Kitabı oxu: «Theatro de João d'Andrade Corvo - I»

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João de Andrade Corvo

Theatro de João d'Andrade Corvo - I

O Alliciador - O Astrologo


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066409241

Índice de conteúdo

DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II

PERSONAGENS

ACTO PRIMEIRO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII

SCENA VIII

SCENA IX

SCENA X

ACTO SEGUNDO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII.

SCENA VIII

SCENA IX

SCENA X

SCENA XI

AMBAS

AMBAS

ACTO TERCEIRO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII

O ASTROLOGO

ACTO PRIMEIRO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII

SCENA VIII

SCENA IX

ACTO SEGUNDO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII

SCENA VIII

SCENA IX

ACTO TERCEIRO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII

SCENA VIII

ACTO QUARTO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

ACTO QUINTO

SCENA I

SCENA II

SCENA III

SCENA IV

SCENA V

SCENA VI

SCENA VII

SCENA VIII

SCENA IX

DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II
PERSONAGENS

Índice de conteúdo


José Velhaco 30 annos O sr. Theodorico
Luiz do Campanario 20 » » Tasso
Antonio Prudente 50 » » Epifanio
O Vigario 50 » » Domingos
Joaquim 40 » » J. Antonio
Joanninha 18 » A sr.ª Soller
Maria das Dores 60 » » C. Talassi

A scena passa-se na Madeira em 185...

ACTO PRIMEIRO

Índice de conteúdo

Um campo de vinha. Á direita uma choupana aceiada e grande, cercada de hortencias, bannaneiras, e moitas de flores.

SCENA I

Índice de conteúdo

Luiz do Campanario e Antonio Prudente

ANTONIO

(Sahindo da choupana.) Boas tardes Luiz. Por aqui já a esta hora, rapaz? Julgava que só á noite voltarias da cidade.

LUIZ

Agora mesmo cheguei de lá. Eu, só á noite é que contava voltar; mas a pescaria depressa se vendeu. Os americanos compraram tudo para a {D1. Pg. 2} esquadra, que hontem chegou ao Funchal. Quando era pela volta do meio-dia estavamos livres.

ANTONIO

Abençoados americanos! Navios e esmolas, tudo nos mandam, para nos ajudar a viver. Que isto hoje nesta terra, Luiz, só se vive do que nos dão por caridade.

LUIZ

Vocemecê tem razão, sr. Antonio Prudente. Vivemos de caridade... da dos estrangeiros, que os lá de Portugal esqueceram-se de nós.

ANTONIO

Não se esqueceram, talvez. São pobres como nós, e ahi está. Eu, por mim, não quero pensar mal do que sempre me ensinaram a respeitar. Olha, o melhor é não fallar em coisas dessas: tenho medo de perder o respeito ao senhor governo, o que seria contra os meus costumes antigos. Já estou velho para novidades; e como, Deus louvado, tenho para ir passando, esta casa, e esta fazenda, que eu fiz por minhas mãos, não quero entristecer-me já agora. Tristezas acabam com a gente mais cedo.

LUIZ

É verdade; lá isso é, sr. Antonio.

ANTONIO

Tu tens coisa que te dê pena?

LUIZ

Não, não tenho. Não é nada.

ANTONIO

Tens. Disseste isso como quem sente um pezo sobre o coração.

LUIZ

Tenho a minha mãe velha e doente e eu pobre, e...{D1. Pg. 3}

ANTONIO

E o que?

LUIZ

Esta pobreza tira-me até as forças para trabalhar, queria ter mais...

ANTONIO

Tens ambição, rapaz? ah! ah! Teu pae era bom homem! Teu pae trabalhou toda a vida ali na Lombada, como caseiro do morgado Bittencourt: não ganhou nunca senão para cada dia comer uma raiz de-ynhame, ou uma espiga de milho, e eu não lhe ouvi fazer dessas queixas contra a pobreza.

LUIZ

Meu pae tinha mais animo do que eu. E depois, a fallar a verdade, tinha coizas que o consolassem: tinha em minha mãe uma santa companheira, que o ajudava no trabalho; em minha irmã uma boa filha. O morgado velho não lhe queria mal, e ajudava-o. A terra então dava vinho; não era como hoje, em que tudo parece amaldiçoado aqui na Madeira, em que até se mirraram as uvas...

ANTONIO

La nisso tens rasão. Foi praga que cahio sobre nós. Mas para tudo, hade Deus dar remedio. Tu tens meio de ganhar a vida, Luiz: não desanimes, rapaz.

LUIZ

O que eu tenho é minha mãe abatida e triste, que faz chorar. E de meu, tenho a metade das bemfeitorias que meu pae fez, em 20 annos de trabalho, ali na fazendinha do morgado Bittencourt; a outra metade pertence a minha irmã, que está casada, e cheia de filhos—pobre mulher!—E{D1. Pg. 4} as taes bemfeitorias são coisa tão pouca, que de nada me servem, nem acho quem m'as compre. O que me vale é ter ahi logar entre a companha de um barco de pesca, senão morriamos de fome, eu e minha mãe.

ANTONIO

Coitado do Luiz! Tens rasão, filho, tens. Eu é que, por ter esta fazenda de meu—porque esta é minha, de véras; terra e bemfeitorias—por ter esta fazenda, e uma filha que é a alegria e a benção desta casa, pensei que todo o mundo era feliz. Deus me não castigue, Deus não faça cair sobre Joanninha o castigo desta minha cegueira.

LUIZ

Deus a ampare, á nossa Joanninha.

ANTONIO

Bem o merece. Boa, e bem creada. Pode ser mulher ahi de qualquer morgado, a minha filha, não lhe falta nada. Sabe ler, escrever, e até bordar. Heide cazal-a com um homem que tenha de seu, para que ella não saiba nunca o que é pobreza.

LUIZ

(Com dor.) Faz... faz bem, sr. Antonio Prudente. Sua filha deve... ser feliz com um homem que tenha de seu, que a traga como as meninas lá da cidade... que a faça feliz. Mas... mas ainda não está escolhido noivo para Joanninha? Vocemece ainda se não decidiu a cazal-a? É cedo... Joanninha é muito moça.

ANTONIO

Tem 17 annos feitos. Mas pensar no casamento ainda não pensei. Custa-me a separar della.

LUIZ

(Com alegria.) Então por ora não se casará.{D1. Pg. 5}

SCENA II

Índice de conteúdo

Os mesmos e Joanninha

JOANNINHA

(Correndo para Antonio.) Não se casará por ora, nem casará em quanto não tiver noivo do seu gosto.

LUIZ

Joanninha!

ANTONIO

Estavas ahi, filha?

JOANNINHA

Estive a dar de comer aos meus pombos, coitadinhos, e agora vinha para o acompanhar, pae, lá abaixo á Fajã; para o ajudar no que for necessario.

ANTONIO

Ora aqui teem o que se chama uma boa rapariga.

JOANNINHA

Sou muito sua amiga, pae; e por isso me não quero casar, nem ir para longe desta freguezia, onde nasci e me criei (Olhando para Luiz.) Tenho aqui todos, e tudo de que eu gosto.

ANTONIO

Esses amores hão de te passar. Outros os farão esquecer.

JOANNINHA

Não se diga que me heide esquecer do amor que tenho a meu pae... e áquelles com quem vivi sempre. Não heide perdoar a quem o disser. (Com tristesa.) Se os outros se esquecerem, hei de lembrar-me eu.

LUIZ

Ninguem tem coração para se esquecer de ti, Joanninha.{D1. Pg. 6}

JOANNINHA

Assim será. Mas meu pae diz, que pelos amores novos se esquecem os Antigos.

LUIZ

A mim parece-me que antes perderia a vida, antes poria a minha alma em peccado mortal, do que perder da lembrança os dias em que brincámos ahi, á sombra dos castanheiros.

ANTONIO

(Com inquietação.) Está bom, está bom. Lá estão vocês a dizerem-se finezas, que me parecem dois senhores da cidade.

JOANNINHA

Então a verdade porque se não hade dizer, pae? Elle pensa aquillo que diz, faz bem em o dizer. Fomos creados um com o outro, e a sr.ª Maria das Dores, a mãe do Luiz, serviu-me de mãe a mim. É como se fossemos irmãos.

LUIZ

Irmãos!... irmãos sim. (Commovido.) E o que mais me custa, é separar-me de ti...

JOANNINHA

(Assustada.) Que separação é essa? Vaes deixar-nos?

LUIZ

Talvez... Parece-me que irei ahi, a bordo de um navio, fazer uma viagem... Fallaram-me em ir marinheiro n'um navio que sae...

JOANNINHA

Para onde?

LUIZ

Para longe. Ainda não sei.

JOANNINHA

Não vás.{D1. Pg. 7}

ANTONIO

Então porque não hade ir? É tentar fortuna. Uma viagem ao Brasil, talvez. Ir e voltar. Faz muito bem o nosso Luiz.

JOANNINHA

E a tia Maria das Dores, a mãe de Luiz, coitada?... E todos nós?

LUIZ

Se eu me for... minha mãe fica em casa de minha irmã.

JOANNINHA

(Com as lagrima nos olhos.) Não pode ser. Assim não vae isto bem. Tua mãe está velha... e sem ti estalla de pena.

LUIZ

Esta vida de barqueiro, de pescador, é vida miseravel, e sem esperança. Lutar com o mar, arriscar a vida nos temporaes, andando por entre essas rochas quando o tempo está de lavadia, e não passar nunca de ser um pobre, vivendo de mizeria; um desgraçado a quem os ricos fazem esmola, quando lhe pagam o seu trabalho; passar a vida inteira neste penar, isso é que o coração cá dentro não me soffre.

JOANNINHA

E queres?

LUIZ

Quero ir por esse mar fóra, por esse mundo de Christo a tentar fortuna.

JOANNINHA

E se morreres?...

LUIZ

Sempre hade haver agua no mar para de uma vez me mergulharem; ou uma pouca de terra para me deitarem por cima.{D1. Pg. 8}

JOANNINHA

Jesus! Misericordia! Que cousas dizes! Chego a tomar-te raiva quando te ouço fallar assim, (Chorando.) Não vês que me fazes pena quando dizes dessas doidices?!

LUIZ

Não é para te fazer pena...

ANTONIO

É verdade. Elle faz o que deve. O homem pode morrer no mar ou em terra, e em morrendo acabou-se. Tambem eu heide...

JOANNINHA

Se continua, pae, a fallar nessas cousas, vou-me, fujo, caso-me...

LUIZ

Não se torna mais a fallar em tristezas. Se for, heide voltar. Assim como aqui o sr. Antonio fez, pelo seu trabalho, desta terra, que era um mato maninho, uma fazenda que faz gosto aos olhos verem-n'a, tambem, eu heide da minha barca fazer um navio bonito, como o «Galgo.» Que isto da gente ter vontade, cá de dentro, de fazer uma cousa, é meio caminho andado para a conseguir. E, se não, vejam o que succedeu ao José Velhaco. Ha menos de um anno pobre como eu, e agora com grilhões de oiro, e relogio, e dinheiro, que é um pasmar. Foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas!

ANTONIO

O José Velhaco foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas, dizes bem. Outros lá vão, e por lá ficam.

LUIZ

Morre-se por lá como por cá. Mas aquillo é terra para fazer fortuna. Não foi só o José Velhaco{D1. Pg. 9} que voltou rico. Ahi estão na Madeira mais de meia duzia, a quem succedeu o mesmo.

ANTONIO

Não te deixes enganar com as apparencias. O sr. Vigario ainda outro dia me disse, que esses que veem ricos de Demerara são isca para apanhar os passaros.

LUIZ

Talvez. O que for soará.

ANTONIO

Toma os conselhos, que são de quem tem já cabellos brancos. Não te deixes enganar com as apparencias.—Vamos, Joanninha, vamos até á Fajã, antes que se faça mais tarde. (Sae.)

JOANNINHA

Adeus Luiz.

SCENA III

Índice de conteúdo

Luiz e Joanninha.

LUIZ

(Detendo-a.) Uma palavra, Joanninha.

JOANNINHA

Que me queres?

LUIZ

Tenho que te dizer.

JOANNINHA

Mas agora! Meu pae espera-me...

LUIZ

Diz-lhe que já vais ter com elle. Eu preciso fallar-te.

JOANNINHA

Virgem Maria! que susto me estás mettendo! (Aos bastidores.) Ahi vou já, pae, esqueceu-me uma coisa em casa: já vou lá ter, n'um instante.{D1. Pg. 10}

LUIZ

(De dentro.) Pois eu cá vou andando.

JOANNINHA

(A Luiz.) Diz agora o que queres de mim.

LUIZ

Ouve, Joanninha. Tu lembras-te que sempre vivemos juntos; que de pequenos andámos sempre um com o outro por essas serras; que se não passou até hoje uma semana em que nos não vissemos?

JOANNINHA

Lembro-me.

LUIZ

Não te esqueceu ainda aquella manhã, em que fomos juntos ao Paul da serra, e levados, não sei por que alegria que vinha cá de dentro, apanhando flores de urze, e brincando, chegámos até ao Rabaçal?

JOANNINHA

Não me esqueci dessa alegre manhã. No Rabaçal a agua saltava do alto da serra, e depois espalhava-se em gotas de chuva, que brilhavam ao sol como estrellas, e vinham cair até onde nós estavamos sentados: de baixo daquelle grande til que nasce da rocha. Eu senti nesse dia o que não tinha sentido nunca: não sei se alegria se tristeza... O coração batia-me como eu nunca o senti bater.

LUIZ

Tinhas então 15 annos, e eu 20. Foi ha 2 annos. Desde esse dia, nunca mais andámos sós, um com o outro pela serra.

JOANNINHA

Mas, desde esse dia, quasi que se não tem passado um só sem nos vermos.{D1. Pg. 11}

LUIZ

Joanninha, de tudo te lembras. Agora já te posso fallar com menos susto.

JOANNINHA

Para que me lembras-te essas coisas todas? O que tem isso com a pergunta que me querias fazer?

LUIZ

Olha, Joanninha, não é facil a gente dizer tudo quanto quer; porque, emfim, o sentir não depende da vontade, e as palavras não chegam para dizer tudo.

JOANNINHA

Mas... o que querias dizer-me?

LUIZ

Não te pões mal commigo, não é verdade?

JOANNINHA

Porque?

LUIZ

Talvez seja esta a ultima vez que te vejo. Esse tempo, em que nos podiamos ver todos os dias, passou.

JOANNINHA

Então partes breve?

LUIZ

Hoje mesmo.

JOANNINHA

Deus me acuda! Hoje!

LUIZ

Hoje me vou.

JOANNINHA

Não pode ser. Não disseste nada a meu pae.

LUIZ

Nem lh'o digas tu. É segredo a minha partida, não quero que minha mãe saiba. A ti{D1. Pg. 12} tambem não queria dizer nada, mas faltou-me o animo...

JOANNINHA

Ah! Luiz, em tu me faltando... ficam sem luz os meus olhos, e sem alegria o coração.

LUIZ

Eu tambem me vou e bem triste, Joanninha. Mas que queres? Quem é pobre, nasceu para padecer. É preciso fazer esta viagem para depois poder... se tu me não disseres que não, Joanninha—para poder...

JOANNINHA

O que?

LUIZ

Pedir a teu pae, que sejas minha mulher. Se não disseres que não.

JOANNINHA

Não digo, não te digo que não.

LUIZ

E promettes esperar que eu volte... tendo bastante de meu, para que teu pae consinta no casamento?

JOANNINHA

Se agora mesmo lhe pedisses, meu pae consentiria.

LUIZ

Não. Teu pae criou-te para seres rica, deu-te uma criação como a das senhoras da cidade; e não quer que te cases com um pobre, como eu sou. Ainda ha pouco elle m'o disse, aqui mesmo.

JOANNINHA

Só comtigo, Luiz, só comtigo me heide casar.

LUIZ

Já vou mais consolado: com mais animo para trabalhar, para me arriscar aos perigos.{D1. Pg. 13}

JOANNINHA

Não te arrisques. Lembra-te de tua mãe... de mim, que morro se tu morreres.

LUIZ

Não chores, minha querida Joanninha. A Senhora do Monte hade proteger-me, e eu heide voltar.

JOANNINHA

Prometto uma novena á Senhora do Monte, e muitas flores no dia da sua festa, se tu voltares cedo.

LUIZ

Agora... Joanninha... adeus... adeus!

JOANNINHA

Não te demores muito, Luiz. Volta, porque me deixas em cuidados... ralada de saudades.

LUIZ

Um abraço de despedida. (Caem nos braços um do outro.)

AMBOS

Adeus! Adeus! (Joanninha sae.)

SCENA IV

Índice de conteúdo

LUIZ só.

Joanninha! Não sei como tive animo para a deixar ir... como tenho alma para sair da minha terra, onde ella vive... onde me fica amando.—E voltarei?... tantos lá teem ficado! Se uns morrem outros voltam ricos; e eu, pobre como sou, nunca heide casar-me com Joanninha.—As orações daquella santa rapariga ha de Deus ouvil-as, e basta.—Quem se não arriscou não perdeu nem ganhou.{D1. Pg. 14}

SCENA V

Índice de conteúdo

Luiz e Jozé Velhaco

JOZE

Santa palavra, Luiz, santa palavra que nem todos intendem, e que é preciosa para os que a sabem. Eu, se não soubesse esse rifão de côr e salteado, estava a esta hora com um sacho na mão a sachar milho na fazenda d'um morgado, que, no fim de contas, me ficaria com metade do producto da minha labutação. O morgado que nasceu rico—isto é um modo de dizer—que nasceu dono de terras, e nem sabe nem tem prestimo para as cultivar... Ah! ah! o morgado guardaria metade do meu milho, para dar aos cavallos... e eu, com a minha metade, nem teria para enganar a fome. Santa palavra, rapaz, santa palavra!

LUIZ

Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso tens tu rasão.

JOZE

Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós, os villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o nosso vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a Demerara procurar fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser escravos dos inglezes, para sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra dos morgados, o que somos nós senão escravos? Ao menos, lá por essas terras dos inglezes, um homem activo, tendo cá fogo de dentro como eu, e como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se rico{D1. Pg. 15} como um morgado... mais do que um morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra!

LUIZ

Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou escravos.

JOZE

Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas... como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta.

LUIZ

É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem.

JOZE

Que importa? Chegas lá, trabalhas um... um tempo para pagar a divida, e a comida que te dão cada dia... e depois principias a ganhar por tua conta.

LUIZ

Mas esse tempo quanto dura?

JOZE

Conforme... sim, é conforme. Para uns dura mais, para outros menos. É segundo as forças de cada um. Mas tu bem vês: aqui é que se não faz nada. Trabalha-se a vida inteira, a arrancar mato da serra, e levantar muros, a plantar arvores e vinha, a formar uma fazenda, e no fim fica a gente sem ter nada; porque a terra é dos morgados, e as bemfeitorias ficam agarradas á terra, donde se não podem arrancar.

LUIZ

Que de coisas tu sabes agora!

JOZE

É porque vivi lá por Demerara com muita gente de tino, e aprendi muito. Aquillo é que{D1. Pg. 16} é terra, homem! Campos que é um gosto vel-os. Como estes aqui da Madeira, mas maiores. E na cidade? Ganha-se dinheiro que é um louvar a Deus!

LUIZ

Mas as febres?

JOZE

Quaes febres! Ha por lá umas doencitas, que levam a gente ás vezes, mas não é coisa que se veja: nada, nem se dá por tal. E, depois, se por lá se morre de febre, por cá morre-se de mizeria, que ainda é peior. Tu tens medo de morrer?

LUIZ

Eu!...

JOZE

Bem sei que não tens medo. Vaes á pesca em dias de temporal, quando os outros pescadores se metem em caza. Em a gente sendo animoso nem as doenças lhe chegam. Santa palavra! Olha para mim. Tu bem sabes que eu sou animoso, valente...

LUIZ

Serás; talvez o sejas. Ganhaste isso em Demerara?

JOZE

Pois eu não sou?... Não fui sempre?..

LUIZ

Um armazem de pancadas, quando eras mais novo. Todos te davam; e tu não fizeste nunca senão levar e calar.

JOZE

Hum! Bem vês que eu era... que tinha bom coração, e não queria fazer mal ao proximo. E a prova é, que já me esqueci de tudo que os{D1. Pg. 17} rapazes aqui da freguezia me fizeram, e que tenho mandado um pár delles para Demerara... a buscar fortuna. Pagar o mál com o bem, é de um homem como se quer. Tu mesmo, Luiz, agora me lembro, tu mesmo deitaste-me um dia na Ribeira Brava, dentro d'agua; porque eu te tinha tirado um pedaço de ynhame cozido... e eu tinha fome. Agora vou-te fazer rico, para teres fato fino, como este meu, relogio, cordão de oiro, e muito dinheiro... para te tinirem as algibeiras, como a mim. Hem!

LUIZ

Serás, serás bom rapaz, agora, mas animoso... Deixemos isso, e vamos ao que importa. Joze, eu vou para Demerara; foste quem me resolveu a ir. Minha mãe, pobre velhinha, cá fica sem ter mais ninguem senão minha irmã que é pobre, e pouco lhe pode valer. Acode-lhe tu, Joze. Que minha mãe ao menos tenha um pedaço de pão para matar a fome.

JOZE

Conta comigo.

LUIZ

Outra coisa te queria eu pedir; mas essa...

JOZE

Dize, que eu sou um bom amigo.

LUIZ

Creio que és, sim. Mas tens sido sempre tão fallador, homem...

JOZE

Injustiça no cazo. Eu guardo um segredo como ninguem

LUIZ

Vé lá o que fazes: o que vou dizer é segredo. Gosto muito de Joanninha...{D1. Pg. 18}

JOZE

Ah! ah! Eu já desconfiava disso. Tens bom gosto, que a pequena é bonita... e, de mais a mais, vem a ter de seu, em o pae morrendo.—Maganão!

LUIZ

Pobre a queria eu, para me poder já cazar com a minha Joanninha. Emfim, se a sorte me ajudar, hei de tambem um dia ter alguma coisa de meu, e então a pedirei ao pae.

JOZE

Bem pensado—Mas vamos ao cazo; o que me queres tu?

LUIZ

Quero que procures no correio as minhas cartas, e que as entregues a Joanninha, em muito segredo, sem que o pae o saiba.

JOZE

Fia-te em mim. Um amigo vê-se nas occaziões. Santa palavra!

LUIZ

Obrigado, obrigado, Joze. Nunca te poderei pagar o muito que te devo. Agora mais um favor.

JOZE

Venha lá mais esse...

LUIZ

É o ultimo, tem paciencia. Esta noite... d'aqui a uma hora talvez, vou para bordo, e de lá já não volto, já não torno a fallar com minha mãe. Aqui tens vinte patacas, que lhe deixo: tu mesmo lh'as entregarás em mão propria.

JOZE

Ahi vem ella. D'ali, da banda da Igreja.

LUIZ

(Dando-lhe dinheiro.) Pois vou-me, antes que{D1. Pg. 19} ella chegue; não tenho cá dentro força, para lhe fallar agora. Dize-lhe que fui no bote fazer um frete até ao Funchal. Amanhã lhe contarás a verdade. Adeus, Joze. Não te esqueças do promettido. (Estendendo os braços para o lado donde, vem Maria das Dores.) Mãe, mãe! A tua benção, mãe; para que Nossa Senhora me não desampare! (Sae.)

SCENA VI

Índice de conteúdo

José Velhaco, só.

JOZE

Os diabos te levem, para que não voltes mais. Ah! Ah! e deixou-me vinte patacas das trinta que recebeu! És tolo, meu Luiz do Campanario. Vinte patacas que estão aqui na minha algibeira, com trinta que hei de receber ámanhã do bom homem Carlos Bad, honrado negociante de carne branca, fazem cincoenta patacas—É barato. Estou roubado. Um escravo preto custa muito mais agora, depois que os inglezes se declararam protectores dos pretos; e o Luiz vale bem dois negros de Angola—Viva... viva...—como lhe chamam elles, os inglezes?—Viva a philan... a philantropia que em vez de escravos negros, vae fazendo os brancos escravos. A cor pouco faz ao caso; mas escravos ha de havel-os, em quanto houver homens com fome, em quanto houver miseria no mundo. Santa palavra! O dinheiro é que é a liberdade! Viva o dinheiro!... viva o rei dinheiro!... Irei ficando com as vinte patacas do Luiz, em vez de as dar á velha que ahi vem. Só para o enterro é que ella precisa de dinheiro, agora.{D1. Pg. 20}

SCENA VII

Índice de conteúdo

José Velhaco e Maria das Dores

JOZE

Ora salve Deus a sr.ª Maria das Dores.

MARIA

Deus lhe dê muito boas tardes, sr. Joze. Não estava agora aqui o meu Luiz?—Pareceu-me vel-o.

JOZE

Estava aqui, mas foi-se, sr.ª Maria. O rapaz anda com a cabeça desarranjada, não lhe parece?

MARIA

O rapaz anda triste, porque lhe custa a levar a miseria. Eu bem lhe tenho prégado, que é vontade de Deus que assim seja, e que elle se deve ir conformando com a vontade de quem tudo póde. Bem velha estou eu, e nunca tive na minha vida uma hora talvez, de que se possa diser «bensa-te Deus:» pois olhe, assim mesmo com paciencia cá tenho ido andando. Se Deus me conservar o meu Luiz, á hora da morte hei de louvar a Deus, por me ter mandado a este valle de lagrimas.

JOZE

Aquella falta de humildade, com que o Luiz leva a sua cruz, é peccado, diz bem sr.ª Maria.

MARIA

Eu não disse que o meu filho tinha peccado. Nem o disse, nem o penso.—Hoje em dia, não sei porque, todos os rapazes querem ser mais do que foram seus paes, e por isso tem ido acabando aquelle respeito que n'outro tempo havia aos srs. morgados. Em tudo isto anda o dedo{D1. Pg. 21} de Deus. Ou o mundo está para acabar, ou, senão, vae levar tudo uma grande volta.

JOZE

Está muito intendida em politicas, sr.ª Maria das Dores! Tambem lê os periodicos?

MARIA

Não leio, não me ensinaram a ler.

JOZE

Dizem por ahi que é bruxa; saberá isso por artes...

MARIA

Calle-se, Joze. Vae-te t'arrenego, hoje é sabbado. De quando em quando oiço contar as coisas que se passam por esse mundo ao nosso vigario, e fazem-me scismar. Acho rasão ao meu Luiz quando se queixa da sorte, mas nunca lh'o digo. Quem trabalha deve ter, ao menos, tanto como quem não trabalha mas nasceu morgado. Em quanto não for assim não vae o mundo ás direitas.

JOZE

Pois as impaciencias do nosso Luiz hão de lhe dar na cabeça. Agora, quando a viu, sr.ª Maria, fugiu; e talvez um dia fuja de todo.

MARIA

Jesus, Santo nome de Jesus! Se elle me deixasse morria. Olhe Joze, tem-me morrido todos os meus, pae, mãe, irmãos, e o meu pobre marido, e eu fui ficando—Deus sabe para que.—Mas agora, se me faltasse o meu Luiz, a isso não resistia.

JOZE

Deve estar preparada para tudo.

MARIA

Porque?{D1. Pg. 22}

JOZE

Eu não sei nada... ao certo: mas o Luiz tem uma alma independente como a minha, senhora Maria—e pode ser que elle um dia faça como eu fiz, que vá por esse mundo fóra em busca de fortuna. Ora como nem todos são egualmente felizes...

MARIA

Talvez elle por lá fique! Nada, o meu Luiz não se vae, não me deixa.

JOZE

O desejo de ser rico, de se ver bem tratado por esses senhores morgados, que lhe chamam agora o villão; o desejo de deixar de ser um villão para ser o sr. Luiz do Campanario, estimado por ter dinheiro, comprimentado pelos morgados por lhes poder emprestar algumas patacas; este desejo de abater os outros e de se exaltar a si póde muito. O dinheiro, sr.ª Maria, levanta os humildes, faz fidalgos os vilões. Ah! ah! Santa palavra!

MARIA

Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser pobre é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu Luiz é bom, foi sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que falla, Joze, só os pode ter um mau homem, um homem sem honra e sem vergonha.

JOZE

É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive sentimentos taes... porque sou...

MARIA

Joze, Joze, sempre teve—desde pequeno que{D1. Pg. 23} o conheço—propensão para o mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre. Nunca pensei que pelo trabalho honrado se fizesse rico; mas em fim assim aconteceu, e como aconteceu, Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade. Anda sempre desde que veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes, e ás raparigas até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete apparece o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto...

JOZE

Invejosos!

MARIA

Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as culpas.

JOZE

Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre?

MARIA

Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até aos ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa.

JOZE

Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe mal zangar-se—Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim.

SCENA VIII

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Maria das Dores

MARIA

O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem elle... Nossa{D1. Pg. 24} Senhora me livre desta ultima dôr; esta era a ultima, porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça, Deus, me leve antes para si (Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo que fica quasi escondida por detraz de uma moita). Ave Maria cheia de graça, o senhor é comvosco... (Continua a murmurar orações.)

SCENA IX

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A mesma—Antonio Prudente—O Vigario—Joanninha

VIGARIO

Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio. Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de assucar, já para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a parte para alindar tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as sabe escolher bonitas como ella.

JOANNINHA

Ora! sr. Vigario.

VIGARIO

Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores. Se eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas aquelle desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos, paciencia! Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o mais novo, é mesmo uma joia, e eu quero-lhe devéras.

ANTONIO

E merece-o o menino, porque muito bom é.{D1. Pg. 25}

VIGARIO

Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta instituição dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae, nem consciencia de bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi estabelecida por quem não entendia nada de agricultura, e não tinha nem amor á terra que dá os fructos, nem aos homens que a cultivam. Meu irmão, o morgado Bittencourt, não quer escutar estas verdades: mas eu só lhes recomendo, a elle, e aos outros morgados, que comparem as fazendas livres com as que estão opprimidas pelos vinculos, e que digam, depois de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde, bem cultivado; e nas vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos; que digam que isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por vaidades fofas e impios preconceitos.—Este flagello dos vinculos ha de acabar, e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses.

ANTONIO

E quando acabará ella sr. Vigario!?

VIGARIO

Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e na ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar da inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os morgados em nome das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis; quando nesta ilha, que a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos de escravidão, que ainda hoje existem pezando sobre{D1. Pg. 26} o homem do povo e unidos ao nome de villão. Os grandes padecimentos do povo hão de acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos; quando no mundo civilisado—porque o mal não existe só aqui na ilha—se não soffismar a verdade, e se não confundir a justiça com o interesse; quando a religião, a virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.—Mas esse tempo, se é que tem de chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje querer acabar com a escravidão no mundo; assignam-se tratados para abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que a seducção e a miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel.

ANTONIO

V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o sentido das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são verdadeiras.

VIGARIO

O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê ao espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem sei que entende o que lhe disse.

JOANNINHA

A verdade é para todos.

VIGARIO

Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu que lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo.

ANTONIO

O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha... deve-lhe tudo...{D1. Pg. 27}

VIGARIO

Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia. Eu entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar as creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos, e a todos é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de bem cá das aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a fazer as leis, nunca as ha de haver que prestem.

ANTONIO

É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem manda.

VIGARIO

Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes, meros expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem passaporte, põe-se um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os alliciadores, e no fim de tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio não guarda nem pode guardar nada, e os aliciadores vivem alegres e enriquecem. Não é prohibindo, é concedendo, que se ha de acabar com a emigração; não é fechando o povo dentro da ilha, como n'um carcere, é dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha de combater a febre que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam em castigar e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a viver; é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que os aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça de vis{D1. Pg. 28} especuladores lhes arranca das mãos o pão, com que elles procuram enganar a fome.

JOANNINHA

(Com susto.) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara?

VIGARIO

Muito mais do que se pensa.

ANTONIO

É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre nós algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos.

VIGARIO

Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher e filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão com os pés na sepultura.

ANTONIO

Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia fuja para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo.

JOANNINHA

E quem é, pae?

ANTONIO

O Luiz do Campanario.

JOANNINHA

Isso não póde ser.

MARIA

(Levantando-se e vindo á frente da scena.) Não pode ser. O meu Luiz não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da morte.{D1. Pg. 29}

ANTONIO

É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei...

VIGARIO

Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar, tirar-lhas-hei da cabeça.

ANTONIO

Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o pagará, meu senhor Vigario.

SCENA X

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Os mesmos e Joze Velhaco

JOZE

Sr.ª Maria das Dores... Ah! (tirando o chapeo.) Boas tardes, sr. Vigario. Estou ao seu dispor.

VIGARIO

(Com mau modo.) Bons tardes, sr. Joze.

JOZE

V. S.ª está zangado, ao que parece.

VIGARIO

Talvez.

JOZE

É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores...

VIGARIO

Pois dê-lhe a noticia.

MARIA

Diga, homem.

JOZE

Não tenha pressa de saber.

JOANNINHA

Falle, sr. Joze.{D1. Pg. 30}

JOZE

O Luiz, o seu Luiz, foi-se.

AMBOS

Para onde?

JOZE

Para Demerara.

MARIA

É mentira.

JOANNINHA

Jezus!

JOZE

Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle estará a esta hora o nosso Luiz.

MARIA

Como soube...

JOZE

Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo.

VIGARIO

E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror?

JOZE

Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha de dar remedio a todos os males.

Cahe o panno.

Fim do 1.º acto{D1. Pg. 31}

ACTO SEGUNDO

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A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, outra porta á esquerda. Á direita uma janella.

SCENA I

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Antonio Prudente e Joze Velhaco

JOZE

Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras, umas casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns poucos de centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um mau casamento. Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma rapariga póde desejar.

ANTONIO

Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella fica mal comigo,—olhe que é verdade,—fica mal comigo em eu lhe fallando neste casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe fazer fortuna. Hontem por assim dizer pobre, e hoje rico.

JOZE

Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se fazer. Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha não faz já tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que pode mandar em vez de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu conheço-me, e vmc. tambem me conhece, ein? conheço-me e sei que poucos são capazes, como eu, de fazer feliz uma mulher. Santa palavra!{D1. Pg. 32}

ANTONIO

Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau pae de familia. É certo... é certo—deixe-me dizer o que penso—que todos na freguezia o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario foi para Demerara; e quando algum rapaz desapparece daqui, dizem uns—foi o Joze Velhaco quem o enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos inglezes—outros dizem—o Joze Velhaco é bom homem, dá dinheiro aos pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas festas a Nossa Senhora...

JOZE

E vmc. o que diz?

ANTONIO

Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que dizem mal.

JOZE

É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices na cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua casa para fora.

ANTONIO

Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr. Joze, que eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre tudo, o não saiba a minha filha. Estava desmanchado o casamento, se Joanninha tal soubesse!

JOZE

Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria das Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os desejos da sua filha. Vmc. bem percebe?{D1. Pg. 33} Eu não sou muito amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas que nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes falsos testemunhos.

ANTONIO

Quando se está innocente.

JOZE

Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é uma coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este casamento se faça; porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para mim: sabe ler, escrever, e é bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha uma rapariga, que se lhe possa comparar.

ANTONIO

A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!

JOZE

Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer com que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com quem me case. Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até algum morgado que me dê uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se pode alcançar: e eu, em sendo commendador, posso casar com quem eu quizer, e ser até deputado, representante da Madeira. Ah! Ah! Ah!

ANTONIO

(Rindo muito.) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze Velhaco!

JOZE

(Em tom de discurso.) É preciso acabar com este odio á chamada escravatura branca: este odio é uma{D1. Pg. 34} vergonha para a Madeira, uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os portuguezes. Esta escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem ter de ir procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui enriquecer-me a Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que dure a emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é fingir innocencia; porque a moralidade dos politicos...

ANTONIO

Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia falla muito, e falla bem.

JOZE

Então, decide-se o casamento?

ANTONIO

Está decidido, e hade ser já.

JOZE

Falle a Joanninha.

ANTONIO

Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.

JOZE

E ella é quem o hade decidir?

ANTONIO

Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (Com violencia.)

JOZE

Mandar, sem soffrer observações.{D1. Pg. 35}

ANTONIO

Como um pai a uma filha desobediente.

JOZE

Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (Sae.)

SCENA II

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ANTONIO PRUDENTE só

É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras, depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade, quando for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras de pão, vinha e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se quer. Hade fazer-se commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por ahi mal do Joze; mas não teem razão: elle tem-me provado que de tudo está innocente. O padre Vigario tambem não é amigo delle... mas não tem razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu genro as culpas, do que succede nesta terra. (Ouve-se a voz de Joanninha cantando). Ahi vem ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; deves-te fazer respeitar e obedecer por tua filha.

SCENA III

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O mesmo e Joanninha

ANTONIO

Vens muito alegre, Joanninha.

JOANNINHA

Eu, pae!{D1. Pg. 36}

ANTONIO

Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.

JOANNINHA

Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que me faz cantar.

ANTONIO

(Perdendo um pouco a severidade.) E diziam as trovas...

JOANNINHA

Senhora do Monte

Trazei-me o meu bem,

Com tristezas destas

Não pode ninguem.

Senhora do Monte

Trazei-mo depressa,

Fazei que o meu noivo

De mim não se esqueça.

Sem elle, alegria

E paz eu perdi,

Senhora do Monte

Trazei-m'o aqui.

ANTONIO

Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.

JOANNINHA

(Com alegria.) Elle! Pois chegou?

ANTONIO

Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.

JOANNINHA

Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta freguezia?{D1. Pg. 37}

ANTONIO

(Colerico.) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer a teu pae.

JOANNINHA

N'isso, não.

ANTONIO

Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.

JOANNINHA

Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o sr. padre Vigario, e todos...

ANTONIO

É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo. O meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é capaz de pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.

JOANNINHA

Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo, e agora...

ANTONIO

Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.

JOANNINHA

Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...

ANTONIO

Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o que uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a seu pae.{D1. Pg. 38}

JOANNINHA

Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal homem.

ANTONIO

Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te anda mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É como me paga os beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na rua, e a ti levo-te á igreja por força para te casares. É demais, é demais isto, Joanna.

JOANNINHA

Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (Cae de joelhos.)

ANTONIO

As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra, que ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui até ao paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze Velhaco. Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres filhos hasde abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento. Choras agora; depois hasde rir.

JOANNINHA

Pae, não me desgrace.

ANTONIO

O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e obedecer. (Sae commovido, e escondendo as lagrimas.)

SCENA IV

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Joanninha, depois Maria das Dores

JOANNINHA

Pae!... pae!... Elle não me dá ouvidos, e eu{D1. Pg. 39} morro aqui de pura dor... que me trespassa o coração... Santo nome de Jesus, valei-me.

MARIA

(Entrando.) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, perdido de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo toda chorosa?

JOANNINHA

Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo, Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.

MARIA

Tornou-te a fallar no casamento?

JOANNINHA

Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as minhas lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle mandava e não queria ser desobedecido.

MARIA

Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem, com um homem mau, infame, não te podes casar.

JOANNINHA

Mas que se hade fazer?

MARIA

Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do Joze Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é quem na freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que me tem feito, e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu Luiz... se ainda será vivo?{D1. Pg. 40}

JOANNINHA

E sem noticias delle!... ha um anno que se foi!

MARIA

Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha cartas, isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande dor, minha Joanninha.

JOANNINHA

Ai, não diga tal.

MARIA

Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece que me diz que elle morreu.

JOANNINHA

Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.

MARIA

Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda como desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores. Nós as mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para depois, quando somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas pelos filhos que criámos. E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E Deos ainda me não chamou para si!

JOANNINHA

Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para mulher de outro não.{D1. Pg. 41}

MARIA

Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle te amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas... se morreu, de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu soffra... e tu, filha. Que não seja desassocegado no fim da vida o bom Antonio Prudente, do qual não houve nunca rasão de queixa.

JOANNINHA

Então quer que eu case com o Joze Velhaco!

MARIA

Com esse não. Mas com outro...

JOANNINHA

E se Luiz não morreu?

MARIA

Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.

JOANNINHA

Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com que cara lhe havia de apparecer?... e que olhos havia de pôr em meu marido! E depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle só morta me levarão á igreja.

SCENA V

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As mesmas e Joze Velhaco.

JOZE

É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?—(As duas mulheres dão um grito de terror.) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum diabo.

MARIA

Bem o parece!{D1. Pg. 42}

JOZE

Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta ilha a perder as raparigas honestas.

Pulsuz fraqment bitdi.

Janr və etiketlər

Yaş həddi:
0+
Litresdə buraxılış tarixi:
16 yanvar 2025
Həcm:
120 səh. 1 illustrasiya
ISBN:
4064066409241
Naşir:
Müəllif hüququ sahibi:
Bookwire
Yükləmə formatı:

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