Kitabı oxu: «A Dama Das Orquídeas»

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Table of Contents

Nota da Autora

CAPÍTULO I ~ 1898

CAPÍTULO II

CAPÍTULO III

CAPÍTULO IV

CAPÍTULO V

CAPÍTULO VI

A Eterna Coleção de Barbara Cartland

A Inesquecível Dama Barbara Cartland

Outros Livros desta Colectânea

A Dama das Orquídeas

Barbara Cartland

Barbara Cartland Ebooks Ltd

Esta Edição © 2015

Título Original: “Lights, Laugther and a Lady”

Direitos Reservados - Cartland Promotions 2015

Capa & Design Gráfico M-Y Books

m-ybooks.co.uk

Nota da Autora

O Gaiety Theatre com sua riqueza, vivacidade e diversão foi um símbolo da liberalidade do século dezenove.

No centro de diversão de Londres, os cenários e figurinos dos espetáculos, eram sempre muito bem cuidados, e sob a direção brilhante de George Edwards, tornaram-se únicos.

Lindas como deusas, as atrizes do Gaiety tinham o charme, a graça e a feminilidade que todo homem desejava e admirava.

"The Runaway Girl", a peça citada neste livro, produzida em 21 de Maio de 1898, fez 593 apresentações até 1900, tornando-se um dos grandes sucessos do gênero.

CAPÍTULO I ~ 1898

—O senhor saldou todas as dívidas, Sr. Mercer?— perguntou Minella Clintonwood.

—Depois de ter vendido a propriedade com a casa, a mobília e os cavalos, consegui pagar praticamente tudo o que devia, Srta. Minella— respondeu o Sr. Mercer, o advogado da família.

—E sobrou alguma coisa?

—Aproximadamente cento e cinqüenta libras— retrucou ele, e, percebendo que Minella não dizia nada, continuou— separei cem libras para a senhorita.

—E por que fez isso?

—Fiz questão de reservar-lhe esse dinheiro porque, afinal, não pode viver de brisa, Srta. Minella, e sei que ainda não decidiu com qual parente pretende morar.

—Vai ser difícil tomar alguma resolução sobre isso, Sr. Mercer— respondeu ela, suspirando—, papai não tinha muitos parentes e não conheço os de mamãe, que moram na Irlanda.

—Pensei que talvez a senhorita pudesse ir morar com sua tia, lady Banton, em Bath.

—É provável que tenha de fazer isso mesmo, se não conseguir um emprego, claro.

O advogado olhou para ela com simpatia. Conhecia lady Banton, a irmã mais velha do pai da garota, e sabia que aquela senhora não era uma pessoa muito agradável.

Na verdade, da última vez em que a encontrara,' tinha comentado com a esposa:

—Acho que lady Banton nunca disse uma palavra agradável para ninguém.

—Talvez ela julgue que a vida tenha sido muito má para com ela, querido— sugeriu a Sra. Mercer—, afinal, sempre foi muito magra e feia!

Ele rira muito daquela observação da mulher, mas, agora, olhando Minella à sua frente, tinha certeza de que, apesar de ser muito bonita, ela não conseguiria arrancar nenhuma palavra gentil do coração duro da tia.

Ele se levantou e passou a mão sobre a escrivaninha num gesto de carinho. Aquele móvel também havia sido vendido, e perguntou:

—Será que não existe nenhum outro parente com quem a senhorita poderia ir morar? E aquela sua prima muito charmosa, que costuma- va passar alguns dias aqui na sua propriedade, cavalgando na companhia de seu pai? Lembro-me de que ela sempre vinha para cá, depois que sua mãe morreu, para ajudar lorde Heywood a receber os convidados em alguma ocasião especial...

—O senhor está se referindo à prima Elizabeth— disse Minella—, ela se casou e foi para a Índia com o marido. Nunca me escreveu, e creio até que nem saiba da morte de meu pai…

—Será que não poderia ir morar com ela, Srta. Minella?

—Tenho certeza de que Elizabeth não gostaria de me ver chegando à Índia, de repente, para morar com ela, e além disso, o senhor sabe que eu não teria condições financeiras de fazer uma viagem tão longa.

O Sr. Mercer concordou. Mas não deixava de estar muito preocupado com o destino daquela menina que conhecia desde bebê e que crescera linda, como um anjo. Apesar de muito bonita, não era uma moça conhecida na sociedade, pois vivia ali, no Condado de Huntingdonshire, um lugar fora de moda, onde ninguém gostava de ir passear.

Seu pai, lorde Heywood, sempre dizia, com sua voz forte e máscula:

—Se existe uma coisa que nunca poderei entender, é por que diabos meus antepassados foram escolher justamente este lugar para morar! Ao que parece, foi esta mansão que os atraiu, só pode ser isso!

E ele devia ter razão. O local onde morava com a mulher e a filha era uma linda construção do Século XVIII, que lady Heywood sim- plesmente adorava.

Mas, em Huntingdonshire, não havia nada que atraísse os amigos sofisticados que Roy Heywood gostava de ter sempre à sua volta.

Não restava a menor dúvida de que ele nascera para ser o centro das atenções, pois possuía uma vitalidade e um charme simplesmente irresistíveis. Tanto isso era verdade, que Minella não ficara nem um pouco surpresa quando, depois da morte de sua mãe, ele começou a ser convidado para festas em outras regiões do país.

Por ser muito jovem para acompanhá-lo, ela era obrigada a ficar solitária na mansão, aguardando a volta do pai. Muitas vezes, esperava vários dias, mas aprendera a ser auto-suficiente e sentia-se contente sozinha, pois podia cavalgar à vontade. E, até o final do ano anterior, estivera sempre muito ocupada com os estudos.

—Pelo amor de Deus!— dissera seu pai certa vez—, coloque um pouco de cultura nessa sua cabeça! Você está se tornando uma mulher muito bonita, mas beleza não é o suficiente!

—Suficiente para quê?— perguntara ela.

—Para arrumar um marido interessante, que se sinta atraído e apaixonado por você até a morte!

—Do modo como o senhor amou mamãe?

—Exatamente!— replicara lorde Heywood—, sua mãe sempre me deixou fascinado, e eu nunca me interessei por mais ninguém enquanto ela viveu. Nunca liguei para nada nem para outra pessoa enquanto estivemos juntos!

—Aquelas palavras não eram de todo verdadeiras, pois Minella lembrava-se do quanto seu pai ficava irritado nos momentos em que não tinha dinheiro suficiente para levar a esposa aos teatros e bailes londrinos, onde encontrariam amigos alegres como eles.

Porém, mesmo assim, a velha mansão sempre estivera cheia de alegria, até sua mãe morrer.

Um inverno extremamente rigoroso fizera com que a tosse de Alice Heywood fosse ficando cada vez pior, até que ela contraíra uma forte pneumonia, e ao cabo de duas semanas, estava morta.

Para Minella, havia sido como se, de repente, o mundo tivesse se estilhaçado em mil fragmentos, e ela sabia que o pai sentia exatamente o mesmo.

Só depois dos funerais ele havia falado, numa voz terrível, que Minella não reconhecera:

—Não pode ser verdade! Não posso acreditar que sua mãe nunca mais surgirá de repente daquela porta!

Lorde Heywood partira na direção de Londres naquela mesma noite fugindo, da lembrança de sua esposa adorada.

Daquele dia em diante seu pai mudara. Não que tivesse se tornado mórbido, introspectivo, como acontece com vários homens que ficam viúvos. Muito pelo contrário! Procurando não pensar mais na esposa, voltara a ser tão galanteador e aventureiro como fora antes de se casar, e jogara-se de corpo e alma em envolvimentos sentimentais com outras mulheres.

Não falava de seus casos amorosos, mas Minella sabia da existên- cia deles em função das cartas e bilhetes que não paravam de chegar à mansão. Eram envelopes elegantemente decorados, com letras deli- cadas ou, então, bastante extravagantes.

Alguns ele jogava fora imediatamente, como se não tivessem o menor significado. Outros, porém, eram guardados com carinho...

Depois que recebia uma dessas cartas que guardava, dizia para a filha, em tom casual:

—Tenho que resolver alguns problemas em Londres. Acho que tomarei o trem amanhã pela manhã. Não ficarei fora por muito tempo.

—Sentirei saudades, papai!

—Eu também, minha boneca, mas estarei de volta no fim de semana.

Mas, quando chegava o final da semana, não havia o menor sinal de seu pai, e Minella tinha a nítida impressão de que ele só voltara porque o dinheiro terminara e não por sentir saudades dela.

Mesmo assinu até a morte de seu pai, não percebera que ele andava contraindo muitas dívidas.

Como os amigos sempre diziam, Roy Heywood, tinha uma saúde de ferro, e sua morte repentina, fora totalmente inexplicável.

Uma noite, ele chegara tarde em casa e, pela expressão de seus olhos, a filha percebera que se tinha divertido a valer em Londres.

Ele nunca havia gostado de álcool em excesso, e em comparação aos seus amigos, era praticamente abstêmio. Entretanto, pelo que contava nos seus momentos mais bem-humorados e expansivos, nas festas que frequentava, o champanhe circulava como água e o vinho que bebia no clube com os amigos era excelente.

Claro que essas extravagâncias acabavam afetando sua saúde e ela possuía sensibilidade suficiente para notar que aquela vida agitada já estava dando uma aparência precocemente envelhecida a ele.

Logo que seu pai entrou na mansão pela última vez, Minella percebera que não estava bem e vira que ele estava com a mão enfaixada por um lenço manchado de sangue.

—O que aconteceu, papai?

—Prendi a mão num pedaço de ferro solto na porta do vagão. Está doendo muito! Veja se consegue fazer alguma coisa, por favor!

—Claro, papai!

Minella lavara-lhe a mão e havia notado um corte grande e profundo.

Não conseguira deixar de pensar que ele devia estar meio cambaleante ao apanhar o trem. Talvez se tivesse desequilibrado, ou até caído.

Seu pai sempre tinha sido tão ágil e saudável, que ela imaginava que o ferimento cicatrizaria rapidamente.

Na manhã seguinte, entretanto, havia ficado muito perturbada ao vér que, apesar dos cuidados da noite anterior, a mão de lorde Heywood estava inchada e começando a inflamar.

O médico que Minella chamara disse que não era nada grave e havia receitado uma pomada desinfetante, que Minella aplicara se- guindo exatamente as instruções.

Mesmo assim, o ferimento havia piorado e, no fim de semana, lorde Heywood sentia dores insuportáveis na mão. Quando resolveramprocurar um cirurgião, era tarde demais. A infecção já se tinha alastrado pelo corpo inteiro, e só as drogas, que o deixaram inconsciente, o impediam de ficar gritando de dor.

Tudo acontecera tão depressa, que era difícil para Minella perceber o que realmente estava acontecendo. Só quando seu pai foi sepultado no pequeno cemitério ao lado de sua mãe, havia compreendido que estava completamente sozinha no mundo.

De início, não tendo ideia do estado das finanças deixada por seu pai, imaginara continuar morando na mansão, cultivando parte da terra que não estava arrendada.

O Sr. Mercer, porém, a desiludira, fazendo-a compreender que aqueles planos não passavam de sonhos, já que a mansão e pelo menos metade das terras estavam hipotecadas.

Quando as hipotecas foram pagas, Minella tinha se deparado com um grande acúmulo de dívidas contraídas por seu pai em Londres, e fora obrigada a enfrentar a realidade, não só estava sozinha, como também sem dinheiro!

Naquele momento, olhando para o advogado, disse:

—Não sei como agradecer por tudo o que fez, Sr. Mercer. Dei-lhe muito trabalho e só espero que o senhor tenha conseguido reservar uma quantia que o recompense pelos serviços prestados.

—Não se preocupe com isso, Srta. Minella. Seus pais foram muito bondosos comigo logo que vim morar aqui, e foi através de lorde Heywood que consegui muitos clientes novos para meu pequeno escritório de advocacia.

Minella sorriu.

—Papai sempre queria ajudar as pessoas.

—É verdade. Acho que esta foi uma das razões de os credores não o terem pressionado tanto quanto poderiam. Todos me expressaram seus mais profundos sentimentos pela morte dele.

Aquele comovente tributo à personalidade de seu pai fez brotarem algumas lágrimas aos olhos de Minella.

—Papai sempre me dizia que, quando pudesse me levar a Londres, talvez no ano que vem, seus amigos me receberiam com alegria e me proporcionariam momentos maravilhosos.

—Talvez eles queiram fazer isso agora— sugeriu ele, esperançoso.

Ela meneou a cabeça.

—Tenho certeza de que não seria a mesma coisa, a não ser que papai estivesse lá para diverti-los.

O Sr. Mercer sabia que era verdade, mas se limitou a dizer:

—Talvez alguma senhora amiga de seu pai ficasse feliz em recebê-la em sua casa e apresentá-la à sociedade.

—Não estou particularmente interessada na sociedade londrina— replicou Minella, pensativa, como se estivesse falando sozinha—, mas também não quero ir morar com tia Esther, pois seria muito deprimente!

—Não precisa decidir hoje, Srta. Minella, pois já tivemos que resolver tantas coisas deprimentes...

O Sr. Mercer tentou consolá-la, pois achou que a moça ia chorar.

—Pode ficar aqui, pelo menos até o fim do mês. Assim, terá tempo de pensar nisso com calma.

Ela teve vontade de responder que já estava se preocupando com o fato. Tinha passado a noite acordada, lembrando-se dos parentes Clinton-Wood que ainda estavam vivos e repetindo os nomes dos familiares de sua mãe, que não conhecia.

—Deve haver alguém— disse, como já tinha dito centenas de vezes.

—Tenho certeza que sim— encorajou-a o Sr. Mercer.

O advogado levantou-se e começou a recolher os papéis espalhados sobre a escrivaninha para guardá-los em sua pasta de couro.

Era uma pasta velha e surrada e ele a usava desde que se tornara advogado de lorde Heywood. Embora seus sócios e funcionários zom- bassem dele, o Sr. Mercer nunca pensaria em se separar de algo tão familiar.

Minella também se levantou e caminharam juntos para o pequeno hall de entrada.

O pequeno e antigo trole do Sr. Mercer estava à espera dele, puxado por um cavalo jovem que o levaria com rapidez à pequena cidade de Huntingdonshire, onde ficava seu escritório.

O advogado subiu, o jovem criado que segurava a cabeça do cavalo sentou-se ao seu lado e partiram.

Minella acenou, entrou e, enquanto fechava a porta, pensou em como era difícil acreditar, que aquela casa não fosse mais sua e que não tivesse a menor ideia de para onde ir.

A não ser… e a ideia pairava como uma ameaçadora nuvem negra… que fosse morar com tia Esther.

Lembrava-se de cada termo da carta que a tia escrevera depois que a morte de seu pai havia sido noticiada nos jornais.

Além de não haver nenhum calor ou afeto nas palavras escritas por ela, ainda colocara uma nota:

“P.S. Como nossa família atualmente é muito reduzida, acho que você terá que vir morar comigo. Será mais um fardo para eu carregar, mas, como nunca tive outra coisa em minha vida, estou acostumada.”

—Um fardo!

Aquela palavra soara como um tapa no rosto de Minella.

Com um orgulho que desconhecia, tivera vontade de responder que nunca seria um fardo para ninguém.

«E por que seria?» pensava. «Sou jovem, bem-educada e inteligente. Deve existir alguma coisa que eu possa fazer para ganhar meu sustento!”.

Porém, não conseguia encontrar a resposta para essa dúvida.

Voltando para o escritório, lembrou que, enquanto conversava com o Sr. Mercer, tinha resolvido fazer uma limpeza na escrivaninha de seu pai.

Não queria que os novos proprietários da mansão, que a tinham comprado por uma soma considerável junto com quase toda a mo- bília, ficassem a par da vida particular do último lorde Heywood.

Minella sabia que, quando os aldeães, os fazendeiros e os poucos vizinhos dos arredores da mansão falavam de seu pai, era com admi- ração, porque gostariam de ser tão espirituosos e inteligentes como ele. Às vezes, também o censuravam, por causa da maneira como ele se divertia em Londres e das histórias sobre as pessoas elegan- tes a quem se associava, que, mais cedo ou mais tarde, sempre chegavam ao condado.

«Eles não têm nada com isso!» pensava Minella.Entretanto, sabia que, se deixasse cartas na casa, eles as leriam e, se encontrassem contas, um programa de teatro, uma fita, uma luva ou um lenço perfumado, fariam comentários muito desagradáveis e alimentariam as histórias que já estavam surgindo a repeito de seu pai.

Percebera isso pelo modo como as pessoas da aldeia a olhavam e pelo tom de reprovação na voz do pastor, ao realizar o serviço do funeral.

O velho pastor era um homem simples e, embora sempre tivesse sido grato pela generosidade que lorde Heywood demonstrava, não aprovava a vida que ele passara a levar depois da morte da esposa.

Seu pai rira quando outrora, ela lhe havia falado dos comentários que as pessoas faziam sobre suas constantes viagens a Londres.

—Ainda bem que forneço assuntos para eles conversarem!— dissera ele—. Pelo menos, saíram dos nabos, das couves-de-bruxelas, do clima e da probabilidade de a torre da Igreja estar caindo!

—Oh, de novo não, papai!— replicara Minella, sabendo que seu pai tinha contribuído com muito dinheiro para as reformas da Igreja.

—Sabe qual a única resposta para isso, minha boneca? Deixem cair! E, como eles acham que é isso o que está acontecendo comigo, talvez fosse o mais apropriado.

Minella riu.

—Eles gostam de falar do senhor, papai, essa é que é a verdade! Não sei que assunto teriam, se o senhor desaparecesse de repente.

E fora exatamente isso que havia acontecido! Agora, ela sentia que as conversas voltariam a girar, a respeito de nabos e de couves-de-bruxelas.

Sentou-se na cama na frente da escrivaninha e abriu a primeira gaveta.

Havia ainda a costumeira confusão de lápis com pontas quebradas, canetas inúteis, canhotos de talões de cheque, e duas moedas de três pence, onde seu pai tinha feito um furo depois de terem sido usadas num pudim de Natal. Sua mãe dissera que eram talismãs da sorte e o pai prometera colocá-las na corrente do relógio, mas, claro, havia se esquecido de fazê-lo.

Agora, as moedas pareciam embaçadas, como também Os botões que já tinham pertencido ao uniforme de um criado.

O lorde Heywood anterior, tio de seu pai, empregava três criados e um mordomo para servi-lo.

Quando seu pai fora para a mansão, havia um casal muito eficiente para cuidar da casa, uma babá para ela, um valete para seu pai e um jardineiro.

Gradualmente, todos eles tinham ido embora, com exceção da velha babá de Minella.

Margaret cuidara de sua mãe desde criança e tinha sido o suporte principal da casa até morrer, com setenta e nove anos, pouco antes de sua mãe.

Depois disso, ficaram apenas duas ou três criadas diaristas que, apesar de limparem bem a mansão, estavam sempre apressadas para voltar para suas casas.

Agora, não havia mais ninguém. . .

Após a morte de seu pai, Minella passara a ignorar a poeira acumu- lada nos aposentos que não usava. Havia resolvido que não fazia o menor sentido gastar dinheiro em criadas, e que sozinha conseguiria muito bem dar conta do serviço.

Tirou da gaveta um bloco em que seu pai fizera várias contas, rasgou-o e jogou-o no cesto de lixo.

Juntou o resto das coisas e pensou que colocaria tudo numa caixa. Não sabia o que faria com aquilo, mas, pelo menos, guardaria os botões de prata com o brasão da família e os dois talismãs da sorte.

Depois que certificou-se de que não havia mais nada capaz de des- pertar os comentários das pessoas, fechou a gaveta que estivera exami- nando e abriu uma outra, que estava repleta de correspondência recebida.

Percebeu que seu pai raramente respondia às cartas, mas que as guar- dava na gaveta, por ordem de chegada, pretendendo, quem sabe, res- pondê-las um dia.

Minella começou a abrir as cartas, rasgando e jogando fora as que não tinham maior interesse.

Um exemplo típico:

“Querido Roy:

Gostaríamos imensamente de que aceitasse nossa hospedagem para o Grande Baile. Sei que você é a única pessoa capaz de tor- ná-lo agradável. Esperamos também que traga aquele grupo de St. Pancras...”

Havia muitas outras cartas escritas no mesmo estilo, com os ende- reços no topo da lauda, geralmente decorada pelo brasão da família.

Cada uma, entretanto, deixava claro que seu pai era convidado porque divertia as pessoas, ou, como dizia um convite escrito com letra de mulher:

“Tudo será um fracasso total se você não estiver conosco para, como sempre, nos fazer rir e, no que me diz respeito par- ticularmente, para me fazer muito feliz...”

Minella rasgou à carta rapidamente, pois teve a sensação de que qualquer pessoa que a lesse daria uma interpretação sarcástica e ma- liciosa sobre as relações de seu pai com as mulheres, e ela não queria que isso acontecesse.

Em seguida, não querendo invadir a vida particular de seu pai, pas- sou a rasgar as cartas sem tirá-las dos envelopes.

Estava para rasgar a última, quando o nome nas costas do envelope chamou sua atenção: “Connie”.

Observou-o e achou que conhecia aquela letra. Imediatamente lembrou-se: Constance Langford era a filha do pastor da aldeia vizinha à que eles moravam.

O pai dela era um homem muito inteligente, que nunca aceitara aquela posição social, pois queria ter sido professor em alguma universidade.

Com muita insistência, lady Heywood tinha conseguido conven- cê-lo a ensinar para Minella vários assuntos que estavam além da capa- cidade da velha professora que morava no povoado.

Minella levava quinze minutos cavalgando pelos campos para che- gar à Paróquia de Little Welham e o reverendo Adolphus Langford a fazia estudar muito.

Tinha catorze anos quando começou a ter essas aulas, e comparti- lhava as lições com a filha dele, Constance, três anos mais velha.

Havia sido muito mais divertido aprender ao lado de outra garota, e Minella se orgulhava porque aprendia muito mais depressa e, no geral, era mais inteligente do que Constance.

Quando não estavam no estúdio do reverendo, Constance não fazia cerimônia e dizia que achava as aulas uma completa chatice.

—Acho que você tem muita sorte por ter um pai tão inteligente!— dissera Minella, certa vez.

—E eu acho que você… é que tem sorte por ter um pai tão bonito e charmoso!— retrucara Constance.

—Vou contar a papai o que você disse. Tenho certeza de que ele vai ficar lisonjeado.

Minella levara Constance para tomar chá na mansão e seu pai havia sido muito atencioso, como sempre era com todo mundo, e Constance ficara maravilhada.

—Ele é tão elegante e tão bonito!— não cansava de repetir—, oh, Minella, quando posso ir de novo à sua casa? Só de ver seu pai, já fico totalmente emocionada!

Minella achava que aqueles comentários tão incisivos eram pouco gentis para com o próprio pai de Constance. Gostava muito do reverendo e achava a forma de ele ensinar muito eficiente e estimulante.

Apesar disso, percebia que Constance a tratava muito bem e concluiu, que teria de convidá-la a voltar à sua casa. Como quase não tinha amigos, ficou muito feliz por acabar fazendo disso um hábito.

Quando o reverendo não usava o cavalo, Constance tinha permissão, para usá-lo e as duas iam juntas para a mansão. Quando chegavam, para agradar a amiga, Minella sempre ia à procura do pai.

Geralmente, ele estava no estábulo ou no jardim e, como era evi- dente que Constance o fitava cheia de admiração e ouvia cada palavra dele como se fosse o próprio evangelho, certa vez lady Heywood co- mentara sorrindo:

—Não há dúvida de que você conquistou o coração da jovem donzela, Roy, mas não deve deixar que ela ou Minella o aborreçam. . .

—Elas não me aborrecem— respondera ele, bem-humorado—, além disso, garotas dessa idade sempre se apaixonam peio primeiro homem que conhecem.

—Tudo bem, contanto que ela não seja insistente!

—Se for, chamo você para me proteger, querida!

Lorde Heywood passara o braço em volta dos ombros da esposa e os dois caminharam pelo jardim, completamente felizes por estarem juntos.

Um ano depois, “Connie”, como ela se apelidara, alegando que Constance, era melancólico e sério demais, fora para Londres.

Ela havia lhe mandado uma carta, dizendo ter arranjado um emprego interessante, mas Minella tivera a impressão de que os pais dela foram muito vagos ao dizer do que se tratava.

Depois disso, só lembrava de Connie ter ido à mansão uma vez, logo depois da morte de sua mãe. Apareceu tão diferente, que Minella tivera dificuldade em reconhecê-la. Estava magra, alta, com porte ele- gante e muito bem vestida.

Na verdade, havia pensado que a jovem que batia à porta fosse alguma dama do condado que talvez tivesse vindo dar os pêsames à família pela morte de lady Heywood.

—Não está me reconhecendo, Minella?

Depois de uma breve pausa, Minella dera um gritinho de alegria e abraçara a amiga.

—Que bom ver você! Pensei que tivesse desaparecido para sempre! Como está elegante e bonita!

Era a mais pura verdade. Connie estava maravilhosa e seus cabelos loiros pareciam mais sedosos e brilhantes do que eram há um ano. Com os olhos azuis e a pele rosada, era o ideal perfeito que todo homem tinha da “rosa inglesa”.

Minella levara-a para a sala de estar, desejando conversar com ela e saber o que estava fazendo em Londres. Porém, dois minutos depois, seu pai entrara e havia ficado claro que Connie só queria conversar com ele.

Depois de alguns minutos, Minella saíra para preparar um chá e eles ficaram a sós. Quando estava voltando, tinha ouvido Connie dizer:

—Obrigada por sua gentileza, senhor. Se fizer isso por mim, ficarei tão feliz que nem terei palavras para agradecê-lo.

—Existe uma maneira melhor para você se expressar— respondera lorde Heywood com os olhos brilhando.

—Não vai esquecer?— perguntara Connie, ansiosa.

—Nunca esqueço minhas promessas.

Depois de algum tempo, Minella e o pai acompanharam Connie até o portão e ela havia partido, parecendo absurdamente elegante e fora de lugar na pequena e antiquada charrete do reverendo.

Enquanto a observavam se afastar, Minella tivera a certeza de que seu pai, pensava na fina cintura de Connie e em como aquele vestido justo lhe assentava maravilhosamente bem.

—Connie ficou muito bonita, não acha, papai?— comentara, dando o braço para ele.

—Muito bonita!

—Eu sempre ganhei de Connie nas aulas, mas ela me superou em beleza.

De repente o pai havia se virado e fitara-a intensamente, como se nunca a tivesse visto antes.

—Não precisa ter ciúmes das Connies do mundo, minha querida. Você tem o mesmo encanto que eu adorava em sua mãe. É bonita, e além disso, parece uma dama, o que é muito importante.

—Por que, papai?

—Porque eu não a criei para outra coisa!— respondera ele, energicamente.

Minella não havia entendido, mas, como conhecia seu pai muito bem, sabia que ele não queria que fizesse mais perguntas. Mesmo assim, tinha muita curiosidade para saber o que ele haveria prometido a Connie.

Naquele momento, embora sentisse que estava tomando uma atitude bastante errada, abriu a carta e leu:

“Caro lorde das luzes e do riso,

Como serei capaz de agradecer sua atenção? Deu tudo certo, exatamente como o senhor garantiu. Consegui o emprego e também mudei para esse pequeno e confortável apartamento que agora posso manter, graças ao senhor. Sempre o achei maravilhoso, mas nunca tanto como agora, me ajudando quando eu realmente precisava. Espero que algum dia eu tenha condições de retribuir e fazer algo pelo senhor!

Até lá, obrigada!

Obrigada! Obrigada!

Connie.”

Minella releu a carta lentamente. Em seguida, perguntando-se o que seu pai teria feito para deixar Connie tão agradecida, leu o papel pela terceira vez:

“Espero que algum dia eu tenha condições de retribuir e fazer algo pelo senhor!”

Era tarde demais para que Connie fizesse algo por ele, mas e se… e se sua gratidão fosse extensiva a ela?

Podia ser que lhe arranjasse algum emprego que a poupasse de aceitar o único convite que tinha recebido, ir morar com tia Esther.

Minella leu o endereço no topo da carta, mas, como não conhecia Londres, o nome da rua não significou nada para ela, embora sou- besse que ficava em alguma parte de West End.

«Se eu estivesse em Londres, haveria tantas opções de trabalho». pensou. «Poderia cuidar de crianças, até dar aulas para elas ou, talvez, embora mamãe reprovasse, trabalhar numa loja».

Não sabendo se era imaginação sua, Minella achava que as balco- nistas eram müito mal pagas e que tinham de trabalhar muitas horas seguidas.

Talvez isso acontecesse nas grandes lojas, que vendiam produtos baratos e tentavam atrair as massas. Porém, deveria haver lojas de primeira classe, que ficariam satisfeitas em empregar alguém com aparência de dama.

Minella sorriu.

«Tenho certeza de que papai nunca imaginou que essa minha qualidade poderia ser útil comercialmente».

Mas, por que não? Por que não?

Foi até o espelho olhar seu rosto, pensando no quanto Connie estava bonita quando os visitara há quase um ano.

Em seguida, olhou criticamente sua própria imagem. Seu rosto era como o de sua mãe, perfeitamente oval. Os olhos, grandes e expressivos, pareciam dominar o rosto inteiro, chamando atenção de imediato. Minella pensou que talvez eles fossem estranhos, porque eram acinzentados.

«Gostaria de ter olhos azuis como os de Connie», pensou.

Resolveu examinar o nariz pequeno e reto, e a curva dos lábios, concluindo que parecia jovem demais e que, talvez por isso, ninguém lhe desse uma posição de responsabilidade.

Tentou pensar no que faria para parecer mais velha e imaginou que poderia mudar o penteado simples que usava.

A moda era prender os cabelos no alto da cabela e deixá-los cair, ondulados e cacheados. Minella sabia que as garotas costumavam fazer os cachos artificialmente, se martirizando a noite inteira com papelotes.

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