Kitabı oxu: «As obras dos Jeronymos»

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Luciano Cordeiro

As obras dos Jeronymos


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066409708

Índice de conteúdo

LUCIANO CORDEIRO

LUCIANO CORDEIRO

I

II

III




VESPERAS DO CENTENARIO
AS OBRAS DOS JERONYMOS

Índice de conteúdo

PARECER
Apresentado á Commissão dos Monumentos Nacionaes
Em sessão de 7 de Novembro de 1895
pelo seu Vice-Presidente


LUCIANO CORDEIRO

Índice de conteúdo



LISBOA
Typographia—CASA PORTUGUEZA—Papelaria
139—Rua de S. Roque—141
1895




VESPERAS DO CENTENARIO
AS OBRAS DOS JERONYMOS

Índice de conteúdo

PARECER
Apresentado á Commissão dos Monumentos Nacionaes
Em sessão de 7 de Novembro de 1895
pelo seu Vice-Presidente


LUCIANO CORDEIRO

Índice de conteúdo



LISBOA
Typographia—CASA PORTUGUEZA—Papelaria
139—Rua de S. Roque—141
1895




I

Índice de conteúdo


Destinada, em 28 de dezembro de 1833, a parte conventual do edificio dos Jeronymos á installação da chamada Casa Pia de Lisboa, vinte annos passados um Provedor benemerito, de quem todos nos lembramos ainda:—José Maria Eugenio d'Almeida,—entendeu dever acompanhar a radical reforma d'aquella instituição asylar com a das velhas e desconcertadas casarias em que ella pouco confortavelmente se alojava.


Parallelamente com as necessidades hygienicas e disciplinares do pio internado, determinava-lhe o generoso impulso outra idea, não menos generosa, decerto, mas antes recebida do que germinada, talvez, n'aquelle espirito caracteristicamente pratico:—a de melhor conformar e adaptar á grandesa e á feição esthetica da parte primitiva do Monumento, pelo menos o aspecto architectonico e decorativo do resto da vasta edificação.


Da extraordinaria associação d'estas ideias,—mal definidas e reflectidas, então, nem mais definidas, nem reflectidas melhor até hoje,—derivaram as obras que se teem ido fazendo e desfazendo desde 1863, sob as denominações improprias até ao absurdo, de «restauração» e de «reconstrucção» dos Jeronymos:—tão pouco «reconstrucção» que começaram por desfazer a continuidade do Monumento;—tão pouco «restauração» que demolindo grande parte do que existia, e até do que era mais que provavel que existisse desde a fundação primeira, foram essas obras ensaiando, sem estudo e por phantasia, o que não podera ser a traça e o aspecto originario, nem, em tempo algum, a fabrica integral e harmoniosa do edificio na sua intenção e na sua significação singular.


Disparatavam, irrecusavelmente, desde a rasão e inspiração inicial, os dois objectivos que se pretendia fazer mais do que paralellos, convergentes, á força de engenho e sem olhar a despesas:—o de uma installação asylar para um milheiro de creanças orphanadas e desvalidas, e o de uma suposta restituição artistica da grandiosa e historica construcção em que continuasse a habitar e a affirmar-se a idea que n'ella fundira a fé e a arte nacional no seculo XVI.


Mas desde o começo se aggravou, ainda, esta manifesta irreflexão e inaptidão de propositos, no impeto indisciplinado, e depois na malograda teimosia da execução.


Podera suppôr-se, creio até que muita gente suppõe, realmente, que o Monumento se achava truncado ou ficara incompleto;—que nada mais existia do que o Templo, ou que além d'elle, n'essa extensa linha de fachada onde principalmente se teem feito e desfeito as obras, sómente existiriam, quando ellas começaram, ruinas incaracteristicas, dispersas, inuteis.


Tal não era, porém.


Independentemente de muitas outras memorias graphicas ao alcance de todos, ha juncto da collecção de documentos que supre ou representa o processo official das construcções novas, um desenho de planta e alçado immediatamente anterior á iniciação d'ellas em 1863.[1] Essa iniciação consistiu, até, em demolir a maior parte do que existia a occidente do Templo, em natural continuação d'elle, e o que existia era o complemento, a conclusão original, necessaria, historica do Monumento:—o Mosteiro. É claro que o Mosteiro abandonado e arruinado; mutilado, aqui; deformado, alem; cheio de entumecencias ridiculas e de tapumes ignobeis; esfuracado por janellêtas banaes; remendado a retalhos de classicismo pedante; muito differente, naturalmente do que fôra,—e quem sabia e quem pensou o que fôra? Em summa: uma agglomeração de casarias como succede, e qualquer póde ver, ainda, em quasi todas as edificações conventuaes que as gerações fradescas, as conveniencias de occasião, o gosto e as ideas dominantes das diversas epocas vão successiva e arbitrariamente truncando, sobrepondo, adaptando á sua imagem e semelhança. Mas tambem,—e é sempre o mesmo facto que todos teem tido occasião de observar,—atravez d'essa massa confusa, d'essa especie de estratificação secular, rompem aqui ou ali; resistem n'um ou n'outro lanço; triumpham e impõem-se, até, n'algumas linhas, com uma authenticidade soffrivelmente nitida, flagrante, os elementos, os membros da primeira construcção ou das mais antigas e genuinas feições architectonicas e decorativas. Isto devia succeder, e realmente succedia nos Jeronymos. Logo no simples relance do conjuncto,—pois que felizmente possuimos o alçado anterior ás obras,—os vinte e oito gigantes eguaes e equidistantes que se alongam e trepam a cortar as linhas superiores da fachada, terminando em pinaculos que parecem enormes busios estylisados;—as vinte e sete largas arcadas de ogiva que podemos chamar abatida;—os altos corpos de passadiço ladeados pelos mais elevados d'esses gigantes e quebrando graciosamente a linha geral da platibanda;—os proprios troços rendados d'esta ultima: póde bem dizer-se que nos obrigam, apezar de todos os cortes e remendos, a reconhecer e reconstruir idealmente a velha e forte carcaça d'aquella parte do enorme edificio. Essa parte, especial theatro das novas construcções fantasistas, era evidentemente constituida por uma especie de extensissima galilea[2] em arcaria ogival abatida, seguindo o eixo E. O. da nave central do Templo, como que continuando esta, e sustentando, em toda a extensão, a casaria conventual, caracteristicamente uniforme e simples. Reforçavam e dividiam toda a edificação os gigantes mais altos, em cinco grandes corpos que outros menos largos e mais elevados ligavam, n'um mesmo plano, recortando superiormente, em grega simples, a estructura geral. Para a singular galilea ou alpendre abria a porta ou portico considerado pela architectura official, a entrada principal do Templo, e n'ella ajoelhava o Regio Par,—Dom Manoel e a mulher, que la estão ainda,—como se tivessem vindo á frente dos Descobridores regressados dos longicuos horisontes do mar, por aquellas arcarias dentro, trazer á Virgem do Restello a nova e o agradecimento do desencanto da India.[3] Ali junto, no angulo sul, erguia-se a Torre dos sinos que havia de chamar os Jeronymos ás orações do ritual; lembrar aos mareantes que partiam a confiança em Deus e na Patria; saudal-os alegremente na chegada das asperas navegações e campanhas: uma torre singella e pratica, tão tradiccional e symbolica como toda esta disposição architectonica, em edificações monasticas do seculo XVI. Isto é que era. Isto é que devia ser. É claro que tudo isto fôra violado, invadido, mais ou menos mascarado pelas reconstrucções e sobreposições successivas, como ficou dito já. As arcadas haviam sido entaipadas, abrindo-se no tapume pequenas janellas quadradas e cerrando-se o recinto da galilea; deformara-se a ligação superior do Mosteiro com o Templo, como a estupida obsessão do classico substituira, pouco depois da fundação d'elle, a Capella mór; diversos membros e lavores haviam sido truncados ou substituidos nas adaptações novas, e as janellas pretenciosamente ornamentaes, palacianas, dos corpos de passadiço ou de ligação estavam accusando um enxerto innintelligente. Mas tambem outra observação parecera que immediatamente deveria impôr-se: a de que a edificação conventual não podia, não havia de hombrar soberbamente, em grandesa e opulencia architectonica e decorativa, com o Templo, antes pela sua singelesa austera e humilde,—consoante com o proprio destino,—pela sua uniformidade aceada e sobria de decoração e de estructura faria destacar gloriosamente o corpo primario, capital. Seria de simples bom senso a idéa. Em todas estas vastas edificações monasticas é no Templo que se concentra, na mais natural intenção e significação devota, a inspiração e o esforço da Arte. Nada d'isto, porém; nada do que era natural e pratico, se reflectiu e estudou, e ha de ver-se que nem esta ultima circumstancia se tem ponderado até hoje. De o não ter sido tem resultado, exactamente, um dos maiores embaraços á conclusão das obras, pois que em vez de a procurar, rasoavel e modestamente, n'uma reconstrucção subordinada á parte principal do Monumento e reconstitutiva da integridade e da harmonia historica e plastica d'elle, tem-se pretendido petulantemente accrescental-o, a bem dizer: duplical-o, em esforços e primores de uma—«imaginária»—esculptural de sobreposse. Com essas obras começou a aventura e com esta nos encontramos ainda, em face d'ellas e dos ultimos projectos propostos para a sua conclusão. Estava, então, em Portugal ao serviço do Estado, um architecto francez, Colson. Pelo curioso privilegio de ingenua confiança que entre nós disfructam os aventureiros estranhos, foi este individuo incumbido de elaborar um plano e projecto geral das obras, certamente por arbitrio do Provedor da Casa Pia, mas, em todo o caso, com approvação governativa em portaria de 16 de abril de 1860. Pouco ou nada conheceria Colson, da historia do Monumento e do estylo e caracter d'elle. Fez, comtudo, esse projecto pois que lh'o pagavam por 2:243$166 réis, e que não foi approvado, diz seccamente um relatorio official:—«em consequencia de não satisfazer ao fim proposto». Não logrei ver esse projecto, nem sei, até, se existe.[4] Devia estar no processo official e não está, como não estão outros documentos. Mas a circumstancia d'elle não ter satisfeito ao fim que lhe impunham, dá-me naturalmente rebate de que Colson tivesse conscienciosamente ensaiado corrigir a irreflexão e inaptidão d'esse—«fim.» «Depois,»—continua o documento,—depois não houve projecto geral, e a obra foi começada e progrediu mediante projectos parciaes elaborados pelos architectos encarregados de a dirigir.» O Provedor da Casa Pia, certamente o melhor dos Provedores, escolhia e nomeava os architectos (?) que haviam dirigir as obras; como estas para ser dirigidas precisavam... fazer-se, e para fazer-se não era inteiramente dispensavel que se projectassem, o Provedor ia encommendando a esses architectos os projectos das obras que se havia de ir fazendo para que elles as dirigissem; consultava as pessoas das suas relações que tinha por mais competentes, e mandava executar os projectos que approvava. Cinjo-me, quasi litteralmente, aos textos officiaes.[5] Se elles não existissem ou não me reportasse singellamente a elles não poderia queixar-me de que me não acreditassem, pois que tambem me parecera inacreditavel, isto. Os primeiros architectos escolhidos, para assim, aos retalhos, por tentativa, a capricho, ir projectando, cirzindo, dirigindo esta teia de Penelope que dura ha bons 32 annos, foram os seguintes:—de novembro de 1863, quando as obras começaram, até março de 1865, em que teve de ceder o logar ao privilegio dos forasteiros:—Valentim José Correia, realmente um architecto diplomado e reconhecido pelo Estado, que honradamente mostrara não ser homem para taes emprezas, embora fosse muito sério e digno, em outras mais modestas;—de abril de 1865 a março de 1867 um architecto inglez, J. Samuel Bennet, que viera dirigir os trabalhos d'aquella excentricidade architectonica de Monserrate que se apegou á lenda dos encantos de Cintra, na memoria de todos os touristes;—de abril de 1867 a dezembro de 1878, os habeis scenographos Rambois e Cinatti que durante muitos annos fizeram a justa admiração dos frequentadores de S. Carlos. Não seria equitativo calar os nomes dos mestres de pedreiros. Representavam estes personagens um papel importante no processo adoptado, ora supprindo, ora substituindo os architectos, sendo até os primeiros e directos responsaveis pelas obras, como parece ter-se querido fazel-os n'uma especie de inquerito do primeiro mallogro d'ellas. Alem de que, sendo o melhor que ellas nos offerecem, o trabalho de pedra, justo seria o registo dos obscuros operarios que o teem feito, não sem perigo de ficar sepultados n'elle. Foram, pois, esses primeiros mestres de pedreiro, até 1878, Francisco Dias, e depois Fructuoso de Figueiredo. Poupemos aos vindouros a impertinencia de complicadas theorias sobre os Boytacas do nosso tempo, já que tão desconsolados nos teem deixado as engenhadas sobre o Boytaca verdadeiro. Assim podessemos averbar a cada um dos «imaginadores» e executores das obras a parcella da sua sciencia. Mas não podemos: Deve entender-se que ao primeiro para pouco mais daria o tempo, senão tambem a competencia, do que para demolir. Segundo informação que me parece auctorisada, a elle se deve a demolição da chamada «Sala dos Reis», parte ou corpo superior da ligação do Templo com o Mosteiro, e a correspondente scisão da galilea:—consequentemente o inicial e inconsciente attentado da scisão do Monumento, em dois. Do inglez sabemos, e facil seria de perceber, que são as portas lateraes da fachada sul e a do nascente que olha para a Igreja: uma decoração bonitamente artificiosa, impropria, muida. Aos artistas italianos pertenceram as reconstrucções e decorações mais importantes e arrojadas:—os miranetes, a torre mitrada, o imponente «corpo central» desapparecido: uma scenographia em pedra rebuscada na convenção oriental, na phantasia gothica, até na motivação moderna dos bastidores da Opera.[6] Em 18 de dezembro de 1878, este singular processo de «restaurar» ou de «reconstruir» um dos nossos primeiros monumentos nacionaes que é um dos monumentos historicos e artisticos mais notaveis do Mundo, resolveu-se naturalmente, logicamente, n'um desabamento tragicamente ridiculo. Um dos retalhos, um dos «projectos parciaes»,—o mais importante d'elles, imaginado pelos illustres scenographos, sanccionado pelo benemerito Provedor, certamente approvado e admirado pelas pessoas mais competentes das suas relações;—em summa: o famoso «corpo central» que se erguia já arrogantemente acima da massa escura e rude do velho Templo Manuelino, bojou, rompeu-se e ruiu em terra, sepultando algumas desenas de contos de réis, uns poucos d'annos de trabalho e por bem pouco deixando de sepultar tambem um grande numero de vidas. A forma demasiadamente abatida das abobadas superiores, projectando a curva das pressões fôra da prumada das paredes mal fabricadas e delgadas; os alicerces inteiramente banhados d'agua, sem pozzolana nem cimento, assentando sobre uma camada de 1,m50 de terreno de alluvião que o separava da rocha basaltica inferior:—taes foram as causas immediatas, ostensivas, technicas do desastre. A causa primaria e geral era o processo adoptado e teimosa e desabusadamente seguido:—inacreditavel, repito, se não estivesse denunciado, confessado, authenticado, formalmente, pelos mais insuspeitos documentos officiaes. Estava encerrado o primeiro periodo das obras que custara 15 annos de trabalho e 358 contos de boa moeda. Intencionalmente indico a verba. Teem, tambem, os algarismos uma especial eloquencia e um legitimo logar n'estas cousas. Não será, pois, inutil saber-se quanto haviam custado já essas obras. É official e directa a informação:

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Litresdə buraxılış tarixi:
16 yanvar 2025
Həcm:
36 səh. 2 illustrasiyalar
ISBN:
4064066409708
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