Kitabı oxu: «Desatinos do coração»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
© 2018 Julia James
© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Desatinos do coração, n.º 1842 - dezembro 2020
Título original: The Greek’s Secret Son
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.:978-84-1348-989-6
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Epílogo
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Capítulo 1
Ameaçava uma chuvinha fina. As nuvens baixas abatiam-se sobre o cemitério da igreja da vila e Christine sentiu o ar invernal frio e húmido enquanto estava ao lado de campa acabada de cavar. A dor atravessou-a por causa do homem amável que a salvara quando o homem que mais desejava desaparecera. Contudo, agora, Vasilis Kyrgiakis morrera. O coração acabara por falhar, como era de esperar. Tornando-a viúva.
A palavra atravessou-lhe a mente enquanto estava ali de pé, sozinha e com a cabeça encurvada. Todos tinham sido muito amáveis com ela porque Vasilis era muito amado, embora se sentisse muito consciente dos comentários que circulavam porque era muito mais jovem do que o marido de meia-idade. Contudo, desde que a família mais importante da vizinhança, os Barcourt, aceitara o vizinho nascido na Grécia e a esposa jovem, os outros também o tinham feito.
Christine fora completamente leal ao marido por agradecimento, até nos últimos momentos, e sentira que os olhos se enchiam de lágrimas quando o padre falara de compromisso e tinham posto o caixão na campa.
Christine enjoou-se um pouco e levantou a cabeça para recuperar o equilíbrio. Tinha o olhar desfocado, mas ficou paralisada ao ver, ao longe, um carro parado junto do veículo fúnebre em que tinham trazido o marido. E, ao lado, havia uma figura alta e imóvel, um homem que conhecia muito bem. Um homem que não via há cinco longos anos.
O último homem que quereria voltar a ver.
Anatole observava, muito quieto, a cena que tinha lugar no cemitério da igreja. Um sem-fim de emoções percorria-o por dentro, mas tinha o olhar fixo na figura esbelta, delicada e vestida de preto que estava parada ao lado do sacerdote na campa aberta do seu tio. Um tio que se recusara a ver desde a loucura absurda do seu casamento.
Sentiu uma pontada de raiva. Por si próprio e pela mulher que enganara o tio para que se casasse com ela. Ainda não sabia como conseguira, mas acontecera por culpa dele. Não percebera a ambição que gerava nela. Uma ambição que fizera com que tentasse caçá-lo primeiro e, ao ver que não conseguia, se virasse para o desventurado tio, um alvo fácil.
A mulher sentiu-se consciente da sua presença e observou-o. A sua expressão denotava um choque absoluto. E, então, com um movimento abrupto, Anatole virou-se, entrou no carro e saiu dali, acelerando pelo caminho rural tranquilo.
A emoção voltou a apoderar-se dele, devolvendo-o ao passado.
Há cinco longos anos…
Anatole tamborilou com os dedos no tabliê com um ar frustrado. Estava preso num engarrafamento na hora ponta de Londres, mas isso não era a única coisa que o deixava de mau humor. Era a perspetiva da noite que o esperava. Com Romola. Os olhos pretos como a obsidiana de Anatole mostravam fúria. Via-o como um possível marido e era exatamente o que não queria. O casamento era a última coisa que procurava.
O olhar toldou-se um pouco ao pensar na confusão de vida que os pais tinham. Ambos se tinham casado muitas vezes e ele nascera apenas sete meses depois do seu casamento, o que provava que ambos tinham sido infiéis aos seus parceiros anteriores. Também tinham sido infiéis um ao outro e a mãe fora-se embora quando Anatole tinha onze anos.
Ambos estavam atualmente casados novamente. Deixara de se importar e de contar as vezes. Sabia, desde o começo, que dar uma família estável ao seu único filho não era importante para eles. Agora que já estava na vintena, parecia que o seu único propósito era encher as arcas dos Kyrgiakis para financiar o seu estilo luxuoso de vida e os seus divórcios caros.
Anatole estudara Gestão numa boa universidade, tinha um mestrado numa das escolas de negócios mais importantes do mundo e contava com um cérebro privilegiado para os negócios, portanto, podia levar a cabo aquela tarefa com bastante facilidade e sabia que ele também beneficiaria disso. Trabalhar arduamente, viver arduamente, esse era o seu lema… e manter-se afastado dos laços tóxicos do casamento.
Franziu o sobrolho ao pensar novamente em Romola. Pensava que, por ser uma profissional da Bolsa, não teria a ambição de se casar com ele, mas, no fim, descobrira que era tal como todas as outras: Queria tornar-se a esposa de Anatole Kyrgiakis.
Que desespero. Uma dúzia de veículos mais à frente, viu como o semáforo ficava verde. Um instante depois, os carros começaram a mexer-se e Anatole carregou no acelerador.
E, naquele instante, uma mulher apareceu à frente do carro.
Tia tinha os olhos cheios de lágrimas. Estivera com o idoso senhor Rodgers até ao fim da sua longa doença e falecera naquela manhã. A sua morte recordara-lhe o falecimento da própria mãe há menos de dois anos. Agora, enquanto arrastava a mala velha, soube que tinha de chegar à agência antes de fechar. Precisava que a atribuíssem a um novo paciente, porque, como era cuidadora interna, não tinha casa própria. Tinha de atravessar a rua para chegar à agência e, como a passadeira era longe, decidiu fazê-lo entre o trânsito, que se mexia muito devagar.
Levantou a mala pesada, seguindo um impulso repentino, e saiu da calçada…
Com uma velocidade de reação que não sabia que tinha, Anatole carregou no travão e tocou a buzina. Contudo, apesar da sua rapidez, ouviu o impacto de algo sólido a bater contra o carro. Viu a mulher a cair à frente dele. Disse um palavrão, ligou os piscas e saiu com um nó no estômago. Na rua, havia uma mulher de joelhos, segurando uma mala que tinha ficado por baixo do para-choques. A mala abrira-se e havia roupa por todo o lado.
A mulher levantou a cabeça e olhou fixamente para Anatole. Aparentemente, não se apercebia do perigo que correra.
– Em que raios estavas a pensar? – queixou-se ele, com fúria. – Como podes ter atravessado assim?
A mulher parou de olhar fixamente para ele e começou a chorar. A raiva de Anatole desapareceu imediatamente e baixou-se ao seu lado.
– Estás bem? – Parecia claro que não, porque a mulher continuou a soluçar.
Anatole ajudou-a a levantar-se e agarrou na roupa caída, pondo-a na mala. Depois, segurou-lhe o braço.
– Vamos para a calçada – disse.
Ela começou a endireitar-se. Levantou a cabeça. As lágrimas caíam pelas faces e não parava de soluçar. Mas Anatole não prestava atenção a isso. Quando se levantou, o seu cérebro registou duas coisas: A mulher era muito mais jovem do que achara ao princípio e, embora estivesse a chorar, era impressionantemente bonita. Era loira, com o rosto em forma de coração, olhos azuis, boca cor-de-rosa…
Sentiu-se como se um elevador descesse no seu interior e, depois, subisse, ganhando forma e mudando tudo. A sua expressão mudou.
– Estás bem – declarou, num tom de voz amável. – Quase te atropelei, mas não te aconteceu nada.
– Lamento muito! – Ela soluçou.
– Não faz mal. – Anatole abanou a cabeça. – Não há danos. Exceto a tua mala.
Quando a mulher se apercebeu do estado da mala, fez uma careta. Tomando uma decisão repentina, Anatole pôs a mala no porta-bagagem do seu carro e abriu a porta do passageiro.
– Vamos, entra. Eu levo-te! – ordenou, consciente de que os carros de trás não paravam de buzinar com impaciência.
Pô-la no carro, apesar dos seus protestos. Depois, sentou-se ao volante e pôs-se a caminho, questionando-se distraidamente se teria tido tanto trabalho no caso de a pessoa que passara à frente do carro não ser uma loira impressionante….
– Diz-me, onde vamos?
– Eh… – A jovem olhou através do para-brisas com um ar ausente. – Para aquele lado da rua.
Tia continuava sem parar de chorar, mas, agora, havia mais qualquer coisa que a ocupava. Era incapaz de desviar o olhar do homem que tinha ao lado. Engoliu em seco.
Tinha o cabelo preto como o azeviche e o rosto parecia esculpido. Os olhos pareciam chocolate escuro, maçãs do rosto altas… Tia sentia um nó no estômago e não sabia para onde olhar, mas queria continuar a fazê-lo, porque parecia tirado de um sonho. Era o homem mais incrível que alguma vez vira.
Algo que também não tinha muito mérito, já que passara os seus anos de adolescente a cuidar da mãe e, agora, cuidava de idosos e doentes. Nunca tivera oportunidade nem tempo para aventuras românticas, namorados ou diversão. Os seus únicos romances eram os que aconteciam na sua mente, tecidos com o tempo passado a olhar pelas janelas, sentada à cabeceira de camas e a tratar de todas as tarefas de uma cuidadora interna.
Contudo, agora, naquele preciso instante, estava com um homem que parecia saído das suas fantasias românticas. Era tudo o que sonhara. Tia engoliu em seco.
– Estás melhor? – perguntou ele, esboçando um sorriso.
Tia assentiu e, de repente, sentiu-se consciente de que, embora o homem parecesse saído de um dos seus sonhos tórridos, aquilo não era o que procurava, mas exatamente o contrário.
Sentiu-se dolorosamente consciente do aspeto que devia ter para ele com os olhos vermelhos, o nariz congestionado, as lágrimas a cair pelas faces, o cabelo despenteado e sem maquilhagem. Além disso, usava umas calças de ganga velhas e uma camisola larga. Que desastre.
Quando o semáforo ficou verde, Anatole virou pela rua lateral que lhe indicara.
– Agora, por onde? – Passou-lhe pela mente que desejava que fosse mais longe. Porém, desprezou aquele pensamento. Apanhar mulheres na rua, nesse caso literalmente, não era uma boa ideia. Mas, enquanto a levava ao seu destino, bem podia falar com ela. – Lamento que estejas tão compungida, mas espero que tenhas aprendido que não podes atravessar a rua assim.
– Lamento muito – repetiu ela, num tom rouco. – E também lamento estar a chorar assim. Não é culpa tua. Bom, um pouco… Quando gritaste…
– Foi o choque – explicou Anatole, olhando para ela de soslaio. – Tinha medo de te ter matado. Não era a minha intenção fazer-te chorar.
Ela abanou a cabeça.
– Não chorava por isso, mas pelo pobre senhor Rodgers – corrigiu ela, precipitadamente. – Morreu esta manhã. Eu estava lá, tomava conta dele. Era idoso, mas de todas as formas… foi muito triste. Fez-me pensar em quando a minha mãe morreu…
A jovem interrompeu-se bruscamente e Anatole ouviu o seu soluço contido.
– Lamento – disse, pensando que era a única coisa que podia dizer. – Morreu recentemente?
– Não, foi há quase dois anos. Tinha esclerose múltipla desde que me lembro e, quando o meu pai morreu, eu tomei conta dela. Foi por isso que comecei a tomar conta de idosos. Tinha experiência e também não podia fazer muito mais. Além disso, precisava de um emprego como interna porque ainda não tenho casa própria…
Parou novamente, dolorosamente consciente de que estava a contar todas aquelas coisas pessoais a um perfeito desconhecido. Engoliu em seco.
– Agora, vou à agência para conseguir um emprego novo, algo que comece hoje. Aí está! – exclamou, quase a gritar.
Apontou para um edifício sem nenhum encanto e Anatole parou à frente. A jovem saiu do carro e tentou abrir a porta. Não conseguiu. Ele saiu e viu que estava fechada.
– E agora? – Ouviu-se dizer, num tom seco.
Tia virou-se para olhar para ele e tentou disfarçar a angústia.
– Ah, encontrarei uma hospedaria barata para passar a noite. Certamente, há alguma perto e posso ir a pé.
Anatole duvidava bastante… sobretudo, com a mala estragada.
Pousou o olhar nela. Parecia perdida e indefesa. E muito, muito bonita. Tal como antes, tomou uma decisão repentina. A sua voz interior dizia-lhe que estava louco, que se comportava como um idiota, mas ignorou-a. E sorriu.
– Tenho uma ideia muito melhor – afirmou. – Olha, não consegues mexer essa mala nem um metro e muito menos arrastá-la até chegar a uma hospedaria barata imaginária em Londres. Portanto, esta é a minha proposta: Porque não passas a noite no meu apartamento? Eu não vou estar lá – acrescentou, imediatamente, ao ver o pânico refletido nos seus olhos azuis. – Estarás à vontade e, de manhã, podes comprar uma mala nova e ir à agência. O que te parece? – E sorriu.
A jovem olhava para ele como se não acreditasse no que estava a ouvir.
– Tens a certeza? – Havia um certo receio no seu tom, mas o pânico desaparecera.
– Caso contrário, não to ofereceria – indicou ele.
– Isto é incrivelmente amável da tua parte – disse ela, desviando o olhar. – Estou a dar-te muito trabalho.
– Claro que não. Então, aceitas?
Anatole voltou a sorrir, dessa vez, com o sorriso que usava para que as pessoas fizessem o que ele queria. Daquela vez, também funcionou. Ela assentiu tremulamente.
Recusando-se a prestar atenção à voz que lhe dizia que estava louco por fazer semelhante proposta a uma perfeita desconhecida, Anatole ajudou-a a entrar outra vez no carro e dirigiu-se para Mayfair, onde era o seu apartamento.
Olhou para ela. Estava sentada, muito direita e com as mãos no colo, e olhava para a frente, não para ele. Parecia não acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. Portanto, deu o passo seguinte para o tornar real para ela e também para ele próprio.
– Talvez devêssemos apresentar-nos. Sou o Anatole Kyrgiakis.
Era estranho dizer o seu próprio nome porque, normalmente, não tinha de o fazer e, quando o fazia, esperava que reconhecessem o seu apelido imediatamente. Contudo, daquela vez, não houve reação.
– Tia Saunders – respondeu ela, com timidez.
– Olá, Tia – disse Anatole, em voz baixa e com um sorriso.
Viu um rubor nas suas faces, mas voltou a concentrar-se no trânsito. Deixá-la-ia um pouco em paz para que relaxasse um pouco, mas, sem dúvida, continuava a estar tensa quando parou o carro à frente da mansão elegante de estilo georgiano e, depois, a guiou para o interior, carregando a mala estragada. Quando entraram no seu apartamento, que ocupava as águas-furtadas, Tia susteve a respiração.
– Não posso ficar aqui! – exclamou, num tom de surpresa. – De certeza que vou estragar alguma coisa!
Tia observou o sofá branco, comprido e coberto de almofadas de seda e o tapete grosso e cinzento que condizia com as cortinas das janelas amplas. Parecia algo saído de um filme.
– Simplesmente, não entornes café em cima de nada. – Anatole riu-se. – E falando de café… Mataria por uma chávena. E tu?
Tia assentiu.
– Sim… obrigada – balbuciou.
– Ainda bem. Vou ligar a máquina. Mas, primeiro, deixa-me mostrar-te o teu quarto. E porque não tomas um duche para te refrescares? A julgar pelo que me contaste, deves ter tido uma noite má.
Anatole agarrou novamente na mala dela e decidiu que pediria ao gerente do edifício para lhe trazem uma nova. Arrastou-a para um dos quartos de convidados.
Tia continuou a olhar à volta, maravilhada, como se nunca tivesse visto algo parecido. E, certamente, era assim, pensou Anatole. Sentiu uma pontada de satisfação fora do comum. Era um sentimento agradável poder dar àquela rapariga que, sem dúvida, não lidara bem com a morte dos pais e com aquele trabalho mal pago, uma experiência breve do luxo. Queria que desfrutasse.
Anatole deixou a mala no chão, que voltou a abrir-se e a espalhar todo o seu conteúdo, e apontou para a casa de banho incorporada no quarto. Depois, deixou-a com outro sorriso e dirigiu-se para a cozinha.
Cinco minutos mais tarde, o café estava a fazer e ele estava sentado no sofá a examinar as mensagens de correio eletrónico e a tentar por todos os meios fazer com que a sua mente não divagasse para a convidada inesperada que estava a tomar um duche…
Questionou-se se os seus encantos se prolongariam para além do rosto bonito. Suspeitava que sim. Era esbelta, isso via-se claramente, mas não magra. Não. Embora usasse roupa barata e pouco favorecedora, vira os montículos suaves dos seios por baixo. E era baixa, bastante mais do que as mulheres com quem costumava sair.
Talvez se devesse ao facto de ele medir um metro e oitenta e seis ou a estar habituado a mulheres seguras de si próprias que estavam à sua altura em muitos sentidos e avançavam pelo mundo conscientes do seu valor e dos seus atributos.
Mulheres como Romola.
A expressão dele mudou. Antes de Tia se precipitar para a frente do carro, tomara a decisão de afastar Romola da sua vida. Então, porque não haveria de o fazer naquele mesmo instante? Podia enviar-lhe uma mensagem e dizer-lhe que, afinal, não podia encontrar-se com ela naquela noite, que surgira um imprevisto e que não sabia quando voltaria a passar por Londres. E que talvez devessem aceitar que o seu tempo juntos chegara ao fim… Com uma crueldade que era fácil de exercitar quando se via como alvo de uma mulher que queria mais do que ele estava disposto a dar, mandou-lhe uma mensagem e amorteceu o golpe com o envio de uma pulseira de diamantes como presente de despedida. E, depois, com uma sensação de alívio, voltou a concentrar-se naquela noite.
Um sorriso começou a aparecer-lhe nos lábios e os seus olhos suavizaram-se um pouco. Já brincara ao príncipe e à mendiga ao convidar Tia a ficar no seu apartamento. Então, porque não haveria de lhe dar o pacote completo e de lhe oferecer uma noite que sempre recordaria? Champanhe, um bom jantar… A experiência total!
Tinha a certeza de que era algo que nunca vivera na sua vida desfavorecida.
É claro, não lhe ofereceria mais nada. Ele nem sequer ficaria lá. Passaria a noite no Hotel Mayfair, onde o pai tinha sempre uma suíte reservada. É claro que o faria.
Qualquer outra coisa estava fora de questão… por muito bonita que fosse.
Capítulo 2
Tia estava num estado de felicidade completa enquanto a água quente lhe caía pelo corpo, formando espuma com o champô e o gel que encontrara no cesto de produtos de banho de aspeto muito caro na cómoda da casa de banho. Nunca desfrutara de um duche tão delicioso.
Quando saiu com o cabelo tapado por uma toalha e outra toalha à redor do corpo, sentiu-se renascida. Ainda não tivera tempo para se focar no que estava a acontecer porque tudo lhe parecia como um conto de fadas. Um príncipe que a deixava com falta de ar trouxera-a para ali.
Era incrivelmente bonito. E muito amável. Podia tê-la deixado perfeitamente na calçada com a mala estragada e ter-se afastado sem se preocupar.
Mas não o fizera: Levara-a para casa. E como podia dizer que não? Em toda a sua vida confinada e aborrecida, dedicada ao cuidado da sua pobre mãe e de outros, quando acontecera uma coisa dessas, exceto nas suas fantasias?
Tia ergueu o queixo e olhou-se ao espelho com decisão. Não sabia o que estava a acontecer, mas ia desfrutar do momento.
Virou-se e tirou a toalha da cabeça, deixando que o cabelo húmido caísse livre. Depois, procurou desesperadamente entre a roupa para encontrar alguma coisa que fosse melhor do que umas calças de ganga velhas e uma camisola larga. É claro que não tinha nada nem remotamente adequado, mas, pelo menos, melhoraria um pouco. Talvez não conseguisse parecer uma princesa de conto de fadas, mas esforçar-se-ia ao máximo.
Quando regressou àquela sala antiga e palaciana, dirigiu diretamente o olhar para a figura que parecia relaxada no sofá. Meu Deus, não podia ser mais bonito.
Tirara o casaco do fato formal e afrouxara a gravata. Desabotoara o colarinho da camisa e os botões de punho.
Levantou-se.
– Já estás aqui. – E sorriu. – Senta-te e desfruta do teu café.
Anatole apontou com a cabeça para o lugar onde pusera um prato de bolos que tirara do congelador e, depois, descongelara no micro-ondas. Agora, cheiravam deliciosamente.
– Estás a dieta ou posso tentar-te? – perguntou, num tom amável.
Anatole observou como corava novamente. Talvez não devesse ter usado a palavra «tentar». E, se Tia corava porque se sentia tentada, sem dúvida, ele também. E por uma boa razão…
Mudara de roupa e, embora continuasse a ser roupa barata, melhorara muito. Vestira uma saia vaporosa de algodão com desenhos índios e uma t-shirt azul-turquesa que mostrava muito melhor a sua figura do que a camisola larga que tinha antes. E lavara o cabelo, que lhe caía solto e frisado por cima dos ombros. Já não tinha os olhos vermelhos e deixara de parecer uma menina abandonada.
Sentou-se no sofá e as mãos tremeram ligeiramente quando agarrou na chávena de café que Anatole lhe servira, murmurando um agradecimento.
Bebeu-o depressa com a esperança de que lhe acalmasse os nervos agitados e os olhos dirigiram-se outra vez para Anatole. Ao olhar para ele, percebeu que também a observava com um sorriso desenhado nos lábios. Era um sorriso que lhe causou um arrepio.
– Come um bolo – convidou, aproximando o prato.
O cheiro a canela atingiu-a, recordando-lhe que não tivera oportunidade de comer durante o dia. Agarrou num com muito cuidado, aterrorizada com a ideia de deixar cair migalhas no tapete.
Anatole deslizou o olhar pelo seu rosto bonito em forma de coração, os olhos tão azuis, a curva delicada das sobrancelhas e o cabelo frisado.
Era linda. Olhar para ela deixava-o com falta de ar. Consultou o relógio. Eram quase sete. Podiam beber uma taça de champanhe no terraço, mas seria melhor encomendar o jantar primeiro.
Agarrou no computador e procurou a página que usava sempre para encomendar o jantar. Depois, virou o ecrã para Tia.
– Dá uma olhadela e diz-me o que queres jantar – pediu. – Vou encomendar.
Ela abanou a cabeça imediatamente.
– Ah, não, para mim não, obrigada. Estes bolos chegam-me.
– Bom, para mim, não – redarguiu Anatole, num tom amável. – Vá lá, dá uma olhadela. De que tipo de comida gostas? E não me digas que gostas de piza, chinesa ou indiana. Estou a falar de comida gourmet.
Tia olhou para as opções da página com os olhos esbugalhados. Não entendia a maioria.
– Queres que escolha por ti? – perguntou Anatole, ao perceber o seu dilema.
Ela assentiu, agradecida. Ambos se tinham inclinado para a frente para ver o ecrã e Anatole sentiu o cheiro fresco do corpo dela. A única coisa que tinha de fazer para tocar nela era levantar a mão e deslizá-la por aqueles caracóis, passar os dedos pela nuca e puxar a boca suave para a sua…
Endireitou-se bruscamente e entreteve-se a fazer o pedido. Depois, fechou o computador. Chegara o momento de ir buscar o champanhe.
Voltou uns instantes mais tarde com uma garrafa e duas taças na mão. Aproximou-se de uma porta de vidro e abriu-a.
– Vem ver a vista – convidou.
Tia levantou-se e seguiu-o para o terraço que era percorrido por uma balaustrada de pedra. Ainda estava confusa. Ia mesmo jantar com ela? Beber champanhe com ela? O coração acelerava só de pensar nisso.
Quando saiu, sentiu-se aconchegada pelo ar quente da noite. O sol ainda não se escondera por trás das copas das árvores do parque que havia mais à frente. O terraço era um pequeno oásis de plantas frondosas em vasos enormes de pedra.
– Oh, isto é lindo! – exclamou, com naturalidade. O rosto iluminou-se.
Anatole sorriu e sentiu uma pontada de prazer ao vê-la tão contente. Deixou as taças de champanhe numa mesinha de ferro ladeada por duas cadeiras.
– Um refúgio ajardinado – disse. – As cidades não são os meus lugares favoritos, portanto, quando me vejo obrigado a estar nelas, gosto de estar em sítios o mais verdes possível. Essa é uma das razões por que gosto das águas-furtadas: Têm terraços.
Anatole abriu a garrafa de champanhe e, depois, passou-lhe uma das taças vazias.
– Mantém-na ligeiramente inclinada – pediu, enquanto a enchia até meio. Depois, fez o mesmo com a dele e olhou para Tia. Era muito bela e, por alguma razão, isso despertou nele um instinto de proteção.
Algo bastante estranho nele. Não costumava acontecer-lhe com as mulheres.
– Yammas – brindou, levantando a taça. – Significa «saúde» em grego.
– Ah, portanto, és grego! Sabia que devias ser estrangeiro pelo apelido, mas não sabia que… – Ficou corada. Teria parecido uma mal-educada? Londres era incrivelmente multicultural. Não havia razão para dizer que era estrangeiro – Lamento. Não queria dizer…
– Sim, sou estrangeiro – confirmou ele, num tom cordial. – A minha nacionalidade é grega. Mas trabalho muito em Londres porque é um centro financeiro muito importante. Vivo na Grécia. Conheces? Talvez de algumas férias? – E sorriu, queria que Tia voltasse a sentir-se confortável.
Tia abanou a cabeça.
– Passávamos o verão em Espanha quando eu era pequena – disse, desviando o olhar. – Quando o meu pai ainda era vivo e a minha mãe não estava doente.
– É bom ter boas lembranças da infância, sobretudo, das férias familiares – murmurou Anatole.
Mas ele não as tinha. As férias escolares do internato suíço exclusivo em que vivia desde os sete anos eram passadas em casa de amigos ou na mansão enorme dos Kyrgiakis em Atenas com a única companhia dos empregados. Os pais estavam demasiado ocupados com as suas próprias vidas.
Quando chegara à adolescência, passara algumas semanas com o tio, o irmão mais velho do seu pai. Vasilis nunca mostrara nenhum interesse pelos negócios ou pelas finanças. Era um erudito que adorava perder-se em bibliotecas e museus. Usava o dinheiro dos Kyrgiakis para financiar investigações arqueológicas e projetos artísticos. Desaprovava a conduta imoral do irmão no amor, mas nunca o criticava abertamente. Era um solteiro empedernido e Anatole achava que era amável, mas distante. Com o tempo, começara a valorizar a sua sensatez.
– Bom, à tua primeira viagem à Grécia. De certeza que irás algum dia – replicou, voltando ao momento e brindando suavemente com Tia.
Bebeu um gole pequeno enquanto olhava para o homem que tinha à frente e que a apanhara na rua para a levar para o seu apartamento lindo e beber champanhe… pela primeira vez na sua vida.
Custava-lhe acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. Talvez aquele único gole de champanhe a tivesse tornado ousada, porque disse precipitadamente:
– É incrivelmente amável da tua parte!
«Amável?» Aquela palavra não condizia com Anatole. O que estava a fazer era deixar-se levar pelo que lhe apetecia fazer. Voltou a levantar a taça. Naquele momento, não se importava. Tinha a atenção fixa naquela mulher linda tão jovem, tão fresca e tão cativante na sua naturalidade. Não estava a pôr em prática nenhuma artimanha para o atrair, não lhe fazia olhinhos nem pedia nada dele.
Anatole sorriu e a expressão suavizou-se.
– Bebe um pouco mais – indicou. – Temos a garrafa toda. – Bebeu um gole da taça e encorajou-a a fazer o mesmo.
Tia bebeu enquanto olhava para a vista maravilhosa.
– E diz-me – pediu Anatole, enchendo as taças –, o que queres fazer na vida? Sei que tomar conta de idosos é importante, mas suponho que não queiras fazê-lo para sempre, pois não?
Ao fazer aquela pergunta, apercebeu-se de nunca conhecera alguém do seu estrato social. Todas as mulheres com quem lidava eram profissionais de alto perfil ou filhas do papá com dinheiro. Espécies completamente diferentes daquela jovem que tinha um trabalho triste e árduo.
Tia mordeu o lábio inferior, sentindo-se um pouco incomodada.
– Bom, passava muito tempo fora da escola porque tinha de cuidar da minha mãe e nunca passava nos exames, portanto, não pude ir para a universidade. E, embora esteja a tentar poupar, ainda não consigo comprar uma casa própria.
– Não tens família que te ajude? – Anatole franziu o sobrolho.
Ela abanou a cabeça.
– Vivia com o meu pai e a minha mãe.
Tia olhou para ele. Bebera quase uma taça inteira de champanhe e sentia-se atrevida. Talvez aquilo fosse um sonho, mas ia desfrutar até ao fim.
– E tu? – perguntou. – As famílias gregas costumam ser numerosas, não é?
Anatole sorriu sem vontade.
– A minha, não – declarou. – Eu também sou filho único. – Olhou para a taça de champanhe. – Os meus pais divorciaram-se e estão casados com outras pessoas agora. Não os vejo muito.
Porque não queria. Nem eles. A única reunião fixa da família Kyrgiakis era a reunião anual de acionistas. Era quando se encontravam: Ele, os pais, o tio e algum primo afastado.
– Ena, é uma pena – murmurou ela, com simpatia.