Kitabı oxu: «Cativa entre os seus braços»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
© 2017 Carol Marinelli
© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Cativa entre os seus braços, n.º 1834 - setembro 2020
Título original: Captive for the Sheikh’s Pleasure
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência. ®
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I.S.B.N.: 978-84-1348-493-8
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Epílogo
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Capítulo 1
– Nunca teria ido se me tivesses dito.
Maggie Delaney estava incomodada quando se dirigia de volta à hospedaria de Zayrinia com Suzanne, a sua companheira de quarto.
Maggie, ruiva e de pele muito branca, apanhara demasiado sol na Arábia, mas não era isso que a preocupava naquele momento, era o passeio inocente de barco que esperara que fosse algo muito diferente.
– Era praticamente uma orgia! – protestou.
– Não sabia que ia ser assim – justificou-se Suzanne. – Achava sinceramente que íamos fazer snorkel. Oh, vá lá, Maggie, relaxa um pouco!
Maggie ouvira isso muitas vezes na sua vida, especialmente no último ano.
Não era amiga íntima de Suzanne. Tinham-se conhecido há alguns meses, quando trabalhavam no mesmo bar, e tinham-se encontrado por acaso em Zayrinia.
Para Maggie, era o fim de um ano inteiro de férias a trabalhar e fora o ano mais incrível da sua vida. Viajara pela Europa e pela Ásia e poupara dinheiro suficiente para sair um pouco do caminho trilhado na viagem de regresso a casa. Incluíra uma paragem em Zayrinia na última etapa da viagem e apaixonara-se pelo lugar, mesmo antes de aterrar.
Pela janela do avião, vira que o deserto dava lugar a uma cidade espetacular, em que contrastavam arranha-céus reluzentes com uma cidadela murada antiga. E, depois, na manobra de aproximação final, tinham sobrevoado o oceano reluzente e o porto desportivo cheio de iates luxuosos. Maggie apaixonara-se por Zayrinia à primeira vista.
Naquele dia, era o aniversário da morte da mãe e acordara um pouco triste. Depois, Suzanne dissera-lhe que tinha um bilhete para um passeio de barco ao recife de coral.
A inquietação de Maggie começara antes de entrar a bordo.
Em vez de um barco de snorkel, tinham-se aproximado de um iate de luxo, mas Suzanne desprezara a preocupação de Maggie.
– Eu ofereço – dissera, sorrindo –, antes de voltares para Londres. Estás desejosa de ir para casa?
Maggie não tivera tempo para responder antes de Suzanne interromper.
– Desculpa, é uma pergunta inoportuna, tendo em conta que não tens ninguém à tua espera lá.
Essa desculpa insensível fora mais dolorosa do que o comentário inicial, mas Maggie não soubera o que responder. Há muito tempo, contara à amiga que estivera em muitas casas de acolhimento desde os sete anos e que não tinha família.
– Ou há alguém à tua espera? – insistira Suzanne. – Continuas em contacto com alguma das tuas famílias de acolhimento?
– Não!
A resposta de Maggie fora rápida e um pouco dura. Sentia-se muito consciente de que, às vezes, parecia brusca. Fora algo em que tentara trabalhar durante esse ano. Mas não era fácil abrir-se com as pessoas e Suzanne tocara num ponto fraco. Quando tinha doze anos, tinham prometido muitas coisas a Maggie. Durante uns meses, achara que fazia parte de uma família. Já acontecera uma vez antes.
Um ano depois da morte da mãe, fora acolhida por um casal jovem, mas o casamento acabara e ela voltara para o orfanato. Por um tempo, recebera presentes de aniversário e de Natal, mas isso acabara. Magoara-a, é claro, mas nada comparado com o que acontecera alguns anos depois, quando fora acolhida por outra família. Maggie já não esperava nada, mas Diane, a mãe adotiva, esforçara-se para lhe dar tudo só para voltar a tirar depois friamente.
Maggie esforçava-se para não pensar naquilo. Não contara a ninguém o que acontecera naquele dia horrível, nem sequer a Flo, a melhor amiga.
– Tenho amigos – declarara, esforçando-se para não parecer à defesa e para que Suzanne não percebesse que a magoara.
– É claro que sim. Mas não é o mesmo, pois não?
Maggie não respondera.
Suzanne, com frequência, feria os seus sentimentos sem se aperceber. Maggie tentava ser mais confiante e aberta com as pessoas, mas não lhe saía facilmente. Sentia-se muito consciente de que era um pouco cínica e de que estava sempre de pé atrás, algo que fora útil em alguns dos lugares onde vivera.
Mesmo assim, tentava.
Por isso, em vez de explicar que o comentário a magoara e perguntar a Suzanne onde conseguira o convite, entrara a bordo.
Quando o iate zarpara, tornara-se cada vez mais claro que não iam fazer um passeio ao recife de coral. O que havia no barco era uma festa muito exclusiva e parecia que elas estavam lá como acompanhantes.
Contudo, a menos que quisesse saltar para o mar, já havia pouco que Maggie pudesse fazer. Vestida com um biquíni e um pareo, sentia-se vulnerável. Ao princípio, tentara sorrir e aguentar, mas sentira-se demasiado consciente dos olhos que percorriam o seu corpo e isso fizera-a sentir-se extremamente incomodada e irritada, embora Suzanne não parasse de lhe pedir para relaxar.
Maggie recusara o champanhe gratuito que fluía sem cessar, mas, farta de água e precisando de algo doce por causa daquele sol feroz, pedira um coquetel sem álcool.
Deram-lhe uma bebida com sabor a especiarias e a canela, que lhe soube muito bem, até, quando ia a meio, começar a sentir-se doente e enjoada.
Pensara que podiam ter entendido mal o seu pedido, embora fosse duvidoso, e sentira-se agradecida quando Suzanne a tirara do sol e a levara para um camarote para se deitar.
– Demoraste séculos a voltar – comentou Suzanne, quando já se via a hospedaria. – Vá lá, conta-me. O que é que o príncipe sensual e tu fizeram?
Maggie parou.
– Nada – respondeu. – Como podia saber que estava no camarote real?
– E como é que eu podia saber? – inquiriu Suzanne, com calma. – Foi um erro, garanto-te.
Maggie encolheu os ombros e fez o possível para esquecer o assunto. Embora parecesse que, com Suzanne, tinha de fazer isso com frequência. Mas ficou em silêncio novamente, preferindo acreditar que fora um simples mal-entendido e agradecida por não ter acontecido algo grave. De facto, fora agradável esconder-se durante algumas horas na frescura do camarote, ainda que, ao princípio, fosse estranho ver o príncipe entrar e encontrá-la deitada na sua cama.
Suzanne presumia que acontecera mais alguma coisa.
Não era verdade.
Com ela, nunca acontecia.
Às vezes, questionava-se porque a sua libido era tão baixa, pois nem sequer ver um príncipe sensual com apenas uma toalha ao redor das ancas conseguia excitá-la.
Ao princípio, fora estranho. Desculpara-se, é claro, e tinham acabado por falar.
Não acontecera mais nada.
Quando entrou na hospedaria, Maggie só queria tomar banho, comer alguma coisa e responder a algumas mensagens de correio eletrónico. Paul, o chefe no café em que trabalhara antes de ir de viagem, tinha poucos empregados e pedira-lhe para lhe dizer quando chegaria a casa e se queria o seu antigo emprego.
Também queria enviar uma mensagem à sua amiga Flo que, sem dúvida, se riria ao imaginar Maggie sozinha num quarto com um príncipe sensual e que ambos se tinham limitado a conversar.
Depois disso, só queria ler em paz.
Talvez fosse pedir muito, tendo em conta que se hospedava num quarto de quatro camas na hospedaria, mas Suzanne inscrevera-se para o passeio para ver as estrelas e as outras duas mulheres tinham-se ido embora naquela manhã.
Com sorte, não teriam chegado mais.
– Maggie!
Chamavam-na da receção. A jovem dirigiu-se para lá enquanto Suzanne ia para o quarto.
Tazia, a rececionista, esboçou um sorriso de desculpa.
– Acabámos de saber que o passeio de amanhã para ver as estrelas foi cancelado porque está prevista uma grande tempestade de areia. Posso devolver-te o dinheiro.
– Oh, não! – Maggie suspirou. Tinha muita vontade de fazer aquele passeio.
– Lamento – desculpou-se Tazia, quando lhe devolvia o dinheiro. – O máximo que posso fazer é inscrever-te para segunda-feira, mas até isso dependeria de a tempestade acabar antes.
Maggie abanou a cabeça. O seu voo saía na segunda-feira de manhã, portanto, aquilo não lhe servia.
– E esta noite? – perguntou, embora estivesse muito cansada.
– Está cheio. Falei com mais dois operadores, mas com o tempo tão imprevisível, a maioria já não sai com turistas esta noite.
Era uma grande desilusão e Maggie arrependeu-se de não ter optado por fazer o passeio naquela noite, mas quisera fazê-lo sozinha e não com Suzanne.
– Obrigada na mesma – agradeceu. – Se houver algum cancelamento, avisa-me, por favor.
– Não contaria com isso – replicou Tazia. – És a décima na lista de espera.
Simplesmente, não estava destinado a acontecer.
Maggie foi ao quarto buscar o nécessaire antes de ir para os duches.
– O que é que Tazia queria? – perguntou Suzanne.
– A viagem de amanhã ao deserto foi cancelada. – Maggie suspirou. – Vou tomar banho.
– Enquanto o fazes, emprestas-me o teu telemóvel? Só quero mandar uma mensagem ao Glen.
O telemóvel de Suzanne molhara-se e usava o de Maggie há alguns dias.
– Está bem – acedeu.
O duche não era um luxo, mas, depois de um ano em hospedarias, Maggie estava mais do que habituada. A água era fria e refrescante, portanto, ficou algum tempo por baixo do jorro, lavando a quantidade enorme de creme solar que pusera porque tinha a pele muito branca. Depois, pôs acondicionador nos caracóis ruivos e pensou no que acontecera nesse dia.
Sentia-se muito consciente de que, no terreno sexual, estava muito atrás das suas amizades.
Não era por falta de oportunidades. No café em que trabalhava antes, havia muitos clientes que queriam sair com ela. Maggie aceitava um encontro de vez em quando, mas sempre com o mesmo resultado. A soma total do seu repertório sexual era alguns beijos incómodos.
Mesmo assim, embora não tivesse havido atração, fora interessante falar com Hazin. Apesar da sua beleza e dos seus privilégios, parecia um homem pragmático. Normalmente, quando dizia a alguém que não tinha família, mostravam-se compassivos com ela. Hazin sorrira e dissera que tinha sorte, para depois continuar a falar dos seus pais e da frieza com que tinham criado o seu irmão Ilyas e a ele.
Maggie perguntara-lhe se estava muito unido ao irmão e Hazin respondera que ninguém podia estar unido a Ilyas.
Sim, fora interessante e, agora, desejava escrever a Flo e contar-lhe tudo. Fechou a torneira e pegou na toalha.
Por sorte, o creme solar fizera o seu trabalho e só tinha os ombros um pouco rosados. O resto estava tão branco e sardento como sempre.
Era incapaz de se bronzear e há muito que deixara de tentar. De facto, parecia que acabara de sair de um inverno inglês e não de um verão no Médio Oriente.
Vestiu umas calças claras de ioga e uma t-shirt de manga comprida. Embora os dias fossem quentes no deserto, as noites eram frias. Quando voltou ao quarto, viu que Suzanne fazia a mala.
– Preparas-te para esta noite? – perguntou Maggie.
– Não. Houve uma mudança de planos. Vou ter com o Glen ao Dubai.
– Oh! Esta noite?
– Tenho de ir buscar o bilhete ao aeroporto.
– Caramba! Bom, suponho que tenhamos de nos despedir aqui, então.
Suzanne assentiu com um sorriso.
– Foi agradável passar tempo contigo.
– Estou de acordo – confirmou Maggie, com cortesia. Nenhuma das duas se ofereceu para continuar em contacto.
Maggie estava habituada às despedidas. Ainda recordava uma em que fora a correr para casa da nova escola para ver o novo cachorrinho e, em casa, encontrara uma assistente social, que lhe dissera que estava na hora de voltar ao mesmo de sempre.
Maggie nunca esqueceria os olhos azuis frios de Diane quando lhe pedira para ver o cachorrinho.
– Posso despedir-me do Patch? – perguntara.
– O Patch não está aqui – respondera a assistente social.
Maggie não chorara quando punham as malas no carro da assistente social e também não o fizera ao sair daquela casa.
As lágrimas não ajudavam. Se o fizessem, a mãe ainda continuaria viva.
Sim, estava habituada às despedidas e a de Suzanne era um alívio.
– Eh! – exclamou ela, de repente. Abriu a carteira. – Podes usar isto.
Maggie olhou para o bilhete para o passeio daquela noite.
– Tens a certeza?
– Não vou usá-lo. Tencionava deixá-lo na receção e pedir que me devolvessem o dinheiro…
– Não o faças. – Maggie deu-lhe o dinheiro que Tazia lhe dera. – Estou muito abaixo na lista de espera.
– Então, terás de usar o meu nome. Também paguei para andar de camelo. – Suzanne sorriu. – Despacha-te, o autocarro sai às oito.
Maggie tinha o tempo exato para prender o cabelo num rabo de cavalo e fazer uma mala pequena para aquela noite.
– Vou-me embora – disse Suzanne.
– Boa viagem.
– Igualmente. E não te esqueças de que, por esta noite, és a Suzanne.
Capítulo 2
O príncipe herdeiro, o xeque Ilyas de Zayrinia, nascera para ser rei.
E fora só isso.
Os pais não tinham tido nenhum desejo de ser pais e não tinham extraído nenhum prazer do seu filho.
Tinham tido o herdeiro de que o país precisava e, depois, tinham tido outro para o substituir, pelo sim pelo não.
Ilyas vira-os muito poucas vezes fora dos eventos oficiais e fora criado numa zona afastada deles no palácio enorme. Tivera amas que o alimentavam e lavavam e idosos que lhe davam aulas.
Fora uma vida ocupada e totalmente desprovida de afeto.
Quando tinha quatro anos, Hazin nascera, mudando o tio que odiava o pai para o terceiro lugar na linha de sucessão. Dois meses depois, Ilyas aparecera na varanda real ao lado dos pais e só então é que percebera que o bebé que a mãe tinha ao colo era o seu irmão. Virara a cabeça para o ver, mas tinham-lhe dito para olhar em frente.
– Posso vê-lo? – perguntara à mãe, a rainha, quando saíam da varanda.
Mas a mãe abanara a cabeça.
– O Hazin tem de ir comer – declarara, antes de dar o bebé a uma ama –, e tu tens de ir para as tuas aulas, embora o rei Ahmed queira falar contigo primeiro.
Tinham-no levado ao pai, que estava a falar com Mahmoud, o seu vizir.
– Muito bem, Alteza – elogiara Mahmoud, pois congregara-se uma grande multidão fora do palácio para cumprimentar o novo príncipe.
O rei mostrara-se menos impressionado com o comportamento de Ilyas na varanda.
– No futuro, não te mostres tão inquieto – avisara.
– Só queria ver como é o meu irmão.
– É apenas um bebé – replicara o rei. – Lembra-te, no futuro, olha sempre em frente, independentemente do que se passar à tua volta.
Os irmãos tinham estado quase sempre afastados. Tinham considerado que Ilyas estava demasiado avançado nos seus estudos para ser atrasado. Hazin, que era apenas um suplente, acabara numa escola de Inglaterra.
Fora Ilyas que nascera para ser rei.
Nas suas primeiras duas décadas de vida, absorvera os ensinamentos e a sabedoria dos mais velhos e todos presumiam que estava de acordo com eles porque cumpria bem com os seus deveres.
Os pais achavam que a disciplina rígida da sua educação funcionara bem, mas aquilo não era obediência filial. Não entendiam que era o próprio Ilyas que era disciplinado, que escolhera cumprir as regras.
Naquele momento.
Quando fizera vinte e dois anos, a tragédia atingira o palácio. O pai e o conselheiro tinham decidido que um casamento real animaria os habitantes do país e que era hora de Ilyas se casar. Tinham convocado uma reunião para o informar da sua decisão.
Mas Ilyas mostrara-se em desacordo.
– Não há necessidade de me casar.
O rei Ahmed franzira o sobrolho, presumindo que Ilyas entendera mal, pois o rei estava habituado a que se cumprissem as suas exigências.
No entanto, Ilyas mantivera-se firme no assunto do casamento.
Aceitara o conselho do pai de olhar para o futuro e tinha muitos planos, mas não havia ninguém com quem pudesse arriscar-se a partilhar esses planos.
Ninguém.
O casamento não era algo que queria considerar naquele momento, por isso rejeitara a sugestão do pai. O rei insistira.
– Um casamento, seguido de um herdeiro, agradaria ao nosso povo.
– O povo chorará quando chegar o momento – replicara Ilyas. – Vou casar-me quando for o momento oportuno, não quando tu decidires.
Nesse momento, olhara para Mahmoud, que empalidecera ao ouvir aquele desafio à autoridade absoluta do rei.
– Disse que quero que te cases! – gritara o rei.
– O casamento é um compromisso para o resto da vida e não estou disposto a fazê-lo agora. Por enquanto, basta-me o harém. – Ilyas voltara a olhar para Mahmoud e seguira em frente com a reunião. – Ponto seguinte.
Ilyas era rígido, mas justo; equilibrado, mas frio e o povo de Zayrinia adorava-o e desejava em silêncio que chegasse o dia em que seria rei.
À medida que a saúde do rei se deteriorava, o poder de Ilyas aumentava, embora não o suficiente para o seu gosto. Porém, naquela sexta-feira em particular, quando Mahmoud anunciou que uma nova crise ameaçava ao palácio, foi Ilyas que assumiu o controlo.
– Já lidámos com ela – informou ao seu pai, com calma, embora o tom âmbar dos seus olhos cor de avelã brilhasse de irritação. Porque raios falara da última indiscrição do irmão mais novo à frente do rei?
– Mas que tipo de festa era? – perguntou o monarca.
– Era apenas uma reunião – indicou Ilyas, com suavidade. – Tu próprio disseste que querias que o Hazin viesse a casa com mais frequência.
– Sim, mas para cumprir os seus deveres reais – respondeu o rei. Olhou para o assistente. – Que tipo de festa deu no seu iate?
Ilyas conseguia adivinhar perfeitamente que tipo de reunião depravada acontecera.
O irmão era famoso por elas.
Quase.
O palácio esforçara-se para esconder os escândalos que Hazin deixava atrás ele e o rei decidira que já estava farto. O rei Ahmed al-Razim estava mais do que disposto a deserdar o filho mais novo e privá-lo dos seus privilégios e do título.
Muitos diriam que Hazin merecia.
Mas Ilyas não se deixava influenciar pelos outros. Nem sequer pelo pai.
– Falei com o Hazin antes de se ir embora – disse. – Garantiu-me que foi apenas uma saída de um dia com amigos antes de regressar a Londres.
– E recordaste-lhe que, se houver mais um indício de escândalo, já não poderá usar o apartamento de Londres? Disseste-lhe que cancelarei as suas contas e não terá acesso aos iates ou aos aviões privados da família?
– Disse-lhe, sim.
– Talvez, se tivesse de trabalhar para viver, gastasse o dinheiro com mais sabedoria.
– O Hazin é rico por direito próprio – disse Ilyas ao pai.
– Poucos são suficientemente ricos para manter os seus hábitos – resmungou o rei. – Mais vale que se emende, Ilyas.
O rei saiu do escritório. Mahmoud falou com preocupação.
– O seu pai tem de saber que estão a chantagear o palácio para não tornar os segredos do Hazin públicos. Se isto se souber, será um desastre – insistiu. – O Hazin já teve demasiadas oportunidades.
– Disse que me encarregarei disso – avisou Ilyas.
– O rei Ahmed tem de saber! Temos de pagar a essas pessoas. Fui o seu conselheiro durante quase meio século…
– Já deve ser hora de te reformares – interrompeu Ilyas e Mahmoud soprou de indignação. – O palácio não deve ceder às ameaças. – Encolheu os ombros. – Não acho que exista um vídeo sexual.
– Não tenho assim tanta certeza – replicou Mahmoud. – Se não pagarmos antes do meio-dia de segunda-feira, tornarão o vídeo público. A mulher voltou a entrar em contacto.
Ilyas leu as mensagens que, há uma semana, chegavam ao servidor privado, mas as exigências eram mais específicas agora, estabeleciam a soma de dinheiro que queriam e onde e quando tinham de o depositar para impedir a publicação do vídeo.
– É muito atrevida – disse Mahmoud.
Ilyas não estava de acordo com isso.
– Não – respondeu. – Se a tal Suzanne acha que pode chantagear-me, é uma estúpida.
Examinou as fotografias anexas à mensagem e soube depressa que tinham sido tiradas a bordo do iate do irmão.
Uma ruiva esplêndida de olhos verdes e grandes e pele pálida de aspeto delicado fora fotografada com um biquíni verde.
Havia outra fotografia, granulosa, como se a tivessem tirado de longe, que a mostrava deitada numa cama quando Hazin entrava no que Ilyas sabia que era o camarote real.
A mensagem avisava que as imagens mais explícitas tiradas dentro do camarote seriam perturbadoras, mas Ilyas não acreditava.
– Se tivessem mais, tê-las-iam enviado.
– Têm mais – afirmou Mahmoud.
Ilyas passou para a fotografia seguinte, em que aparecia o irmão de frente, numa posição muito pouco majestosa.
Hazin estava completamente nu, embora para ser justo, Ilyas parecesse estar a tomar banho, presumivelmente, depois de ter nadado.
– Isto não é nada que o nosso público sofrido não tenha visto. Na Internet, circulam incontáveis fotografias do Hazin nu. Não é nada.
Na verdade, era muito. Hazin parecia-se com o irmão nesse aspeto e isso era evidente na fotografia.
Mas havia outro assunto.
– Esta fotografia foi tirada nas águas da Zayrinia – indicou Mahmoud. – Até pode ver-se o palácio ao longe. O rei prometeu ao povo que não haveria mais escândalos do Hazin.
Nesse caso, o parvo era o pai.
Hazin e Ilyas podiam ser parecidos em certos assuntos, mas eram de naturezas muito diferentes. Ilyas simplesmente não lidava com sentimentos e encontrava-os tão raramente que, quando isso acontecia, tinham pouca influência sobre as suas decisões. Era um homem muito lógico e concentrado, enquanto o irmão optava por ter a vida de um playboy. E, no entanto, Ilyas tinha a certeza de que, depois do aviso que lhe fizera antes da sua visita, Hazin, daquela vez, não se teria portado mal tão perto de casa.
Naquele momento, ia a caminho de Londres num avião privado e desconhecia os últimos acontecimentos.
– Não faças nada – disse Ilyas a Mahmoud. – Se houver mais algum contacto, quero que me informem, não ao meu pai.
Percebeu que o vizir ainda continuava com dúvidas sobre se devia informar ou não o rei. Ilyas examinou novamente as fotografias. Apesar das suas palavras, só a imagem em que aparecia nu podia fazer danos. As pessoas costumavam esquecer as transgressões de Hazin no estrangeiro, mas não seriam tão magnânimas se trouxesse o escândalo para casa.
Depois, olhou para a mulher. Não sabia se seria a tal Suzanne ou se era apenas o isco com que tinham tentado Hazin.
Entendia perfeitamente que o irmão o tivesse mordido.
Ela era espetacular.
O vento deitava o seu cabelo ruivo para trás, comprido e ondulado, e o seu corpo não era como os corpos das mulheres que iam a esse tipo de festas.
Era incrivelmente branca, com sardas nos braços e nas coxas. O seu corpo era esbelto e as suas curvas subtis e muito femininas. Os seus lábios eram grossos e, na fotografia, estavam entreabertos num sorriso.
No entanto, o sorriso não chegava aos olhos e Ilyas tinha a certeza de que era falso.
Sim, ela era o assassino sorridente.
– Não faças nada sem as minhas instruções – repetiu Ilyas. – E contacta-me se for necessário. Agora vou ao hammam.
– Alteza… – Mahmoud assentiu e fez uma inclinação de cabeça antes de sair.
O palácio era fantástico.
O edifício gigantesco de mármore parecia, de fora, estar situado por cima de um canhão vermelho, à beira do Golfo Pérsico. Olhava de cima para a cidade que fervia de atividade, exceto pelo lado oeste, que dava para o deserto.
O palácio era uma verdadeira obra de arte e fora construído ao redor de um oásis natural que ainda continuava a existir. Era vasto e continha muitas residências, assim como zonas para funções formais e espaços para a oração.
Mas guardava mais segredos, pois não estava simplesmente situado por cima de uma falésia, fora esculpido de dentro.
Os túneis que havia por baixo do edifico estavam decorados com desenhos antigos e mosaicos detalhados. Ilyas desceu primeiro os degraus esculpidos em mármore, que depressa deram lugar a outros esculpidos nos alicerces.
Lá, o ar era mais fresco. Ilyas dirigiu-se para o seu túnel privado, onde círios gigantes iluminavam o caminho. O som da água a cair ao longe fazia-o confiar que não demoraria a desaparecer a preocupação que o corroía.
O hammam era divino e algumas zonas eram acessíveis por diferentes caminhos, mas poucos podiam aventurar-se por onde estava Ilyas naquele momento.
Era um mundo que poucos sabiam que existia.
A peça central era uma gruta com uma cascata e a corrente contínua oferecia um fundo audiovisual espetacular. Havia vários lagos e cataratas mais pequenas, que caíam em lagos maiores por baixo do hammam. Quando a luz era apropriada, a entrada para um das grutas estanque emitia um brilho vermelho profundo por causa dos rubis do subsolo. De dia, entravam raios de sol que criavam uma catedral natural, de noite, eram as estrelas e a lua que banhavam a água com a sua luz. Na verdade, era um refúgio digno de reis.
Ilyas tirou o robe e mergulhou num lago profundo. Mas a tensão continuava presente nele quando saiu para a superfície.
Apesar da sua calma aparente à frente de Mahmoud, estava muito preocupado.
Sabia que parecia tão frio e indiferente como o pai, mas não fora cortado pelo mesmo padrão.
Não queria que deserdassem Hazin, mas sabia que esse dia se aproximava. Apesar dos seus esforços, dava a impressão de que nada conseguiria mudar isso.
Não havia nada que pudesse fazer, exceto estar vigilante, mas, por enquanto, podia tentar relaxar.
Era muito estranho dispor de um fim de semana completo para fazer o que queria.
Normalmente, tinha vários compromissos e, com frequência, viajava para o estrangeiro, tanto para forjar novas relações como para tentar reparar as que o reinado do seu pai destruíra.
Chamou uma das massagistas e aproximou-se da mesa grande de mármore que havia no centro da zona onde se deitou de barriga para baixo para que lhe esfregassem a pele com sal.
Depois, levantar-se-ia e passar-se-ia por água na cascata. Olhou para o deserto daquele ponto de vista privilegiado. Poucos sabiam que existia, mas havia uma vista sem interrupções da areia do deserto e do céu.
Mais tarde, chamaria uma mulher do harém.
O pai continuava a pressioná-lo regularmente para que escolhesse uma esposa, mas Ilyas recusava-se.
E quem podia culpá-lo?
Ao longo de um dos túneis, conseguia ouvir as gargalhadas distantes do harém e, por cima dele, havia um cordão de veludo que podia puxar quando quisesse. Deitado ali, com a cabeça no antebraço e a pensar em sexo, recordou a mulher da fotografia que Mahmoud lhe mostrara.
Mãos peritas trabalhavam na parte inferior das suas costas, mas não foi a habilidade da massagista que fez com que Ilyas mudasse de posição na laje fria de mármore.
O que o excitou foi pensar na mulher com uma labareda de cabelo avermelhado e pele pálida e sardenta.
– Alteza… – O som da voz de Mahmoud não foi nada bem-vindo. – Peço desculpas por o incomodar.
– O que se passa agora? – perguntou Ilyas, com raiva.
– A mulher da fotografia. Descobri que continua no país. Aparentemente, esta noite, inscreveu-se para um passeio.
– Então, é verdade que é estúpida – resmungou Ilyas. Pois ninguém com sensatez permaneceria num país que ameaçara de um modo tão explícito.
– Rastreámos o telemóvel dela e parece que irá ao passeio das estrelas.
– Esta noite, haverá poucas estrelas, visto que se espera um simum. – Só o esperavam no dia seguinte, mas o vermelho do céu já era um presságio. – Esta noite, não devia haver turistas no deserto.
– O passeio saiu. Ela está lá fora, Alteza – disse Mahmoud e apontou para o deserto.
Ilyas sabia que alguns operadores turísticos ignoravam os avisos. Era um problema recorrente, mas não era o que o preocupava naquele momento.
– Traz-ma.
– Aqui? – Mahmoud parecia surpreendido. – Se o rei descobrir…
– Aqui não – interrompeu Ilyas. – Faz com que a levem para a casa do deserto. Vou falar com ela lá.
– Pode ficar isolado por causa da tempestade.
Ilyas estava habituado aos truques do deserto e desfrutava sempre da sua estadia lá. Procurava força e sabedoria e a ideia de ficar isolado não o preocupava.
Pulsuz fraqment bitdi.