Kitabı oxu: «Judas»
Augusto de Lacerda
Judas
Romance lirico em quatro jornadas

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066408633
Índice de conteúdo
PRIMEIRA JORNADA
EM 8 DE NISAN
PRIMEIRA JORNADA
EM 8 DE NISAN
SEGUNDA JORNADA
EM 9 DE NISAN
SEGUNDA JORNADA
EM 9 DE NISAN
TERCEIRA JORNADA
EM 13 DE NISAN
TERCEIRA JORNADA
EM 13 DE NISAN
QUARTA JORNADA
EM 15 DE NISAN
QUARTA JORNADA
EM 15 DE NISAN
PRIMEIRA JORNADA
Índice de conteúdo
EM 8 DE NISAN
PRIMEIRA JORNADA
Índice de conteúdo
EM 8 DE NISAN
Índice de conteúdo
A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a casa de Simão, o Leproso. Tem esta a forma tipica de uma piramide rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos canteiros roseiras de Jerichó.
Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.
A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...
Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao descanso e á meditação.
Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali serpeando por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, até que chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das Oliveiras, de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaça um bando de pombas brancas.
Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o Monte do Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e patriarchas.
Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica, amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.
A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da encosta:—é ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda, Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor. Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: Jehovat. A Torre Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta quietação.
Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando no firmamento azul e alegre.
Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as cotovias.
GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:
Eleazar, meu caro, honrado ebionita,
Recebe de um amigo a cordeal visita.
ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos annos, franzino e melancólico.
És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja
Teus passos dirigiu assim, para que eu veja
Á porta do modesto e humilde lavrador
Aquelle que possue o nome de doutor
Notavel e profundo?
GAMALIEL
É pobre a moradia,
Amigo?—Não encerra a vil hypocrisia,
Ornamento dos maus e da nefanda casta,
Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.
ELEAZAR
É que a virtude leva ás almas refrigerio
Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio;
Pranto suave, meigo e virginal e ardente,
Que uma estrella chorou silenciosamente...
GAMALIEL
É que a bondade espalha a sua luz divina
E pura, como o Sol que a todos illumina...
E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se conservou:
O que tenho a dizer-te é coisa de segredo.
Escuta-me portanto aqui.
ELEAZAR
Porquê? Tens medo
De que minhas irmãs...?
GAMALIEL
O assumpto é muito grave,
E receio que a dôr ainda mais se crave
Nas almas feminis do que na tua.
Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de casa, accode logo ao secreto chamamento.
Amigo,
Uma nova cruel:—o Mestre...
ELEAZAR, estremecendo
Algum perigo
É imminente?
GAMALIEL
Aquella estupida gentalha
Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha
Prepara com misterio o plano vingador,
E está na posição terrivel do condôr,
Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora,
Em casa de Kaiapha...—É sabbado hoje? Embora!
—... O Conselho procura, extravasando o fel,
Garantir-se o poder no povo d'Israel.
ELEAZAR
Prendendo o Mestre?
GAMALIEL
Sim! Razões tem para tudo
O seu pensar feroz, indómito e agúdo!
Amor divino? Qual! Apenas o receio
De perder o logar no execravel meio:
D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma,
E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!
N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e que se expande, emfim, n'uma invocação:
A Virgem de Sião suspira ha muito já!...
—Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat!
Que é feito do vigor da tua fala, Isaías?
E das lamentações sinceras, Jeremías?
Profeta Ezequiel, a tua voz potente
Jámais ribombará por todo o Oriente,
Fazendo estremecer o despota cezareo,
Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario,
Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma,
Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!
ELEAZAR, com o olhar vago:
Vergonha! opprobrio!...
GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de enthusiasmo civico:
Ai! desde que um idumeu
Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu,
E nos hombros depoz o manto purpurino...
Maldito! que deixaste um rasto viperino,
Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo,O teu nome recorda o luto e um acervo
De horrores!—Certo dia, ousaste no portal
Da casa do Senhor dar poiso á immortalAguia romana!...—Vil, nascido de idumeus, O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus! ... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia! —Do nome do tiranno o filho honra a memoria. Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta... Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?... —Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros; Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros, Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia! E ao passo que na morte o hebreu se contorcia, E filhas e mulher's davam á luz o pranto, O incendio voraz lavrava o Logar Santo! —Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga, Revolvendo o punhal na apodrecida chaga! Seja procurador Coponio, ou seja Marco, Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco Onde vivem, senís, as rãs do servilismo... É provincia romana; e viva o cezarismo!
E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando, convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.
ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:
Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor,
D'esta funda apathía e d'este grande horror!
Judéa, serás livre! Elias não morreu,
Porque revive n'um que tem o verbo seu,
E elle ha de trazer a guerra e o exterminio!
Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!...
Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia!
O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a
Sem minimo temor da colera dos ceus!
GAMALIEL, n'um clarão de esperança:
Já temos o preciso: um Homem!
MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras:
Não!—Um Deus!
Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens escuras, que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas regulares e castas como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e tranquillo; os seus gestos sempre em accordo com as serenas emoções da alma.
É bello o teu falar, mas como de cegueira
Pelo amor patrio estás vencido! De maneira
Que apenas bastaria um pulso valoroso
Para despedaçar o monstro ambicioso
De fausto e de poder que se revolve além,
N'aquella babylonia? Então, Jerusalem,
Movida por um braço, embora resoluto,
Poderia colher o ambicionado fructo
Da plena liberdade em meio da revolta?
—Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta!
A Judéa prefére a honra em mil pedaços,
Cheia de timidez, crusando inerme os braços,
Inhabil para a lucta e com horror á morte...
A tribu de Levy, aquella cujo porte,
Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria
Coragem ao vencido e alguma simpathia
Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo.
—Onde encontraste, irmão, o excitante novo,
Que possa dar alento a quem succumbe exangue,
Que os nervos fortaleça e retempére o sangue?
GAMALIEL
Ha sempre em casos taes...
ELEAZAR
a força d'um athleta!
MARIA
Tem muito mais poder o verbo d'um profeta!
Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição
Das coisas divinaes a toda a multidão,Que se contorce afflicta em negro paroxismo,
Descrente de Moysés, propensa ao paganismo.
Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra,
Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra,
Pesada, como o arado á terra bemfasejo,
Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!
GAMALIEL
E quem te diz que não? Eu julgo indifferente
Que tenhamos no Mestre aquelle descendente
Do nome de David ao mundo promettido
Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido.
Porque bem vejo a força enorme, o poderío
Que exerce na cidade. É mais que prestadío
Á Patria um homem tal!
ELEAZAR
A sua mão convulsa,
Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa
Para longe do sitio ás preces consagrado...
MARIA
E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!...
—Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes
E que mercadejava as graças corporaes;
Ascende até o amor aos pobres, ás creanças,
Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças
N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...
ELEAZAR
Quando, porem, troveja irado, mais parece
Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!
MARIA
Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...
ELEAZAR
Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...
GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria, que foi sentar-se junto da fonte:
Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso,
E Deus pode morrer... quando fôr mais preciso.
ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez opprime no intimo:
O Mestre não virá. Alegra-me a certeza
De que foge ao Conselho a ambicionada preza.
Começa em breve a Paschoa, e entre os forasteiros
Ainda não chegou nem um dos companheiros
Do Mestre.
GAMALIEL
Vae o Sol no termo da viagem:
Torno para a cidade.
E novamente em segredo:
Eleazar, coragem!
No teu silencio tens a minha vida e a tua.
ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante:
Se te constar, porem, que o plano continúa
E mais se desenvolve...
GAMALIEL
Hei de dizer-te, amigo.
ELEAZAR, saúdando-o:
Que não te fuja Deus!
GAMALIEL, saúdando-o:
Fique o Senhor comtigo!
Saúda tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordão no solo poeirento.
ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos proprios pensamentos:
Ninguem pode roubal-o á proxima agonía.
Morrerá na cidade. A horrivel profecia
Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte...
Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte!
Martha e Simão de Bethania saíram de casa. Ella é uma rapariguita de desoito annos, irrequieta, buliçosa, muito infantil; elle, um velho cujo cabello e barba ha muito branquearam; nas mãos o trabalho da lavoura poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.
MARTHA
No que pensa o meu irmão?
ELEAZAR
Em nada penso.
MARTHA
Duvido.
Ha n'esse olhar definido
Vislumbre d'inquietação.
SIMÃO
Se tu pensas na lavoura,
Fazes mal, que o dia de hoje,
Emquanto o Sol não nos foge,
Prohibe que, scismadora,
A mente se occupe assim
De coisas que não respeitam
A Deus.
MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:
Aquelles que engeitam
O pensar, mesmo o ruim,
São como as ondas brutaes,
Que lançam á rocha dura
A espuma de cuja alvura
Ellas são as mães e os paes...
SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:
Sempre has de ser renitente
Em respeitar a doutrina
De Moysés!
MARIA, com amargo sorriso:
O que ella ensina
É por vezes incoherente.
De ouvil-a já estou cançada,
E nem assim me convence.
MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:
Não falas?
SIMÃO
Deixa-o! Que pense,
Uma vez que isso lhe agrada!
ELEAZAR
Mas como sois curiosos
Do que se passa por fóra
De vossas almas!
MARTHA
Agora
Vem discursos lamentosos,
Recriminações, aposto!
Grande mau!
ELEAZAR sorrindo contrafeito:
Grande creança!
MARTHA picada no seu amor proprio:
Não te inspiro confiança?
ELEAZAR condescendente:
Inspiras, sim.
MARTHA
Pois não gosto
De segredos—Que tristeza!...
Não percebo! Porque, em summa,
Não vejo razão nenhuma
Para tal! Não ha riqueza?
A nossa vida, porem,
É feliz; a privação
Nunca nos veio affligir,
Nem ameaça o porvir,
Não é verdade? Simão,
Este bom velho leal,
Que tanto e tanto nos ama,
Dá-nos meza, casa, cama,
E conselho paternal;
Tu retribues a amizade,
Auxiliando-o na vida.Achámos uma guarida
Nas trevas da orfandade:
Temos familia! Por isso
Para nós a vida é clara
Assim como a luz. A seara
É verdadeiro macisso
De pão; agua na fonte;
Lenha nas faldas do monte...
Nada vejo, d'importancia,
Que não tenhamos. Então,
Quero saber o motivo
Por que estás tão pensativo...
E rindo muito:
E com cara de chorão!