Kitabı oxu: «Mais do que um filho secreto»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2018 Kate Hewitt

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Mais do que um filho secreto, n.º 1845 - janeiro 2021

Título original: The Secret Kept from the Italian

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-245-7

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Epílogo

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Capítulo 1

O trigésimo segundo andar do edifício de escritórios estava completamente às escuras enquanto Maisie Dobson empurrava o carrinho de limpeza pelo corredor e o barulho das rodas era o único som no edifício fantasmagórico. Depois de seis meses a trabalhar nas limpezas, devia estar habituada, mas continuava a assustá-la um pouco. Embora houvesse uma dúzia de empregadas no edifício, cada uma trabalhava num dos andares, com todos os escritórios silenciosos e escuros e as luzes de Manhattan a entrar pelas janelas.

Eram duas da manhã e estava muito cansada. Tinha uma aula de violino às nove da manhã e receava adormecer. Esse sempre fora o seu sonho, a Escola de Música, não ser empregada de limpeza. Contudo, para conseguir o segundo precisava do primeiro e não se importava. Estava habituada a trabalhar muito para conseguir o que queria.

Parou ao ver luz num escritório ao fundo do corredor. Alguém deixara a luz acesa, pensou. E, no entanto, sentiu uma certa inquietação. Às onze, quando chegava a equipa de limpeza, o arranha-céus de Manhattan estava sempre completamente às escuras. Maisie, nervosa, continuou a empurrar o carrinho. O barulho das rodas era muito alto no corredor silencioso.

«Não sejas tão covarde», repreendeu-se. «Não tens nada a recear. É apenas uma luz acesa, mais nada.»

Parou o carrinho à frente da porta e, depois, respirando fundo, espreitou para o escritório… e viu um homem.

Maisie ficou imóvel. Não era o executivo típico e gordo que ficara a trabalhar mais algumas horas. Não, aquele homem era… A sua mente começou a dar voltas, tentando encontrar as palavras para o descrever. Certamente, era muito bonito. O cabelo escuro caía por cima da testa e das sobrancelhas arqueadas. Tinha um ar contrariado, enquanto olhava para o copo meio vazio de uísque que pendia dos seus dedos compridos.

Não usava gravata e os dois primeiros botões da sua camisa estavam desabotoados, deixando ver um peito moreno. Exsudava carisma e poder, tanto que Maisie dera um passo em frente sem se aperceber.

Então, ele levantou o olhar e uns olhos azuis penetrantes deixaram-na colada ao chão.

– Ena, olá – murmurou, esboçando um sorriso frio. A sua voz era baixa e rouca, com um pouco de sotaque. – Como está nesta noite tão agradável?

Maisie ter-se-ia sentido alarmada, até assustada, mas, nesse momento, viu um brilho de angústia nos seus olhos, nas linhas duras do seu rosto.

– Estou bem – respondeu, olhando para a garrafa de uísque quase vazia que estava na secretária. – Mas acho que a questão é como está o senhor.

O homem inclinou a cabeça para um lado, com o copo prestes a escorregar dos seus dedos.

– Como estou? É uma boa pergunta. Sim, uma pergunta muito boa.

– Ah, sim?

A intensidade da sua angústia fez com que Maisie sentisse um aperto no coração. Sempre tivera muito amor para dar e poucas pessoas a quem o dar. O irmão, Max, fora o principal recetor, mas, agora, era independente e queria viver a sua vida. E isso era bom. É claro que sim. Tinha de o repetir todos os dias.

– É, sim – confirmou o homem, endireitando-se um pouco. – Porque devia estar bem, não é? Devia estar lindamente.

Maisie cruzou os braços.

– E porque devia estar bem? – perguntou, intrigada.

Quem era aquele homem? Há seis meses que limpava o escritório e nunca o vira. Claro que não vira muitos dos empregados porque chegava tarde. No entanto, tinha a sensação de que aquele escritório, pequeno, num andar médio de um edifício anónimo, não era o seu lugar. Parecia… diferente, demasiado poderoso e carismático. Até bêbado, era encantador e atraente. Mas, para além da sensualidade, aquele homem mostrava uma dor que a fez recordar a dela, a sua própria tristeza.

– Porque devia estar lindamente? – O homem arqueou uma sobrancelha escura. – Por muitas razões. Sou rico, poderoso, no topo da minha carreira e posso ter qualquer mulher. Tenho casas em Milão, Londres e Creta. E um iate de doze metros de comprimento, um avião privado… – Levantou a cabeça para olhar para ela com aqueles olhos azuis trocistas. – Quer que continue?

– Não – respondeu Maisie, intimidada com a lista impressionante. Aquele não era o seu lugar, pensou. Devia estar no último andar, com o presidente e os vice-presidentes da empresa, ou ter um andar só para ele. Quem seria, questionou-se. – Mas vivi o suficiente para saber que essas coisas não dão felicidade.

– Viveste o suficiente? – repetiu ele, olhando para ela com interesse. – Pareces uma estudante.

– Tenho vinte e quatro anos – disse Maisie, com um ar digno. – E sou uma estudante. Limpo escritórios para pagar os estudos.

– É de noite, não é? – murmurou o desconhecido, virando-se para olhar para as luzes do edifício Chrysler. – Uma noite escura e fria.

Maisie sentiu uma certa apreensão. Sabia que não estava a falar do tempo.

– Porque está aqui, a beber sozinho num edifício vazio?

Ele continuou a olhar para o céu escuro durante uns segundos e, depois, virou-se para ela com um sorriso nos lábios.

– Mas o edifício não está vazio. Porque haveria de beber sozinho? – perguntou, pousando o copo na secretária e empurrando-o para ela.

– Não posso – disse Maisie, dando um passo atrás. – Estou a trabalhar.

– A trabalhar?

– Limpo estes escritórios. Este é o último escritório do andar.

– E já quase acabaste.

Era verdade, mas não importava. Eram quase três da madrugada e tinha aulas no dia seguinte.

– Mesmo assim, não posso beber álcool. E devia continuar a limpar…

Ele apontou à volta: Uma secretária, algumas cadeiras e um sofá de pele apoiado contra a parede.

– Não acho que haja muito para limpar.

– Tenho de esvaziar o caixote do lixo, aspirar…

Por alguma razão estranha, Maisie ficou corada.

– Então, deixe-me ajudar – ofereceu-se o desconhecido. – E, depois, beberemos um copo.

– Não, eu…

– Porquê?

O homem levantou-se da cadeira com um equilíbrio surpreendente, considerando que devia ter bebido quase toda a garrafa de uísque, e tirou do carrinho um pano e uma embalagem de detergente. Depois, afastou os papéis da secretária e começou a limpar enquanto Maisie o observava, atónita. Nunca acontecera uma coisa dessas. Nunca encontrara um empregado que trabalhava até muito tarde. Em geral, deixavam-na limpar enquanto continuavam a trabalhar, suspirando de vez em quando para deixar claro que era um incómodo.

O homem acabara de limpar a secretária e estava a limpar a mesa de café que havia à frente do sofá.

– Não vai ajudar-me? Estou a começar a pensar que é uma preguiçosa – brincou.

– Quem é? – perguntou ela.

– Antonio Rossi – respondeu ele, pegando no caixote do lixo e esvaziando-o no caixote do carrinho. – E quem é a senhora?

– Maisie.

– É um prazer conhecê-la, Maisie – declarou, apontando para o aspirador. – Só falta aspirar e, depois, poderemos beber um copo.

Era linda, pensou Antonio. Maisie, dissera que se chamava. Parecia surpreendida com a sua atitude e ele também estava um pouco surpreendido.

Gostava de Maisie, com os seus caracóis ruivos, os seus olhos verdes grandes e essa figura voluptuosa parcialmente escondida por baixo da bata azul do uniforme. Queria beber um copo com ela. Precisava de esquecer e, com os anos, descobrira que o álcool era a melhor forma de o fazer. O álcool ou o sexo.

Antonio, impaciente, tirou-lhe a aspirador da mão e ela deu um salto. Os seus caracóis saltaram à volta do rosto bonito e ovalado. Tinha sardas no nariz, como um pó dourado.

– Eu faço-o – disse. E começou a aspirar o escritório. O barulho quebrava o silêncio, que se tornou ensurdecedor quando o desligou.

Maisie observava-o, perplexa, e ele não estava suficientemente bêbado para não se sentir culpado por seduzir uma empregada num edifício vazio a meio da noite. Mas ela aceitaria ou ir-se-ia embora, de modo que não tinha de se sentir culpado. Já tinha pecados suficientes para expiar.

Além disso, talvez não levasse a sua avante. Talvez ela fosse casada ou tivesse namorado. Embora achasse que não estava a imaginar a faísca que vira nos seus olhos. Só para pôr essa teoria à prova, tocou nos seus dedos enquanto arrumava o aspirador e viu que as suas pupilas se dilatavam. Sim, a faísca estava lá. Definitivamente, estava lá.

– Bom, então, bebemos esse copo?

– Não devia…

Antonio tirou outro copo da gaveta da secretária e serviu uma dose generosa de uísque.

– «Não devia» é uma expressão tão aborrecida, não acha? Não devíamos deixar que um «não devia» decidisse as nossas vidas.

– Isso não é uma contradição?

Ele riu-se, adorando o seu engenho.

– Exatamente – confirmou, enquanto lhe oferecia o copo. Ela aceitou-o, sem parar de olhar para os olhos dele.

– Porque está aqui?

– Não sei a que se refere. – Antonio bebeu um gole de uísque, desfrutando do ardor do álcool na garganta, um consolo bem-vindo.

– Neste edifício vazio, a estas horas e a beber sozinho.

– Estava a trabalhar.

Até as lembranças amargas começarem a embargá-lo, como acontecia naquele dia todos os anos. E em muitos outros dias se ele o permitisse.

– Trabalha aqui? – perguntou ela, incrédula.

– Não de forma habitual. Contrataram-me para me encarregar de uma certa operação.

– Que tipo de operação?

Ele hesitou porque, embora a aquisição fosse de conhecimento geral, não queria inspirar rumores. Porém, então, decidiu que Maisie, certamente, não conhecia nenhum dos empregados, de modo que era inofensiva.

– Dedico-me a avaliar os riscos de uma aquisição e tento minimizar as perdas e os danos durante a mudança de poder.

– Esta empresa foi adquirida por outra?

– É verdade. Conhece alguém que trabalhe aqui?

– Só as empregadas da limpeza. Os nossos postos de trabalho estão em perigo? – perguntou ela, sem conseguir disfarçar o seu medo.

– Não, não me parece. Seja quem for o proprietário, terá de limpar os escritórios.

– Ah… – murmurou ela, deixando escapar um suspiro de alívio. – Ainda bem.

– Brindamos a isso? – sugeriu Antonio. – Os vossos são dos poucos empregos que não se verão afetados pelas mudanças.

– Ena, é uma pena.

– Mas não para ti.

– Não, não.

Ele levantou o seu copo.

– Tchim-tchim.

Maisie bebeu um gole de uísque, fazendo uma careta quando o álcool potente lhe queimou a garganta.

– O que significa isso?

– É um brinde italiano.

– Ah… É italiano?

– É verdade.

– O uísque é muito forte, não estou habituada.

– Ena, agora, sinto-me culpado…

Antonio não acabou a frase. «Culpado.» Sentia-se culpado por tantas coisas… Coisas que não podia mudar. Coisas que nunca esqueceria.

– Nunca estive em Itália. É bonita?

– Algumas cidades são lindas.

Maisie bebeu outro gole de uísque.

– Sabe a fogo.

– E queima como o fogo. – Antonio bebeu o resto do uísque, saboreando o ardor e desejando o esquecimento. Se fechasse os olhos, via o rosto do irmão, o seu sorriso, os seus olhos brilhantes, tão jovem e despreocupado. Mas, se os mantivesse fechados, esse rosto mudaria, tornar-se-ia apagado e pálido. Veria o pavimento vermelho de sangue por baixo da sua cabeça, embora nunca tivesse visto o irmão assim. Nunca tivera oportunidade.

Era por isso que precisava de continuar a beber. Para poder fechar os olhos.

– Porque está aqui? – insistiu Maisie, olhando para ele com uma expressão incerta. – Tinha um aspeto tão triste… tão triste como eu me senti muitas vezes.

Essa admissão surpreendeu-o.

– Porque se sentia triste?

Maisie fez uma careta.

– Os meus pais morreram quando eu tinha dezanove anos. Quando o vi, pensei nisso. Parecia… enfim, parecia tão triste como eu me senti nessa altura. Às vezes, continuo a sentir-me assim.

A sua sinceridade surpreendeu-o. Mais do que isso, essa verdade sem enfeites deixou-o sem fala. Finalmente, encontrou as palavras, mas não eram as que esperava.

– Porque eu também perdi alguém e estava a pensar nele esta noite.

O que estava a fazer? Nunca falava de Paolo com ninguém e muito menos com uma desconhecida. Tentava não pensar nele, mas fazia-o sempre. Paolo estava sempre na sua mente e na sua alma. Perseguindo-o, acusando-o. Fazendo-o recordar.

– Quem perdeu? – perguntou ela, com um brilho de compaixão nos olhos.

Era tão encantadora… O cabelo ruivo emoldurava um rosto ovalado de expressão aberta e acolhedora e os lábios suculentos eram tão tentadores… Queria abraçá-la, mas mais do que isso, queria falar com ela. Queria contar-lhe a verdade ou, pelo menos, a parte da verdade que podia revelar.

– O meu irmão – esclareceu, em voz baixa. – O meu irmão mais novo.

Capítulo 2

– Ah… – murmurou Maisie, olhando para aquele homem tão atraente e tão triste que o seu coração se partia por ele. – Lamento muito.

– Obrigado.

– Eu também tenho um irmão mais novo e nem quero imaginar…

Não poderia perder Max. Era a sua única família, mas, agora que acabara o curso, vivia a sua própria vida, exigindo uma independência que a fazia sentir-se ao mesmo tempo orgulhosa e triste. Finalmente, chegara a hora de perseguir os seus próprios sonhos, mas, às vezes, era uma ocupação muito solitária.

– Mas perdeu os seus pais – disse ele, pondo as mãos nos bolsos das calças enquanto se dirigia para a janela para olhar para o céu. – Como aconteceu?

– Um acidente de viação.

Maisie reparou que Antonio ficava com os ombros tensos.

– Um condutor bêbado?

– Não, alguém que conduzia a demasiada velocidade. Passou um sinal vermelho e bateu de frente no carro dos meus pais. – Maisie respirou fundo. Cinco anos depois, continuava a partir-lhe o coração. Já não era uma ferida aberta, mas uma chaga antiga e profunda que seria sempre parte dela. – O único consolo é que morreram no ato.

– Que rico consolo…

– Pelo menos, é qualquer coisa – replicou ela. Às vezes, era a única coisa que tinha. – Como é que o seu irmão morreu?

Antonio demorou um instante a responder, como se estivesse a ponderar o que ia dizer, a debater o que podia contar-lhe.

– Do mesmo modo – replicou, finalmente. – Um acidente de viação, como os seus pais.

– Lamento muito. É horrível que a irresponsabilidade de alguém possa causar a morte de uma pessoa que amamos, não é?

– Sim – assentiu Antonio. – Horrível.

– Era alguém que conduzia a toda a velocidade ou…?

– Sim – interrompeu ele, num tom seco. – Alguém que ia a demasiada velocidade.

Maisie percebeu que não queria falar disso.

– Lamento – repetiu, pondo impulsivamente uma mão no seu braço. Tinha a manga da camisa arregaçada até ao cotovelo e tocou no braço nu, na pele quente e suave. Sentiu um arrepio e quase afastou a mão o mais depressa que podia, mas, por alguma razão, não o fez. Não conseguia fazê-lo.

Continuaram assim, imóveis, durante uns segundos tensos, até Antonio se virar. Maisie viu um brilho nos seus olhos azuis penetrantes e sentiu uma corrente de calor e de desejo que arrasou todo o pensamento racional. Devia disfarçar, pensou. Só quisera consolá-lo, mas, agora, sentia algo completamente diferente. E avassalador.

Olhava para ele, sustendo a respiração, sentindo-se presa, mas de um modo maravilhoso e excitante.

– Quantos anos tem o seu irmão? – perguntou Antonio.

Maisie conseguiu respirar fundo enquanto afastava a mão do seu braço.

– Vinte e dois.

– Então, tinha dezassete quando os vossos pais morreram.

– Sim.

– E o que fizeram sem pais?

– Trabalhar – respondeu ela. Não queria contar-lhe o desgosto e a surpresa que sentira ao descobrir que não tinham economias e que a casa estava hipotecada. O dinheiro sempre fora uma preocupação durante a sua infância, mas, depois da morte dos pais, transformara-se num medo avassalador. Claro que um homem como Antonio Rossi, com o seu iate e as suas casas por todo o mundo, não quereria saber nada disso.

– Trabalhar – repetiu ele, olhando para ela nos olhos. – Cuidou do seu irmão?

– Sim, claro.

Max fora tudo para ela depois da morte dos pais e continuava a custar-lhe não o ver todos os dias. Sentia a falta de precisar dela, mas há muito tempo que não precisava. Emocionalmente, pelo menos.

– Como se chama? – perguntou ele.

– Max – respondeu Maisie. – Acabou o curso agora e está a estagiar em Wall Street.

– Wall Street. – Antonio assobiou. – Parece que as coisas estão a correr bem.

– Sim, parece que sim. Mas estávamos a falar de ti. Como se chamava o seu irmão?

Antonio hesitou e Maisie percebeu que não queria falar disso.

– Paolo – disse Antonio, finalmente, deixando escapar um suspiro. – Tinha menos cinco anos do que eu. Faz hoje dez anos que morreu.

– Hoje…

– Daí o uísque – esclareceu ele, deixando escapar uma gargalhada amarga. – O dia dezasseis de janeiro é o dia mais terrível do ano.

– Lamento muito.

Antonio encolheu os ombros.

– Não é culpa tua.

– Não, mas sei como dói e não o desejo a ninguém.

Adoraria tocar nele novamente, oferecer-lhe algum consolo, mas receava a sua resposta e a dela própria.

– Não, claro. – Antonio voltou a olhar para ela em silêncio. – É uma pessoa muito amável, Maisie. Tem um coração generoso, dá muito aos outros e, certamente, recebe muito menos.

– Fala de mim como se fosse um capacho.

– Não, claro que não. É assim que se sente?

Torceu o nariz, surpreendida, porque, no fundo do seu coração, sempre sentira que era assim. O irmão e ela só tinham dois anos de diferença, mas transformara-se em mãe e pai para ele. Tivera de o fazer. E fizera-o com prazer, mas… às vezes, a vida parecia-lhe tão cinzenta, tão ingrata. E questionava-se se havia mais qualquer coisa.

– Talvez um pouco – admitiu, finalmente. E, depois, sentiu-se mal. Como podia estar ressentida com o irmão? – Não, bom, não queria dizer isso…

– Cale-se. – Antonio pôs um dedo nos seus lábios. – Não tem de se desculpar pelos seus sentimentos. É evidente que se importa com o seu irmão e que sacrificou muito por ele.

– Como pode sabê-lo? – sussurrou Maisie.

Ele apertou os seus lábios. Foi um toque suave como uma pena e, no entanto, o toque mais íntimo que alguma vez experimentara.

– Porque exsuda amor. Amor e generosidade.

O tom de Antonio era sincero, com um toque de melancolia. Ninguém lhe dissera isso antes. Ninguém reparara no que fizera por Max e em tudo aquilo a que renunciara. Mas, por alguma razão, aquele desconhecido sabia.

– Obrigada – sussurrou.

Antonio empurrou o dedo contra os seus lábios, uma carícia que Maisie sentiu até ao centro do seu ser. E ele percebeu.

– Tão carinhosa… – murmurou, enquanto traçava a comissura dos seus lábios com a ponta do dedo. – E tão encantadora…

Maisie estava transfigurada com essa carícia. O toque do seu dedo parecia estar a deixar uma marca na sua alma. Tivera alguns namorados, mas nada sério porque tinha sempre de pensar em Max e estava muito ocupada, a trabalhar e a tentar não se atrasar com os seus estudos de Música. Os beijos e abraços desses namorados não a tinham afetado como um toque simples de Antonio Rossi.

Sabia que tinha de pôr fim àquela tolice e voltar a trabalhar. Acabar o seu turno, voltar para casa e esquecer a magia perigosa daquele encontro inesperado.

Antonio deslizou o dedo pelo seu queixo e pelo seu pescoço, onde a pulsação batia de modo frenético. Deixou-o lá por um instante, olhando para ela com o sobrolho franzido. Depois, desabotoou o primeiro botão da bata e passou o dedo pela t-shirt simples de algodão que tinha por baixo, com a insígnia da empresa no bolso.

A surpresa de Maisie foi tal que o copo de uísque escorregou dos seus dedos e caiu ao chão, sujando a carpete.

– Oh, não…

– Não importa – disse Antonio.

– Claro que importa. Não posso deixar o escritório assim, tenho de o limpar.

– Então, não o deixaremos assim.

Antonio sorriu, irónico, como que dizendo que isso não ia distraí-lo do seu propósito. Mas o que é que o multimilionário de olhos magnéticos queria dela?

Embora a resposta fosse evidente. Maisie pestanejou, colada ao chão, enquanto Antonio tirava um pano do carrinho para limpar a mancha da carpete.

Queria sexo. Era o que os homens ricos e poderosos queriam de mulheres como ela. A única coisa que queriam. Mas ali estava, a limpar a carpete e Maisie não entendia porquê. E também não entendia como podia sentir-se tentada com uma proposta tão sórdida.

Sexo com um desconhecido. Era nisso que estava a pensar. Claro que talvez só estivesse a ser amável, a seduzir um pouco uma empregada para se divertir.

Antonio voltou a deixar o pano no carrinho e virou-se para ela com um sorriso travesso nos lábios.

– Bom, já acabei. Onde estávamos?

Maisie corara até à raiz do cabelo e Antonio reparou na mudança de cor com grande interesse. Tal como reparara em como respondia ao toque do seu dedo. E ele também respondia, sentindo um desejo virulento… e algo mais profundo. Falava a sério quando dissera que era boa e generosa. Nesse momento, parecia a pessoa mais honesta e amável que alguma vez conhecera e desejava tanto aquilo como o seu corpo. Bom, quase tanto.

– Onde estávamos exatamente? – perguntou ela, num tom desafiante.

Antonio esboçou um sorriso.

– Eu acho… – murmurou, enquanto passava o dedo pela sua face acetinada –, que estávamos aqui.

Maisie fechou os olhos e cerrou os dentes, como se o toque fosse desagradável. Mas Antonio sabia que não era assim porque tremia.

– Porque me fazes isto? – perguntou, num sussurro, tratando-o por tu.

– Ainda não te beijei.

Abriu os olhos, atónita, apesar de tudo o que acontecera.

– Ainda?

– Ainda, mas sabes que é apenas uma questão de tempo. E desejas tanto isto como eu, Maisie. Quero esquecer a dor e a tristeza e só quero recordar… isto. – Suavemente, para que pudesse afastar-se se desejasse, Antonio puxou-a para ele. As suas ancas chocaram e os seus seios esmagaram-se contra o peito dele. Sentiu-a a tremer e viu que tinha os olhos esbugalhados.

Uma parte dele, uma parte importante, queria afundar os dedos no cabelo ruivo e saquear a sua boca. Perder-se no esquecimento da luxúria.

Mas não podia fazer isso. Maisie era demasiado encantadora para ser tratada com tanta brusquidão, de modo que levou o seu tempo, observando-a enquanto ela se habituava ao seu toque e sentindo a mudança nos seus corpos e no ar. A sedução transformou-se em antecipação, em expectativa.

– És encantadora – murmurou, enquanto enredava um caracol entre os dedos, puxando-o suavemente. – Muito, muito encantadora.

– Tu também – murmurou ela, com uma gargalhada trémula. – Mas deves saber como és bonito.

Ele riu-se. Havia algo deliciosamente refrescante na sinceridade dela.

– Talvez possas demonstrar-mo.

– Não saberia como fazê-lo.

Antonio voltou a puxar o caracol.

– Poderias beijar-me.

Um rubor encantador espalhou-se pela sua cara.

– Não… não posso.

– Claro que podes.

– Não saberia como – repetiu Maisie, sentindo que a cara lhe ardia.

– Então, tenho de fazer o trabalho todo?

– Não tens de o fazer. Eu não te pedi nada.

Antonio sorriu. Estava a desfrutar tanto da conversa como da antecipação deliciosa do beijo.

– Estou a pedir-to – declarou. – De facto, exijo-o.

– O quê?

– Beija-me, Maisie.

Observou-o com os olhos esbugalhados. Poderia ter pensado que se sentia ofendida, mas o brilho desses olhos cor de esmeralda dizia outra coisa.

– Olha para a minha boca como se fosse uma montanha que tivesses de escalar – observou, brincalhão. Mal se tinham tocado, mas era difícil continuar com esse jogo. O desejo transformara-se numa corrente, numa tortura, e depressa seria avassalador.

– É que eu… Enfim, não sou assim tão aventureira.

– Mas queres beijar-me.

Era uma afirmação, não uma pergunta. Porque sabia que era assim. Viu-o no tremor do seu corpo, na dilatação das suas pupilas, em como deitava a ponta da língua de fora para a passar pelos seus lábios rosados.

– Sim…

– Não pareces muito certa.

– Não estou habituada a estas situações – disse Maisie, deixando escapar um risinho incrédulo. – Sinto-me como se estivesse num romance.

– Então, desfruta da viagem – sugeriu Antonio, pensando por um instante que talvez devesse avisá-la de que era apenas uma noite, um momento breve de prazer. Mas não queria arrefecer o ambiente e, além disso, ela devia sabê-lo. As relações não começavam com dois desconhecidos num andar de escritórios às duas da madrugada. Maisie parecia inocente, mas não era tola.

– Desfrutar da viagem – repetiu ela, saboreando cada palavra como se fosse um bom vinho. – É algo que nunca fiz.

Antonio arqueou as sobrancelhas.

– Não?

– Não, nunca.

– Então, chegou o momento.

Maisie levantou o olhar, decidida.

– Talvez devesse – murmurou, pondo-se em bicos dos pés para tocar nos seus lábios, um toque leve como uma pena. Antonio ficou imóvel e ela afastou-se, olhando para ele com o sobrolho franzido. – Não… não gostaste?

– Claro que gostei – apressou-se a dizer ele. – Mas como posso sentir-me satisfeito com um lanchinho quando o que quero é o jantar, o banquete todo? – replicou, depois, enquanto inclinava a cabeça para procurar os seus lábios. Aquele jogo prévio era delicioso, algo que nunca fizera com outra mulher. – Beija-me outra vez, Maisie.

E ela fê-lo, pondo uma mão no seu ombro. Era um beijo trôpego e hesitante e, por alguma razão, perfeito. Antonio segurou-a pela cintura com as duas mãos e sentiu-a a tremer e excitada. Contudo, parou, esperando que Maisie desse o passo seguinte.

E fê-lo. Voltou a beijá-lo, tocando nos seus lábios como uma borboleta tímida. Antonio capturou a sua boca então, saqueando o interior sedoso com a língua.

O sangue acelerava nas suas veias. Quisera ir devagar, ser civilizado e ter o controlo, mas todos os seus planos ficaram estragados quando Maisie se entregou tão generosamente. Devagar, empurrou-a para o sofá e deitou-a nele com cuidado enquanto ela o observava com os olhos brilhantes.

– Antonio…

– Desejas isto, Maisie? – perguntou-lhe, receando que tivesse pensado melhor.

– Sim… – confirmou ela, num tom inseguro.

E Antonio amaldiçoou-se por ter precipitado a situação.

– Desejas isto? – voltou a perguntar e o brilho dos seus olhos deixava claro a que se referia.

Maisie observava-o com as pupilas dilatadas, os lábios entreabertos e uma expressão carregada de desejo enquanto ele esperava com os punhos cerrados, tenso e expectante.

– Sim – confirmou Maisie, finalmente, apoiando a cabeça nas costas do sofá. – Desejo-o, sim.

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