Kitabı oxu: «Escândalo em Veneza»

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© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Escândalo em Veneza, n.º 109 - janeiro 2021
Título original: The Italian’s Twin Consequences
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-251-8
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Se gostou deste livro…
Capítulo 1
– Sei que o seu conselho de administração lhe deu as condições destas sessões por escrito, senhor Combe, mas acho que precisamos de as examinar. Mesmo que conversemos, tenho de destacar que não é o meu cliente. Apresentarei as minhas conclusões ao conselho, não procurarei soluções terapêuticas consigo. Entende o que isso quer dizer?
Matteo Combe olhou fixamente para a mulher que estava sentada à frente dele na biblioteca da casa veneziana que fora da família da mãe desde os começos da História. Os San Giacomo eram aristocratas com um sangue tão azul como o mar. Até contavam com alguns príncipes italianos, o bisavô de Matteo entre eles… e Matteo sabia que uma das maiores deceções na vida do seu avô fora não ter passado o seu título.
Seria muito sortudo se pudesse preocupar-se com semelhantes deceções, mas tinha preocupações mais prementes nesse momento, como conservar a empresa que os antepassados do pai, de classe trabalhadora, tinham criado do zero no norte de Inglaterra durante a revolução industrial. O facto de ter escolhido tratar dessa situação na casa aristocrática, que tanto dizia de si próprio, era para a sua própria satisfação.
Além disso, talvez também tivesse pensado que, assim, podia intimidar a mulher, a psiquiatra, que estava com ele.
A doutora Sarina Fellows era, que ele soubesse, a primeira pessoa americana que punha um pé ali… e surpreendeu-o vagamente que a casa não se afundasse no Grande Canal como forma de protesto. Embora, claro, as casas de Veneza fossem tão famosas como ele pela tenacidade face às adversidades.
Sarina era tão enérgica e eficiente como as suas palavras tinham sido e isso não pressagiava nada de bom. Vestia-se de preto dos pés à cabeça, mas não parecia lúgubre devido ao que vestia. Reconhecia o estilo artesanal italiano assim que o via. O cabelo era como seda preta e estava apanhado num coque na nuca. Os olhos tinham um tom âmbar com um anel escuro nas íris. Os lábios eram perfeitos, como se rogassem a um homem que os saboreasse e, talvez por isso, não tinham cor.
Supôs que parecia o que era, a mão executora da sua destruição se os seus inimigos levassem a sua avante, embora não estivesse disposto a deixar que nada nem ninguém o destruísse. Nem essa mulher nem a morte inesperada dos pais com umas semanas de diferença e que a única coisa que tinham deixado para trás fora as consequências dos segredos que tinham guardado e que ele fosse, contra a sua vontade, o testamenteiro de tudo o que tinham escondido enquanto estavam vivos. Nem sequer as decisões desafortunadas da irmã mais nova, que o tinham levado diretamente àquela situação, a que o presidente do conselho das Indústrias Combe, o melhor amigo do seu falecido pai, quisesse ficar com as rédeas.
Nada o destruiria, não o permitiria.
No entanto, primeiro, tinha de esclarecer aquela situação tão absurda.
Sarina esboçou o que ele pensou que seria um sorriso compassivo, embora lhe parecesse desafiante, e ele nunca rejeitara um desafio e muito menos quando devia tê-lo rejeitado para manter a paz.
No entanto, já detestava todo esse processo e acabara de começar.
Lembrou-se de que lhe fizera uma pergunta e ele assentira, não fora? Dera a sua palavra.
Ficaria ali, submeter-se-ia àquela intrusão e responderia às suas perguntas, a todas e cada uma. Mesmo que tivesse de o fazer com os dentes cerrados.
– Sei muito bem porque está aqui, menina Fellows – conseguiu responder ele.
O que não conseguiu foi disfarçar a impaciência e a frustração e o que a sua secretária de toda a vida se atrevia a chamar, na sua própria cara, o seu mau feitio.
– Doutora.
– Como? – perguntou ele, quando não entendeu.
– Doutora Fellows – explicou ela, com um sorriso cortante –, senhor Combe. Não é menina Fellows. Espero que essa diferença o convença de que estas conversas são plenamente profissionais, embora possa ser complicado.
– É um prazer ouvi-lo.
Matteo questionou-se se o teria feito intencionalmente.
Sempre se orgulhara de ser tão contundente como o pai, que fora famoso pela violência dos seus ataques. Embora, claro, ele nunca se tivesse visto numa situação como aquela.
– Não passei muito tempo, nenhum tempo se for sincero, em terapias impostas, mas o caráter profissional desta experiência era, como é natural, o que mais me importava – acrescentou Matteo.
A tempestade do fim da primavera açoitava as janelas, chegava do canal e ameaçava inundar a praça de São Marcos como costumava fazer no outono e no inverno. Essa ameaça de inundação refletia perfeitamente o estado de espírito de Matteo, mas a mulher que tinha à frente limitava-se a esboçar um sorriso tão imperturbável como a chuva que batia contra os vidros.
– Entendo a resistência a este tipo de terapias ou a qualquer tipo de terapia. Talvez o melhor seja ir diretamente à questão.
Estava sentada numa poltrona antiga de costas altas que ele sabia, por experiência própria, que era incomodíssima, mas que parecia feita à medida dela, que examinou as notas que tinha numa pasta de couro que levantava como uma arma à frente dela.
– É o presidente e diretor-executivo das Indústrias Combe, correto?
Matteo vestira-se de uma forma informal para essa entrevista ou sessão, como ela se empenhava em chamá-la. Nesse momento, arrependia-se. Teria preferido o conforto de um dos seus fatos exclusivos para se recordar que não era um preguiçoso tirado da rua. Era Matteo Combe, o filho mais velho e herdeiro, contrariado, da fortuna dos San Giacomo e da empresa multinacional que os antepassados tenazes do pai tinham criado do zero há muito tempo nas cidades industriais do norte de Inglaterra.
A sua secretária insistira que tinha de… se humanizar. Naturalmente, o problema era que Matteo nunca tivera muito jeito para ser humano. Não tivera muita prática com a família, com a mãe escandalosa e negligente e o pai ciumento, agressivo e seguro de si próprio e com as cenas que faziam.
Fez um esforço para esboçar um sorriso, algo em que também não tinha muita prática.
– Era presidente antes de o meu pai morrer. Tinha estado a formar-me para que ocupasse o seu lugar durante algum tempo. – Na verdade, desde que nascera, mas não o disse. – Tornei-me diretor-executivo depois de ele morrer.
– E decidiu assinalar a data do seu falecimento lutando com um dos presentes no enterro, com um príncipe, ainda por cima.
O sorriso dele congelou.
– Naquele momento, não importava quem era. Só sabia que era a pessoa que engravidou e abandonou a minha irmã.
Sarina voltou a verificar as notas e virou as páginas com uma firmeza que irritou Matteo, que o irritou mais, melhor dizendo.
– Refere-se à sua irmã Pia, alguns anos mais nova do que o senhor, mas que é, para todos os efeitos, uma mulher adulta que, em teoria, pode decidir ter um filho se quiser.
Matteo olhou para a mulher que estava sentada naquela poltrona onde o avô o sentava quando achava que tinha de lhe ensinar um pouco de humildade. Naturalmente, ele também tinha um relatório dela. Sarina Fellows nascera e fora criada em São Francisco e destacara-se numa das escolas privadas mais relevantes da cidade. Estudara primeiro em Berkeley e, depois, em Stanford e, em vez de exercer como psiquiatra, abrira a sua própria consultoria. Naquele momento, viajava por todo o mundo e assessorava as empresas que precisavam de perfis psicológicos dos diretores.
Matteo era a sua vítima mais recente.
Batera nesse príncipe que engravidara e abandonara Pia, algo de que não se arrependia. A sua maninha era a única integrante da família que adorara incondicionalmente, embora muitas vezes à distância, e era a herdeira de duas grandes fortunas. Era um alvo para caçadores de fortunas sem escrúpulos e, aparentemente, para príncipes. Repeti-lo-ia com muito prazer, mas fizera-o à frente dos paparazzi e alegrara-lhes o dia.
Tinham dito que tal pai, tal filho e, poucos dias depois da sua morte, tinham falado dos escândalos abundantes e zangas do seu falecido pai, para o caso de alguém ter estado tentado a esquecer quem fora Eddie Combe. Tinham bastado quatro notícias depreciativas para que a imprensa sensacionalista começasse a questionar-se se ele era a pessoa indicada para gerir a maldita empresa.
Não tivera outro remédio senão ceder às exigências do seu afetado conselho de administração. Um a um, tinham afirmado que nunca tinham visto algo parecido. Algo que era uma mentira descarada, pois todos tinham sido nomeados por Eddie, que fora conflituoso por natureza.
No entanto, Eddie estava morto e era algo que continuava a ser difícil de acreditar. Desaparecera essa energia e fúria e ele tinha de tirar «boas notas» com a médica por causa do seu comportamento no enterro do pai ou arriscava-se a um voto de censura.
Poderia ter esmagado a moção calmamente, mas sabia que a empresa estava a passar por um momento de transição. Se queria gerir, não ameaçar, mentir e atacar, que fora o que o pai fizera durante toda a sua vida, tinha de começar com bom pé. Sobretudo, quando sabia o que mais os testamentos dos seus pais escondiam.
– A minha irmã é ingénua – comentou Matteo. – Foi criada para que não soubesse grande coisa do mundo e muito menos dos homens. Receio que não goste que se aproveitem da sua forma de ser.
Sarina mexeu-se ligeiramente na poltrona e olhou fixamente para ele, como se fosse uma experiência científica. As mulheres não costumavam olhar assim para ele e não podia dizer que gostasse muito. Sobretudo, quando não pôde evitar perceber que a médica era bastante bonita. Tinha umas pernas esbeltas e suaves e era muito tentador imaginá-las por cima dos seus ombros enquanto a penetrava…
Tinha de se concentrar.
Sabia o suficiente sobre ela para imaginar que não gostaria do que estava a pensar. Sabia que criara a consultoria do zero e que era implacável e decidida, duas qualidades que ele também tinha e que costumava apreciar nos outros. Ainda que, talvez, não nesse caso, quando essa firmeza penetrante como uma faca era dirigida contra ele.
– Parece que viu um fantasma – comentou ela, quase sem lhe dar importância. – Viu?
– Numa casa como esta, há fantasmas por todos os lados – replicou Matteo, com inquietação.
Não era a ideia dos fantasmas que o inquietava, mas a sensação estranha que o dominava, a ideia de que conhecia aquela mulher quando sabia que não era assim. Afastou essa sensação.
– As salas estão cheias dos meus antepassados – continuou Matteo. – Tenho a certeza de que mais do que um se diverte a pregar sustos, mas não posso dizer que me tenham incomodado. Fique a dormir cá, se quiser, e talvez seja visitada por um fantasma…
– Não seria mau, já que não acredito nos fantasmas – replicou ela, inclinando a cabeça. – O senhor acredita?
– Se acreditasse, não lhe diria. Não gostaria de chumbar no seu exame.
– Não é um exame, senhor Combe. São conversas, mais nada. Entenderá que os seus acionistas e diretores não tenham gostado desse comportamento violento e antissocial que mostrou no enterro.
Ele encolheu os ombros com uma despreocupação que nunca sentira.
– Estava a proteger a minha irmã.
– Se não se importar, ajude-me a entender a sua forma de pensar. – Sarina apoiou um cotovelo no braço da poltrona e tocou no queixo com alguns dos seus dedos compridos e elegantes. – A sua irmã está grávida de seis meses e, segundo todos os relatórios, não tem a mínima incapacidade. As minhas indagações sobre a Pia indicam que é uma mulher bem formada, viajada e independente. Mesmo assim, sentiu uma necessidade arcaica de a defender e de o fazer de uma forma brutal.
– Sou brutal, infelizmente. – Matteo não soube porque essa palavra ardera como uma chama dentro dele, embora talvez gostasse de ter a mão no seu queixo, como o dedo dela. – Suspeito que seja uma consequência natural de ter sido criado numa família… histórica.
– Senhor Combe, todas as famílias são históricas por definição, chama-se gerações. O singular é a sua história, com casas venezianas e pretensões de nobreza. – Pareceu-lhe ver um brilho de alguma coisa no seu olhar, mas sufocou-o depressa. – Continuemos com o assunto da sua irmã. Achava que defendia a sua honra? Que… patriarcal.
Não gostou de como disse a palavra, marcando todas as sílabas como se fossem dardos.
– Peço desculpas por amar a minha irmã.
Matteo amava Pia, certamente, embora não pudesse dizer que a entendesse. Melhor dizendo, não entendia as suas decisões quando tinha de saber que todos estavam a observá-la. No entanto, também era possível que não lhe tivessem inculcado isso desde muito pequena como tinham feito com ele.
– Parece-me muito interessante que use o verbo «amar» nestas circunstâncias – comentou Sarina. – Não sei como me sentiria se o meu irmão decidisse expressar o seu suposto amor dando um murro ao pai do filho que espero.
– Tem um irmão?
Sabia que Sarina Fellows era a filha única de um professor universitário de Linguística e de uma bioquímica japonesa que se tinham conhecido na faculdade em Londres e tinham acabado por dar aulas na mesma universidade da Califórnia.
– Não tenho um irmão – respondeu ela, sem se alterar porque a desmascarara –, mas fui criada por umas pessoas que defendiam a não-violência. Ao contrário de si, se for verdade o que sei do passado turbulento da sua família.
Teria gostado de lhe perguntar a que passado turbulento se referia. Os San Giacomo tinham participado em duelos e tinham conspirado durante séculos. Os Combe tinham sido mais diretos, mais propensos a dar murros. No entanto, independentemente do ponto de vista, eram turbulentos.
– Se sou culpado de alguma coisa, é de ser um irmão mais velho demasiado protetor.
Então, Matteo recordou, com essa mistura de pasmo e tristeza de sempre, que também tinha um irmão mais velho, um irmão mais velho que a mãe abandonara quando era muito jovem, mas que incluíra no seu testamento, um irmão mais velho que ainda não conhecera e que continuava sem acreditar que era real.
Talvez tivesse sido por isso que ainda não fizera nada.
Tentou esboçar outro sorriso, embora não servisse para nada. A médica não mudou a sua expressão. Ficou em silêncio até o sorriso dele se apagar.
Sabia que era um estratagema que ele próprio usara centenas de vezes, mas não gostava que o usassem com ele. Sentiu a necessidade de preencher esse silêncio, como acontecia com todos, mas conteve-se.
Ficou na poltrona antiga onde o avô se sentara há décadas, quando a amargura de ser nobre, mas não da realeza, o corroía. Ficou como recordava que o seu avô fazia, tentando parecer tão despreocupado como devia estar porque aquilo era apenas um pequeno contratempo, um aborrecimento e mais nada.
Estava a submeter-se àquilo porque quisera, porque, assim, poderia demonstrar ao seu conselho de administração que era rigoroso e diferente do pai… não porque se sentira obrigado.
Não se importava que a médica não se apercebesse.
Além disso, quanto mais tempo olhasse para ele nesse silêncio que se espessava entre eles, mais lhe custava pensar em algo que não fosse como era atraente. Esperara uma mulher mais parecida com uma bruxa, uma mulher, por exemplo, velha e suscetível.
Suspeitava que a sua beleza era outro estratagema, pois Sarina Fellows não parecia o tipo de mulher que poderia exercer esse suposto poder sobre a vida dele. Parecia o tipo de mulher que gostaria de levar para a cama. Esbelta, elegante e segura de si própria. Preferia as mulheres inteligentes e refinadas porque gostava tanto de uma conversa inteligente como de outros entretenimentos mais sensuais e insaciáveis.
Se não a tivessem mandado para que o julgasse, talvez se tivesse divertido a encontrar uma forma de introduzir a mão por baixo da saia que usava e…
– Masculinidade tóxica – sentenciou ela, num certo tom de satisfação.
– É um diagnóstico? – perguntou Matteo, pestanejando.
– A boa notícia, senhor Combe, é que não é o único. – Os olhos escuros dela deixaram escapar um brilho de satisfação evidente. – Parece incorrigível. Pense um pouco no assunto. Normalmente, um enterro celebra-se para que os entes queridos possam despedir-se do falecido. Decidiu transformá-lo num ringue, derramou sangue, assustou quem estava lá e humilhou essa irmã que afirma amar… e tudo para reparar o seu sentido de honra.
Ele não suspirou, embora tivesse de fazer um verdadeiro esforço.
– Evidentemente, não conheceu o meu pai. Não havia entes queridos no seu enterro e, além disso, teria sido o primeiro a animar-me num combate de boxe.
– Custa-me a acreditar e, francamente, é mais uma prova dessa incorreção de cobói que parece parte integrante do Matteo Combe.
– Doutora Fellows, sou italiano por um lado e britânico por outro. Não tenho nada de cobói em nenhum sentido.
– Uso a expressão para ilustrar um protecionismo masculino e tóxico de que, que eu saiba, não se desculpou, nem então nem agora.
– Se me parecesse que devo pedir desculpas por defender a honra da minha irmã, e não me parece, seria algo de que teria de falar com a Pia, não consigo, com o conselho de administração ou, claro, com o público em geral – replicou Matteo, sem se alterar.
– Então, sente remorsos pela sua brutalidade ou não?
Suspeitava que o que sentia faria com que ela lhe chamasse coisas muito piores do que «cobói». Ele estendeu as mãos à frente dele como se fosse uma espécie de rendição, embora não soubesse como render-se, nem a nada nem a ninguém.
– O remorso parece-se muito com a sensação de culpa ou de vergonha, sentimentos inúteis que têm muito mais a ver com os outros do que connosco. – Baixou as mãos. – Não posso mudar o passado, mesmo que quisesse.
– Que confortável. Como não pode mudar o passado, também não vai incomodar-se em falar dele. Essa é a sua forma de agir?
– Não posso dizer que tenha uma forma de agir porque nunca tinha tido uma conversa, entre aspas, como esta.
– Não me surpreende…
– No entanto, estou aqui, não é? Prometi responder a todas as perguntas que me faça. Podemos falar durante muito tempo e sobre tudo o que quiser. Sou muito complacente. – Matteo voltou a sorrir, embora fosse um sorriso gelado. – E, aparentemente, tóxico.
– É interessante que tenha escolhido a palavra «complacente». – Teve a certeza de que percebera um tom brincalhão na voz, embora não se refletisse na sua cara. – Parece-lhe uma palavra acertada para descrever o seu comportamento?
– Abri-lhe a minha casa, convidei-a e, quem diria, veio. Aceitei ter todas as conversas que considere necessárias e, em troca, chama-me tóxico em vez de acessível.
– Essa palavra incomoda-o.
– Não diria que me incomoda, mas ninguém gosta que lhe chamem «tóxico». Não é um elogio.
O que o incomodava era a inutilidade de tudo aquilo, a perda de tempo e energia e, efetivamente, que fosse tão bonita, algo que era apenas outra arma e que não podia esquecer.
– E, claro, o senhor é um homem habituado aos elogios, não é?
Quis evitá-lo, mas, mesmo assim, sentiu que a sua boca esboçava outro sorriso.
– Talvez ache estranho, mas a maioria das mulheres que me conhece não me acha tóxico.
– Senhor Combe, está a tentar levar a sessão para um terreno sexual?
Matteo viu que os olhos dela deixavam escapar um brilho e teria jurado que era um brilho de triunfo. Compreendeu que estava metido numa confusão maior do que imaginara, mesmo antes de ela sorrir com sarcasmo.
– Ena, isto é muito pior do que tinha pensado – acrescentou Sarina.
Capítulo 2
Matteo Combe era o típico homem arrogante, ostentoso e rico com um poder desmesurado e imerecido que Sarina Fellows não conseguia suportar.
Também era consideravelmente bonito, algo que, para ela, fora um ponto contra ele desde o começo. Tinha esse tipo de beleza que fazia com que as pessoas se tornassem idiotas quando o encontravam. Era como bater com a cabeça contra uma parede ou como começar a rir-se como uma tola de doze anos e odiava sentir como essa reação crescia dentro dela quando há muito tempo que se considerava imune a esse tipo de homens.
No entanto, ele tinha algo diferente, ele era… mais. Era algo relacionado com o brilho do seu cabelo escuro e a firmeza do seu queixo, era o seu nariz aristocrático e esses olhos cinzentos como uma tempestade, era essa segurança em si próprio que cobria como um manto o seu corpo alto, magro e atlético e que deixava muito claro que cedia a ela, a essa avaliação que o seu próprio conselho de administração exigira, porque ele queria, pois não havia nada no mundo que pudesse obrigá-lo a fazer uma coisa que não queria fazer. Fazia-a pensar num rio poderoso que rugia por cima de uma colina. Era enorme, imparável… e perigoso, sussurrou-lhe algo por dentro.
Sarina desprezou-o assim que a palavra se formou na sua cabeça. Efetivamente, era bonito, austero e exuberante ao mesmo tempo, era bonito e rico, asquerosamente rico. Um dos ramos da sua família estava enraizado na indústria de Yorkshire e, o outro, remontava ao Renascimento italiano, mais ou menos, quando se construíra essa casa em concreto.
Entendia perfeitamente porque quisera que aquela primeira reunião fosse ali, no conto de fadas tornado realidade que era Veneza. Queria que ela se inundasse nessa cidade de palácios antigos e história que era como uma tapeçaria resplandecente onde a família era um fio de ouro, onde ela ficaria boquiaberta com o seu esplendor e riqueza… embora ela não fosse das que ficavam boquiabertas e Matteo Combe não sabia onde se metera.
Não só odiava os homens como ele, como também os conhecia. Sabia do que eram capazes e chegara a ter alergia a essa forma de arrogância. A sua amiga de infância, que considerara uma irmã, tornara-se viciada nos homens como Matteo. Seguros de si próprio sem reparos, apoiados pela história e por todo o dinheiro que lhes chegara ao longo dos séculos e tidos em conta por qualquer pessoa que se cruzasse no seu caminho todos os dias das suas vidas.
Efetivamente, sabia tudo sobre os homens como ele.
Não precisava de o destruir, mas os homens como Matteo pareciam-lhe uns balões enormes e muito inchados e ela decidiu ser uma agulha bem afiada. Passara muito tempo a rebentar egos masculinos desmesurados na sua profissão e tinha uma certa reputação de conseguir dominar os mestres do universo e de mostrar os mortais de moralidade mais do que duvidosa que costumava haver por baixo de tanta fanfarronice.
Alguns dos homens que analisava também eram íntegros e, face à ausência de infrações ou condutas inapropriadas, adorava fazer um relatório impecável do homem em questão. Não odiava os homens, como muitas pessoas a acusavam, odiava os homens que abusavam do poder e das pessoas vulneráveis a esse poder.
Tinha a certeza de que Jeannette, estivesse onde estivesse, estava a olhar para ela e a apoiá-la…
E como explicar que esse homem rico e arrogante já tivesse conseguido abrir caminho para as suas entranhas como nenhum outro fizera com essa certeza, sombria e reflexiva, que exsudava como um perfume irresistível?
Isso ficava nas conversas privadas que mantinha dentro da cabeça e que não tencionava permitir que ele soubesse.
– Quer que tenha remorsos.
Matteo estava sentado numa poltrona que, embora não soubesse nada de antiguidades, Sarina sabia que era linda e de um valor incalculável. Era o mais parecido com um rei.
– Se não conseguir tê-los, quererá dizer que chumbei no exame?
– Não se trata de chumbar ou passar – corrigiu ela, enquanto anotava alguma coisa para que se sentisse incomodado. – Parece-lhe enervante?
– Que o meu futuro esteja nas mãos de alguém que não consegue responder a uma pergunta direta? – perguntou ele, com um brilho nos olhos cinzentos. – Nem pensar.
Não esperara que fosse tão irónico. E nem todas as fotografias do mundo, e Sarina estava convencida de que as vira todas só para o investigar, faziam justiça a essa intensidade que era Matteo Combe, a esse cabelo denso e quase preto que parecia indisciplinado, a esse olhar cinzento como a ardósia que fazia com que ela não só pensasse na chuva, mas, o que era mais grave, em dançar por baixo dela. Mesmo quando sabia melhor do que bem que isso levava à loucura e a coisas piores do que uma pequena loucura.
Normalmente, usava fatos muito caros e feitos à medida ou outra roupa formal que lhe permitisse impressionar e avassalar os outros. Naquele dia, no entanto, recebera-a com o que ela supunha que fosse roupa informal. Usava umas calças de ganga desfiadas que deviam ser muito caras porque, evidentemente, as comprara assim. Os homens como ele não faziam nada que pudesse desgastar-lhe os joelhos ou rasgar-lhe o tecido. Estava muito claro que as botas tinham sido feitas à mão ali mesmo, em Itália, e a sua t-shirt parecia-se tanto com as t-shirts de algodão que o comum dos mortais usava como um caça-bombardeiros se parecia com um avião de papel… e, o pior de tudo, ajustava-se ao peito e permitia-lhe saber coisas que não queria saber sobre a forma física incrível de Matteo.
Já sabia. Sabia que gostava de correr quilómetros e quilómetros, sabia que gostava de nadar distâncias épicas e sabia que o tempo e a energia restantes eram dedicados a levantar pesos. Já lera tudo isso, mas uma coisa era lê-lo no quarto de um hotel e, outra muito diferente, era estar à frente de um homem que gastava toda a força que podia, até a física.
No entanto, ela estava ali para avaliar o seu estado mental, não para se babar quando via como os braços ficavam tensos por baixo da manga da t-shirt. Franziu um pouco o sobrolho e voltou a concentrar-se nele.
– Se se empenhar, esta relação só será… antagonista.
– É uma relação antagonista por definição – replicou ele, com uma delicadeza que não se refletiu no seu olhar. – Suponho que saiba.
– Mas desfruta do antagonismo nas relações, não é?
Ele riu-se como se o tivesse surpreendido.
– Não diria que gosto do antagonismo, mas, na minha família, era quase inevitável.
– No entanto, contou-me que ama muito a sua irmã. Acha que o amor é uma forma de antagonismo?
– Evidentemente, a sua família é muito diferente da minha. Se não, já saberia a resposta a isso.
Sarina sabia quase tudo sobre a sua família, como qualquer pessoa no mundo civilizado, porque os dois ramos dessa família tinham ocupado os artigos da imprensa sensacionalista durante muito tempo. Embora ela não a lesse, era impossível não saber alguma coisa. O pai de Matteo aparecia periodicamente nesses artigos por supostas indiscrições matrimoniais ou empresariais. A mãe fora considerada a mulher mais bonita do planeta enquanto fora viva e estivera acompanhada pelos correspondentes escândalos e especulações.
A irmã e ele estavam muito unidos ou tão unidos como podiam ser com uma diferença de dez anos, o que lhe dera o papel de pai suplente, mais do que de irmão.
Ela, pelo contrário, fora criada por uns cientistas frios mais interessados nas suas investigações e nos seus conflitos intelectuais banais com os colegas do que na filha que, parecia-lhe, fora mais como uma experiência sobre a humanidade do que fruto do verdadeiro desejo de ser pais e não tinham o mínimo interesse nos escândalos que ela pudesse ter criado pelo caminho.
Também não conseguia imaginar-se a ser criada num lugar como essa casa, por muito bonita que Veneza fosse. Jeannette e ela tinham sido criadas numas casas antigas de Berkeley Hills e tinham entrado e saído de quartos repletos de montes de livros com tapetes desgastados agradáveis, de alpendres enlameados e de jardins descuidados. Essa casa era uma acumulação espetacular de tapeçarias perfeitamente conservadas e de estátuas clássicas de pedra para que ninguém pudesse esquecer-se de que aquilo era o epicentro da riqueza mais ancestral.
Sabia porque a recebera ali, mas o tiro ia sair-lhe pela culatra e não achava que ele soubesse. Graças a isso, já sabia como se levava a sério, assim como à sua árvore genealógica… e isso dava-lhe vantagem.
– Porque achou que era melhor que nos encontrássemos aqui? – perguntou ela, num tom frio. – Este lugar é claramente uma casa privada, não parte do seu império empresarial. É outra tentativa de fazer com que esta… relação siga um roteiro sexual?
– Doutora Fellows, é a única que não para de mencionar o sexo – replicou Matteo, num tom aveludado.
Ela conseguiu fazer com que o seu rosto não refletisse nenhuma reação.
– Insistiu que começássemos aqui e não num dos seus muitos escritórios, pode explicar-me porquê?
– Porque estou aqui neste momento.
A sua voz tinha algo opaco e um sotaque único, que não era nem britânico nem italiano. Era algo sombrio e mais cativante do que ela estava disposta a reconhecer. Para seu espanto, sentia uma espécie de… arrepio que abria caminho dentro dela, que lhe chegava entre as pernas e palpitava! Ficou gelada de espanto.
– Deu-me a impressão de que tanto a doutora como o presidente do conselho queriam que estas reuniões se celebrassem o mais depressa possível e eu, como sou muito obediente, pus-me ao seu dispor imediatamente.
Esse homem não tinha nada de obediente e Sarina ordenou-se que tinha de se concentrar nos motivos para estar ali e não nessa coisa… palpitante, nem nessa intensidade desmedida que sentia por baixo da superfície aristocrática dele.
– Senhor Combe, acho que queria que viesse a esta casa para me impressionar.
– Não me passou pela cabeça, nem remotamente, a ideia de a impressionar.
– Estou a avaliá-lo por motivos empresariais e, mesmo assim, aparece de t-shirt, no seu espaço mais pessoal. Quando muito, não está a levar-me a sério. Parece-lhe acertado?
Então, houve algo que mudou no olhar dele, como um brilho de mau feitio contido. Inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos e, de repente, ela percebeu que, embora ele lhe tivesse chamado uma biblioteca, era apenas uma sala. Efetivamente, havia alguns livros e uma lareira e não era um espaço pequeno, mas, quando ele se mexia assim, era como se ocupasse tudo.
– Normalmente, daria uma lição aborrecida de história a um visitante, mas esta casa tem muito pouco de pessoal. Está como sempre esteve. Sou o seu curador, não o seu habitante. Tenho de a entregar intacta à geração seguinte. Passou assim, de primogénito para primogénito, desde que foi construída. Para mim, doutora, não há diferença entre o aspeto pessoal e o empresarial. A minha mãe era uma San Giacomo. Saberá o que isso significa.
– É a sua forma de me recordar que é famoso, senhor Combe?
– A minha família não é famosa – contradisse, com amabilidade. – A fama é efémera. A minha família, os dois ramos, é proeminente e com uma fortuna considerável e foi assim há séculos.
– Acha…?
– Deixemos de nos perseguir, por favor – interrompeu ele, com delicadeza, embora ela percebesse a impaciência. – O que quer de mim? São certas palavras ordenadas de uma forma concreta que acalmarão essa dignidade ofendida que o meu conselho de administração finge sentir? Diga-me o que precisa e poderei dar-lho para que todos possamos continuar com as nossas vidas.
Foi como uma bofetada e fez com que se interrogasse porque não percebera que estava a alterá-la daquela forma… e não era apenas essa coisa que sentia como uma palpitação nova na… barriga.
Efetivamente, era agradável olhar para ele, até era magnético, mas havia mais alguma coisa. Estava inclinada para a frente nessa poltrona tão incómoda que escolhera e tinha de fingir que estava confortável. No entanto, não estava a avaliar Matteo Combe como devia, estava a agarrar-se a todas as suas palavras e estava a desfrutar demasiado de discutir com ele. Estava… a divertir-se com aquilo… com ele.
Uma onda de ódio por si própria apoderou-se dela e, em certo sentido, espantou-a que não a arrastasse e que ele não a tivesse visto.
Desculpou-se com Jeannette e, enquanto pensava na sua amiga perdida, a sua irmã de alma, outra onda sacudiu-a. Essa, de uma tristeza que nunca a abandonava por completo, que não a abandonaria até fazer o que tinha de fazer para dar o seu castigo aos homens que se aproveitavam das raparigas encantadoras, de Jeannette, por exemplo, e como já estavam à procura da vítima seguinte, não faziam nada quando elas perdiam as forças.
Quando encontrara o corpo de Jeannette na casa de banho do apartamento que partilhavam, jurara que honraria a memória da melhor amiga, que faria tudo o que pudesse para levar à justiça, se merecessem, os homens que se consideravam intocáveis, que identificaria os predadores, que enfrentaria a arrogância e que, quando o fizesse, ajudaria a desmantelar os sistemas que mantinham os homens ultrajantes no poder.
Esse juramento não ficara em meras palavras, transformara-se na pedra angular da sua vida… e um homem muito bonito, imensamente rico e com uns olhos como o fumo não ia mudar isso.
– Receio que as coisas não sejam assim.
Disse-o num tom mais frio ainda do que antes e talvez fosse por compensação, mas Matteo tinha algo que a induzia a tentar competir com ele quando devia ter ido minando eficientemente a sua segurança em si próprio.
– Sei que é um homem habituado a ter as rédeas, mas não as tem neste caso, sou eu que as tenho. Digo-lhe onde e quando será a próxima reunião. Já aceitou aparecer e, da mesma forma, vou comunicar-lhe quando acabarmos.
– Não acho que tenha convencido o conselho de administração de que isto vai eternizar-se. Posso dizer-lhe que preferem a satisfação imediata.
– Não posso comentar consigo o que combinei ou não com o seu conselho de administração. São meus clientes e não posso revelar a relação que nos une.
– Que prático…
– Quero que entenda uma coisa. – Sorriu como se quisesse estimulá-lo, mas talvez exagerasse o sorriso. – Evidentemente, o controlo é muito importante para si. Controla a sua empresa e agora mais do que nunca. Aparentemente, acha que devia poder controlar com quem a sua irmã se reproduz. É um homem muito poderoso e os homens poderosos, por regra, acham que podem controlar tudo e a todos. No entanto, não controla isto e não me controla.
– Ena, não tinha pensado noutra coisa…
Mais uma vez, não estivera pronta para a sua ironia e isso perturbava-a, mas disfarçou ou, pelo menos, era o que esperava.
– Perfeito. Enquanto continua a pensar nisso, como tenho a certeza de que fará, gostaria que o considerasse como uma oportunidade.
– Como uma oportunidade… para quê? – perguntou ele, com um sorriso levemente sarcástico.
Matteo continuava inclinado para a frente e ela também, embora fosse involuntariamente. Então, de repente, a sala embargou-os como um punho de ferro, mas ela manteve-se como estava e não quebrou essa ligação para não lhe demonstrar que a sentira.
– Para si, senhor Combe – respondeu ela, num tom quase desenvolto. – É uma oportunidade para que seja uma pessoa melhor. Quando aprender a ceder o controlo, poderá descobrir que não tem de enfrentar conceitos como a masculinidade tóxica.
A sua expressão indicou-lhe que conceitos como a masculinidade tóxica não o preocupavam muito e que não tencionava enfrentá-los. Limitou-se a olhar para ela com esses olhos cinzentos e de uma forma que a deixou quase com falta de ar.
– Vou libertar-me de tudo isso porque a minha empresa irá à falência quando parar de lhe dedicar todo o meu tempo? Será a minha família a sofrer quando relaxar, já que sou o único que nos une? Acho que não consegue entender como sou, doutora Fellows. Não tento controlar o universo. É mais, entre nós, o universo que não se importa comigo. No entanto, gosto de controlar aquilo que tenho de controlar.
– Isso dito por alguém que se envolveu numa disputa no dia do enterro do seu pai.
Então, viu-o claramente, viu o brilho de raiva no seu olhar que lhe mudou o rosto, que o tornou tenso e sombrio, que lhe deu um poder completamente diferente… arrepiante, pensou ela, ao sentir essa palpitação outra vez, embora tentasse ignorá-la.
No entanto, nos olhos de Matteo, refletia-se a raiva e ela tinha a sensação de que ele sabia.
– Ena, doutora, acha que perdi a cabeça e bati nesse homem? Não, antes pelo contrário, foi premeditado e alegro-me por o ter feito.
Capítulo 3
Não devia tê-lo dito. Era verdade, mas era uma verdade desnecessariamente provocadora e soubera-o enquanto a dizia.
Sarina levantou-se com uma expressão curiosa no rosto. Pensou que era uma expressão triunfante, mas não entendia porquê. Ela alisou a saia com as mãos, embora não estivesse amarrotada, e olhou para ele com uma expressão que passou a ser de pena.
– Acho que vamos parar por aqui.
Disse-o como se a sua palavra fosse a lei em casa de Matteo, na sua presença, quando os que se tinham atrevido a falar-lhe assim tinham sido da sua família… e estavam mortos.
– Antes de nos afastarmos demasiado dos nossos objetivos – continuou ela. – Além disso, senhor Combe, aconselharia que refletisse sobre a oportunidade de… evolução que tem à sua frente, mas receio que essa evolução não dê em nada se insistir em não se arrepender desse ataque físico a um homem que não o provocou.
Daquela vez, pelo menos, tinha tido o bom senso de morder a língua. Além disso, refletira, mas não como a médica ordenara.
Rejeitara a sua oferta de a alojar, o que lhe pareceu sensato quando não conseguia parar de olhar para ela de uma forma que não devia. Sarina saíra da biblioteca e descera para o vestíbulo imenso, onde ficara, com um ar afetado e de censura, entre os retratos dos seus antepassados San Giacomo.
Refletira sobre a altura dos seus saltos de agulha, que faziam com que as suas pernas parecessem mais compridas do que eram e que formavam todo o tipo de imagens inapropriadas na sua cabeça, cada uma mais apetecível do que a anterior. Refletira sobre a inteligência fria do seu olhar e como gostava dele, embora, evidentemente, quisesse usá-lo contra ele. Talvez fosse porque adorava os desafios. Refletira que, na verdade, era azar que a terapeuta, a consultora, que o conselho lhe atribuíra lhe parecesse tão tentadora, tanto física como intelectualmente.
Não pensara no príncipe Ares, que deixara com os olhos roxos. Voltaria a fazê-lo com muito prazer.
Esperara com Sarina até chegar a lancha que a levaria ao seu hotel e murmurara as cortesias habituais enquanto ela voltava a sair para a chuva.
No entanto, sabia que essa primeira reunião com aquela mulher não correra tão bem como poderia ter corrido. Além disso, para o caso de não saber, um integrante do conselho, que ainda estava do seu lado, ligou-lhe na manhã seguinte para lhe recordar o que dissera.
– Disseste que deste um murro a esse príncipe premeditadamente! – exclamou lorde Christopher Radcliffe, com desespero. – Queres um voto de censura para que te tirem do poder, Matteo? Trata-se de um suicídio?
– Claro que não.
No entanto, não era verdade. Havia uma parte dele que queria pegar fogo a tudo e desaparecer… e, algumas vezes, essa parte de si próprio fazia muito barulho. Dois dias depois, enquanto viajava para Londres, essa parte de si próprio gritava com todas as suas forças.
Então, todos os integrantes do conselho já lhe tinham ligado para que lhes explicasse o relatório que tinham recebido da consultora que, como Matteo já sabia, fizera o que eles queriam, embora talvez não imaginasse o quanto. Aprendera uma lição muito valiosa.
A sua intuição sobre Sarina Fellows acertara, queria acabar com ele.
Alegrava-se por o ter esclarecido, pensou Matteo, enquanto o seu avião atravessava a Europa. Devia ter pensado nisso enquanto permitia que ela o provocasse para que falasse demasiado. Devia ter estado preparado para que essa mulher fosse uma arma e não estivera porque estivera muito mais ocupado com a atração que sentia por ela.
Imaginar como se teria divertido se tivesse conhecido uma mulher como Sarina noutras circunstâncias era muito entretido, mas não podia permitir que acabasse com ele. Sentira-se obrigado a permitir que o conselho o submetesse a essa… consulta e achara que, ao fazê-lo, algo que o pai nunca teria feito, pareceria muito mais dócil e razoável do que Eddie, mas não podia permitir que ela semeasse as sementes da dúvida e da discórdia. Nunca seria um bom momento para essas coisas, mas aquele momento era especialmente inoportuno. Tinha de demonstrar a um grupo de idosos receosos que podia ter o leme da empresa que já gerira durante anos. Tinha de cuidar do legado da sua família e fazer com que as Indústrias Combe não agonizassem quando ele tinha o controlo. Tudo isso, enquanto tinha de lidar com as revelações desagradáveis dos testamentos dos seus pais.
Independentemente de como a consultora que o conselho escolhera o alterasse.
Talvez sonhasse acordado com a possibilidade de desaparecer e abandonar tudo isso, mas não o faria, ele não era assim.
Era o filho mais velho ou, pelo menos, passara toda a vida a achar que era, e tinham-no criado para que desfizesse as ofensas que surgiam em ambos os ramos da sua família. Era o herdeiro do legado dos San Giacomo e o presidente e diretor-executivo das Indústrias Combe, mas, sobretudo, tratava dos problemas, fossem quais fossem e mesmo que não quisesse.
Pelo menos, esse problema fora provocado por ele próprio. Dera um murro ao príncipe Ares que, em honra da verdade, recapitulara e fizera o que tinha de fazer ao pedir imediatamente Pia em casamento. Fora o paparazzo que fizera parecer que lhe batera à traição e que o deixara caído e abandonado.
O resto caíra-lhe em cima por causa da incapacidade de alguns para ter as rédeas da sua vida como ele tinha. Não importava o que ele ou qualquer um sentisse sobre a vida amorosa da irmã e as suas consequências, como a proposta que o príncipe fizera e que ela não pudera rejeitar porque estava à espera do herdeiro do trono do reino de Atilia… nem os escândalos dos seus pais, que tinham voltado a aparecer depois de mortos, como esse filho que a mãe tivera e que não sabia muito bem como tratar.
Era um golpe atrás de outro e, além disso, havia a empresa que tinha de continuar a gerir, independentemente do que o seu conselho de administração achasse.
Quando aterrou em Londres, já estivera a apagar incêndios durante horas: O que ele provocara e os que os outros provocavam todos os dias da semana. E o que se aproximava era muito parecido, um dia, uma semana ou um mês com mais do mesmo. Incêndios por todos os lados e, como sempre, o seu trabalho era apagá-los e, à margem do que o seu conselho de administração achasse ou a imprensa dissesse todos os dias, a única coisa que alguma vez fizera bem na sua vida fora esse trabalho.
O problema de ter estado a apagar incêndios durante toda a sua vida adulta era que começara a gostar das chamas e que até sentia uma certa admiração.
O pai aniquilara essas chamas como pudera, mas ele preferia deleitar-se com elas e desfrutar do calor resultante.
Refletira sobre isso, como a médica ordenara. Aparentemente, Sarina preferia brincar um pouco em vez de levar as sessões a cabo de boa fé e ele adorava brincar ao que quisesse depois de ter visto as intenções dela. A verdade era que, quando se tratava de jogos com apostas tão altas que tinha de ganhar para sobreviver, ele ganhava sempre.
– Lamento interromper…
Alguns dias depois daquela primeira sessão em Veneza, Lauren, a sua secretária pessoal, apareceu à frente da sua mesa do escritório de Londres com esse tom de quem ia diretamente à questão pelo qual lhe pagava tanto.
– Receio que ela esteja aqui e insista em vê-lo.
Matteo estava perdido nas negociações de contratos com distribuidores estrangeiros que, aparentemente, tinham passado o último mês a ler a imprensa sensacionalista, e não lhe ocorria nenhuma pessoa que pudesse exigir o seu tempo ou que se atrevesse a mandar a secretária para o exigir.
– Posso saber quem é ela? – perguntou ele, com o sobrolho franzido. – A maldita rainha?
Lauren Clarke estava há muito tempo a trabalhar para ele e já não se alterava com o seu tom nem com o olhar de fúria que lhe lançara.
– Não é a rainha, senhor. Não acho que ela aparecesse sem uma marcação e sem a guarda real. É a psiquiatra.
Era parte do que aceitara apenas para acalmar o conselho. Todos tinham ficado furiosos, tinham abanado as revistas sensacionalistas e tinham gritado como se o mundo fosse acabar. Tivera de aceitar alguma coisa para os acalmar e fizera-o.
Por isso, naquele momento, havia uma psiquiatra no seu escritório que exigia vê-lo a meio de um dia de trabalho muito complicado, como todas as terças-feiras nas Indústrias Combe.
No entanto, ele já não agia de boa fé. Se ela queria brincar com fósforos, ele ia dar-lhe uma fogueira inteira. Algo despertou dentro dele e mostrou os dentes.
Acabou a chamada e olhou para a secretária, mas viu Sarina e a sua expressão de triunfo em Veneza.
– Dá-me cinco minutos e, depois, manda-a entrar! – ordenou a Lauren.
Armou a cilada e foi até à janela que dava para a cidade. Já anoitecera e o ambiente era húmido e sombrio embora, em teoria, estivessem na primavera.
Lá fora, estava frio e o clima era rude, mas ele sentiu que ardia por dentro quando ouviu que a porta do seu escritório se abria e voltava a fechar-se. Era raiva, fúria e expectativa.
– Esteve muito atarefada, doutora – cumprimentou ele, num tom aprazível que quase conseguiu enganá-lo. – Conseguiu, em menos de uma semana, semear a discórdia em toda a empresa, a incerteza e as conjeturas.
– Não sei a que se refere, senhor Combe – replicou ela, com delicadeza e o que lhe pareceu uma certa satisfação. – Já lhe disse que não é o meu cliente. Devia ter imaginado que o que me contava não era confidencial.
Matteo não se virou para olhar para ela. Continuou a olhar pela janela, mas parou de olhar para a cidade imprecisa e reparou na figura que conseguia ver refletida no vidro. Vestia-se de preto outra vez e pareceu-lhe polida e afiada como uma faca.
Sentiu que todos os pelos ficavam de pé, mas tentou convencer-se de era porque estava a canalizar a raiva para essa firmeza implacável que o tornara famoso. Aquela mulher não sabia do que era capaz e estava disposto a mostrar-lhe.
– Não esperava confidencialidade, mas esperava que, pelo menos, fingisse chegar à verdade. No entanto, deixou muito claro que a sua missão é acabar comigo.
Esperou que ela o negasse, mas não o fez. Também não se riu, embora ele percebesse um certo tom risonho quando ela respondeu.
– Não preciso de acabar consigo. Parece-me que consegue fazê-lo sozinho.
– Tinha a ideia de que ia levar a cabo uma avaliação imparcial, não um assassinato.
Ela entrou mais no escritório amplo. Ele viu que o seu reflexo se mexia com um movimento fluído e um rebolar das ancas e deixou de fingir que ela só o afetava porque o deixava furioso. Usava outros sapatos com uns saltos vertiginosos e teve de reconhecer que essa mulher não só estava a fazer tudo o que podia para o pôr em evidência à frente dos seus sócios na empresa, como também estava a transformá-lo num fetichista… e também faria com que pagasse por isso.
Viu que se aproximava da mesa e que se apoiava com os braços cruzados e soube que ela sabia quais eram todas as suas armas nessa batalha pelo poder. Noutro momento, talvez tivesse aplaudido.
– Acho que não consigo entender – replicou ela com frieza. – Acha que estão a assassinar a sua… natureza?
– Com um machado, doutora Fellows.
Não teve de ver o sorriso sarcástico para sentir que se cravava nas costas como outra faca.
– A sua natureza é a sua empresa, senhor Combe, e explicou-me que se sente justificado em todas as suas decisões. Então, como podia dar uma machadada ao seu bom nome? Isso só seria possível se sentisse alguma vergonha.
– Porque está decidida a fazer com que sinta essa vergonha, seja como for e custe o que custar.
– É um avanço que comente, embora seja só isso, a possibilidade de sentir vergonha. Não achava que isso fosse possível.
Então, Matteo virou-se e mal conseguiu conservar o domínio sobre si próprio. Sentia raiva, efetivamente, mas algo muito mais sombrio bulia-lhe nas veias e fazia com que sentisse a pele tensa e com que tivesse de fazer um esforço para se dominar.
No entanto, essas eram as situações em que dava o melhor de si próprio, quanto maior era o desafio, mais resplandecia… e esperava deslumbrá-la.
– Diga-me o que tenho de fazer – resmungou ele. – Tenho de me ajoelhar? Tenho de rasgar as minhas vestimentas? Evidentemente, só ficará contente com algo muito concreto. Porque não me diz o que tenho de fazer?
Ela esboçou um sorriso plácido, mas brilharam-lhe os olhos escuros.
– Senhor Combe, se não for sincero, como vamos avaliá-lo realmente?
– Diga-me uma coisa, doutora. Como pode saber o mínimo sobre sentimentos sinceros pela família?
Sentiu satisfação ao ver que ela ficava rígida, como se não esperasse o golpe. Os seus olhos deixaram escapar um brilho mais escuro e também gostou disso.
– Aviso-o fervorosamente que não transforme isto em algo pessoal.
Sarina respondeu num tom sério, como se achasse que ele ia voltar atrás porque parecia que ela tinha as rédeas, mas, como lhe recordara várias vezes, Matteo não era o seu cliente.
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