Kitabı oxu: «A noiva substituta»

Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2019 Jane Porter
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
A noiva substituta, n.º 1852 - março 2021
Título original: His Shock Marriage in Greece
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.
® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.
As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.
Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-479-6
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Epílogo
Se gostou deste livro…
Prólogo
Kassiani Dukas estava imóvel no sofá branco da sala, a tentar tornar-se invisível enquanto o pai, Kristopher Dukas, passeava de um lado para o outro com as mãos atrás das costas. Estava furioso e a última coisa que queria era que essa fúria se virasse contra ela.
As coisas tinham corrido mal. Elexis fora-se embora. A irmã mais velha devia casar-se com Damen Alexopoulos no dia seguinte, mas Elexis desaparecera durante a noite. Escapulira-se da vila do noivo na Riviera ateniense, onde se alojavam também o pai e ela, para viajar para Atenas com os amigos, mais do que dispostos a afastá-la de um casamento que ela nunca quisera.
E, agora, o pai estava prestes a dar a notícia ao magnata grego poderoso, um homem brilhante, ambicioso e perigoso quando era traído.
E acabara de ser traído.
A porta abriu-se nesse momento e Damen Alexopoulos entrou na sala, deixando Kassiani com falta de ar. Vira-o antes, em São Francisco, durante a festa de noivado com Elexis, mas não falara com ele porque só estivera lá meia hora, a cumprimentar uns e outros, antes de voltar para a Grécia.
Tinha uns olhos cinzentos penetrantes, umas feições marcadas e uns lábios firmes e carnudos que a fascinavam. Era mais alto do que recordava e os seus ombros pareciam mais largos. Moreno, atlético, com umas pernas compridas e poderosas…
Kass nunca entendera porque é que Elexis não achava aquele exemplar fabuloso de homem atraente, mas a irmã preferia os modelos e atores jovens que a adulavam, esperando beneficiar do seu dinheiro e da sua notoriedade.
– Disseram-me que querias ver-me – disse Damen, num tom profundo e rouco que causou um arrepio a Kassiani.
– Bom-dia, Damen – cumprimentou o pai, tentando mostrar-se despreocupado. – Está uma manhã bonita, não está?
– Linda, mas tive de interromper uma reunião importante para vir aqui porque me disseram que era algo muito urgente – replicou ele, num tom impaciente.
– Muito urgente? – repetiu o pai, tentando sorrir. – Não, eu não diria isso. Lamento muito que te tenhas preocupado.
– Não estava preocupado – apressou-se a dizer Damen. – Mas, já que estou aqui, porque me chamaste?
Kassiani encolheu-se contra o sofá, como se tentasse tornar-se invisível. Não era fácil porque era uma rapariga grande, rechonchuda, de curvas marcadas, seios grandes e um rabo generoso que, ultimamente, se usava muito quando se tinha uma cintura estreita. Mas a sua cintura não era particularmente estreita, a barriga não era plana e as suas coxas tocavam-se. Ao contrário da irmã mais velha e fotogénica, não tinha uma conta no Instagram nem publicava selfies porque não ficava bem nas fotografias.
Não fazia parte dos círculos da alta sociedade, não viajava de avião privado nem ia a festas em Las Vegas, nas Caraíbas ou no Mediterrâneo.
Se o seu apelido não fosse Dukas, teria sido uma rapariga normal. Se o pai não fosse um dos gregos mais ricos dos Estados Unidos, ninguém repararia nela.
Seria invisível.
Com o passar dos anos, Kass começara a desejar ser realmente invisível, pois sê-lo era melhor do que ser visível e digna de compaixão. Visível e desdenhada. Visível e rejeitada. E não só por celebridades e membros frívolos da alta sociedade, como pela sua própria família.
O pai nunca mostrara o menor interesse por ela. Só se interessava pelo seu filho e herdeiro, Barnabas, e pela linda Elexis, que o apaixonara desde que nascera com os seus olhos castanhos grandes e as suas birras simpáticas.
Kass nunca fora simpática. Para a sua família, era uma menina silenciosa, esquiva e impossivelmente teimosa que se recusava a conversar com os convidados importantes do pai. Não queria cantar ou tocar piano. Em vez disso, Kass queria falar de política e economia. Desde pequena, sentira-se fascinada pela economia e fazia previsões sobre o futuro da indústria naval que horrorizavam o pai. Pouco importava que lesse melhor do que qualquer criança da sua idade ou que fosse a melhor da escola a matemática. As boas raparigas gregas não pensavam em assuntos de interesse nacional, política ou economia. As boas raparigas gregas casavam-se com homens gregos para criar a geração seguinte. Essa era a sua responsabilidade, esse era o seu valor, mais nada.
Kassiani deixara de ser incluída nas festas familiares. Não a convidavam para jantares ou eventos. Transformara-se na filha esquecida.
– Agradeço-te por teres vindo imediatamente – estava a dizer o pai. – Lamento ter-te incomodado, mas temos um problema.
O pai de Kassiani era um armador como Damen, mas greco-americano, nascido e criado em São Francisco. Sabia que estava nervoso, mas a sua voz não o traiu. Antes pelo contrário, parecia positivo e otimista.
E Kass alegrava-se por isso. As pessoas não deviam trair os seus medos nas negociações e a fusão da Naval Dukas com o empório Alexopoulos graças ao casamento de Damen e Elexis era uma transação comercial. Uma transação que, nesse momento, estava em perigo.
O pai não podia devolver o dinheiro que Damen investira na Naval Dukas, que estava à beira da ruína devido a uma má gestão. A empresa teria ido à falência sem uma injeção de dinheiro e Damen fora esse investidor. Mantivera o seu compromisso, mas, agora, Kristopher tinha de lhe dizer que os Dukas não iam cumprir a sua parte do acordo.
Kass olhou pela janela da vila. O sol refletia-se nas águas brilhantes do mar Egeu, de uma cor turquesa vibrante, mais claras do que as águas turvas do Oceano Pacífico.
– Não sei se entendo – disse Damen, então. O seu tom era amistoso, mas Kass sabia que aquilo era apenas o prelúdio da batalha.
Os pugilistas chocam as luvas antes de começar o combate e os jogadores de futebol apertam as mãos.
Damen e o pai estavam a cruzar as espadas.
Kass olhou para ambos. Damen não parecia um magnata. Era demasiado atlético, demasiado imponente. Tinha a pele bronzeada e o aspeto de um homem que trabalhava no cais, não à frente de uma secretária. Contudo, era o seu perfil que mais chamava a atenção. Eram essas feições esculpidas, tão severas como tudo nele: A testa larga, as maçãs do rosto altas, a cana do nariz, que parecia ter sido partido mais de uma vez.
Era um lutador, pensou, e não aceitaria bem a notícia que o pai estava prestes a dar-lhe.
– Temos um problema. A Elexis foi-se embora – anunciou Kristopher, então. – Espero que volte em breve, mas…
– Não temos um problema, tu tens um problema – interrompeu Damen.
– Eu sei – assentiu o pai –, mas pensei que deveríamos avisar os convidados enquanto temos tempo.
– Não vamos cancelar o casamento. Não haverá promessas falhadas nem humilhação pública. Está claro?
– Mas…
– Prometeste-me a tua melhor filha há cinco anos e espero que cumpras o prometido.
«A tua melhor filha.»
Kassiani mordeu o lábio inferior para conter a dor e a humilhação.
Então, viu que Damen olhava para ela com uma expressão séria e com as pestanas pretas espessas a emoldurar uns olhos intensos de cor cinzento-escura. Não sabia o que pensava, mas esse olhar breve intensificou a sua dor.
Ela não era «a melhor filha» e nunca seria.
Damen virou-se para o seu pai, esboçando um sorriso desdenhoso.
– Vemo-nos amanhã na igreja – disse. – Com a minha noiva.
E, depois, saiu da sala.
Capítulo 1
Era o dia perfeito de maio para um casamento na Riviera Ateniense. O céu era de um azul muito claro e sem nuvens e o sol refletia-se nas paredes da capela minúscula, com o mar Egeu e o templo de Poseidon como cortina de fundo. A cerimónia e o copo-d’água teriam lugar na vila histórica de Damen em Cabo Sunião. A temperatura era perfeita e agradável, nem muito quente nem muito húmida.
Em circunstâncias normais, uma noiva sentir-se-ia feliz, mas Kassiani não era uma noiva normal. Nem sequer deveria ser uma noiva, mas, naquela manhã, Kristopher Dukas tomara a decisão drástica de a trocar pela irmã e, portanto, Kassiani estava à frente da porta da capela, com um nó no estômago, à espera do sinal para entrar.
Havia muitas possibilidades de aquilo não acabar bem e receava que o noivo a deixasse plantada no altar ao ver que não era a irmã. Damen não era tolo. De facto, era um dos homens mais poderosos do mundo e não gostaria de ser enganado.
E ela não gostava de enganar os outros. Era a filha mais nova de Kristopher Dukas, a menos notável em todos os sentidos. No entanto, quando o pai a encurralara naquela manhã, exigindo que o fizesse para salvar a família, tivera de aceitar. Casar-se-ia com Damen Alexopoulos, não para salvar a empresa do pai, mas para se salvar.
Casar-se com Damen seria uma saída. Fugiria da casa do pai e fugiria do seu controlo porque, com vinte e três anos, estava decidida a ser mais do que a opaca, trôpega e aborrecida Kassiani Dukas.
Casar-se com o magnata Damen Alexopoulos não mudaria o seu aspeto físico, mas mudaria a forma como os outros a viam. Obrigá-los-ia a reconhecê-la como alguém importante, mesmo que parecesse patética.
A música do órgão começou a tocar no interior da capela e o pai, baixinho, roliço e com o cabelo grisalho, fez-lhe um gesto impaciente.
Kass conteve um suspiro. O pai não gostava dela. Quando era criança, não entendera a sua frieza com ela porque era muito carinhoso com Elexis, mas, quando crescera, fora capaz de descobrir o mistério.
Kristopher não era um homem atraente, mas ansiava ser respeitado. Ter dinheiro era uma forma de o conseguir, assim como ter uma família atraente. E enquanto Elexis era a clone da falecida mãe, que fora modelo antes de se casar, infelizmente, ela parecia-se com o pai, de quem herdara a constituição e o queixo marcado. E isso não era o que uma mulher queria quando a mãe fora uma modelo famosa.
Kassiani deixou escapar um suspiro. Esses pensamentos não a ajudavam nada. A sua autoestima, sempre escassa, estava a desaparecer nesse momento. E, então, o pai estalou os dedos.
Aparentemente, chegara a hora.
Tremia quando o pai levantou o véu pesado de renda para cobrir o seu rosto.
Estava aterrorizada e, no entanto, experimentava uma calma estranha. Assim que entrasse na capela, não poderia voltar atrás. Elexis defraudara o pai e toda a família. Ela não faria tal coisa.
Por uma vez, poderia fazer alguma coisa pelo negócio familiar. Quisera trabalhar na Naval Dukas desde que estava na escola. Até estudara Gestão e Direito Internacional na universidade de Stanford, mas o pai rejeitara-a, recusando-se a contratá-la ou a ouvir as suas ideias. Era um homem muito antiquado e achava que o lugar da mulher era em casa, a ter herdeiros, preferivelmente masculinos.
Depois de vinte e três anos a ser uma vergonha para a família, finalmente, podia ajudar o pai, salvando-o da ruína e da humilhação.
Kassiani respirou fundo, levantou a cabeça e entrou na capela ortodoxa. Era muito pequena, só cinco filas de bancos de cada lado do corredor estreito. Demorou um instante a habituar-se à penumbra do interior, mas, então, viu o noivo.
Damen Michael Alexopoulos estava à frente do altar com o padre. Com um fato elegante e escuro, tinha um aspeto mais formidável do que no dia anterior.
Suspeitaria de alguma coisa? Teria percebido que não era Elexis? O véu era tão grosso que mal conseguia ver através da renda, mas Damen não demoraria muito a perceber a diferença de estatura e constituição. Não podia ser Elexis, a rainha do Instagram.
Mesmo com aqueles sapatos incómodos de salto alto, Kassiani continuava a ser baixa. E o espartilho antiquado, necessário para que conseguisse vestir o vestido, não conseguia disfarçar as suas curvas terminantes quando Elexis era tão magra.
– Sabe – murmurou.
– Não sabe – contradisse o pai, com os dentes cerrados. – E é demasiado tarde para voltar atrás. Não podes falhar-me.
Kass cerrou os dentes. Não ia falhar-lhe, não podia fazê-lo, de modo que deu um passo à frente. Não ia voltar atrás. Não ia ter medo.
Faria com que aquilo funcionasse. Encontraria uma forma de agradar ao seu marido e uniria as duas famílias. E seria ela, Petra Kassiani, a fazê-lo, não Elexis, que fugira, nem o irmão, Barnabas, que se importava tão pouco com a família que não se incomodara em ir ao casamento.
Conseguia fazê-lo, tinha a certeza.
A questão era, ele fá-lo-ia?
Assim que Kristopher Dukas entrou na capela com a noiva, Damen soube que era a filha errada.
Incapaz de acreditar na temeridade do americano, observou o corpulento Kristopher a avançar pelo corredor com a filha, cujo rosto estava escondido por baixo de um véu pesado.
Aparentemente, Dukas escolhera a saída mais fácil. Em vez de procurar a rebelde Elexis, simplesmente, trocara as filhas, substituindo a mais velha pela mais nova.
Quem fazia uma coisa dessas? Que tipo de homem tratava as filhas como se fossem gado?
Até ele, que era desumano nos negócios, sabia a diferença entre desonestidade e traição. Aquilo era uma traição.
Aquela rapariga não era Elexis e ele escolhera Elexis por muitas razões. A bela, refinada e ambiciosa Elexis Dukas era perfeita para ele por causa do seu aspeto e temperamento. Era conhecida em todo o lado, adorava os focos e a atenção e era uma anfitriã famosa, algo de que ele precisava numa esposa porque detestava os compromissos sociais.
Poderia representá-lo nos eventos importantes e ninguém sentiria a falta dele. Porque haveriam de o fazer quando ela estava lá?
Não sentia nenhum afeto por Elexis, mas era a noiva que escolhera e pedira-a em casamento conhecendo as suas virtudes e os seus defeitos. Elexis tinha um estilo de vida invejável. Viajava por todo o mundo com o jet set, ia às melhores festas, usava roupa de marca e sentava-se na primeira fila nos desfiles de moda. A sua vida era um aparecimento nos meios de comunicação social atrás de outro, mas isso era bom para ele.
Precisava de uma esposa que soubesse qual era o seu lugar e que não fizesse pedidos emocionais, pois ele não tolerava essas coisas.
Contudo, agora que Elexis desaparecera e havia uma Dukas muito diferente ao seu lado, pensou que talvez aquele tivesse sido o plano de Kristopher desde o começo.
Talvez Elexis nunca tivesse estado disposta a casar-se com ele. Talvez Kristopher não tivesse intenção de lhe entregar a querida filha e tivesse decidido, desde o começo, deixá-lo com a filha mais nova, a quem se referira uma vez como «o patinho feio» da família.
Deveria ir-se embora, pensou.
Contudo, quando estava prestes a soltar a mão desse «patinho feio», ela levantou a cara e sussurrou:
– Lamento muito.
Depois da cerimónia, foram para a sala de espera da capela para assinar o registo. Damen cerrou os dentes, furioso ao pensar que nem sequer sabia o nome da esposa.
– Se não és a Elexis, com quem me casei? – perguntou, pegando numa caneta.
– Kassiani – respondeu ela, num tom rouco.
– Esse não foi o nome que o padre disse.
– Não, usou o meu primeiro nome, Petra, mas ninguém me chama assim. Chamam-me Kass ou Kassiani.
Damen abanou a cabeça, zangado com ela e consigo próprio por não ter saído da capela antes da cerimónia. Porque deixara que o pedido de desculpa o afetasse de tal modo?
Porque é que aquele sussurro de desculpa evitara que a abandonasse no altar?
Não sabia a resposta e não estava de humor para continuar a pensar nisso.
– Não penses mais nisso – disse, depois de assinar o documento, oferecendo-lhe a caneta.
Ela aceitou-a com uma expressão preocupada.
– Muito bem.
– Este era o plano desde o começo, trocar as irmãs?
Kass ficou corada.
– Não.
– Não te ofendas, mas não queria casar-me contigo.
– Eu sei.
– Não é a minha intenção insultar-te.
– Não me sinto insultada.
Noutras circunstâncias, certamente, teria gostado dela porque era direta e inteligente, pensou Damen. Mas os Dukas tinham-no enganado e não estava de bom humor.
– Não sou dos que esquecem e perdoam.
Viu que uma sombra atravessava o seu rosto e quase sentiu pena dela, mas a sombra desapareceu depressa, deixando uma expressão serena e composta no seu lugar.
– Como podes ver, não sou das que deixam passar a oportunidade de comer uma fatia de bolo. Parece que cada um tem de carregar a sua cruz.
Depois, Kass inclinou-se por cima do livro de registo para assinar, com o véu comprido a cair por cima dos seus ombros como uma cascata branca.
Damen não sabia se tinham sido as suas palavras ou o seu sentido de humor, mas, sem saber porquê, levantou-lhe o queixo com um dedo para se apoderar da sua boca. Não era assim que um homem devia beijar a esposa numa capela, mas nada naquele casamento era normal.
Kassiani passeava pelo quarto luxuoso da vila em que se vestira para a cerimónia, tentando acalmar-se. Tinha a impressão de que tudo aquilo podia desmoronar-se de um momento para o outro. A cerimónia não serviria de nada a menos que o casamento fosse consumado e não conseguia imaginar Damen interessado em ir para a cama com ela. Francamente, também não queria fazê-lo e sentiu um calafrio ao recordar a sua frieza quando lhe dissera que não era dos que esqueciam e perdoavam.
Kass não duvidava.
E era por isso que estava no quarto, escondida e acovardada. Naquela manhã, encontrara coragem para ir para a capela e ocupar o lugar de Elexis, mas essa coragem desaparecera.
Por sorte, a cerimónia fora discreta, só com alguns amigos e familiares, mas o copo-d’água seria fabuloso, com centenas de convidados que tinham ido de todas as partes do mundo para serem testemunhas do casamento de Elexis Dukas e Damen Alexopoulos.
Kassiani parou de passear e dobrou-se sobre si própria, prestes a vomitar. Os convidados rir-se-iam ao vê-la. Uma coisa era fazer-se passar por Elexis numa capela escura, escondida sob camadas de renda e, outra muito diferente, fazê-lo à frente daqueles que conheciam a irmã.
Convencera-se de que conseguia fazê-lo, mas só pensara na cerimónia. Não pensara em aparecer em público como a esposa de Damen Alexopoulos.
A sua esposa.
Perdeu a força nas pernas e teve de se deixar cair na cama.
O que fizera?
Estava a limpar as lágrimas quando a porta se abriu e Damen entrou no quarto. Nem sequer se incomodara em bater à porta.
Esperou que ele dissesse alguma coisa, mas não disse nada. Olhava para ela em silêncio e esse silêncio era insuportável. Os segundos pareciam minutos, horas.
– Por favor, diz alguma coisa – murmurou finalmente.
– Os convidados estão à espera.
Kass imaginou o terraço cheio de mesas com toalhas brancas, copos do cristal mais fino e candelabros brilhantes…
Não, aquele não era o seu lugar. Não era o seu casamento, não eram os seus convidados.
– Não posso descer.
– Devo trazer os convidados para cá?
– Não, por favor.
– Queres que te leve ao colo?
– Não!
Kass nem sequer conseguia olhar para ele. O que lhe parecera um gesto de valentia naquela manhã, agora, parecia-lhe a pior ideia da sua vida.
– É um pouco tarde para voltar atrás.
– Estou de acordo – murmurou ela.
Damen deixou escapar um suspiro de irritação.
– Se esperas compaixão…
– Não espero nada.
– Melhor, porque isto é tudo culpa tua.
Kass ia dizer alguma coisa, mas fechou a boca e cerrou os dentes. Porque tinha razão. Como ia discutir?
– Não podes ficar aqui o dia todo.
Kass brincou com uma pérola bordada da saia do vestido.
– Não gosto de festas.
– Mesmo que seja o teu próprio casamento?
– Como ambos sabemos, não devia ser o meu casamento.
– E esse é o problema.
Kass levantou o olhar, mas ele deixava-a tão nervosa… Não se parecia com o pai ou com o irmão. Não se parecia com ninguém.
– O que pensavas que ia acontecer? – perguntou Damen, em voz baixa.
Kass odiava sentir-se tão patética, odiava sentir-se como um fracasso. Não se casara com ele para ser um fracasso.
– Não pensei no copo-d’água nem nos convidados – confessou, finalmente. – A verdade é que nem sequer me ocorreu. Só pensei na cerimónia e depois… – Kass respirou fundo e levantou a cabeça para olhar para ele nos olhos. – Pensei em tudo o resto.
– E o que é tudo o resto?
– Bom… ser a esposa adequada – respondeu Kass. – Sou grega e sei o que os homens gregos esperam.
– Foi isso que o teu pai te disse?
– Sim.
Algo no olhar especulativo de Damen fazia com que o seu coração acelerasse e não sabia como controlar sentimentos tão novos e tão estranhos para ela.
– E o que é que os homens gregos esperam?
Kass engoliu em seco, tentando não trair o seu nervosismo.
– Devo cuidar de ti, cuidar da casa… ou das casas. E devo dar-te filhos. Entendo e aceito essas responsabilidades.
– Pelo menos, uma das filhas do Dukas é responsável.
– A Elexis e eu somos diferentes.
– Gosta de festas.
– Teria gostado do copo-d’água, sim.
– E dos fotógrafos.
– A máquina fotográfica adora-a.
– Como é que o teu pai te convenceu a ocupar o lugar da tua irmã?
Kass franziu o sobrolho.
– Desculpa?
– Ameaçou-te ou trata-se de uma chantagem? Como conseguiu fazer com que fosses à capela e fizesses parte desta farsa?
– Não é uma farsa, casei-me contigo – contradisse ela, fazendo uma pausa. – Por vontade própria.
– Portanto, voluntariaste-te?
– Não, isso não, mas, quando o meu pai me explicou a situação, percebi que a minha família estava em dívida contigo. Não queria que os Dukas te humilhassem publicamente, portanto, aceitei ocupar o lugar da Elexis para que a fusão do negócio e das famílias acontecesse.
– Devo sentir-me agradecido por me terem forçado a casar-me com uma virgem?
Kass fez uma careta.
– Não estou a forçar-te a nada. Podemos anular o casamento hoje mesmo, se quiseres. Ou amanhã. Quando achares melhor – replicou, erguendo o queixo. – Desde que não consumemos o casamento, és livre para o anular a qualquer momento.
– É o que esperas que faça?
– Não, na verdade, não. Fiz promessas e tenciono cumpri-las. Espero que consumemos o casamento esta noite.
– E se não me apetecesse consumá-lo contigo?
Kass mordeu o lábio inferior. Sabia como era dececionante como mulher. Não podia comparar-se com Elexis, mas tinha sentimentos. E esperanças e sonhos.
– Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance e vou esforçar-me para que me desejes.
Damen atravessou o quarto para se aproximar da janela e olhar para o antigo templo de Poseidon, iluminado pelos últimos raios do sol. Naquela noite, haveria outro ocaso espetacular. Os crepúsculos em Cabo Sunião eram lendários.
– Talvez devêssemos esquecer esta farsa agora – sugeriu, de costas para ela, com o olhar fixo no mar.
– Talvez – concedeu Kass. – Não vou chamar-te covarde se o fizeres.
Virou-se bruscamente e observou-a com um ar impaciente.
– Eu cumpri a minha parte do acordo. Investi na Naval Dukas, resolvi os problemas legais do teu pai, despedi-me da minha amante e esperei pacientemente pela tua irmã…
– Evidentemente, foi um erro.
– Isso não está a ajudar, querida.
– Talvez devesses ter passado mais tempo com a tua noiva para saber se era a mulher apropriada.
– O teu pai garantiu-me que a Elexis era a esposa apropriada.
– E esse é o problema, confiaste no meu pai – disse Kass, brincando com outra pérola do vestido. – Sou realista, sempre fui, e conheço bem a minha família. Admiro as suas virtudes, mas também tenho consciência dos seus defeitos. Pessoalmente, não teria feito negócios com o meu pai, mas tu querias a Costa Oeste dos Estados Unidos, querias os barcos, os portos e os acordos. Bom, agora, já os tens.
Damen deu um passo em frente e Kassiani tentou não se acovardar quando parou à frente dela, tão alto que tinha de deitar a cabeça para trás para olhar para ele.
– Não tens boa opinião de mim?
– Acho que subestimaste a família Dukas.
– Não respondeste à minha pergunta.
Ela hesitou por um instante, antes de olhar para ele nos olhos.
– Não me teria casado com um homem de quem não tivesse boa opinião – declarou, finalmente.
Damen olhou para ela em silêncio durante uns segundos.
– Eu também não gosto muito de festas – declarou, depois. – Portanto, vamos ignorar o copo-d’água e vamo-nos embora agora mesmo.
Capítulo 2
Damen levou-a até à cozinha por uma escada de serviço e, de lá, saíram para o jardim. Abriram caminho entre as árvores frutíferas, atravessaram a horta e passaram por baixo de um arco de pedra para seguir um caminho que levava ao cais, onde esperava uma lancha.
O piloto ofereceu-lhe a mão, mas Damen adiantou-se, pegando nela ao colo. Quando a deixou no chão da lancha, Kass balançou sobre os saltos altos e sentou-se o mais depressa que pôde. Damen sentou-se à frente dela e o piloto pôs o barco a trabalhar a toda a velocidade para se afastar da vila. Kassiani agarrou-se à beira do banco com uma mão, tentando controlar o véu pesado com a outra enquanto olhava para a propriedade, e para o copo-d’água, que deixavam para trás.
A vila era grande, uma das mais antigas da zona na costa ateniense. Fora construída à frente do Egeu e o arquiteto certificara-se de que todas as divisões tinham vista para o mar cor de turquesa e para o templo de Poseidon na colina.
Dali, conseguia ver as luzes suaves e douradas no jardim, as lâmpadas às cores penduradas nas árvores e os candelabros que iluminavam dúzias de mesas. Dali, o copo-d’água parecia mágico e Kassiani sentiu uma pontada de tristeza. Aquele não era o casamento que os convidados esperavam.
Tentou imaginar a reação deles quando descobrissem que os noivos tinham desaparecido. Ficariam para jantar quando soubessem que os noivos se tinham ido embora? Talvez ficassem para desfrutar do copo-d’água esplêndido. Alguns, alegrar-se-iam por não haver brinde e, outros, aqueles que gostassem de Damen, sentir-se-iam confusos e preocupados.
O casamento fora um desastre.
Como é que Damen lhe chamara? Uma farsa?
De repente, Kass sentiu-se culpada e angustiada. Aquilo era uma loucura. E, agora iam-se embora, mas não sabia para onde. Quando o cabo começou a desaparecer da sua vista, o piloto diminuiu a velocidade da lancha para se aproximar de um iate enorme. Havia vários membros da tripulação à espera deles numa plataforma, a segurar uma escada.
– Tira os sapatos – aconselhou Damen. – Será melhor não subires a escada com esses saltos. Quanto medem?
– Não sei, são muito altos – admitiu ela, tirando os sapatos que lhe tinham magoado os pés durante toda a tarde.
Damen pegou nela ao colo para a pôr na plataforma.
– Consegues subir a escada com esse vestido? – perguntou.
– Que outra coisa posso fazer, tirá-lo?
– Não – respondeu ele.
– Então, consigo subir a escada com o vestido.
Quando chegou ao topo, ajudada pelos membros da tripulação, deixou escapar um suspiro de alívio. Um empregado acompanhou-a ao interior, levando-a por várias escadas e corredores. As paredes eram de teca brilhante e os móveis, elegantes e discretos. Não tinha nada a ver com o iate do pai, que fora construído para a sua esposa. Infelizmente, Kristopher Dukas nunca entendera o gosto da sua mãe, de modo que o iate era exageradamente feminino, com paredes cremes, superfícies douradas, estofos florais e colunas horrendas por todo o lado para que o interior parecesse um templo grego. Kassiani achava-o estridente e feio e odiava que a obrigassem a participar nos cruzeiros que faziam pelo Mediterrâneo, prendendo-os a todos numa cela flutuante.
Susteve a respiração quando o empregado que a acompanhava parou à frente de uma porta. Não sabia se era o quarto principal ou um camarote para convidados, mas teve a certeza assim que pôs um pé no quarto. Tinha de ser o quarto principal porque era enorme, com uma parede de vidro e uma coberta privada de onde conseguia ver o templo de Poseidon, com as suas colunas majestosas e brilhantes como o ouro. As ruínas antigas eram impressionantes e Kass saiu para a coberta para as admirar, mas as luzes de uma vila do outro lado da baía competiam pela sua atenção.
A vila de Damen, onde o copo-d’água tinha lugar.
Talvez o seu sangue grego reconhecesse que voltara a casa porque, de repente, levou uma mão ao peito, embargada pela emoção.
– Arrependes-te? – perguntou Damen, atrás dela.
Kassiani virou-se, tentando esboçar um sorriso.
– E tu? Arrependes-te? Não sou a mulher que tu querias.
– Não – respondeu ele, sem hesitar.
– Entendo que te sintas dececionado. A Elexis é muito bela.
– Parece-se com a tua mãe.
– E eu pareço-me com o meu pai.
– Não escolhi a Elexis pela sua beleza.
Kassiani esboçou um sorriso. Não acreditava.
– Em qualquer caso, suponho que já nada disso importe, pois não?
Olhou para o Cabo Sunião, brilhante e dourado, com o templo famoso de mármore construído no ano 440 a.C. Era incrível que ainda permanecesse de pé.
– Imagino que tenhas fome.
– Tenho aspeto de quem passa fome? – brincou Kassiani
Observou-a em silêncio por um instante.
– Vou pedir que te tragam uma bandeja.
– Não vais comer nada?
– Tenho de tratar de uns assuntos.
Era a sua noite de núpcias, mas não queria jantar com ela. Não devia incomodá-la. Era a substituta por obrigação e ele era o noivo humilhado. Não devia surpreender-se por querer manter a distância.
– Nesse caso, muito obrigada. Posso comer aqui fora?
– Sim, claro. Vou pedir que preparem uma mesa.
Kass ia agradecer, mas Damen já se virara e viu-o a desaparecer com um nó na garganta.
Aquilo não seria fácil.
O escritório de Damen, na coberta do segundo andar, era semelhante ao seu quarto, com uma parede de vidro, outra parede com estantes cheias de livros, obras de arte de tamanho grande aqui e acolá e uma secretária enorme virada para o mar.
Desejava o mar. Só de olhar para o mar e para o horizonte, conseguia relaxar e respirar à vontade.
Comeu alguma coisa enquanto estudava o acordo que havia no ecrã do seu computador. Um acordo de há três anos, embora a discussão sobre a fusão com Dukas tivesse começado há cinco anos, quando Elexis ainda estava na universidade. Foi Kristopher que propôs esse casamento combinado, sugerindo uma fusão que os transformaria num empório poderoso que controlaria rotas de navegação por todo o mundo.
Damen sentira-se intrigado, mas não o suficiente porque conhecia a reputação de Kristopher Dukas, que costumava fazer acordos demasiado apressados e ambiciosos.
Ele também era ambicioso, mas geria o seu negócio com integridade. No entanto, dois anos depois, quando soubera que Kristopher estava a oferecer a filha a outro armador grego, viajara para São Francisco para discutir um casamento que poderia ser benéfico para os dois.
Damen não sentia nada por Elexis, que mal conhecia. Era apenas um meio para obter um fim. E, no entanto, quando finalmente a conhecera, pensara que, para além de ser uma boa esposa e a mãe dos seus herdeiros, poderia ser um ativo valioso para ele. As pessoas sentiam-se atraídas por Elexis e isso seria muito útil para entreter os clientes.
Poderia dedicar-se ao aspeto social e, desse modo, ele poderia concentrar-se nos negócios.
O amor nunca fizera parte do acordo porque Damen não amava. Precisava de certas pessoas na sua vida para conseguir coisas. Respeitava as pessoas que trabalhavam para ele, mas não tolerava fraquezas. Quanto mais benéfico alguém fosse, mais o valorizava. Era simples.
Era frio e não tinha sentimentos, mas nunca se desculparia por ser pragmático e estratégico.
Isso levara-o dos olivais de Quios até ao leme da Naval Egeu, que se transformara na Naval Alexopoulos quando o idoso senhor Koumantaras morreu. A família não gostara, mas Damen não tinha remorsos. Os filhos de Koumantaras não queriam trabalhar no negócio familiar. A única coisa que queriam era viver dos lucros. Porque haveriam de se importar se a empresa mudasse de nome?
Algum dia, a Naval Dukas também perderia o seu nome e faria parte da poderosa Naval Alexopoulos.
Damen fechou o computador para olhar para o céu escuro pela janela.
As luzes do templo de Poseidon apagar-se-iam à meia-noite, mas eram apenas dez horas e continuavam acesas.
Damen tamborilou com os dedos no braço da cadeira, tentando acalmar o seu mau humor. Detestava que Kristopher Dukas tivesse brincado com ele. Demorara muitos anos a aprender a controlar o seu mau feitio e a sua raiva, mas, naquele dia, estavam a pô-lo à prova. Naquele dia, queria dar rédea solta à sua cólera.
Pensou em Kassiani no quarto principal e fechou os olhos, abanando a cabeça.
Devia dormir num camarote para convidados. Longe dele para que pudesse esquecê-la.
Contudo, estava no seu quarto, à espera que voltasse.
Sentiu um nó no estômago.
Não a desejava. Não queria ofendê-la, mas não a desejava. Não era a noiva que lhe fora prometida. Kristopher prometera-lhe a sua melhor filha e ele acreditara que cumpriria a sua palavra. Fora por isso que investira na Naval Dukas, na edificação de portos na Costa Oeste e na construção de novos barcos, sabendo que esse investimento estabilizaria ambos os negócios no futuro.
Mas o casamento seria anulado.
E, portanto, o acordo não seria válido.
Já enviara uma mensagem de correio eletrónico ao seu advogado para que começasse o processo de dissolução da sociedade. Agora, só tinha de devolver Kassiani ao pai e encarregar-se da papelada legal.
Quando acabou de jantar, Kassiani voltou ao interior do quarto principal luxuoso. Damen teria de voltar em algum momento. E, então, estariam sozinhos.
Ali, no quarto.
Tinha de encontrar confiança em si própria para ir para a cama com ele porque, se o casamento não fosse consumado, Damen anulá-lo-ia e os Dukas perderiam tudo.
Ela não era a filha favorita, mas era leal à família e queria proteger a empresa do pai. Aceitara casar-se com Damen para que a Naval Dukas não fosse destruída por processos legais intermináveis. E Damen poderia destruí-los. Os processos de restituição deixariam a empresa na ruína.
Como o pai dissera naquela manhã, não podia devolver o dinheiro a Damen. O casamento devia acontecer e o casamento devia ser consumado.
E isso significava que devia seduzir Damen naquela noite.
Embora não fosse fácil. Não só porque era virgem, mas porque não tinha experiência. Só a tinham beijado uma vez, um beijo trôpego tão húmido e desagradável que não quisera voltar a beijar ninguém.
Comparado com esse assédio violento, o beijo na capela fora… emocionante. Quando Damen lhe levantara o queixo para a beijar, Kass sentira um formigueiro de antecipação. Os seus lábios eram firmes e frescos e, no entanto, sentira um arrepio.
Tremia quando se afastara e dera por si a desejar que o beijo durasse mais.
Talvez, assim, tivesse sido capaz de processar os seus pensamentos e todas essas sensações desconhecidas.
Gostava de dados, de análises. A informação era de grande ajuda e precisava de mais informação.
Como ia seduzir Damen quando não sabia nada sobre o assunto? É claro, sabia como era o corpo de um homem porque estudara anatomia. Além disso, a Internet estava cheia de fotografias e filmes.
Sabia que os homens gostavam que uma mulher fizesse um striptease e dançasse para eles. Aparentemente, isso excitava-os. E também gostavam de ter as mulheres de joelhos, obedientes e dispostas a agradá-los.
Kass tentou imaginar-se de joelhos à frente de Damen, com as mãos nas suas coxas e a mexer os dedos para o fecho das suas calças…
Essa imagem causou-lhe uma corrente de sensações desconhecidas: Arrepiou-lhe a pele, os seios incharam e sentiu um formigueiro entre as coxas. Estava nervosa e excitada ao mesmo tempo.
O seu mundo estava de pernas para o ar.
Fora para Atenas há cinco dias, esperando ir ao casamento da irmã, mas, no dia da cerimónia, o pai acordara-a muito cedo para lhe dizer que devia substituir Elexis e casar-se com Damen Alexopoulos.
E ela, desesperada por conseguir a aprovação do pai, fizera-o. Agora, em vez de voltar a São Francisco, tinha de ficar na Grécia e ser a esposa de Damen Alexopoulos, um desconhecido.
Kassiani olhou-se ao espelho. Continuava a usar o vestido de noiva de Elexis e as costuras estavam prestes a rebentar. Mesmo usando o espartilho, o vestido era demasiado apertado.
Nunca sonhara com o dia do seu casamento, mas, se o tivesse feito, não teria escolhido um vestido que a fazia parecer mais voluptuosa e gorda.
Não, teria escolhido algo simples, uma túnica de cetim com um ombro a descoberto para disfarçar o seu busto amplo. Sem camadas de tecido, sem esse decote e sem pedraria.
Kassiani passou os dedos pelas suas curvas. Os seus seios eram mais do que voluptuosos. Sempre odiara as ancas largas, as coxas e a barriga arredondada, como se praticasse a dança do ventre com frequência em vez de passar horas a correr na passadeira, a passear ou a fazer exercício para se parecer com a irmã e a mãe.
Porém, nunca seria magra. O seu aspeto era o que era e, mesmo que o marido estivesse dececionado, tinha de lhe demonstrar que tencionava ser uma boa esposa, que era capaz de o ser.
Encontraria uma forma de o satisfazer.
Mas como?
E se não conseguisse excitá-lo?
Kass tirou o telemóvel da mala e, enquanto tentava tirar o vestido, a faixa e o espartilho, procurou: «Como excitar os homens». Encontrou várias páginas que ofereciam conselhos sobre como agradar a um homem na cama. Desde doze zonas erógenas que não deveriam ser ignoradas ao artigo mais prático e útil: «Cinco truques para o melhor sexo oral da tua vida».
Nua, dirigiu-se para a casa de banho e, com cuidado para não molhar o cabelo, ainda apanhado por cima da cabeça num coque elaborado, tentou livrar-se das marcas do espartilho, que não pareciam dispostas a desaparecer, por muito que esfregasse.
Depois de tomar banho, vestiu um robe branco que pendia da porta, sentou-se na beira da banheira e começou a ler tudo o que pôde sobre como agradar a um homem.
Continuava a ler quando ouviu uma pancadinha na porta da casa banho e se levantou com um salto para abrir, fechando o robe com uma mão.
– Vesti o teu robe, espero que não te importes. Não trouxe roupa.
Damen assentiu com a cabeça.
– Kassiani… isto não vai funcionar. Pedirei a um empregado para te trazer alguma roupa e, depois, vou levar-te de volta à vila de Sunião.
Ela engoliu em seco.
– Estás assim tão dececionado?
– Não, não é isso.
– Então, porque me mandas embora sem me dar uma oportunidade?
– Porque estava noivo da Elexis, não de ti.
– Mas a Elexis foi-se embora e eu estou aqui.
– As irmãs Dukas não são intercambiáveis!
– Porque não sou bonita como ela?
– Porque não és dura como ela. – Damen pronunciou essas palavras com tal ferocidade que Kass ficou espantada. – Queria uma esposa que não sentisse nada, uma mulher que não pudesse magoar. Não te conheço bem, Petra Kassiani, mas o instinto diz-me que sentes profundamente.
Kass sentiu que lhe ardia a cara de vergonha porque tinha razão. Sentia profundamente, mas odiava esse aspeto da sua personalidade, pois ela preferia o intelecto às emoções.
– Entendo o tipo de casamento que queres. Não espero romance, flores, poesias…
– Nem ternura, amabilidade e paciência?
– Não acho que sejas capaz disso.
– Sou – garanto-te.
– Ias casar-te com a Elexis para salvar a Naval Dukas.
– Ia casar-me com a Elexis para desmantelar a Naval Dukas.
Kass olhou para ele com os olhos esbugalhados.
– Não acredito.
– Se ficares, se te tornares a minha esposa e o acordo se mantiver, não haverá Naval Dukas dentro de cinco anos. Fará parte da Naval Alexopoulos.
Olhou para ele, cética, mas receosa.
– Essa é a tua forma de dizer que devo voltar para ao pé do meu pai?
– Eu não sou nada para ti, Kassiani. E tu não és nada para mim.
– Casei-me contigo. És o meu marido.
– Mas não me conheces. Não me deves lealdade.
– Prometi cuidar de ti e ser uma boa esposa e tenciono cumprir essa promessa.
– Mesmo que queira destruir o negócio do teu pai?
Demorou uns segundos a responder:
– Desde o começo, isto era uma fusão entre duas famílias e dois negócios. O mais poderoso ganha sempre nas fusões e tu és o sócio mais forte, portanto, a mudança era inevitável.
Suspirando, Damen virou-se para sair para a coberta e Kass viu-o a passar uma mão pela cara várias vezes. Estava a lutar consigo próprio, pensou.
Não sabia contra o que lutava, mas fosse o que fosse, estava do seu lado. Tinha de ser assim porque se tinham casado e queria uma nova vida. Uma vida diferente.
Queria ser uma Alexopoulos, não uma Dukas, mas, se não tivesse cuidado, ele devolvê-la-ia a terra, ao seu pai, e isso era a última coisa que queria fazer.
Decidida, Kass saiu para a coberta. As nuvens escondiam a lua e não conseguia ver o rosto de Damen, mas os seus ombros estavam rígidos e, mesmo de costas, parecia inalcançável.
– Damen…
– Volta para dentro, Kassiani. Não consigo pensar com clareza se estiveres ao meu lado.
– Talvez isso seja bom.
– Não, não é.
Começara a refrescar e o vento mexia o seu cabelo e as lapelas do robe.
– Por favor, dá-me uma oportunidade.
– Não supliques, Kassiani.
– Dá-me uma oportunidade, é só isso que peço.
– Porquê?
– Quero outra vida, uma vida afastada da minha família.
– Comigo, não terás uma família feliz.
– Não estou a pedir um conto de fadas. Não sou bonita nem popular como a minha irmã e sair com homens é um pesadelo para mim. Sei que ias casar-te com a minha irmã porque queres ter herdeiros. Evidentemente, ela não está disposta a ser mãe, mas eu estou. Dá-me uma oportunidade para te demonstrar que posso ser uma boa esposa, que posso agradar-te. Se não puder, se não tiveres interesse, apesar dos meus esforços, então, voltarei para casa. Mas não posso aceitar uma rejeição antes de ter tido a oportunidade de demonstrar a mim própria…
– O teu pai manipulou-me – interrompeu ele.
– Mas conseguiste o que querias: O acordo, os portos, os barcos, tudo menos a Elexis. Se não a amas, porque não posso ser a substituta? Porque não posso ser a mãe dos teus filhos? É porque não sou bonita?
– Não é isso.
– Não acredito, mas tanto faz. Sei como sou e…
– Para! – Damen segurou-lhe o braço. – Isto é uma loucura, Kassiani. Eu nunca estaria com uma mulher contra a sua vontade e viste-te forçada a aceitar este casamento para salvar o pescoço do teu pai.
– Este casamento salva-me – corrigiu ela, num tom emocionado. – Odeio viver na casa de Nob Hill. Nunca foi o meu lugar e sei muito bem o que a minha família pensa de mim. Sou a feia, a que os envergonha e a que decidiram deixar para trás. Casar-me contigo permite-me fugir de tudo isso, Damen. Ofereces-me uma nova vida, um futuro.
– Serias mais feliz sem mim.
Kass hesitou, com um nó na garganta.
– Sei que não é fácil olhar para mim…
– Pelo amor de Deus, não digas essas coisas! Tu não és a tua irmã, mas não és feia. – Damen soltou-a e deixou cair as mãos. – Não voltes a dizer isso porque é mentira e tu és demasiado inteligente para pensar assim.
– Podes fazer amor comigo?
– Kassiani…
– Nem sequer consegues imaginá-lo?
– Essa não é a questão.
– Mas é. Se for capaz de te agradar e demonstrar que consigo ser uma boa esposa, talvez este casamento tenha futuro – insistiu ela, levantando o queixo num ar de desafio. – Sei que gostas de fazer acordos, Damen. Porque não fazes este acordo comigo?
– É um acordo horrível.
– Porque, se perderes, estarás preso?
– Não, porque se tu perderes, passarás todo o dia a chorar e eu vou sentir-me como… qual é a palavra na tua língua? Um monstro? Uma besta?
– Um idiota.
– Um idiota – repetiu ele.
– Mas não vou chorar e não terás de te sentir como um idiota se me deres uma oportunidade. Sei que não me desejas, mas a história está repleta de casamentos por conveniência e muitos deles acabaram por ser relações benéficas para ambas as pessoas. Porque não pode ser assim para nós?
– E como saberemos quem ganhou?
– Se consumarmos o casamento esta noite, eu ganho. Se não o fizermos, ganhas e voltarei para casa com o meu pai.
Damen deixou escapar um suspiro enquanto passava uma mão pelo cabelo.
– Tens um plano, querida?
– É verdade – confirmou Kass. – Vou seduzir-te.
Pulsuz fraqment bitdi.