Kitabı oxu: «Resumo elementar de archeologia christã»

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Joaquim Possidónio Narciso da Silva

Resumo elementar de archeologia christã


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066407582

Índice de conteúdo

1887

RESUMO ELEMENTAR de ARCHEOLOGIA CHRISTÃ

por Possidonio da Silva

AO LEITOR

INTRODUCÇÃO

Resumo elementar de archeologia christã

CAPITULO I

Principios da arte christã no Occidente

CAPITULO II

CAPITULO III

CAPITULO IV

CAPITULO V

CAPITULO VI

Periodo da Renascença

Nomes dos Rev. os Parochos

QUE FORAM ASSIGNANTES D'ESTA PUBLICAÇAO


1887

Índice de conteúdo






Antigo edificio religioso de Santarem
LISBOA—Museu de Archeologia do Carmo




RESUMO ELEMENTAR
de
ARCHEOLOGIA CHRISTÃ

Índice de conteúdo

por
Possidonio da Silva

Índice de conteúdo



medalha conferida em 1869
LISBOA
LALLEMANT FRÈRES, IMPRENSA
1887




Á


MEMORIA DE MEU PAE



Reinaldo José da Silva


TESTEMUNHO DE RESPEITO E GRATIDÃO


O Auctor





AO LEITOR

Índice de conteúdo


Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal cadeiras para o ensino de archeologia christã, estudo que ha muito era urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os elementos principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a quem desejar possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da conservação dos objectos do culto e evitar o ignorante modo de se restaurarem os edificios religiosos dos differentes estylos, que pertencem á nação; pois já é tempo de não se continuar a praticar nos edificios concertos mal pensados, que alteram o caracter respectivo da sua architectura, e causam tambem desdouro ao avaliar-se a nossa civilisação.


Ainda que não façamos um compendio completo, comtudo, talvez possa ser de algum auxilio para se divulgarem as instrucções principaes d'esta natureza afim de pôr cobro aos vandalismos que têem destruido tantas antiguidades e objectos preciosos do culto.


Muito embora não se consiga desde já o proficuo resultado d'este ensino, todavia ficará registado, no final do seculo XIX, o empenho que illustres Prelados têem tomado para obstar a serem illudidos os parochos nas substituições das alfaias, e para se opporem ás defeituosas restaurações dos monumentos religiosos do nosso paiz. Darei por bem empregada esta minha modesta publicação, se por ventura conseguir este empenho patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a maior parte da minha existencia.


Possidonio da Silva.




INTRODUCÇÃO[1]

Índice de conteúdo


Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos são os marcos que assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou apressados, que os povos vão dando no caminho da civilisação. Porém não se pense que, relativamente a esses padrões, a cultura de uma nação deva ser avaliada sómente pela significação d'elles, por mais gloriosa que seja, ou por mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem pelo apreço e respeito com que essa nação vela pela sua conservação.


Sobreleva Portugal a todas as nações na alta significação dos seus monumentos, porque não commemoram unicamente façanhas militares e virtudes christãs e civicas, communs a outros povos. Não recordam só mil acções de valor, de coragem e de abnegação, praticadas na defensa da patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para honra e lustre do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos d'essas arrojadissimas emprezas de navegações e descobrimentos, com que os portuguezes abriram de par em par as portas á moderna civilisação, levando a luz do evangelho, atravez de mares ignotos, ás mais longinquas regiões do globo.


Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia, foram memoradas por nossos maiores com a fundação de um templo, acanhado e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o permittiam a rudeza dos tempos, ou a florescencia da nação, bem como o animo e posses dos fundadores.


As convulsões do sólo, a pouca illustração dos reedificadores, e modernamente a sanha brutal dos demolidores, têem destruido ou desfigurado muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos de Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das nações cultas, não está, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre nós. Os poderes publicos ainda não prestam aos nossos monumentos toda a attenção e vigilante solicitude que, para a sua conservação, elles demandam, e a honra e bom nome do paiz com tanta justiça reclamam. E não basta que se attenda á conservação dos monumentos commemorativos dos grandes factos historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o nosso apreço e cuidados todos os padrões que interessam, de qualquer maneira, aos annaes da nação e á historia da arte.


Não obstante os differentes elementos de destruição, que tem actuado entre nós, ainda existem de pé n'este reino não poucas egrejas anteriores á fundação da monarchia, ou contemporaneas do nosso primeiro rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos successores. São pequenos e de construcção mesquinha todos esses templos, tendo por feição principal a mesma simplicidade e pobreza, que distinguiam n'essa epocha o viver da nação. Todavia, embora o acanhamento das proporções, e a simplicidade da architectura corram parelhas com a pobreza das memorias historicas, todas essas egrejas são exemplares de subido valor para a historia da arte em Portugal, tanto mais quanto é tristemente certo, que os grandes templos, levantados nos principios da monarchia, têem sido mascarados e desfigurados, por occasião das reedificações, como aconteceu ao de Alcobaça, á Sé de Lisboa, e a outros, ou desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra e o de S. Vicente de Fóra, em Lisboa, para em seu logar se edificarem outros mais vastos e mais sumptuosos.


Pois essas preciosas reliquias de tão remota antiguidade que têem resistido ao duro embate das tempestades no correr de tantos seculos, zombando até agora dos cataclysmos da natureza e dos furores do camartello, acham-se presentemente ameaçadas, pelo menos algumas d'ellas, de perderem, em reconstrucções dirigidas sem amor da arte, e sem respeito aos monumentos de remotas éras, as suas primitivas e venerandas feições.


E ao mesmo passo vão desapparecendo das velhas parochias sertanêjas as suas antigas alfaias, vendidas por uma bagatella, a titulo de alcançar meios para reparação do edificio, e os seus vasos sagrados dos seculos anteriores ao XVIII, de muita belleza e primôr artistico, a troco de outros de fabrica moderna, mais luzentes e vistosos, porém destituidos da formosura e elegancia das fórmas, e da delicadeza e perfeição do trabalho esculptural, que dão fóros universaes de preeminencia á ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI.


Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de França e da Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as direcções; apparecem em todas as cidades, nas villas e nas proprias aldeias, tentando com dinheiro á vista os possuidores d'essas preciosidades, que não sabem aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor.


É mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos interesses publicos, que se trate de pôr algum côbro, quando não possa obstar-se inteiramente, á assolação ou deformação d'aquelles monumentos da antiguidade, e a esta continua expropriação das nossas riquezas artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de florescencia nas artes, e por conseguinte de civilisação, que Portugal attingiu n'esse glorioso passado.


Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria oppôr a essa torrente devastadora a illustração e o zelo dos parochos, illustração e zelo provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar aquelles objectos, ricos d'arte e de memorias piedosas, que os estranhos nos cobiçam, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia.


Se os parochos tivessem algumas noções de archeologia religiosa, não consentiriam, certamente, que as suas egrejas perdessem, com feições bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar, que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e alfaias antigas, que são nos templos verdadeiros brazões da sua nobreza, e testemunhas authenticas, eloquentes na sua propria mudez, do amor da religião dos nossos antepassados, que n'elles se casava com o amôr da patria. E não limitariam esses parochos a sua acção benefica, sem duvida, a salvaguardar as preciosidades artisticas das suas egrejas; mas não deixariam tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos os conselhos do seu saber e da sua experiencia.


Foram estas considerações retemperadas pelo affecto que todos devemos á terra, que nos serviu de berço, e ás Santas Crenças, que recebemos dos maiores, que moveram a Real Associação dos Architectos e Archeologos a elevar ao esclarecido juizo dos Prelados Portuguezes o pedido de instituirem nos seus respectivos seminarios uma cadeira de archeologia religiosa.


É uma sciencia muito complexa a archeologia, não ha duvida, pois que cada uma das partes, que a compõem, e que se subdividem, a seu turno, em outras partes de materia amplissima para o estudo, constitue um ramo importante dos conhecimentos humanos, que demanda muita applicação para ser bem sabido.


Porém, no que diz respeito á archeologia religiosa é um estudo muito limitado, facil e agradavel, e que póde restringir-se, querendo abrevial-o, estabelecendo o ponto de partida da invasão dos povos septemtrionaes e destruição do imperio romano; ou dos tempos mais proximos da fundação da monarchia portugueza. O que é mister é que se dê nos seminarios aos futuros parochos a instrucção precisa para que conheçam os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos do christianismo; a epocha da sua introducção em Portugal, e as modificações, que tiveram aqui, determinadas pelo estado da nossa civilisação e pelos habitos e costumes da sociedade. É indispensavel, tambem ministrar-lhes eguaes conhecimentos em relação á ourivesaria religiosa, e ás mais artes liberaes e mechanicas, que, no correr da éra christã, têem concorrido com os seus productos para o serviço dos altares, e para a ornamentação das egrejas.


Os parochos assim instruidos não deixarão de apreciar devidamente, e de velar com verdadeiro zelo pela conservação dos edificios e dos objectos concernentes ao culto, venerandos pelas tradições religiosas e pela consagração dos seculos, e dignos de grande estima pelo seu valor artistico ou archeologico.



Ignacio de Vilhena Barbosa.




Resumo elementar de archeologia christã

Índice de conteúdo

CAPITULO I
Principios da arte christã no Occidente

Índice de conteúdo

PRIMEIRO PERIODO


CAPITULO II

Índice de conteúdo

Summario.—Descripcão das catacumbas de Roma—Principios artisticos e classificações das pinturas das catacumbas—Symbolos ou allegorias dos primitivos christãos—Representação de Jesus Christo e de Nossa Senhora—Imagens dos Santos—Monogramma de Christo—Lampadas—Sarcophagos christãos—Vasos de sangue—Monumentos christãos fóra das catacumbas—Edificios religiosos construidos nos tres primeiros seculos—Cemiterios á superficie do solo—Alfaias e instrumentos do culto.



Os mais numerosos monumentos christãos que se offerecem para o estudo da archeologia christã são os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os christãos continuaram a escavar nas antigas pedreiras da cidade novas catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os quatro ou cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em logares de peregrinação. Fizeram-se restaurações e embellezamentos n'estes sanctuarios até ao fim do seculo VIII.


As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era servirem de cemiterio aos christãos. Os tumulos ficavam dispostos nas paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres a doze. Os corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por tampas de marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres, ajustados perfeitamente com cal.


N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes. São especies de covas funerarias, no fundo das quaes se encontra muitas vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os restos mortaes de algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar no dia anniversario do martyr, em que os christãos vinham fazer as suas orações.


A fórma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares, semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior parte são quadrados.


O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de reunião para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para fazerem as suas assembléas religiosas que os primitivos christãos construiram, nos seus cemiterios subterraneos, oratorios, compostos a maior parte das vezes de dois ou tres sepulchros contiguos, e que se designam pelo nome de basilicas das catacumbas.


O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da perseguição.


A historia das catacumbas póde dividir-se em tres periodos principaes: o periodo da formação, o periodo da restauração e de visitas piedosas, e o periodo de explorações scientificas.


O primeiro periodo abraça os quatro primeiros seculos. No decurso do seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo augmento dos tumulos á superficie do solo. Depois do anno 410 não se encontram sepulturas nas catacumbas.


O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V até ao principio do seculo IX.


Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam os restos de martyres illustres.


O ultimo periodo, de explorações scientificas, data do anno de 1578.


No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma abertura que dava para um cemiterio christão decorado de pinturas, de sarcophagos e de inscripcões.


Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro seculo da nossa éra. As do seculo II são mais numerosas, porém as do seculo III são ainda em muito maior numero.


A maior parte das decorações das paredes das catacumbas foram executadas a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos em limitado numero.


Os antigos artistas contentavam-se em traçar a silhuêta dos personagens e dos objectos, enchiam em seguida o espaço comprehendido entre os contornos por côres lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente as rugas dos fatos com traços cheios e as saliencias com traços finos. Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI, desprezando, na representação dos assumptos, os accessorios.


As pinturas dos tumulos, em fórma d'arco, apparecem sobre um fundo ornado,—um assumpto com muitas figuras traçadas dentro de molduras de fórma quadrada ou semicircular.


Os ornatos são na maior parte imitações de objectos usuaes, açafates com fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de decoração de pintura da arte pagã.


Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da fórma do Bom Pastor.


As imagens do Redemptor não se encontravam isoladas, apresentando todos os caracteres das pinturas posteriores a muitos seculos á conversão de Constantino.


A Santa Virgem é figurada nas pinturas das catacumbas sobre os vidros dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando sentada, com o Menino Jesus ao collo.


A adoração dos Magos recordava aos fieis tres dogmas: a vocação dos infieis, a Divindade de Nosso Senhor, e a Maternidade Divina.


Os primitivos christãos representavam tambem a Virgem com ou sem o Filho, debaixo da forma d'uma orante, isto é, em pé e levantando os braços n'uma attitude de supplica. Muitas imagens são anteriores ao seculo IV.


Jesus Christo multiplicando os pães: figura a Santa Eucharistia, como sendo alimento das almas.


O Salvador é representado em geral debaixo da figura d'um mancebo imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de purpura.


O paralytico curado é representado no momento em que, deixando a piscina, leva a sua cama ás costas. Está vestido com uma tunica e cinta e uma especie de ceroulas.


Jesus resuscitando Lazaro: é representado Lazaro debaixo da fórma d'uma pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na posição vertical á entrada do tumulo, que tem a fórma de um edificio ou pequeno templo.


As representações de refeição dividem-se em duas classes conforme symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados á bemaventurança.


A felicidade dos predestinados é symbolisada por um banquete ao qual servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como os principaes do Paraiso.


Jesus Christo rodeado dos seus discipulos: representa o ensino dado aos apostolos e a celebração da ultima ceia do Senhor.


As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em geral são posteriores á conversão de Constantino. Muitas são ornadas de resplendor, que só foi dado aos Santos no principio do seculo VI.


A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia, é muito commum nas pinturas das catacumbas e sobre os monumentos christãos dos primeiros seculos.


Entre os primeiros christãos, Orpheu deleitando os animaes ferozes com os sons da sua lyra, era um symbolo de Jesus Christo domando as paixões dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua doutrina.


Os primeiros christãos reproduziam de differentes maneiras as quatro estações sobre as paredes das catacumbas e sobre os sarcophagos, porque as estações symbolisavam aos olhos dos christãos a futura resurreição.


Os primitivos christãos serviam-se dos symbolos, em primeiro logar, para subtrahir á irrisão dos infieis as mais augustas verdades da religião, e em segundo logar, para se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes symbolos eram a pomba, o peixe, a barca, a lyra e a ancora.


Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos symbolos mais divulgados entre os christãos para significarem Jesus Christo. Empregava-se de dois modos, como nome e como figura. A palavra ichtus, que significa peixe, fornece as iniciaes das palavras Jesus Christo Filho de Deus.


O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a mesma significação, era um signal hyerogliphico lembrando aos christãos a palavra grega e todas as verdades que ella symbolisava. Tanto o acrostico como o peixe symbolico, era principalmente gravado sobre as pedras e sobre os objectos portateis para o uso da piedade dos primeiros christãos.


A Cruz que se encontra nos monumentos christãos dos quatro primeiros seculos apresenta-se com fórmas dissimuladas, de ancora, que era ao mesmo tempo o symbolo da esperança, e serve desde o primeiro seculo para recordar aos fieis o signal da Redempção.


Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar Jesus Christo.


Os primitivos christãos tinham por costume orar em pé, com os braços estendidos e levantados para o ceu. Na maior parte dos monumentos christãos primitivos vêem-se fieis dos dois sexos, e principalmente mulheres em attitude de orantes.


A orante symbolisa a alma christã admittida no ceu e considerada esposa de Jesus Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se encontram aos lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna.


Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos christãos de toda a especie a pomba, e principalmente nos epitaphios dos seis primeiros seculos da nossa éra. Nos tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e innocente dos fieis. A oliveira que está ao seu lado ou o ramo d'esta arvore, que muitas vezes tem no bico, são o symbolo da paz que gosa a alma, e equivale á formula in pace, tantas vezes empregada nos epitaphios.


A palma tem sido em todos os tempos o symbolo do triumpho; os christãos primitivos collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a victoria ganha pelo defuncto aos inimigos da fé.


O monogramma de Constantino ou simplesmente monogramma são as duas letras gregas X P ligadas da seguinte maneira:



Outro monogramma cruciforme parece ter existido no Oriente e tem a letra X com a fórma d'uma cruz† onde está ligada na perpendicular superior a barriga da letra P:



As duas fórmas tambem se empregaram no Occidente.


A partir do meado do seculo IV, o monogramma é muitas vezes acrescentado com mais duas letras gregas A eΩ, a primeira e a ultima do seu alphabeto.


O monogramma data da conversão de Constantino que mandou fazer o lábaro, que era encimado pelo monogramma.


Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos mysterios.


As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em fórma de tumulo. As tumbas em arco tinham uma prateleira horisontal cobrindo os restos do santo martyr; sobre esta prateleira é que se dizia a missa.


As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a fórma das lucerncae dos antigos. Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos symbolos mais usados na Egreja primitiva. A maior parte são de argila; tambem se encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma epocha menos remota, são quasi todas munidas de cadeias que serviam para as suspender nos tectos das capellas.


Chama-se sarcophago (palavra derivada de sarcos carne e phagos eu como) um tumulo de marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de esculpturas.


Podemos classifical-os em simples, mixtos e ricos.


Os sarcophagos simples apresentavam a fórma de um cofre rectangular sem ornamentação.


Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se chamava strigiles.


Os strigiles são canneluras de fórma sinuosa, imitando o raspador, instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na occasião de se banharem, a humidade e os corpos estranhos espalhados na superficie da pelle.


Os sarcophagos ricos têem as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas de esculpturas em baixo, ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre uma mesma face muitas scenas ou figuras, são justapostas simplesmente, ou separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios colhendo fructos.


Muitos sarcophagos têem, no centro da face principal, um medalhão circular, onde se vê em busto a figura do defuncto. Os tumulos que serviam de sepultura a dois esposos, têem dois bustos, e algumas vezes uma arcada central apresentando, com a mesma significação, dois personagens em pé dando a mão e chorando.


Os sarcophagos mixtos são ornados parte com strigiles e parte com figuras gravadas a traço ou esculpidas em relevo.


Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas officinas pagãs, ou esculpidos por artistas christãos, segundo modelos profanos.


As scenas da Paixão propriamente dita, taes como a flagellação, o coroamento de espinhos e a crucificação, não se encontram representados em monumento algum do primitivo christianismo.


Os christãos dos primeiros seculos punham muitas vezes nas sepulturas objectos que tinham pertencido ao defuncto.


Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis, bracelêtes e bijoterias, brinquedos de creança, relicarios portateis, vasos de vidro ou d'argila collocados ordinariamente perto das cabeças dos cadaveres, instrumentos de supplicio.


Vasos de sangue. Entre os signaes certos do martyr o principal é o vaso de vidro ou d'argila, que serviu para recolher o sangue do martyr, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho sepulchral.


Objectos collocados no exterior do tumulo. Entre estes objectos, uns são executados pela mão do homem, outros não o são. Podem classificar-se, na primeira cathegoria, os baixos relêvos, as estatuetas, os pequenos bustos, e os fragmentos de esculpturas em pedra e em marmore, os cacos de louça, os fragmentos de vasos de crystal e de vidro esmaltado e dourado, os prismas e as pequenas placas de mosaico, os anneis, os collares, os bracelêtes, e um grande numero d'outros objectos de toilette feminino, d'ambar, ouro, marfim e nacar, os brinquedos de creança, as folhas de taboa de escrever, as placas de bronze, as guarnições e os ornamentos para portas e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e as medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o objecto mais ordinario até ás joias mais preciosas.


Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias, os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes; pedaços de tufo, estilhaços de pedra ou de tijôlo, caróços de fructos, folhas d'arvore ou de planta, dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de mexilhão e d'ôstra, conchas, etc.


Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer idéa.



Outros monumentos christãos dos tres primeiros seculos além das catacumbas. Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos sobre a terra, dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos sagrados e dos instrumentos do culto, anteriores á abjuração de Constantino.


Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham em seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar os Santos Mysterios na presença da multidão dos fieis. Muitos d'estes oratorios foram substituidos, depois da abjuração de Constantino, por basilicas, ás quaes deram o nome das pessoas piedosas que haviam cedido á egreja o direito de propriedade; e se mais tarde estas pessoas ficavam consideradas no numero dos Santos, estas basilicas eram-lhes dedicadas.


A mais remota menção d'um templo christão data do tempo de Alexandre Severo, que foi imperador desde 222 até 235.


Não é conhecida a fórma nem a distribuição interior d'estas primitivas egrejas.


Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos, até hoje conhecidos, são as cellas dos cemiterios, ás quaes se deu tambem o nome de basilicas, desde o principio do IV seculo.


Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para ponto de reunião dos fieis.


Cemiterios ao ar livre. As sepulturas christãs foram estabelecidas, desde o principio, ao ar livre.


Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de d'areae[2] eram, do mesmo modo que as catacumbas, situados fóra das portas das cidades; porque as leis romanas prohibiam severamente as inhumações dentro dos muros. Depositavam-se os cadaveres, quer em simples fóssas, algumas vezes revestidas interiormente de tijólos e de lages, quer em pias de pedra, ou caixões de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos tumulos mais ricos eram, dadas certas circumstancias, rebocadas de argamassa, ou estucadas e decoradas com pinturas a frêsco, semelhantes ás das galerias e capellas sepulchraes das catacumbas. Paramentos e objectos do culto. Parece certo que, durante os primeiros seculos, os paramentos sagrados não se differençavam dos fatos ordinarios, nem pela fórma nem pelo talhe. Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as fórmas e os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem aproveitavam para o serviço dos altares os vasos ricos e preciosos que haviam servido aos usos profanos.

CAPITULO III

Índice de conteúdo

Summario.—Estylo Latino—Estylo Bysantino—Fórmas das Basilicas—Origem da Basilica Christã—O Narthex—Orientação das Basilicas e Egrejas Christãs—Egrejas cruciformes, circulares e polygonaes—Cryptas—Baptisterios—Oratorios domesticos—Templos pagãos e edificios profanos apropriados em Egrejas Christãs—Systema e regras de construcção—Decoração monumental—Narthex, fachadas e portaes das Basilicas—Janellas e a maneira de as vedar.—Madeiramento do cume dos edificios—Torres—Pinturas representadas em mosaico—Pavimento nos edificios—Altares—Ciborium—Ambon, Tribuna para as leituras da Biblia—Poltrona para os bispos e bancos para os sacerdotes—Cemiterios—Monumentos funerarios—Sarcophagos—Tumulos subterraneos—Objectos com symbolos christãos achados nas sepulturas—Alfaias religiosas—Calices e Patenas—Custodias—Relicarios—Pombas e torres—Accessorios do altar—Corôas de metal precioso suspensas sobre o altar—Dipticos—Encadernação dos livros dos Evangelhos—Estofos religiosos—Paramentos sacerdotaes—Jesus Christo sob fórmas symbolicas—Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.

Periodo Latino e Bysantino. A architectura christã póde considerar-se dividida em dois ramos perfeitamente distinctos. O primeiro, que se poderá chamar o Estylo Latino, foi adoptado pela egreja Latina, isto é, na Italia, na Illyria, na Dalmacia e em toda a Europa Occidental. É caracterisado pela imitação mais ou menos correcta da architectura classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob a influencia Oriental, uma configuração inteiramente nova: deram-lhe o nome de Bysantino.

O Estylo Latino predominou no Occidente até ao principio do seculo VIII; e o Estylo Bysantino no Oriente, até á tomada de Constantinopla pelos Musulmanos, em 1453.

Chamou se Latino o estylo do imperio do Occidente, em primeiro logar porque, derivando do Estylo Romano ou Classico, foi empregado nos paizes em que a lingua latina era a lingua ecclesiastica e vulgar; em segundo logar, porque existiu tanto tempo como aquella lingua, approximadamente.

O Estylo Bysantino tem o nome derivado de Bysancio ou Constantinopla, capital do imperio do Oriente.

Estylo Latino. A architectura greco-romana chegou ao seu apogêo durante os dois primeiros seculos da era christã. A sua decadencia começou no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo Classico.

No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua degeneração.

Começaram então a desmanchar os antigos monumentos para em seu logar construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros monumentos christãos do periodo Latino.

Fórma das basilicas. As basilicas profanas eram vastos edificios construidos no Forum, ou nos arredores das praças publicas. Serviam para ponto de reunião dos vendedores, assim como de outros individuos que se occupassem de negocios. Era n'ellas que os magistrados administravam Justiça.

As basilicas christãs foram construidas segundo o modêlo das basilicas profanas; sómente, em vez de se construirem ao longo das praças publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o fim de as afastar do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as basilicas profanas, a fórma d'um rectangulo mais ou menos alongado e compunham-se de tres partes principaes—o pateo ou o atrium; a nave e o Sanctuario.

O narthex abria-se ao fundo do atrium. Era uma especie de vestibulo, propriamente dito, formado pelo portico transversal contiguo á fachada da basilica.

Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas assembléas dos fieis.

Do narthex, entrava-se por uma, tres ou cinco portas para a basilica, que era ordinariamente dividida em tres naves por duas ordens de columnas.

A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as mulheres.

Avançando pela nave dentro, encontravam-se os ambons, pulpitos destinados á leitura dos Santos Evangelhos para as prédicas, e á promulgação das leis ecclesiasticas.

Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e mais veneranda, aquella onde os seculares não podiam penetrar, e que se chamava o Sanctuario.

O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns poucos de lados.

Atraz do altar desenvolvia-se o abside de fórma semi-circular e coberto ordinariamente com uma meia cupula.

A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do abside, e para ella se subia por uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se achavam, contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos destinados aos padres, que assistiam aos Officios Divinos.

A alteração mais notavel, que a disposição interior das basilicas soffreu com o andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave transversal, entre o abside e a nave propriamente dita.

Orientação das basilicas e das egrejas christãs. Chama-se orientação uma disposição particular, segundo a qual o eixo longitudinal d'um edificio, d'um tumulo, etc., se dirige uma disposição particular, segundo a qual o eixo longitudinal d'um edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente para Oriente.

Desde a primitiva que a egreja christã adoptou o costume de orar voltando o rosto para o Oriente.

O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do Christianismo.

Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a capella-mór do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais tarde, a posição de todas as partes da egreja é completamente trocada, a fachada está voltada para o Occidente, e a capella-mór para o Oriente.

O primeiro modo d'orientação não durou muito tempo. Nos seculos V e VI, a começar no V, se construiram muitas egrejas com a capella-mór voltada para o Oriente. No Occidente a mudança effectuou-se lentamente, pois só se completou durante o seculo XIII.

Cryptas. A maior parte das basilicas foram edificadas nos mesmos sitios onde tinham sido sepultados os restos mortaes d'um Martyr, ou de qualquer Santo illustre.

Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura.

As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas, tiveram o nome de cryptas, da palavra grega que significa, eu escondo.

Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o presbyterium; bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas que recebiam os arcos das abobadas, formando assim muitas naves.

Baptisterios. Distinguem-se tres especies de baptismo: o baptismo por immersão, o baptismo por aspersão, e o baptismo por infusão ou affusão.

O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lança a agua sobre a cabeça do neophito. O baptismo por immersão foi usado até ao seculo XII; a começar d'esta épocha, principiou a ser substituido, na egreja Latina, pelo baptismo por infusão, do qual até ali se não serviam, a não ser para os doentes em perigo de vida.

Primitivamente era reservada aos Bispos a administração do Solemne Baptismo. O Bispo mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada vez uma das Pessoas da Santissima Trindade.

Depois da abjuração de Constantino, quasi se generalisou por toda a christandade o baptismo ministrado nos edificios particulares situados ao lado das principaes egrejas, e especialmente das cathedraes.

Os baptisterios tinham em geral a fórma circular ou octogona, mas alguns havia quadrados, e outros ainda em fórma de cruz grega. As pias baptismaes eram muito grandes, porque muitas vezes se ministrava a adultos o baptismo por immersão.

Templos pagãos e edificios profanos convertidos em egrejas christãs. Os templos pagãos não se prestavam em geral para o culto christão, em consequencia das suas diminutas proporções.

Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras modificações, em egrejas christãs, e outros foram-lhes encorporados.

A maior parte d'estas transformações datam do reinado do imperador Theodosio (383-385), e dos seus successores immediatos.

Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas christãs; taes como as thermas e os banhos, que entre os romanos excediam em magnificencia os proprios templos.

Caracteres do Estylo Latino. As basilicas christãs foram muitas d'ellas construidas, aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas em consequencia das basilicas serem muito mais vastas do que os templos pagãos, tornava-se por isso não raras vezes necessario desmanchar muitos d'esses monumentos para construir uma só basilica.

A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a reunir fragmentos de dimensões e estylos differentes, e ajustavam-nos o melhor que podiam.

Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos monumentos, não pertenciam muitas vezes á mesma Ordem d'architectura; tendo portanto os fûstes e os capiteis de alturas differentes, enterravam os fustes, ou os collocavam sobre soccos. O desvio e a distancia relativa das columnas variavam dentro de limites excessivos.

A unica innovação d'alguma importancia introduzida nas construcções, foi a substituição da arcada pela architrave.

Nas regiões onde escasseavam monumentos antigos, os edificios do periodo Latino eram em geral muito pequenos, baixos e pobremente decorados, muitos até de madeira.

Apezar do que acabâmos de expôr, no seculo V e VI, construiram-se em Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes ainda alguns se conservam), sem que fôsse necessario recorrer á devastação que tiveram os anteriores; o que prova existir n'aquella epocha em Ravenna uma brilhante escola de habeis constructores.

Materiaes de construcção. As basilicas e os monumentos do periodo Latino eram construidos com pedras d'alvenaria regulares, quasi sempre quadradas, de mediano preparo, e tambem com tijolos chatos, ficando separados por uma espessa camada de cimento. Muitas vezes tambem os muros eram formados por cordões de uma, duas ou muitas faxas de pedras d'alvenaria alternadas com outras compostas de uma ou duas fiadas de tijolos.

Decoração dos monumentos. O periodo Latino não foi epocha de esplendor para a architectura ornamental.

O ábaco dos capiteis recebeu, durante o periodo Latino, dimensões e um esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel sobrepôsto sobre outro. A frente do ábaco era adornada, do lado da nave principal, com um symbolo, que algumas vezes era o monogramma do fundador, e em geral havia uma Cruz d'ordem Trina isolada, ou inscripta n'um circulo. Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos braços são mais largos nas extremidades do que no ponto de intersecção dos ramos. Esta cruz, quer só, ou entre dois cordeiros, ou entre dois passaros, com a frente um para o outro, foi um dos symbolos christãos mais usados durante o periodo Latino.

Narthex, fachadas e portaes das basilicas. O narthex interior occupava o fundo do atrio, e era formado pelo portico contiguo á fachada principal da basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que rodeavam o atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Romão, na provincia do Douro.

Nas basilicas latinas, quando a configuração do terreno não permittia estabelecer o atrio e o narthex, substituiam algumas vezes estes, por galerias altas collocadas no interior do edificio ao longo da nave.

Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes ricos do estylo classico.

As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira. Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de monumentos pagãos. No seculo IX, a egreja de Santa Maria Maior, em Roma, tinha portas de prata.

Janellas e vidraças. As janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a baixo, e de volta inteira.

Serviam de vidraças a estas janellas grandes laminas de marmore ou de pedra, atravessadas de buracos para por elles penetrar a luz no interior dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de maneira que offereciam á vista os mais complicados desenhos. Na Europa Occidental e Septemtrional, em que as laminas de pedra e de marmore escasseiavam, guarneciam as janellas com caixilhos de madeira.

As clara-boias muitas vezes não tinham cobertura, principalmente nos paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com laminas de pedras translucidas ou de placas de alabastro.

Desde o seculo VII que começou a haver vidraças com vidros brancos e esverdeados, e até mesmo com vidros de differentes côres. Não appareciam ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros; as vidraças com vidros de côr eram formadas por um grande numero de vidros coloridos, cortados de differentes modos e que se reuniam de certa maneira, a fim do conjuncto representar figuras de fórmas regulares.

Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam com madeira.

A maior parte d'esta construcção ficava visivel no interior dos edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira com pinturas diversas, representando caixões ricamente adornados e dourados.

Raras eram as basilicas que desde a sua fundação tinham possuido torres. Os campanarios que hoje se vêem proximo das antigas egrejas de Roma, são quasi todos posteriores ao seculo VIII. As torres do periodo Latino são na maior parte de fórma circular ou octogonal.

Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam revestidas com vistosos mosaicos.

Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho, eram folhas de marmore e pedaços de vidro.

Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem ao centro a imagem de Jesus Christo em pé ou sentado, com o braço direito erguido, ou lançando a benção, e com um rolo de papel ou um livro collocado á sua esquerda. Aos lados do Salvador estão representados os Apostolos, ou outros Santos. O sólo que pisam é o da Judeia, o que se conhece pela representação do rio Jordão, cujo nome é muitas vezes inscripto debaixo dos pés de Jesus Christo, e pela presença das palmeiras, que foram, desde o primeiro seculo da era christã, o symbolo da Terra promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a largura, uma zona estreita, no centro da qual se vê o Cordeiro Divino coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os quatro rios do Paraíso: Geham, Phison, o Tigre e o Euphrates, symbolos dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada lado, se dirigem para o cordeiro symbolico, e parecem sahir das cidades Santas de Jerusalem e Bethlem, que occupam os extremos da composição, e se acham representadas por varias portas e muralhas com ameias. Estes cordeirinhos symbolisam os fieis.

Alguns mosaicos representam o sonho de S. João, isto é, os quatro animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte e quatro velhos, vestidos de mantos brancos, offerecendo coroas ao Cordeiro.

Para piso das basilicas, os primitivos christãos serviam-se dos differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo genero, chamado opus alexandrinum, assim designado por ter sido usado primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes e vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no sólo. O empedramento alexandrino foi muito pouco empregado na Europa Occidental e Septemtrional.

Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes preciosos.

Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano é de palhetas de prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica, é de palhetas de ouro.

Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se celebravam os Santos Mysterios; porém, a começar do seculo III, este uso foi approvado tambem pela Egreja.

No Occidente, o altar era quasi sempre erigido sobre o tumulo d'um martyr. Os restos mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo do altar n'um sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam depositados n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na Grecia como no Oriente, nunca em tempo algum, e até mesmo em nossos dias, se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava aquella sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar nunca encerrava reliquias. Desde o tempo de Constantino, que data a maior parte dos altares das egrejas do Occidente. No principio do seculo VI (517) o concilio de Épona prescreveu, que todos os altares fossem de pedra, os quaes foram adoptados pela razão symbolica de ser considerado o Salvador a pedra angular.

Os altares de pedra d'essa épocha eram sempre formados por uma especie de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a mesa do altar propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um sarcophago ou um tumulo de madeira; outras é sustentada por um pé central em forma de cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo até seis columnellos.

Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam verticalmente, servindo de supporte á terceira, collocada horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a fórma de um cofre de pedra.

A Auréola era formada de folhagens e sustentada por quatro anjos; Nosso Senhor Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente se reconhecem pelas suas asas abertas. Uma mão figurada no remate superior da Auréola, é para indicar a presença de Deus. É tambem adornada de flores, para indicar que o assumpto se passa no Céu.

As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo VIII. Essas figuras com posições grotescas e forçadas, teem todas o rosto de frente, e os membros desproporcionados, sendo tudo d'uma imperfeição tal, que é difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude.

A inscripção, muito mal escripta, e n'uma linguagem quasi inintelligivel, não é mais esmerada do que as esculpturas.

Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas não tinham esculpturas, eram então revestidas de laminas de ouro e de prata, com engastes de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas, representando algumas vezes assumptos sagrados.

Desde o seculo IV até meiado do XII, que as mesas dos altares eram muitas d'ellas escavadas em fórma de bandeja em toda a extensão do plano superior, tendo um rebórdo de alguns centimetros de altura; às vezes tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com um ou muitos buracos, cuja serventia ainda não foi possivel descobrir. O altar era encimado por um ciborium, especie de docel ou baldaquim, sustentado por quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal.

Entre as columnas do ciborium havia umas cortinas ou reposteiros de corrediça, que se corriam para occultar o officiante e o altar durante a consagração.

O ciborium, que data do seculo XII, tem uma fórma um tanto differente da que foi posta em uso durante o periodo Latino.

As cortinas dos antigos ciboriums eram em geral de preciosissimos damascos de seda e ouro, ou com ricos lavores, guarnecidos de perolas, pedrarias e mesmo laminas de ouro e de prata.

Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde houve egrejas no Occidente, que tinham muitos.

Os gregos e os orientaes nunca tiveram senão um altar nas suas egrejas.

Os altares portateis antigos compunham-se, bem como os mais recentes, de uma prancha rectangular de madeira, de pedra ou de metal, algumas vezes munida de uma moldura de ouro ou de prata, e tendo no extremo um appendice para servir de punho. Não se acharam altares portateis do periodo Latino, não obstante parecer indubitavel que deveriam ser communs n'aquelle periodo.

Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era destinada á leitura dos Santos Evangelhos e aos sermões. Algumas egrejas possuiam tres: uma para o Evangelho, outra para a Epistola e outra para as prophecias.

A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha chamada o facho do Evangelho.

Nas basilicas christãs, o sanctuario e o côro eram separados da nave por uma divisão, umas vezes occultando o recinto, e outras ficando rendilhado, á altura de metro e meio a dois metros acima do chão. Esta divisão, chamada cancello, era muitas vezes de marmore.

A cadeira episcopal ou cathedra occupava o fundo do abside. Era de pedra de marmore precioso, e elevada tres degraus, pelo menos, acima do presbyterio.

Havia tambem cadeiras de marfim.

Aos lados da cadeira episcopal, e ao longo da parede do hemicyclo, achavam-se os bancos destinados aos padres, chamados algumas vezes exedrae, pelos auctores antigos. Eram muito simples, e durante o officio cobriam-se com almofadas.

A partir do meado do IV seculo caíu a pouco e pouco em desuso o enterramento nas catacumbas; e no principio do seculo seguinte, desappareceu completamente. Os cemiterios estabeleciam-se á roda da capella-mór das egrejas e das basilicas, situadas fóra dos muros das cidades, com os seus tumulos quasi sempre orientados.

N'estes cemiterios depositavam-se a maior parte das vezes os cadaveres em covas de pedra e cal. Entre duas paredes parallelas e distantes entre si 70 centimetros, pouco mais ou menos, abriam-se, por meio de lages ou simples tijolos, nichos de tamanho sufficiente para receber um cadaver. Estes nichos chegavam ás vezes a disporem-se em dez ordens, umas sobre as outras. Este systema foi o adoptado para as sepulturas dos cemiterios do IV, V e VI seculos.

Algumas vezes tambem os cadaveres eram encerrados em sarcophagos, que em seguida se cobriam com terra, ou se collocavam tanto ao ar livre como debaixo de abobadas, no interior das egrejas e das basilicas.

Foi sómente no VII seculo que a Egreja começou a permittir, ou antes a tolerar, as inhumações, não precisamente no interior, mas em redor dos templos situados dentro das cidades. Unicamente os bispos haviam até ali gosado do privilegio de serem enterrados nas suas egrejas Cathedraes.

Durante o periodo Latino foram muito raros os edificios isolados que se construiram para servir de sepultura aos grandes personagens.

As esculpturas dos sarcophagos começaram a modificarem-se no meiado do V seculo. Os assumptos biblicos desapparecem a pouco e pouco, e são substituidos por imagens de Santos. A Cruz da SS. Trindade ou o monogramma de Christo occupa, muitas vezes, o centro da face principal dos sarcophagos, destinada antes para o logar do Salvador, tendo aos lados pombas, pavões, palmeiras, parras e outros symbolos.

As tampas são ornadas de Cruzes da SS. Trindade, formadas pelo entrelaçamento de Cruzes gregas e de Cruzes de Santo André, isto é, em fórma de X.

O meio da face principal d'alguns sarcophagos é occupado pelo monogramma de Christo, que d'este modo preenche o logar do Salvador. Os pavões aos lados do monogramma são os emblemas dos Apostolos, e as pombas, bicando os cachos de uvas, symbolisam os fieis alimentando-se do vinho eucharistico. A maior parte dos sarcophagos eram de pedra ou de marmore; no entanto alguns havia de chumbo e até mesmo de gesso.

Os sarcophagos do IV seculo tinham todos a mesma largura e a mesma altura nas extremidades; do V seculo, apparecem muitos tendo o lado da cabeça mais largo que o dos pés.

As campas sepulchraes são em geral indicio de uma sepultura subterranea. O seu uso é muito remoto. As lages tumulares, assentes sobre os tumulos subterraneos ou nos nichos ao longo das paredes, eram já empregadas no V seculo, sendo muitas vezes esculpidas em relevo, e tambem algumas ornadas com desenhos só a traço. Por vezes ajustavam na parede, onde existia qualquer sepultura, uma placa de marmore ou de pedra, sobre a qual se gravavam symbolos, o nome do defuncto, a sua idade, ou tambem o dia do seu fallecimento.

Os tumulos dos cemiterios primitivos podem-se dividir em tres classes, segundo os objectos que n'elles se encontram. A primeira classe comprehende aquelles em que, além do esqueleto, se não encontra mais objecto algum, a não ser ás vezes uma pequena faca: estes tumulos são os dos servos ou pessoas de condição servil. Nos tumulos da segunda classe, o esqueleto é acompanhado do grande alfange de ferro, chamado scramasaxe: são estes os dos homens livres ou senhores feudaes. O homem livre gosava do privilegio de trazer á cintura este instrumento, que com elle era tambem depositado no tumulo. A terceira classe era constituida ordinariamente por um certo numero de tumulos ricos em coisas de toda a especie, principalmente em armas e objectos de toilette feminina: são esses os tumulos dos chefes militares, dos guerreiros e membros da sua familia.

O homem de guerra era sepultado com todo o seu equipamento, e ao lado depositava-se a sua esposa, adornada com todas as joias que tinha usado durante a vida.

As fivelas (fibules), que se encontram em tão grande numero n'essas sepulturas tinham duas serventias.

As maiores serviam para fechar o boldrié de coiro onde se suspendia o scramasaxe. Quasi todas são de ferro, sendo algumas marchetadas de prata ou revestidas de laminas de prata, com lavores representando folhagens ou figuras. Encontram-se algumas de bronze, e são as mais bellas.

Ha tambem umas fivelas de bronze e de menores dimensões, que serviam para ligar o vestuario á roda dos rins, para individuos dos dois sexos. Estas fivelas eram em geral menos lavradas que as do cinturão. Algumas havia tambem de ferro.

Os alamares, broches ou fibulas, destinadas a unir sobre os hombros ou sobre o peito as duas extremidades do vestuario, são sem duvida os objectos mais interessantes que se encontram nas sepulturas dos cemiterios. Ha-os de ouro, de prata, de bronze, e encontram-se sobretudo nos tumulos de mulher.

Encontram-se tambem frequentemente nos tumulos de mulher, pregos para segurar o cabello, com cabeças de aperfeiçoado trabalho. Ha-os de ouro, de prata e de bronze, com grandes comprimentos.

Os brincos das orelhas são em geral, assim como os pregos para o cabello, pequenas obras primas de ourivesaria. Compõem-se quasi sempre de um annel de grande diametro, ao qual está ligado um pequeno botão de ouro cheio de filigranas e de vidrilhos embutidos. Os collares que frequentemente se encontram nas sepulturas de mulher, compõem-se de contas, de fórmas e dimensões differentes, enfiadas n'um cordel. As contas são de vidro e de loiça de diversas côres, e de coral natural ou arredondado; tem-se tambem encontrado, mas raras vezes, contas de ouro massiço. As de vidro e de loiça são, em geral, pintadas com differentes camadas de côres juxtapostas, que adherem pela cozedura, reprezentando zig-zags, e outras muitas figuras estriadas. As côres que predominam, são o vermelho, o amarello, o verde, o pardo, o azul, o branco e o preto.

As vasilhas de barro constituem o complemento obrigado de todos os tumulos antigos. Encontram-se, quasi sempre, uma ou duas aos pés do esqueleto. Parece que estas vasilhas serviam aos pagãos para conterem agua lustral. Em seguida á sua crença na verdadeira fé, os convertidos ao Christianismo continuaram a encerrar vasilhas nos tumulos, porém mudaram a significação d'esta ceremonia funebre, substituindo a agua lustral pela agua benta.

A maior parte d'estas vasilhas são de barro preto e vermelho. Muitas apresentam a fórma d'uma pequena urna, tendo na parte superior do bojo ornatos de estylo muito rudimentar, feitos em volta e por meio da ponta d'um instrumento cortante.

As vasilhas de vidro, de fórmas elegantes e variadas, que se encontram nas sepulturas junto á cabeça ou aos pés do esqueleto, mostram que a arte de vidraceiro já tinha attingido um elevado gráu de perfeição. O maior numero são de vidro, d'um amarello esverdeado, soprado ou moldado; algumas têem como ornato riscas delgadas, brancas ou de côr, feitas depois da sopragem ou misturadas com a massa vitrea.

A introducção do Christianismo entre os Francos data do fim do seculo V. Não é por isso para admirar o encontrarmos nos seus tumulos objectos ornados com symbolos christãos.

O calice occupa o primeiro logar entre os vasos sagrados. Já os Apostolos se serviam de calices para a celebração dos Santos Mysterios.

Nos primeiros seculos da egreja, os calices eram de madeira, de vidro e até mesmo de chifre.

Depois da conversão de Constantino, é que se começou a generalisar o uso dos calices de ouro e de prata. Muitas vezes eram tambem ornados de pedrarias.

Existem calices de differentes especies. Os calices ordinarios, que se compõem, como os de todas as idades posteriores, de uma taça, um nó e um pé, tinham, em geral, a taça de fórma cylindrica, mais ou menos vasada, muito estreita e profunda. Os calices da segunda especie eram os calices ministeriaes, que serviam para distribuir aos fieis o precioso sangue, quando estava em uso a communhão de duas especies na Egreja. Este uso foi abolido no XIII seculo. Os calices ministeriaes, em geral, de grandes proporções, tinham duas asas.

Havia ainda os calices das offerendas, calices offertorii, nos quaes os diaconos recebiam as oblações de vinho; os calices baptismaes, que serviam para dar aos novos baptisados uma mistura de leite e de mel; e os calices de adorno, que nos dias solemnes eram suspensos na egreja, nas proximidades do altar, ou collocados sobre a credencia.

A patena, assim chamada do verbo latino patere, estar aberto, em consequencia da sua fórma larga e pouco profunda, é um prato de metal, de vidro, ou de qualquer outra substancia, no qual se colloca a Hostia, durante a Santa Missa. O seu uso é tão remoto como o do calice.

As patenas eram redondas, quadradas ou polygonaes e munidas d'um rebórdo.

O uso de reservar a Santa Eucharistia para os doentes e ausentes, provém desde a origem do Christianismo.

Pouco depois, quando os altares foram augmentados com o ciborio, suspendiam a reserva Eucharistica encerrada em vasos com a fórma de torres e pombas. Os vasos para as Sagradas Particulas tinham primitivamente a fórma de uma pomba. Quasi todos eram de ouro, de prata e de cobre dourado. A pomba Eucharistica encerrava-se geralmente em um Tabernaculo com fórma de torre.

Durante o período Latino-bysantino, os corpos dos Santos eram cuidadosamente encerrados em sarcophagos, e depositados em cima d'um altar ou n'uma crypta subterranea.

O Relicario para o Santo Lenho tem quasi sempre a fórma de pequenas Cruzes peitoraes, concavas interiormente, e abrindo-se em toda a sua altura, por meio d'uma dobradiça collocada no vertice superior da Cruz.

As chaves da confissão de S. Pedro são assim chamadas, porque se diz, que serviam para dar ingresso no tumulo do principe dos Apostolos, na crypta da basilica Vaticana. As chaves são grossas, ovaes, ôcas e de lavores rendilhados.

Os Soberanos Pontifices dos primeiros seculos tinham por uso distribuir aos reis, aos principes e aos bispos, parcellas das cadeias de S. Pedro, dentro de anneis, cruzes, e principalmente em preciosas chaves.

Desde o IV seculo que começaram a importar de Jerusalem os oleos provenientes das lampadas que ardiam de noite e de dia no Santo Sepulchro, e em outros logares Santos.

Os Papas e os Bispos enviavam estes oleos ás egrejas, aos soberanos e ás pessoas de distincção. Eram conservados e remettidos em pequenos vasos de vidro ou de metal, circulares, e achatados, com gargallo.

Durante os primeiros seculos, a Mesa do altar estava inteiramente livre e a descoberto, e só se punha em cima o pão, o vinho e os Vasos Sagrados necessarios para o Santo Sacrificio.

Os Crucifixos e os castiçaes eram desconhecidos durante os primeiros seculos. N'essa épocha apenas algumas vezes se via uma cruz ao lado direito do altar.

Corôas de altar, geralmente de metal precioso e ornadas de pedrarias engastadas, constituiram, durante todo o periodo latino, o mais rico accessorio do altar.

As mais notaveis corôas de altar, que foram descobertas em 1858 e 1860, em Toledo (Hespanha), são em numero de onze, todas de ouro e cravejadas de pedras.

Algumas vezes, principalmente a partir do IX seculo, deu-se o nome de regnum ás corôas votivas dos altares, para as distinguir das de illuminar. Tambem ás vezes se penduravam Cruzes proximo dos altares.

As luzes que se empregavam com profusão, durante os Officios Divinos, eram collocadas proximo dos altares, quer sobre uma mesa, quer sobre candelabros, ou ainda mais vezes sobre lustres, em fórma de corôa, suspensos no côro, no Sanctuario e até mesmo no meio da egreja.

Os diptycos são de épocha muito remota. Ao principio eram formados de duas pequenas taboas de madeira ou de marfim, dobrando-se uma sobre a outra, e cuja parte interior continha uma camada de cera, sobre a qual se escrevia. Estas taboas eram rodeadas com uns fios de linho, sobre os quaes se deitava cêra que se imprimia com um sinete. Serviam assim para as missivas secretas.

Desde a sua origem que a Egreja Christã teve diptycos. Eram tabellas ou catalogos, sobre os quaes se inscreviam certos nomes que deviam ser lembrados e lidos, pelo menos em parte, nas reuniões sagradas dos fieis.

Podêmos pois, conforme a origem, distinguir duas especies de diptycos sagrados: os diptycos consulares adaptados á liturgia, e os diptycos puramente ecclesiasticos.

Os diptycos puramente ecclesiasticos eram de marfim ou de metal. Tinham nas faces exteriores esculpidos ou cinzelados a imagem de Christo e a da Santa Virgem, ou assumptos tirados da historia do Velho e Novo Testamentos, e outros symbolos christãos.

Quando a leitura dos diptycos começou a deixar de se usar nos officios sagrados, transformaram-se as taboas esculpidas ou cinzeladas, em capas para livros liturgicos.

Desde o tempo de S. Jeronymo que começaram a ornamentar, o mais ricamente possivel, o livro dos Evangelhos; notava-se esta riqueza tanto no exterior como no interior do volume.

Muitas vezes o texto sagrado era escripto com letras de ouro sobre membranas côr de purpura.

Exteriormente os livros dos Evangelhos eram ornados com todo o esmero; nas capas abundavam o ouro, a prata, os vidrilhos, as pedrarias e as perolas, e durante muito tempo, foi costume encerral-os em estojos ou cofres, capsae, ricamente trabalhados.

As capas dos Evangeliarios podem-se dividir em duas classes: as de laminas metallicas e as de marfim.

Entre as primeiras, umas eram simples, sem figuras e até mesmo desprovidas de toda a ornamentação, outras cravejadas de pedras e esculpidas em relevo, representando assumptos religiosos.

Os assumptos das capas dos Evangeliarios de marfim e de metal não differem dos que têem as dos diptycos. São symbolos ou scenas extrahidas do Novo Testamento e principalmente da vida e da paixão de Nosso Senhor.

Estofos preciosos. Durante os primeiros seculos da era christã, os fatos ordinarios eram de tela, ou, na maior parte das vezes, de lã. Depois da conversão de Constantino, o uso dos tecidos de seda para as vestes liturgicas generalisou-se bastante, a ponto tal, que o Soberano Pontifice S. Silvestre, contemporaneo d'este imperador, foi obrigado a abolil-o nas roupas brancas de altar chamadas corporaes.

Além dos tecidos unidos, ha outros ornados com figuras ordinariamente multicolores, obtidas umas pela applicação de variegadas côres depois da tecedura, outras durante a tecedura, por meio de certas combinações dos fios da cadeia e da trama.

Durante o periodo Latino, o fabrico textil da seda era completamente desconhecido na Europa meridional e occidental. Provinham da Asia, do Egypto, da Grecia e de Constantinopla, os tecidos de seda. É por este motivo que muitas vezes se chamavam estofos transmarinos, e mais tarde tambem, estofos dos Sarracenos, porque os arabes mahometanos forneciam para o Occidente uma grande quantidade.

Os estofos mais antigos não raras vezes eram decorados com medalhões circulares ou ovaes, no genero de Maestricht, obtidos ou pela tecedura, ou por bordados applicados posteriormente.

A ornamentação dos tecidos, que vinham do Oriente e sobretudo da Persia, consistia em assumptos em que predominavam o reino animal e o vegetal, e até por vezes na propria mythologia d'este ultimo paiz. Em vão procurariamos o symbolismo christão n'estas representações tão variadas. Apenas ali se encontra o producto da imaginação dos artistas orientaes, que confeccionaram esses tecidos.

Os symbolos e os assumptos christãos só excepcionalmente apparecem sobre alguns productos das fabricas gregas ou bysantinas, e isso mesmo em uma épocha relativamente recente; consistem em pequenas Cruzes Gregas da Trindade, inscriptas em circulos, animaes symbolicos, taes como o leão e o pavão, e raramente um personagem isolado. As scenas historicas do Velho e Novo Testamentos não começaram a representar-se sobre os estofos senão durante o VIII seculo.

Desde o meiado do IV seculo, que a egreja começou a servir-se d'este meio, para representar, sobre os tecidos empregados nas ceremonias sagradas, assumptos religiosos extrahidos do Velho e do Novo Testamentos, ou da historia dos Santos.

O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que consistiam muitas vezes em medalhões circulares ou ovaes e que applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter religioso.

Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a principal occupação das mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte elevou-se a um tal gráu de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que durante toda a idade media não deixou de florescer.

Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou de qualquer outra côr brilhante, as vestes de lã branca dos padres e

dos diaconos. Estes bordados foram mais tarde substituidos por brocados de seda. Serviam-se tambem dos pannos d'essa qualidade, para armação nas basilicas e nas egrejas.

Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas nos ataúdes, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles de camello e envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e ouro. A maior parte dos estofos antigos que se conservaram até aos nossos dias, foram tirados de sepulturas de Santos.

Paramentos Sacerdotaes. A Egreja manteve escrupulosamente, para os ornamentos sagrados, as fórmas adoptadas pelos primeiros christãos, emquanto que a fórma e o talhe dos fatos profanos se modificaram invencivelmente.

Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores eram brancos. O uso das côres variadas manifestou-se primeiramente nas casulas e nas capas d'asperges.

As cinco côres liturgicas de que se servem hoje, foram estabelecidas pouco mais ou menos no IX seculo, e definitivamente consagradas dois seculos depois.

Os paramentos dos padres são as casulas, a capa d'asperges, a estóla, o manipulo, o cinto, a ópa e o amicto. As principaes vestimentas, proprias para os ministros inferiores, são a dalmatica e a tunicella.

A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla, envolvendo todo o corpo desde o pescoço até aos pés, e formando uma especie de barraca, casula, em torno da pessoa que a vestia. Tinha apenas uma abertura para passar a cabeça.

A estóla deve o seu nome e origem ao vestuario que os romanos chamavam estola.

A Egreja adoptou como paramento a estóla, de que se fazia uso por toda a parte, na occasião em que se estabeleceu o Christianismo.

O manipulo não se usava durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S. Gregorio o Grande, (590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do manipulo como paramento sagrado.

A capa é um paramento commum ao padre e a alguns dos ministros inferiores. Primitivamente serviam-se da capa para se resguardarem da chuva nas procissões; é tambem por este motivo que ella se chama muitas vezes pluvial.

A alva e o cinto devem a sua origem á tunica talar dos antigos, que era um vestuario de linho, munido de mangas e apertado á roda do corpo com um cinto.

A alva era vestida nas funcções sagradas pelos bispos, padres e todos os ministros inferiores.

O amicto é uma espécie de téla de que os padres e os ministros se servem para cobrir o pescoço. A origem d'este vestuario não vae além do VIII seculo.

Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o colobio, que era uma especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas. Foi no principio do IV seculo, que o Papa S. Silvestre substituiu o colobio pela dalmatica.

A dalmatica era uma bluse comprida, feita de lã da Dalmacia.

Até ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente não eram vestidos senão com a alva, com o cinto e com o amicto.

Mosteiros Latinos

Foi no principio do VI seculo, que começaram a maior parte dos religiosos a reunir-se em communidade, e a viver juntos, debaixo do mesmo tecto. Vivia então S. Benedicto.

Iconographia do periodo Latino

Muitos monumentos do periodo Latino, sobre tudo os mais antigos mosaicos, conteem personagens em pé e attitude respeitosa, tendo nas mãos, envoltas nas rugas do manto, uma corôa em fórma de circulo, que offerecem ao Salvador. Este é representado sob a fórma symbolica do Cordeiro, do monogramma, da Cruz, e até mesmo d'um simples espaço vazio.

Christo, debaixo da fórma symbolica do Cordeiro ou do monogramma, no meio de doze cordeirinhos ou de doze pombas, que os monumentos do periodo Latino nos offerecem frequentemente, symbolisa o Salvador rodeado dos seus discipulos, isto é, a Egreja triumphante no Céu, recebendo na terra o ensino do seu Divino Fundador.

Tambem muitas vezes se encontra um cordeiro, uma Cruz Trina, ou o monogramma de Christo entre dois cordeiros, duas pombas, dois pavões ou dois veados; isto symbolisa o Salvador sob a fórma humana no meio dos Apostolos e d'outros Santos, ou sob a fórma symbolica do Cordeiro e do monogramma no meio de doze cordeirinhos ou doze pombas.

Vê-se tambem uma taça ou um cacho de uvas no meio de dois pavões ou de duas pombas, o que nos parece uma allusão mais directa ao regosijo dos que vão para o Céu.

Alguns monumentos do periodo Latino, principalmente os mosaicos do V e VI seculos, teem um throno, com ou sem docél, e em que ha uma almofada, um cortinado cahindo diante da cadeira e algumas vezes o livro dos Evangelhos. Um monogramma ou uma Cruz, geralmente da Trindade, occupa o meio do throno e domina toda a composição. Muitas vezes vê-se, ao lado do throno, os doze Apostolos em pé, ou sómente S. Pedro e S. Paulo. Em todos estes assumptos o throno representa o Salvador.

Mais tarde, principalmente no Oriente, acrescentaram a esta representação novos signaes iconographicos: nas extremidades da almofada collocavam á direita da Cruz a lança, e á esquerda a esponja na extremidade d'uma lança; algumas vezes tambem se entrelaça a corôa de espinhos em torno da Cruz. A partir d'este momento, a cathedra da doutrina torna-se o throno do julgamento final e a Cruz o signal do Filho do Homem.

S. Pedro, collocado ao lado do Salvador, sustenta ordinariamente sobre o hombro esquerdo uma cruz de haste comprida; outras vezes recebe com a mão direita um volume desenrolado, que Nosso Senhor lhe apresenta. Desde a primeira metade do V seculo, que elle conserva as chaves na ponta do seu manto.

S. Paulo é quasi sempre representado recebendo um ou dois rolos, symbolos da Lei Evangelica.

Muitas vezes tambem collocavam uma phenix sobre uma palmeira. A Phenix é a figura da resurreição futura.

Caracteres do estylo Bysantino

O plano e a disposição das egrejas bysantinas apresenta-se com tres typos distinctos: 1.º, com a basilica coberta de madeira, similhante á basilica Latina do Occidente; 2.º, com a rotunda ou egreja circular; 3.º, com a basilica bysantina propriamente dita, abobadada e sobreposta d'uma ou de muitas cupulas. A basilica bysantina abobadada distingue-se perfeitamente de todos os monumentos dos tempos anteriores, pela cupula sobre abobadas pendentes, e construida ao meio d'uma nave, mais ou menos alongada.

As fachadas das egrejas bysantinas differem das que têem as basilicas Latinas. Estas terminam em geral por um frontespicio triangular; as fachadas das egrejas orientaes, pelo contrario, terminam ou por uma fachada horisontal á maneira d'uma cornija, ou por uma serie de corôamentos semicirculares.

O systema de construcção das egrejas bysantinas distingue-se pelos seguintes traços. O tijolo é geralmente empregado para todas as edificações. Mesmo nos paizes em que a pedra é abundante, os architectos bysantinos preferiam, a maior parte das vezes, o tijolo aos materiaes de grandes dimensões. O caracter distinctivo das egrejas bysantinas, sob o ponto de vista da construcção, consiste na presença de uma ou de muitas cupulas elevadas, sobre abobadas pendentes.

Chamam-se abobadas pendentes umas certas saliencias nas abobadas do cruzeiro, que pela sua fórma se approximam do sector espherico e que serve para fazer passar uma construcção de quadrado a octogono ou a plano circular.

A decoração exterior das egrejas bysantinas, sobretudo no IV e V seculos, era pobre e simples. Do VII seculo ou do VIII seculo em diante, os ornamentos exteriores das paredes e archivoltas das janellas são bastantes vezes como os dos edificios Latinos, formados por fiadas de pedras alternadas com uma ou muitas fiadas de tijolos. As archivoltas ornadas de molduras ficam em resaltos umas sobre as outras, e representadas nas paredes por cordões feitos de tijolos de fórma e côr variaveis.

A decoração interna consiste em revestimentos de diversas naturezas, marchetados de marmores ou mosaicos, applicados sobre os pilares, paredes e abobadas. O caracter essencialmente superficial da esculptura bysantina consiste regularmente em folhagens lisas e angulares.

Os ornatos que os bysantinos gostavam de esculpir nas almofadas de marmore com que decoravam o interior das egrejas, eram entrelaçamentos de linhas rectas e curvas, ás quaes juntavam cruzes da Trindade, florões e algumas vezes figuras de animaes tanto reaes como chimericos.

A começar no VIII seculo, as pinturas a fresco das egrejas bysantinas foram muitas vezes substituidas por mosaicos e por embutidos em estuque; acabaram por ser completamente substituidas.

A influencia bysantina fez-se sentir primeiramente no começo do IX seculo e mais tarde, no fim do X. Foram construidas muitas egrejas sob a influencia bysantina dos monumentos typos.

No reinado de Justiniano (527-565) o estylo bysantino ficou definitivamente constituido com os caracteres acima definidos. Santa Sophia em Constantinopla constitue o seu typo por excellencia.

Leão, o Isauriano, prohibiu, em 726, a reproducção de qualquer figura, quer pela esculptura, quer pela pintura nas paredes das egrejas, quer nos objectos do culto. Esta prohibição, confirmada em 754, por um conciliabulo heretico, subsistiu até 842. N'este ultimo anno, depois da morte de Theophilo, ultimo imperador iconoclasta, a imperatriz Theodora substituiu os editos de Leão o Isauriano e restabeleceu o culto das imagens.

A épocha mais florescente da arte bysantina foi no X seculo e mais particularmente no reinado de Constantino Porphyrogeneta.

No XI seculo, uma serie de graves acontecimentos precipitou a decadencia do imperio bysantino e trouxeram por consequencia o enfraquecimento das artes. No XIII, XIV e XV seculos, as artes continuaram a desfallecer, até que, em 1453, os turcos, apoderando-se de Constantinopla, causaram a decadencia da arte bysantina.

CAPITULO IV

Índice de conteúdo

Summario.—Oestylo Roman desde o VIII até ao seculo X—Caracteres do estylo Lombardo—Planos das Egrejas—Cryptas—Baptisterios—Systemas de construcção—Abobadas—Pilares e columnas—Bases—Capiteis—Fachadas—Cornijas—Decoração monumental—Architectura, antes do seculo XI, nos outros estados sem ser na Lombardia: Italia central e meridional, Belgica e França—O estylo Roman durante o XI e o XII seculos—Caracter da Architectura Roman—Plano e distribuição das Egrejas—Cryptas—Baptisterios n'este seculo—Materiaes e modo de construir—Sepultura monumental—Fachadas—Portico das egrejas—Portaes—Portas e suas ferragens—Janellas e rosaceas—Maneira de resguardar da chuva as janellas e as vidraças pintadas—Absides—Pilares, columnas—Bases e capiteis—Arcadas e arcarias menores—Triforium—Cornijas e modilhões—Abobadas—Contrafortes—Madeiramentos—Torres—Modo de se lagearem os edificios—Pinturas muraes—Inscripcões lapidares—Altares—Piscinas—Tribunas—Cadeiras do côro e a separação da capella mór do corpo da egreja—Capellas funereas—Tumulos visiveis e occultos—Campas—Pias Baptismaes—Gradamentos—Alfaias religiosas—Calices e patenas—Custodias—Relicarios—Corôas suspensas nos altares—Lustres de forma de corôas—Cruzes para os altares e procissões—Castiçaes e tocheiros—Evangeliarios—Capas dos livros do Evangelho—Thuribulos—Pias para agua benta—Pentes liturgicos—Cadeiras para os sacerdotes—Baculos—Calçado liturgico—Mitras—Tecidos bordados—Vestuarios sacerdotaes.

Periodo Roman

O periodo roman estende-se desde o VIII seculo até ao fim do XII. O estylo roman formou-se e desenvolveu-se debaixo da influencia combinada de tres elementos: 1.º, o estylo classico e latino, cujos monumentos existiam espalhados pela Europa meridional; 2.º, o estylo bysantino, cujos principios foram importados do Oriente; 3.º, o genio particular dos povos barbaros que invadiram a Europa desde o V seculo.

O estylo proveniente da influencia combinada d'estes tres elementos, chamou-se roman, porque a sua origem e duração coincidem pouco mais ou menos com a da lingua romanica. Por conseguinte a palavra roman indica, do mesmo modo que na lingua romanica, o elemento barbaro que contribuiu para a formação d'este estylo.

O estylo Roman desde o VIII até ao X seculo

A decadencia completa das bellas artes foi o effeito necessario dos movimentos politicos que a Europa soffreu durante tres seculos. Só os padres e os religiosos luctavam no meio d'este chaos, contra a barbarie e a força brutal dos invasores. O renascimento das artes foi lento, e do mesmo modo o das lettras, porque o solo da Europa occidental estava juncado de destroços amontoados, dos monumentos antigos; as tradições artisticas tinham-se perdido, e os principios haviam cahido em esquecimento.

Para a architectura e para as artes, a Lombardia foi, desde o VII até ao fim do X seculo, o principal centro d'este renascimento. O estylo formou-se n'esta épocha, ao norte da Italia, e recebeu o nome de Lombardo.

Caracteres do estylo Lombardo

O estylo Lombardo, ou o estylo Roman do norte da Italia, reinou n'este paiz desde o VIII seculo até ao fim do XII.

O plano da basilica Latina foi geralmente adoptado nas egrejas lombardas.

Na maior parte das grandes egrejas lombardas, as paredes internas são construidas com galerias.

As cryptas das egrejas lombardas estendem-se por baixo de todo o presbyterio, e formam verdadeiras capellas subterraneas, com muitas naves abobadadas.

Os baptisterios isolados, geralmente octogonaes ou circulares, usaram-se durante o periodo lombardo.

A maior parte dos edificios lombardos são construidos de tijolo.

Abobadas. A abobada em fórma de berço consiste n'um semi-cylindro concavo e sem penetração alguma.

A abobada de aresta, assim chamada porque apresenta quatro arestas no intradoz, é formada pela intersecção ou penetração de duas abobadas de berço, com a mesma abertura e reunindo-se em angulo recto.

Os architectos lombardos fizeram grandes progressos na construcção das abobadas. Antes do seu tempo não se conhecia além da cupula senão duas especies de abobadas: a abobada de berço, e a abobada de aresta romana.

As abobadas lombardas apresentam todas uma elevação em fórma de zimborio, particularidade que pertence ao systema de construcção seguido pelos architectos lombardos. Esta elevação dá ás abobadas das egrejas lombardas um aspecto particular.

Nas egrejas lombardas de tres naves, a principal tem sempre dobrada largura.

Como dissémos, as abobadas da nave principal exercem sobre os seus pontos de apoio não sómente uma pressão vertical, mas tambem uma obliqua e lateral, que tende a fazer inclinar para fóra os pilares e as muralhas superiores. Nos edificios lombardos, esta pressão acha-se equilibrada pelo encontro opposto das abobadas altas e baixas das naves lateraes e em parte apoiada sobre os contrafortes exteriores, pelos arcos-butantes das naves lateraes e pelas porções de parede que supportam estes arcos.

Nos edificios antigos e nas basilicas latinas serviam-se de columnas cylindricas, pouco espaçadas e recebendo directamente as pressões verticaes de entablamentos d'um peso relativamente pouco consideravel. Os constructores lombardos substituiram o pilar composto de columnas pelo simples supporte cylindrico da basilica coberta de madeira.

Os caracteres dos pilares lombardos pódem resumir-se da seguinte maneira: 1.º Os pilares apresentam uma secção rectangular ou quadrada e são ornados de pilastras ou de columnas envolvidas, recebendo as bases das nervuras e dos arcos-butantes. 2.º Não têem todas a mesma grossura, umas são menos, outras mais fortes, segundo recebem ao mesmo tempo as bases de todas as abobadas, ou das naves lateraes sómente. Foi desde a primeira metade do seculo VIII que appareceram os pilares ornados de columna, desconhecidos na arte classica e empregados com profusão no Occidente pela arte na edade media. As columnas e as columnatas são ordinariamente construidas por fiadas de desigual altura de medio e pequeno apparelho; raramente são monolithas.

Essas columnatas dos pilares, quasi sempre delgados e muito elevados, chegam muitas vezes sem interrupção até á origem das abobadas, e constituem um facto capital na historia da arte, porque são um dos elementos mais caracteristicos e fundamentaes de quasi toda a architectura da edade media.

As bases lombardas approximam-se sensivelmente, pela sua fórma, da base attica propriamente dita.

Estas bases são muitas vezes munidas d'um ornato destinado a ligar o tóro inferior com os angulos do plintho e a dar d'este modo uma apparencia de maior solidez dos angulos. Este ornato ou appendice recebeu o nome de garra ou pata.

As garras mais antigas são muito simples, as de data posterior representam ordinariamente cabeças d'animaes.

Os capiteis lombardos, assim como os bysantinos, têem ordinariamente a fórma de açafate esvasado ou cubico.

Uma transformação se opéra insensivelmente e a arte lombarda adquire uma certa originalidade. Os seus typos são variadissimos; o cinzel do esculptor dá ali provas de fecundidade. Mais tarde esta transformação continúa lentamente, e durante o X seculo, as esculpturas tornam-se mais salientes, as folhagens são augmentadas e as extremidades arredondadas.

Em relação á esculptura d'ornato que cobre o açafate, podem distinguir-se duas especies de capiteis: os capiteis ornados de folhagens e os capiteis historicos ou legendarios. Os capiteis historicos são muito communs nas egrejas lombardas que datam do VIII seculo.

Chamam-se historicos e legendarios os capiteis que são ornados com esculpturas que representam scenas tiradas da historia ou da lenda e até mesmo algumas vezes têem animaes symbolicos ou phantasticos.

O abaco enorme em fórma de capitel, que se encontra nos edificios Latinos, só raramente se vê nas egrejas Lombardas; é substituido por grosso abaco, mas pouco elevado, de profil muito acentuado e muitas vezes talhado em pedra differente do corpo do capitel.

Em opposição ao principio geralmente admittido pela antiguidade e pela edade media, as fachadas das egrejas Lombardas não indicam exteriormente a fórma das naves lateraes.

Compõem-se d'uma grande parede que chega até aos dois lados obliquos que a terminam, e na qual não apparece o resalto na nave principal por cima das naves lateraes.

Os campanarios das egrejas Lombardas ficam ordinariamente separados do edificio da egreja, e compõem-se de uma serie d'andares quadrados, todos da mesma largura e pouco mais ou menos da mesma altura, separados uns dos outros por cornijas. Estes andares são ornados com faixas muraes e pequenas arcadas fingidas, cujos arcos se apoiam sobre modilhões.

As cornijas dos edificios lombardos apenas apresentam uma pequena saliencia das faces das paredes. São quasi sempre collocadas sobre arcaduras fingidas, de volta inteira, assentando em modilhões de fórma muito simples.

As arcaduras constituem uma das fórmas caracteristicas da architectura Lombarda; encontram-se, não só debaixo das cornijas dos telhados, mas tambem debaixo das outras cornijas das fachadas; e até mesmo nas platibandas horisontaes dos edificios.

Decoração monumental

Os bysantinos cobriam com marmores e mosaicos as paredes interiores das suas egrejas. Os lombardos, pelo contrario, mostram no seu systema decorativo uma certa preferencia quasi exclusiva pelas esculpturas, a qual derivando da bysantina, foi por algum tempo sua imitação; porém, mais tarde, a começar no IX seculo, principiou-se a abandonar esse modo de decorar.

Nos primitivos edificios lombardos nota-se uma grande incorrecção nas esculpturas das figuras, quer verdadeiras, quer phantasticas. Mais tarde, encontram-se, em todo o periodo do estylo Lombardo, nos seus edificios, animaes chimericos, ora isolados ora em frente uns dos outros, e acompanhados, e tambem entrelaçados de folhagens.

As esculpturas não cobrem só os capiteis, mas tambem as archivoltas e os tympanos, assim como as faces dos altares, dos doceis, etc.

Os embutidos e os revestimentos de marmore são raros no interior dos edificios lombardos.

Desde o IX seculo que se substituiram os embutidos em marmore pelas pinturas a fresco e por mosaicos de pequenos cubos.

Em quanto o estylo Lombardo se desenvolvia no Norte da Italia, o Latino continuava a ser seguido na Italia central e meridional.

A maior parte das egrejas do VII e do VIII seculos eram construidas de madeira, o que explica os frequentes incendios d'essas egrejas.

No principio do seculo IX, o imperador Carlos-Magno tentou fazer reviver as bellas artes na Europa Occidental; quiz restabelecer o renascimento da arte romana.

O estylo Roman durante os seculos XI e XII

O estylo Lombardo, inteiramente constituido no Norte da Italia desde o seguinte seculo, exerceu uma grande influencia sobre a architectura roman dos paizes cisalpinos no XI e XII seculos. No fim do X seculo, e no principio do seguinte, os monges introduziram o estylo Lombardo na Allemanha, na Suissa, e nas provincias da França visinhas da Italia, d'onde irradiou para o Norte e Oeste.

O estylo roman da Europa Central não é outra coisa mais que o estylo Lombardo transportado áquem dos Alpes e modificado occidentalmente pelo proprio genio dos differentes povos que occupavam esta região. O elemento Gaulo-romano tomou tambem grande parte na formação do estylo roman.

O roman inglez recebeu o elemento Lombardo por intermedio dos Normandos, que, depois de terem conquistado a Inglaterra, para ali levaram o estylo do Occidente da França.

A rapida propagação das ordens religiosas durante o seculo XI, contribuiu poderosamente para a diffusão e desenvolvimento da architectura Roman. Foi n'este seculo, que as ordens religiosas, graças a abundantes recursos, cobriram em pouco tempo a Europa Central e Occidental com um grande numero de egrejas e mosteiros. Estes monumentos, não obstante apresentarem todos os mesmos caracteres geraes, taes como o emprego das abobadas de volta inteira e d'um mesmo systema de construcção, differem comtudo entre si, em certos caracteres especiaes, proprios de cada região.

O estylo roman do seculo XI differe do estylo do XII por uma ornamentação mais simples, contornos menos correctos e execução geralmente inferior.

No seculo XII, abundam os ornatos tanto no interior como no exterior dos edificios. No final do seculo XI, estabeleceram-se, na Europa Occidental, duas escolas de architectura, animadas de diversas tendencias. Uma na ordem de S. Bento, que tinha o seu centro principal na abbadia de Cluny, desenvolvia uma magnificencia e um luxo quasi extraordinario na decoração dos edificios religiosos, cuja construcção lhe era incumbida; a outra, pelo contrario, procedente da Ordem de Cister, quasi que não admittia ornatos alguns e levava a singeleza até á severidade. Em todos os paizes em que existiam edificios romanos por occasião da formação do estylo roman, a sua existencia exerceu grande influencia na decoração dos edificios. Pelo contrario nos paizes em que escasseavam aquelles monumentos, diligenciaram imitar, a maior parte das vezes, na esculptura monumental os variados tecidos importados do Oriente.

Caracteres da architectura Roman

As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma Cruz Latina, cuja frente representada pelo côro é voltada para o Oriente. Têem geralmente tres naves formadas por duas ordens parallelas de pilares, e algumas vezes de cinco. Depo As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma Cruz Latina, cuja frente representada pelo côro é voltada para o Oriente. Têem geralmente tres naves formadas por duas ordens parallelas de pilares, e algumas vezes de cinco. Depois do seculo XI, o côro das egrejas cathedraes, abbaciaes (exceptuando as da Ordem Cistersiense e collegiaes), tem maiores dimensões que nas basilicas Latinas e Lombardas.

Quando o côro não era rodeado de capellas, terminava por um abside semi-circular ou por uma parede recta. Encontram-se, nas margens do Rheno e em outras partes da Allemanha, egrejas Romans com dois absides semi-circulares, um a Leste e o outro a Oeste.

Algumas das grandes egrejas Romans têem os lados do corpo da egreja divididos por galerias.

Todas as egrejas Romans, sem excepção, são orientadas.

Muitas das mesmas egrejas têem cryptas quasi sempre situadas debaixo do côro, e formando capellas subterraneas, com tres a cinco naves, cujas abobadas de barrete veem assentar sobre duas ou quatro ordens de pilares pouco elevados.

Desce-se para a maior parte das cryptas por duas escadas collocadas aos lados da que do transepte conduz ao côro. Nas que não têem senão uma entrada, acha-se ordinariamente diante do côro mesmo no eixo da egreja.

O uso de construir cryptas só deixou de existir desde o seculo XIII.

Durante o periodo Roman, ainda se construiram, ao pé das cathedraes e das grandes Egrejas abbaciaes e parochiaes, baptisterios isolados, de fórma polygonal e circular.

Todavia, logo que a solemne ministração do baptismo caiu em desuso, não se construiram mais baptisterios proximo das novas Egrejas parochiaes que se edificaram. A pia baptismal foi então transportada para a nave principal, proximo á porta de entrada da egreja nas naves lateraes, ou então em uma capella do lado occidental, proximo da porta principal.

A natureza dos materiaes influe poderosamente sobre o modo de construcção adoptada; assim nos paizes em que a cantaria é resistente, construe-se com grandes dimensões, o apparelho é mais grandioso, as fiadas são altas; emquanto que, nas localidades em que os materiaes são menos resistentes, e em que o trabalho de preparar a cantaria é portanto mais facil, o apparelho tem menor dimensão.

No seculo XI, a esculptura monumental toma repentinamente um desenvolvimento extraordinario pela influencia combinada do estylo Lombardo, dos monumentos Gaulo-Romanos; dos tecidos e outros objectos d'arte importados do Oriente pelos cruzados.

Em cada paiz ou quasi que em cada provincia, a decoração Roman offerece caracteres particulares, devidos á aptidão dos habitantes, á variada natureza dos materiaes e a outras influencias locaes. Em geral, em todos os paizes onde se encontravam documentos romanos ricamente decorados, a influencia Lombarda se liga e se combina com a d'estes monumentos.

No Noroeste da França, principalmente na Normandia, e até mesmo na Inglaterra, a decoração consiste principalmente em estrellas e outras figuras geometricas. A ornamentação Roman da Allemanha compõe-se sobretudo de galões entrelaçados, cujas extremidades acabam em folhas com tres a cinco lobulos. Estes galões, algumas vezes ornados de perolas, parecem ordinariamente ligados com fitas ou reunidos por anneis.

Na Belgica, onde principalmente se manifestou a influencia da escola Cistersiense, os monumentos do periodo Roman não têem as decorações de trabalhos custosos e variados, que se encontram n'outros paizes.

Assim como nas basilicas Latinas, as fachadas das egrejas Romans indicam em geral a forma transversal das naves; só no seculo XI, começaram a ornal-as com mais cuidado e esmero. A sua decoração architectural consiste nos portaes, ordinariamente tres, construidos em profundas arcadas de volta inteira mais ou menos carregadas de molduras de architectura; as galerias, verdadeiras ou fingidas, eram formadas por uma ou muitas ordens de arcadas fingidas ou rendilhadas; e emfim em grandes rosaceas vasadas, por cima da porta principal.

Raras vezes se encontram fachadas romans decoradas com estatuas.

Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas, apresentavam-se d'ordinario sob a fórma d'um portico, geralmente pouco profundo e occupando toda a largura da Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas, apresentavam-se d'ordinario sob a fórma d'um portico, geralmente pouco profundo e occupando toda a largura da fachada da egreja; havia alguns tambem, ainda que pouco numerosos, que eram construidos na fachada Occidental.

Os atrios Romans dos seculos XI e XII dividem-se em fechados e abertos; os primeiros tomaram, em varios paizes, um desenvolvimento de tal modo importante, que formavam de alguma maneira uma nova egreja construida em frente das naves propriamente ditas, como havia na egreja de S. Francisco de Santarem.

Nos grandes monumentos do seculo XI, e especialmente do XII, os portaes mais notaveis, e até mesmo algumas vezes os secundarios, são ornados profusamente de esculpturas de todo o genero.

Quando as archivoltas dos portaes são cobertas com muitas esculpturas, o tympano é quasi sempre ornado d'um baixo relevo, representando Jesus Christo sentado e sob uma aureola. Em alguns casos o Redemptor offerece as mãos a dois Santos coroados e ajoelhados cada um do seu lado; em outros, lança a benção com a mão direita e segura um livro com a esquerda; n'este caso a aureola é muitas vezes cercada de animaes symbolicos representando os Evangelistas.

Nos mais importantes monumentos, os batentes dos portaes eram ordinariamente de bronze ou de qualquer outro metal.

As ferragens das portas, que a principio não serviam senão para consolidar todas as travessas da porta, forneceram desde As ferragens das portas, que a principio não serviam senão para consolidar todas as travessas da porta, forneceram desde o seculo XI, no estylo Roman, um dos mais bellos modelos de ornamentação.

Encontram-se tambem, nos edificios de architectura Roman, portaes com batentes de madeira esculpidos em baixo relevo. As janellas d'estes edificios mais antigos são pequenas e quasi sem ornamentação alguma.

No meado do seculo XI, augmentaram os vãos das janellas á proporção que mais se generalisava o uso do vidro. No final d'este seculo e durante todo o XII, as archivoltas exteriores das janellas dos grandes monumentos são executadas com o maior cuidado, e compostas de arcos com muitas ordens de pedras lavradas symetricas, varias vezes com o feitio de tóros, ficando assentes sobre grupos de pequenas columnas ou sobre pés direitos ornados de uma imposta com esculptura. Estes tóros têem tambem muitas vezes ornatos.

No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois vãos, separados por uma humbreira em fórma de columna, e servindo-lhe de moldura um arco commum de resalva. Vêem-se tambem janellas mesmo de tres vãos reunidos debaixo d'um unico arco. N'estas ultimas ou o vão do meio é mais alto que os dos lados, ou então é o tympano formado pelo grande arco, no qual ha um oculo, inteiramente aberto ou em fórma de trêvo, de quatro folhas e ás vezes com seis e mais lóbulos.

Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e que não servem de ornamento aos vãos de janellas. Chamam-se rosaes e são compostos de differentes maneiras.

Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os vãos das janellas com caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os desenhos produzidos pelos recortes das travessas apresentam fórmas mais variadas e em harmonia com a ornamentação Roman; compõem-se quasi sempre de figuras geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados até ao seculo XVI, na Grecia, Italia e Hespanha e ainda hoje no Oriente.

Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo X, reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros, differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual ainda não havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.

O emprego de vidraças com varios assumptos e personagens pintados, começou provavelmente no final do seculo X.

Em muitas egrejas, o côro e mesmo algumas vezes os braços do transepto terminam por um abside semi-circular ou polygonal.

O abside está ordinariamente ligado por um abside circular coberto d'um tecto quasi sempre mais baixo que o do côro.

As paredes exteriores dos absides são a maior parte das vezes ornadas d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas de pequena saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre si por arcos de volta inteira. As janellas, ordinariamente em numero impar, são abertas debaixo das arcadas.

Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas. Estes absides receberam o nome de absides rhenanos. Serviam outr'ora, e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a exposição das reliquias.

Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e principio do XI, não apresentam, muitas vezes, mais do que pilares muito simples, de secção circular, quadrada ou rectangular. No seculo XI, tambem se introduziu, áquem dos Alpes, o uso dos pilares com angulos reintrantes para collocar duas ou quatro columnas envolvidas, de que os constructores Lombardos se serviam já no seculo VIII.

As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem parte do capitel.

Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em figuras geometricas, espiraes, torç Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em figuras geometricas, espiraes, torçaes, galões, botões, folhagens, cordões, animaes e mesmo representações de assumptos historicos ou legendarios. Estes ornatos são communs principalmente no Sul da Europa.

No fim do periodo Roman e no principio da época Ogival, as columnas são anneladas, isto é, formadas d'uma especie de tóro á roda do fuste.

As columnas anneladas constituem um dos caracteres dos monumentos da transição do estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram d'estes anneis nas nervuras das abobadas. No seculo XII, as columnas são tambem ás vezes duplas ou enfeixadas.

As bases das columnas são variadissimas.

Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se ás bases Lombardas, mas sem ter garras.

As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, são raras nos paizes do Norte.

Foi no meado do seculo XI que começou a apparecer, áquem dos Alpes, o ornato chamado garra, que os lombardos já tinham usado muito tempo antes.

A garra Romã tem em geral a fórma d'uma folha applicada sobre o tóro inferior da base no angulo do plintho, e tambem ás vezes, a d'uma carranca ou d'um animal phantastico.

Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a forma do tóro inferior, quando a base se approxima da forma Attica; um pouco mais tarde apparece entre os tóros das bases, a moldura concava, bastante profunda, que fórma um dos caracteres distinctivos dos monumentos do fim do seculo XII e da primeira metade do XIII.

Os capiteis de architectura Roman são variadissimos. Ha uns que apenas se compõem de duas ou tres molduras curvas ou chanfradas, imitando o capitel toscano ou dorico.

A cornija dos capiteis é umas vezes elevada e coroada com um ábaco saliente, e outras baixa, tendo um ábaco que não resalta o fuste da columna.

Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados cubicos, porque têem a configuração d'um cubo. Estes capiteis são algumas vezes chanfrados nos angulos inferiores e em geral arredondados na parte inferior.

A parte inferior do capitel cubico Rhenano, do seculo XII, era muitas vezes dividida em quatro porções de esphera, formando assim um grupo de quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo ábaco, mas foi ainda augmentado o numero das subdivisões, produzindo d'este modo os capiteis cubicos canellados ou com resaltos redondos, que se encontram principalmente na Inglaterra e no Noroeste da França.

No tempo da formação do estylo Roman, a arte da esculptura estava quasi totalmente perdida áquem dos Alpes. Os que primeiro tentaram manejar o cinzel esforçaram-se em reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos que tinham á vista; as producções d'estes artistas improvisados são imperfeitas e grosseiras.

Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja ornamentação, simples e rudimentar, consiste unicamente em folhas applicadas sobre o açafate, e algumas vezes contornadas em voluta debaixo dos angulos do ábaco.

Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII, são decorados de esculpturas ou de pinturas de côres carregadas. Os ornatos consistem em galões imitando perolas, folhagens encrespadas, florões artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes phantasticos isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da historia, principalmente do Velho e Novo Testamentos.

O capitel de crochets usou-se na Belgica e em algumas partes da Allemanha desde o fim do periodo Roman. Dá-se o nome de crochets e algumas vezes tambem o de baculo vegetal, ás folhas mais ou menos compridas, recurvadas em voluta na sua extremidade.

Chama-se arcada toda a abertura, real ou simulada, contornada por uma archi-volta; e arcadura, uma arcada de pequenas dimensões.

Até ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta inteira ou formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os dois pontos extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, começam a apparecer novas formas d'arcos: 1.º, o arco elevado, cujos dois ramos descendentes se prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; 2.º, o arco em fórma de ferradura produzido por uma parte da circumferencia que excede o semi-circulo; 3.º o arco de volta abatida ou em aza de cesto, formado por uma semi-ellypse cortada segundo a direcção do eixo maior; 4.º, o arco de tres lóbulos cujo intradoz é composto de tres lóbulos.

As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas capitulares são em geral ornadas, na sua parte inferior, com arcaduras sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no pé-direito e firmadas sobre um sócco de pedra collocado em roda de todo o edificio.

As arcaduras tambem são muitas vezes empregadas, no exterior dos edificios, para a decoração das fachadas. Encontram-se egualmente sobre as outras partes dos monumentos arcadas pouco salientes, cujas extremidades assentam sobre modilhões muitas vezes executados apenas de feitio chanfrado, e ainda ás vezes ornadas de esculpturas. Em alguns casos foram os modilhões substituidos por grupos de columnas embebidas.

As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas muraes.

Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e d'algumas partes da França.

Chamam-se Triforiums as galerias mais ou menos largas, que ficam por cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou simplesmente por cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam dois pilares contiguos.

Encontram-se Triforiums, que abrangem todo o comprimento do corpo da egreja, nos edificios Lombardos.

Os Triforiums estreitos são posteriores ao seculo XII, e só durante o periodo Ogival é que se generalisou o seu emprego.

A cornija compõe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre a face das paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor dureza dos materiaes de que dispomos.

A cornija é sustentada por consólas ou modilhões collocados regularmente por baixo das juntas das pedras que formam as cornijas. Os modilhões têem a fórma d'um curvo ou d'um florão. Chama-se curvo um modilhão simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares á mesma parede; e com feitio de florão, é uma consóla que não tem as faces nem parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás vezes são os curvos e esses florões ornados de esculpturas representando cabeças humanas, figuras grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc.

A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham abobadas senão no abside do côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em muitas egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente.

Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas, eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes lateraes dois arcos de menores dimensões. Para supportar a pressão obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas.

Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que supportem a curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se contra a principal parede da nave central no logar onde começa a sua abobada.

Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos compõem-se de uma ou de duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e apresentam uma secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman, e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado têem regularmente o feitio de tóros.

As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tóro, algumas vezes acompanhado de dois ou quatro tóros de menor espessura. No fim da época Roman, e durante o periodo da transição, o tóro principal foi em certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas que as das Ogivaes.

Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras geometricas.

Chamam-se contrafortes aos pilares embebidos nas paredes exteriores dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a pressão das abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios correspondem sempre exactamente (nos monumentos que não têem abobadas) aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão combinada dos arcos duplos e das nervuras das abobadas.

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