Kitabı oxu: «Cantos Sagrados»
Manuel de Arriaga
Cantos Sagrados

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066406998
Índice de conteúdo
AO PUBLICO
LIVRO PRIMEIRO
DEUS E A ALMA
I
O QUE EU VI
II
MUNDO INTERIOR
III
TRISTEZA
IV
PRESENTIMENTOS
V
CONSCIENCIA
VI
REVELLAÇÃO
VII
MISSA PONTIFICAL
VIII
AVÉ CREATOR!
IX
SURSUM CORDA!
X
AOS CATHOLICOS
XI
FÉ E RASÃO
XII
AMOR E PROVIDENCIA
XIII
Á GUERRA!
XIV
Á PAZ DOS POVOS
XV
AO HOMEM
XVI
Á MULHER
XVII
AOS FILHOS
XVIII
Á HUMANIDADE
XIX
AO NOVO CYCLO HISTORICO
XX
NOVA LUZ! NOVO IDEAL!
XXI
APPELLO SUPREMO!
XXII
REFUGIO ULTIMO!
LIVRO SEGUNDO
ESPELHO DUPLO
O MUNDO E A CONSCIENCIA
I
ALVORADA
II
Á LUZ
III
AO SOL!
IV
AO MAR!
V
ÁS NUVENS
VI
ÁS FLORES
VII
Á ARVORE
VIII
Á TERRA
IX
AOS ASTROS!
O QUE EU VI
TRISTEZA
PRESENTIMENTOS
REVELLACÃO
AVE CREATOR
AO HOMEM--Á MULHER
Á HUMANIDADE
AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL!
APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO
AO SOL
Á ARVORE
Á TERRA
AOS ASTROS

LISBOA
MANOEL GOMES, Editor LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS 70--RUA GARRETT (CHIADO)--72 1899
DEDICATORIA
Índice de conteúdo
Ás almas piedosas e cultas em cuja convivencia encontrei conforto, fortalesa e fé na bondade e na virtude,
e
Ás proximas gerações futuras, a quem compete a integração do destino humano segundo o novo Ideal de Justiça
offerece e consagra estes Cantos
O SEU AUCTOR.
AO PUBLICO
Índice de conteúdo
A exemplo do lavrador que nas tardes melancolicas do outomno, antes que chegue o inverno, recolhe os fructos das suas pequenas herdades, nós, n'este periodo calmoso da existencia em que entrámos, e primeiro que a morte nos venha trazer, com a paz da sepultura, a melhor compensação dos nossos longos soffrimentos, deliberámos recolher e seleccionar as poesias que escrevemos no longo periodo de trinta e dois annos, que decorre desde 1867 até hoje e que, com rarissimas excepções, devidas quasi sempre a inconfidencias e curiosidades d'amigos, são todas ainda hoje ineditas.
Reunimol-as em quatro volumes, o primeiro dos quaes, o dos Cantos, é o que damos hoje á publicidade.
O segundo com o nome de Irradiações, é dividido em quatro livros--Devaneios--Imagens d'um mundo extincto--Nas Alturas--No Lar.
O terceiro contém poesias dispersas, ensaios e fragmentos.
O quarto, um poema heroico glorificando os triumphos da Humanidade no concerto do Universo, e onde, sob uma fórma dramatica, reatámos as tradições gloriosas de Portugal no periodo de Renascença á futura solução do problema humano, sob um novo ideal de justiça.
Foi este poema, a que démos o titulo de Synthese Suprema, escripto nos tres ultimos annos que se seguiram ao nosso affastamento da politica militante, quando abandonámos de todo o parlamento, onde a nossa voz ficou por completo isolada e perdida...
Compozémol-o ante a ameaça constante da morte que as nossas doenças, então aggravadas, nos punham todos os dias diante dos olhos, sem esperanças de o levarmos ao seu termo; e foi feito a pedaços nas poucas horas d'ocio que nos restavam dos nossos deveres profissionaes.
A poesia aos nossos olhos nunca foi um mero recreio de espirito.
Como todas as bellas artes, tende a exercer uma funcção social, hoje tanto mais necessaria quanto é frouxa, ou quasi nulla, a que a Religião, e a moral d'ella nascida, exerceram outr'ora nas multidões incultas, que á falta d'um ideal filho dos tempos, que as ajude na solução do seus tenebrosos e multiplos problemas: ou se tornam indifferentes ou scepticas e vivem como espiritos revoltados contra todo o existente!...
A muitos parecerá contradictorio que, tendo nós combatido em toda a nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os crimes commettidos á sombra das religiões positivas, sobre tudo da religião dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e á entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma tão ardente fé religiosa!...
A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa á poesia O que eu vi, que adiante publicamos, e nas immediatas.
Se errámos ou não, os factos é que o hão-de decidir d'aqui mais a algum tempo.
Só aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justiça as duas metades da humanidade, de que depende a integração do destino humano, o homem e a mulher, que as crenças religiosas e as demonstrações scientificas trazem tão profundamente divorciados na vida do lar e no foro interno; para levarmos ao povo a communhão do novo credo e levantarmos-lhe o coração e a alma muito acima das meras questões de interesses materiaes em que o trazem envolvido: é preciso procurar um ideal fóra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os actos fundamentaes d'abnegação e d'altruismo que reclama o problema social, o que só se pode alcançar á sombra de religiosidade que está no fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo.
Qualquer que seja porém, a opinião em contrario de nossos competidores, e que acatamos, é d'esperar que attendam a que, n'uma obra d'arte, não se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim que se propõe servir e o meio que emprega para o alcançar.
Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios.
Ainda uma palavra sobre as razões porque só agora, no fim da nossa carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos.
Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas opiniões, os nossos sentimentos!
Accaso terão direito a sel-o?! Irá n'elles alguma cousa que seja menos verdadeira, menos justa, menos bella?!
E, quando tal se dê, o que pensarão de nós os que vierem a julgar-nos?!...
Transmittindo a estranhos, sob as fórmas divinas da arte, o que havia de melhor no nosso mundo interior, e que merecera a sancção da nossa consciencia, não iremos susceptibilisar ou offender, apesar d'isso, o que os outros teem de mais sagrado no coração e amam mais de que tudo?!
Não seremos nós uns illudidos que vamos com a nossa illusão concorrer para os enganos dos outros?!
Todas estas perguntas accudiam ao nosso espirito quando nos incitavam a imprimir estes Cantos e esperámos sempre que um mais maduro exame os auctorisasse a sahir do recatado asylo da nossa consciencia, a ir correr mundo e a suscitar por ventura a animadversão ou a sympathia dos leitores!...
Que o publico encontre n'elles a grata companhia que nos fizeram tão largos annos, é o melhor premio, se algum elles merecem, a que pode aspirar o auctor d'estas linhas.
Lisboa, 15 de março de 1899.
Manoel d'Arriaga.
LIVRO PRIMEIRO
Índice de conteúdo
DEUS E A ALMA
Índice de conteúdo
I
O QUE EU VI
Índice de conteúdo
Sahi um dia a contemplar o mundo, Por vêr quanto ha de bello e quanto brilha Na multipla e gloriosa maravilha, Que anda suspensa em o azul profundo!
Vi montes, vales, arvores e flôres, Limpidas aguas, múrmuras torrentes, Do grande mar as musicas plangentes, Dos céus sem fim os trémulos fulgôres!
Trouxe os olhos tão ricos de belleza, O coração tão cheio de harmonia, De quanto havia em terra, mar e céos,
Que interpretando a sós a Natureza: Dentro de mim esplendido fulgia, N'um circulo de luz, teu nome, oh Deus!
II
MUNDO INTERIOR
Índice de conteúdo
Materia ou Força, Lei ou Divindade Quem quer que seja que dirige o mundo, Esparze em tudo o espirito fecundo Do Summo Bem--Belleza, Amôr, Verdade.
Á luz d'esta Santissima Trindade, Cercado d'esplendor, clamo e jucundo, Sorri-me em volta o universo; ao fundo, Por synthese Suprema, a Humanidade!
Dos homens rujam temporaes medonhos... Que em mim, no meu labôr, do Bem sedento, Meus dias correm limpidos, risonhos!
Estrellas que brilhaes no firmamento! É menos bella a vossa luz que os sonhos Que gera na minha alma o Pensamento!
III
TRISTEZA
Índice de conteúdo
Como isto cá por fóra é tudo alegre! Quão bello o sol! que esplendida harmonia A terra, o mar e os céos! Porem dentro de mim que mundo á parte! Que embate de paixões! Que noite funebre! Que magoas, Santo Deus!
Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde Tem sobre o mundo alguem onde projectem A triste escuridão, Minha alma é como o espelho onde ellas caem, Tão profunda é a mágoa que me lavra Aqui no coração!
E eu via ha pouco o azul d'um céo sem macula! E o sol d'esta alma fulgurante e limpido Banha-me todo em luz! Porém, franqueza humana! eu proprio o obrigo A alumiar-me com a luz da frouxa lampada D'um templo de Jesus!...
Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre! Que lave o pavimento de meu peito De muita ideia vã, Que o mal é como a noite, e o sol apaga-a E transforma-a na prata, ouro e purpura Das nuvens da manhã!
Oh! tu tristeza, irmã dos desgraçados, Que lanças no meu peito os ais plangentes D'esses gemidos teus! Desprende da minha alma as azas negras, E deixa entrar alegre a luz do dia, A luz vinda dos céos!
E vós, filhos do sol, tribus innumeras Da familia de Deus, plantas e flôres Insectos e animaes, Que engolfados nos gozos do Universo, N'esse concerto immenso de harmonias, Nos céos a Deus louvaes:
Ah! venho-vos tomar por meus mentores, Pois vale bem mais a luz do vosso instincto, Que a luz d'esta razão, Se eu não sei como vós viver contente, Trazer o azul dos céos na consciencia, E a paz no coração!
Lisboa
Na tapada d'Ajuda,
1869
IV
PRESENTIMENTOS
Índice de conteúdo
Eu bem sei que devia Causar-te muito dó, Em noite tão sombria Vêres-me aqui tão só!...
Nem sei que sol m'alegra! A sós com a minha cruz, Sou como a nuvem negra Que encerra muita luz!...
Como arvore sombria Vergada sobre um val, Assim vivo hoje em dia Á sombra do Ideal...
Que eu tenho muita fome De Justiça e d'Amor, E aqui não ha quem tome A serio a minha dôr...
O mundo vê e passa, Como sempre passou, Sorrindo da desgraça Dos tristes como eu sou...
E este sonho dourado D'amôr, que a gente vê, Não póde estar guardado N'esses homens sem fé!...
Ah! não! já não m'illudo Foi isso o que suppuz; Mas vi mudar-se em tudo Em sombra a minha luz...
E os sonhos que já tive Tão bellos, afinal, São hoje um céo que vive Sobre este lamaçal!...
Um céo que vejo, ao longe, Exposto aos olhos meus, Co'a mágoa com que um monge Veria outr'ora a Deus!...
E onde ha maior castigo, Mais dura provação, Que ter por inimigo O homem nosso irmão,
Aquelle a quem nós démos, Com toda a candidez, Os sonhos que hoje vêmos Desfeitos a seus pés?!...
Ah! suppõe-me o desgosto, De eu vêr desparecer A cópia do meu rosto Aos pés d'uma mulher,
E isto em desacato Do meu mais santo amor: E ahi tens um retrato Da minha immensa dôr,
Quando vejo desfeito Por gente ingrata e má Um sonho do meu peito, E muitos vi eu já!...
Por isso eu n'esta vida, Apoz tanta illusão, E tanta flôr perdida, Tanta corôa no chão...
Ai! sinto com o anceio, Que é proprio do infeliz, Um mal n'este meu seio Lançar muita raiz!...
Espero vêr a morte, Eu proprio a invoquei, Levar-me d'esta sorte Para onde?! É que eu não sei!...
Como eu não sei dizer-te, E isto que me consol', Como é que se converte Em vida a luz do sol!...
Como nasce a ventura Do homem que morreu, Dormir na sepultura Para acordar no céo!...
Aqui tudo é mysterio!... Mas visto que assim é, Onde ha melhor criterio Que á luz da nossa fé?
E eu creio firmemente Que o martyr de Jesus, Não fica só pendente Dos braços d'uma cruz...
Que o homem que prosegue A luz d'um Ideal; Embora a turba o pregue Na sua cruz fatal...
O céo é bem profundo, O fundo nem tu vês, E ha n'elle muito mundo, Para onde irá talvez!...
A vida continúa, E a alma, emquanto a mim, Avança e não recúa Por esses sóes sem fim!
Do sol se um raio ardente No mar vier cahir, Em nuvem transparente Nós vêmol-o subir!
Não ha suster-lhe o rumo Que o leva para os céos, E assim é que eu presumo Voarmos nós a Deus!...
O ponto é merecel-o, Que Deus é justo e pae, E eu sei com que desvelo A si os bons attrae!
Mas quando eu vejo a lua, Não sei que ideia má N'esta alma me insinua A luz que n'ella ha!...
Emquanto em torno d'ella, Ao norte, ao leste, ao sul, Refulge tanta estrella Pela amplidão do azul,
Tu vêl-a solitaria, Em paz cruzando o céo, Como urna funeraria D'um mundo que morreu!.
Ali já não ha vida!... Ali não ha calor!... N'aquella luz, vertida Em lagrimas de dôr,
Ha só tristeza e lucto, E confrange-se e doe O coração, se escuto Mulher, porque isso foi!...
Ah, tenho medo Que o Supremo Juiz Nos julgue assim tão cedo!... Não sei que voz m'o diz...
Não sei... mas, se contemplo Os crimes que ahi vão, Mulher, aquelle exemplo Conturba o coração!...
E assim só n'outra parte Verão os olhos meus Os sonhos que reparte Commigo a mão de Deus!...
O mundo onde abre o cardo E o lyrio ao mesmo sol; Onde ama o leopardo A par do rouxinol;
Que tem de andar na sombra Para viver na luz; E, o que inda mais m'assombra, Onde ha Nero e Jesus:
Por mais bello e risonho Que seja, ainda assim Não vale qualquer sonho, Que trago dentro em mim!...
Isto é um fraco esboço D'uma outra vida e crê, Que sinto-a, mas não posso Dizer-te onde ella é!...
Se a Vida em nós começa, Por esses sóes d'além, Sobre a nossa cabeça. Trabalha-se tambem!...
Mulher! mulher! quem sabe Se é isto o que m'attrae Aos céos, pois, tanto cabe A Deus, que é justo e pae...
Lisboa, 1870.
Pulsuz fraqment bitdi.