Kitabı oxu: «Contos e Lendas»

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Luiz Augusto Rebello da Silva

Contos e Lendas


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066409937

Índice de conteúdo

INTRODUCÇÃO

A TORRE DE CAIN

LENDA DO SECULO XI

I De um bom irmão um mau christão

II Não ha gosto sem pesar

III Deus seja comnosco

IV Enterro por noivado

O CASTELLO DE ALMOUROL

CONTO DO SECULO XVII

I

II

III

A CAMISA DO NOIVADO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XI

ULTIMA CORRIDA DE TOUROS EM SALVATERRA

I

INTRODUCÇÃO

Índice de conteúdo

Dicebam que: in nidulo meo moriar, et sicut palma multiplicabo dies.

Job cap. XXIX v. 18

As pequenas composições, que hoje principiâmos a publicar, são de um homem, que nunca do mundo quiz mais do que a tranquilla obscuridade, que faz de ordinario o supplicio de tantas vaidades. Ministro sincero de um Deus de paz, assentou-se aos pés da cruz e d'ali viu aproximar o inverno da velhice, com a mesma serenidade com que tinha visto passar as illusões da juventude, e com que havia atravessado os perigos da edade viril. Satisfeito com a sua pobreza, não invejava (se é que invejou alguma cousa!) senão a uncção apostolica e a eloquencia persuasiva dos primeiros confessores da fé{6} nas grandes epochas da regeneração moral do mundo. Chegado quasi ao termo do seu desterro, quando a hora da liberdade estava a soar, reclinou a cabeça para acordar sem dôr na manção do jubilo, patria suspirada de suas mais doces esperanças, unica impaciencia de uma alma, que longe da morada celeste se entristecia captiva.

A virtude n'elle era risonha e desassombrada. Nascia de dentro, não aspirava a grangear applausos, nem se desvanecia com os respeitos mundanos. Se alguma vez peccou foi por excesso de bondade. Nunca ouviu queixas que a sua bocca se não abrisse para as suavisar, nem viu lagrimas, que a sua mão as não enxugasse logo. Por isso em muitas occasiões, elle, o ancião experimentado, revellava a simplicidade da pomba, enganado pelos artificios dos hypocritas. Por mais que o advertissem, a sua caridade não se cansava, e embora faltasse a si, nunca faltou aos pobres. Se o convenciam de erro, se lhe mostravam a illusão, sorria-se, e respondia: «Louvado seja Deus! Ainda bem que até me deu para esses!» Dito isto cheirava com pausa a sua pitada de esturro, e ia catar, ou alporcar os craveiros, até o relogio do estomago, unico relogio que havia em casa, o avisar de que eram horas da refeição. Vinha então recolhendo-se de vagar, alargava o passeio pela cosinha, rondando o almoço ou o jantar, não sem se arriscar a alguma jaculatoria da tia Brizida, matrona sexuagenaria,{7} que tinha a seu cargo a economia domestica e o baixo e mixto imperio da dispensa e da capoeira.

A ultima doença do padre Vigario, occasionou-a o zelo pelo serviço d'Aquelle, que nunca fez tambem esperar os desvalidos. Por baixo de immensa cerração, caindo a chuva em torrentes, e soprando o vento, frio e agudo, metteu-se á meia noute ao caminho da serra, para levar as consolações da Egreja a uma de suas ovelhas, que agonisava em desabrigada choupana. Á volta o corpo tremia sacudido por uma sesão de febre, e o rosto vinha mais pallido, do que a face de um moribundo. Deitou-se para não se tornar a levantar.

Ferido no seu posto, como soldado intrepido, elevou o espirito, abençoou a enfermidade, e bem com Deus e com os homens, ao terceiro dia adormeceu para sempre. O Vigario levou todos os bens comsigo. Para se sepultar foi preciso que os visinhos fizessem uma derrama. Mas em compensação nunca houve funeral tão rico de prantos e louvores. Despovoaram-se os logares da freguezia e dos arredores para o acompanhar, e quando o corpo saiu do presbyterio, o chôro de toda a aldeia honrou aquellas cinzas tão amadas. Com razão! Não era o velho parocho o pae, o amigo, o bemfeitor de todos? Em vida constituira os pobres seus herdeiros, por isso não deixava de seu mais do que a sobrepeliz e a batina remendada, em que o amortalharam, e o{8} crucifixo de marfim, que unira ao coração na derradeira despedida.

O premio não foi só a corôa de gloria!... Por mais desvairada, ou corrompida, que uma geração corra ao precipicio, os exemplos salutares sempre se lhe gravam na lembrança, e a rudeza dos camponezes, apezar dos vicios esquecidos nos idilios, não é usualmente a que resiste mais á proveitosa lição das boas obras. Pelo menos assim aconteceu na parochia. A ama, á qual o Vigario legára sómente a memoria de suas virtudes, encontrou logo a hospitalidade, affectuosa, não de um, mas de muitos habitantes, que se lhe offereceram para acolherem sua velhice. O cão do Pastor, companheiro constante de tantos dias de fadiga, tambem achou quem se condoesse, e o fosse levantar da sepultura sobre que gemia saudoso. As pobres alfaias da casa, o breviario usado, os poucos livros da estante, e um, ou outro movel de seu uso quotidiano, disputados como reliquias, repartiram-se á sorte por evitar contendas, e hoje mesmo, depois de largos annos, o tempo, que tudo gasta, não amorteceu ainda a recordação do sacerdote exemplar, cujos ossos repousam á sombra dos cyprestes plantados pelas suas mãos no cemiterio da aldeia.

Este foi o homem e o ecclesiastico venerando.

Do poeta, que era, que sempre tinha sido, quasi sem o cuidar, raras, rarissimas pessoas dariam noticia.{9} Fugia da fama que dão as lettras, com um cuidado egual pelo menos áquelle, com que se furtava envergonhado ao pregão da sua caridade. Pejava-se tanto de si, e por tal receava ser visto, que se a direita se escondia da esquerda nas esmolas, a penna não se occultava menos discreta quando escrevia. O padre prior tinha pouco vagar para livros volumosos. Nos curtos ocios que as obrigações lhe concediam, distrahia-se deixando vaguear a phantasia pelas recordações do passado, enganando assim as tristesas do presente, ou ligando em algumas scenas soltas as remeniscencias, ainda vivas, dos dias da mocidade. E em quanto o vento lhe sacudia os caixilhos das janellas, e a chuva, chapinhando, lhe fustigava os telhados, enchia elle uma ou duas paginas á luz do ponderoso candieiro de latão amarello de tres bicos, talvez o traste mais luxuoso de toda a sua mobilia. Assim nasceram em um recanto obscuro da aldeia estes Contos e Lendas, escriptos sem emendas e com admiravel rapidez, em lettra grada, direita, e garrafal, para regosijo dos compositores, que cegam a miudo os negalhos de missanga de certos auctores, muito nossos conhecidos, aos quaes Deus não castigue em desaggravo de suas victimas.

Se o padre Vigario vivesse, ainda não soltava seguramente da gaveta os papeis fechados a tres voltas e meia de chave. Foram precisas repetidas instancias{10} para m'os confiar. Poucos mezes antes da sua morte é que alcancei licença para fazer d'elles o uso que julgasse mais opportuno, com tanto que o nome do verdadeiro auctor nunca figurasse «porque dizia elle, não são cousas estas para um sacerdote da minha edade matar o tempo, quando podia rezar, meditar as suas praticas do domingo, ou examinar a sua consciencia. Mas não sei como isto é; assim que me sento diante da mesa e pego da penna, não posso valer-lhe, e apesar de todos os protestos, entram commigo as malditas historias, e não ha resistir-lhe. Se fosse crendeiro jurava que me faziam bruxarias.»

A bruxaria era o que hoje se chama a vocação! A sós commigo perdia de vista as realidades da vida, e quasi sem o saber, deixava-se arrebatar pelas visões do mundo phantastico, aonde antes d'elle já se entranharam muitas outras que a admiração saúda como principes da intelligencia. Vingava-se porem d'este máu sestro (era a sua phrase) pondo de lado as escriptas frivolas apenas as acabava e nunca mais fallando d'ellas. Rabiscava umas tantas folhas de papel (com este desprezo tratava a inspiração!) e sem as tornar a ler, juntava o novo caderno ao antigo maço. Uma fita de nastro vermelho atava tudo. Esquecia-se depois d'este e dos outros até ao inverno seguinte, em que voltava ás suas historias com extremo pavor da tia Brizida, confidente dos{11} seus segredos, a qual representava nos serões litterarios do presbyterio o papel, que a tradição attribue á famosa ama de Molière. Em lisa fé temia ella devéras, que o demonio perdesse um dia a paciencia á força de esbofeteado, e de escarnecido pelo Vigario n'aquelles papeis, e que se desforrasse torcendo o pescoço ás gallinhas e frangos, ou chupando o sangue aos coelhos, transformado em raposa ou em ginete. Nunca acordava, que não esperasse encontrar a capoeira vasia! Se é bom estar bem com Deus, dizia, não é máu estar em paz com o demonio. A casa do presbyterio não era grande, nem espaçosa, mas sorria de longe á vista caiada por fóra e rodeada de canteiros de flôres. Vestia-se de um tal ar de festa, que namorava pela bellesa rustica e logo a distancia promettia a hospitalidade que nos dias do Prior estava convidando de longe com os braços abertos a quantos lhe batiam á porta. Situada na corôa de um outeirinho, alvejava por entre a folhagem prateada das faias, cujos troncos lisos e direitos o vento meneava graciosamente. O pateo ajardinado, cercado de alegretes, era todo viço e frescura, e tres cepas enroscadas e collossaes, cobriam com a sombra de seus pampanos as parreiras, aonde amadureciam na estação os mais formosos cachos de moscatel e de ferral-tamara. Em volta da risonha morada, penduravam-se as vinhas pelas encostas das collinas até ás margens de um ribeiro, toldado{12} de salgueiros e chorões que se torciam para beijarem a agua. Por entre as vinhas apparecia em malhas o verde mais fechado das hortas mettidas entre vallados de piteiras, em quanto ao lado sussurrava a levada correndo pelas regueiras. Os pomares, copando-se, encantavam de espaço em espaço os olhos offerecendo-lhes bosques fechados, e embalsamando tudo em roda com sua fragrancia. Subindo pelos outeiros, que ondeavam desde a planicie até ás montanhas torreadas no extremo horisonte, os troncos nodosos e robustos das oliveiras trepavam de socalco em socalco até á cortina de pinheiros, cujas cabeças, de um verde triste, a viração balouçava lá em cima meneando-as entre mormurios ao cair da tarde.

A ribeira vinha de cima, e ora rebentando entalada, ora espraiando quasi adormecida, na areia alva e fina do leito, despenhava-se mais abaixo com estrepito, entrando no logar opulenta com as aguas recebidas. Aquelles pampanos cingidos de arvoredos, aquelles valles viçosos de hortas e pomares; os variados tons que zebravam as encostas dos montes e collinas, desde a esmeralda viva dos prados até ao louro cendrado das paveias; os rosmaninhos e as boninas esmaltando as veigas; o rio precipitando-se aqui, mais adiante correndo manso e limpido e depois esperguiçando-se sobre as relvas; de dia o sol inundando de luz dourada todo o quadro, de{13} noute o clarão da lua tocando-o de meiga melancolia, compunham um espectaculo de tanto enlevo que a vista fugia com a vontade e com o coração para aquelles casaes debruçados das collinas fazendo nascer desejos de pedir pousada em algum d'elles, para vêr romper o luar por entre o arvoredo e de ouvir brincar a aragem com os ramos aos primeiros raios brancos do alvor matutino.

Era sobre tudo ao anoutecer que a aldeia se animava. As chaminés expelliam o fumo em penachos caprichosos; os cepos estalávam no lume; e as creanças, como enxame buliçoso, brincavam defronte das portas. As mães cosinhavam a ceia, em quanto os velhos e os mancebos descansando do trabalho, aguardavam encostados, ou assentados, a hora proxima da refeição e do repouso.

Que saudade causa no tumulto das cidades a ideia do pôr do sol nas aldeias! N'esta occasião, em que a fadiga do corpo como que faz mais docil o espirito, é que o padre Vigario, desembocava de uma das azinhagas com o seu Horacio, ou o seu Salustio debaixo do braço, e vinha conversar o seu pedaço com os anciãos da terra, para saber as novidades, e espreitar as rixas e discordias, afim de as compôr. Correndo a mão pela cabeça das creanças, ralhando com umas, afagando outras, informava-se de tudo, sanava as malquerenças, e conseguia pelo respeito de seus annos e qualidades, que{14} os moradores da parochia formassem uma só familia. Mestre e passa-culpas eterno dos rapazes, estes, mal o viam, voavam em bandos a agarrar-se-lhe á loba e ás mãos, por entre vozes e saltos com uma algazarra, que dava rebate a toda a aldeia. No verão, nos dias de maior calor, era sempre certo o prior, á tardinha, debaixo da parreira, que lhe cobria a varanda, com o livro aberto e os oculos de prata, que lhe escorregavam até á ponta do nariz. Lia e passeiava. De tres, ou de quatro em quatro voltas, parava, batia na caixa de tartaruga e sorvia com delicias uma pitada, deitando os olhos pelos canteiros a vêr se alguma flôr carecia de rega, ou de amanho. Quando o sol declinava punha na cabeça o venerando tricornio, pegava da bengala de canna da India e castão de prata, e sahia a tomar um pouco de ar. Era a phrase modesta, empregada por elle para designar as suas marchas forçadas de legua, legua e meia, e ás vezes duas leguas por montes e quebradas.

Quando o encontrei por acaso, e travei conhecimento com elle, poucos homens vigorosos, na flôr da edade, poderiam acompanhal-o no seu passo largo e egual. Abordoando-se á bengala por costume e não por necessidade, despejava caminho como andarilho mais valente. De estatura elevada, secca, mas encorpada, carregava sem esforço com o peso de uma velhice verde e alegre. Nos olhos cinzentos e vivos brilhava{15} um toque de finura risonha, e a bocca não pequena, mas engraçada, animava o rosto e dava-lhe expressão agradavel, avivada de constante jovialidade. A brandura do animo correspondia ás promessas da physionomia, e o tracto intimo denunciava as prendas d'aquelle caracter, honrado, severo só comsigo, inflexivel e incapaz de se torcer em pontos de consciencia ou de melindre. Na convivencia com o padre Vigario, aprendi mais do que me ensinariam muitos annos de leitura. Convalescente e magoado, devi-lhe a saude do corpo, a saude e o conforto da alma.

Este velho desterrado por gosto e eleição sua em um canto do mundo, n'uma aldeia ignorada, era mais sabio na sua humildade, do que muitos que se pavoneiam de lidos e eruditos. Em dous preceitos unicos encerrava toda a sua philosophia:—paciencia e amor. Com a primeira supportava os trabalhos e os revezes sem desmentir a serenidade da alma; graças ao segundo, o coração, purificado pelos annos, abria-se a todos os sentimentos nobres, e palpitava com orgulho memorando as glorias da patria. Fiado nos pronuncios do futuro mitigava a dôr das desgraças presentes, com as esperanças de melhor porvir, tão crente e enthusiasta, como se acabasse de entrar na epocha das illusões. Entendia e applicava o Evangelho pelos affectos ardentes da sua alma, abraçando como filhos e irmãos todos os afflictos e necessitados;{16} e pelo amor, finalmente, não perdoava mas agradecia as offensas, as injustiças, e até as calumnias, provações da virtude, não se lembrando d'ellas senão para pagar o mal com o bem.

Horacio, Salustio e Tacito eram os seus auctores mimosos, a par de Camões, de Ferreira e de Sá de Miranda. Familiar com os escriptores da antiguidade, e com os modernos de mais nome, seria preciso colhel-o desapercebido, e espertar a veia natural e espirituosa da sua conversação, para se apreciar devidamente os thesouros encobertos d'aquella vasta erudição e os prodigios de uma memoria em verdade rara. As citações acudiam-lhe espontaneas; os ditos agudos e as anecdotas encadeavam-se; as scenas e os quadros pintados com vivesa admiravel, succediam-se e ligavam-se. Parecia que a sua voz ressuscitava de repente os homens e as cousas, que as cinzas dos grandes varões de Roma e da Grecia, dos heroes de todos os tempos e de todas as nações tornavam a juntar-se, a tomar corpo e a animar-se e que os viamos mover e fallar como se os estivessemos contemplando nos dias do seu esplendor. As ruinas de Athenas, as do velho Lacio, os monumentos da meia edade, e os episodios de epochas mais proximas, evocados pelo encantamento irresistivel d'aquella imaginação creadora, como que volviam subitamente ao primeiro sêr, apparecendo uns em toda a formosura da arte classica, erguendo-se{17} outros pela religiosa inspiração da arte christã.

Á noute era um prazer e um exemplo, observal-o sentado na immensa poltrona de couro, com a ama á direita e o cão somnolento á esquerda, a velha cabeceando de rocca á cinta e engrolando Padres-nossos, o animal piscando os olhos com uma orelha fita e outra derrubada. Dos dous companheiros do serão o mais attento e sisudo era de certo o cão! Medindo sempre o dono com a vista, o mastim nunca perdia occasião de lhe coçar o focinho pelo joelho, quando suppunha o ensejo favoravel. O bofete de pau santo e pés torneados, o candieiro de latão e a anarchia dos papeis completavam o pitoresco painel do lar domestico. Passada uma hora, o unico que não dormia era o Vigario; a sua penna continuava a ranger sobre o papel, ao som dos roncos assobiados da tia Brizida. Quando as palpebras se lhe faziam pesadas, o prior arrastava a cadeira, mettia dous dedos na argola do candieiro, e recolhia-se ao quarto no meio das recommendações da ama sobre os perigos do fogo, sobre a falta de cuidado no abafo, e sobre mil outros casos provaveis. Estas recommendações não se calavam, senão quando a respiração alta e compassada do ouvinte convenciam a oradora do effeito suporifero da sua eloquencia.

Em um d'estes serões, a que assisti, caiu o dialogo sobre não sei qual de nossos reis, e o Vigario{18} innocentemente deixou escapar o segredo das suas vigilias. A curiosidade de comparar a escripta do solitario com o seu talento de narrar, obrigou-me a pedir-lhe, sem attender a desculpas, que me lê-se alguns Contos e Lendas. Oxalá que o leitor seja do meu voto. Ainda me não arrependo do que disse d'elles ao auctor, que tremia, como se a minha opinião valesse alguma cousa. Não os reputei perfeitos, longe d'isso, mas asseverei-lhe que seriam talvez folheados sem fastio. Arriscaria um juizo temerario?!... No seu acanhamento o prior sempre resistiu a apurar o manuscripto para a imprensa, e quando m'o entregou, pouco antes da sua morte, foi com a final e irrevogavel condição de nunca descubrir o nome do auctor, se me atrevesse a importunar os prelos (assim se expressou) com as puerilidades de um velho creança. Possam os Contos e Lendas do padre Vigario, cuja ultima vontade estou cumprindo, merecerem alguns momentos de attenção, não por si, mas pelas memorias que recordam. Correm já sujeitos ás vecissitudes da publicidade tantos filhos espurios da mesma invenção, que mais esta, entrando no mundo das lettras, não usurpará de certo logar, que pertença de direito ás obras primas dos poetas festejados. Em todo o caso, sem audacia não ha fortuna. Lanço-a á corrente!... A sorte bôa, ou má que faça o resto!

Valle, 30 de septembro de 1866.{19}

A TORRE DE CAIN

Índice de conteúdo

LENDA DO SECULO XI

Índice de conteúdo

I
De um bom irmão um mau christão

Índice de conteúdo

O monge começou assim a sua historia:

No tempo em que os walis de Cordova tinham quasi todo o reino sujeito, é que succedeu o que vou contar. Estava o conde D. Henrique a entrar por dias, e com elle vinham boas lanças para o ajudarem a resgatar do poder dos infieis as provincias de Portugal. A essa hora nos castellos da fronteira não se descansava de dia, nem de noite; ninguem despia as armas; e quer luzisse a manhã, quer cerrasse a tarde, o clarão das almenáras, ou o rebate das trombetas não consentia nem leve repouso aos defensores da verdadeira lei. Nas ameias, ou no{20} campo da peleja, não se socegava um momento. Os melhores castellos ainda tinham a voz dos descridos; muitas terras pagavam-lhes tributo; e as bellas tapadas do Minho e do Alemtejo eram para elles correrem os veados, os ursos e os javalis. Do marmore de nossas pedreiras arrancavam as columnas e as ricas laçarias de seus paços. Tudo na abençoada primavera d'este formoso jardim chamado Portugal era dos sarracenos e em tudo punham o seu deleite. Nas campinas floridas, em que a lua nasce suave como sorriso infantil, e o ceu brilha radioso como olhar de virgem namorada, a tristeza até parecia desmaiar o sol. Antes de o tragar o inferno, cujo é, o arabe sensual passava pelo paraiso, que nos tinha roubado! Por isso a saudade do que perdeu lhe punge tão viva hoje o coração!...

—E não havia cavalleiros, que lhes estalassem as lanças no peito, bradando: esta terra é nossa! acudiu Martin Paes.

—Havia! redarguiu o frade. Mas eram poucos. N'aquelles dias de captiveiro todos inclinavam a fronte, regando de lagrimas os sulcos da charrua, guiadas por mãos de escravos. Deus exalte o braço victorioso, que nos deu outra vez a terra de nossos paes, que fez nossos, a casa em que abrimos os olhos, o cemiterio aonde dormem os que nos amaram, a arvore que nos cobriu com a sombra a infancia e a velhice, e a fonte que ferve ao pé do rosal!...{21} N'aquelle tempo, quando o mouro passava, baixavam todos a vista, porque elle era o senhor.

—Mas a terra havia de ser então quasi um deserto, padre?

—Não. As espigas douravam-se nas searas como agora; os campos vestiam-se de relvas e de arvoredos; as noras gemiam nas hortas; e os gados pastavam nos montes. Mas a terra, tão alegre por fóra, toda era magoa e desconsôlo por dentro; porque a terra, em que sômos escravos, mesmo que seja a da patria, parece-nos mais só e vasia, do que um êrmo. A casa alheia, a courella que é de outro, e o fogo accêso na lareira a medo, fazem-nos chorar, porque nada d'aquillo é nosso, e hoje, ou amanhã, podem dizer-nos: sáe! O reino vivia, como vive agora; o que estava morto era o coração do homem. Resplandecia o mesmo sol, corriam as mesmas aguas, nasciam as mesmas flôres; porém as creanças não brincavam por baixo dos pampanos da vinha, como brincam estas; e a donzella assustada, tremendo de se vêr formosa, não se assentava tranquilla, como aquella, debaixo da amendoeira em flôr ouvindo descantar o rouxinol por cima da cabeça. O harem do sarraceno, aberto diante d'ella, como um abysmo, fazia-a empallidecer. De um momento para outro podia ser obrigada a escolher entre a deshonra e a morte.{22}

—Que martyrio não seria a vida assim?!...

—Era! Foi!... Mas viveu-se, e por quantos annos!... O dia declina. Faz-se tarde. Quereis que continue?

—Oh, de certo. Fallae!... Todos vos ouvimos.

—No tempo que disse, lavrava a discordia entre dous ricos homens nas terras de Alem-Douro, afirmavam uns que por amor dos lindos olhos de certa dama, juravam outros que por causa da aposta de um cavallo. De seus castellos os dous inimigos, postos defronte, corriam o campo talando vinhas, pomares e cearas, e mal um se descuidava, o outro, assaltando-o, vinha logo acordal-o a ferro e fogo. Em suas mesnadas, ou companhas de homens d'armas, ardia a guerra em toda a furia. Nos casaes assolados de ambos, o solarengo ou o pastor nunca sabia se ao anoutecer recolheria os frutos, e os rebanhos a salvo, ou se despertaria ao clarão das labaredas, para enterrar algum dos seus assassinado.

Por fim o cavalleiro mais velho accommetteu o paço acastellado do contrario, e tomou-o á traição, deixando a cabeça do senhor cravada nas ameias. Aconteceu isto vespera de S. João, por alta noute, quando todos festejavam o bemdito Santo com fogueiras, cantigas e follias. O cavalleiro tinha um filho e um irmão. O filho de edade tenra; o irmão temido{23} pela indole e pelo braço. Entraram e sairam os annos assim; a creança fez-se homem; e de parte a parte a aversão das duas familias cada vez crescia mais. O rio que as separava, tingiu-se de sangue por muitas vezes, e os sinos não cessavam de dobrar na egreja pelos que morriam. O tempo, que tudo gasta de dia para dia, parecia avivar mais aquella rixa. A este tempo o herdeiro do cavalleiro assassinado era já um mancebo louvado pela destresa nas armas e pela prezença gentil a cavallo e nos saráus. Chamava-se D. Moço Ansures, e vendo-o passar, esbelto e affogueado da carreira, com o falcão no punho, as donzellas sorriam-se e córavam, e os homens saudavam-o admirando a fiel imagem do rico homem morto na vespera de S. João.

D. Moço ainda não dissera a mulher nenhuma: amo-te! Um dia, por desgraça, viu a neta do senhor do solar inimigo, e logo o coração esquecido da vingança guardou para sempre a doce imagem. O sangue do pae derramado á falsa fé, as malquerenças de tantos annos, as promessas da meninice e da juventude, tudo d'ahi em diante se apagou da sua alma para não vêr outro sol, outra luz, senão a dos bellos olhos, que o tinham feito seu captivo. Segredos de Deus! Do maior odio rebentou o mais constante amor!... Correram mezes, e o affecto escondido saltou aos olhos de todos. Os parentes lançaram{24} em rosto ao mancebo a sua fraqueza, mas a paixão pôde mais, que as memorias do tumulo, que deixava sem vingança. Por ultimo, cansados das guerras dilatadas, os rancores cederam, e o casamento ajustou-se. Uma rosa veiu unir as duas casas inimigas. O sorriso de uma dama veiu aplacar no sepulcro os que não podiam dormir o somno eterno, e os que haviam jurado não perdoar. Aprazou-se para vespera de S. João o ditoso enlace. Seria proposito, ou acaso? N'esse dia contavam-se justamente quatorze annos, que o pae de D. Moço de Ansures fôra assassinado.

O homem põe e Deus dispõe!

O cavalleiro morto tinha, como disse, um irmão, que lhe queria mais do que á propria vida. Haviam nascido ambos vespera de S. Pedro, e escusado fôra procurar mais do que uma vontade e um affecto nas duas almas. D. Inigo Lopes, era o nome do irmão mais novo, andava ausente. Acertou chegar de longe, quando estavam pregando as taboas do caixão do infeliz. A dôr fez de D. Inigo uma estatua, e sete dias com sete noutes o viram todos jazer deitado sobre a sepultura. Parece que a terra, comendo-lhe os ossos do irmão, consumia ao mesmo tempo n'elle tudo que tinha de humano. Quando rompeu a alva do oitavo dia, e se levantou, trazia a cabeça e as barbas brancas como neve. Envelhecêra ali um seculo em sete dias! Nem um lagrima nos olhos seccos! Nem{25} um soluço do peito mudo. Deixou sobre a campa espada e arnez, e levou só comsigo o punhal. Ao entrar ainda fizera o signal da cruz, mas, saindo, Jesus! voltou as costas ao altar. Os anjos nos defendam!

O que fez sete dias com sete noutes D. Inigo só e encerrado na capella? Se alguem o soube foi a cova fria. Contavam, depois, que um monge na ultima noute vira a pedra do tumulo erguida sem lhe tocarem, e um corpo crescer da sepultura e a mão do morto apertar a mão do vivo. Illusões! Quem vae nunca mais torna. O que não foi fabula, porque todos o presencearam, foi ao oitavo dia rebentar com o primeiro raio de luz uma rozeira do centro da cova, tão viçosa e robusta como se existisse ha muitos annos. Que frescas rosas e que lindos botões nos ramos! Mas se queriam apanhal-os por devoção, murchavam nos dedos; se tentavam cortar uma pelo pé, o sangue corria da haste como se corresse de veia aberta. Em cada ramo abriam sete rosas brancas e sete rosas vermelhas. E que outros tantos dias se contavam tambem desde que o corpo do valente cavalleiro descera á sepultura trespassado de sete feridas.

Nunca mais se soube, ou se fallou de D. Inigo. Dizia-se que sete annos com mais cinco vagueára como peregrino, pelos desertos, que Deus pisou, comendo das ervas do monte, bebendo da agua das nascentes, dormindo ás inclemencias do tempo. Que vida penitente a d'aquelle Santo! Vozes do mundo!{26} O Senhor, que lê nos corações, ha muito que tinha desviado os olhos d'elle. Com ser christão nascido nunca mais ajoelhára á cruz, ou se encommendára á Virgem. Quasi ao cabo do longo desterro anouteceu-lhe no deserto da Tentação ao atravessar pela terceira vez a Palestina. Valha-nos Maria Santissima!... De repente as areias inflammaram-se em um mar de fogo; o ceu cobriu-se de trevas; e nas pontas recortadas das altas rochas dançaram, crusando-se, milhares de luzeiros. Ouviu-se então na vasta solidão do ermo um brado immenso. D. Inigo respondeu, e o pacto, que ali firmou, foi tão negro, que a lua tornou-se côr de sangue e sumiu-se, que as estrellas esconderam tremulas a sua luz. O christão acabáva de vender ali a alma ao inferno pela vingança. Desde aquella hora seguiu-o sempre por toda a parte, como a sombra segue o corpo, a imagem do irmão assassinado. Ajoelhára ao poder de Satanaz, elle que não se prostrára diante da cruz, e rasgando as veias afirmára o juramento. Quando se ergueu soou o cantar do gallo por tres vezes no espaço, repetido pelos echos, e risadas tremendas, levantando-se das aguas immoveis do Mar Morto, applaudiram a victoria do espirito do mal. O reprobo escarneceu do passado. Uma blasphemia atroz saltou-lhe da bocca. Mas elle que se ria de Deus e do inferno, estremeceu sentindo fugir-lhe a terra debaixo dos pés, como horrorisada do peso do seu crime. Aos primeiros{27} passos o clarão dos relampagos cegou-lhe a vista. O temporal rebentava ao mesmo tempo no mar aonde as ondas se empolaram como serras, no ceu aonde os trovões estalavam uns apoz outros; na terra, que se abria em voragens, e no deserto, aonde o furacão, bramindo, cavava abysmos, e alteava montanhas, revolvendo em vortice as areias. Cedros antigos, como os do Libano, desabavam de pancada. As feras, timidas que nem cordeiros, acoutavam-se submissas nos povoados. Os homens elevavam suas orações a Deus pedindo-lhe piedade. Quando tudo se fazia humilde e pequeno para a supplica, porque riria só o orgulho do culpado? D'ali em diante não passou uma hora sem elle se despenhar mais e mais fundo no precipicio. Raiava a manhã um dia e curvado sobre a corrente do Jordão, debruçava o cantaro e enchia-o. As ramas das arvores enfezadas torciam-se em toldo raro sobre a ribeira. A duas passadas de distancia caíra um velho desfallecido de sede e de fadiga. Bastava uma gota d'aquella agua para lhe restituir a vida. D. Inigo negou-lh'a entornando-lhe de proposito o cantaro diante dos olhos para lhe exacerbar o tormento, diante dos olhos que estavam tragando de longe a agua, que o maldito derramava zombando da sua agonia, e dizendo-lhe por mofa: «chama pelo teu Deus e pede-lhe uma nascente ao pé de ti!» O Senhor não accudiu com prodigios ao seu servo. Quiz que expirasse vencedor do{28} inferno. Mas, desde aquelle crime, a sêde intensa ateiada nas entranhas do reprobo, nunca mais se aplacou. Os rios e as fontes convertiam a fresquidão em fogo para o abrazar. A gota de agua negada no deserto pesára na balança do Senhor largos seculos de culpas.

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Yaş həddi:
0+
Litresdə buraxılış tarixi:
16 yanvar 2025
Həcm:
130 səh. 1 illustrasiya
ISBN:
4064066409937
Naşir:
Müəllif hüququ sahibi:
Bookwire
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