Kitabı oxu: «A Deusa Do Oriente»
A Deusa do Oriente
Barbara Cartland
Barbara Cartland Ebooks Ltd
Esta Edição © 2014
Título Original: “Terror in the Sun”
Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014
Capa & Design Gráfico M-Y Books
m-ybooks.co.uk
Nota da Autora
No primeiro dia do ano de 1833, William Sleeman, um dos grandes nomes da história da colonização inglesa na Índia, empreendeu uma inspeção oficial dos territórios por ele administrados, carregado em um palanquim precedido por elefantes ricamente enfeitados e escoltado, como sempre, por inúmeros criados e pela cavalaria garbosamente uniformizada. Em sua companhia, encontrava-se sua esposa Amelie, grávida de nove meses. Seis dias depois de partirem da cidade de Sagar, ela começou a sentir as dores do parto. Acamparam em um lugar cheio de limoeiros e pimenteiras e que há várias gerações era conhecido como um bele, isto é, um esconderijo dos Thugs , praticantes de uma seita de fanáticos adoradores da deusa Kali. Era neste local que os fanáticos costumavam estrangular, com um lenço de seda amarelo, viajantes incautos e depois enterrar seus corpos, em honra de Kali, a deusa assassina.
Foi nesse lugar, de tão sombria tradição, que o filho de William Sleeman nasceu.
A nossa história situa-se nesses perigosos tempos da Índia e muitos de seus personagens existiram realmente, como sir William Sleeman, sua mulher e filho.
CAPÍTULO I
1832
–Apraz ao sahib Major conceder sua permissão para que o trem parta?
O indiano, chefe da estação, exprimia-se com respeito. Ao mesmo tempo em que falava, olhava por cima dos ombros para a confusão que se desenrolava naquele momento na plataforma.
Momentos de enorme excitação haviam precedido a chegada do trem, o qual, recém-introduzido na Índia, era tido como um dragão terrível, que expelia fogo pelas ventas.
Indianos revestidos de dholis, saris, trapos e panos que caíam cintura abaixo encontravam-se em um estado muito próximo da histeria coletiva. Vendedores que apregoavam seus produtos com vozes superagudas espiavam através das janelas dos vagões superlotados e, com uma expressão de súplica no olhar, ofereciam chipattis, doces coloridos, laranjas e bebidas avermelhadas.
Monges, ostentando trajes amarelos, soldados em uniformes escarlates, carregadores com pesadas bagagens acotovelavam-se em meio à confusão geral.
Havia os inevitáveis adeuses apaixonados e recomendações feitas, quase aos berros, àqueles que viajavam, por parte de quem ficava e acreditava que os passageiros iriam arriscar suas vidas no bojo daquele monstro perigoso.
O Major Iain Huntley contemplava vários homens reunidos em torno de uma pilha de bagagem, possuído da firme convicção de que eles se encontravam ali com o único propósito de armar alguma confusão.
No momento em que o chefe da estação afastou-se dele, desdobrando sua bandeirola vermelha, o pandemônio explodiu.
Os indianos começaram todos a correr, aos gritos e aos berros, abanando os braços e sacudindo seus bastões. Quase como em um passe de mágica, numerosos soldados apareceram empunhando seus mosqueteiros, deslocando-se rapidamente a fim de conter a multidão ameaçadora.
Eles eram poucos, em comparação com os baderneiros que, dispostos a armar a maior confusão, perturbavam e empurravam as famílias que não iriam viajar naquele trem e estavam sentadas ou dormindo na plataforma, ao lado de seus bens, os quais, na maior parte, consistiam em frágeis pacotes amarrados com corda. Cada família possuía numerosas crianças, além das inevitáveis cabras.
Toda aquela confusão tomou-os de surpresa e puseram-se a gritar, em meio ao choro generalizado das crianças e aos balidos dos animais, o que aumentou consideravelmente o tumulto.
Os chipatti, voavam em todas as direções, os recipientes de vidro que continham as bebidas coloridas estilhaçavam-se no chão e um bode livrou-se do laço que o prendia e saiu em carreira desabalada plataforma afora, perseguido de perto por seu desesperado dono.
Possuído de uma sensação de alívio, o Major Huntley achou que os soldados seriam perfeitamente capazes de controlar a situação assim que o trem partisse e andou sem pressa em direção á sua cabine, onde se encontrava seu criado ao lado da porta aberta, esperando por ele.
As rodas começavam a girar e o vapor e o resfolegar da máquina, superavam qualquer outro barulho.
A enorme locomotiva, fabricada na Inglaterra, parecia sobrepor-se a tudo e a todos.
Quando estava para chegar á cabine, notou, para sua grande surpresa, que a porta do vagão se abria e uma mulher vestida de branco descia para a plataforma.
Certificou-se imediatamente, com a rapidez de um homem habituado ao inesperado, que ela pretendia socorrer uma criança que, empurrada por aqueles que haviam armado toda aquela confusão, estava caída na plataforma, sem ninguém que a socorresse e na iminência de ser pisoteada pela pequena multidão. Apesar de muito pequena, chorava a plenos pulmões.
Um segundo antes que os braços da desconhecida pudessem pegá-la, o Major Huntley agarrou a mulher pela cintura e colocou-a à força no vagão.
O trem começava a deslocar-se com velocidade cada vez maior e como ele não tinha tempo de entrar em seu próprio vagão, seguiu a desconhecida, trancando imediatamente a porta.
Olhou para a plataforma que ficava para trás e viu dezenas de punhos levantados e gritos irados dos baderneiros, que pareciam um bando de chacais a quem a presa acabava de ser roubada.
A velocidade aumentava cada vez mais e a estação já se perdia de vista. O Major Huntley, voltou-se para contemplar a mulher que ele tinha empurrado para dentro do vagão sem a menor cerimônia.
Para sua grande surpresa ela era jovem e excecionalmente bela.
Havia retirado o chapéu e seus cabelos negros emolduravam um rosto muito alvo. Seus olhos, grandes, escuros, porém pontilhados de dourado, olhavam-no carregados de cólera.
–Graças á sua interferência– comentou com rispidez–, aquela criança, sem a menor duvida, será morta!
–Quem é a senhora e o que está fazendo aqui?– perguntou sem maiores rodeios.
Sentou-se e olhou à sua volta, com uma expressão incrédula no olhar, como se esperasse descobrir alguém na cabine, fazendo-lhe companhia.
Notou, porém, que ela estava vazia. Voltou-se para a desconhecida e antes que ela pudesse responder sua primeira pergunta, indagou:
–Quem foi que a colocou neste trem? Não tinham o menor direito de fazer uma coisa destas!
–Parece-me que qualquer pessoa tem o direito de viajar de trem, contanto que disponha de meios para comprar a passagem!
–Mas não especificamente neste trem, que se dirige para Sagar .
–Sim, eu sei e é para lá que quero ir.
–Para Sagar ?
Ela, que era pouco mais do que uma garota, levantou-se.
–Será que o senhor tem alguma autoridade para me interrogar?
–Autoridade plena– retrucou o Major Huntley com firmeza–, dei ordens no sentido de que nenhum europeu viajasse para Sagar que, no momento, é área proibida.
–Por quê?
A pergunta exigia resposta, mas ele retrucou um tanto evasivamente:
–Por razões oficiais. A senhorita ainda não respondeu minha pergunta.
Enquanto falava, adivinhou que ela não tinha a menor intenção de fazê-lo e, dominando o tom autoritário com que se exprimira até então, disse:
–Acho que devemos apresentar-nos. Sou Iain Huntley e, como pode notar por meu uniforme, pertenço aos Lanceiros de Bengala. No momento, porém, exerço tarefas especiais nesta região.
O Major Huntley acabou de falar e esperou por uma resposta.
Enquanto se exprimia, pensava que aquela garota era por demais bela e jovem para viajar sozinha em qualquer parte que fosse da Índia e sobretudo naquela região específica e naquele preciso momento.
Fez-se uma pausa estudada, como se ela se ressentisse com o fato de ter de lhe dar informações. Então, como se tivesse chegado à conclusão que não fazia o menor sentido mostrar-se difícil, declarou, com óbvia relutância:
–Meu nome é Brucena Nairn.
–E está viajando para Sagar ?
–Sim.
–Posso saber por quê?
–Vou ficar lá com meus amigos.
–Perdoe a minha curiosidade, pois há uma explicação para ela, mas gostaria de saber seus nomes.
Teve novamente a sensação de que ela gostaria de desafiá-lo e dizer-lhe que não se metesse onde não era chamado.
Ainda estava zangada. Podia notar este fato em seus olhos, que agora reconhecia como expressivos e pareciam, apesar de escuros, estar irradiando aquele sol que dentro de algumas horas transformaria as planícies atravessadas pelo trem em um inferno de calor.
–Vou ficar com o Capitão e a Sra. Sleeman.
O Major Huntley olhou-a sem acreditar no que acabava de ouvir.
–Com os Sleeman? Mas como é possível?
–Por quê? Parece-lhe tão pouco provável?
–Mal posso crer que William Sleeman esperaria uma hóspede como a, senhorita sem participar-me sua chegada e sem tomar as devidas providências para recebê-la.
Brucena Nairn deu de ombros.
–Se é este o seu modo de pensar, não há razão para que eu lhe diga mais nada.
Levantou o queixo, com ar de desafio, e olhou ostensivamente pela janela, como se a conversa tivesse chegado ao fim.
Quase a despeito de si mesmo, Iain Huntley pôs-se a sorrir.
Havia qualquer coisa de divertido no antagonismo daquela criaturinha que não tinha o menor direito de estar naquele trem e muito menos discutindo com ele.
Achou que seria uma boa medida mostrar-se conciliatória.
–Devo pedir-lhe desculpas, Srta. Nairn, mas, francamente, tomou-me de surpresa. Desde a semana passada que Sagar está proibida para todos os europeus. Como acaba de ver na estação, tem havido alguma perturbação da ordem e se tivesse ficado por lá poderia encontrar-se em uma situação muito desagradável.
–Mas qual foi a razão de toda aquela confusão?
–Estas coisas costumam acontecer nesta época do ano– respondeu o Major, um tanto evasivo–, mas ainda não consigo compreender porque o Capitão Sleeman, não me contou que estava à sua espera.
Enquanto falava notou, muito surpreendido, que um ligeiro rubor apoderava-se do rosto da garota e durante alguns segundos ela mostrou-se ligeiramente perturbada.
–Ele e a Sra. Sleeman estão de fato à sua espera?– Indagou, exprimindo-se em um tom diferente.
Fez-se uma ligeira pausa antes que Brucena Nairn dissesse em voz baixa:
–Eu… espero que sim.
–Espera que sim! Pois ficaria muito grato se me contasse exatamente o que aconteceu e por que está aqui.
–Não há a menor razão…– começou a dizer.
Neste preciso momento seu olhar cruzou com o do Major Huntlev e quase contra sua vontade ela capitulou.
–Bem… acontece que… acontece que o Capitão Sleeman é meu primo.
–Então ele sugeriu que a senhorita deveria vir ficar com ele aqui na Índia?– indagou o Major Huntlev, como se estivesse começando a compreender o que havia acontecido
–Não… exatamente.
Ela se exprimia com hesitação e ele olhou para Brucena Nairn fixamente, antes de prosseguir
–O que quer dizer com isto?
–Sua mulher, a Sra. Sleeman, escreveu-me pedindo que encontrasse uma babá para sua criança. Está esperando… um nenê para o ano que vem.
Brucena ficou levemente ruborizada, como se sentisse constrangimento em abordar assunto tão íntimo e o Major Huntley apressou-se em dizer:
–Sim, tenho conhecimento deste fato.
–Tentei de todos os modos, encontrar uma pessoa confiável que quisesse vir para a India, mas todas se recusaram
Enquanto falavam, Brucena pensava que fora uma tarefa impossível convencer as moças escocesas de Invernesshire de que a India era um lugar interessante para se trabalhar.
A relutância não partia somente delas, mas também de suas mães.
–Não vou permitir que minha filha se case com algum pagão– diziam repetidas vezes.– Vão ficar por aqui mesmo, onde eu possa ficar de olho nelas.
–Mas a senhora precisa levar em conta que seria uma aventura e tanto, além de representar uma oportunidade de se educar– dissera Brucena, batalhando por sua causa, tendo recebido de uma das mães, aliás urna senhora muito abespinhada, a seguinte resposta:
–Minha filha não vai viver esse tipo de aventura na idade em que se encontra. Se a coisa lhe parece tão atraente, Srta. Brucena, por que então não vai?
Foi a partir desta sugestão que Brucena começou a acalentar a ideia.
No momento apenas rira, porém mais tarde, quando sua missão de encontrar uma babá para a prima Amelie, revelara-se cada vez mais impossível, começou a sentir que a Índia lhe acenava e que seria tolice recusar o convite.
Não se sentia feliz em casa a partir do momento em que tivera idade suficiente para compreender que fora um grande e irremediável desapontamento para seu pai, pois ele queria um filho.
O General Nairn tinha apenas dois interesses na vida, o seu regimento e a perpetuação de seu nome.
Sua maior alegria consistia em abrir os livros nos quais podia seguir a história dos Nairn desde as épocas mais remotas e provar que todos eles tinham sido audazes guerreiros.
Brucena costumava pensar que ele havia sonhado desde criança com o dia em que teria um ou mais filhos a seu lado, combatendo junto a ele, acrescentando troféus das guerras em que tomariam parte àqueles que já pendiam das paredes do Castelo de Nairn.
–Sou um desapontamento para papai– dizia para si mesma, antes mesmo de completar nove anos.
Nos anos que se seguiram, ela começou a se dar conta da extensão de seu ressentimento em relação a ela, pois havia fraudado a maior de suas ambições.
Se não houvesse outras maneiras de relembrar o fato, ela o evocaria toda vez que ouvia seu nome ser pronunciado,
Bruce era um nome de família entre os Nairn e seu pai a batizara quase como se estivesse desafiando os deuses que lhe tinham aplicado um golpe baixo, não lhe dando o filho que ele desejara tão ardentemente.
Há dois anos, logo após a morte de sua mãe, seu pai, com pressa quase indecente, aproveitara a primeira oportunidade para voltar a se casar.
Escolhera uma jovem apenas três anos mais velha do que sua filha, mas que era muito diferente na aparência e que poderia ser considerada como uma “boa criadeira.”
Desajeitada, pesadona, sem a menor pretensão a uma bela aparência, Jean sentira-se orgulhosa e excitada por casar com o senhor do Castelo de Nairn, porém ficou perturbada com a aparência de sua enteada a partir do momento em que a viu.
Era inevitável que a beleza de Brucena, e a atração que os homens sentiam por ela não contassem pontos a seu favor junto a uma madrasta, sobretudo em se tratando de alguém tão jovem.
A tensão que sempre existira entre ela e seu pai acentuou-se rápida e violentamente, em tudo o que dizia respeito à sua nova esposa. Quando, há seis meses, Jean dera a luz àquele filho tão esperado, Brucena constatou que sua posição no Castelo tornara-se insustentável.
Seu pai a censurava por qualquer pretexto. Tentava ignorar o ódio estampado no olhar de sua madrasta e tinha certeza de que assim que o herdeiro mimado e adorado pudesse ver e pensar acabaria por odiá-la também.
–Preciso ir embora daqui– pensou dezenas de vezes, mas não tinha a menor ideia de para onde ir.
Seus parentes não somente não a queriam, como também se sentiriam muito constrangidos em lhe oferecer um lar sem serem solicitados a tal pelo General.
Apesar de Brucena nunca ter abordado o assunto com ele, achava que o orgulho de seu pai jamais lhe permitiria pedir ou aceitar favores de seus parentes, a maior parte dos quais achava aborrecidos, convidando-os raramente para ir ao Castelo.
Tudo o que Brucena possuía, eram trezentas libras, deixadas a ela em testamento por sua avó.
Recebera orientação no sentido de não gastá-las e sabia que seu pai considerava aquela quantia como parte de seu dote, o que, até certo ponto, o dispensava de maiores esforços, no sentido de completá-lo.
Compreendia agora que aquilo era uma dádiva dos deuses, que lhe permitiria pagar sua viagem à India.
Debateu durante muito tempo consigo mesma se deveria contar a seu pai o que pretendia fazer e decidiu pela negativa.
Sentia que, apesar de ele não gostar dela, apreciava no fundo ter alguém que pudesse repreender e com quem pudesse brigar.
Brucena se encontrava sempre por lá e o General podia despejar sua cólera sobre ela, sempre que alguma coisa o desagradava, e isto de um modo violento, que ele teria hesitado em empregar com qualquer outra pessoa.
Subitamente, pareceu a Brucena que tudo se harmonizava enquanto lhe passava um plano pela cabeça e ela não encontrou a menor dificuldade em pô-lo em prática.
Uma garota, sua única amiga depois que ela se tornara uma mocinha, convidou-a para fazer companhia a ela e a seus pais, em uma viagem a Edimburgo.
–Papai e mamãe vão estar muito ocupados– disse a jovem para Brucena–, papai tem de receber todas as pessoas importantes que vem do sul para a inspeção das tropas.
Acharam que eu me sentiria muito só e sugeriram que eu a convidasse para viajar connosco. Podemos visitar as lojas e quem sabe até mesmo sermos convidadas para ir a um baile! De qualquer modo, seria divertido viajarmos juntas.
–Muito divertido!– concordou Brucena.
Achou que seu pai criaria dificuldades, mas, para sua grande surpresa, ele declarou que achava a ideia muito boa, contanto que ela não se ausentasse por muito tempo.
A seu modo de ver, ele estabelecera aquela condição porque, em princípio, não lhe permitia nenhuma diversão, mas há um ano a recusa teria sido perentória. É que naquele momento ainda não lhe nascera o herdeiro, o filho que perpetuaria seu nome.
Ao despedir-se do pai e da madrasta com forçada cordialidade de ambas as partes, Brucena teve certeza de que eles, no fundo, sentiam-se alegres em livrar-se dela por algum tempo.
Achou que isto a eximia de quaisquer sentimentos de culpa, em relação aquilo que pretendia fazer.
Permaneceu durante uma semana em Edimburgo, comprando às escondidas tudo aquilo que achava que iria necessitar na Índia.
Era suficientemente inteligente para não ir para um novo país antes de aprender algo a respeito e fora muito difícil localizar em casa livros que lhe revelassem o que queria saber.
Havia, entretanto, numerosas informações sobre a Índia nas livrarias de Edimburgo e ela logo reuniu uma pequena biblioteca. Sabia que teria tempo de ler e reler aqueles livros durante a viagem.
Disse a seus amigos de Edimburgo que precisava voltar para casa, pois seu pai estava à sua espera e quando eles, com relutância, despediriam se dela, tomou um trem para Londres.
Era agora que a verdadeira aventura começava, pensou, enquanto viajava para o sul.
Por mais estranho que parecesse, Brucena tinha plena confiança em que saberia tomar conta de si mesma e que chegaria à Índia sem que nada de mal lhe acontecesse.
A Sra. Sleeman mandara-lhe instruções completas sobre as providências que deveriam ser tomadas em relação à viagem da babá, se acaso encontrasse uma que quisesse ir.
Ao ler todas aquelas páginas preenchidas pela caligrafia elegante de prima Amelie, Brucena pensou, com um sorriso, que suas recomendações mais se assemelhavam ao despacho de uma encomenda valiosa que não deveria ser danificada durante a viagem.
Certificou-se de que a companhia P.&O. tomaria todas as providências e que uma acompanhante para a jovem seria encontrada entre as passageiras que viajavam na segunda classe.
Haverá missionárias ou senhoras cristas pertencentes a alguma organização e que estarão viajando para Bombaim.
Prima Amelie escrevera:
“ Tenho certeza de que não aceitariam dinheiro por seu trabalho, pois o considerariam um ato de caridade. Você deve dar à pessoa que escolheu, um presente adequado, a fim de que ela recompense aquelas senhoras por sua bondade.”
No escritório da companhia P&O, Brucena relatou uma história um tanto diferente.
–Tenho de viajar até a Índia para ficar com meus parentes, mas infelizmente a senhora que deveria me acompanhar adoeceu. Os senhores não fariam a gentileza de encontrar alguém que pudesse tomar conta de mim durante a viagem?
O funcionário olhou para o rostinho bonito de Brucena e achou que era absolutamente necessária a presença de uma acompanhante para uma garota tão atraente.
Havia sempre oficiais de volta à pátria, de licença. Lidar com romances nascidos a bordo era uma das tarefas menos árduas com que um Comissário se via a braços.
Algumas vezes, no entanto, a situação tornava-se traumatizante quando os passageiros se envolviam demais e então surgiam dificuldades inesperadas…
Ele, entretanto, dispôs-se a colaborar no que pudesse, vindo portanto de encontro às expectativas da Sra. Sleeman.
–Acho que tenho precisamente a pessoa de que necessita, Srta. Nairn. O pastor Grant e sua mulher, estão de regresso a Bombaim e tenho certeza de que a Sra. Grant colaboraria de muito bom grado, quando eu lhe explicar as circunstâncias.
–Seria muita bondade de sua parte.
Notou pela expressão do funcionário que ele removeria céus e terras a fim de ajudá-la.
A Sra. Grant e o pastor revelaram-se pessoas extremamente prestimosas, porém muito aborrecidas… cercaram Brucena com uma aparência de respeitabilidade, mas não interferiram em sua vida e ela passou grande parte da viagem lendo.
Também apreciava os divertimentos a bordo e à noite transformava-se no centro de atração dos homens que queriam todos dançar com ela, para grande despeito das outras passageiras.
Era a primeira vez na vida que se sentia livre e sem ser continuamente censurada, como acontecia o tempo todo em casa.
Sentia uma grande alegria em poder exprimir uma opinião sem ser reprimida e uma alegria ainda maior em saber que, quaisquer que fossem os sentimentos de seu pai em relação ao que ela acabara de fazer, não havia nenhuma atitude que ele pudesse tomar.
Havia gasto uma quantia apreciável com as roupas e a passagem, mas ainda lhe sobrava algum dinheiro.
Agora que havia tomado a decisão e deixado sua casa, sabia, no fundo do coração, que jamais regressaria, e se os Sleeman não a quisessem, encontraria alguma outra casa onde pudesse trabalhar.
Havia telegrafado para eles antes da partida do navio, dizendo:
“Encontrei pessoa solicitada. Seguem detalhes.
Afetuosamente,
Brucena.”
Omitiu deliberadamente a data da chegada e deixou de explicar que ela própria iria, em lugar da babá que prima Amelie havia pedido.
Era urna precaução necessária, pois sentia que talvez eles não a quisessem e não poupariam esforços para enviá-la de volta para casa, assim que chegasse a Bombaim.
–Haverão de pensar que a babá chegará dentro de um mês e que na carta, que aliás não tenho a menor intenção de escrever, explicarei quem é ela e por que penso que é uma pessoa recomendável.
Voltou a refletir profundamente sobre o assunto e certificou-se de que quando chegasse disposta a fazer tudo aquilo que se esperava de uma babá, os Sleeman achariam extremamente difícil mandá-la embora.
–Vão ter de manter-me em sua companhia pelo menos durante alguns meses– pensou Brucena.
Ao mesmo tempo, a despeito de ter certeza de que seria uma babá muito mais competente do que aquelas rudes moças escocesas, não podia deixar de sentir que estava se impondo junto a pessoas que talvez não a quisessem.
O primo William tinha sido sempre muito gentil com ela.
Lembrava-se de que quando criança ele lhe inspirava um grande respeito e até mesmo um certo receio, pois lhe parecia um jovem muito inteligente.
Tinha cabelos alourados, olhos azuis e uma fronte ampla e quando ele os visitou pela segunda vez, anos mais tarde, tinha domínio do árabe, do persa e do urdu.
Nascera na Cornualha, a exemplo de sua mãe, e suas famílias tinham sido vizinhas durante anos a fio.
Devido a sua inteligência, por volta dos trinta anos foi dispensado de seu regimento, ingressando na administração pública. O General Nairn ficara impressionado com o fato de que ele havia se tornado um magistrado e um administrador regional na Índia Central muito antes dos homens de sua idade.
Há três anos, uma carta do Capitão Sleeman dirigida ao General comunicava que ele tinha sido nomeado pelo novo Governador-Geral, Lord William Bentick, para ocupar um cargo muito importante.
–É o homem certo para o posto certo– dissera o General sentenciosamente enquanto lia a carta durante o café da manha.
–E de que cargo se trata, papai?
–O título dele é superintendente para a supressão da seita Thuggee, mas você não entenderia se eu lhe dissesse do que se trata.
Ele se exprimia em tom perentório, não somente como um homem que acha que o intelecto de uma mulher não pode se expandir alem dos limites da cozinha ou do quarto das crianças, mas também porque não apreciava a curiosidade de Brucena, que a levava a formular perguntas que ele teria apreciado ouvir de um rapaz e não de uma menina.
–Já li a respeito dos Thugs , papai– replicou Brucena–, trata-se de uma sociedade secreta, que culta Kali e acha que é um dever sagrado estrangular as pessoas.
–Você não devia se informar a respeito dessas coisas– disse o General com profundo desagrado–, mas, dentro em breve, William controlará essa gente abominável.
–E como pretende agir?
–Deram-lhe cinquenta soldados da cavalaria e quarenta sipaios, pertencentes à infantaria. É mais do que suficiente. Gostaria eu mesmo de empreender esta tarefa, se fosse mais jovem.
Havia dezenas de perguntas que Brucena queria fazer a seu pai, mas ele saiu do quarto levando a carta de William Sleeman e ela sabia que sua curiosidade não seria satisfeita.
Assim sendo, tentou averiguar tudo o que pudesse a respeito dos Thuggee, mas sem grande sucesso. Mesmo em Edimburgo os livros que conseguiu comprar não lhe disseram muito mais do que aquilo que ela já sabia.
Enquanto o Major Huntley a encarava com um brilho de suspeita no olhar, ela disse:
–Meu primo pediu que arranjasse uma babá, mas como não consegui encontrar a pessoa de que eles necessitavam… resolvi me apresentar.
O Major Huntley sorriu.
–E sem lhes dar a oportunidade de rejeitá-la?
–Sim.
–Agora estou começando a entender. A senhorita não viajou desde a Inglaterra sem ter a companhia de alguém, não é mesmo?
–Não. Fui assistida com muita dedicação pelo pastor Grant e sua senhora, até Bombaim. Chegaram até mesmo a encontrar alguém que tomasse conta de mim de lá até a cidade de Bhopal, mas infelizmente minha acompanhante ficou doente no último momento e em vez de esperar que eles providenciassem mais alguém decidi vir sozinha.
–Vejo que é uma jovem cheia de iniciativa. Sabe, porém, que é fora de todo e qualquer propósito uma mulher, seja ela casada ou solteira, viajar sozinha na Índia?
–Pensei que os ingleses tinham os indianos sob controle– ela retrucou, em tom de provocação.
–Fazemos o que podemos. Ao mesmo tempo, mal posso acreditar que a senhorita viajaria pela Inglaterra sem uma governanta ou uma criada.
–Sei tomar conta de mim mesma.
–Não duvido, mas é algo que não deve tentar fazer neste país.
Brucena lembrou-se dos revoltosos e da cena tumultuosa que eles haviam aprontado na estação. Não daria ao Major Huntley a satisfação de saber que eles, na verdade, haviam-na deixado terrivelmente assustada e não duvidava de que algo terrível havia acontecido com o bebê.
–Agora que se encontra aqui, posso cuidar da senhorita até o fim da viagem, mas acho que o Capitão ficará muito surpreendido.
–Está trabalhando com ele?
–Estou, sim.
–Então, porque tem um posto mais alto do que o dele?
O Major Huntley sorriu.
–Seu primo é um funcionário público nomeado diretamente pelo Governador-Geral. Administra um território muito extenso, enquanto eu comando os soldados.
Brucena haveria de descobrir mais tarde que ele estava subestimando suas funções, mas naquele momento limitou-se a sorrir.
–Já que está trabalhando com primo William, não quer me falar a respeito dos Thuggee? Fiquei muito interessada no assunto desde que o primo William foi nomeado para este cargo, há três anos, mas é muito difícil saber o que quer que seja a respeito deles.
–E por que está tão interessada?
–Tudo o que diz respeito à Índia me interessa. Na realidade, nasci aqui e apesar de não me lembrar de nada sempre tive vontade de regressar.
O Major Huntley pareceu ter ficado muito surpreendido.
–Meu pai serviu durante alguns anos na fronteira noroeste. Partimos da Índia quando eu tinha um ano de idade e apesar de ele regressar mais tarde, permanecendo aqui durante alguns anos, minha mãe e eu ficamos na Escócia.
–E ainda assim o país a atrai?
–É estranho– disse Brucena, após uma pausa–, mas desde que cheguei a Bombaim tenho como que a sensação de me encontrar em casa.
Ele a encarou com uma certa reserva, como se achasse que ela estava se exprimindo daquele modo para conseguir um certo efeito.
Ela, entretanto, não o olhava e sim para a paisagem, achando que aquelas terras secam e quentes, as aldeiazinhas perdidas em meio às árvores, e os búfalos que aravam a terra eram algo que ela já vira algum dia.
Não tinha a menor ideia dos motivos que a levavam a sentir-se daquele jeito.
–A senhorita me faz uma pergunta a respeito dos Thuggee– disse o Major Huntley e imediatamente ela voltou-se para ele, repleta de interesse. O Major prosseguiu:
–Espero que durante sua permanência na Índia não venha a travar conhecimento com eles. Na realidade, é muito importante que todas as pessoas que vivem nesta região estejam sempre de sobreaviso.
Enquanto falava lembrava-se do que havia visto no templo de Kali, em Bindhaghal, à beira do rio Ganges.
Tratava-se de um santuário procurado no fim da estação chuvosa por todos os peregrinos da Índia, que iam até lá a fim de fazer oferendas à deusa.
Os caminhos que conduziam ao templo estavam atulhados de carros de boi, de mendigos e de peregrinos de pés descalços.
Ao redor das muralhas do templo sentia-se o cheiro de incenso, de flores e nuvens de pó turbilhonavam em torno da construção. No ar pairava também o odor da morte.
Noite e dia sacrificavam-se bodes e seu sangue escorria pelos degraus do templo. Seus balidos assustados misturavam-se aos gritos dos devotos fanáticos, que se flagelavam enquanto suplicavam a bênção dos deuses.
Para Iain Huntley aquela deusa sanguinária, a terrível esposa de Shiva, o Destruidor, negra, furiosa e nua, com sua clava adornada de crânios humanos, era o símbolo de tudo contra o qual ele lutava.
A língua que saía para fora, os olhos injetados de sangue daquele ídolo grotesco, aquele chão fumegante onde a morte e o terror eram festejados. Este era o quadro de abominação a que se entregavam os Thugs .
Aquele era o seu lugar sagrado e dali a irmandade de estranguladores, partia há centenas de anos para aterrorizar aqueles que viajavam pela Índia.
Os adeptos do culto tinham seus rituais próprios, bem como sua tradição e hierarquia e acreditavam, que ao estrangular alguém, estavam matando em defesa da causa de Kali.
Imaginando como poderia falar sobre os Thuggee para aquela garota inocente sentada diante dele, Iain Huntley mergulhou novamente em seus pensamentos e lembrou-se de que a política tradicional da Companhia das Índia s Orientais baseava-se na não interferência nos costumes religiosos da Índia.
Na realidade, o Governo fazia vista grossa sobre as lendas e os feitos sanguinários dos Thuggee, mas as autoridades inglesas, cuja presença na Índia começava a aumentar, possuídas de um zelo reformista, ficavam horrorizadas com os costumes locais, que até então permaneciam inalteráveis.
Os ingleses estavam determinados a eliminar os costumes mais cruéis, por mais antigos ou ligados às divindades. O infanticídio e os sacrifícios humanos foram proibidos, bem como o suttee, a prática que consistia em se queimar as viúvas nas fogueiras.
Era evidente que algo deveria ser feito em relação a Bindhaghal, sede da sociedade secreta dos estranguladores.
O culto não tinha sido profundamente estudado e nem suas ramificações observadas, até que o Capitão William Sleeman, que fazia parte do Exército de Bengala, tornou-se interessado em seus tenebrosos mistérios.
Ficou sabendo que os Thugs, operavam dentro do mais absoluto segredo, de acordo com rituais escrupulosamente obedecidos.
Ficavam de tocaia, à beira das estradas, e todos eles eram treinados para matar, estrangulando suas vítimas por meio de um lenço de seda amarelo.
Em seguida, faziam profundas incisões rituais nos cadáveres, enterravam-nos ou jogavam-nos em poços profundos, queimavam os pertences desprovidos de valor e levavam o resto.
Nenhum traço dos infortunados viajantes era deixado no local do crime.
A exemplo do que acontecia com a maior parte das atividades na Índia, pertencer aos Thuggee era algo hereditário. Os meninos eram iniciados gradualmente naquelas horrendas práticas: primeiro, como aprendizes, em seguida cavavam as sepulturas, depois, davam assistência nos assassinatos e finalmente, desde que demonstrassem grande ferocidade, tornavam-se blurtotes qualificados ou estranguladores aristocratas entre os Thugs.
Foi William Sleeman que identificou a sede e as enormes ramificações da sociedade, que se espalhava como uma teia venenosa sobre a Índia inteira.
Estabelecendo seu Quartel-General em Sagar , uma cidadezinha acanhada, situada às margens de um lago no coração da região dos Thuggee, ele pôs-se a organizar sua campanha.
Iain Huntley recordava-se agora de que alguns oficiais mais velhos, a serviço dos príncipes indianos, eram estranguladores experientes, o mesmo acontecendo com um determinado sargento a serviço do Marajá de Hockar.
Alguns eram criados de europeus, que neles depositavam cega confiança. Outros haviam passado quase toda a vida a serviço das Forças Armadas da Companhia das Índia s Orientais e um deles até recentemente fora informante da polícia no que dizia respeito a outros campos do crime.
Era assustador pensar que o homem em quem se havia confiado durante anos a fio, um soldado que obedecia suas ordens, seu próprio criado pudesse ter feito um juramento secreto e pertencesse à temível seita Thuggee.
Para os Thugs, o seu trabalho era sagrado e eles acreditavam que seus poderes eram sobrenaturais.
Tinham uma ligação oculta com seu parceiro do mundo animal, o tigre.
Um estrangulador famoso informou, ao ser interrogado:
–Aqueles que escapam dos tigres caem nas mãos dos Thugs, e aqueles que escapam dos Thugs são devorados pelos tigres!
Pensando bem, talvez os tigres fossem menos assustadores!
O Major Huntley ouvira um prisioneiro gabar-se de que tinha estrangulado novecentos e trinta e uma pessoas.
Havia um bando de Thugs, composto por trezentos homens que se vangloriavam de ter cometido mais crimes do que seria crível admitir.
Iain Huntley sabia que aqueles dois últimos anos em que estivera trabalhando ao lado de William Sleeman tinham sido os mais inacreditáveis, os mais assustadores e ao memo tempo os mais excitantes de toda a sua existência.
Como poderia explicar tudo aquilo para aquela jovem recém-chegada da Inglaterra e que tudo desconhecia da Índia?
Como se tivesse consciência do que ele estava pensando, Brucena disse:
–Quero compreender tudo isto e sei perfeitamente que se trata de uma ideia muito ambiciosa, mas mesmo assim tenho de começar por algum lugar.
–Sinto apenas que, tendo vindo à Índia, comece pelos Thuggee– replicou o Major Huntley.
Ela sorriu.
–De certo modo a coisa fica mais interessante. Tem gente que vem aqui e só sabe fazer elogios ao Taj Mahal e ao brilho da administração da Companhia das Índias Orientais…
Havia um certo sarcasmo no tom com que ela se exprimia, o que fez com que o Major Huntley a encarasse fixamente.
–Nossa administração é brilhante em certos aspetos, mas em um país tão grande e tão densamente povoado como a Índia, há inevitavelmente muitas coisas que ainda deverão ser feitas.
–Acredito, mas de certo modo acho uma grande presunção de nossa parte tentar mudar um povo cuja civilização é muito anterior á nossa. Quem somos nós para julgar se suas crenças são certas ou erradas?
Iain Huntley olhou-a muito surpreendido.
Aquela não era a atitude convencional tomada pelas jovens que vinham à Índia.
A maior parte delas preocupava-se apenas com as diversões que encontrariam no Palácio do Governo, nos chás, nas partidas de polo, nos bailes e nos mexericos.
As demais eram missionárias dedicadas, firmemente resolvidas a pôr um ponto final nas práticas dos indianos, pois divergiam frontalmente dos conceitos de bem e de mal, que lhes haviam sido inculcados em sua pátria.
Iain Huntley sentia profunda aversão por aquele imperialismo evangélico combinado com um grande fervor moral. Considerava medíocres e de mentalidade estreita aqueles que haviam feito daquelas teorias o objetivo de suas vidas.
Pensava com frequência que preferia a superstição e a selvageria da Índia, o costume de queimar as viúvas, o infanticídio à carolice e ao zelo estreito e mesquinho daqueles que não apreciavam nem mesmo a beleza do país, pois ele exercia um efeito sedutor sobre suas pessoas.
–Acho que a primeira coisa que tem a fazer é compreender os indianos como indivíduos e não como um todo, pois cada um deles pertence a uma casta diferente, têm pontos de vista diversos e obedecem a regras que eles mesmo se impuseram e que nenhum governo, por melhor administrado que seja, poderá alterar.
–E se agíssemos assim nós os estragaríamos– comentou Brucena, como se estivesse falando consigo mesma–, é por isso que quero compreender tudo o que diz respeito à Índia.
–Por quê?
A pergunta fora muito brusca e ela sabia que o homem que a formulara suspeitava que suas motivações estivessem ligadas a uma mera curiosidade.
–A resposta a isto, é o fato de eu sentir que tenho muito o que aprender da Índia e que tenho muito a receber dela.
Iain Huntley ficou novamente surpreendido.
Enquanto imaginava o que dizer, Brucena prosseguiu:
–O senhor disse que na Índia todos são diferentes. Compreendo sua afirmação, no que diz respeito às castas, mas, com certeza, todos eles acreditam em algo.
–No quê?
–Em seu Karma pessoal. Todos os livros que li se referem ao Karma como algo que impregna e abrange tudo, algo a que quase todos os indianos aderem não somente com sua mente, mas também com seu coração.
O Major Huntley contemplou-a durante alguns segundos e disse em seguida:
–Tem razão, Srta. Nairn. É claro que tem razão. Apenas fico surpreendido que tenha chegado a esta conclusão ou que ela tenha sido dita pela senhorita através de uma fórmula tão simples.
–Já li a respeito, mas sinto que sempre levei isto dentro de mim, pois trata-se de algo em que também acredito.
CAPÍTULO II
Fez-se um silêncio e Iain Huntlev percebeu de repente que não conseguiria suportar a perspetiva de destruir o idealismo e o apreço que a garota sentia pela Índia, revelando-lhe os detalhes sórdidos e revoltantes relativos aos Thuggee.
Devido ao fato de sentir-se um tanto surpreendido pelas revelações que Brucena havia feito a respeito de si mesma, disse em um tom de voz mais enérgico do que desejaria:
–Espero, Srta. Nairn, que suas ideias a respeito da Índia, não sejam modificadas devido a sua estada em Sagar .
–Acho que o lugar me parecerá muito interessante, qualquer que seja sua aparência, mas ainda estou á espera de que o senhor me fale sobre os Thugs.
–E algo que não tenho a menor intenção de fazer e penso que verificará que seus primos sentem o mesmo que eu. Quanto menos se falar deste assunto, melhor!
Talvez o modo como ele se exprimia fosse desagradável ou talvez ela tivesse ficado desapontada por não ouvir o que queria saber, mas Brucena sentiu que se encolerizava.
Desde que encontrara aquele homem, ele se mostrava decidido a colocar obstáculos em tudo e ela ainda achava que deveria ter salvo o bebê. Só não o fizera porque ele a impedira, trazendo-a de volta para o trem.
Era um homem bonito, para aqueles que apreciavam uma aparência tão britânica, mas havia nele algo de rude e decidido.
Quase chegou a sentir pena dos Thugs , pois ele era uma daquelas pessoas que os perseguiam e os entregavam à Justiça.
Disse em voz alta:
–É óbvio, Major Huntley, que no que lhe diz respeito, não sou bem-vinda a Sagar .
–A senhorita não é minha hóspede e cabe ao Capitão Sleeman e à sua esposa dar-lhe as boas-vindas.
Brucena compreendeu de repente que se eles tomassem a mesma atitude do Major, teria de encontrar um outro lugar que a recebesse e isso poderia ser muito difícil.
Olhou para fora da janela e certificou-se, ao contemplar a paisagem que desfilava diante de seus olhos, que desejava, com intensidade quase apaixonada, que a Índia lhe proporcionasse sensações que a Escócia jamais lhe conseguiria, transmitir.
Havia nela algo caloroso, algo que não conseguia colocar em palavras e isto sentira muito bem, quando partira de Bombaim. Tratava-se de qualquer coisa que se refletia na luminosidade dos dias e na escuridão das noites.
–Isto tudo me fala ao coração– disse para si mesma.
Sentia, porém, que já havia revelado muito de seus sentimentos mais íntimos ao Major Huntley e que ele não os entenderia.
Permaneceram em silêncio e devido ao fato de que ela havia voltado o rosto para outro lado, ele conseguiu distinguir seu perfil. Era impossível deixar de admirar seu nariz pequeno e reto, as curvas delicadas de seus lábios e o queixo voluntarioso.
Ela deveria voltar para a Escócia, pois lá é o seu lugar, pensou, preocupado.
Então disse a si mesmo que estava sendo desnecessariamente alarmista.
Dentro em pouco ela estaria com os Sleeman e a vida social tão restrita que havia em Sagar, a receberia de braços abertos.
A exemplo do que acontecia com as garotas na Índia, seria convidada para partidas de tênis e jantares, nos quais, se houvesse homens em quantidade suficiente, ela poderia dançar.
–Não pode lhe acontecer nada de mal se ela se limitar a este tipo de vida– disse Iain Huntley para si mesmo.
Tinha, porém, a sensação desagradável de que, em se tratando de Brucena, aquilo não seria suficiente.
–Espero– disse após um momento de reflexão– que o Capitão Sleeman providencie para que a senhorita visite seus amigos em outras regiões da Índia, onde apreciará paisagens bem mais belas e templos magnéticos, que em Sagar, não existem.
–Está tentando livrar-se de mim?– indagou Brucena, com uma entonação divertida–, parece ter esquecido Major, que preciso trabalhar.
–Como uma baba? Não consigo vê-la neste papel…
–No entanto, foi por esta razão que eu vim e tenho certeza de que não acharei difícil aprender o que é esperado de mim.
Ao dizer estas palavras, pensava no que Amelie Sleeman, tinha escrito em seu francês tão elaborado.
Mais tarde Brucena ficou sabendo que devido ao fato de seu marido falar francês muito bem, ela nunca chegou a dominar completamente o inglês.
–Não quero uma babá empertigada e rígida, que desprezaria a mim e aos meus métodos. Quero uma moça inglesa ou escocesa que me ajudará a cuidar do meu bebê e em quem eu confie plenamente, a ponto de saber que ela não lhe dará ópio a fim de mantê-lo em silêncio ou qualquer dessas drogas infernais que os Avahs empregam, quando ninguém os está olhando.
Naquele momento a colocação lhe parecera bastante simples, mas agora Brucena imaginava que talvez a prima Amelie estivesse pensando em algo bem mais sinistro do que em um Avah preguiçoso que desejasse fazer a criança ficar quieta.
Os Thugs, sem sombra de dúvida, odiavam o primo William pelo modo como ele os reprimia e os impedia de realizar aquilo que para eles era uma tarefa sagrada.
Que melhor vingança haveria do que estrangular seu filho ou mesmo sequestrá-lo a fim de educá-lo dentro do culto que ele estava destruindo?
Lera em um livro, que quando os Thugs matavam viajantes e eliminavam seus traços, algumas vezes levavam em sua companhia, além de tudo que tivesse valor, uma criança especialmente bonita.
Dizia-se que eles ensinavam-na a se tornar um Thug ou então, o que era muito mais assustador, sacrificavam-na à deusa Kali.
Brucena estremeceu ao pensar que pudesse acontecer uma coisa destas ao nenê da prima Amelie e disse a si mesma que sua imaginação seguia rumos absurdos.
Talvez os Thugs, não fossem tão maus assim como pintavam.
O mistério que o Major Huntley criava em torno deles apenas intensificava a sensação de que ela deveria conhecer mais coisas a seu respeito e não deveria ser mantida na ignorância da verdade, como ele obviamente desejava.
–Tive o azar de encontrar no momento em que cheguei à Índia um homem que não tem a menor vontade de me agradar e que não somente coloca obstáculos em minhas tentativas de descobrir o que desejo, como também gostaria de se ver livre de mim.
Disse a si mesma que lutaria contra ele com todas as armas que estivessem a seu alcance.
Tinha certeza de que ele tentaria convencer sua prima que ela não somente era inadequada para a profissão que viera exercer, como também representaria um perigo a mais em um tipo de vida que, em si, encerrava todos os perigos possíveis e imagináveis.
«Se a prima Amelie consegue enfrentá-la, eu também conseguirei!», pensou Brucena.
Ao mesmo tempo mostrava-se apreensiva e enquanto o trem deslizava sobre os trilhos que os levaria a Sagar, ela constatou que gostava cada vez menos do homem que se sentava diante dela.
–C’est impossible! Não acredito que você esteja aqui de verdade!– disse Amelie Sleeman naquela mesma noite, depois de terminarem o jantar à luz de velas.
Os abanadores acima de suas cabeças faziam com que as chamas se inclinassem para cá e para lá, como se estivessem a bordo de um navio.
Brucena sorriu para ela e em seguida para seu primo.
–Tive medo de que se zangassem comigo por eu ter vindo– respondeu.
–Não, claro que não estamos zangados– respondeu a Sra. Sleeman em seu inglês precário e encantador– mas nunca sonhamos, mon mari et moi, ao recebermos seu telegrama, que você viria em pessoa, em vez de mandar uma jovem escocesa.
–Elas ficaram apavoradas com a ideia de viajar para uma terra tão pagã e para dizer a verdade senti-me muito feliz de poder me afastar do Castelo. As coisas não têm sido muito fáceis depois que papai voltou a se casar.
–É exatamente o que eu disse para meu marido– comentou Amelie Sleeman, com uma inflexão de triunfo na voz–, disse-lhe: cette pauvre petite com toda certeza vai passar um mau pedaço com uma madrasta que jamais poderá ser tão bonita quanto ela!
–Agora você está aqui e é só isso que conta– disse William Sleeman antes que Brucena pudesse responder–, fico contente por Amelie ter alguém que lhe faça companhia. Ela se sente muito só, pois tenho de ausentar-me com frequência.
–É verdade, sinto uma falta imensa de você, mon cher, onde quer que você vá, mas as coisas aqui se tornam piores, pois onde quer que eu vá tenho atrás de mim soldados me escoltando. Tenho certeza de que Brucena também achará isto muito aborrecido.
–Ela acabará se acostumando– disse William Sleeman com um sorriso–, quero deixar desde já umas tantas coisas muito claras, Brucena… você não deve sair do jardim sem comunicar ao sargento dos sipaios que estiver de plantão onde é que vai. Se se afastar muito de casa, ele mandará alguém lhe fazer companhia.
–Está vendo só?– exclamou Amelie, fazendo um gesto expressivo com as mãos–, é como se fôssemos prisioneiras suas e algumas vezes sinto que c’est moi que está presa e não os nativos.
–Penso que você acharia as masmorras de Jubbulpore e Sagar muito diferentes do conforto de que goza aqui– disse William Sleeman com secura–, eu pelo menos não a marco a ferro, querida.
Amelie sorriu.
–Imagino que devo lhe dizer obrigada!– exclamou. Percebendo que Brucena não compreendia, explicou:
–Limadas as punições reservadas a um Thug, ele é marcado a ferro nas costas e nos ombros e até mesmo nas pálpebras. É algo que eles não toleram.
–Não me surpreende– disse Brucena–, este castigo me parece excessivo.
–Nada é excessivo, em se tratando de homens que matam por prazer– sentenciou William Sleeman.
Ficaram em silêncio durante alguns instantes e então Brucena disse:
–Primo William, quando tiver tempo gostaria que me falasse a respeito dos Thuggee. Há muito pouca coisa relativa a eles nos livros sobre a Índia e pelo que sei trata-se de um dos segredos mais antigos deste país.
–É verdade, mas não sinto vontade de falar destas coisas na presença de Amelie. No estado em que se encontra, não deve se preocupar com assuntos desagradáveis, seja no plano físico, seja no plano mental.
–Sim, é claro. Compreendo.
Já lhe fora comunicado que a Sra. Sleeman esperava a criança para o Ano Novo e com sete meses de gravidez ela já estava um tanto pesada e perdera aquela graciosidade que lhe era tão característica.
Era filha do proprietário de um engenho de açúcar em Mauritius e aquele casamento entre duas pessoas de temperamentos tão opostos e com uma diferença de vinte anos entre eles parecia um tanto estranho. Bastava no entanto ver os Sleeman ao lado um do outro para compreender que eram extremamente felizes.
Devido ao fato de que as francesas são muito adaptáveis, Amelie era na realidade a esposa perfeita para William Sleeman.
–Serei muito feliz com eles– disse Brucena para si mesma, enquanto se recolhia ao leito naquela noite, no pequenino quarto anexo ao berçário, já pronto para abrigar o bebê.
Lá fora ouvia-se o pio agourento de uma coruja, o cricri dos grilos, o ruflar das asas dos morcegos, cães que ladravam, animais noturnos que deslizavam no mato e muito ao longe um som que ela sabia ser característico de toda a Índia; os uivos de uma matilha de chacais.
Tudo aquilo era muito excitante. Tratava-se de um mundo novo e ao mesmo tempo muito antigo. Sentia que tinha surgido dali, sabia que suas raízes se encontravam fincadas lá.
–Estou tão feliz de ter voltado para cá!– murmurou, antes de adormecer.
Só três dias mais tarde Brucena se deu conta de que enquanto começava a adaptar-se à nova vida havia perdido de vista o Major Huntley.
Ele a trouxera para o grande bungalow, todo pintado de branco, e a entregara a seus primos com o ar de um homem que não tinha a menor certeza, se lhes estava proporcionando uma surpresa agradável, ou desagradável.
Brucena sabia muito bem que havia trabalho à sua espera, pois no momento em que chegaram à estação de Sagar, um sargento, comandando um destacamento de sipaios estava à sua espera a fim de lhe fazer a continência de estilo.
Como estava aborrecida com o Major Huntley não se deu ao trabalho de explicar-lhe que durante as longas semanas de viagem estudara urdu e passados os primeiros dias descobrira um professor na segunda classe, o qual, em troca de uma pequena quantia de dinheiro, estava preparado para dar-lhe aulas.
O comissário de bordo que o havia descoberto garantiu-lhe que o homem era muito bem qualificado para a tarefa e Brucena verificou que ele não só era um professor eficiente como também uma pessoa muito inteligente.
Inicialmente aplicou-se muitíssimo em conhecer a língua, decidida a não chegar à Índia incapaz de falar qualquer outra coisa que não fosse inglês.
À medida que o tempo avançava, descobriu com grande prazer, que o professor também lhe poderia contar muita coisa a respeito do país e dos costumes de seu povo.
Tentou até mesmo explicar-lhe o sistema de castas e, mais importante do que tudo, as religiões, que variavam do budismo ao hinduísmo, dos jains, aos muçulmanos, além de centenas de seitas estranhas e variadas, todas elas com seus rituais, tabus e lugares sagrados, espalhados pelo vasto subcontinente.
Algo em Brucena instintivamente, fez com que ela mantivesse silêncio em relação aos Thuggee e a seu projeto de ficar hospedada, com o arqui-inimigo deles, o Capitão William Sleeman.
Tinha a impressão de que, se o professor ficasse a par de seu destino não demonstraria tanta boa vontade em lhe ensinar as coisas que ela queria saber.
Não conseguia encontrar muitas explicações para o fato de se sentir assim, mas ao longo dos anos aprendera a confiar em seu instinto, que naquele momento lhe dizia para manter silêncio em relação a si mesma.
Apesar de se dar conta de que havia muito mais coisas a aprender, no que dizia respeito às línguas indianas, compreendeu o que o Major Huntley, disse ao sargento que viera a seu encontro na estação.
Dirigindo-se a ele em voz baixa e esperando não ser ouvido, indagou em urdu:
–Algum problema?
–Sim, Major. Acho que hoje à noite deveríamos visitar…
Brucena não conseguiu entender a última palavra, mas compreendeu o resto e divertiu-se bastante quando o Major, voltando-se para ela com um sorriso enganador, comunicou-lhe:
–Disse ao sargento que providencie condução para a senhorita e eu a acompanharei até o bungalow de seu primo. Ficará muito impressionada ao se ver escoltada por um Regimento da Cavalaria!
Brucena não tivera uma impressão muito lisonjeira da cidadezinha de Sagar, a não ser pelo fato de que tudo na Índia, possuía uma beleza que ela jamais presenciara onde quer que fosse.
Estava debruçada sobre as margens de um grande lago e a seu lado havia uma construção semelhante a um Castelo, pesadão e sombrio, que mais tarde disseram-lhe ser a prisão.
O bungalow dos Sleeman, que se encontrava fora da cidade, era grande, porém simples e encantador. O jardim estava repleto de flores, cujas cores faziam Brucena sentir que elas lhe davam as boas-vindas de um modo todo especial.
Sentiu logo que não havia motivos para pensar que os Sleeman a mandariam de volta ou que não sentissem sincera satisfação em recebê-la.
Achou que a inegável sinceridade com que Amelie a beijava, mesmo levando em conta, o fato de que ainda não se conheciam, era uma certa forma de esnobar o Major Huntley.
–Talvez ele não queira minha presença aqui, pensou Brucena, mas meus primos querem e isto é a única coisa que conta.
Ao mesmo tempo sabia que havia levado a melhor e desejava que para o futuro houvesse entre ambos duelos semelhantes, possuída de um sentimento que não conseguia compreender com clareza.
Devido ao fato de ser curiosa, fez à Sra. Sleeman algumas perguntas relativas ao Major Huntley.
–Por que ele se ausenta? Deu-me a impressão de que era o braço direito de primo William.
–E é sim! William está muito satisfeito com ele. Capturou mais Thugs, do que qualquer oficial que o Regimento enviou para cá. Para falar a verdade, alguns deles são perfeitamente inúteis.
–Pareceu-me mesmo muito evidente que o Major Huntley, gosta de fazer interrogatórios– comentou Brucena secamente.
–É muito corajoso e apesar dos outros assistentes de meu marido não ousarem admiti-lo, tenho certeza de que eles, no fundo, estão assustados. Os Thugs são muito perigosos e graças a Deus seu número diminuiu.
–E tudo isto se deve ao primo William?
–Sim, é claro sim. Ele tem sido maravilhoso!– exclamou Amelie muito entusiasmada–, o seu principal objetivo na vida é, não só destruir os Thuggee, como também desacreditá-los.
Suspirou ligeiramente.
–William sempre diz que quando os homens lutam por uma causa, são incomensuravelmente mais fortes, e eficientes do que quando lutam por razões de dever ou satisfação pessoal.
–Já ouvi este conceito muitas vezes.
–E é verdade! Ele está começando a convencer os Thugs, de que nosso Deus é maior do que sua deusa.
–Será que ele conseguirá levá-los a acreditar nisto?– perguntou Brucena, cheia de curiosidade.
–Na semana passada, ele me contou que um Thug disse-lhe: “O senhor declara que Deus está de seu lado e que Kali retirou sua proteção devido às nossas transgressões. Devemos ter sido negligentes em seu culto”.
Após essa conversa Brucena gostaria de ter dialogado mais com o primo William, mas quando ele voltava para casa, à noite, estava exausto na maior parte das vezes.
Sabia que isto acontecia não só porque ele dava duro o dia inteiro perseguindo os Thugs, como também porque discutia com eles, lutando contra eles com palavras e armas. Ao encontrar-se no recesso do lar, não queria conversar a respeito daqueles assuntos.
Ela e Amelie, estavam proibidas de aproximar-se da cidade nos próximos dias e ele não lhes dera nenhuma explicação para o interdito.
Prestando atenção em tudo o que se dizia e interrogando com muita habilidade o sargento dos sipaios, que falava bem inglês, Brucena ficou sabendo que houvera problemas, pois seis Thugs haviam sido executados e um deles era considerado um herói nacional.
Um de seus simpatizantes, que ainda não podia ser preso sob a acusação de pertencer aos Thugs, por absoluta falta de provas, conseguiu levar os Indianos de outras castas a fazer manifestações de protesto e a causar desordens.
Na Índia a coisa mais comum era ganhar desafetos no plano político e somente métodos muito fortes de repressão conseguiam terminar com os distúrbios da ordem pública.
Brucena ficou sabendo que o resultado daquelas manifestações foi que a prisão do lago ficou lotada e muitos outros prisioneiros foram confinados em Jubbulpore.
Quando menos esperava, ouviu o barulho dos cavalos que se aproximavam e de repente o Major Huntley estava a seu lado, na varanda deserta.
Parecia acalorado e um tanto cansado, mas saudou-a com muita polidez e perguntou:
–Ouvi dizer que o Superintendente não está. Não me saberia dizer, quando ele vai voltar?
–Não tenho a menor ideia.
Antes de ir repousar, Amelie mostrava-se preocupada, pois ele não comunicou quando esperava estar de volta.
Notou que o Major Huntley franzia o cenho e perguntou:
–Aconteceu alguma coisa?
–Não, não, claro que não– ele respondeu com tamanha solicitude que ela percebeu que ele estava mentindo.
–Gostaria de beber algo?
–Sim, obrigado.
Bateu palmas, pois aprendera que era assim que se convocava um criado, e quando ele se apresentou o Major Huntley pediu um copo de laranjada.
Ao sentar-se na cadeira ao lado de Brucena o vinco em sua fronte desapareceu e ele perguntou:
–Como tem passado? A Índia ainda não a desapontou?
–Acho cada dia mais excitante do que o anterior– replicou Brucena–, mas é uma pena que eu sofra tantas restrições em relação àquilo que posso ver e quanto aos lugares onde posso ir. Para dizer a verdade, sinto-me desapontada por seus esforços em manter a paz não serem melhor sucedidos.
Pretendia espicaçá-lo, achando que ele reagiria às suas insinuações. Ele, ao invés, simplesmente riu.
–Confiava em que sua sensatez, após uma viagem tão longa, a levaria a repousar durante algum tempo. Permita-me informar-lhe que as coisas quase voltaram à normalidade. Dentro em breve poderá ir onde bem entender.
–Com uma escolta, é claro…
–Exatamente. Com uma escolta.
Brucena olhou em direção ao lago e para a planície achatada que se estendia, em direção ao horizonte.
–Este lugar é assim tão perigoso como vocês pretendem? Pressinto que o senhor gosta de me deixar arrepiada fazendo alusões a horrores sem nome, ao mesmo tempo que se recusa a apontá-los especificamente.
–A Srta. Nairn com certeza não está interessada em horrores… além do quê, na sua idade, deveria se interessar por coisas bem diferentes. Uma delas é o romance…
Enquanto falava, contemplou o livro que estava pousado na cadeira, ao lado dela.
–Pelo que sei, a leitura preferida das jovens que moram em Simla, é “O Morro dos Ventos Uivantes.” É este o livro que está lendo?
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