Kitabı oxu: «Seu Reino Por un Amor»
Seu Reino Por Um Amor
Barbara Cartland
Barbara Cartland Ebooks Ltd
Esta Edição © 2014
Título Original: A King in Love
Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014
Capa & Design Gráfico M-Y Books
m-ybooks.co.uk
CAPÍTULO 1
~
1865
Sua Majestade, o Rei Maximiliano, levantou-se do divã onde estava deitado e largou o copo.
−Preciso ir embora.
−Mais non, mon brave!
O protesto veio dos lábios vermelhos da mulher que se olhava no espelho.
Ela estava admirando, não seu rosto bonito, e sim, o colar de enormes rubis e brilhantes que usava.
−Não pode ir embora tão depressa− insistiu.
O sotaque encantador transformava sua voz um tanto vulgar em algo muito atraente.
Achando que seus protestos não eram suficientes, dirigiu-se para o rei, deixando que o négligé de gaze e de rendas se abrisse na frente.
−Acha que seu presente fica bem em mim, mon cher?− perguntou, referindo-se ao colar e postando-se diante de Maximiliano.
Os olhos do Rei não pousaram no colar, e sim, no corpo da mulher que tinha empolgado Paris.
“La Belle”, pois era este o nome pelo qual era conhecida no teatro, sorriu maliciosamente e com um leve movimento de ombros, fez com que o négligé caísse a seus pés.
A pele da atriz era muito branca; a cintura, fina. Os seios e os quadris tinham as curvas decretadas pela moda, mas só encontradas, com tal perfeição, em muito poucas mulheres.
Ficou parada, dramaticamente, vendo os olhos do Rei percorrerem seu corpo.
Depois, com uma exclamação abafada, aproximou-se, passou os braços em volta do pescoço dele e beijou-o...
Bem mais tarde, o Rei se aproximou do espelho para atar o nó da gravata.
Agora era La Belle quem estava deitada no sofá, numa atitude de exaustão satisfeita, o colar de rubis ainda brilhando no pescoço.
−Você me atrasou− disse o Rei− mas o Primeiro-Ministro certamente vai aceitar minha explicação, isto é, que estive tratando de negócios importantes.
−O que pode ser mais importante do que eu?− perguntou La Belle.
−O Primeiro-Ministro teria muitas respostas para essa pergunta− disse ele, sorrindo.
Feito o nó da gravata, olhou para seu reflexo no espelho, com ar zombeteiro, quase como se apreciasse as rugas cínicas que lhe marcavam o rosto.
Observando-o, La Belle achou que, mesmo que não fosse um rei, era o amante mais ardente e mais satisfatório que jamais tivera. E a atriz era muito experiente nisso!
Seduzida aos doze anos, tinha atingido o estrelato graças à sua sucessão de amantes, até aparecer no Théâtre Imperial de Châtelet, onde Maximiliano a conhecera.
Seus amantes haviam sido duques, marqueses e até um obscuro príncipe italiano; mas um rei tinha um encanto que ela achava irresistível.
O fato de Maximiliano ser muito rico e estar disposto a lhe dar uma vida confortável bastou para convencê-la a deixar Paris e ir para Valdastien, o país onde ele reinava.
No palácio havia um teatro particular, onde ela podia dançar para um público distinto, sempre que o desejasse.
Mas achava mais excitante dançar só para o Rei, na mansão onde ele a instalou e que tinha sido construída um século antes, no jardim do palácio.
Foi o avô do Rei quem primeiro instalou ali uma amante, depois que ficou velho demais para viajar para a capital e lá gozar os prazeres que somente uma mulher bonita podia dar.
Para facilitar ainda mais as coisas, a mansão comunicava com o palácio por meio de uma passagem subterrânea. Essa passagem tinha uma porta secreta dando para o escritório do Rei e somente ele possuía a chave.
−Quando vai voltar?− perguntou La Belle.
Esperou ansiosamente pela resposta, sem ter certeza do que ele diria.
Enquanto esperava, sabia que seria tolice tentar forçar o Rei a marcar uma hora, ou mesmo o dia em que poderia vê-la novamente.
Onipotente, só fazendo o que bem entendia, Maximiliano prezava sua liberdade acima de tudo. A atriz sabia que, se fosse sensata, nada teria perguntado, apenas esperando até ele se dignar a voltar.
Em todos os casos amorosos anteriores, tinha dominado os homens que a desejavam, deixando-os de joelhos, podendo levá-los ao êxtase ou desprezá-los a ponto de fazer com que ficassem desesperados.
Mas o Rei era diferente.
Embora soubesse que o excitava, sendo muito bem recompensada pelo prazer que lhe dava, a atriz nunca sabia com certeza se no dia seguinte não se veria num trem, viajando de volta para Paris, sem nenhuma explicação da parte do Rei por ter sido “despedida”.
Quando Maximiliano se virou, ela se levantou do diva, fechando de novo o négligé. Com a sabedoria de sua profissão, sabia que só as mulheres tolas se viam abandonadas quando um homem se cansava delas.
Ficou observando-o, enquanto ele vestia o paletó justo, que revelava os ombros largos e seu porte atlético.
Disse, suavemente:
−Você é muito bonito. Vou ficar contando as horas, até eu poder lhe dizer novamente como anseio por sua presença.
Falou em tom dramático, mas o Rei sorriu com ironia, reconhecendo as frases da peça que ela representava, pouco falando e obtendo sucesso apenas como dançarina.
Foram justamente suas qualidade de dançarina, assim como seu corpo escultural, que atraíram o Rei, em primeiro lugar. Quando ele se achava com La Belle, pensava que assim como acontecia com a maioria das mulheres, quando menos ela falava, mais interessante parecia.
Olhou-a mais uma vez e dirigiu-se para a porta, dizendo:
−Talvez eu organize um espetáculo no teatro, no próximo sábado. Vou pensar nisto e, se for possível, mandarei avisá-la, para que possa preparar uma dança que eu ainda não conheça.
Antes que ela respondesse, saiu e fechou a porta. Desceu calmamente a escada, dirigindo-se para a porta da passagem secreta, que ficava na parte traseira do hall.
Quando se viu só, La Belle atirou-se no sofá e ficou tamborilando com os dedos na parte curva da madeira.
Sabia perfeitamente por que motivo o Rei sugerira uma nova dança, que ainda não tivesse visto. Era porque ela teria que ensaiar e planejar um traje novo, ficando ocupada enquanto Maximiliano não precisasse dela.
Sentia-se furiosa por ver que ele dispunha de seu tempo, ao passo que ela mesma não tinha o poder de prendê-lo.
Sabia, pois não faltou quem lhe dissesse isso, que não era a primeira mulher que tentava amarrá-lo e fracassava.
Havia uma longa lista de amantes bonitas que tinham vindo para Valdastien e ido embora, se não em lágrimas, pelo menos humilhadas, percebendo que não eram tão irresistíveis como pensavam.
Antes de La Belle sair de Paris, uma de suas amigas avisou:
−Vai ver que o Rei é generoso, gentil e deliciosamente apaixona do mas é também esquivo, indiferente ao sofrimento feminino e, invariavelmente, inacessível.
La Belle não acreditou. Tinha certeza de que, irtesmo que todas as mulheres do mundo não conseguissem conquistar o coração de Maximiliano, ela conseguiria.
Agora sabia que, embora a cumulasse de jóias, embora despertasse o desejo dela, como a atriz despertava o dele, o Rei continuava sendo dono absoluto de si mesmo.
Tinha a desagradável sensação de que, se morresse no dia seguinte, o Rei mandaria flores para o enterro e não pensaria mais nela.
Foi até a janela, blasfemando baixinho na gíria da sarjeta.
Olhou para fora, mas não viu as montanhas altas com os picos cobertos de pinheiros, nem o vale verde onde um rio prateado serpeava por entre campos floridos.
Em vez disso, imaginou os bulevares cheios de gente, os lampiões de gás nos cafés, o público entrando no teatro, pronto para aplaudi-la ruidosamente, quando terminasse sua dança.
«Sou uma tola! Não sei por que não o abandono e volto para lá».
Com receio da resposta, afastou-se da janela com ar petulante e postou-se diante do espelho, para admirar o colar de rubis.
Temia, como tantas outras antes dela, se apaixonar por um homem para o qual só significava um belo corpo e uma dançarina sensacional.
O Rei andou pela passagem secreta, que tinha um tapete grosso e era decorada com lambris feitos com nogueira das florestas de Valdastien. Com uma chave de ouro, abriu a porta que dava para o seu escritório.
Ao fechá-la, não pensava na atriz, como La Belle teria gostado, e sim, no Primeiro-Ministro, que devia estar esperando por ele com impaciência.
Maximiliano estava mais de uma hora atrasado para a entrevista, mas não pretendia se desculpar, pela simples razão de acreditar que reinava pela graça de Deus e que, portanto, seus súditos, inclusive o primeiro-ministro, deviam aceitá-lo como era.
Passou para o enorme hall barroco, um dos mais belos do país e famoso em toda a Europa.
O Palácio tinha sido reformado e aumentado no correr dos séculos, pouco restando da construção original, que datava do século XVI.
Cada monarca tinha feito o possível para torná-lo mais impressionante. Governantes de outros países, quando vinham a Valdastien pela primeira vez, ficavam cheios de inveja da beleza do palácio é da riqueza das peças que ali havia.
Maximiliano subiu uma escada magnífica, decorada com ouro e marfim, indo até a antecâmara onde o Primeiro-Ministro devia estar à sua espera.
Era ali que, por tradição, o Rei recebia seus Ministros.
Como que para fazer com que compreendessem que eles eram apenas uma pequena parte da história, as paredes estavam cobertas por tapeçarias representando as vitórias dos antigos governantes e o teto pintado era obra de um artesão local que se inspirara nos mestres italianos.
Quando o Rei entrou na antecâmara, esperando ali encontrar, não apenas o Primeiro-Ministro, mas pelo menos meia dúzia de membros do gabinete, ficou admirado por ver apenas dois homens, perto da janela. Teve a impressão, embora não pudesse ouvir o que diziam, de que conversavam seriamente e até pareciam um pouco apreensivos.
Estavam tão entretidos, que, por um momento, não perceberam a presença do Rei.
Maximiliano tinha uma aguda percepção das pessoas e soube que o pedido urgente do primeiro-ministro para vê-lo não era uma visita de cortesia, e sim para tratar de algum assunto muito grave.
Dirigiu-se para os dois homens, que imediatamente ficaram atentos.
−Boa tarde− disse ao Primeiro-Ministro.
−Boa tarde, Majestade. É muita gentileza sua nos receber, a mim e ao chanceler, com tão curto aviso.
O Rei inclinou a cabeça para o Chanceler, o Conde Holé, de quem não gostava muito.
O Primeiro-Ministro continuou:
−Temos um assunto a discutir com Vossa Majestade e espera mos que tenha a bondade de nos ouvir, sem ficar contrariado.
Maximiliano ergueu as sobrancelhas.
−Acho que esta sala é muito grande para uma conversa íntima. Sugiro que passemos para a sala vizinha, onde certamente ficaremos mais bem acomodados.
Muito à vontade, sentou-se numa cadeira de espaldar alto, onde se via o brasão real bordado em seda e ouro. Com um gesto, indicou que os dois homens deviam sentar-se.
Eles escolheram duas cadeiras perto do rei, obviamente para não precisarem falar alto.
Maximiliano olhou de um para o outro.
−Então, senhores? Estou curioso para saber qual o importante problema que me trouxeram e que, por um motivo com o qual ainda não atinei, não exige a presença de todo o gabinete.
O Primeiro-Ministro respirou fundo.
−O Chanceler e eu estamos ansiosos, Majestade, para lhe falar sobre esse problema, antes que seja apresentado ao gabinete e, mais tarde, ao parlamento− fez uma pausa, olhou para o Chanceler como pedindo confirmação, e continuou−, devo ser franco, Majestade, e dizer imediatamente qual o motivo que nos trouxe aqui?
−Certamente, prefiro que me digam logo qual o motivo. Como bem sabem, não gosto de dissertações longas, que geralmente são desnecessárias.
Muito bem, Majestade. A opinião de muitos de meus colegas, partilhada por toda a nação, é que a linha sucessória precisa ser garantida. Seria um erro encorajar certas nações vizinhas a pensarem que, caso alguma coisa acontecesse a Vossa Majestade, elas poderiam ter alguma interferência nos negócios de Valdastien.
Quando o Ministro começou a falar, o Rei se contraiu, agora, com voz inexpressiva, mas com olhar duro, disse:
−O que está insinuando, Primeiro-Ministro, é que devo casar.
−Como Vossa Majestade me pediu para ser franco, a resposta é... sim.
−Sou relativamente moço.
−Claro, Majestade. Ao mesmo tempo, não tem irmãos e se não tiver um filho, a linha sucessória terminará.
O Rei ficou em silêncio, sabendo que era verdade. Como se temesse ter despertado sua cólera, o Ministro continuou:
−O povo do sul do país ficou muito abalado com a tentativa de morte contra o rei Gustavo, há três semanas. Como Vossa Majestade não ignora, Sua Majestade escapou por um triz, e nada nos diz que não haja outra tentativa de assassinato.
−O que os senhores estão dizendo é que há anarquistas por toda parte. Na última vez que estive em Paris, comentava-se que houve um atentado contra a Rainha Vitória, na Inglaterra.
−É verdade, Majestade, e aqui em Valdastien, o povo tem medo, não apenas de que um anarquista o ataque, como também porque sabem que Vossa Majestade está sempre correndo perigo.
O Rei percebeu que o primeiro-ministro se referia a seus passatempos prediletos. Gostava de alpinismo e orgulhava-se de, aos trinta e cinco anos, poder escalar montanhas com a força e a agilidade de quinze anos antes.
Gostava também de domar cavalos selvagens, dos quais havia muitos em Valdastien. Eram capturados em distritos isolados e montanhosos.
Quando os melhores eram trazidos para as cocheiras do palácio, o rei fazia questão de montar aqueles que seus cavalariços mais temiam.
Essas duas atividades aborreciam o Primeiro-Ministro.
Mas, com um sorriso sarcástico, Maximiliano pensou que havia outro assunto que o preocupava, não o abordava, embora estivesse presente em seu pensamento.
Em sua última viagem a Paris, o Rei foi desafiado para um duelo por um francês encolerizado que jurava que ele lhe havia seduzido a esposa.
O fato de não ter sido necessário nenhum esforço por parte de Maximiliano e de o caso estar longe de ser sedução, não o impediu de aceitar o desafio.
Embora o aristocrata francês fosse um famoso duelista, que já tinha matado dois adversários, foi ferido por uma bala do Rei, mas não antes de acertá-lo, de raspão, no braço.
Todo o país ficou assombrado com o que aconteceu com seu Rei e houve inúmeras especulações a respeito.
Maximiliano sabia que, para o Primeiro-Ministro e o resto do gabinete, era esse também um motivo urgente para tentar convencê-lo a ter um herdeiro.
O Chanceler disse:
−Creio ser desnecessário explicar a Vossa Majestade o quanto o povo se sente feliz sob seu reinado, esperando que haja muitos anos de alegria e de prosperidade, ao mesmo tempo...
Seu olhar encontrou o do rei e ele se calou. Parecia ter medo de dizer mais alguma coisa e de receber uma resposta áspera.
Maximiliano apertou os lábios. Ia dizer ao Primeiro-Ministro, ao Chanceler e a todos que podiam ir para o inferno, antes de vê-lo casado, quando ele se lembrou de que havia uma ameaça muito maior para Valdastien.
No ano anterior, em Paris, o Imperador lhe havia dito francamente que temia as ambições da Prússia e que tinha certeza de que Bismarck estava decidido a unir todos os Estados germânicos menores em uma Alemanha imperial que os engoliria a todos, um por um.
Maximiliano, que não tinha em grande conta a inteligência de Napoleão III, não lhe dera ouvidos.
Agora, os avisos uns dados por franceses, outros vindos em cartas de monarcas que reinavam em países pequenos como o dele pareciam aumentar cada vez mais.
Podia visualizar a Alemanha invadindo o mapa da Europa, engolindo um a um os principados até formar uma federação capaz de enfrentar a Inglaterra e a França em pé de igualdade.
Com surpresa, o Primeiro-Ministro ouviu o Rei dizer, em tom muito diferente do esperado:
−Vou levar sua proposta em consideração. Compreendo que o que sugere é sensato. Embora não deseje casar, acho justo o desejo de meu povo de eu lhe dar um herdeiro.
O Primeiro-Ministro respirou, aliviado.
−Só posso agradecer a Vossa Majestade por se mostrar tão compreensivo.
−Vou pensar nisso. Acho que o melhor seria eu visitar primeiro os países vizinhos, com os quais pudéssemos fazer uma aliança firme.
O Primeiro-Ministro, que era um homem astuto, compreendeu exatamente o que o Rei queria dizer. Também ele tinha medo da Alemanha e da ambição de Bismarck, que, como toda a Europa sabia, manipulava o fraco Rei Guilherme, que estava mais interessado em sua saúde do que na grandeza da pátria.
O Rei levantou-se.
−Obrigado, senhores, por sua visita. Eu lhes participarei meus planos, assim que tiver tempo de fazê-los.
Satisfeitos com o resultado da entrevista, o Primeiro-Ministro e o Chanceler se retiraram.
Depois que ficou sozinho, o Rei sentou-se numa poltrona e ficou olhando, sem vê-lo, o belo quadro de Fragonard na parede oposta. Não viu a figura graciosa no jardim romântico, nem os cupidos acima dela, no céu.
Pensou apenas na incrível caceteação de ter que tolerar a companhia de uma Rainha cuja única qualidade, no que lhe dizia respeito, seria seu sangue real.
Pensou nas cortes pretensiosas e aborrecidas que tinha visitado em suas viagens pela Europa; nos monarcas que conhecera. Eram todos iguais, muito cônscios de sua importância, tendo pavor de serem de-postos, não falando de outra coisa a não ser de assuntos familiares e de mexericos a respeito de outras cortes.
Lembrou-se da comida sem graça, invariavelmente servida nesses lugares que detestava, das camas pouco confortáveis, das intermináveis cerimónias oficiais e compreendeu que uma Rainha traria para o Palácio de Valdastien todas essas coisas que o irritavam e que sempre procurava evitar.
Sendo solteiro, tinha conseguido reduzir essas cerimônias ao mínimo, podendo divertir-se livremente, quase como se fosse um cavalheiro inglês, em sua propriedade rural.
Ia caçar quando bem entendia, só recebia as pessoas de quem gostava, deixando todas as cerimônias solenes, a não ser uma ou duas por ano, a cargo do Primeiro-Ministro e de outros membros do Governo.
Pensando bem, achou que o povo de Valdastien via seu monarca menos do que o de qualquer país. Por isso, disse a si mesmo, com ironia, esse povo estava muito mais satisfeito do que qualquer outro.
Uma Rainha mudaria tudo! Ia querer comparecer a inúmeras solenidades públicas, visitar hospitais, receber bouquets de flores e, sempre que possível, andar de carruagem para receber os aplausos da multidão.
Ia também querer interferir na direção dos serviços domésticos do Palácio, que o Rei considerava perfeitos, porque tinha o dom da organização.
Em vez de jantar com seus amigos íntimos, ou de gozar uma noite solitária, lendo ou indo visitar La Belle, ou a mulher que estivesse instalada na mansão na ocasião, teria que ficar conversando com alguma frau feiosa e maçante.
As damas de honra seriam, sem dúvida, ainda mais feias e mais aborrecidas do que a Rainha.
Que vida terrível!
Mas sabia que não havia alternativa.
O Primeiro-Ministro não falaria com ele daquele modo, a não ser que tivesse sido pressionado pelos outros membros do governo e também pelos cidadãos importantes, que queriam evitar a ameaça germânica.
Pior ainda era a perspectiva de terem que encontrar um governante estrangeiro para vir ocupar o lugar do rei, caso ele morresse sem deixar um herdeiro.
Maximiliano sabia que os gregos tinham procurado desesperada-mente por um monarca, tendo recentemente eleito para o trono o segundo filho do Rei da Dinamarca, que se tornou George I.
Mas sabia também que, se alguma coisa lhe acontecesse, Valdastien era um país pequeno demais para sobreviver. Um tanto desgostoso, pensou que era justo que fizesse um sacrifício por seu povo.
Há oito anos que reinava e apreciara cada momento. Tinha sido pouco convencional, mas ninguém se queixou, era também totalmente egoísta, quando se tratava de seus interesses particulares, e o povo o admirava por isso.
Agora, precisava pagar o preço da liberdade que gozava, mas considerava-o muito alto.
−Só Deus sabe onde poderei encontrar uma esposa que eu ache pelo menos suportável!− murmurou.
Como se o diabo zombasse dele, viu passar diante de seus olhos uma procissão de Princesas, altas, baixas, gordas, magras, loiras, morenas, ruivas.
Todas lhe pareciam muito pouco atraentes, e a ideia de tocá-las fez com que estremecesse, mas uma seria a mãe de seus filhos e usaria a Coroa de Valdestien.
−Não suportarei isso!
Depois, como se o diabo mudasse o cenário e erguesse o pano para um outro ato, o Rei viu as mulheres que tinha escolhido por seus encantos e que o prenderam durante algum tempo.
Todas tinham suas qualidades.
Assim como os quadros que comprara para o palácio, assim como as jóias que dera a tais mulheres, cada uma delas tinha sido perfeita.
Mais do que qualquer outra coisa, ele detestava a feiúra. Sabia que tinha herdado do pai o amor à beleza, como também da mãe, que, com seu sangue húngaro, tinha sido uma das mulheres mais bonitas que jamais conhecera.
Era uma magnífica amazona. Tinha morrido muito moça, porque, assim como ele, gostava dos cavalos selvagens, em vez dos que poderia montar sem perigo.
Se foi bonita em vida, também continuou sendo bonita depois de morta. O Rei sabia que sua beleza o inspirava, e era o que procurava em todas as mulheres, sem jamais a encontrar.
Consternado com o futuro, que o esperava, teve a impressão de que, de repente, um abismo se abria à sua frente.
Não estava mais seguro; devia seguir um caminho estranho e traiçoeiro, com a convicção de que sua paz e sua felicidade seriam destruídas para sempre.
Começou a andar de um lado para outro, inquieto.
Como se não pudesse mais suportar os próprios pensamentos, desceu a escada e foi para o escritório.
Procurou a chave que tinha guardado no bolso do colete. Sabia, embora isso fosse apenas um paliativo como o vinho, que só La Belle poderia fazer com que se esquecesse de tudo, por um momento.
A porta da sala de estudos se abriu, mas a Princesa Zita, que lia junto da janela, não virou a cabeça.
Estava, na realidade, no mundo da fantasia, onde ficava, sempre que lia um livro, e onde sé refugiava, à noite, ou mesmo durante o dia, quando não se interessava pelo que se passava à sua volta.
Só quando percebeu que havia alguém a seu lado, foi que olhou para a recém-chegada, sua irmã mais velha, Sophie.
−Imagine o que aconteceu!− exclamou Sophie.
A contragosto, porque estava muito mais interessada na leitura, Zita perguntou:
−O que foi?
Não esperava nada de excitante, mas sabia que devia ser alguma coisa inesperada; do contrário, Sophie não teria vindo interrompe-la. A irmã sentou-se no banco da janela, diante dela.
−Mal posso acreditar, mas mamãe diz que deve ser por isso que ele vem aqui,
−De quem está falando? Quem é que vem aqui?
−O Rei Maximiliano de Vaidastien avisou o meu pai que está fazendo uma tournée pelos países vizinhos e que deseja passar uns dias aqui.
Sophie falou no tom preciso, inexpressivo que lhe era peculiar, mas seus olhos estavam animados, e encarou a irmã, com apreensão.
Zita ficou sem fala, por um momento.
−O Rei Maximiliano? Tem certeza?
−Absoluta. E mamãe acha que ele vem pedir minha mão em casamento.
−Não pode ser verdade! Sempre ouvimos dizer que o Rei é um solteirão inveterado, que não pretende casar, embora haja muitas mulheres dispostas a partilhar o trono com ele.
Zita parecia estar falando para si mesma, como a irmã não respondeu, continuou:
−Creio que sei porque motivo, ele mudou de idéia. Uma noite destas, o meu pai estava falando com o Barão Meyer sobre a determinação de Bismarck de expandir as fronteiras da Alemanha− fez uma pausa e acrescentou, em tom positivo−, sim! É por isso que o Rei quer não apenas ter certeza de que nosso país será seu aliado contra a Alemanha, como também ter um herdeiro.
Zita não esperava que a irmã respondesse, pois sabia que Sophie não se interessava por política, nunca procurando ouvir a conversa quando o pai recebia algum membro do governo, nem tampouco, lendo os jornais.
Zita gostava tanto de jornais quanto de livros. Muitas vezes achava que seu cérebro estava dividido em dois compartimentos: um se interessava por política e pelos problemas de todos os países da Europa, o outro estava repleto de fantasias que tornavam o mundo belo como um conto de fadas.
Nesse último, não havia problemas, a não ser os que aconteciam com ninfas e sátiros, com gnomos e duendes, assim como com as sereias que atraíam marinheiros e navios com seu canto, levando-os à destruição.
Era esse o assunto da história que estava lendo. Por um momento, teve dificuldade em abandonar as sereias, com seus cabelos longos flutuando nas ondas, para concentrar-se em Maximiliano e na sua procura de uma esposa.
Então achou que a diferença não era muito grande, afinal de contas.
A mãe de Zita, a Grã-Duquesa, ficaria horrorizada, se soubesse que a filha tinha conhecimento da reputação do Rei, isto é, a de dar sua proteção às mais lindas mulheres do teatro.
O professor de música, que ensinava piano a Zita, tinha sido concertista, em Paris, assim sendo, conhecia o mundo do teatro, que fascinava a Princesa, já que ela vivia na quietude de Aldross, o país de seu pai.
−Conte-me mais alguma coisa, monsieur, conte tudo!− pedia Zita, quando a lição terminava, e o professor tinha prazer em falar para ouvidos tão atentos.
Contava sobre as grandes personalidades do teatro. Como ia sempre a Paris, onde tinha dois filhos casados, Zita sabia quais eram as últimas peças em cartaz.
Ele descrevia as prima-donas que atraíam multidões à ópera, as estrelas dos cafés-concertos, as mulheres que enfeitiçavam os homens, que gastavam fortunas com elas em vestidos, jóias, carruagens, cavalos e tudo o que desejassem.
Sabendo o quanto a moça se interessava, ele lhe trazia jornais franceses, que não apenas descreviam o que acontecia no palco, como os escândalos sobre as pessoas da atla sociedade.
O nome de Maximiliano aparecia freqüentemente nesses jornais. Zita se interessava por ele, porque o Rei era muito bonito, a julgar pelos retratos e desenhos, e exatamente o que Zita esperava que um Monarca fosse. Com um ar dominador e autoritário, parecia muito diferente dos homens comuns, assim como dos parentes de sangue real da Princesa.
Encorajado pelo interesse da aluna e levado por sua própria verbosidade, o professor às vezes era indiscreto. A mocinha ficou sabendo dos casos do rei. Assim que La Belle foi instalada em Valdastien, ela teve conhecimento do fato.
−Diga-me como é essa atriz− pediu ao professor.
−Linda, com o corpo de uma deusa! Quando anda pelo palco, usando um traje diáfano que revela a perfeição de suas formas, o público fica em silêncio. Não há maior homenagem para uma atriz do que o silêncio de um público fascinado por sua beleza e pelo papel que interpreta.
Zita também ficava fascinada, mas não podia compreender que uma artista como La Belle pudesse trocar os aplausos mesmo por um Rei!
−Será que ela não sente solidão, levando uma vida tão calma naquele país, que ouvi dizer que é parecido com o nosso?
O professor sorriu.
−Ela tem o Rei para aplaudi-la.
−Quer dizer que dança para ele?
A pergunta fez com que o professor percebesse que tinha falado demais com uma criatura jovem demais, que não deveria saber que mulheres como La Belle existiam.
−A aula acabou, Princesa. Amanhã vamos tratar das composições de Liszt, em vez de perdermos tempo com conversa fiada.
Num tom muito sedutor, Zita disse:
−Mas, professor, deve compreender que, quando conversamos, o senhor abre para mim novos horizontes… e a música, quando vem do coração tanto quanto da mente, não pode ser abafada.
Sabia que esse era o tipo de comentário que ele apreciava e compreendia.
−Vossa Alteza Real é muito inteligente. Por outro lado, eu não devia falar nessas mulheres.
−Se essas mulheres dançam tão bem, como o senhor disse, então elas dão beleza ao mundo, e é isso que todos nós buscamos.
−Ê verdade, bem verdade, mas devo falar-lhe, Alteza, de Raquel, que foi uma atriz brilhante e uma das maiores prima-donas de óperas, e que ainda não estudamos completamente.
−Sim, é claro. Se o senhor puder arranjar um retrato dela, numa das suas revistas, eu ficaria muito satisfeita.
Sabia perfeitamente que não estava interessada nas qualidades artísticas de La Belle, e sim, em seu relacionamento com o Rei Maximiliano.
«Por que será que ele a acha tão atraente?», pensou.
Resolveu continuar insistindo com o professor para que lhe arranjasse um retrato de La Belle. Queria satisfazer sua curiosidade quanto aos encantos da atriz que tinham feito com que o Rei a tirasse de Paris e a conservasse em Valdastien,
Agora, inesperadamente, ficava sabendo que o Rei vinha a Aldross para casar com Sophie.
Ao compreender o significado disso, Zita soltou uma exclamação de alegria.
−Sophie, você é a criatura mais feliz do mundo! Já pensou como o Rei é bonito e excitante? O meu pai disse que não há no mundo nenhum Monarca que se compare a ele em beleza e em qualidades atléticas. Ele galgou o Matterhorn, em certa ocasião e você vai ter, em Valdastien, os cavalos mais soberbos e mais fogosos.
Ao dizer isso, lembrou-se de que a irmã não gostava de cavalos que não fossem muito mansos.
Zita é que tinha herdado as qualidades de amazona da avó, que havia sido aclamada por sua habilidade, assim como por sua beleza, em seu país, a Hungria.
Pulsuz fraqment bitdi.