava outra Amarilis,
E Amarilis raivosa um novo Umbrano?
Pois n’essa, n’essa gruta os meus amigos
Para hospedar-te um grão festejo tração.
Pôr-se-ha do cedro á sombra altar gramíneo
Com seus flóreos listões, onde c’roados
Te libem vinho annoso e leite puro,
Concertando himnos teus com lira e flautas.
O lavrador da proxima campina,
A estirada cantiga aos bois tardios
Parando calará, para escutar-nos.
Então, então começa o tempo d’oiro,
Folgão no campo os naturaes prazeres,
E a rustica alegria apraz aos deoses.
Aqui, apoz as candidas ovelhas,
Vai trigueira, descalça pastorinha
Aos echos do arredor cantando amores;
Ali galhudo Sátiro se esconde
Para colher alguma Ninfa errante;
Alem com ledos sons retine o bosque,
O riso ferve, as flautas se misturão;
Mais longe, aos pés de mal fingida ingrata,
Se exhalão rogos apiedando as selvas.
Um favonio subtil encrespa as ágoas,
E enfada a Ninfa, que estudava uns geitos
De se enfadar com quem de amor lhe falle.
Priapo brincador gira saltando
Nos jardins, nos vergeis, e nos pomares,
Ramos bate, alvorota o plúmeo bando,
Que foge, mas de Amor não foge ás settas.
Amor e seus irmãos, com o facho em punho,
Lanção tacito fogo a quanto existe.
Junto da verde faia susurrando
Se ouve outra faia um não sei que, tão doce,
Que aos amantes apraz o seu murmúrio.
Do rebanho o marido entre o rebanho
Bala amoroso, e todas lhe respondem:
Pela novilha se enfurece o toiro,
Accomette o rival, goza o triunfo.
Côr de neve, innocentes cordeirinhos
Ja balão na verdura, ja recresce
Maravilhando a serra, a grei profusa
Das erradias cabras saltadoras:
A nova creação corre exultando;
Aquelle foge, os outros o perseguem,
Voltão, saltão, empinão-se, discorrem
Por toda a parte n’um momento o prado;
Cresce o leite, e o pastor a quem ja faltão
Cinchos para o queijar, tarros que o levem,
Lédo se enraiva com riquezas tantas.
Todo o arredor da aldea he movimento,
Contente lida, esp’rança, amenidade.
Porque se hão de calar da infancia os brincos?
A infancia he primavera, he mundozinho
Florente, de que nasce um grande mundo.
Menino á espreita e mudo entre as silveiras,
Apoz o som do grillo o vai buscando;
Outro os ramos envisca, as redes arma;
Prêzo de longo fio ao pé mimoso
Passarinho pelo ar chirla e revoa,
E crendo-se de novo o rei do espaço,
De inconstante creança um dedo o rege.
Um mais travêsso, ás árvores trepado,
Nos ramos se embalança, ou furta os ninhos;
Outro mais atrevido, emvão forceja
Por montar no carneiro, que se escapa,
Fazendo ao longe retinir os bosques
Co’ o crebro som da aguda campainha.
Tenra menina um malmequer desfolha,
E pelo amor da mãi á flor pergunta;
Em quanto seus irmãos vão na corrente
Pôr de cortiça um concavo barquinho.
Na luta, na carreira apostas fervem.
Oh! da infancia do mundo amaveis scenas!
Se inda as virtudes sôbre a terra existem,
Se inda existe o prazer, o socio d’ellas,
He no campo, no campo; e a quadra tua
Nos mostra, ó Primavera, este prodigio.
Mas da fogueira as chamas enfraquecem!
Ja os gallos das proximas cabanas
Vão começando a annunciar-me o dia:
Que som grato! que enlêvo estar sentindo
Por um sereno albor, estes vizinhos
Nuncios da aurora, a cuja voz respondem
Outros aqui e alem, com voz diversa!
Sim, o dia começa: a luz nascente
Pelas fendas do této está brilhando.
Eis-me só junto ao lar! quem sabe ha quanto
Se irião meus bons hospedes ao colmo:
Agora em doce paz lá estão dormindo.
Que breve noite! e he finda; ah toda he finda!
Da fresta, onde cheguei, contemplo os ares,
E claro vejo o ceo, de nuvens limpo:
Mal brilha no horizonte a estrella d’alva.
E os olhos meus (oh dor!) só descobrirem
Como por um véo denso a natureza!
Os montes que longissimo se alcanção
De vinhas e arvoredo entresachados,
O rio ao longe a fulgurar co’as ondas,
Os remotos cazaes da gente humilde
Pelas verdes campinas alvejando,
Não vê-los eu! não ver!... Mas que murmúrio
Sólta a folhagem do loureiro antigo,
Que defronte de mim remonta aos ares?
O Favonio acordou, que hontem de tarde,
Cançado de girar, adormecêra
Junto á cascata no pomar sombrio.
Vai subito partir: em curtas horas
Será comtigo, e te dirá meus versos.
Meus Amores, adeos! adeos meu Nume!
Da Epistola a resposta a vinda seja.
O DIA DA
PRIMAVERA
POEMETTO EM DOIS CANTOS
Índice de conteúdo
Em dois Cantos se divide agora este Poema, para commodo de quem lê. Entendi em apertar melhor que da primeira vez, este feixe de flores, se o he: algumas deitei fóra sem fazerem mingoa; as demais forão refrescadas, e se me não engano mais algum viço ganharão. Puz-lhe com tão boa vontade as mãos como na Epistola: pelo que, sem deixar de ser o mesmo, he outro; he o mesmo no essencial e intrinseco, todo outro no lustre e na toada.
DEDICATORIA
A MINHA MÃI.
Índice de conteúdo
Á maneira das arvores, que acordando do sono do inverno ao bafo omnipotente da primavera, como que ressuscitão com o riso e vida nos primeiros olhos e flores, o meu engenho começa a matizar-se das suas, com a tornada d’estes dias puros e deleitosos aos amigos do campo. As primicias, que d’ellas pude colher, forão para a grinalda que apresentei na Festa da Primavera celebrada com os meus amigos. Depois de a haver tirado do altar da Deosa que governa a mocidade do anno, a quem senão a ti, ó minha Mãi, devêra offerecer esta grinalda? sim: outrem qualquer a engeitára por de nenhum preço; de ti sei eu certo que lhe acharás uma graça especial, mais finas côres, e fragrancias mais suaves: emfim me atrevo esperar que póstos amorosamente os olhos na minha Obra, entenderás, sem o dizer, como eu sinto todo o amoroso da gratidão, ao cuidar em quem me deo alem do ser, a educação, e todos os mais carinhosos desvelos: alguns suspiros e lagrimas, para cúmulo da minha felicidade, serão talvez por ti, ó minha Mãi, espalhados na minha ausencia.
HISTORIA DA FESTA
DA
PRIMAVERA.
Índice de conteúdo
Remontando a vêa do Mondego até obra de um quarto de legua para cima da Cidade, encontra-se na margem do poente um gracioso retiro, selvatico sem aspereza, e como que enfeitado sem arte: dissereis que em hora de contentamento o fizera a Natureza, para algum dia hospedar no regalo d’aquellas suas sombras um ajuntamento de poetas seus. De Lapa dos Esteios pozerão nome ao sítio em dias remotos, segundo soa, os vinhateiros e pomareiros que de umas e outras varzeas do rio costumavão acudir ali por paos, com que estear suas parreiras e arvores derreadas com o pezo da fruta. Ainda permanece o nome, porem ja o arvoredo se não desbarata pelos vizinhos, e a Lapa, de tão solitaria e amena que he, parece a appetecida estancia do Genio da liberdade.
Entra-se por um breve cáes ornado de cinco alterosas arvores, das quaes uma torcendo-se toda para o rio, se debruça para saudar e cobrir com a sua sombra os bateis que chegão. No tôpo do cáes, e fronteira a quem desembarca, se alevanta um genero de muralha nativa de rochedo, rôto em muitos seios. Esta penedia, até aos nove ou dez palmos de altura, sóbe nua e só ornada de sua mesma aspereza; d’ahi para cima, como envergonhada de sua dura condição, se esconde toda com um frontal de heras, que ora resaem como cabeços pendurados, ora se recolhem para fantasiarem la por dentro suas grutazinhas e labirinthos, d’onde ás vezes se estão vendo saír por um cabo e por outro os passaros, que depois de beber e se banharem na vêa da agoa, se empoleirão pelos lamegueiros vizinhos, namorando e cantando a suavidade e fresquidão de suas habitações. Pelo lado direito d’esta aprazivel scena, sóbe uma cerrada espessura de bosque pequeno, onde os olhos se enleão na confusão de troncos e folhagem: pelo esquerdo abre-se para cima uma escada rustica mas commoda, de doze degraos. Tecem-lhe estendido toldo dois lamegueiros velhos, e outras arvores mais pequenas se abração por ali, travadas com mil voltas de hera. Dá esta subida em uma planura sôbre o comprido com seus assentos de ambas as bandas, isto he da terra e do rio, o qual por entre um basto arvoredo, que d’ahi por uma especie de promontorio, vai descendo até lhe metter os pés na corrente, se está vendo a furto transparecer: das primeiras cabeças d’este arvoredo cáe para os assentos uma boa a vedada sombra. O puro e perfumado dos ares, a vária presença da terra e aguas, o susurrar dos ramos abanados da viração, as melodiosas querellas das aves, em summa o natureza enfeitada só de suas mãos, e paz e descanço de deserto, são a fonte perenne dos encantamentos d’este sítio. Uma ladeira suave opposta á escada, e ainda mais sombreada, despede em outro cáes com seus degraos nativos de rocha até á agua. He este menos bem assombrado que o primeiro: não tem relva, nem arvore, nem verdura afóra ada muralha no tôpo, toda velada de musgos, matizados com seus tufos de fetos silvestres, congossas e um sem numero de outras plantas e ervas, sobresaindo a espaços alguns ramos solitarios de figueira brava: mas o que de interior graça lhe fallece, lho compensa a larga vista que para fóra desfruta.
Era chegado o primeiro dia de primavera. Tratado e assentado estava de ha muito entre mim e meus amigos, como iriamos passa-lo juntos, em uma romaria e festa poetica á honra d’aquella mais formosa parte do anno. Não faltavão á volta da Cidade muitos sitios accommodados ao intento, antes não creio que possa haver no mundo outra verdadeira Arcadia, que em tão pequeno espaço resuma tantos: mas d’entre todos coube á Lapa dos Esteios a palma da competencia. De doze se compunha o rancho, todos amigos, poetas e academicos.
Por volta de meio dia, pouco mais, nos ajuntámos com muita alegria e abraços, e todos com as nossos ramalhetes de primavera nas mãos, nos pozemos alvoraçadamente em caminho para o rio, onde ja o barco nos aguardava. O ar estava puro: contra o sol que ardia rijo, nos acudia com refrigerio um pouco vento, que ao mesmo tempo nos fazia mui boa feição para contrastar a corrente. Saltámos e partimos.—Em quanto alguns por um e outro bordo ajudavão o favor do ar com o trabalho de suas varas, repellindo o álveo, e fazendo-nos resvalar mais prestes á medida de nossos desejos, os demais amotinavão ao longe ambas as ribeiras com suas cantigas de amores, entoadas em chusma. A cada momento porem se quebrava por si o canto, para se contemplar e encarecer o muito que a natureza e o artificio podérão e soubérão crear para enlevo de olhos, por ambas aquellas dilatadas margens e campos: pradaria verde e florída, outeiros risonhos, cazaes branqueados, grangearia e recreação de quintas, pomares, hortas, jardins, e mil arbustos curvos por entre choupos e salgueiros até beijarem a agua, esse era o painel em que meus amigos se hião enlevando, e que a mim, que pelo longe que era posto, o não podia nem por nevoas enxergar, me desentranhou algum suspiro, dando-me a sentir no meio da geral alegria alguns momentos magoados, recostado na borda da embarcaçaõ.
Mil couzas pequenas, e por ventura vãs (mas quaes ha que sejão taes para gente moça em dia de júbilo?) matizarão toda esta viagem: taes como a grita que de subito alevantámos ao passar por baixo do arco grande da ponte, aonde as vozes, refletindo do massiço da cantaria, nos ressortião para os ouvidos com uma estranha soada, como que por aquella porta e esteiro estivessemos entrando um mar nunca d’antes descoberto; despedidas á Cidade que de nós se alongava, branca e assentada em seu monte, até que desapparecia, e ás margens que para nós arremettião correndo com seus estendaes, lavradores e rebanhos, para logo nos passarem alem, fugir-nos e perderem-se; a vista de um bando immenso de pombas, que levantando-se espavoridas com a nossa passagem, de um ilheo de arêa onde se estavão a beber e banhar-se, nos atravessarão pela proa e forão derramar-se todas queixosas pela ribanceira vizinha; o ceo a espelhar-se inteiro nas aguas ufanas de retratarem multiplicado o sol da primavera com toda sua magnificencia: semelhantes nadas produzião em somma um genero de felicidade a estes moços Anacreontes viajando, á qual, para de todo o ser, só faltava poder durar.
De instante para instante importunavamos os barqueiros, perguntando insoffridos quanto nos restava do caminho. Cuidava-se ver a Lapa dos Esteios em quantas soledades apraziveis nos apparecião ao longe. Emfim a apontárão com o dedo; levantão-se todos, todos com clamor unísono a saudão. Saltámos logo no primeiro cáes, deixando o nosso barco amarrado a uma arvorezinha, que se algum curioso vier visitar aquelle sitio, he a terceira da parte esquerda. Uns de outros derramados, nos fomos prestesmente por onde o acaso ou a fantasia nos levavão, correndo e devassando toda aquella solidão, que por algumas horas vinhamos povoar: e tornando-nos a ajuntar no alto, onde tão commodos assentos se nos deparavão. “Esta Lapa disse um, para estancia e habitação das Musas parece feita; por aqui as heras pendem de toda a parte!” Sobre o que, se procedeo logo á lição dos poemas que todos levavamos. Aqui usarão meus amigos para comigo de huma cortezia, de que por mais que fiz me não foi possivel defender-me, ordenando-me com seus rogos que os meus versos, para os quaes o ultimo lugar em tal companhia podéra ainda ser de muita honra, rompessem antes de outros aquelle acto. Estes, a que eu pozera o titulo que ainda tem O Dia da Primavera, ja primeiro que o sitio fosse escolhido se achavão feitos, rasão porque não ha que procurar n’elles a pintura d’elle. Concebêra eu um dia de Primavera levado pelos campos em contentamento com aquelles companheiros; tomei de minha livre imaginação o que me pareceo bastaria para o encher; e poetei-o sem me obrigar a nenhuma outra verdade.
Elmiro (que todos havião arcadicamente tomado para si nomes de pastores) assim como a leitura foi rematada, veio para mim com um listão de heras nas mãos, e mo lançou, a todo o poder que eu pude para me escusar, do hombro direito ao lado esquerdo.—Seguio-se Anfrizo, o qual em pé junto de mim, e com uma coroa em punho, recitou uma formosa Ode, toda floreada dos louvores que a amisade lhe figurava poderem-me bem assentar; e chegado que foi á ultima estrofe, me coroou abraçando-me. Tambem a esta honra me foi forçado ceder, com quanto claramente em mim sentisse o muito que vinha mal empregada: a amisade ordenava, o dia era seu, rendi-me. Era a grinalda de artificiosissimo lavor, mui fresca, e tecido de louros, heras e cópia de flores naturaes; guardei-a com ufania e como joia; quizera conserva-la para sempre, mas representava gloria, e minha, murchou, desfez se, largos annos ha que he pó, e pó disperso.
Dado que ja então fosse tal o meu triunfo, qual nem em sonhos de ambição o podéra antever, Josino, a cuja feiticeira Musa ja eu era, muito havia, devedor, inda o subio de ponto, lendo antes de um poema, pequeno em extensão mas grande e grandissimo em merecimento, um elogio a mim em tão delicados versos, que não posso menos de perdoar-lhe a lisonja.
Aulizo[5] leo um longo poema intitulado A Primavera, que todo respirava amor aos campos e á virtude, ataviado de mui mimosas galas poeticas, e de mui particular doçura e sabor para os ouvidos: nem se cuide que sangue ou amisade ou vãgloria me fazem fôrça para o dizer, que antes o dissimulára eu, se o ser irmão e amigo fossem partes para, quando a todos os mais vou distribuindo seu preço, lho sonegar a elle; e ainda assim talvez o não ousára, se tão boas testemunhas não valessem a confirma-lo.
Foi esta leitura interrompida de uns sons de flauta, que por cima das cabeças, e de mui perto nos vinhão: era o meu caro amigo, Horacio portuguez, José Fernandes de Oliveira Leitão de Gouvea, que alvoraçando-nos e alvoraçado, nos apparecia ao cimo da curta escada que da Lapa sobe para a Quinta das Canas, que lhe fica sobranceira. Forão tudo clamores de alegria, recebendo entre nós, poetas todos verdes, o nosso decano e patriarcha; cercámo-lo com abraços, das mãos lhe furtarão a flauta, foi levado de repente a todos os recantos do nosso Parnaso, contando-lhe todos á uma o que até ali se passára, que vezes se fallára n’elle, e se desconfiára de sua promettida vinda. Este homem amavel, jovial, incapaz de estudadas gravidades, dado e corrente com todos, bom sem merecimento de esfôrço, filosofo sem o cuidar, coração que ainda não saío nem ja agora sairá da infancia, homem só comsigo parecido, que a ninguem imitou nunca, nem de outrem será nunca imitado, e cuja vida, se alguem soubesse escrevê-la, sairia tão original e unica como elle mesmo, este digo, nascido para ser alma de qualquer ajuntamento moço e alegre, tomou para logo seu quinhão na Festa. Deu-se fim ao poema interrompido com a chegada do novo socio, que muitas outras vezes o tornou a interromper com applaudir e abraçar o poeta. Josino, que assim como o ouvia fôra entrançando uma coroa de hora da arvore mais chegada, mal que o ultimo verso expirou, se foi com ella, por entre as palmas de todos, premiar a fronte do cantor.
Elmiro, que de apoz se seguio, nos cativou as attenções com um poema de muita invenção e belleza, aonde outra vez a amizade me brindou com perfumes seus, para os não dizer da lizonja. Igualmente o coroámos; e outro tanto se foi fazendo aos demais, que recitarão poemas mais breves ou traduções.
Salicio[6] repetio uma mimosissima tradução livre de uma parte da Primavera de Thompson: Albano, uma tradução em lindas quadras do Idillio Primavera de Gessner: Francilio, uma tradução em proza de Utz, que leo de pé com o copo em punho, e rematou com um brinde: Franzino uma versão da Primavera de Cramer: cerrando-se finalmente este rico banquete poetico com mais de quatrocentos versos de um poema de meu irmão José Feliciano de Castilho, que pelo muito menino que ainda áquelle tempo era, não foi dos menos vitoriados.
Todos estavamos coroados, e o rancho se espalhou. “Ja la vai o sol abaixo; os seus raios apenas tocão ja os cumes dos outeiros d’alem: aproveitar o tempo!” bradarão alguns amigos da borda de uma eira que dominava a Lapa: e todos sentimos que a tarde nos hia insensivelmente escapando. Então ao som da flauta do nosso Horacio, começarão todos de dançar e saltar, e as aves incitadas da musica, levantarão mais alto os gorgeios da tarde. As folhas das heras, que por ali guarnecião todas as arvores, e algumas flores voavão ás mãos chêas como em chuva, de uns contra os outros. De quando em quando se alevantava alguma voz inculcando, porque o fossem todos ver, algum particular gracioso e ainda não observado d’aquelle sítio. Chamando Aulizo pelos outros, lhes fez notar do cáes mais arido, o como o rio d’ali visto, á conta de sua curvidade se afigurava lago cercado de collinas desiguaes, coroadas e semeadas de larangeiras, oliveiras e pinheiros, e cazaes alvejando, enxergando-se mais a longe, e por entre estes, outros outeiros, quasi a se desvanecer na distancia e sombra da tarde. Debuxava eu no animo toda aquella scena saudosa; saía-me o quadro maravilhoso, mas era por ventura verdadeiro? não o sei.
Uma merenda saborosa nos appareceo de repente e como por encanto: Elmiro fôra o magico providente. Toalhas brancas de neve estendidas no cáes do desembarque, forão povoadas de primorosos manjares, garrafas ja de dias, e copos coroados de verdura: uns rolos de arvores estendidos em quadro nos valerão de assentos: dois meninos gémeos, vestidinhos da branco, erão os Ganimedes do nosso banquete folgazão. Parte assentados, parte reclinados em diversas posturas, outros por entre estes girando com os copos e pratos na mão, boas descaídas, descuidos a tempo, apontadas graciosidades e risos do íntimo, brindes com o copo alto na direita, enviados a mui longes e mui diversas terras (que não havia um só que da sua não padecesse ausencia e se não finasse com saudades), outras saudes ora mais ora menos sumidas, a objetos nomeados umas vezes e outras não, mas mui bons de adivinhar pelos suspiros e geito do saudador, a voltas e proposito d’isso narrativas e contos para folgar, musicas alegres de flauta mil vezes começadas e outras tantas interrompidas, e outros muitos nadas com que a penna se não atreve, convinhão em aprazivel mistura para encantar a ultima hora da Festa da Primavera.
Posto era o sol, mas o ceo ainda não carregado de noite: havia-se de partir, faltava o animo para o fazer; instavão os barqueiros, crescião n’elles a rasão e o importunar, acabárão comnosco que nos rendessemos. Despedidos os amorosamente da Lapa ja áquella hora entranhada de escuridão temerosa; com os pés ja postos na beira da agua, nenhum queria ser primeiro que trocasse terra de tanta festa, por um barco que nos hía tornar para onde vida de proza e cuidados nos aguardava: senão quando, levantando o bom Gouvea a voz, com ella suave e chêa que se hía por aquellas margens alem, começa de cantar A minha Lilia morreo; improviso seu, chêo de uma branda tristeza, que aos cançados e não fartos de gozar costuma ser segundo gozo. Assim hia elle até n’isto imitando o seu Horacio, que nos poeticos festins que dava ao Genio da alegria, nunca se esquecia com seu quinhão de pensamento para a morte. Profundo era o silencio que de toda a parte cercava o nosso cantor; só se ouvia o murmurio baixinho da corrente.
Não havia quem nos apartasse: por derradeira vez nos tornámos ainda á Lapa, travou-se uma dança por despedida, e fez-se uma saude geral ao lugar e ás trez Graças que ali costumão a vir muitas vezes[7], até que emfim nos embarcámos, com as nossas coroas na cabeça. Foi aos barqueiros defendido usar de vara, antes se lhes encommendou que nos deixassem embora ir, tão mansa e perguiçosamente como á vêa mal desperta do rio parecesse, e ainda n’aquelle pouco descer das aguas houvéramos nós tido mão, se podessemos.
Pareceo bem, para atalhar a confusão de tantas vozes como as que ali fervião juntas, nomear á maneira do Rei do vinho nos festins dos antigos, um que nos governasse. Este foi Gouvea por acclamação unanime. Lembrou um que d’ahi ao deante nos ficassemos uns aos outros dando o tratamento de confiança, que a boa amizade consente e requer: approvou-se. “E quemquer que a esta lei desobedeça, haja-se por expulso da Sociedade dos Amigos da Primavera.” Approvou-se com alvoroço; levantarão-se todos abraçando-se, apertando-se entre si as mãos, e dando-se entre risos o tratamento novo tão amiudado para lhe quebrar a estranheza, que ninguem se entendia.—“Todos os Socios (gritou outro, e de novo se fez silencio) hão de conservar até que o tempo as destrua, estas suas coroas, se não monumentos de gloria, penhores certo que mais vale, de horas felizes:” approvou-se por lei o que ja todos levavão no coração bem votado. Suscitou-se depois que recitasse cada um segundo a ordem dos assentos, alguma sua poesia breve, e que mais lhe parecesse accommodada á occasião. Não faltárão aqui seus debates, lembrando uns como apoz tanto recitar, tinha a cantoria muito melhor cabida do que os versos nus, outros affirmando que a flauta melhor que nenhuma outra cousa diria com a hora, sítio, e calada grande do rio: até que um veio conciliar a diversidade dos pareceres, dizendo que umas couzas não tolhião as outras, antes podião ir todas a revezes tendo seu lugar: o que assim se cumprio.
A serenidade da noite junta com as saudades do dia, nos fez achar inefavel doçura nos sons da flauta, que parecião modulados pela melancolia, e se esvaíão ao longe nos ares. Se ás vezes o acaso nos levava mais para uma das margens, uns frouxos echos chêos de doçura a tristeza se comprazião de repetir a musica e as palmas com que a nós applaudiamos. Emquanto um só cantava em meia voz, e nós o ouviamos calados, a face na mão, e meio reclinados contra o rio, suave nos era escutar como as quasi insensiveis ondas, com som muito mais baixo nos vinhão beijar os lados do batel, d’onde, se fugião partindo, com um murmurinho saudoso.
Descemos em terra, e abraçando-nos repassados de igual amizade, e das mesmas lembranças, votámos logo ali nova Festa em honra do primeiro dia de Maio, a qual se veio a fazer, como ao deante o declarará o volume: e todo esse meio tempo de uma até á outra, foi tecido de doces memorias, fantasias poeticas, tenções e esperanças de prazer.
Assim se podia e sabia ainda então passar dias mansos, innocentes e bemaventurados!
Lisboa: 2 de Janeiro de 1837.
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