Kitabı oxu: «Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV»

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Antonio José Coelho Louzada

Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066409791

Índice de conteúdo

OS

TRIPEIROS.

ROMANCE-CHRONICA DO SECULO XIV.

POR

A. C. LOUSADA.

I.

A mensagem do Mestre.

II.

Um rapaz travesso.

III.

Os Velhacos.

IV.

Dous namorados.

V.

Irene.

VI.

Causa publica e cousas particulares.

VII.

Recontro de Leça.

VIII.

Torneio.

IX.

Garifa.

X.

Uma idea.


OS

Índice de conteúdo

TRIPEIROS.

Índice de conteúdo

ROMANCE-CHRONICA DO SECULO XIV.

Índice de conteúdo

POR
A. C. LOUSADA.

Índice de conteúdo

PORTO: TYPOGRAPHIA DE J. J. GONÇALVES BASTO,
LARGO DO CORPO DA GUARDA N. 106.
1857.




I.
A mensagem do Mestre.

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Alteradas estão do reino as gentes Co' o odío que occupado os peitos tinha.

camões, lus. cant. iv.


Era uma estranha romaria, para quem não tivesse noticia dos alvoroços a que a morte de Fernando 1.º e o casamento de Beatriz em Castella tinham dado causa, a que pelos meados de Maio de mil trezentos e oitenta e quatro sahia pelas portas da cidade do Porto que davam sobre o rio, e mais pela chamada Porta Nova. Se fosse facil conduzir o leitor a vêr do alto das torres que a defendiam aquelle gentio, acreditaria que elle tinha invadido algum arsenal a procurar disfarce entre o guerreiro e o burlesco. Um popular cobria a cabeça com um elmo adamascado, e, mostrando os joelhos através do grosso estofo das calças, com pés descalços pisava a areia onde o montante que arrastava deixava um sulco; um outro, parecendo ter em menos conta a cabeça do que o peito, abrigava este em uma couraça mais que farta, e deixava aquella ao sol e ao vento; este, vestindo apenas umas calças, se assim se podia chamar um cirzido de trapos, trazia suspenso de funda um escudo de couro, onde em tempos estivera pintada ou divisa ou brasão, pois não era já facil adivinhar o que fôra; de um cinto leonado pendia de um lado um estoque, do outro um punhal, e, como se não bastassem estas armas offensivas, empunhava um chuço enorme; aquelle levava um bacinete amassado e um gorjal ferrujento, e tinha por cinto de grosseira jornea uma funda, o provimento da qual, como se não fôra uma arma facil de encontrar a cada passo, pesava em um sacco lançado aos hombros. De tempos a tempos o bom povo, como lhe chamava o mestre de Aviz, abria aqui logar a um cavalleiro acobertado de ferro desde os pés á cabeça, seguido dos seus pagens, ou escudeiros, alem a outros mais exquisitamente vestidos pelo antiquado das armas, ou pelo incompleto. Havia capacete que, se Cervantes o visse, não o deixaria ser original descrevendo o que deu ao seu heroe no principio das perigrinações; peitos de aço polido, espelhando o sol, que disparatavam com umas grevas desconjuntadas, enegrecidas, remendo visivel; feixes de armas que desdiziam umas das outras pelo valor, casando-se a facha grosseira com um estoque cuja bainha acobertavam ornatos de prata, montantes de Toledo e adagas grosseiras. Os cavallos iam uns cobertos de ferro, outros apenas com os arreios necessarios para se poder cavalgar, e não poucos dos cavalleiros, e aos pares até, montavam em mulas. Os cidadãos que assim sobrecarregavam os pobres animaes, costume vulgar por esses tempos e por muitos outros, vestiam em geral a garnacha negra, distinctivo dos doutores e physicos. Com este mesmo traje, porém arregaçado pela ponteira da espada, deixando vêr a calça de duas cores e o borzeguim ponteagudo via-se tres ou quatro aspirantes áquella distincta classe de medicos e letrados, e com elles alguns monges, que tambem se mostravam affeitos ás armas pelo modo como seguravam o punho da espada e cobriam a tonsura com o bacinete. Um dos cavalleiros mais bizarros da romaria era tambem um ecclesiastico; pelo menos assim o demonstrava um roquete, que sobre armas soberbas vestia em vez de brial.


De burlesco para a gente que guarnecia as muralhas, as torres, os eirados e soteas nada havia nesta procissão; de marcial havia muito, tudo, a avaliar pelo enthusiasmo com que a saudavam, e pelos vivas que se juntavam ás saudações. Tinha decorrido uma boa hora desde que correra na cidade que umas galés demandavam a barra, e, posto que houvesse quem affirmasse logo que eram portuguezas, como dos de casa havia tanto a recear como dos extranhos, todos se tinham prevenido para as receber. Um pagem levara já a Ayres Gonçalves e ao bispo D. João a nova de que eram expedidas pelo mestre de Aviz; porém estes senhores eram então authoridades quasi nominaes, e deixavam por tanto, para não perderem o tempo, fazer a sua demonstração aos bons populares e aos cavalleiros que não eram de suas casas, creação, ou serviço.


Ideia de que no seculo decimo quarto era uma guerra civil, acompanhada de uma invasão estrangeira, nem todos os que passam os olhos por este capitulo farão. Hoje hasteam-se duas ou tres bandeiras, ou mais, se quizerem, mas, o primeiro impeto passado, a machina civil lá vae funccionando peor ou melhor por conta dos governos provisorios; naquelles tempos, porém, ninguem se entendia por vezes. Cada fidalgo levantava o seu troço de gente e vendia e revendia a espada; hoje era ao serviço de um, ámanhã ao de outro; os alcaides dos castellos, a maior parte dominando as povoações principaes, juravam preito e perjuravam todos os dias, e as municipalidades lançavam, bom ou mau grado, pela manhã um bando em favor de um monarcha e á tarde acclamavam outro. No meio desta bella ordem havia caudilho que dava em ambos os partidos belligerantes, e sobretudo nos pacificos, aventureiros que se batiam por si e para seu proveito. Na menoridade do pae do regedor, como modesta e arteiramente se appellidara o irmão bastardo de D. Fernando, e em quasi todos os reinados antecedentes, a provincia de Entre Douro e Minho tinha tido a sua amostra destas amabilidades; mas o que a gente da ordem chama revolução e revolução politica não estalara em tempo algum como agora. Até ahi o povo contentara-se, salvo um ou outro caso, com evitar a ponta da lança dos nobres senhores e o virote dos seus homens d'armas, e ainda mais de lhe franquear as arcas e de correr os cordões da bolsa, o que raras vezes conseguia. Os burguezes do Porto, o mais desenquieto povo de toda a provincia e do reino, tinham já dado mostras da sua força aos bispos Martinho Rodrigues e Vasco Martins, porém, nestas revoltas se entrava politica era acobertada: elles não davam por tal. Desta vez o exemplo da capital fôra-lhes contagioso, e mesmo sem tão bons motores como Alvares Paes, desempenháram a sua tarefa por tal arte, que se póde dizer, que a lei por que se governavam era a sua. Ayres Gonçalves de Figueiredo, o governador de Gaya admirára da outra margem a valentia dos pulmões dos partidarios do novo governo, e, posto que não estivesse bem seguro das suas ideias quanto á legalidade da regedoria, e preferencia de direitos do mestre de Aviz sobre os do infante, dos deste sobre a irmã, ou vice-versa, para não lhes avaliar as iras tambem, contemporisara, soltando as mesmas acclamações. Na cidade havia um cahos. Os vereadores, governavam; governavam os juizes do povo e o juiz real; governavam os chefes das corporações; governava, porém menos, o bispo e os seus meirinhos; governavam até, ou mandavam, os prisioneiros, ou tidos por taes, como era o conde D. Pedro de Transtamara, que no campo de Coimbra tivera as suas aspirações á coroa de Portugal, e a ser o terceiro marido legitimado de Leonor Telles; finalmente, mandavam todos, se a mais ninguem fosse, cada um a si.


Do pequeno povoado que ficava extra-muros, composto de uma mescla de armenios, que nove annos antes tinham deixado cahir o throno de Livonio, o seu ultimo rei, aos golpes de espada do sultão do Egypto; de gregos da Asia, escapados á furia dos soldados de Amurath; de flamengos e genovezes aventureiros, de mouros, os cultivadores da encosta em que o bairro se abrigava; da pequena povoação, do bairro Armenio, augmentado ainda depois da tomada de Constantinopla com os piedosos guardas de S. Pantaleão, ajuntava-se á procissão sahida da Porta Nova uma chusma de curiosos, que pela variedade de vestuarios, lhe vinha dar realce. Como em taes casos succede, toda esta gente se embaraçava na marcha, peões a cavalleiros, cavalleiros a peões; todos fallavam, todos tomavam e davam concelho, e perguntavam por novas de que iam dar ao primeiro encontrado uma versão correcta e augmentada com reflexões de lavra propria e extranha. O espaço que se estendia desde os muros até onde a Arrabida deixava apenas um caminho de cabras, aberto na rocha para quem se quizesse dirigir á Foz do Douro, não foi pois transposto em menos de uma hora, pela vanguarda: uma grande parte do exercito popular nem lá chegou. Os primeiros que encontraram uma das galés subindo o rio, gritaram para os tripolantes que lhes dissessem por quem vinham, e como estes respondessem que pelo Mestre, sem mais attenderem, voltaram atraz, dando vivas, como se fosse aquillo reforço inesperado, que os viesse tirar de apuros.


Nas galés não vinha reforço algum para os do Porto, unica terra de importancia ao norte do reino, que não acceitára como rei o marido de Beatriz, e tinha a braços setecentas lanças e dous mil infantes do arcebispo de Santiago e de outros senhores castelhanos e portuguezes, sem contar os aventureiros de Fernando Affonso, que não eram nem uma cousa nem outra.


D. João de Castella, feita em Santarem a cessão dos direitos á coroa por D. Leonor, a troco de vinganças promettidas no povo de Lisboa, que a respeito della e em rosto esgotára um vocabulario immenso de nomes, de que Fernão Lopes dá uma amostra, e a mimoseára com pedradas; D. João, resolveu-se, senão a cumprir o ajuste, pois se malquistára com a ambiciosa sogra por causa de dous judeus, a destruir a rebellião, como elle lhe chamava, no fóco, e avançára até o Bombarral, ao passo que aprestava uma armada que, fechado o assedio por terra, cerrasse tambem as communicações por mar.


Os arredores de Lisboa talados, as povoações saqueadas não podiam abastecer de viveres os sitiados; entre elles e Coimbra estavam os arraiaes inimigos, portanto recorria-se ao Porto, pedindo tambem um reforço de navios para impedir que o Tejo fosse bloqueado. D. Lourenço, arcebispo de Braga, azafamára-se para armar as galés que deviam levar estes soccorros, e o mestre de Aviz encarregára Ruy Pereira de uma missiva, em que aos bons burguezes se promettia mil regalias; pois D. João acceitára o conselho de dar tudo o que lhe fosse possivel dar, e prometter até o impossivel.


Os vivas e o appendice a todo o enthusiasmo politico de morras, naquella quadra aos castelhanos, aos traidores e aos scismaticos, prolongaram-se até que as galés em que vinham Ruy Pereira e Gonçalo Rodrigues vararam perto dos muros da cidade e principiou o desembarque destes e outros illustres personagens, e ainda maior foi a algazarra quando o estandarte real appareceu. O conde de Transtamara, como primo do rei de Castella, não era dos coristas mais fracos deste grande côro desafinado, e fôra dos primeiros cavalleiros que se apearam para receber os reaes mensageiros, com toda a cortezania. O povo sem fé naquella conversão e pouco acatador nesse momento das esporas de ouro, das cotas bordadas e cimeiras historiadas; o povo, deixando escapar desses epygrammas de que elle possue o molde particular, em vez de lhe abrir caminho, cerrava-se na sua passagem, fazendo perder ao fidalgo o aranzel lisongeiro que tencionava prégar a Ruy Pereira. Ruy era uma notabilidade, como hoje se diz; porque então ainda se não tinha inventado as notabilidades, nem muitas outras cousas. Desde que explicára ao mestre de Aviz a opinião do povo a respeito da rainha Leonor, notando que quando andava para casar com sua mulher, fallavam todos em que se queria casar com Violante Lopes, e depois de casado ninguem mais de tal fallára; depois, sobretudo, que déra o golpe de mercê ao conde valido, abaixo de seu sobrinho, dos homens de espada com valimento na côrte, era o primeiro, e para quem estava nas circumstancias de D. Pedro, portanto, pessoa que era prudente lisongear.


Já então, como se verá no decurso desta narração, se attendia a conveniencias.


Em quanto os mesteiraes e burguezes embaraçavam o conde, Martim Gil, abbade de Paço de Sousa, substituia-o dignamente com duas rajadas de latim, a substancia do todo, que o mensageiro perdeu por não entender a lingua de Cicero, e uma enfiada de periodos em portuguez garrafal, que entenderia perfeitamente, se a algazarra tivesse cessado. Ruy Pereira satisfez-se com vêr abrir e fechar a bocca ao reverendo, e respondeu a toda esta eloquencia, fazendo-lhe um ponto no meio do recado, perguntando onde havia de pousar. Martim Gil indicou-lhe todas as boas casas da cidade desde os paços da Sé e o convento de S. Domingos, até algumas das vivendas particulares, e o tio de Nuno Alvares escolheu S. Domingos, mostrando mais pressa de descançar dos encommodos do mar, que de dar conta da sua missão. O abbade tentou então dar á entrada na cidade dos passageiros e tripolantes da galé de Gonçalo Rodrigues, e das outras que iam aproando ao longo da praia, um todo processional, porém luctava em vão; que era até difficultoso fazer desembaraçar os sitios de desembarque, onde o povo se apinhava, se acotovallava sem dar descanço ao pulmão. O Douro não tinha ainda, nas suas soberbas, arrojando as terras roubadas nas campinas d'encontro á praia; tornado esta tão larga como hoje; nem os homens haviam com parapeitos avançado sobre o leito daquelle. O espaço existente logo além de portas, onde havia povoado, era tão limitado, que, a distancia, parecia que as edificações tinham para a agua serventia, como os da cidade das lagunas, a rainha do Adriatico; o estado de exaltação, e animo revoltoso ou independente dos burguezes e vilões, porém, até em logares mais espaçosos tornava difficil a empresa do abbade.


Ruy Pereira, apesar de ter presenceado em Lisboa a revolta popular, fazendo-se popular elle mesmo, não o era tanto que levasse a bem aquella sem-ceremonia dos portuenses, e lançando sobre os mais proximos um olhar pouco amavel, reprimindo a custo a vontade que tinha de mandar abrir caminho a prancha de espada e conto de lança, lamentava in mente os bons velhos tempos—que já então havia bons velhos tempos—em que a cousa «peão» descortinando a vontade no gesto de um rico homem, logo obedecia sem mais tugir ou mugir.


Graças á intervenção dos juizes do povo e real, que, avisados da chegada dos navios e de quem eram as pessoas que elles conduziam, vinham para as accommodar em pousada decente e fazer todas as honrarias, que em tal caso competia, o embaraço terminou. As tres authoridades, duas municipaes, uma real, duas de muros a dentro, outra ribeirinha, foram felizes, deve-se confessar, naquella occasião, por não haver conflicto de poderes, nem recalcitração dos governados, o que era raro, e deveram esta felicidade a estar satisfeita a curiosidade dos burguezes, e não ser preciso empregar barqueiro ou pescador algum na amarração dos navios. A procissão começou pois a mover-se pelas estreitas ruas da cidade, e, em vez de parar em S. Domingos, seguiu até á casa da camara no meio sempre de grandes acclamações ao mestre de Aviz, defensor e regedor do reino, e morras aos castelhanos herejes, scismaticos e traidores, o que fazia tragar sem réplica a Ruy Pereira o ceremonial amofinador a que o submettiam os edis portuenses, e a pressa que tinham de saber em que podiam servir a sua senhoria, o futuro rei.




II.
Um rapaz travesso.

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He elle um par bem 'scolhido.

gil vicente.—v. da horta


Quando o mensageiro do Mestre era processionalmente levado pela porta, que tempos depois deu a um poeta com o nome um trocadilho para um requerimento em verso, no marulhar de curiosos e patriotas que se empuxavam, forcejando por abrir caminho para aquelle gargalo, um burguez que tornava respeitavel o sizudo do traje, uma barriga proeminente, onde batia uma gorda bolsa de couro e um esguio punhal, cabello branco, patrioticamente cortado, luctava para não ser levado na corrente, dando mostras pelo inquieto do olhar que procurava alguem. A força da corrente era grande, porém, e arrastou-o pouco a pouco até junto de uma das torres de defesa, onde a ressaca o fazia tomar todas as direcções e posições possiveis no meio dos gritos das mulheres abafadas, das crianças trilhadas, do estalar das armaduras, que, permitta-se a imagem, eram os crustaceos que as ondas daquelle mar lançavam d'encontro ás rochas. Mestre Gonçalo Domingues suava por todos os póros e formava com os cotovellos um amparo ao abdomen e quebra-mar á maré, receando ser lythographado no muro, resmungando ao passo uma ladainha contra o causador daquelle desastre, segundo se lhe affigurava, um sobrinho que o acompanhára momentos antes, e que perdera de vista. Resolvido já a deixal-o por sua conta, pois não estava já em edade de se perder, e a escapar-se daquelle aperto, começava a recuar, servindo-se dos cotovellos como de uma alavanca, quando sentiu umas mãos callosas pousarem-lhe no hombro, sustendo-o na marcha. Sentindo aquella resistencia, sem vêr quem a oppunha, pois lhe era impossivel voltar o rosto, e receando de novo ser levado para o muro, empregou contra o individuo que assim lhe cortava a retirada um cotovellão, que estava na razão directa da força que o impellia: tudo isto acompanhado por uma praga:


—Más terçãs te colham, cabeça de bogalho!


A praga a meio, e uma das mãos a erguer-se a descer fechada em murro, estourando no costado de mestre Gonçalo Domingues, que soltou um regougo, cambaleou e perderia de certo o equilibrio, se um mesteiral, que estava na frente, o não amparasse na queda. O burguez, incommodando com o peso o seu primeiro ponto de appoio, este o saccudiu para um dos visinhos, que o recambiou sobre o homem do murro, appresentando-lh'o de cara.


—Se te apanhára aqui, maldito! tornou a exclamar mestre Gonçalo, soltando outro gemido: punha-te as orelhas a fumegar. Tu m'as pagarás!


Esta exclamação a meia voz, dirigida ao ausente sobrinho, foi interceptada a meio pelo homem de murro, um marinheiro, que, vendo o rosto afflicto do bojudo cidadão, se contentou com dar-lhe um grande encontrão, resmungando, como goso que vê em perigo o osso que esburga:


—Pois junte lá mais isso á conta, meu baleote.


Mestre Gonçalo estava affeito a ser mais bem tractado intra-muros: doeu-se da chufa dirigida ao seu physico pelo maritimo, e fez-se mais vermelho do que estava; fez-se roixo, se póde dizer, desde a raiz do cabello até aos queixos, mas não reagiu. A sua indole era pacifica, apesar do punhal que o acompanhava; e demais, não via perto de si senão caras desconhecidas e rostos queimados pelo ar do mar, que podiam ser de vassallos da coroa, e estes, posto nessa occasião estivessem em harmonia com os vassallos da mitra, e já um pouco apagadas as divisões antigas, era de crêr que por elle não tomassem partido. Comtudo, não se ficou, sem responder:


—Se não está bom, deite-se, ou vá travar razões com petintaes, espadeleiros ou outra gente da sua egualha; não se metta com quem não se mette comsigo.


—Olhem o outro! resmungou o marinheiro; abalroou-me com os cotovellos pelos peitos, e diz que se não mette com a gente; traz aquella cara que parece mesmo um odre a rever, e grita que um homem cá está toldado!


Gonçalo Domingues, doendo-se da nova zombaria, tornou mais apropriada a imagem do marinheiro, e cerrando os punhos exclamou:


—Veja como falla!


—Graças a S. Pedro; meu advogado, redarguiu o homem do mar, levando a mão ao barrete—não é facil de dizer se em attenção ao santo-apostolo, se em cortezia zombeteira, pelo esgar que fez, ao senhor Gonçalo—graças a S. Pedro, fallo sem trave. E não me faça biocos nem arremessos, accrescentou com ar mais carregado: que, se me sobe a maré aos cascos?!...


—Que é lá isso, mestre Gonçalo? perguntou quasi ao mesmo tempo um cidadão de pouco menos edade que o interrogado.


—É este excommungado, que se metteu onde não era chamado, e me poz a paciencia em maior apuro do que já a trazia.


—Excommungado é elle! resmungou o marinheiro, recambiando o apódo que lhe fôra dirigido, e fitando ora o novo, ora o antigo interlocutor.


—Olhe, mestre Gil, tornou o burguez rubicundo, dirigindo-se ao recem-chegado; ia eu amofinado por causa daquella cabeça de vento de meu sobrinho...


—E que tenho lá eu com seu sobrinho? tornou o marinheiro.


—Isso mesmo queria eu que me dissesse! acudiu o senhor Gonçalo.


E, voltando-se para o seu collega, continuou:


—Ia eu, como lhe dizia, amofinado, porque o maldito do rapaz se me escapou—ora sei eu lá para onde!—e não sei que digo de mim para mim, quando essa creaturinha, como se não tivesse da sua egualha mais com quem desenferrujar a lingua, travou-se de razões...


—Isso nada vale, mestre Gonçalo! atalhou o homem a quem vimos dar o nome de Gil, dirigindo-se para o galeote, que lhe voltou as costas, fazendo uma careta muito expressiva para um companheiro, que, com uma mão pousada no hombro delle, parecia, na posição que tomava, querer dizer que alli estava para ir em seu auxilio, se preciso fosse, que não era.


O gordo burguez, vendo o antagonista voltar-lhe as costas, desafogou contra elle, com o seu amigo, a cholera, que o ameaçava com uma apoplexia; e em seguida desafogou tambem a respeito do causador, o estouvado sobrinho, que desapparecera. Apesar de ter escoado a multidão pela porta da cidade, de estar já desembaraçado o transito, á volta dos altercadores havia uma reunião de curiosos, como de costume, cujo nucleo era uma boa duzia de garotos pertencentes, pelo que dos trapos vestidos se divisava, a tres religiões; pelo typo, a tres raças, e ao qual se juntavam por um segundo, que mais não fosse, os arrastados daquella procissão e todos os que por alli o acaso conduzia. Uma velha que regressava aos lares com os aviamentos para a ceia, comprados na tenda d'ao pé da porta, soalheiro do bairro, não escapou, apesar de carregada, á força attrahente das lamentações de mestre Gonçalo; e, sabida a causa destas, se appressou em dar-lhe remedio.


—Quer saber do seu sobrinho que esteve no convento, mestre Gonçalo? Bem se vê que o rapaz não tinha queda para os latins e o hábito; aquillo é um levantado! Tome sentido com elle, mestre! Agora o vi eu a correr pela bitesga que vai por pé da casa de João Ramalho. A modos que elle...


A reflexão da velha, se na phrase ficou incompleta, não o ficou no gesto. A traducção deste era que o rapaz começava a inclinar-se ás saias. (Como demos a traducção, ajuntaremos, em nota intercalada no texto, que a boa santinha parecia, no ar malicioso que tomou, recordando-se dos seus tempos, ter delles saudade.)


Gonçalo Domingues, sem mais attender á mulher da alcofa, tomou a direcção do sitio indicado como o seguido pelo sobrinho, resolvido a descarregar nelle o mau humor excitado pelo seu desapparecimento, pelos apertões que levára, o cortejo que perdera, e, sobretudo, os apodos e murros do galeote. Em quanto para lá se dirige, ruminando aquellas passadas attribulações, saibamos o que fazia o travesso rapaz.


Como já viu o leitor, no antecedente capitulo, no tempo em que estas cousas succediam, as habitações, em Miragaya, estavam mais perto do rio, ou melhor, o rio corria mais perto das habitações. Entre S. Pedro e os muros, havia, no espaço que abre a montanha, algumas bitesgas, de que ainda se conserva uma amostra, povoadas umas, outras correndo entre cercados e muros; em outros sitios, um fraguedo deixava apenas o logar preciso para algum carreiro não muito viavel. A povoação cerrava-se, apinhava-se mais para o pé da velha egreja de S. Pedro, e rareava progressivamente para o oriente e poente. Perto dos muros, havia tão sómente uma fieira de casas á beira d'agua; depois o declive rude do monte onde se edificou o convento dos Agostinhos, coberto de silvados e matto, que vinha angustiar mais o passo para a cidade. Onde se tornava mais suave a encosta, subia um carreiro, que, depois de serpear por detraz de algumas das moradas do bairro do rei, se bifurcava, levando um braço a uma daquellas ruas, lançando outro pelo monte, serventia a casaes que se communicavam egualmente com a cidade pelo lado do Olival. Por este carreiro é que tomára Fernando, ou Fernão Vasques, o sobrinho do senhor Gonçalo Domingues, mal viu absorvida a atenção deste nas galés reaes e seus passageiros. O rapaz correu por algum tempo sem tropeçar, para o que preciso era estar bem affeito a trilhar similhante caminho, e só affrouxou o passo quando se approximava de uma casa de boa apparencia, cuja frente dava para a praia, habitação de uma das notabilidades do bairro, e que o foi depois, na historia, do piloto e mercador João Ramalho.


A casa para o lado do rio nada appresentava de notavel na fachada: era um edificio de madeira como muitos dessa epocha; para o lado do monte, porém, era bastante pictoresca. A parte inferior escondia-se em uma moita de arbustos de um pequeno cercado, onde tambem se levantavam algumas arvores de fructo, uma das quaes, rompendo, com um braço lançado á flor da terra o muro de pedra insossa, saccudia sobre o caminho a folha, a flor e mesmo o fructo, se a gula dos garotos esperava pelos effeitos do tempo. Acima do verde dos arbustos descortinava-se uma varanda de pau, onde, no parapeito, davam passagem ao ar e á luz aberturas symetricas, figurando folhas de trevo, e na parte superior, zelozias em xadrez, tudo pintado de encarnado vivo e verde esmeralda, com que realçava o branco que tingia o tabique. De ambos os lados da varanda descia uma escada, cujos maineis se perdiam entre os arbustos, depois de se ligarem em um patamar, ao centro, para de novo se separarem, formando da sorte um corpo saliente na fachada. Por cima da varanda abriam-se duas janellas, todas lavradas, ornadas de zelozias tambem, e tendo por baixo, sobre traves salientes, em cada uma das quaes artista rude esculpira um animal sonhado, dous caixões com terra. Em um, apar do qual duas longas canas formavam um estendal, onde se via roupa a seccar, a providencia domestica semeára salsa e a precaução contra feitiços dispozera um pé de arruda; no outro, havia um pé de amores perfeitos e outro de madresilva marinhando por cordões passados para o guarda-chuva de madeira que os abrigava.


Quando Fernando Vasques se aproximou da casa, depois de alguns assobios, entre a trepadeira e por cima dos amores, appareceu, aberta a zelozia, uma cabeça bem propria para encaixilhar entre aquellas flores. Imaginae um rosto oval, de uma carnação que se não podia dizer branca, mas a que se não podia chamar trigueira, porque o não era; uma pallidez, sem ser dessas que denunciam uma natureza enfesada, doentia; uma pallidez que lhe dava um todo de brandura, de carinho, que fazia por vezes realçar um carmim vivissimo e trahia um olhar travesso, de travessura infantil, innocente; imaginae uma bocca de um lindo desenho, formando em cada extremo uma covinha engraçada; uma bocca que parecia sorrir sempre, mesmo quando a fronte scismava ou as lagrimas desciam pelas faces; imaginae que o nariz fôra modelado pelo de uma estatua antiga, e imaginae, sobretudo, uns olhos castanhos rasgados, assombrados por uma franja de cilias tão cerrada, que pareciam negros como a baga do loureiro; uns olhos, emfim, expressivos, verdadeiros espelhos d'alma, como lhes chamam os poetas, e tereis uma ideia das feições de Irene. Esta encantadora cabeça enfeitava-se com o mais soberbo cabello que se póde ter aos quinze annos; negro, longo, serico, ligeiramente ondeado. Para maior realce da côr, parecia feita á moda que vogava. As tranças, que vinham pousar no collo, alvo como marfim, eram intermeiadas por fitas de lã de um vermelho vivo, que se cruzavam depois na cabeça e vinham cahir soltas, dos lados, terminando em pingentes de metal dourado.


As leis que faziam distinguir, pela cabeça, as solteiras das casadas e estas das viuvas cahiam em desuso.


A filha de João Ramalho, apesar da curta edade, era uma bellesa. O sangue de sua mãe, uma dessas bellas moças da Asia, em que se confundiam dous typos, o grego e o armenio, predominando, desenvolvera aquelle corpo garboso; dera-lhe na adolescencia o acabado, a morbidez que só mais tarde, em geral, em outra edade se alcança. Com o corpo desenvolvera-se o espirito: desenvolvera-o a esmerada educação materna, que distava bem da vulgar entre a nossa burguezia naquelles tempos, e os carinhos da boa mulher, que o senhor João não comprehendia bem, entretido sempre nas suas viagens e rude, voltados todos para aquella filha unica, em que se embellezava cultivando-lhe o coração, aformosearam-lhe a alma. Uma bella alma faz um rosto, senão formoso, amavel; a intelligencia reproduz-se nas feições como aureola que lhes dá realce; a natureza, já o dissemos, fôra madrinha e não madrasta para com Irene: a bella menina, reunindo, pois, todas as formosuras, despertava a admiração e o amor ao mesmo tempo. A impressão produzida no sobrinho de Gonçalo Domingues fôra esta, e que o amor naquelle peito tinha boas raizes, dizia-o a confusão em que elle ficou, mal á janella appareceu a gentil cabeça. Fernando, um rapaz jovial e resoluto, como o diziam uns olhos castanhos cheios de fogo, um nariz ligeiramente curvo, os lábios delgados, accentuados na extremidade por um ligeiro buço; Fernando baixou os olhos, fez-se vermelho, sentiu que os joelhos se dobravam, enfraquecidos, e, sem se attrever a fitar de novo aquella apparição, bom tempo gastou em puxar o barrete de um para o outro lado da cabeça e amarrotal-o nas mãos, nem creança bisonha que se dispõe a abrir brecha na bolsa paterna, ou tem de responder por avaria feita, acabando por desafivelar o cinto da jornea, como se carecesse de tomar largo folego para levar a cabo a sua empresa.

Não era esta a vez primeira em que alli se encontrava em taes embaraços, porém nunca tão graves tinham sido as circumstancias. A gravidade não provinha da escapula feita a seu tio, que já nem de tal se lembrava, mas da resolução que tomára de realisar as suas ambições e sonhos, as combinações de tantas horas; de passar além de alguns gestos e sorrisos e umas saudações feitas do cimo da encosta, não fallando em uma enfiada de sons, que palavras se não podiam dizer, pois nem elle lhes soubera o sentido, soltados á porta de S. Pedro entre uns como arrepios, que attribuiu ao modo porque o encarou a cultivadora da arruda, a creada a quem o senhor João Ramalho, por morte de sua esposa, confiára o governo da casa e a guarda da filha.

Quasi egual á força da resolução fôra o abalo, como nestas cousas é de costume, mas Fernando não estava resolvido a deixar perder mais uma occasião: puxando o barrete sobre a nuca, subiu a um comoro, ao lado da quelha, ergueu os olhos e abriu a bocca, porém a palavra engasgou-se-lhe a um gesto de Irene. O pobre não prevera que prégar a sua confidencia daquelle sitio fôra, querendo que ella a ouvisse, mettel-a tambem nos ouvidos dos visinhos, ou pelo menos das pessoas de casa, e a moça, levando um dedo aos lábios e indicando-lhe com um gesto que descia á varanda para encurtar a distancia, se no enleio, no rubor se mostrava mal affeita áquellas artimanhas, professadas pelo amor, ou quem suas vezes faz, como do sexo a que pertencia, se mostrava mais prudente. Irene desceu, mas vencido a meio o inconveniente da distancia, furtava-se, encoberta pelo cercado da horta, ás vistas de Fernando. Este eclypse, como diria um poeta, foi que deu ao namorado um animo de que elle proprio se espantou por muitos dias depois: atreveu-se a subir ao muro e marinhar pela arvore que se debruçava sobre a estrada, a esconder-se entre a ramagem.

Os discursos naquelle dia tinham má sorte: como o que fôra destinado a Ruy Pereira, o pensado e repensado do sobrinho de Gonçalo Domingues não vingou. A erudicção do abbade de Paço de Sousa achatara-se de encontro á paciencia do fidalgo; as flores escolhidas para ornar a declaração feita a Irene (tão rico dellas é o coração em que rebenta o amor!) as flores de estylo queimou-as um olhar lançado ao mancebo, traduzindo tanta cousa, que só um desses olhares podia dar bons tres capitulos como este em que se conta e commenta tanto successo. O olhar de uma donzella, como a filha do piloto, nestas confidencias de um primeiro amor—deixem dizer que o amor, o verdadeiro amor só vem muito mais tarde, deixem; que elles treleem, e julgam que o egoismo aquilata a paixão—; o olhar de uma donzella assim, encerra um mixto de affecto carinhoso, de volupia indefinivel, de pudor e innocencia, de receio e ousadia, que, para delle dar uma ideia, a poesia mesmo é uma linguagem descolorida.

Fernando, mal se viu frente a frente com a moça namorada, sentiu um formigueiro nos pés, turbara-se-lhe a vista, e teve de se agarrar aos ramos da arvore, para não cahir; quiz procurar o cabeçalho da sua declaração, porém nem uma só ideia lhe vinha á mente; por mais de uma vez abriu a bocca, e teve de a fechar sem formular um unico monosyllabo. Irene, na varanda, com a approximação tambem se acanhára, e occultava o seu embaraço, ou, antes descobria-o, passando a mão pela fronte, levantando uma trança para logo a abaixar, enrolando e desenrolando uma das fitas, afogando e desafogando o pescoço com o singelo colleirinho do corpete. Os minutos que assim passaram não foram poucos. Recuar depois de ter chegado até alli era desairoso e difficil.

O sobrinho de Gonçalo Domingues fez o supremo esforço para não perder tudo.

—Irene, Irenesinha! disse elle, amarrotando o barrete com a mão que tinha desembaraçada.

A moça fitou-o, sorriu-se, e ainda alguns minutos foram desperdiçados, se desperdiçado se póde dizer aquelle tempo passado em enleio, rápido na passagem, mas que depois enche com a recordação tantas horas de vida.

—Irenesinha! tornou Fernando, continuando a procurar a musa no barrete.

A moça continuou a fitar o embaraçado rapaz, aguardando que alguma palavra mais seguisse á invocação. O barrete não absorvera, ao que parecia, os galanteios estudados, amimados por tanto tempo, pelo que, depois de larga pausa, Fernando desceu das regiões do amor a cousas mais terrestres, na linguagem; procurou, se, o que é mais provavel, se não agarrou á primeira idea visada, um ponto de partida nos successos do dia, e titubeou:

—Não sabe que chegaram ahi umas galés de Lisboa?

—Sei; respondeu a joven, baixinho, depois de olhar para todos os lados a vêr se alguem poderia ouvir aquella conversação amorosa. Meu pae para lá foi.

—Foi? interrogou machinalmente o mancebo.

—Foi, repetiu Irene, debruçando-se pela varanda e fazendo com uma das mãos junto do ouvido uma concha para não perder uma só palavra.

—Pois veem nellas muitos fidalgos de Lisboa. Não os viu desembarcar?

—Vi.

—Disseram-me que iam em procissão á cidade, e que traziam um recado do senhor D. João!

—E não foi vêr?...

—Olhe, Irene, atalhou Fernando em voz mais baixa e intercortada, por muito que tenham que vêr, eu antes quero estar aqui. A menina é que não sei como não vai para o lado da praia.

—Para que? Tão longe fica o lugar onde vararam as galés, e está um gentio...

—Então, se podésse vêr, não estava ahi.

—Porque não? disse Irene, córando.

—Porque... porque, titubiou Fernando, baixando os olhos; porque aquelles fidalgos com as jorneas bordadas, aquellas armas a espelhar são mais para se verem...

—Da janella, tornou a moça, encolhendo os hombros; da janella não se podem admirar esses alindes.

Fernando baixou a cabeça, desconcertado o seu intento. A moça não vinha para o campo para que elle a queria trazer: não o entendia, pensava elle, e se o não entendia é porque o não amava. Se soubesse avaliar a entonação de certas palavras não pensaria daquella sorte; porém todos os namorados assim são: não reparam nas rosas e colhem os espinhos.

—Oh! Irenesinha, e se esses fidalgos viessem fazer uma leva para a guerra contra os scismaticos de Castella? tornou o mancebo, procurando levar a conversação ao fim desejado.

—Para que pensar nessas cousas!

—E se me levassem? insistiu elle.

—Mas elles não veem para isso; não, senhor Fernando? disse a donzella com uma inflexão de voz, que pintava o receio de que uma affirmativa fosse a resposta.

O sobrinho de Gonçalo Domingues não notou esta expressão e proseguiu:

—Não se lhe dava que eu fosse?

—Eu?

—Sim; parece que não teria pena alguma.

—Não diga essas cousas!

—Pois devéras magoava-a a minha partida?

—Devéras; disse Irene, passando a mão pelo rosto, para occultar as tintas do pejo, que a elle assomavam com esta confissão.

—Não diz o que pensa, acudiu o mancebo, imprimindo, cheio de alegria, um tal abalo á arvore, que esta, oscilando o roçando de encontro ao muro, fez desprender algumas pedras.

—Jesus! vai cahir! exclamou a donzella, tornando-se pállida.

—Ai! Irenezinha, só para vêr se o que diz é certo, de boa vontade quebrava a cabeça.

A moça, em vez de responder, com um gesto impoz silencio ao seu conversado. Do lado de baixo ouvia-se os passos de quem para alli se dirigia, e pouco depois appareceu Gonçalo Domingues.

—É meu tio, disse Fernando, com voz tão sumida, que para si tão só parecia fallar, e no momento em que o rotundo burguez passava distrahido junto do muro, querendo esconder as pernas que deixava pender de um e outro lado do galho em que cavalgava, de novo oscilou a arvore violentamente, mais arruinando o muro a que se encostava.

—Oh velhaco, que fazes ahi empoleirado?

—Eu, senhor tio? accudiu o pobre rapaz, coçando na cabeça com toda a furia.

—Sim, tu, Belzebuth! Salta cá para baixo, que te ensino a andar a roubar fructa pelos cerrados.

—Oh meu tio, a arvore não tem fructo; olhe bem.

—Então que fazes ahi?

—Eu estava a vêr...

—O que, rapaz de má morte, cabeça ôcca?

—A vêr se o via por algures, proseguiu o desconcertado mancebo.

—Levadigas te colham! Procuraste atalaya bem longe do caminho. Ora, desce, que eu te vou ensinar chanças melhores.

—Cuidei que ia pela Aljama.

—Algemia é isso que tu estás a prégar. Desce, velhaco!

—Lá vou, tio; disse Fernando, descavalgando, porém deixando-se suspenso pelas mãos do seu poleiro. Mas...

—Mas o que? Por tua causa em boas me vi, e tu m'as pagarás juntas. Eu farei de modo que não tenhas mais vontade de ir devassar hortas e cercados. Se vais por esse caminho, acabas nas mãos da justiça! exclamou o senhor Gonçalo Domingues, com sobrecenho provocado pela recordação de desaguisado da praia.

Fernando deitou á donzella, que toda trémula se conservava encostada á varanda, um olhar a furto, não se attrevendo, por envergonhado de ser assim, alli na presença della, tractado como uma creança, a uma despedida; com outro relance d'olhos avaliou se as ameaças do tio não teriam, na execução, algum desconto, e lentamente, soltando um suspiro, desceu da arvore em que, ao modo das aves, tinha soltado as primeiras confidencias do amor. Tão depressa sentiu nos pés o contacto do pedregulho da bitesga, como sentiu nas orelhas o da mão de mestre Gonçalo, que acompanhava cada puxão com um epitheto pouco amavel, terminando pelo de «ladrão».

—Ladrão não! exclamou o rapaz dando um salto, ferido pela insistencia do tio naquelle ruim conceito.

—Então que fazias alli, rapaz dos meus peccados?

Alguem, não o interrogado, se encarregou de responder. Á janella onde vecejava a arruda assomou um rosto encarquilhado, meio occulto em uma enorme touca de linho a feição das que usam as freiras, e gritou com uma voz de canna rachada, debruçando-se:

—Menina Irene! menina Irene!

Gonçalo Domingues suspendeu as suas iras, e estendeu o lábio inferior com um gesto que queria dizer muita cousa, e, entre outras, que atinava com o motivo de ter o sobrinho trocado a procissão dos fidalgos por uma ascensão ás arvores do senhor João Ramalho. Lembraram-lhe as palavras e os momos da velha da praia.

—Já agora vamos pela Aljama, e de passo fallarei com meu compadre; disse em seguida, dando um encontrão ao mancebo e indicando o carreiro que subia a montanha.

Mettendo-se a caminho, voltou a cabeça, como a voltára Fernando, para a casa do mercador, e viu na janella do andar superior, por entre a zelozia meia aberta, o rosto da gentil menina.

—Á fé, disse elle por entre dentes, que o rapaz não tem ruim gosto; e ella...

A palavra foi terminada por um sorriso, olhando para Fernando, como desvanecido do seu sangue. Gonçalo Domingues era um excellente homem, apesar de toda a sua aspereza apparente.

III.
Os Velhacos.

Índice de conteúdo

Aquelles cidadãos nobres praticavam n'isto com mais deliberação, como homens, que tinham mais que perder, que os plebeus que seguiam o Mestre...

chronica de d. joão 1.º

Uma cidade da peninsula, no seculo XIV, não era um aggregado de individuos vivendo, como hoje, debaixo da mesma lei—segundo reza a lei, entenda-se. Afóra as distincções de classes e senhorios diversos, havia a distincção de crenças, e a separação era visivel nas grossas cadeias que tornavam ao cahir das Ave-Marias incommunicaveis certos bairros. O Porto tinha de tudo: subditos da coroa e subditos da mitra, e no tempo em que succedia o que narramos, moradores que nem reconheciam uma, nem outra; havia christãos, mouros e judeus. Sobre um monte alteavam-se as torres da Sé, e os paços fortificados do bispo; sobre o outro mais humilde levantava-se a esnoga, ou synagoga, e na encosta, entre um e outro, a pequena aljama appresentava-se, como o symbolo da religião do propheta de Yatreb, querendo approximar-se do Evangelho e da Biblia, e lançando depois pela encosta um ou outro casebre, como transição para alguma morada de heresiarcha que se occultasse entre os foragidos do Oriente. A aljama era a mais pobre: a esnoga era a mais rica; a cruz, mais alta, dominando as duas, era a mais forte.

Aljama, municipio, cathedral, esnoga, tudo fôra cintado pela mesma muralha, como para viver em boa fraternidade; mas esta aguara entre os dous filhos de Adão, quanto mais entre tanta gente. O judeu despresava o mouro; o mouro despresava o judeu; o christão despresava a ambos, e, como fizera a lei, talhára para si mais regalias e para os outros mais tributos, reservando, para os que nada tivessem de seu, o direito de se lamentarem em particular de algum pescoção de burguez arrufado, gilvaz de cavalleiro, pedrada de garoto e praga de rascôa enraivecida, ou velha rabujenta. Era uma sorte bem agradavel, feliz, comtudo, aquella, em comparação á que lhes prepararam, aos judeus especialmente, uns beatos mettidos em politica, de que se serviam para ganhar o céu, suppunham elles, e um bando de togas, garnachas e roupetas que se serviam do céu para apanhar dinheiro. Aquella animosidade era a regra geral, mas toda a regra tem excepção, e na mouraria era ás vezes recebido com os braços abertos o mesteiral; na judearia havia mão que se estendia ao burguez em prova de amisade sincera, e um ou outro filho de Israel achava agasalho não chorado na casa do christão, mesmo quando aquelle não tinha a arca cheia de boas dobras; que em tal caso todas as portas se abriam, desde a do paço régio ou episcopal e a do solar do nobre, até á da cella do reverendo abbade, e a do leigo, e sobre elles choviam honras e mercês; como eram prova viva D. Judas e D. David, duas creaturas, que, fazendo grande arruido na côrte, jogaram com os destinos do paiz, como bons ministros de finanças—o nome, o titulo ainda não estava creado, mas a cousa já existia—não se esquecendo de tirar delle todo o succo possivel. Gonçalo Domingues vivia em boa harmonia com o arabi, ou arrabi menor, harmonia que o devia lisongear, pois era até certo ponto uma notabilidade, como chefe dos judeus da cidade e como homem de teres, e por isso se resolvera a subir a encosta, pelo lado do Olival, para fallar em certos negocios em que desejava servir um seu compadre, e tractar da compra de porção de gado. O velho Gonçalo, forçureiro nos seus principios, reunira o cabedal bastante para alargar a área do seu commercio: estendera-o ás carnes-verdes e ensacadas e a pellames de todo o genero; tornara-se em fim um negociante de consideração, como um seu collega de Coimbra, que salvou a patria, emprestando a sua senhoria, o Mestre de Aviz, alguns punhados de dobras, serviço que lhe rendeu a doação de alguns bens nacionaes e a gloria de ser o tronco de uma nobre familia. A nobreza de elmo cerrado atira-se aos fidalgos do seculo XIX, lançando-lhe em rosto o não ser com a espada que lavrassem os seus escudos; mas é porque não teem paciencia ou vagar de revolver os archivos da familia, senão deixaria de atirar pedra ao telhado dos visinhos, vendo os seus de vidro: se por tal de vidro os podem considerar. Deixemos reflexões, porém, e retrogrademos ao bom tempo, que assim se chama sempre ao tempo passado, a apanhar o rico burguez e o sobrinho á porta do Olival.

No campo, que, extra-muros, por aquelles lados se estendia, ainda se viam alguns individuos, que, com os olhos postos no rio, pareciam analysar as galés chegadas; mas era visivel que, de todos os portuenses, estes, que assim ainda pasmavam, eram os menos curiosos, os mais indifferentes á lucta travada. A boa parte, farrapos, que em bom tempo tinham formado uma aljuba, denunciavam como decendentes de Tarik; a outros distinguia-os um circulo de lã amarella pregado nos grosseiros tabardos; o resto não se distinguia por cousa alguma da roupa, porque naquelle cerzido de trapos nada se podia distinguir. Os curiosos, os verdadeiros curiosos tínham, como vimos, descido á baixa da cidade, e mais crescera o numero depois que se soubera que nada havia que receiar das galés, e que Ruy Pereira e os outros capitães desembarcaram e seguiram processionalmente para os paços municipaes. Gonçalo Domingues, intercalando as combinações de seu negocio com reflexões sobre a descoberta feita dos amores de seu sobrinho, reflexões que faziam com que a este mostrasse gesto carregado, e interiormente se sorrisse, avivando na memoria os seus verdes annos: medindo de tempos a tempos a altura do sol, que não eram depois de Ave-Marias seguras certas paragens, passeava de um para o outro lado do campo: Fernando acompanhava-o, voltando a todo o instante a cabeça para Miragaya; procurando aproximar-se de sitio d'onde podésse ao menos vêr a casa do mercador; reprehendendo-se por não ter aproveitado melhor o tempo que passára junto de Irene, dizendo uma fineza daquellas do livro de cavallerias, que frei Gumeado lhe deixára lêr; descoroçoado por aquelle final, que de certo o rebaixaria no conceito da linda moça. O sobrinho andava tão embebido, que nem sentia os pés tocar no chão, e o campo não era jardim areado; o tio cançava-se já de aguardar seu compadre, que não encontrára em casa, quando a apparição de um personagem veio pôr em movimento os frequentadores do campo: uns deslisaram-se, o mais sorrateiramente que lhes foi possivel, pela encosta e por entre o arvoredo, outros perfilaram-se, e levaram as mãos aos barretes, os que os tinham, mostrando, comtudo, pelo gesto, que não era a estima, mas o temor que os levava a esta delicadesa.

O recem-chegado, personagem lhe chamamos, e mostrava-o ser de conta entre aquella gente, era uma figura notavel. Um barrete de tela vermelha de forma exquisita rematava, assentado sobre um capirote, uma fronte um pouco crescida e saliente, complemento de um rosto ossudo, moreno, em que dous olhos desesperados com a proeminencia de um nariz, que se mettia em tudo de permeio, tinham acabado por enviar as pupillas, cada uma para o seu lado, a tomar conhecimento com as orelhas; o lábio superior era adornado por um bigode esfarrapado, de côr duvidosa, ou de todas as côres possiveis—preto, branco, castanho, louro e ruivo—e de egual mescla eram os pellos que deixava crescer no queixo. Da cabeça não desdiziam o resto do corpo e o vestuario: trajava um gibão bipartido preto e vermelho, e uma das longas pernas enfiava-se em uma calça e borzeguim vermelho, a outra em calça e borzeguim preto; do pescoço pendia-lhe uma medalha de metal amarello, com as armas da cidade, da cinta um grande punhal e uma enorme bolsa de couro, e na mão sustinha um bastão, terminado por uma cabeça de metal cinzelada, ao que parecia, por artista que tomára a delle por modello. Medalha e bastão apregoavam que Tello Rabaldo era o pae dos velhacos, cargo que não tem hoje correspondente, por não tolerarem as luzes do seculo absurdos. Tello superintendia, governava tão sómente cidadãos que em noites serenas teem o docel do leito recamado de estrellas, jejuam sem devoção, deixam crestar o corpo pelo sol de Agosto e gelar o sangue pelo frio de Janeiro, e chamar-lhes velhacos era alterar a significação das palavras, se não era malicia de legislador, que assim arrebanhava e baptisava alguns centos de creaturas, para que se persuadissem as de boa fé que na terra não havia mais, como os hospitaes de doudos lisongeam muita gente que não é forçada a não ter lá moradia. Os velhacos, os verdadeiros, então, como hoje, não se deixavam governar, sempre governavam tambem, e havia-os anafados, vestindo custosas telas e abrigados em paços soberbos.

—Eh! boa gente! exclamou Tello, dirigindo-se aos individuos que tractavam de lhe evitar a presença; então assim querem fugir a seu pae! Vamos, venham receber a benção, como bons filhos, e com a benção uma boa nova. Olá, Pedro Choca! accrescentou, depois de honrar com um sorriso a facecia que servira de exordio, dirigindo-se a um dos que se desbarretava; que nenhum dos teus falte depois de ámanhã na Ribeira. Onde está o João Bispo?

—João Bispo, redarguiu o interrogado, ha dias que desappareceu.

—O velhaco voltaria para o convento farto de estar deitado de barriga ao sol, ou se metteu outra vez com a filha do velho Humeia, e está a fazer penitencia por ter peccado com moura?

—Ou se foi lançar com os scismaticos...

—Para que? Toma conta em ti! Chegou-me aos ouvidos que te travaste com elle de razões por umas nonadas, e se me déste cabo do rapaz, em boa te metteste! Se não me trouxeres em breve novas delle, a tua pelle m'as dará. A polé do aljube está nova, e poderá bem comtigo.

Choca resmungou por entre dentes algumas palavras, e o pae dos velhacos proseguiu:

—Avisa aos compadres para que ou vão comtigo e mais a sua gente, ou a levem para as tercenas. Que não falte ninguem! Quero duzentos homens, bons pulsos...

—Duzentos homens, bem sabe sua mercê que não podemos reunir. A melhoria da gente levou-a o senhor conde Gonçalo; o senhor alcaide tem boa porção, e se creanças, mulheres e aleijados não servem...

—E esses perros de cabeça amarrada! exclamou Tello, designando um mouro que a curiosidade trouxera para junto de Pedro Choca, capataz de uma turma de vádios. Quanto aos aleijados, sei de uma mésinha que os põe sãos como um pero, ajuntou, mostrando o seu bastão; o manco da porta da Sé que o diga. Vamos: sua senhoria (uma barretada) appellidou os bons homens da sua boa cidade (outra barretada) para que o ajudassem a dar cabo dos perros de Castella, e os alvazires dão-vos honra mettendo-vos na conta dos bons homens... fazendo-vos trabalhar. Que ninguem falte, e viva sua senhoria!

—Viva sua senhoria! repetiram os vádios e com elles Gonçalo Domingues, que se approximára da roda formada ao pae dos velhacos, roda desfeita a um signal por este dado com a vara, deixando a importante, incansavel e incorruptivel auctoridade, como lhe chamariam hoje, que todos os encargos teem um ou mais adjectivos annexos, face a face com o burguez, que abria a bocca para indagar quaes os serviços que o filho de Thereza Lourenço reclamava dos portuenses.

A interrogação não foi formulada. Tello Rabaldo, cheio da sua importancia, fez uma leve saudação, carregou o barrete sobre um dos olhos em rebeldia, e girou sobre os calcanhares ao mesmo tempo que um outro individuo assentava nos hombros do forçureiro uma grande palmada. Gonçalo Domingues voltou-se a vêr quem segundava a amabilidade do marinheiro, e se não reconheceu logo o seu compadre, foi porque um abraço de metter costellas dentro o suffocou. O bom homem vinha lisongeado com a carta de que Ruy Pereira fôra portador, lisongeado em extremo no seu patriotismo de localidade, e expandia o seu contentamento daquella sorte e em exclamações, que fizeram suspeitar ao tio de Fernando, que não estava em bom arranjo aquella cabeça. D. João chamava aos portuenses o seu bom povo, mimoseára-o além disso com outros epythetos taes como—leal, esforçado, etc., e o portador, resolvido, apesar do seu enfado, a ser amavel e popular, pintára a amisade e reconhecimento do Mestre, pela espontaneidade da sua acclamação na cidade da Virgem, com taes côres, descera da sua dignidade prodigalisando sorrisos ao corpo municipal, batendo no hombro de Luiz Giraldes de um modo, que o nosso homem esteve por um triz a deixar cahir uma lagrima de commoção. Era uma alma candida e enthusiastica, apesar do involucro grosseiro, o compadre do senhor Gonçalo Domingos; tão candida que acreditava no desinteresse do Mestre de Aviz, suppondo que defendia a coroa para a entregar ao filho de Ignez de Castro; tão enthusiastica e patriotica que, quando, á força de lhe perguntar o marchante se encontrára o arrabi, seccas as goellas e já sem alento para descrever a reunião nos paços municipaes e mais epysodios da embaixada, se recordou do seu negocio, era tarde. O sol ia quasi a mergulhar no oceano, e era provavel não só que, na judearia estivessem fechadas as ruas, mas até que se lá fossem, encontrassem as portas da cidade cerradas no regresso. Os dous burguezes separaram-se, pois: o patriota, compadre de Gonçalo Domingues, seguiu pelos campos em direcção ao povoado de Cedofeita; est'outro, despertando o sobrinho de pensamentos em que não entravam nem compras, nem vendas, nem os direitos que os filhos de Henrique 2.º de Castella e D. Pedro 1.º de Portugal, podiam ter á terra que pisava, tomou com elle o caminho de casa.

As nuvens, que o norte espalhára no ar, como flocos de algodão, ornadas pelas tintas que formam a gradação entre o rubro e o amarello vivo, davam ao céu a apparencia de um marmore, um todo que em pintura seria inverosimil; os edificios de Villa Nova e de Gaya cortavam com o perfil o horisonte, vestindo pouco a pouco uma côr uniforme, o cinzento-escuro. De um destes edificios, o que mais se avantajava, do castello de Gaya, as janellas esguias voltadas para o poente pareciam dar sahida aos fogos de um incendio. De que não era, porém, este chamejar mais que um reflexo do sol no occaso, se poderia desenganar quem, mesmo nunca tendo presenceado este phenomeno, se nos anticipasse na residencia do tenente do conde D. Gonçalo, onde uma hora depois lhe provariamos que a reflexão, ao appresentar Tello Rabaldo, não fôra de leve feita: velhacos não eram só os que não tinham nem leira nem beira.

Em uma das salas que no castello serviam de apposento ao alcaide, revestida de apainelados de carvalho, em que a luz do dia, coada pelos miudos vidros de côr, formando losangos, embaçava, e embaçava egualmente a que davam as tochas sustentadas por braços de ferro, passeava de um para outro lado um homem de alguma edade já, magro e de estatura mediana. No peito de uma especie de camisola de panno de curtas fraldas, cujas mangas, farpadas nas orlas, pendiam até ao joelho, viam-se bordadas a verde com nervuras de ouro tres folhas de figueira; o mesmo distinctivo se reproduzia em uma bolsa de couro, que, do lado contrário ao estoque, acompanhava um punhal, nos fartos reposteiros das duas portas, que para a sala davam serventia, e na manga da jornea de um pagem, creança de dez annos, que cabeceava com somno a um canto. O barrete adornava-se com duas pennas de aguia, presas em fecho de ouro, e os borzeguins apresentavam uns longos bicos, moda que um epysodio da guerra travada deixou assignalada na historia. Encostados, no vão de uma janella, conversavam, em voz baixa, uma dama e um individuo que se tornava notavel por usar crescido o cabello, raro e de côr avermelhada, e por uma longa espada, de que affagava o punho. Do lado opposto havia seis individuos, um dos quaes vestia hábito monastico, e outro se acobertava com uma velha armadura de malha.

O homem que passeava era Ayres Gonçalves de Figueiredo; a dama era a esposa deste, D. Catharina; o individuo, que lhe fazia companhia, o irlandez Guilherme Down-Patrick; os restantes eram quatro cavalleiros, homens de solar de Entre-Douro-e-Minho, o capitão de besteiros, Pero Bedoido, e frei Garcia.

As passadas do alcaide soavam mais alto do que as poucas palavras que toda aquella gente trocava entre si, e visivelmente preoccupava-o negocio, que não era para os outros estranho, a não enganar o modo porque de tempos a tempos se fitavam e a meditação que se seguia. Duas pessoas se subtrahiam á influencia geral, a castellã e o irlandez: se se calavam era, ella para amimar uma galga branca, que se enroscava sobre um escabello, elle para com a vista percorrer a laçaria e penduróes do tecto.

Segredos e silencio, aquelles olhares e gestos tinham um todo mysterioso, que houve por bem quebrar Ayres Gonçalves.

—Que me dizeis, senhores? exclamou, estacando no meio do passeio, como a procurar alvitre que viesse pôr termo á sua irresolução, parecer que se conformasse com o que tinha na mente.

Ninguem respondeu, porém, e o castellão, lançando á volta de si um olhar de quem queria lêr nas physionomias dos hospedes as suas intenções, proseguiu:

—Sua senhoria quer em volta de si todas as lanças do reino, e não se lembra, ou não se quer lembrar de que fica desguarnecida uma terra tão importante como esta, e cercada por tantos senhores que levantaram voz pela rainha D. Beatriz. Deixa a cidade aos peões, aos peões, que tracta como a gente de prol?!

—Em boa confusão vae pondo as cousas! Um dia, veremos, senão lhes pozer cobro ás ousadias, vir arraya tomar-nos os solares; atalhou, abanando a cabeça com ar sentencioso, um velho fidalgo de Riba-Tua. Bem altaneiros andam já burguezes e mesteiraes!

—Deixae, accudiu Affonso Darga, as encamizadas dos peões, que terão seu cabo. O Mestre precisa de sustentar a guerra, e lisongea por isso quanto mercador tem a arca bem provida de boas dobras, tornezes, gentis, florins e pilartes. Aos do Porto pede elle agora uma armada, mantimentos e dinheiro.

—Armada que nos levará a vêr o rosto ás hostes de Castella; tornou Ayres Gonçalves.

—Se se fizer.

—O povo do Messias de Lisboa a arranjará. Não viram como os alvazires propozeram logo uma derrama, e juraram a Rui Pereira que teriam antes de um mez a nado algumas naus e outras se armariam dos melhores navios do commercio com Flandres?! Estão inchados com o valimento que lhes dão.

—Por ahi se conhecem os vilões...

—É que dão elles ao Mestre? Grande cousa! Em campo se verá de que servem, e no campo é que a contenda tem de se decidir. Irão com béstas, virotes e azevans fazer frente ás lanças de Castella? Lingua teem elles; mas brio é que nem toda a algaravia desses mestres em leis e clerigos, que o regedor tomou para seus conselhos, esses falladores de Pisa e Bolonha, poderá metter nessa gente.

—Mas nella se estriba D. João, disse, meneando a cabeça, um dos cavalleiros.

—Para elles appella com boas palavras; a nós manda-nos, não recado, mas ordem! exclamou o alcaide. É dessas garnachas sahidas do nada que vem a desconsideração em que nos tem.

—Tempos do rei D. Fernando! suspirou Down-Patrick, recordando-se talvez de quando as hostes do duque de Lencastre faziam, entre os alliados portuguezes e os inimigos de Castella, de tudo roupa de francez.

—Era um bom rei o que Deus tem! ajuntou frei Garcia, fazendo uma momice de piedade.

—Rei, e creado como rei, bem sabia elle onde estava a força e grandesa do reino e sua.

—E melhor agasalho não nos fazem sempre no campo do marido da rainha D. Beatriz. Aos de sua casa aconselhou D. Leonor que fossem para o Mestre, que ao menos não era soffrego.

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Yaş həddi:
0+
Litresdə buraxılış tarixi:
16 yanvar 2025
Həcm:
140 səh. 1 illustrasiya
ISBN:
4064066409791
Naşir:
Müəllif hüququ sahibi:
Bookwire
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