Kitabı oxu: «Poesias Completas»

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Machado de Assis

Poesias Completas


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412494

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Texto

ADVERTÊNCIA

Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior è que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos ires publicados, Chrysalidas, Phalonas, Americanas. Chamo ao ultimo Occidentaes.

Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli com saudades. Supprimo da primeira série algumas paginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Supprimo tambem o prefacio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diarias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes; menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flôr da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou.

Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu difunto amigo a tal extremo lhe cegára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.

Rio, 22 de Julho do 1900.

MACHADO DE ASSIS.

CHRYSALIDAS
1864
MUSA CONSOLATRIX

Que a mão do tempo e o halito dos homens

Murchem a flôr das illusões da vida,

Musa consoladora,

E no teu seio amigo e socegado

Que o poeta respira o suave somno.


Não ha, não ha comtigo.

Nem dor aguda, nem sombrios ermos;

Da tua voz os namorados cantos

Enchem, povoam tudo

De intima paz, de vida e de conforto.


Ante esta voz que as dores adormece,

E muda o agudo espinho em flôr cheirosa,

Que vales tu, desillusão dos homens?

Tu que pódes, ó tempo.

A alma triste do poeta sobrenada

Á enchente das angustias,

E, affrontando o rugido da tormenta,

Passa cantando, alcyone divina.


Musa consoladora,

Quando da minha fronte de mancebo

A ultima illusão cair, bem como

Folha amarella e secca

Que ao chão atira a viração do outono,

Ah! no teu seio amigo

Acolhe-me,—e haverá minha alma afflicta,

Em vez de algumas illusões que teve,

A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!

VISIO

Eras pallida. E os cabellos,

Aereos, soltos novellos,

Sobre as espaduas as cahiam...

Os olhos meio-cerrados

De volupia e de ternura

Entre lagrimas luziam...

E os braços entrelaçados,

Como cingindo a ventura,

Ao teu seio me cingiam...


Depois, naquelle delirio,

Suave, doce martyrio

De pouquissimos instantes,

Os teus labios sequiosos,

Frios, tremulos, trocavam

Os beijos mais delirantes,

E no supremo dos gozos

Ante os anjos se casavam

Nossas almas palpitantes...


Depois... depois a verdade,

A fria realidade,

A solidão, a tristeza;

Daquelle sonho desperto,

Olhei... silencio de morte

Respirava a natureza—

Era a terra, era o deserto,

Fôra-se o doce transporte,

Restava a fria certeza.


Desfizera-se a mentira:

Tudo aos meus olhos fugira:

Tu e o teu olhar ardente,

Labios tremulos e frios,

O abraço longo e apertado,

O beijo doce e vehemente;

Restavam meus desvarios,

E o incessante cuidado,

E a phantasia doente.


E agora te vejo. E fria

Tão outra estás da que eu via

Naquelle sonho encantado!

És outra, calma, discreta,

Com o olhar indifferente,

Tão outro do olhar sonhado,

Que a minha alma de poeta

Não vê se a imagem presente

Foi a visão do passado.


Foi, sim, mas visão apenas;

Daquellas visões amenas

Que á mente dos infelizes

Descem vivas e animadas,

Cheias de luz e esperança

E de celestes matizes;

Mas, apenas dissipadas,

Fica uma leve lembrança,

Não ficam outras raizes.


Inda assim, embora sonho,

Mas, sonho doce e risonho,

Désse-me Deus que fingida

Tivesse aquella ventura

Noite por noite, hora a hora,

No que me resta de vida,

Que, já livre da amargura,

Alma, que em dores me chora.

Chorára de agradecida!

QUINZE ANNOS

Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée,

Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança...

—Pobre criança, se o eras!—

Entre as quinze primaveras

De sua vida cançada

Nem uma flôr de esperança

Abria a medo. Eram rosas

Que a douda da esperdiçada

Tão festivas, tão formosas,

Desfolhava pelo chão.

—Pobre criança, se o eras!—

Os carinhos mal gozados

Eram por todos comprados,

Que os affectos de sua alma

Havia-os levado á feira,

Onde vendera sem pena

Até a illusão primeira

Do seu doudo coração!


Pouco antes, a candura,

Co'as brancas azas abertas,

Em um berço de ventura

A criança acalentava

Na santa paz do Senhor;

Para accordal-a era cedo,

E a pobre ainda dormia

Naquelle mudo segredo

Que só abre o seio um dia

Para dar entrada a amor.


Mas, por teu mal, acordaste!

Junto do berço passou-te

A festiva melodia

Da seducção... e acordou-te!

Colhendo as limpidas azas,

O anjo que te velava

Nas mãos tremulas e frias

Fechou o rosto... chorava!


Tu, na sede dos amores,

Colheste todas as flôres

Que nas orlas do caminho

Foste encontrando ao passar;

Por ellas, um só espinho

Não te feriu... vás andando...

Corre, criança, até quando

Fores forçada a parar!


Então, desflorada a alma

De tanta illusão, perdida

Aquella primeira calma

Do teu somno de pureza;

Esfolhadas, uma a uma,

Essas rosas de belleza

Que se esvaem como a escuma

Que a vaga cospe na praia

E que por si se desfaz;


Então, quando nos teus olhos

Uma lagrima buscares,

E seccos, seccos de febre,

Uma só não encontrares

Das que em meio das angustias

São um consolo e uma paz;


Então, quando o frio spectro

Do abandono e da penuria

Vier aos teus soffrimentos

Juntar a ultima injuria:

E que não vires ao lado

Um rosto, um olhar amigo

Daquelles que são agora

Os desvellados comtigo;


Criança, verás o engano

E o erro dos sonhos teus;

E dirás,—então já tarde,—

Que por taes gozos não vale

Deixar os braços de Deus.

STELLA

Já raro e mais escasso

A noite arrasta o manto,

E verte o ultimo pranto

Por todo o vasto espaço.


Tibio clarão já córa

A téla do horizonte,

E já de sobre o monte

Vem debruçar-se a aurora.


Á muda e torva irmã,

Dormida de cansaço,

Lá vem tomar o espaço

A virgem da manhã.


Uma por uma, vão

As pallidas estrellas,

E vão, e vão com ellas

Teus sonhos, coração.


Mas tu, que o devaneio

Inspiras do poeta,

Não vês que a vaga inquieta

Abre-te o humido seio?


Vai. Radioso e ardente,

Em breve o astro do dia,

Rompendo a nevoa fria,

Virá do roxo oriente.


Dos intimos sonhares

Que a noite protegera,

De tanto que eu vertera,

Em lagrimas a pares,


Do amor silencioso,

Mystico, doce, puro,

Dos sonhos de futuro,

Da paz, do ethereo gozo,


De tudo nos desperta

Luz de importuno dia;

Do amor que tanto a enchia

Minha alma está deserta.


A virgem da manhã

Já todo o céu domina....

Espero-te, divina,

Espero-te, amanhã.

EPITAPHIO DO MEXICO

Dobra o joelho:—é um tumulo.

Em baixo amortalhado

Jaz o cadaver tepido

De um povo aniquilado;

A prece melancolica

Reza-lhe em torno á cruz.


Ante o, universo attonito

Abriu-se a extranha liça,

Travou-se a luta fervida

Da força e da justiça;

Contra a justiça, ó seculo,

Venceu a espada e o obuz.


Venceu a força indomita;

Mas a infeliz vencida

A magoa, a dôr, o odio,

Na face envilecida

Cuspiu-lhe. E a eterna macula

Seus louros murchará.


E quando a voz fatidica

Da santa liberdade

Vier em dias prosperos

Clamar á humanidade,

Então revivo o Mexico

Da campa surgirá.

POLONIA

E ao terceiro dia a alma deve voltar ao

corpo, e a nação resuscitará.

MICKIEWIEZ.

Como aurora de um dia desejado,

Clarão suave o horizonte innunda.

E talvez amanhã. A noite amarga

Como que chega ao termo; e o sol dos livres,

Cangado de te ouvir o inutil pranto,

Alfim resurge no dourado Oriente.


Eras livre,—tão livre como as aguas

Do teu formoso, celebrado rio;

A corôa dos tempos

Cingia-te a cabeça veneranda;

E a desvellada mãe, a irmã cuidosa,

A santa liberdade,

Como junto de um berço precioso,

Á porta dos teus lares vigiava.


Eras feliz demais, demais formosa;

A sanhuda cobiça dos tyranos

Veio enlutar teus venturosos dias...

Infeliz! a medrosa liberdade

Em face dos canhões espavorida

Aos reis abandonou teu chão sagrado;

Sobre ti, moribunda,

Viste cahir os duros oppressores:

Tal a gazella que percorre os campos,

Se o caçador a fere,

Cae convulsa de dôr em mortaes ancias,

E vê no extremo arranco

Abater-se sobre ella

Escura nuvem de famintos corvos.

Presa uma vez da ira dos tyranos,

Os membros retalhou-te

Dos senhores a explendida cobiça;

Em proveito dos reis a terra livre

Foi repartida, e os filhos teus—escravos—

Viram descer um véu de luto á patria

E apagar-se na historia a gloria tua.


A gloria, não!—É gloria o captiveiro

Quando a captiva, como tu, não perde

A alliança de Deus, a fé que alenta,

E essa união universal e muda

Que faz communs a dôr, o odio, a esperança.


Um dia, quando o calix da amargura,

Martyr, até ás fezes esgotaste,

Longo tremor correu as fibras tuas;

Em teu ventre de mãe, a liberdade

Parecia-soltar esse vagido

Que faz rever o céu no olhar materno;

Teu coração estremeceu; teus labios

Tremulos de anciedade e de esperança,

Buscaram aspirar a longos tragos

A vida nova nas celestes auras.

Então surgiu Kosciusko;

Pela mão do Senhor vinha tocado;

A fé no coração, a espada em punho,

E na ponta da espada a torva morte,

Chamou aos campos a nação caída.

De novo entre o direito e a força bruta

Empenhou-se o duello atroz e infausto

Que a triste humanidade

Inda verá por seculos futuros.

Foi longa a luta; os filhos dessa terra

Ah! não pouparam nem valor nem sangue!

A mãe via partir sem pranto os filhos,

A irmã o irmão, a esposa o esposo,

E todas abençoavam

A heroica legião que ia á conquista

Do grande livramento.


Coube ás hostes da força

Da pugna o alto premio;

A oppressão jubilosa

Cantou essa victoria de ignominia;

E de novo, ó captiva, o véu de luto

Correu sobre teu rosto!

Deus continha

Em suas mãos o sol da liberdade,

E inda não quiz que nesse dia infausto

Teu macerado corpo allumiasse.


Resignada á dôr e ao infortunio,

A mesma fé, o mesmo amor ardente

Davam-te a antiga força.

Triste viuva, o templo abriu-te as portas;

Foi a hora dos hymnos e das preces;

Cantaste a Deus; tua alma consolada

Nas azas da oração aos céus subia,

Como a refugiar-se e a refazer-se

No seio do infinito.

E quando a força do feroz cossaco

A casa do Senhor ia buscar-te,

Era ainda rezando

Que te arrastavas pelo chão da egreja.


Pobre nação!—é longo o teu martyrio;

A tua dôr pede vingança e termo;

Muito has vertido em lagrimas e sangue;

É propicia esta hora. O sol dos livres

Como que surge no dourado Oriente.

Não ama a liberdade

Quem não chora comtigo as dôres tuas;

E não pede, e não ama, e não deseja

Tua resurreição, finada heroica!

ERRO

Erro é teu. Amei-te um dia

Com esse amor passageiro

Que nasce na phantasia

E não chega ao coração;

Nem foi amor, foi apenas

Uma ligeira impressão;

Um querer indifferente,

Em tua presença, vivo,

Morto, se estavas ausente,

E se ora me vês esquivo,

Se, como outr'ora, não vês

Meus incensos de poeta

Ir eu queimar a teus pés,

É que,—como obra de um dia,

Passou-me essa phantasia.


Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras.

Tuas frivolas chimeras,

Teu vão amor de ti mesma,

Essa pendula gelada

Que chamavas coração,

Eram bem fracos liames

Para que a alma enamorada

Me conseguissem prender;

Foram baldados tentames,

Saiu contra ti o azar,

E embora pouca, perdeste

A gloria de me arrastar

Ao teu carro... Vãs chimeras!

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras...

ELEGIA

A bondade choremos innoccente

Cortada em flôr que, pela mão da morte,

Nos foi arrebatada d'entre a gente.

CAMÕES.

Se, como outr'ora, nas florestas virgens,

Nos fosse dado—o esquife que te encerra

Erguer a um galho de arvore frondosa,

Certo, não tinhas um melhor jazigo

Do que alli, ao ar livre, entre os perfumes

Da florente estação, imagem viva

De teus cortados dias, e mais perto

Do clarão das estrellas.


Sobre teus pobres e adorados restos,

Piedosa a noite, alli derramaria

Do seus negros cabellos puro orvalho;

Á beira do teu ultimo jazigo

Os alados cantores da floresta

Iriam sempre modular seus cantos;

Nem letra, nem lavor de emblema humano,

Relembraria a mocidade morta;

Bastava só que ao coração materno,

Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,

Um aperto, uma dôr, um pranto occulto,

Dissesse:—Dorme aqui, perto dos anjos,

A cinza de quem foi gentil transumpto

De virtudes e graças.


Mal havia transposto da existencia.

Os dourados umbraes; a vida agora

Sorria-lhe toucada dessas flôres

Que o amor, que o talento e a mocidade

Á uma repartiam.


Tudo lhe era presagio alegre e doce;

Uma nuvem sequer não sombreava,

Em sua fronte, o iris da esperança;

Era, emfim, entre os seus a copia viva

Dessa ventura que os mortaes almejam,

E que raro a fortuna, avessa ao homem,

Deixa gozar na terra.


Mas eis que o anjo pallido da morte

A presentiu feliz e bella e pura,

E, abandonando a região do olvido,

Desceu á terra, e sob a aza negra

A fronte lhe escondeu; o fragil corpo

Não pôde resistir; a noite eterna

Veio fechar seus olhos;

Emquanto a alma abrindo

As azas rutilantes pelo espaço,

Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,

No seio do infinito;

Tal a assustada pomba, que na arvore

O ninho fabricou,—se a mão do homem

Ou a impulsão do vento um dia abate

O recatado asylo,—abrindo o vôo,

Deixa os inuteis restos

E, atravessando airosa os leves ares,

Vai buscar n'outra parte outra guarida.


Hoje, do que ora inda lembrança resta,

E que lembrança! Os olhos fatigados

Parecem ver passar a sombra della;

O attento ouvido inda lhe escuta os passos;

E as teclas do piano, em que seus dedos

Tanta harmonia despertavam antes,

Como que soltam essas doces notas

Que outr'ora ao seu contacto respondiam.


Ah! pezava-lhe este ar da terra impura,

Faltava-lhe esse alento de outra esphera,

Onde, noiva dos anjos, a esperavam

As palmas da virtude.


Mas, quando assim a flôr da mocidade

Toda se esfolha sobre o chão de morte,

Senhor, em que firmar a segurança

Das venturas da terra? Tudo morre;

Á sentença fatal nada se esquiva,

O que é fructo e o que é flôr. O homem cego

Cuida haver levantado em chão de bronze

Um edificio resistente aos tempos,

Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,

O castello se abate,

Onde, doce illusão, fechado havias

Tudo o que de melhor a alma do homem

Encerra de esperanças.


Dorme, dorme tranquilla

Em teu ultimo asylo; e se eu não pude

Ir espargir tambem algumas flôres

Sobre a lagea da tua sepultura;

Se não pude,—eu que ha pouco te saudava

Em teu erguer, estrella,—os tristes olhos

Banhar nos melancolicos fulgores,

Na triste luz do teu recente occaso,

Deixo-te ao menos nestes pobres versos

Um penhor de saudade, e lá na esphera

Aonde approuve ao Senhor chamar-te cedo,

Possas tu ler nas pallidas estrophes

A tristeza do amigo.

SINHÁ

O teu nome é como o oleo derramado.

Cantico dos Canticos.

Nem o perfume que expira

A flôr, pela tarde amena,

Nem a nota que suspira

Canto de saudade e pena

Nas brandas cordas da lyra;

Nem o murmurio da veia

Que abriu sulco pelo chão

Entre margens de alva arêa,

Onde se mira e recreia

Rosa fechada em botão;


Nem o arrulho enternecido

Das pombas, nem do arvoredo

Esse amoroso arruido

Quando escuta algum segredo

Pela brisa repetido;

Nem esta saudade pura

Do canto do sabiá

Escondido na espessura,

Nada respira doçura

Como o teu nome, Sinhá!

HORAS VIVAS

Noite: abrem-se as flôres...

Que esplendores!

Cynthia sonha amores

Pelo céu.

Tenues os neblinas

Ás campinas

Descem das collinas,

Como um véu.


Mãos em mãos travadas,

Animadas,

Vão aquellas fadas

Pelo ar;

Soltos os cabellos,

Em novellos,

Puros, louros, bellos,

A voar.


—«Homem, nos teus dias

Que agonias,

Sonhos, utopias,

Ambições;

Vivas e fagueiras,

As primeiras,

Como as derradeiras

Illusões!


—«Quantas, quantas vidas

Vão perdidas

Pombas mal feridas

Pelo mal!

Annos apoz annos,

Tão insanos,

Vem os desenganos

Afinal.


—«Dorme: se os pesares

Repousares,

Vês?—por estes ares

Vamos rir;

Mortas, não; festivas,

E lascivas,

Somos—horas vivas De dormir—»

VERSOS A CORINNA

Tacendo il nome di questa gentilissima.

DANTE.

I

Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo

N'uma hora de amor, de ternura e desejo,

Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,

Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;

Depois, depois vestindo a fórma peregrina,

Aos meus olhos mortaes, surgiste-me, Corinna!


De um jubilo divino os cantos entoava

A natureza mãe, e tudo palpitava,

A flôr aberta e fresca, a pedra bronca e rude,

De uma vida melhor e nova juventude.


Minh'alma adivinhou a origem do teu ser;

Quiz cantar e sentir; quiz amar e viver;

A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura,

Palpitou, reviveu a pobre creatura;

Do amor grande, elevado, abriram-se lhe as fontes;

Fulgiram novos sóes, rasgaram-se horizontes;

Surgiu, abrindo em flôr, uma nova região;

Era o dia marcado á minha redempção.

Era assim quo eu sonhava a mulher. Era assim:

Corpo de fascinar, alma de cherubim;


Era assim: fronte altiva e gesto soberano,

Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,

Em olhos senhoris uma luz tão serena,

E grave como Juno, e bella como Helena!

Era assim, a mulher que extasia e domina,

A mulher que reune a terra e o céu; Corinna!


N'este fundo sentir, nesta fascinação,

Que pede do poeta o amante coração?

Viver como nasceste, ó belleza, ó primor,

De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.


Viver,—fundir a existencia

Em um osculo de amor,

Fazer de ambas—uma essencia,

Apagar outras lembranças,

Perder outras illusões,

E ter por sonho melhor

O sonho das esperanças

De que a unica ventura

Não reside em outra vida,

Não vem do outra creatura;

Confundir olhos mos olhos,

Unir um seio a outro seio,

Derramar as mesmas lagrimas

E tremer do mesmo enleio,

Ter o mesmo coração,

Viver um do outro viver...

Tal era a minha ambição.


Donde viria a ventura

Desta vida? Em que jardim

Colheria esta flôr pura?

Em que solitaria fonte

Esta agua iria beber?

Em que encendido horizonte

Podiam meus olhos ver

Tão meiga, tão viva estrella,

Abrir-se e resplandecer?

Só em ti:—em ti que és bella,

Em ti quo a paixão respiras,

Em ti cujo olhar se embebe

Na illusão de que deliras,

Em ti, que um osculo de Hebe

Teve a singular virtude

De encher, de animar teus dias,

De vida e de juventude...


Amemos! diz a flôr á brisa peregrina,

Amemos! diz a brisa, arfando em torno á flôr

Cantemos esta lei e vivamos, Corinna,

De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.

II

A minha alma, talvez, não é tão pura,

Como era pura nos primeiros dias;

Eu sei: tive choradas agonias

De que conservo alguma nodoa escura,


Talvez. Apenas á manhã da vida

Abri meus olhos virgens e minha alma,

Nunca mais respirei a paz e a calma,

E me perdi na porfiosa lida.


Não sei que fogo interno me impellia

Á conquista da luz, do amor, do gozo,

Não sei que movimento imperioso

De um desusado ardor minha alma enchia.


Corri de campo em campo e plaga em plaga.

(Tanta ansiedade o coração encerra!)

A ver o lyrio que brotasse a terra,

A ver a escuma que cuspisse—a vaga.


Mas, no areal da praia, no horto agreste,

Tudo aos meus olhos avidos fugia...

Desci ao chão do valle que se abria,

Subi ao cume da montanha alpestre.


Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me

Em meus sonhos de moço e de poeta;

E contemplei, nesta ambição inquieta,

Da muda noite a pagina sublime.


Tomei nas mãos a cythara saudosa,

E soltei entre lagrimas um canto...

A terra brava recebeu meu pranto

E o éco repetiu-me a voz chorosa.


Foi em vão. Como um languido suspiro,

A voz se me calou, e do invio monte

Olhei ainda as linhas do horizonte,

Como se olhasse o ultimo retiro.


Nuvem negra e veloz corria solta

O anjo da tempestade annunciando;

Vi ao longe as alcyones cantando

Doidas correndo á flôr da agua revolta.


Desilludido, exausto, ermo, perdido,

Busquei a triste estancia do abandono,

E esperei, aguardando o ultimo somno,

Volver á terra, de que foi nascido.


—«Ó Cybele fecunda, é no remanso

Do teu seio—que vive a creatura,

Chamem-te outros morada triste e escura,

Chamo-te gloria, chamo-te descanso!»


Assim fallei. E murmurando aos ventos

Uma blasphemia atroz—estreito abraço

Homem e terra uniu, e em longo espaço

Aos écos repeti meus vãos lamentos.


Mas, tu passaste... Houve um grito

Dentro de mim. Aos meus olhos

Visão de amor infinito,

Visão de perpetuo gozo

Perpassava e me attrahia,

Como um sonho voluptuoso

De sequiosa fantasia.

Ergui-me logo do chão,

E pousei meus olhos fundos

Em teus olhos soberanos,

Ardentes, vivos, profundos,

Como os olhos da belleza

Que das escumas nasceu...

Eras tu, maga visão

Eras tu o ideal sonhado

Que em toda a parte busquei,

E por quem houvera dado

A vida que fatiguei;

Por quem verti tanto pranto,

Por quem nos longos espinhos

Minhas mãos, meus pés sangrei!


Mas se minh'alma, acaso, é menos pura

Do que era pura nos primeiros dias,

Porque não soube em tantas agonias

Abençoar a minha desventura;


Se a blasphemia os meus labios polluira,

Quando, depois do tempo e do cansaço,

Beijei a terra no mortal abraço

E espedacei desanimado a lyra;


Podes, visão formosa e peregrina,

No amor profundo, na existencia calma,

Desse passado resgatar minha alma

E levantar-me aos olhos teus,—Corinna!

3,94 ₼

Janr və etiketlər

Yaş həddi:
0+
Litresdə buraxılış tarixi:
11 oktyabr 2024
Həcm:
160 səh. 1 illustrasiya
ISBN:
4064066412494
Naşir:
Müəllif hüququ sahibi:
Bookwire
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