Kitabı oxu: «Uma noiva para o cowboy - Chuva no coração»
Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 66 - outubro 2021
© 2008 Judy Russell Christenberry
Uma noiva para o cowboy
Título original: Inherited: Instant Family
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2009 Donna Alward
Chuva no coração
Título original: Hired: The Italian’s Bride
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2009
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1105-092-0
Sumário
Créditos
Sumário
Uma noiva para o cowboy
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Chuva no coração
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
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Capítulo 1
Brad Logan estava atrasado. Devia ter saído do casamento do seu amigo muito antes. Estava a mais de quarenta quilómetros de casa e o seu irmão zangar-se-ia se acordasse Abby. Embora lhe faltassem dois meses para dar à luz, os gémeos mal a deixavam dormir.
De repente, viu uma luz no meio do campo, à esquerda da estrada. Parecia uma fogueira. Travou de repente e recuou para verificar. Os Logan tinham arrendado aquelas terras à Junta de Freguesia e todos sabiam que era proibido fazer fogueiras.
Ali estava… Quase escondida atrás de uma pequena colina. Tinha de a apagar. Os faróis da carrinha iluminaram os vestígios de pneus que se dirigiam para o caminho de pedra. Brad seguiu as marcas e chegou até um velho carro. Alguém tinha acendido uma pequena fogueira.
Uma jovem estava junto da fogueira.
– Menina?
Ela levantou-se com um salto e esteve prestes a perder o equilíbrio.
– Quem é o senhor?
– Brad Logan. A minha família arrendou estas terras à Junta de Freguesia. Não pode acampar aqui. E, certamente, não pode fazer uma fogueira.
– Não estamos a fazer nada mau.
– Menina, foi um ano muito seco. Não podemos arriscar-nos a sofrer um incêndio. Lamento muito, mas tem de apagar a fogueira – deitou terra sobre a fogueira, mas ela parou-o, pondo-lhe uma mão no braço.
– Se soubesse quanto tempo demorei a acender essa fogueira, não a apagaria assim!
Ele fez com que o soltasse.
– Olhe, não pode estar aqui. Vimos ursos a rondar por aqui. O que faria se um urso a atacasse? Tem de voltar para Pinedale e procurar um hotel.
– Não! Não posso!
Parecia muito assustada.
– Porquê?
– Não posso. Não tenho dinheiro!
– Há um acampamento em Yellowstone. Não acho que esteja cheio no Outubro.
– Oh, sim, obrigada.
A expressão do seu rosto dizia que não ia para Yellowstone. Mas fosse para onde fosse, não podia deixá-la ali.
– Não tem água?
– Sim – virou-se para o carro, que estava às escuras.
– Preciso dela para me certificar de que a fogueira está totalmente apagada.
Ela deu meia volta com um ar incrédulo no rosto.
– Vai atirá-la para a fogueira? Não tenho muita e as crianças precisarão dela de manhã.
Ele olhou para o veículo.
– Há crianças no carro?
– Olhe, ir-nos-emos embora, mas preciso de toda a água que tenho.
– Onde estão?
– Estão a dormir.
– Devia cuidar melhor dos seus filhos, menina!
– E o senhor devia meter-se nos seus próprios assuntos!
Sem saber o que fazer, Brad tirou o telemóvel e telefonou para o xerife.
– Levo-a? – perguntou-lhe, depois de o informar da situação.
Estava a observá-la enquanto falava e, quando disse que a levaria com ele, ela começou a arrumar as suas coisas rapidamente.
– Vamos!
Antes de conseguir chegar ao carro, Brad agarrou-a pelo braço.
– O xerife disse-me para a levar comigo.
– Mas não fizemos nada!
– Então, não se importará de falar com ele, pois não?
– Importo-me sim. Não quero deixar as crianças.
– Claro que não. Virão connosco… na minha carrinha.
– Não! Não posso deixar o carro aqui!
– Se o xerife der o seu consentimento, trá-la-ei de volta de manhã.
Dirigiu-se para o velho carro e olhou pela janela. Havia duas crianças a dormir lá dentro.
– Onde ia dormir? – perguntou à mulher.
– Isso não lhe diz respeito!
Abriu a porta do carro e acordou as crianças.
– Olá, crianças! A vossa mãe acedeu a deixar que passem a noite no nosso rancho. Querem?
Era uma menina pequena, de cerca de oito ou nove anos, e um menino de cinco.
Então, procuraram a sua mãe e Brad percebeu que não se apresentara.
– Lamento muito. Não vos disse quem sou. O meu nome é Brad. Levaremos a minha carrinha para o rancho. Está bem?
– Esta é a sua carrinha? – perguntou-lhe o menino, olhando pela janela.
– Sim. Gostas de carrinhas?
– Sim. Posso andar na sua?
– Claro. Pergunta à tua mãe.
– Mas não está cá.
– Não é a tua mãe? – perguntou, olhando para a jovem.
– Não.
– Bom, rapaz, porque não vens dar um passeio comigo? – perguntou-lhe. – Ela virá connosco.
– Vens, Sarah?
– Sim, eu seguir-te-ei, Davy. Não vou deixar-te para trás.
A menina saiu do carro e foi ao encontro de Sarah.
– Sarah, não acho que devamos deixar que Davy vá com ele. Não o conhecemos.
– Não faz mal, Anna. Vamos atrás – dirigiu-se para Brad. – Não se atreva a afastar-me de Davy.
– Não o farei, desde que me siga.
Afastou-se de Brad e deu um abraço ao rapaz. Então, entrou no carro com a menina e arrancou.
Brad ajudou o menino a sentar-se e pôs-lhe o cinto de segurança.
– Davy, fico contente por vires comigo. Eu não gosto de ir sozinho.
– Eu também não.
– Muito bem. Estaremos em casa dentro de vinte minutos.
Um momento mais tarde, olhou pelo espelho retrovisor e percebeu que a jovem não ia atrás. Mudou de sentido e encontrou o carro na berma.
– Davy, vou ver se posso ajudá-la. Fica aqui.
Quando chegou ao carro, viu que a jovem estava a chorar.
– Sente-se bem?
– Sim – respondeu, limpando as lágrimas.
– Sabe o que se passa com o carro?
– Não.
– Muito bem. Porque não entra na carrinha com Anna? Veremos o que pode fazer-se amanhã.
– Preci… Precisamos das malas.
– Onde estão?
– No porta-bagagem.
– Vou buscá-las.
Brad tirou as malas e guardou-as na carrinha.
– Anna, ajudo-te a entrar – disse à menina. Então, virou-se para Sarah, mas ela já estava sentada. – Ponham o cinto – disse, ao sentar-se à frente do volante. – Chegaremos ao rancho dentro de minutos – saiu para a estrada.
O resto da viagem decorreu em silêncio. As crianças pareciam ter adormecido, mas Sarah observava-o atentamente. Quando os seus olhares se encontravam, ela desviava o dela.
Parecia ter vinte anos. O cabelo castanho caía-lhe sobre os ombros e os seus olhos eram grandes e expressivos. Noutras circunstâncias aquele rosto devia ser bonito, mas naquele momento umas sombras escuras marcavam-se à volta dos seus olhos.
Queria perguntar-lhe de quem eram as crianças e porque estavam a seu cargo, mas decidiu esperar.
Quando chegou a casa, virou-se para ela.
– A minha cunhada está grávida de gémeos. Custa-lhe muito dormir se acordar, portanto agradeceria muito se mantivesse o silêncio.
Sarah saiu da carrinha e ajudou as crianças.
– O que estamos a fazer aqui? – perguntou-lhe. – Pensava que ia levar-me ao xerife.
Levara-a para o rancho dos Logan. O xerife, que estava casado com a sua mãe, acedera a lá ir.
– Este é o rancho da minha família. O xerife vai encontrar-se connosco aqui. Este é o seu carro.
Ao ouvir mencionar o xerife, Sarah empalideceu.
– Sente-se bem?
– Não fizemos nada de mal – replicou, olhando para ele nos olhos.
Por alguma razão, Brad sentiu o impulso de a tranquilizar. Era evidente que se preocupava com as crianças e ele sempre tinha sentido fraqueza pelas raparigas em apuros.
Fez-lhe gestos para que o seguisse.
Abriu a porta da cozinha e fê-los entrar. O xerife estava sentado à frente da velha mesa de carvalho.
– Mike, estes são Sarah, Anna e Davy.
O xerife levantou-se. Tinha cinquenta anos e o cabelo branco, mas ainda se mantinha em forma.
– Olá, sou Mike Dunleavy, o xerife do condado. Sentem-se. Apetece-lhe um café? – apontou para a bancada da cozinha. Fizera café assim que recebera a chamada de Brad.
– Não, obrigada. Mas pode dar leite às crianças?
– Claro – disse Brad. – Vou buscar.
Depois de dar dois copos de leite às crianças, Mike começou a fazer perguntas.
Primeiro, perguntou o seu nome.
– Sarah Brownly.
– Está de férias?
– Mais ou menos. Fiquei sem trabalho e… decidimos ir-nos embora.
– Estas são as vossas malas? Não têm mais pertences?
– São.
– São seus filhos?
Ela hesitou. Finalmente, abanou a cabeça.
– Onde estão os seus pais?
– Anna e Davy são os meus meios-irmãos. A nossa mãe morreu recentemente.
– Lamento muito. Deve ser muito difícil para você. Para todos.
Brad viu aparecer as lágrimas nos olhos da jovem. Se estava a mentir, devia ser muito boa actriz.
O menino, que não dissera nenhuma palavra desde a sua chegada, levantou-se da cadeira e puxou o braço de Sarah.
– Tenho sono.
Ela fê-lo sentar-se sobre os seus joelhos. Anna pôs a sua cadeira ao lado dela e recostou-se.
Brad comoveu-se ao ver a ternura com que ela as tratava e, de repente, sentiu pena deles.
– Davy, o meu sobrinho tem a mesma idade que tu e há uma cama extra no seu quarto. Gostarias de dormir nela?
Davy olhou para Sarah para lhe pedir permissão. Ela assentiu.
– Não se importa? – perguntou a Brad.
– Acho que só acordará de manhã. Vamos, mostrar-te-ei onde é.
Brad conduziu-o até ao quarto. Ao chegar à porta, Davy hesitou por um instante.
– Acho que quero voltar para ao pé de Sarah.
– Porque não te deitas? Sarah vai ficar bem.
Depois de pensar um momento, Davy deitou-se na cama. Então, olhou para Robbie.
– Ele tem mamã?
– Sim. A minha cunhada, Abby. Está a dormir noutro quarto com o seu marido, Nick. É o meu irmão mais velho. Este rancho é dele.
– A minha mamã está no Céu. O meu pai matou-a. Ele está em Denver.
Embora o menino pronunciasse aquelas palavras com toda a calma do mundo, Brad sentiu o impacto do horror. Teve de se segurar para não cair. Milhares de perguntas buliam na sua mente, mas não era o momento de as fazer. Se o que dizia era verdade, já sofrera o suficiente.
Sarah poderia responder a todas as suas perguntas.
Quando voltou à cozinha, ouviu-a suplicar a Mike para que os deixasse ir. Estava a prometer que nunca mais voltaria a acampar ao ar livre. Brad interrompeu-a.
– Davy diz que o seu pai matou a sua mãe.
Sarah ficou pálida e Brad achou que ia desmaiar.
– É verdade, Sarah?
Dessa vez não conseguiu conter as lágrimas. Anna pôs-lhe os braços à volta do pescoço e agarrou-se a ela com todas as suas forças.
– Sim – sussurrou a jovem.
– Denunciou-o? – perguntou-lhe o xerife.
– Sim. As crianças e eu tínhamos ido à mercearia. Quando entrei na cozinha, vi o meu padrasto a estrangular a minha mãe. Agarrei numa cadeira e bati-lhe na cabeça. Fi-lo afastar-se da minha mãe, mas… Não pude ajudá-la – reprimiu um soluço ao reviver a cena. – Ele estava fora de si. Eu agarrei nas crianças, meti-os no carro, pus algumas coisas nas malas e fui-me embora. Telefonei à polícia e disse-lhes que o meu padrasto tinha estrangulado a minha mãe.
– E porque fugiste?
– Porque o meu padrasto… mente. Não podia ir sem as crianças. Matar-nos-ia se soubesse onde estamos. Nunca foi um bom pai. Eu pagava todas as contas e comprava a comida. Ele bebia muito. Até fez com que a minha mãe começasse a beber – Sarah voltou a chorar. – Eu tentei fazer com que não bebesse com ele. Ele ficava muito agressivo quando bebia e ela… Ela era diferente.
– Ainda não entendo porque se foi embora. Já tinha chamado a polícia.
– Xerife, alguma vez se encontrou com pessoas que não pagam pelo que fizeram porque ninguém consegue prová-lo? Alguma vez se encontrou com alguém que conta uma história triste e leva a sua avante? Não podia arriscar-me a ficar por lá para ver o que acontecia. Ele podia dizer que amava os seus filhos e os polícias podiam acreditar.
Mike reflectiu um instante e assentiu.
– Olhe, porque não dorme aqui com as crianças? Os Logan não se importam, pois não, Brad? – olhou para o seu enteado, que assentiu. – Preciso dos nomes da sua mãe e do seu padrasto.
– Alice e Ellis Ashton.
– Vou contactar com a polícia de… Não me disse onde vivia.
– Acho que não devia dizer – disse Sarah.
– Acho que Davy me disse que viviam em Denver – disse Brad, suavemente.
– Não tem o direito de interrogar Davy! É uma criança! – gritou Sarah.
– Eu não o interroguei. Ele é que mo disse.
– Sarah, não queremos fazer-vos mal. Só queremos descobrir o que aconteceu. Acredite ou não, queremos protegê-la – declarou Mike.
Sarah acalmou-se um pouco.
– Tem documentos que a autorizem a tirar as crianças de casa?
– Se ele ficar com as crianças, não cuidará delas! Talvez até as magoe!
Ao ouvi-la levantar o tom de voz, Anna começou a chorar. Brad percebeu que era uma imprudência falar à frente da menina. Sarah pegou nela ao colo e abraçou-a com ardor.
– Por favor, xerife! Entenda! Não pude fazer nada pela minha mãe, mas não deixe que leve as crianças!
– Sarah, tem mais de vinte e um anos?
– Sim, tenho vinte e quatro – esfregou as faces, mas as lágrimas não pararam.
– Se tiver de voltar para testemunhar contra o seu padrasto, eu ajudá-la-ei a conseguir a custódia das crianças. Posso escrever para o juiz e falar a seu favor. Cuidaremos das crianças se testemunhar. Se não lhe derem a custódia eu… farei a vista grossa para que possa desaparecer. Está bem?
– Promete-me?
– Tem a minha palavra.
– Obrigada, xerife. São boas crianças.
– Estou a ver – sorriu para Anna. – Vai ficar tudo bem – disse à menina. – Não tens de chorar.
Brad agradeceu a Mike.
– Precisas de mais alguma coisa? Acho que Anna está muito cansada – perguntou Brad ao xerife.
– Não. É só isso. Telefonarei à polícia de Denver para ver se prenderam Ellis Ashton.
– Então, Sarah, se estiveres preparada, temos um quarto vazio para ti e para Anna. Queres que leve a menina?
– Não, obrigada. Eu levo-a.
Brad agarrou nas malas e levou-as pelo corredor. Abriu a porta do quarto e acendeu a luz.
– Há almofadas e mantas auxiliares no armário, no caso de terem frio durante a noite.
Disse-lhe onde era a casa de banho e onde estavam as toalhas. Sarah parecia petrificada, traumatizada. Brad não conseguia imaginar o que acontecera. Devia estar aterrorizada.
De repente, sentiu o impulso de a abraçar. Deu um passo em frente e parou.
Ela olhou para ele fixamente, com os olhos avermelhados.
– Obrigada, Brad. Muito obrigada por nos ajudar – disse, num sussurro.
Na manhã seguinte, Brad tomou um duche, barbeou-se, vestiu-se e dirigiu-se para a cozinha, onde se encontrava sempre com o seu irmão, que fazia o pequeno-almoço todas as manhãs.
– Bom dia! – exclamou a Nick, ao entrar.
– Bom dia! Voltaste tarde ontem à noite, não foi?
– Sim, mas…
Robbie entrou na cozinha de repente. Davy ia atrás dele.
– Olha, papá!
Nick olhou para o seu filho e, de repente, percebeu que Robbie não estava sozinho.
– O que…?
– Isso era o que ia dizer-te – apressou-se a dizer Brad.
– É teu? – perguntou Nick. – Há alguma coisa que queiras contar-nos, maninho?
– Não, não é meu, mas eu trouxe-o. Encontrei-o com as suas irmãs, a acampar nas terras da Junta de Freguesia.
– Isso não é permitido – disse Nick.
– Eu sei, mas… Bom, apaguei a fogueira e trouxe-os para que falassem com Mike.
Brad alegrou-se por o ter dito de uma vez. Uns passos aproximavam-se da cozinha.
Então, Sarah e Anna entraram. Brad reparou nas semelhanças. Tinham a mesma tez, os mesmos traços faciais…
– Bom dia! – cumprimentou Sarah, suavemente.
– Olá! – cumprimentou Nick. – Sou Nick Logan.
– Eu sou Sarah Brownly e esta é Anna. Este é Davy. Não queremos incomodar…
– Não é um incómodo. Sentem-se. O pequeno-almoço estará pronto em seguida – olhou para Brad. – Podes trazer os talheres e umas bebidas para os nossos convidados?
– Claro – Brad tirou os talheres e serviu três copos de leite. Pô-los na mesa e serviu uma chávena de café para Sarah. – Senta-te – acrescentou.
Brad esperava que Nick não fizesse perguntas. Queria explicar-lhe tudo a caminho do trabalho. Nick não disse nenhuma palavra até lhes servir o pequeno-almoço.
– De onde és? – perguntou-lhe, quando se sentou à mesa.
Sarah não queria dizer-lhe, mas, depois de olhar para Brad, respondeu:
– Denver.
– É uma época fora do comum para ir de férias com as crianças. Não vão perder as aulas?
Sarah olhou para Brad com olhos suplicantes.
– Explicarei depois do pequeno-almoço – disse Brad. – Come, Sarah. Nick quer limpar a cozinha antes de sair.
– Não me importo de lavar a loiça. Não sei o que… Quero dizer que esperarei até ter notícias do xerife.
Nick olhou para Brad, perguntando-se se podia confiar na jovem.
– Seria bom, Sarah, se não te importares. As crianças podem ver televisão.
– Posso ficar em casa para ver televisão? – perguntou Robbie, com impaciência.
– Não, filho. Sabes que tens de ir à escola. A mãe zangar-se-ia se ficasses em casa sem motivo.
– Oh, papá. Porque…?
– Come! – ordenou Nick.
Acabaram em minutos. Nick acompanhou Robbie à paragem do autocarro escolar. Esperava encontrar Brad no celeiro mais tarde.
Quando saíram, Brad virou-se para a rapariga, as formalidades tinham ficado para trás.
– A minha cunhada está a dormir. Podes fazer-lhe o pequeno-almoço?
– Sim. Obrigada por não dizeres nada ao teu irmão à frente das crianças.
– Não há problema – disse Brad e saiu de casa.
Já no celeiro, selou dois cavalos e esperou pelo seu irmão.
– Está bem. Qual é a história? – perguntou-lhe Nick, ao montar no cavalo.
Talvez Nick não estivesse preparado para aquilo, mas Brad não lhe poupou os detalhes.
– Bela tragédia! – exclamou Nick, abanando a cabeça.
– Eu sei. Vi-os porque vi a luz da fogueira. Parei e recuei. Apaguei a fogueira e disse-lhe que tinha de se ir embora. Era óbvio que ela pensava que podia ir-se embora sem mais nem menos. Telefonei a Mike e ele disse-me para os trazer.
– Tem sorte por a teres encontrado – disse Nick. – Teria sido pior se fossem atacados por ursos.
– Isso foi o que eu disse.
No entanto, enquanto cavalgava ao lado do seu irmão, Brad não conseguiu evitar perguntar-se se realmente salvara Sarah.
Capítulo 2
Sarah perguntou-se se o rancho seria tão seguro como os Logan e o xerife diziam. A última coisa que queria era que os seus irmãos voltassem a correr perigo. Depois de verificar que viam televisão na sala, voltou à cozinha e continuou com os afazeres. Faria muito mais em troca de uma boa cama e um pequeno-almoço. Deus sabia que não teria aguentado nem mais um dia sem descansar. Depois de fugir com as crianças, tinha conduzido quase toda a noite e estacionado numa área de descanso para espevitar. Passara a primeira noite de guarda e Brad Logan encontrara-a na madrugada do segundo dia. Nunca lhe ocorrera pensar nos ursos. Graças a Brad, as crianças tinham tido uma cama quente onde dormir, boa comida e uma casa segura. O que mais podia pedir? Suspirando, Sarah percebeu que estava em dívida para com aquela família. E pensar que se zangara com Brad quando a surpreendera no seu acampamento improvisado… O aborrecimento que vira nos seus olhos não demorara a transformar-se em preocupação e compaixão. Mas ela não queria a sua compaixão, mas a sua simpatia. E o cowboy atraente oferecera-lha.
Depois de varrer a cozinha, ouviu passos pelo corredor. Seria a esposa de Nick?
Uma mulher morena e grávida entrou e parou de repente.
– Olá?
– Sou Sarah. O teu cunhado deixou-nos ficar cá ontem à noite. Preparo-te o pequeno-almoço?
– Não. Eu… Bom, está bem. Se não te importares.
– Claro que não. Ainda há café acabado de fazer.
– Não. O médico diz que não posso beber café. Beberei uma chávena de chá com leite e açúcar.
Sarah fez-lhe o pequeno-almoço, incluindo uma torrada, bacon e ovos mexidos.
– Lamento ter-te assustado antes… – replicou, depois de a servir.
Abby levantou uma mão.
– Não importa. Não esperava encontrar ninguém – agarrou no garfo. – Então, conheceste o meu marido esta manhã?
– Sim. Ele fez-nos o pequeno-almoço. Eu ofereci-me para limpar a cozinha para lhe agradecer o que tinha feito por nós.
– Isso foi muito amável da tua parte. Queres café?
– Eu gostaria de beber outra chávena. Estava a guardá-la para ti – Sarah levantou-se e serviu a última chávena de café.
– És amiga de Brad?
– Não. Nós… Tivemos de fugir do meu padrasto. Ele… matou a minha mãe há duas noites. Tinha medo de que nos matasse a todos se não saíssemos dali.
Abby não esperava ouvir uma história tão terrível. A chávena esteve prestes a cair das mãos.
– Oh, não! – exclamou, olhando para Sarah com olhos cheios de horror. – Lamento.
– Obrigada – disse Sarah, pestanejando rapidamente para não chorar.
– Falaste no plural. Com quem estás?
– Com os meus dois meios-irmãos. Estão a ver televisão na sala.
– Quantos anos têm?
– Cinco e nove.
– Já não aguentas mais, não é? – Abby pôs uma mão sobre o braço de Sarah.
Aquele gesto fez com que ela começasse a chorar, soltando assim a tensão acumulada.
– Estes biscoitos estão muito bons.
O pequeno Davy estava sentado à mesa, a comer as guloseimas que a sogra de Abby, Kate, lhes enviara. Anna também estava a desfrutar dos doces, embora não o expressasse abertamente.
Depois de desabafar, Sarah apresentara as crianças à sua agradável anfitriã. Abby gostou dos pequenos imediatamente.
– Dir-lhe-ei que gostaram dos biscoitos – disse Abby. – É uma avó óptima para Robbie.
– Tenho a certeza de que é assim. Não tem mais netos?
– Só quando nascerem os gémeos. Nick foi o único dos seus filhos que se casou – alguns minutos depois Abby olhou à sua volta. – Não sei o que fazer para o almoço.
– Diz-me de que gostas.
– Não posso pedir-te para fazeres o almoço!
– Sim, claro que podes. Não podes fazer tantas coisas a estas alturas da gravidez.
– Sim, mas… Importas-te?
– Claro que não. Diz-me o que queres. Eu faço.
Sarah estava a levantar-se quando o telefone tocou. A jovem olhou para Abby.
– Atende, por favor – disse Abby, com um sorriso.
– Rancho Logan – replicou, ao atender.
– Sarah?
– Sim.
– Sou Kate Dunleavy, a esposa de Mike.
– A avó de Robbie?
– Exactamente. Já ouviste falar de todos, não foi?
– Quer falar com Abby?
– Sim, por favor.
Sarah entregou-lhe o auscultador.
Enquanto Abby falava, Sarah deu uma olhadela no frigorífico. Estava cheio de comida.
Abby despediu-se da sua sogra e Sarah desligou o telefone por ela.
– Kate vai trazer o almoço. Só temos de fazer uma salada.
– Está bem – Sarah pôs mãos à obra. Pôs a mesa para seis, fez a salada e aqueceu ervilhas. Quando Kate chegou, estava tudo pronto.
– Tu fizeste tudo? – perguntou a mãe de Nick. – Abby, sabes que não devias tê-lo feito. Eu fá-lo-ia.
– Não fui eu. Sarah fez tudo. Não é uma querida?
– Claro que sim – dirigiu-se para a convidada e estendeu-lhe a mão em jeito de cumprimento. – Olá, Sarah! É um prazer conhecer-te.
Sarah apertou-lhe a mão com um gesto efusivo. A mulher devia ter cerca de cinquenta anos.
– Irei ver as crianças – disse Sarah e saiu da divisão.
– Mike diz que é uma boa pessoa – indicou Kate, observando-a.
– Eu também acho. Passou por coisas terríveis. Mike poderá ajudá-la?
– Sim. Acha que sim. Falará com ela depois do almoço. Não quer falar à frente das crianças.
– Oh, claro!
Sarah regressou, seguida de Anna e de Davy. A menina não se afastava da sua meia-irmã, mas Davy não parecia nervoso.
– Rapazes, esta é Kate, a senhora dos biscoitos.
– Eu adoro os seus biscoitos! – exclamou Davy, com um grande sorriso.
– Fico contente. É um prazer conhecer-te, Davy. E a ti também, Anna.
– Vá lá, crianças, sentem-se à mesa.
– Eu gosto muito de Robbie – confessou Davy, sorrindo.
– Perfeito. Talvez a ideia de Mike funcione – declarou Kate, sorrindo.
– Que ideia? – perguntou Sarah, levantando o olhar.
– Olá! Como estão todos? – perguntou Mike, entrando na cozinha.
Sarah cumprimentou-o com um gesto e sorriu.
– Estamos bem.
– Ainda bem. Estou cheio de fome. Já podemos comer?
– Tens sempre fome – disse Kate, brincando com o seu marido.
Sarah mal comeu. A dúvida e a expectativa mantinham-na sem apetite.
Finalmente, acabaram de almoçar e pôde levar as crianças para a sala. Assim que voltou para a cozinha virou-se para Mike.
– Prenderam-no? – perguntou-lhe.
– Sim, mas tu tinhas razão. Ashton disse-lhes que não sabia quem tinha matado a sua esposa. Disse que lhe deram uma pancada na cabeça, deixando-o inconsciente, e que por isso não conseguiu ajudar a sua esposa.
– Eu bem disse que ele mentiria.
– E quer saber o que se passou com as crianças.
– Não! Eu bem disse. Não podem voltar para ele.
– Só disse o que ele declarou. No entanto, a polícia fez um trabalho rigoroso. Está preso e só poderá sair se pagar os duzentos e cinquenta mil dólares de fiança. Esperam que não consiga reunir esse dinheiro.
– Está bem.
– Também querem falar contigo.
– Não! – Sarah sentiu-se como se estivesse numa montanha russa. Há um segundo, sentira um alívio profundo que não demorara a desaparecer.
– Sarah, lembras-te do que te disse? Falei com a polícia a respeito do teu desejo de assumires a custódia de Anna e de Davy. Acederam a ajudar-te se fores falar com eles.
Sarah pestanejou e olhou para as mãos, entrelaçadas sobre o seu colo.
– Não posso!
– Brad iria contigo. Vou falar com ele.
– E porque o faria?
– Porque precisas que alguém te acompanhe. Sarah, não vai ser fácil.
– Eu sei. E as crianças?
– Bom, pensei que deviam ir à escola enquanto estiverem aqui. Eu tratarei disso. Será mais difícil para Anna. Davy já tem um amigo, Robbie.
– Mas não posso deixá-las! Seria demasiado difícil para elas.
– Será muito pior se não conseguires a custódia.
– Cuidaremos delas, Sarah – disse Abby, agarrando na sua mão.
– Mas tu devias descansar.
– Se estiverem na escola o dia todo, posso descansar.
O xerife olhou para Sarah.
– Tens de te perguntar o seguinte: vale a pena testemunhar contra Ellis Ashton? Obterás a custódia e assim as crianças estarão seguras.
Ao vê-lo assim, Sarah percebeu que não tinha escolha.
– Irei – disse, respirando fundo. – Mas não é preciso incomodar Brad. Posso fazê-lo sozinha.
– Ele vai contigo. Faz parte do acordo. Nick e Abby ficarão com as crianças e Brad cuidará de ti.
– Não quero que cuide de mim! Eu posso fazê-lo sozinha.
– Porque não queres que vá?
– O único homem da minha família matou a minha mãe. Porque quereria estar perto de um homem?
– Só vai acompanhar-te para que estejas segura. Assim poderás voltar sã e salva para junto dos teus irmãos.
– Não… Não sei o que…
– Acho que devias ir na segunda-feira de manhã, depois de as crianças irem para a escola.
– No seu primeiro dia de escola? Não, isso é impossível! Anna não pode… É muito tímida.
– Não faz mal – disse Kate. – Eu levá-la-ei à escola de manhã e certificar-me-ei de que fica bem. Abby ajudará.
– De acordo. Posso dizer-lhe que irás com ela?
– Claro que sim.
Mike levantou-se e deu um beijo à sua esposa. Agradeceu a Sarah pela sua ajuda e foi-se embora.
– O que é que as crianças vestem para ir à escola? Há algum sítio onde possa comprar roupa?
– Sim. Eu levo-as. Podemos ir esta tarde, se quiseres.
– Obrigada, Kate. Acho que isso ajudará a fazer com que Anna se sinta melhor – disse Sarah, enquanto tentava encontrar uma maneira de pagar a roupa.
* * *
Nick e Brad chegaram tarde ao almoço e encontraram a casa vazia.
– Onde está Abby? – perguntou Nick.
– Não sei. Acho que nos deixaram sozinhos.
– Se se foi embora com aquela gente, eu…
– Olá, rapazes – disse Mike, ao entrar na cozinha. – As raparigas saíram?
– Sim – disse Nick, que estava um pouco zangado.
– Sabes onde estão?
– Não. Nem sequer deixaram um bilhete.
Nick não conseguia acreditar que a sua esposa se fora embora sem lhe ter dito nada.
– Ouve, posso aquecer a comida. Acho que há suficiente para os três – indicou Brad.
– Ah, esse é o guisado que Kate fez – disse Mike. – Porei a mesa.
– Como sabias do guisado? – perguntou Nick.
– Almocei com as raparigas há um momento, mas não foi suficiente – disse o xerife.
– Está bem, farei alguma coisa para beber. Apetece-vos café? Acho que vai estar muito frio a partir de hoje.
Estavam a acabar de almoçar quando Brad percebeu que Mike não costumava visitá-los àquela hora. Perguntou-lhe porquê.
– Vim falar com Sarah – explicou.
– Porquê? Passa-se alguma coisa?
– Não, não se passa nada, mas preciso de ajuda.
– Para quê? – perguntou Nick.
– Para acompanhar Sarah a Denver.
– Quem queres que vá? – perguntou Brad.
Mike olhou para ele nos olhos.
– Oh, não! Eu não. Não tens nenhum ajudante que possa fazê-lo?
– Sabes que não tenho ajudantes suficientes para abranger todo o condado. Não posso enviar um deles.
– Mas acho que ela se sentirá melhor com o ajudante do xerife.
– É por isso mesmo que vou nomear-te ajudante do xerife antes de ires – indicou Mike.
Naquela tarde, Sarah estava sentada à mesa da cozinha, a tentar encontrar sentido para a sua vida. Não teria podido estar em melhores mãos. Abby oferecera-lhe trabalho como governanta em troca de um salário generoso e alojamento para os três.
Kate tinha-os levado às compras e pagara a roupa de Anna e de Davy, mas Sarah fizera-a prometer que o descontaria do salário. Tinham comprado mais do que ela podia pagar, mas estava disposta a fazer um esforço pelas crianças, que tinham muito pouco. Elas mereciam tudo.
Durante toda a sua vida, Anna e Davy tinham sofrido os abusos do seu pai. Ela fizera com que não lhes faltasse comida, mas não era suficiente. As crianças não podiam viver assim.
A porta da cozinha abriu-se e Brad entrou na divisão.
Sarah levantou-se com um salto.
– Precisas de alguma coisa?
– Não. Só ia beber um pouco de água. À noite está um vento frio, mas esta tarde está calor. Ia buscar uma garrafa de água fresca.
– Eu vou buscar – disse Sarah.
Ele ficou de pé, à espera.
– Eh, para onde foste hoje? Não vimos ninguém quando viemos almoçar.
– Mas viste a panela de comida, não foi?
– Sim, Mike disse-nos que a mãe a tinha feito.
– Sim, trouxe-nos a comida. Mike também almoçou convosco?
– Sim, quem diria que almoça duas vezes? Por incrível que pareça, nunca engorda.
Alguns segundos depois, Sarah reuniu a coragem necessária para perguntar se Mike lhe falara da viagem a Denver.
– Sim, disse-me.
– E tu disseste que sim?
Ele olhou para ela e Sarah reparou nos brilhos de ouro que flutuavam nas suas pupilas, tão escuras como o seu cabelo. Umas linhas magras marcavam o contorno dos seus olhos, habituados à intempérie no rancho. Era um homem atraente, alguém por quem poderia perder a cabeça.
Mas não podia. Não naquele momento.
– Não preciso que vás – apressou-se a dizer. – Consigo fazê-lo sozinha.
– Precisas que alguém te acompanhe.
– Não faz sentido deixares o teu trabalho para ires comigo. Ficarei bem – virou-lhe as costas e fingiu limpar a bancada da cozinha.
– Vou contigo. Mike vai tornar-me ajudante do xerife, portanto a minha presença será oficial.
– Não há necessidade.
– Esse tal Ellis Ashton é grande?
– Porquê?
– Perguntava-me se metia medo.
– Não é tão alto como tu, mas na sua barriga cabem dois como tu.
– Hum… Suponho que conseguiria ganhar-me numa luta.
– Não acredito. É lento e… estúpido.
– Então, talvez consiga ganhar-lhe.
– Talvez, mas isso não vem ao caso. Não haverá nenhuma luta.
– Só estava a pensar.
– Bom, não penses. Diz que não a Mike.
– Porque não queres que vá contigo?
– Não te conheço! Ainda és um estranho para mim.
– Sarah, vou proteger-te.
– Eu sei cuidar de mim própria.
– Queres comparar os músculos? – perguntou-lhe Brad, com um sorriso brincalhão.
– Não digas tolices!
– Mesmo que o teu padrasto fosse fraco, precisarias que alguém fosse contigo, para te dar apoio moral, pelo menos.
– Disse a Mike que podia ir sozinha. Retém Anna e Davy como reféns! De que mais precisa para garantir que voltarei?
– Se calhar pensa que queres evadir as tuas responsabilidades e fugir.
Sarah dirigiu-se para a saída mais próxima.
– Porque foges? Estava perto da verdade?
– Como te atreves a insinuar algo do género? Nunca digas uma coisa assim a Davy e a Anna!
– Tencionas voltar?
– Sim! Não vou deixá-las abandonadas, a cargo da tua família, a menos que… A menos que não possa voltar – disse, num sussurro.
– Claro que voltarás. É por isso que vou contigo, para me certificar de que regressas.
– Se… se alguma coisa me acontecer, procurarás alguém para cuidar de Davy e de Anna? Sei que a tua família não tem espaço, mas talvez haja alguma família na zona que possa acolhê-los.
– Pára de te preocupar, Sarah. Voltarás dentro de alguns dias e as coisas continuarão na mesma.
– Abby contratou-me como governanta.
– Muito bem. Parece que tens jeito para o trabalho.
– Suponho que sim. Ofereceu-me demasiado dinheiro – disse a quantia.
– Suponho que Nick lhe disse quanto podia pagar-te. Vale a pena se Abby não tiver de se levantar tão cedo.
– Sim. Eu agradeço muito o trabalho… e também que cuide das crianças. Kate disse-me que viria depois da escola para vos fazer o almoço. Nick só terá de o aquecer no forno.
– Parece um bom plano.
Sarah deixou-se cair em frente da bancada.
– Não sei o que fazer! – exclamou, cobrindo a cara com as mãos.
– Faz o que Mike te disser. Ele é mais velho e mais sábio. Não te dará maus conselhos.
– Tu confias muito nele, não é?
– É o marido da minha mãe. Não a teríamos deixado casar-se com ele se fosse um mau homem.
– Pensas que podes controlar tudo, não é?
– A maioria das vezes, sim. A minha família vive aqui há mais de cem anos. As minhas raízes são suficientemente profundas e tenho dinheiro suficiente para poder fazê-lo.
Ela levantou-se da mesa e virou-lhe as costas.
– Sim, bom, nada a ver com a minha família.
– Porque é que a tua mãe se casou com um homem como ele? – perguntou-lhe Brad.
– A minha mãe tinha enviuvado e não tinha experiência profissional. Com uma filha adolescente…
– Ele bebia?
– Sim, mas tinha-o sob controlo. As coisas continuaram assim durante alguns anos. Mas depressa acabou por beber quatro ou cinco cervejas em vez de uma. Voltava para casa às oito ou às nove da noite e começava a gritar pelo jantar.
– Isso é muito triste. Suponho que sofreste muito.
– Não. Eu nunca sabia se voltava para casa bêbado ou se não voltava. Não vivia lá.
– Quando voltaste a casa, quantos anos tinham as crianças?
– Anna tinha seis e Davy, dois.
Na verdade, não tivera escolha. Tivera de deixar a cidade para regressar a sua casa. Não teria sido capaz de continuar com a sua vida sabendo que os seus irmãos estavam em perigo.
– Não te preocupes, Sarah. Nick e Abby cuidarão da tua pequena família.
– Mais lhes vale!
Capítulo 3
Sarah não queria que as coisas corressem mal no seu primeiro jantar e o cheiro delicioso que provinha do forno aumentou as suas esperanças. Parecia que fora capaz de combinar bem os ingredientes que encontrara na cozinha. O bolo de pêssego podia ter saído da capa de uma revista e só esperava que soubesse tão bem como aparentava. A casa estava limpa e a roupa estava lavada. A única coisa que faltava fazer era passar no exame e isso dependia dos Logan.
Quando os ouviu chegar, sentiu um nó no estômago. Nick foi o primeiro a entrar. Brad vinha atrás. Quando sentiram o cheiro dos manjares, pararam de repente.
– Quem fez a comida? – perguntou Nick. – Se foi Abby, tenho de falar com ela.
– Não foi Abby. Fui eu. Ela está a descansar. Queres que a acorde? – perguntou Sarah.
Nick relaxou a expressão e foi procurar a sua esposa.
Brad reparou na mesa posta. Então, reparou no bolo e fez um ar de aprovação.
– Queres café? – perguntou-lhe ela, afastando o olhar do seu corpo musculado.
– Também fizeste café?
– Sim, acabado de fazer.
– Sim, beberei uma chávena.
– Não sei o que queres que faça cada dia exactamente. Devia ter perguntado antes, mas se me esqueci de alguma coisa, posso fazê-la.
– Sabes mesmo cozinhar?
– Sim.
Nick entrou na cozinha, com Abby ao colo. Sentou-a numa cadeira.
– Se esses bebés continuarem a crescer, não vou conseguir pegar em ti ao colo.
Abby começou a chorar, mas Sarah não se surpreendeu. Nick ficou perplexo.
– O que se passa?
– Maninho, não podes dizer que está demasiado gorda. Está a tentar trazer gémeos ao mundo.
– Não! Claro que não! – exclamou Nick. – Estava a brincar, querida. Estás a fazê-lo muito bem!
– Claro que sim, Nick – disse Sarah e parou junto à cadeira de Abby. – E contratou-me para trabalhar como governanta durante três meses. Eu farei as tarefas do lar e ela poderá descansar.
– Consegues fazer todas essas coisas? – perguntou-lhe Nick, surpreendido.
– Se o fizer mal, diz-me.
Abriu o forno e tirou a comida. O assado estava perfeito. Levou-o para a mesa e foi chamar as crianças.
Alguns minutos mais tarde, entraram as crianças. Nick tentava fazer as pazes com a sua esposa e ela parecia gostar de ver como se desculpava.
Sarah reprimiu um sorriso ao vê-los e levou o pão e a salada para a mesa. No entanto, voltou a ficar nervosa quando os Logan começaram a comer.
Depois da primeira trinca, Brad perguntou-lhe se fora ela que cozinhara.
– Sim, claro. Não está bom?
– Pelo contrário. Está delicioso.
A comida estava a ser um sucesso, tal como ela queria. Além disso, a companhia era muito agradável. Os Logan conversaram sobre as experiências do dia e a conversa era amena e jovial.
Sarah não tinha motivos para sentir saudades do seu padrasto.
Brad alegrava-se por ver que Sarah tinha encaixado bem na casa. A julgar pelo que sabia dela, nunca teria imaginado que conseguisse adaptar-se à rotina do rancho com tanta facilidade.
Depois de ver um programa de televisão, regressou à cozinha e encontrou-a impecavelmente limpa. Até encontrou o frasco de biscoitos cheio. Enquanto esperava pelo seu irmão, serviu-se de uma chávena de café.
Pouco depois, entrou Nick.
– O que estás a comer, Brad?
– Biscoitos. Sarah está a fazer um grande trabalho, não está?
– Só saberei quando provar os biscoitos.
Sentou-se ao lado de Brad com uma chávena de café e provou um biscoito.
– Sim, acho que está a fazê-lo muito bem.
Antes de Brad conseguir responder, Sarah apareceu à porta.
– Oh, não sabia que tinham fome.
– Não devíamos – disse Nick. – O jantar estava delicioso.
– Mas se precisarem que vos faça alguma coisa, não hesitem em pedir.
– Queremos que haja sempre biscoitos! – exclamou Brad, sorrindo.
– Sim. Abby quer biscoitos e leite.
– Devia ter-te dito que gosta de comer alguma coisa antes de ir para a cama.
Sarah pôs a comida numa bandeja e foi levá-la a Abby.
– Abby está bem? – perguntou Brad ao seu irmão.
– Sim. Tem de fazer repouso até chegar o momento.
– Os gémeos não vão adiantar-se?
– Sim, mas quanto mais tempo passarem na barriga da mãe, mais saudáveis estarão.
– E é um menino e uma menina.
– Sim.
– Robbie está contente?
– Não. Está mais contente com Davy. Claro que consegue ver Davy. Agora não entende porque é que a sua mãe não passa tempo com ele.
– É compreensível.
– Suponho que sim. Sabe que poderá brincar com os bebés quando a sua mãe os tiver.
– Bom, Sarah diz que vai estar aqui durante três meses. Assim, Abby terá tempo de recuperar.
– Espero que sim. A mãe diz que demorará um pouco mais de tempo a recuperar e não quero que Abby faça nada até estar plenamente recuperada.
– Talvez tenhas de contar com Sarah durante mais tempo.
– Veremos.
Nick ofereceu outro biscoito ao seu irmão.
Na manhã da segunda-feira, Sarah serviu o pequeno-almoço sem problema algum. Para Nick, era um alívio não ter de o fazer e felicitou Sarah pelo seu bom trabalho.
A jovem agradeceu, mas estava demasiado preocupada para desfrutar das boas críticas.
– Passa-se alguma coisa, Sarah? – perguntou-lhe Brad.
– Nada, excepto o facto de ter de deixar os meus irmãos aqui com pessoas que conheço há cinco dias e de começarem a ir à escola. E eu vou ter de enfrentar o homem que estrangulou a minha mãe até à morte. À excepção disso, está tudo bem.
Naquele momento, entraram Mike e Kate. A mãe de Brad dirigiu-se para Sarah para a reconfortar.
Brad não disse mais nada. Desculpou-se e foi mudar de camisa para não chamar a atenção em Denver. Quando regressou à cozinha, Sarah olhou para ele fixamente.
– O que se passa? – perguntou-lhe ele.
– Pensava que… Quero dizer que tens bom aspecto.
– Obrigado. Estás pronta?
– Não, tenho de lavar a loiça.
– Eu faço-o enquanto te preparas.
Antes de conseguir recusar, Kate deu um passo em frente e fê-la afastar-se do lava-loiça.
– Eu faço isso, Sarah. Vai vestir-te.
Quando a jovem saiu da cozinha, Kate virou-se para Brad.
– Tens roupa suficiente, filho? Isto pode demorar quatro ou cinco dias.
– Então, suponho que devia levar mais algumas coisas. Avisa Sarah.
Kate acabou de lavar a loiça e foi falar com a jovem.
Brad agarrou no seu casaco de couro, no caso de estar frio, e acrescentou algumas camisas e dois casacos desportivos. Agarrou no fato e pendurou-o na carrinha.
Quando voltou à cozinha, Sarah estava a dizer a Anna que ia divertir-se muito na escola.
– Vai ficar bem, Sarah. Não te preocupes – Kate pôs o braço sobre os ombros de Anna. – Eu ficarei contigo o tempo que quiseres, Anna.
Sarah deu um abraço à mãe de Brad e a Nick.
– Muito obrigada, Kate.
– Estás pronta? – perguntou Brad.
A jovem virou-se e Brad viu lágrimas nos seus olhos.
– Sim, podemos ir.
– Está bem. Queres alguma coisa para beber?
Ela estava a tentar limpar as lágrimas.
– Sim, por favor.
Brad agarrou em algumas latas sem sequer lhe perguntar o que queria.
– Onde estão as tuas coisas?
– Estão… no meu quarto.
Brad foi buscar a pequena mala e levou-a até à porta. Sarah continuava ali, imóvel.
– Pronta?
Sarah olhou para as crianças pela última vez e dirigiu-se para a carrinha.
A primeira meia hora da viagem decorreu no mais absoluto silêncio. Brad não sabia se ela queria falar sobre o que ia fazer em Denver. No entanto, desabafar era sempre melhor.
– Estás preocupada por teres de falar com a polícia? – perguntou-lhe.
– Não – respondeu, em voz baixa.
– Está bem.
– Dar-me-ão a custódia das crianças?
– Mike disse-me que têm intenção de o fazer. Isso é a primeira coisa que tens de lhes perguntar. Às vezes, a polícia não faz o que promete.
– Isso não é justo!
– Eu sei. Mas Mike pensou que devia dizer-te. Talvez sejam honestos e te tratem bem, mas certifica-te de que tens tudo por escrito.
– Acredita! Fá-lo-ei!
Alguns minutos mais tarde, Brad percebeu que Sarah adormecera e pensou que era melhor assim. Não devia ter dormido bem naquela noite e trabalhara arduamente desde a sua chegada.
Talvez conseguisse relaxar um pouco depois de enfrentar o seu padrasto e conseguir a custódia das crianças. Era uma responsabilidade muito grande ocupar-se de duas crianças sem ajuda.
Voltou a olhar para ela. Sem dúvida, era linda, feminina, carinhosa…
Brad desviou o olhar para a estrada e seguiu em frente.
Quando chegaram ao hotel que a polícia recomendara, tocou-lhe no ombro com suavidade.
– Chegámos. Vou entrar para pedir dois quartos. Não queria deixar-te a dormir.
– Não tenho de entrar contigo?
– Não, eu trato de tudo.
Brad fechou a porta da carrinha e Sarah aninhou-se novamente. Não conseguia acreditar que fora capaz de dormir durante toda a viagem. No entanto, sentia-se muito melhor do que antes.
Ao ver Brad voltar, voltou a ficar nervosa e teve de respirar fundo.
– Temos dois quartos no segundo andar – entrou na carrinha e arrancou.
Estacionou perto da escada. Sarah abriu a porta e esticou o braço para agarrar na sua mala.
– Eu levo-a – disse Brad.
Mas ela não fez caso.
Franzindo o sobrolho, Brad agarrou na sua própria mala e deu a volta à carrinha até chegar até ela.
Sarah perguntou pelo número do quarto.
– Tens o 214.
– E tu?
– O 216.
Sem dizer nenhuma palavra, Sarah subiu as escadas e, ao chegar ao 214, esperou por ele para que lhe abrisse a porta.
Depois de abrir, Brad entregou-lhe a chave e foi para o seu próprio quarto, mesmo ao lado.
Sarah acabara de deixar as malas no chão quando ouviu que batiam à porta. De repente, percebeu que o som provinha de uma porta interior que ligava os dois quartos.
Era Brad. Tinha o telemóvel na mão.
– Ia telefonar para casa e pensei que quererias falar com Abby.
Sarah assentiu. Ele marcou os números e esperou que atendessem.
– Sim? Olá, Abby! Como estão? Sim, vou passar – disse, depois de um momento.
Deu o telefone a Sarah.
– Abby? Sou eu, Sarah.
– Queria dizer-te o que Kate me disse sobre Anna. Regressou por volta das dez, porque Anna se sentia muito bem. O professor foi muito amável com ela e apresentou-a a outro estudante para que tivesse alguém com quem falar durante o almoço e no autocarro.
– Oh, Abby, isso é óptimo! Estava preocupada com Anna. Não se adapta muito facilmente.
– Sabia que estavas preocupada, mas as crianças estão muito bem. Telefona-me esta noite e deixá-las-ei falar contigo.
– Tens a certeza? Não quero incomodar.
– Será bom para as crianças. Quererão falar contigo.
– Obrigada, Abby. Estás em repouso?
– Sim, Kate fez-me o pequeno-almoço. Fez o almoço e pô-lo no frigorífico. Acabei de comer. Tenho fome a todas as horas.
– Se é assim, é porque as crianças precisam.
– Obrigada, Sarah. Tu sabes sempre o que dizer.
– De nada. E cuida de ti.
Sarah entregou o telefone a Brad e ele desligou alguns segundos depois. No entanto, continuou de pé na soleira.
– Não almoçámos – recordou-lhe. – Não tens fome?
– Posso esperar.
– Não. Não vou almoçar sozinho. Dar-te-ei cinco minutos. Depois voltarei a chamar-te.
Sarah sabia que Brad estava habituado a ter o controlo, mas ela não estava disposta a deixar que a controlasse.
Quando voltou a abrir-lhe a porta, sorriu.
– Estou pronta.
Foram ao restaurante mais próximo, que fora recomendado pelo empregado do hotel.
– Na verdade, Mike disse-me para pagar tudo. Acha que a polícia cobrirá os gastos.
– Tens a certeza?
– Foi o que Mike disse.
– Mas, pelo sim pelo não, não devias gastar muito. Talvez não paguem tudo.
– Gasta à vontade, Sarah. Mike ocupar-se-á disso.
– Mas ele está a tentar ajudar-me. Não posso…
– Queres que telefone e lhe pergunte? – perguntou-lhe Brad, tirando o telefone.
– Não! Não quero que lhe telefones.
– Então, tens de comer como Deus manda. Tens de estar forte para testemunhar.
– Vou ter de testemunhar? Eu pensava que só falaria com a polícia para lhes contar o que sei.
– Pensava que Mike te tinha preparado.
– Para não testemunhar.
– Falarás com a polícia e, então, testemunharás numa audiência prévia em que se decidirá se o teu padrasto deve ser processado.
– E depois acabará tudo?
– Se o submeterem a julgamento, terás de voltar a testemunhar.
Brad abriu a porta do restaurante e Sarah entrou.
Uma bonita empregada de mesa foi ao seu encontro.
– Quantos são?
– Dois.
– Por aqui, por favor – disse a jovem, sorrindo para Brad.
– Estava a seduzir-te – disse Sarah, quando se sentaram.
– Eu sei – Brad esboçou um sorriso que iluminou os brilhos dourados do seu olhar. – Mas não te preocupes. Sou todo teu até voltarmos para casa.
Capítulo 4
Em vez de responder à brincadeira, Sarah ficou em silêncio. Nenhum dos dois falou durante o almoço e ela acabou primeiro.
Ele olhou para a comida que restava no seu prato.
– Não queres mais?
– Não, obrigada.
– Estás a reservar-te para um jantar suculento esta noite?
– Não.
– Estava a pensar que, como não temos nada para fazer esta noite…
– Claro, convida-a para sair – disse Sarah, interrompendo-o.
– Quem?
– A empregada de mesa. É evidente que está interessada.
– Mas eu não. Como estava a dizer, talvez pudéssemos ir ao cinema esta noite. Não há cinema em Sydney Creek. O que te parece?
Ela olhou para ele com um ar de estupefacção.
– Há algum filme que queiras ver?
– Não sei quais são as hipóteses.
– Não costumavas ir muito ao cinema?
– Não. Eu nunca ia ao cinema. Era demasiado caro para irmos os três.
– Nunca fazias coisas sozinha?
– Não depois de voltar a casa.
– Vou buscar o jornal, para ver o que está em cartaz.
Quando voltou à mesa, abriu o jornal na secção dos anúncios.
– O que te apetece ver?
– Um com final feliz.
Brad encontrou uma comédia romântica que tinha muito boas críticas.
– Como este? Achas que gostarás?
– Suponho que sim, mas não tens de me entreter, Brad. Isso seria pedir demasiado.
– E se nos entretivermos mutuamente com um filme? – esboçou um sorriso reconfortante.
Então, perguntou à empregada de mesa onde era o cinema mais próximo e foi pagar a conta. Era evidente que Sarah se sentia incomodada.
– Voltemos para o quarto para descansar um pouco – sugeriu Brad, depois de fazer planos. – Temos meia hora se quisermos chegar a tempo à sessão das cinco.
Sarah concordou. Brad não sabia se desejava fazer a sesta ou se realmente queria fugir dele.
Uma vez só no seu quarto, Sarah recordou a última vez que fora ao cinema. Tinham passado três anos e tinha muita vontade de ir. Com Brad.
Já dentro da carrinha, ela desejou poder ver o rosto de Brad, mas a escuridão da noite envolvia tudo em sombras.
Sarah obrigou-se a recordar que Brad só a levava ao cinema por obrigação, mas isso não diminuiu a sua alegria. Durante o tempo que estivera em casa da sua mãe não tivera muitas oportunidades de sair.
Sarah ficou em silêncio durante o caminho. O trânsito de Denver era denso àquela hora. Quando ele estacionou, ela respirou fundo, aliviada.
– Receava chegar atrasada.
– Não, temos muito tempo. Podemos ir comprar pipocas e bebidas antes de começar o filme.
– Pipocas? Bebidas? Mas não vamos jantar depois?
– Claro. Mas tens de comer pipocas quando vais ao cinema.
Sarah olhou para ele fixamente.
– Vá lá, rapariga, não queremos chegar atrasados – disse, saindo da carrinha.
Sarah também saiu e, naquele momento, ele agarrou-a pela mão e puxou-a em direcção à entrada.
Só a soltou quando teve de tirar o dinheiro para comprar os bilhetes, mas, quando o fez, Sarah sentiu saudades do toque dos seus dedos.
Brad comprou um pacote enorme de pipocas e dois refrigerantes médios. Ela ajudou-o com o pacote e entraram na sala juntos. Tal como Brad dissera, ainda nem sequer tinham começado os anúncios. Exactamente quando se sentaram, apagaram as luzes.
– Queres segurar as pipocas ou faço-o eu? – perguntou Brad. – Segura tu. Assim podes comer mais facilmente – disse, antes de ela conseguir responder.
Sarah olhou à sua volta. Estava junto de um cowboy atraente, às escuras numa sala de cinema. Nunca teria imaginado que se encontraria numa situação assim.
– Hum, as pipocas estão boas – sussurrou ele.
Ela tirou algumas. Estavam quentes e tinham muita manteiga. De repente, percebeu que estava a divertir-se, apesar das circunstâncias.
Quando chegaram ao restaurante para jantar, Brad comportava-se como se tudo aquilo fosse normal.
– Gostaste do filme?
– Sim. Era engraçado.
– Sim. Eu também gostei. Uma boa escolha.
– Gostaste do miúdo?
– Sim, ficou histérico. Sobretudo, quando o leão o perseguiu.
– Devia ser um leão treinado.
– Claro. Caso contrário, ninguém quereria filmá-lo.
– Eu não me atreveria, mesmo que fosse treinado.
– E se Anna e Davy estivessem em perigo?
– Bom, nesse caso, claro que sim. Qualquer um tentaria salvá-los!
– Era o que eu pensava – Brad riu-se.
– Não sou uma temerária, mas encontraria alguma forma de salvar as crianças.
– Claro que sim… Come.
– Os hambúrgueres estão bons.
Brad concordou.
– Se calhar devíamos ter ido comer uns bons bifes a outro sítio.
Ela abanou a cabeça.
– Eu gosto deste lugar.
Alguns minutos depois, Brad ofereceu-lhe uma sobremesa.
Sarah arqueou as sobrancelhas face à sugestão.
– Não, acho que não. Se tu quiseres, come, mas eu estou cheia.
– Têm brownie de chocolate com gelado. Podemos partilhar.
O empregado de mesa sorriu.
– Muita gente pede para partilhar. Posso trazer duas colheres.
– Muito bem.
Quando o empregado de mesa se foi embora, Sarah inclinou-se para Brad.
– Não acho que consiga comê-lo, Brad. A sério, estou cheia.
– Mas podes comer um bocadinho, não é? Abby disse-me para telefonar esta noite, mas devíamos telefonar agora, antes de as crianças irem para a cama – tirou o telemóvel e marcou o número. Depois de falar durante alguns minutos, passou o telefone a Sarah.
A jovem sentiu um grande alívio quando Anna lhe disse que se tinha divertido na escola. Davy não tinha muito para dizer porque Robbie e ele estavam a jogar um videojogo. Abby garantiu-lhe que estava tudo bem e Sarah não conseguiu evitar sorrir quando desligou o telemóvel.
– Está tudo bem, não está? – perguntou-lhe Brad.
– Sim. Quero agradecer-te, Brad. Portaste-te muito bem comigo. Sei que terias preferido partilhar a noite com a empregada de mesa, mas agradeço-te por a teres passado comigo.
– Não é um sacrifício, Sarah, acredita. Diverti-me muito esta noite – deu-lhe uma colher quando chegou a sobremesa. – Vá lá, prova um pouco. Não consigo comer tudo.
Distraída, Sarah provou um pouco. Tinha a mente no que Brad dissera.
– Não acho. Oh, está muito bom.
– Come-o todo. Estás muito magra.
– Magra? Não acho. Achas?
– Rapariga, podias engordar uns cinco quilos e continuarias a ser linda – declarou, rindo-se.
– Cinco? Não poderia fazer isso.
– Está bem. Dois quilos.
Ela comeu mais duas colheradas e pôs de parte a colher.
– Come um pouco mais, por Davy. Sabes que adora esta sobremesa.
– Sim. Acho que não se sente afectado com esta situação. Anna está mais preocupada.
– Sei que sentem a falta da sua mãe.
– Suponho que sim. Ela… tinha mudado muito. Quando Ellis a meteu na bebida, tornou-se uma pessoa totalmente diferente. Tornou-se irascível e agressiva, negligente e apática.
– Sei que estás a fazer o correcto.
– Tento. Graças a ti e à tua família.
Quando acabaram a sobremesa, regressaram ao hotel e ele acompanhou-a ao seu quarto.
– Serás capaz de dormir esta noite?
– Sim – disse ela, sem saber se seria capaz.
Visões de um cowboy atraente e simpático dançavam na sua cabeça.
Brad tinha muitas coisas em que pensar. Se se tratasse de um encontro convencional, ter-lhe-ia dado um beijo de despedida. E quisera fazê-lo.
Mas o seu irmão e Mike tinham-lhe dito para ir devagar com Sarah. Ela tinha sofrido muito.
Divertira-se muito naquela noite. Ela era encantadora quando relaxava um pouco.
Deitou-se na cama e perguntou-se se ela já se teria deitado. Devia estar cansada. Tinha de enfrentar a polícia no dia seguinte, mas ele estava ali para lhe dar todo o seu apoio. Estava ali para isso.
Brad levantou-se bem cedo de manhã, como de costume. Hesitou um pouco antes de bater à porta de Sarah e decidiu esperar até às sete e meia. Ver televisão era uma perda de tempo, mas queria que ela descansasse tanto quanto fosse possível.
Quando finalmente bateu, a porta abriu-se quase imediatamente.
– Estás pronta para tomar o pequeno-almoço?
– Sim, tenho fome.
– Linda menina! Vamos.
Ele conduziu-a ao restaurante onde tinham almoçado no dia anterior.
Tomaram o pequeno-almoço sem falar. Brad não queria interrompê-la enquanto se alimentava.
– Tens ideia do que querem? – perguntou-lhe Brad, ao entrar na carrinha.
– Só posso dizer a verdade. Espero que isso seja suficiente.
– Boa resposta.
Quando chegaram à esquadra, Brad perguntou pelo capitão John Lazerick. A recepcionista disse-lhe onde o encontrar e dirigiram-se para lá.
– Capitão Lazerick? Sou Brad Logan, ajudante do xerife Mike Dunleavy de Sydney Creek. Esta é a menina Sarah Brownly. Ela presenciou o assassinato da sua mãe às mãos do seu padrasto.
O homem apertou a mão a Brad e depois a Sarah.
– Obrigado por vir, menina Brownly. Queremos prender este homem para sempre.
– Eu também.
– Óptimo! Venha por aqui – virou-se para Brad. – Demoraremos algumas horas, no caso de querer…
– Vou com ela.
O capitão olhou para Sarah e assentiu.
– Está bem. Venham por aqui.
Sarah prestou declarações durante duas horas e respondeu a todas as perguntas do capitão, contando o que tinha visto naquela noite depois de regressar da mercearia. Também lhe contou como fora difícil viver com o seu padrasto, que costumava ameaçar a sua mãe e as crianças.
Quando acabou, o polícia pediu-lhe que se submetesse ao teste do polígrafo. Ao ouvir o pedido, Brad deu um passo em frente.
– Porquê?
– Só queremos ter a certeza. Está demasiado calma. Demasiado.
Brad aproximou-se de Sarah.
– Queres fazê-lo?
– Sim, obrigada, Brad. Eu… Eu agradeço que me ajudes.
– Faz o que me disseste. Diz a verdade e estarás a salvo.
– Fá-lo-ei – disse ela, com um sorriso firme.
Fizeram-na entrar numa sala com uma janela e um aparelho detector de mentiras. Brad juntou-se aos outros polícias, que a observavam de fora.
Estava orgulhoso dela. Aquilo não era fácil, mas enfrentara-o com muita calma.
Passou o teste e Brad esperou por ela à saída.
– Bom trabalho, querida – deu-lhe um abraço e ela escondeu o rosto sobre o seu peito.
– Obrigada, Brad.
– Bom trabalho, menina Brownly. Mas terá de testemunhar em frente do seu padrasto no julgamento. Será capaz?
– Sim, fá-lo-ei. Matou a minha mãe e quero que pague por isso.
– Nós também. Vá comer alguma coisa. Quando voltar, os advogados quererão falar consigo.
Brad agarrou-a pelo braço e conduziu-a ao exterior.
– Vamos, encontrei uma churrasqueira óptima.
– Preciso de uma pausa – sussurrou ela.
– Eu sei. Não sei como esses tipos conseguem fazer este trabalho. É demasiado para mim – entraram na carrinha. – Acho que prefiro as vacas aos assassinos.
– Eu também e nem sequer gosto de vacas!
Ele inclinou-se sobre ela e deu-lhe um beijo na face.
– Eu apresentar-te-ei algumas quando voltarmos a casa. Adorarás!
– Está bem, embora não saiba onde viveremos quando tudo isto acabar.
Almoçaram num pequeno restaurante e conversaram animadamente enquanto comiam.
– Este churrasco está delicioso. Até os legumes estão bons – disse Sarah, enquanto limpava as mãos no guardanapo.
– Sim, mas a vitela é o melhor.
– Falou o cowboy! – exclamou Sarah, na brincadeira.
Ele desatou a rir-se. Alegrava-se por a ver tão contente.
– Exactamente. Fui cowboy toda a vida.
– Fala-me de ti.
– Não há muito para contar. O meu pai e a minha mãe criaram os seis no rancho Logan. O meu pai levava-me a montar a cavalo com ele quando tinha três anos. Então, Nick comprou o seu próprio pónei. Fomos os dois criados para ser agricultores. Os outros procuraram uma vida diferente, mas eu não.
– E o que é que as vacas têm de fascinante?
– Bom, há muitas coisas interessantes. Não só temos de criar vacas, mas também temos de saber de cavalos. Temos de saber da criação de vacas e de compra e venda. Também temos de cuidar da terra para que produza bons pastos. Também é bom saber do tempo e do clima. E precisamos de um bom cozinheiro para podermos fazer o trabalho.
– Ah! Finalmente, entram em jogo as minhas habilidades.
– São muito importantes também. Os cowboys têm de estar bem alimentados.
– Mas parece um trabalho árduo. Nunca te cansas?
– Algumas vezes, quando está mau tempo, fico muito contente por voltar a casa, mas eu gosto do meu trabalho.
– Acho que isso é importante.
– Que tipo de trabalho tinhas?
– Era bom, mas não era interessante. Despediram-me devido à crise económica. Era assistente de relações públicas.
– Para quem?
– Para uma companhia de seguros.
Sarah riu-se ao ver que Brad olhava para o tecto.
– Eu disse que não era interessante, mas eu gostava.
– Vejamos, como governanta tratas das crianças, cozinhas, lavas a roupa e limpas a casa. Sentes-te confortável com tantas responsabilidades?
– Sim, já as tinha antes, para além de trabalhar.
– E a tua mãe não ajudava?
– Costumava fazê-lo, mas depois de ter Davy começou a beber com o meu padrasto. Nessa época não fazia nada em casa.
– Deves ter sofrido muito.
– É por isso que tenho jeito para cuidar da casa. Sei fazer todas essas coisas.
– Sim. Mas se um dia não conseguires aguentar, diz-me.
– Ficarei bem.
– Acho que vão precisar de ti durante mais do que três meses. Há algum problema?
– Não. Quero que as crianças continuem a ir à escola enquanto puderem.
– Seria óptimo. Acho que Abby vai continuar a precisar de ajuda depois de três meses. A recuperação depois de um parto de gémeos é difícil, segundo a minha mãe.
– A tua mãe teve gémeos?
– Não, mas teve seis filhos. Acho que isso será tão árduo como ter gémeos.
– Se calhar é mais difícil. Fala-me da tua família.
– Bom, há Julie, a única rapariga. Vive em Cheyenne. Charlie está na universidade. Matt e Jason vivem em casa com a minha mãe e Mike. Ainda vão à escola – abanou a cabeça e sorriu. – Não posso acreditar que a minha mãe ainda tenha dois adolescentes com ela. E um novo marido.
– Há quanto tempo se casou com Mike?
– Há um ano. A minha mãe e ele construíram uma casa nas terras do rancho para poderem estar perto. Queria que Nick e Abby tivessem privacidade, mas também queria que continuássemos a ocupar-nos do rancho. Levou os pequenos com ela. E… – esboçou um sorriso. – Suspeito que também queria ter um pouco de privacidade.
– Kate é fabulosa. Está sempre disposta a ajudar.
– Sim, é muito boa. Quando Abby regressou com Robbie, foi a minha mãe quem insistiu que ficasse na casa. Nick estava noivo de uma rapariga insuportável. Não sei em que estava a pensar!
– E qual era o problema?
– Para começar, era muito altiva e achava que era melhor do que nós. Era professora numa escola, mas não ajudava Nick com as tarefas da casa. Uma vez, cozinhou e usou todos os tachos da cozinha. Além disso, não fez suficiente para todos.
– E quem limpava?
– Nick. Tornou-se um perito!
– Deve ter sido difícil.
– Sim. Acabou o noivado e casou-se com Abby. Não podia ter escolhido melhor. Casou-se com uma rapariga óptima, inteligente e trabalhadora.
– É uma história muito bonita, Brad. E tu? Não tencionas casar-te?
– Acho que não quero comprometer-me com uma mulher que não me respeita. Mas, sim. Quero casar-me e ter filhos. Sobretudo, se forem como Robbie.
Brad não conseguiu ignorar a imagem inesperada que cruzou os seus pensamentos: Sarah e ele, juntos para sempre…
Capítulo 5
Depois de falar com os advogados, Sarah estava muito cansada. Quando saiu da divisão com o advogado sentiu um desejo repentino de se atirar para os braços de Brad.
Ele estava à espera dela. Tinha passado o tempo numa sala contígua.
Como se conseguisse ler-lhe a mente, aproximou-se dela por trás e rodeou-a com os braços.
– Bom trabalho.
– Estou cheia de vontade de sair daqui – sussurrou ela.
– Vamos. Eu também.
Entraram no carro e dirigiram-se para um bairro chamado Golden. Brad conduziu a carrinha por um caminho íngreme que levava ao alto de uma elevação da qual se avistava toda a cidade.
– Porque estamos aqui?
– Pensei que gostarias de ver Denver de longe. Observar uma bonita vista da cidade.
– É uma vista linda.
– Buffalo Bill está enterrado aqui.
– A sério?
– Sim. Vamos. Mostrar-te-ei.
Saíram da carrinha e foram para a sepultura.
– Também há um museu. Se quiseres, podemos lá ir. Mas acho que o mais interessante é a vista.
– Oh, sim. É. Podemos sentar-nos um pouco?
– Claro – ele conduziu-a a um banco do parque e sentou-se ao seu lado.
– Como sabias que era disto que precisava?
– Pensei que estavam a incomodar-te demasiado. Então, lembrei-te deste sítio. Viemos aqui de férias num Verão. O meu pai não queria passar muito tempo longe do rancho, portanto este era o lugar perfeito. É aprazível e muito tranquilo.
– Sim – a tensão que Sarah acumulava no corpo começava a dissipar-se.
– O que vamos fazer amanhã? – perguntou ela, pouco depois.
– Bom, pensei em ir visitar a Casa da Moeda.
– Oh! É interessante?
– É claro que sim. Gasto tanto dinheiro que quero certificar-me de que estão a imprimir o suficiente.
Ela desatou a rir-se.
– Oh, sim, é claro!
– Todo esse dinheiro manterá a tua mente ocupada e não pensarás em quinta-feira.
– Provavelmente, tens razão.
– Depois, podemos ir almoçar e, mais tarde, podemos regressar aqui ou ir a qualquer outro sítio.
– Parece-me muito bem.
– Foi difícil?
– Não, na verdade, não. Mas queriam que repetisse o mesmo testemunho muitas vezes. Cansei-me de dizer o mesmo tantas vezes.
– Acho que os surpreendeste. Mostraste-te muito forte e firme.
– Sim. Acho que o devo à minha mãe. Não pude salvá-la, mas vou certificar-me de que o prendem para sempre.
– Alegras-te por a primeira audiência para o assunto da custódia ser na quinta-feira à tarde?
– Sim. Quero poder dizer a Anna e a Davy que ficarão comigo. Isso tranquilizá-los-á muito.
– Com certeza que sim. Nem consigo imaginar como se sentirão pensando que têm de voltar para o seu pai. Até eu me assustaria.
– A pobre Anna ficaria louca. Davy… Bom, agora Davy não tem muitas preocupações. Mas acho que as teria mais tarde.
Sarah suspirou e desejou que isso nunca acontecesse.
– Podemos ir, se quiseres.
– Não tenho pressa. Além disso, aqui está mais fresco.
– Sim. Está-se muito bem. Acho que eu gosto mais do frio do que do calor.
– Então, Wyoming é o sítio ideal para ti, porque é mais frio.
– E isso não dificulta o teu trabalho? – perguntou ela.
– Talvez um pouco.
– Não há tempestades de neve?
– Às vezes. Tudo fecha até acabar a tempestade. E, então, voltamos à normalidade.
– E como sobrevives numa situação assim?
– Já aprendi a lição. Mas tu… Bom, terás de trabalhar arduamente porque comeremos em casa a todas as horas.
– Acho que será divertido.
– Eu gosto de raparigas como tu, Sarah – replicou ele, com um sorriso.
Sarah perguntou-se se falava a sério.
Brad insistiu em ir jantar a uma churrasqueira naquela noite.
– Tens a certeza que não estás a abusar no orçamento?
– Temos um orçamento?
– Brad, temos de ser responsáveis. Talvez não nos paguem o jantar numa churrasqueira.
– Eu acho que sim. Tu és a testemunha principal, Sarah. Sem ti, o teu padrasto teria levado a sua avante e eles não querem isso.
– Eu também não.
– Eu sei. Queres um aperitivo?
– Não, acho que a costeleta será suficiente.
– Aposto que fazes um orçamento para o mês.
– Se não o fizesse, não chegaríamos ao fim de mês.
– Mas não precisas de um orçamento para os próximos meses.
– E porquê? E se gastar muito e não puderem dar-me mais trabalho? Isso não seria muito inteligente.
– Nick vai adorar ter-te como governanta.
– Abby não tem um orçamento?
– A verdade é que não. Acho que não gosta muito disso. Quando era mãe solteira, odiava ter um orçamento. Não tinha outro remédio senão fazê-lo, mas odiava.
– Entendo como se sentia, mas receio que sejam necessários.
Quando o empregado de mesa lhes levou os bifes, comeram em silêncio durante alguns minutos.
– Tenho mesmo um orçamento? – perguntou Sarah, um instante depois.
– Sim, mas é um orçamento muito generoso. Nick não queria que Abby se preocupasse e eu também não quero que tu te preocupes, portanto relaxa. Fá-lo-ás muito bem.
Sarah ficou vermelha, mas Brad continuou a comportar-se como se não reparasse no seu desconforto.
– Estava a pensar que…
– Sim?
– O teu padrasto sabe que vais testemunhar?
– Suponho que os advogados de acusação revelaram o meu nome à defesa.
– Suponho que tinham de o fazer. Mas se isso é verdade, porque não se declarou culpado? Como espera ganhar se testemunhares contra ele?
– Não sei.
– Não acho que espere compaixão.
– Eu não a terei, certamente.
– Se calhar viram uma fotografia tua e pensaram que não serias capaz de testemunhar à frente dele.
– Se calhar pensam que não regressarei para o julgamento.
– Mas tu vais provar-lhes o contrário, não é assim?
– Sim. Tenho de o fazer pela minha mãe. E por Anna e Davy.
– Eu sei.
A caminho da carrinha, depois de almoço, Brad deu-lhe a mão.
– Apetece-me voltar à montanha – disse Sarah.
– Podemos fazê-lo.
– Não, não queria dizer… Não temos de o fazer.
Brad levou a mão da jovem aos lábios e beijou-a na palma.
– Também me apetece escalar montanhas.
– Brad, a sério, estava a brincar.
– Mentira – replicou, sorrindo.
Ela não respondeu. Ele abriu a porta do carro e depois sentou-se ao volante.
– Acho que devíamos voltar para o hotel e descansar toda a noite – sugeriu ela.
– Vais deitar-te às oito da noite?
– Bom, tenho de… me preparar para ir para a cama.
– Boa tentativa. Mas só temos de estar despachados às nove e meia. A audiência só começa às dez.
– Oh…
Ficaram em silêncio durante uns dez minutos.
– A sério, Brad, acho que devíamos voltar para o hotel.
– Hoje dão o teu programa favorito na televisão?
– Não.
– Oh, pensei que talvez quisesses ir ver a série Donas de Casa Desesperadas.
– Hoje não há.
– Ah! Essa é uma das tuas séries favoritas.
– Não.
– E então como sabias que hoje não há?
– A minha mãe costumava vê-la.
– Lamento – disse Brad.
– Não importa. A sério. Não posso fingir que nunca existiu. Prefiro recordar as coisas boas.
Brad disse que entendia. Alguns segundos depois, seguiu o desvio que levava a Golden.
– Brad, fazes-me sentir culpada.
– Porquê?
– Porque vais levar-me à montanha.
– Sim, mas eu também quero ir.
Quando estacionou a carrinha, Brad foi abrir-lhe a porta e ajudou-a a sair.
Foram para o mesmo banco de antes. Uma vez sentados, Sarah tentou afastar a mão, mas ele não a largou. Alguns minutos depois, voltou a levar a sua mão aos lábios.
– O que estás a fazer? – sussurrou ela.
– Estou a beijar-te a mão.
– Porquê?
– Porque gosto. Porque gosto do toque da tua mão – voltou a beijá-la. – Porque acho que és muito doce e inteligente. E porque acho que és forte para os teus irmãos e porque quero ser forte para ti.
Voltou a beijá-la na palma da mão e, depois, no pulso.
O coração de Sarah acelerou. Se um simples beijo inocente na mão conseguia causar aquela reacção, o que sentiria se Brad Logan lhe desse um beijo de amor?
* * *
Brad já não conseguia aguentar mais, mas não sabia se era o momento adequado para a beijar a sério. Comportara-se como um cavalheiro durante toda a viagem. Até a levara de volta ao hotel às dez da noite, sabendo que precisava de descansar. No entanto, quando a levara para o seu quarto, não conseguira conter-se mais e deu-lhe um beijo nos lábios.
Fora apenas um pequeno toque, mas tinha medo de que a tivesse incomodado.
Ainda se lembrava da primeira vez que a vira. Então, pensara que era uma mãe irresponsável que arriscava a vida dos seus filhos sem motivo, mas, depois de descobrir a verdadeira história, ficara do seu lado.
Ao sair de Sydney Creek para a acompanhar a Denver, já sabia que sentia alguma coisa por ela, mas Mike e Nick tinham-no avisado de que era melhor não a seduzir.
E ele fizera-lhes caso. Fora honesto. E dera-lhe todo o seu apoio.
Oxalá estivesse a ajudá-la a sério… Pensar o contrário fazia-o sentir-se muito mal.
Eram oito e meia da manhã quando bateu à porta de Sarah. Ela abriu-a imediatamente.
– Sim, tenho muita fome – disse ela, sem o deixar falar.
– Bom dia! Portanto, tens fome?
– Imensa.
– Sim, menina. Venha por aqui – Brad sorriu.
Todas as manhãs parecia mais relaxada. Talvez ela decidisse bater à sua porta no dia seguinte.
Pediram ovos com bacon e Brad observou-a a comer com entusiasmo. Ela levantou o olhar e arqueou as sobrancelhas.
– O que se passa?
– Nada. Gosto de te ver comer.
– Como tal como tu.
– Não. Comes delicadamente.
– Estás a pôr-me nervosa.
– Lamento muito. Eu gosto de olhar para ti.
– Brad! Porta-te bem!
– Vais dizer a Nick?
– E porque devia dizer-lhe?
– Não sei.
Sarah olhou para ele, desconfiada, e continuou a tomar o pequeno-almoço.
– Estás pronta ou precisas de voltar ao quarto?
– Estou pronta.
– Vão voltar amanhã? – perguntou a empregada de mesa ao aceitar o dinheiro de Brad. – Não costumamos ter recém-casados!
Sarah ficou vermelha.
– Sim, voltaremos amanhã.
Brad agarrou-a pela mão e saíram do café.
– Porque não disseste nada?
– Porque a empregada de mesa não queria dizer nada. Só queria ser amável.
– Mas não temos aliança!
– Não te preocupes, Sarah. Não conhecem toda a gente em Sydney Creek.
Ela ficou em silêncio. Brad abriu-lhe a porta da carrinha.
– Vamos. Não queremos perder o passeio.
A viagem na carrinha decorreu em silêncio.
Pouco depois, chegaram à Casa da Moeda para a sua visita turística e saíram duas horas mais tarde. Brad fez uma brincadeira sobre a quantidade de dinheiro que tinham visto.
– É impressionante, não é? É incrível que seja tão difícil consegui-lo quando há tanto lá dentro – disse ela.
– Nós é que damos muito valor ao papel-moeda. Afinal de contas, é só papel.
Sarah suspirou e assentiu.
– E agora o que queres fazer?
– Adivinha.
– A montanha?
– Sim, faz com que os meus problemas pareçam mais pequenos.
Todos os benefícios que a montanha dava a Sarah desapareceram na manhã seguinte. Brad conseguia vê-lo na sua cara e na sua posição rígida.
Saber que tinha de testemunhar contra o seu padrasto no tribunal estava a devastá-la. Sarah já tinha passado por muito e não queria vê-la sofrer novamente. Com um pouco de sorte, só teria de o enfrentar mais duas vezes: na audiência para a custódia e no julgamento, onde o seu testemunho o poria atrás das grades para sempre.
Ao entrar no tribunal, Brad agarrou-a pela mão.
– Relaxa, Sarah. Vai correr tudo bem.
Como não o deixaram entrar, a audiência pareceu-lhe interminável. Enquanto caminhava de um lado para o outro à frente da porta, sentia-se como um animal enjaulado.
Quando finalmente viu Sarah sair, correu para ela.
Ela tinha um sorriso de orelha a orelha e lágrimas nos olhos.
– Acusaram e vai haver um julgamento.
Era tudo o que Brad precisava de ouvir.
– Vamos sair daqui.
Puxou-a pela mão e levou-a para a rua. Sabia para onde devia levá-la para celebrar.
Voltaram ao tribunal à uma da tarde. A audiência para a custódia começou cedo e, dessa vez, deixaram-no entrar.
A voz de Sarah tremeu enquanto testemunhava, mas então levantou o olhar e olhou de frente para Ellis Ashton, que estava sentado junto do seu advogado. Fez uma breve pausa e ganhou forças para completar a sua declaração com coragem e convicção.
Brad observava-a com orgulho.
Então, Ellis foi testemunhar. Brad sabia que qualquer juiz saberia distinguir a verdade da fileira de mentiras que declarou. Nenhuma lei podia conceder-lhe a custódia de Anna e de Davy.
Pelos vistos, o juiz pensava o mesmo. Sarah foi nomeada tutora legal e prometeram-lhe que lhe enviariam os documentos nos próximos dias.
Quando saíram do tribunal, Brad pegou nela ao colo e rodou com ela. Ao apoiá-la no chão, deu-lhe um abraço.
– Brad, conseguimos!
– Conseguiste, querida. Tu e o teu padrasto.
– Sim, ele foi a minha melhor testemunha, não foi?
– Sem dúvida.
Sarah abraçou-o com ardor.
– Vamos sair daqui. Quero pôr-me a caminho o quanto antes.
– Ainda não. Há uma coisa que temos de fazer – deu-lhe o telemóvel. – Telefona às crianças.
Deu-lhe o número e Sarah marcou-o, cheia de emoção.
– Kate? Sou Sarah. Acabámos e voltamos a casa. Consegui. As crianças ficam comigo!
Pulsuz fraqment bitdi.