Kitabı oxu: «Tempo de esperança»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2002 Daphne Clair

© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Tempo de esperança, n.º 695 - setembro 2020

Título original: The Riccioni Pregnancy

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-573-7

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

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Capítulo 1

Estavam a segui-la. Em silêncio, invisíveis, tinha ficado em pele de galinha com o sinal de advertência. Atrás dela, a noite escondia um caçador.

Tinha passado por aquelas ruas estreitas centenas de vezes, à luz do dia e na escuridão, e nunca tinha ficado nervosa. Até aquele momento.

A luz dos faróis era ofuscada pelos troncos das árvores que rodeavam a rua, preenchendo-a de sombras. As raízes saltavam por entre a cerca. Deveria ter mudado de sapatos antes de sair do trabalho. Os que trazia tinham um salto demasiado alto e podia ser um perigo na escuridão.

Tropeçou e, murmurando, olhou rapidamente por cima do ombro, com o coração nas mãos.

Nada. Mas seria fácil para qualquer pessoa que não quisesse ser vista, esconder-se atrás de uma árvore ou atrás de algum carro estacionado em ambos os lados da rua.

O instinto fez com que acelerasse o passo, procurando a chave no bolso.

Deteve-se por um momento na porta do vizinho, olhando novamente para trás. Estava uma sombra por baixo das árvores ou era apenas uma brisa a mover os troncos…?

Imaginou-se a bater à porta, pedindo que a abrissem, observou a alegre e frenética família Tongan a deixá-la entrar, enviando os rapazes à procura do estranho perseguidor. Mas, na casa não havia luzes, nem vozes, nem música.

E se estava enganada? E se havia um atacante invisível que apenas existia na sua imaginação?

A porta da sua casa estava apenas a alguns metros, uma casinha de dois pisos que recordava o passado colonial da Nova Zelândia.

«Não corras», pensou. Em breves segundos estaria no caminho de ladrilhos, quando finalmente tirou a chave do bolso.

Estava no terceiro degrau da entrada quando o portão chocou contra a cancela e, ao voltar-se, angustiada, viu que uma alta figura masculina se aproximava.

Aterrorizada, voltou-se para a porta, mas ficou com o salto alto preso no último degrau e perdeu o equilíbrio. Ao levantar o braço para procurar apoio, deixou cair a chave da mão.

À beira do pânico, apoiou-se na ombreira da entrada, ouviu a chave cair no chão e viu o desconhecido baixar-se para as apanhar.

Não podia fugir. Estava presa, com uma porta fechada nas suas costas. E, diante dela, um homem com a sua chave na mão.

Precisava respirar fundo para poder gritar, esperando que alguém a ouvisse, que alguém a ajudasse.

Desceu as escadas num salto e uma mão grande, enorme, tapou-lhe a boca, estrangulando o grito.

Levantou um joelho para lhe bater, mas o homem estava atrás dela. Tentou mordê-lo, mas não conseguia. Levantou o pé para lhe dar um pontapé letal, mas o canalha parecia estar preparado e apenas encontrou ar. Tentou dar-lhe uma cotovelada, mas ele segurou o seu braço e deu-lhe a volta, esmagando-a contra o seu duro corpo.

– Querida, não – murmurou ao ouvido com uma voz rouca.

Querida? Essa palavra fez com que ficasse rígida. Querida? A fúria superou o medo.

O homem deixou de a apertar e ela aproveitou para soltar-se, levantou a mão direita e deu-lhe uma bofetada na cara que se ouviu em toda a rua, foi tão forte que fez com que desse um passo atrás.

– Canalha! – gritou.

O seu rosto era invisível na escuridão, mas observou-o a dar um passo atrás. Soltou uma gargalhada.

Ela respirou profundamente para levar ar aos seus pulmões. Dava-lhe voltas à cabeça e parecia estar a flutuar no espaço, no escuro e confuso espaço. Teve que respirar novamente para poder falar:

– Dá-me a chave – disse e rangeu os dentes.

O homem apertou-lhe o nariz com dois dedos.

Ela tentou soltar-se, mas ele não a largou e os seus dedos roçaram-se. Quando finalmente conseguiu tirar-lhe a chave, deu meia volta e tentou encontrar a fechadura, mas tremia tanto que não era capaz de fazê-lo.

Então, o homem tirou-lhe a chave e colocou-a correctamente na fechadura. Depois, abriu a porta e colocou uma mão nas suas costas e empurrou-a suavemente para o interior da casa.

Quando fechou a porta ficaram na escuridão. Ela não via nada, mas conseguia ouvir a respiração do homem, cheirar a sua roupa de algodão e lã, o seu sabão e uma suave água de colónia masculina. Começou a cheirar um sedutor aroma a homem excitado.

Então, ele pegou-lhe pela cintura.

– Estás a tremer – murmurou, roçando a sua cara com o cabelo. – Lamento.

– Lamentas? – exclamou ela, furiosa, envergonhada e confusa.

Procurou o interruptor e ficou furiosa e pálida quando acendeu a lâmpada. Diante dela, um homem de cabelo escuro, olhos azuis, sobrancelhas escuras sobre um nariz magistral e uns lábios que não podiam esconder a sua poderosa sensualidade.

– Estás pálida.

– Estiveste a perseguir-me? – perguntou ela.

– A perseguir-te?

– Estavas a seguir-me. Não me digas que não tentavas esconder-te.

– Estava a tentar não te assustar.

Ela quase soltou uma gargalhada.

– O quê?

– Pensei que se ouvisses passos atrás de ti nestas ruas tão escuras terias razão em ficares assustada.

– Como diabo não ia assustar-me ao saber que tinha alguém a seguir-me? – exclamou ela, largando a mala na mesa do telefone.

– Ignorava que soubesses.

Ele pegou na sua mão e deu-lhe a chave. Depois, tentou dar-lhe um beijo, fazendo com que ficasse com a pulsação acelerada.

– Precisas de um copo – disse, olhando à sua volta.

– Não preciso…

Ele largou a sua mão para a levar até ao salão, a primeira porta aberta no corredor.

– Senta-te – ordenou, levando-a até ao sofá.

– Não preciso de um copo. E se precisasse eu próprio o servia.

Sem dizer nada, o homem aproximou-se da estante onde estavam as garrafas.

Sabendo que não faria caso aos seus protestos, ela deixou-se cair no sofá e esperou até que o homem voltou com um copo de uísque. Ao beber o primeiro gole, os seus olhos ficaram repletos de lágrimas, mas tentou disfarçar.

Ele sentou-se a seu lado. Tinha um braço apoiado nas costas do sofá e olhava para ela com intensidade.

– Bebe tudo.

Deveria dizer-lhe que fosse para o inferno, que não precisava de nenhum homem que a seguisse até à sua casa e que lhe dissesse o que tinha que fazer.

Levantando o copo, bebeu o resto do líquido.

– Vives aqui sozinha?

– Isso não é assunto teu – disse ela, sem pensar.

Por que é que não lhe tinha dito que tinha noivo, marido, namorado, qualquer coisa? Ou que vivia com mais três pessoas.

– Já sei.

– Desde quando me segues?

– Vi-te descer do autocarro na avenida Ponsonby. Costumas regressar a casa sozinha? – perguntou ele, com um tom de reprovação.

A avenida Ponsonby era muito popular pela sua ecléctica mistura de emigrantes, mulheres das ilhas Fiji com os seus lenços de cores, lojas de todo o tipo, locais de moda e galerias de arte. Mas, sobretudo, pelos seus cafés e restaurantes cheios de pessoas e bem iluminados. Apenas estava a trezentos metros da sua casa, mas para chegar ali devia atravessar várias ruas escuras.

– Nunca me tinha acontecido nada até hoje.

– E, hoje, também não te aconteceu nada. Eu assegurei-me disso.

– Muito obrigado, mas não era necessário – replicou ela, sarcástica.

– Quando te vi, apercebi-me que era totalmente necessário. Importas-te que me sirva de um copo?

– Sim, importo-me.

– Estás a ser um pouco grosseira, não? – sorriu ele.

Tontamente, sentiu-se reprovada. Como se aquele homem tivesse algum direito sobre ela.

– O que mereces.

– Queres um pouco mais?

Ela negou com a cabeça.

Sabia que não podia mandá-lo embora da sua casa. Mas aquela era sua casa e ele era um intruso.

– Não esperas que me vá embora, agora, não?

– E se te pedir?

Ele estava a olhar para o seu copo. O líquido não se mexia, as suas mãos estavam perfeitamente firmes. Ao contrário das suas. Todo o seu corpo tremia de forma quase perceptível.

– Estás a pedir que me vá embora?

Ela conteve a respiração.

«Diz».

– Sim.

Não o tinha dito com muita determinação, mas sim claramente, embora em voz baixa.

Passaram uns segundos. Então, ele levantou o seu copo e bebeu um gole. Depois, olhou-a fixamente nos olhos.

– Não.

Ela levantou-se de repente e teve que segurar-se no braço do sofá porque o movimento brusco deixou-a tonta. Além disso, não podia sair a correr. Ele poderia apanhá-la antes de dar dois passos.

O homem bebeu o resto do uísque e deixou o copo sobre a mesa.

– Não – repetiu. – Não podes continuar a fugir de mim, Roxane.

Capítulo 2

– Não estou a fugir – murmurou ela, sentando-se novamente no sofá. – Nunca fugi de ti.

– Então, o que lhe chamas?

– Foi uma decisão racional e sensata.

– Sensata?

Uma familiar mistura de sensações apoderou-se dela: desespero, tristeza, angústia, misturada com um profundo e inexplicável desejo.

– Não achas que seja capaz de fazer algo sensato. Mas foi a melhor decisão da minha vida.

Ele apertou o copo com força.

– Era necessário ser tão dramática? Cortar todo o contacto, fazer jurar os teus padres que não me dissessem onde estavas, obrigar-me a que comunicássemos através do teu advogado, como se eu te tivesse maltratado…

– Disse-lhes que não era assim – replicou ela, olhando para as mãos. – Não me trataste mal, Zito.

– Ah, pensei que nunca voltarias a pronunciar o meu nome.

O rosto de Roxane estava semi-escondido no seu longo cabelo escuro, mas tinha notado uma mudança no tom de voz do seu marido, que fez com que levantasse o olhar para os seus claros olhos verdes, interrogantes.

Apenas encontrou uma expressão rígida e indecifrável, quase indiferente.

– Não pensaste que se quisesse encontrar-te-ia de imediato?

– Eu sei.

Sabia que Zito podia pagar a vários detectives privados durante o tempo que fosse necessário.

– Mas deixaste bem claro que não querias que te encontrasse – sorriu ele, sarcástico. – Ou esperavas que fosse a correr atrás de ti para te pedir que voltasses comigo?

Às vezes fantasiava com essa ideia, que o seu marido voltaria para lhe pedir desculpas e fazer promessas… um homem diferente, um homem humilde. E que tudo, milagrosamente, iria correr bem. Este pensamento tinha-a ajudado a conciliar o sonho durante muitas noites.

Mas seria fatal admiti-lo.

– Não.

Pareceu-lhe ver um brilho de emoção nos olhos azuis dele, mas de repente desapareceu. Talvez estivesse enganada.

– Fico contente que assim seja – disse ele, metendo as mãos nos bolsos das calças.

A roupa de Zito estava sempre impecável, muito cara. Não com o intuito de impressionar os outros.

Ele estava a inspeccionar as paredes que Roxane tinha pintado de verde, com baratas reproduções artísticas.

Então, olhou, para o sofá em segunda mão. Por um segundo, a sua atenção desviou-se para o tapete antigo pelo qual Roxane tinha pago muito dinheiro. O seu único capricho.

– Não gostas da minha casa? – perguntou, desafiante.

– Não está mal. Pequena, mas agradável.

– Gosto das coisas pequenas.

Zito olhou para ela, incrédulo.

– É tua?

– Minha e do banco.

– Se precisas de dinheiro, poderias ter-me pedido. Através do teu advogado, se fosse preciso. Disse-lhe…

– Não quero o teu dinheiro. Tenho um bom trabalho e posso pagar a hipoteca.

– Hipoteca!

Tinha falado como se fosse uma palavra feia. Roxane sorriu.

– É isso o que fazem as pessoas normais para comprarem uma casa, Zito.

– Não tens necessidade de comprar uma casa. Eu posso dar-te tudo o que quiseres… dei-te tudo, se bem me lembro.

– Não tudo – disse Roxane em voz baixa. – Não me deste o que mais desejava.

– Amava-te! – exclamou ele, furioso.

– Eu sei, sei que me amavas. À tua maneira.

Zito passou uma mão pelo cabelo, irritado.

– Dei-te o meu coração e a minha alma, tudo o que tinha. Não sei que mais poderia dar-te.

Claro que não sabia. Maurizio Riccioni apenas faz as coisas à sua maneira. E quase sempre com sucesso. Por que é que iria imaginar que a sua mulher não sucumbiria a essa profunda segurança em si mesmo?

– Nem tudo foi culpa tua. Eu era demasiado jovem e deveria ter dito «não» quando me pediste em casamento.

– E disseste – recordou ele.

Sim, era verdade. A primeira vez que a pediu em casamento, demonstrou um certo bom senso. Mas a sua oposição não durou muito. De imediato, os seus medos foram dissipados perante a vontade de Zito.

Inclusive, convenceu os seus pais, apesar deles não aprovarem que a sua filha casasse aos 19 anos.

Zito esperou até que cumprisse os 20 e no dia do seu aniversário casaram na catedral de Melbourne, perante várias centenas de convidados.

Mas, o casamento era algo mais do que um vestido branco e um ramo de flores. E o seu não tinha resistido ao desafio.

– Deveria ter-te dito que não.

– Obrigado – murmurou ele. – Mas eu podia convencer-te de todas as formas.

– Estás tão seguro de ti próprio…

– Eu nunca te magoei, Roxane. Se tivesse sido um marido terrível, compreenderia que me tivesses abandonado.

Então, aproximou-se do seu escritório e olhou para os papéis.

– São coisas privadas – protestou Roxane. Ele pegou num envelope e voltou-se, interrogante.

– Roxane Fabian? – Roxane encolheu os ombros.

– É o meu apelido.

– Mas disseste que gostavas do meu.

– Não me importou… Não era tão importante.

– Para mim era.

Mas ter o seu apelido tinha sido importante para ela. Seguramente, era algo simbólico.

– Por que é que pensavas que eras o meu dono? – Zito soltou uma gargalhada.

– Se realmente pensavas assim, eras demasiado jovem.

Ou demasiado tonta, parecia insinuar.

– Então, não pensavas isso.

A reacção do homem foi notável, mas ela conhecia-o tão bem que viu como dava, sem dar, um passo atrás.

Não queria magoá-lo. Sabia que ficaria furioso, mas não o abandonou para se vingar ou castigá-lo, apenas por sobrevivência.

Na sua longa e possivelmente incoerente carta de despedida, tinha-lhe dito que não o odiava e que não devia culpar-se a si mesmo pelo que não podia evitar. Tinha tentado não o magoar.

Talvez a dor fosse mais profunda do que ela esperava. Tinha tido doze meses para a esquecer, mas não parecia tê-la esquecido.

– Lamento. Pensava que compreendias.

– Há outro homem? – perguntou ele abruptamente.

– Por favor! – exclamou Roxane. Não entendia que o tinha deixado porque queria estar sozinha. – Outro homem depois de viver contigo durante três anos? Como te atreves a sugerir que te fui infiel?

Zito ficou em silêncio durante uns segundos.

– Durante meses, torturei-me com essa ideia.

Roxane nunca tinha pensado nisso. Essa era mais uma prova de que não a conhecia, que nunca tinha tentado compreendê-la ou entender os seus desejos.

– Pois enganas-te.

Ele encolheu os ombros, como se não tivesse importância. Mas tinha. Tinha o seu orgulho ferido e essa era, seguramente, a razão pela qual não a tinha procurado através de um detective.

– Quebraste outras promessas do casamento – disse então. – Por que não essa?

– É diferente.

– Porquê?

Roxane não podia responder a essa pergunta.

– Porque sim – disse, suspirando.

– E agora?

– Agora, a minha vida privada é a minha vida privada.

Nesse momento, começou a tocar o telefone e Roxane levantou-se para ir para o corredor.

– Diga-me?

Zito ficou a olhar para ela desde o salão, enquanto ela tentava concentrar-se na chamada.

– Diz-me, Leon… No sábado? Sim, bem, tenho que ver a agenda.

Roxane abriu a mala que tinha deixado sobre a mesa do telefone.

– No sábado da semana que vem? Que género de festa? Se há muitos convidados…

Leon garantiu que não. Uma festa de boas vindas, pelos vistos, para o filho de um cliente que voltava da Europa com a sua noiva.

– É apenas uma reunião familiar. Uma centena de convidados.

– Uma reunião familiar? – sorriu ela. – Para que os familiares vejam a pobre noiva?

– É uma proeminente família de Auckland e os contactos vêm mesmo a calhar. Espero que possas organizá-la.

– Claro que sim – prometeu Roxane.

– Sei que posso confiar em ti.

Quando voltou ao salão, tinha um sorriso nos lábios. Zito estava a olhar pela janela, com um ar muito sério.

– O teu noivo?

Roxane não tinha noivo, mas a pergunta fez com que vacilasse um pouco.

– Não, uma chamada de trabalho.

– Trabalho? – repetiu Zito, incrédulo. – A estas horas?

– Não é assim tão tarde – murmurou ela, olhando para o relógio. Eram apenas dez horas.

– Uma festa no sábado à noite? A sério que tinhas que consultar a agenda ou apenas o fizeste para o deixares nervoso?

– Não sejas ridículo.

Ele afastou-se da janela, com um brilho feroz nos olhos.

– Ridículo?

– Ridículo, sim!

Talvez fosse a segurança no seu tom de voz, talvez o brilho dos seus olhos verdes, mas Zito deteve-se. Roxane nunca se tinha atrevido a repreendê-lo dessa forma.

– Quem é a noiva? Tu? Se és tu, esqueceste-te de um pequeno detalhe.

Ela ficou tão surpreendida que soltou uma gargalhada.

E, novamente, reparou que o tinha deixado nervoso.

Nunca tinha visto Zito a perder a calma no espaço de… dez minutos?

Era uma sensação muito peculiar.

– Quem telefonou foi o meu chefe. Dedicamo-nos a organizar eventos, sobretudo para grandes empresas, mas pediu-me que organizasse uma festa familiar para o filho de um cliente.

Zito olhou para ela como se estivesse a tentar decidir se devia acreditar ou não. Depois deixou-se cair no sofá, passando uma mão pelo cabelo.

Roxane sentou-se no braço do cadeirão, a seu lado, e cruzou as mãos. Umas mãos sem aliança, sem anel de comprometida.

Quando levantou o olhar, ele estava apoiado nas costas do sofá, com as longas pernas esticadas.

– Comportei-me como um idiota. Como um autêntico idiota.

Surpreendida pela confissão, Roxane ficou a olhar para ele sem dizer nada.

– Deveria ter-me aproximado de ti quando desceste do autocarro.

– Em vez de me pregares um susto de morte?

– Quando soubeste que era eu?

Quando lhe chamou «querida» com a sua inesquecível voz rouca que ela sempre tinha imaginado com o sotaque italiano dos seus antepassados, embora os seus pais tivessem nascido na Austrália.

– Antes de dar-te a bofetada – respondeu.

Ele sorriu suavemente, sem olhar para ela, despertando emoções antigas. Emoções que não devia despertar.

– Já vejo.

– O que fazes na avenida Ponsonby? Na realidade, o que fazes em Auckland?

– Estamos a pensar em abrir uma cadeia de restaurantes na Nova Zelândia. E estava a jantar no GPK.

– Vigiando a competência?

O avô de Zito tinha chegado à Austrália sem um cêntimo e lavou pratos até que abriu o seu próprio restaurante e depois outro e outro. O negócio familiar converteu-se numa instituição australiana que valia milhões de dólares.

E estavam a pensar em expandir-se na Nova Zelândia…

– Estava a misturar os negócios com o prazer – disse Zito.

– Ah, estavas com uma mulher – murmurou Roxane.

Claro que não tinha jantado sozinho. E, claro que a sua acompanhante teria sido uma mulher.

– Uma mulher que não penso ver mais.

– Não me surpreende… se a deixaste sozinha a meio da refeição – replicou ela, sentindo uns ciúmes que não tinha o direito de sentir. – Que desculpa lhe deste?

– Desculpei-me, paguei o jantar e disse-lhe que telefonaria amanhã.

Roxane quase que soltou uma gargalhada.

– Terás sorte se voltar a dirigir-te a palavra.

– Envio-lhe um ramo de flores.

– Ah, claro, e então fica tudo esquecido. Irá logo comer na tua mão.

– Já te disse que não penso voltar a vê-la. É apenas uma conhecida… nada mais.

Que seguramente esperava ser muito mais, Roxane não tinha dúvidas. Essa mulher não sabia que tinha escapado por um fio.

Mas estava a ser injusta. Uma mulher mais velha, mais sofisticada, mais segura de si própria poderia ter sido muito feliz com Zito… e poderia tê-lo feito muito feliz.

– No que pensas, Roxane?

– Em nada. Não comi nada desde o almoço. Tenho fome.

Essa resposta, que devia ter saído do seu subconsciente, por alguma razão, pareceu deixá-lo zangado.

– Quando vais aprender a cuidar de ti própria?

– Já o faço – replicou ela. – Se não me tivesses atacado estaria agora mesmo a jantar tranquilamente.

– Onde está a cozinha?

– O quê?

– É indiferente – disse Zito, levantando-se. – Eu encontro-a.

– Zito… – murmurou Roxane, seguindo-o pelo corredor. – Espera um momento, não preciso que me faças o jantar.

Ele voltou-se, com um sorriso nos lábios. Gerações de carismáticos italianos tinham produzido aquele sorriso irresistível.

Pegando-lhe no braço, meteu-a na cozinha e sentou-a numa das cadeiras de madeira.

– Eu também tenho fome. Não precisas de cozinhar. Senta-te aí e diz-me onde está tudo.

Zito tirou o casaco e a gravata, que deixou sobre uma cadeira, e arregaçou as mangas da camisa, mostrando uns antebraços morenos e fortes, enquanto lavava as mãos.

Aquilo não podia estar a acontecer. Não podia ser. Devia de ter ficado a dormir no escritório. Era um pesadelo. Zito Riccioni não estava na sua cozinha a abrir os armários para mexer nas caçarolas, perguntando-lhe se tinha tomates, cebolas, alhos…

– No cesto, ao lado do frigorífico – respondeu automaticamente.

Ele pegou num punhado de alhos e levou-os até ao nariz. Faz sempre isso, procurar a frescura dos produtos, como lhe tinha ensinado o seu avô.

Durante o dia livre dos empregados da sua mansão de Melbourne, levava-a à espectacular cozinha para fazerem o jantar juntos.

«Cheira isto», dizia aproximando algo à sua cara: pimenta recém moída, algumas especiarias exóticas ou alguma erva recém encontrada no mercado.

Cortava alguma fruta ou verdura e provava-a antes que ela a provasse.

Às vezes, Roxane mordiscava os seus dedos, convidando-o a que fizesse o mesmo. Mais tarde, ele prometia-lhe um erótico castigo, na cama.

Mas nem sempre esperava pelo fim do jantar e, às vezes, voltavam para a cozinha depois de revolverem os lençóis. Então, a comida ainda sabia melhor.

Fazer a comida tinha sido uma espécie de jogo sexual, uma arte que Zito praticava com a mesma alegria, com a mesma satisfação com que fazia amor.

Uma arte que não desaparecia com os anos, pelos vistos. Apesar da sua casa ser pequena, demonstrava a mesma competência que na sua enorme cozinha com metros e metros de comprimento e vários electrodomésticos..

Um pesadelo? Não, melhor, um bonito sonho, mas insuportavelmente nostálgico.

Uma vez disse-lhe que o seu estilo de cozinhar era como o de um bailarino russo, disciplinado e ocasionalmente extravagante.

«Nem todos são homossexuais?», tinha-lhe perguntado ele.

«Nem todos», protestou ela.

Zito fazia-se passar por ciumento, exigindo saber como sabia e, por fim, levava-a para cama para provar que ele era inegavelmente heterossexual.

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