Kitabı oxu: «Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica»
Manuel Pinheiro Chagas
Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066413002
Índice de conteúdo
OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES
I Os problemas geographicos do seculo XV
II Causas de erro para a historia da solução dos problemas
III A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média
IV A religião e a lenda
V O infante D. Henrique e o povo portuguez
VI Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico
VII Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America
VIII Christovam Colombo e D. João II
IX O tratado de Tordesillas e a viagem de Pedro Alvares Cabral
X
XI Conclusão
OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES
Índice de conteúdo
OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUEZES
E
OS DE COLOMBO

TENTATIVA DE COORDENAÇÃO HISTORICA
POR
MANUEL PINHEIRO CHAGAS
SECRETARIO GERAL DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA

LISBOA
Typographia da Academia Real das Sciencias
1892
I
Os problemas geographicos do seculo XV
Índice de conteúdo
A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso. Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa, porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso, assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar, vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua audacia.
Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça, porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas. Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade, inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico, foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade, que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra.
Quando vejo a azafama com que procuram ainda hoje espiritos demolidores sustentar que os Portuguezes foram precedidos por outros povos nos seus descobrimentos, que teve Colombo predecessores no descobrimento da America, pasmo que se não veja claramente o obstaculo deante do qual baqueiam todos os seus argumentos. Esse obstaculo é o seguinte: antes dos navegadores do infante D. Henrique terem demonstrado o contrario, era ponto incontestavel para todos a impossibilidade de se viver na zona torrida. Antes de Colombo ter mostrado o contrario, era ponto incontroverso que a immensa extensão do Atlantico tornava impossivel que um navio, caminhando na direcção do occidente, encontrasse terra antes de terem perecido de fome e de sede todas as tripulações. Pois, se um navio qualquer tivesse, como se diz dos navios dieppezes, chegado antes de nós ás costas da Guiné, não estava desde logo quebrado o encanto, não cahia por terra toda a geographia systematica dos antigos, não estava aberto para sempre o mare clausum, e podia alguem sustentar ainda que era inhabitavel a zona torrida, quando havia em França marinheiros que a tinham atravessado sem perigo, que tinham voltado incolumes, deixando n’essas regiões que todos diziam completamente queimadas pelo sol colonias florescentes como esse Petit-Dieppe e esse Petit-Paris, que ainda hoje são citadas por escriptores francezes notabilissimos, em cujo espirito um mal-entendido amor patrio parece extinguir completamente a faculdade do raciocinio? Seria necessario que essa descoberta fosse completamente inconsciente, que os marinheiros nem soubessem que tinham entrado na zona torrida, e essa ignorancia é completamente incompativel com os conhecimentos embora rudimentares que precisava de ter o navegador que se arriscava a tão aventurosas viagens.
O mesmo diremos das navegações antigas de que se encontra noticia nos livros de Herodoto e no Periplo de Hannon. Se os marinheiros phenicios de Necho tivessem dado volta ao cabo da Boa Esperança, e tivessem entrado no Mediterraneo pelo estreito de Gibraltar, percorrendo tão immensa extensão de costas, como poderiam persistir no espirito dos geographos antigos idéas tão absolutamente falsas a respeito da configuração da Africa e da distribuição das zonas? Pode allegar-se por acaso que essa viagem não deixou vestigios, quando vemos que as viagens dos Phenicios nos mares da Europa tão difficeis e tão inhospitos foram sempre continuadas, que nunca se perdeu o conhecimento da Islandia, essa terra gelada, e que pelo contrario perderam immediatamente esses Phenicios, esses Orientaes, que viviam nas terras ardentes, o conhecimento de costas que o sol tambem aquecia e em que encontravam muitas vezes como que a reproducção das suas terras nataes? E não seria extranho tambem que Hannon tivesse feito a longa viagem que do seu Periplo se quer deduzir que fez, e que se apagasse completamente na memoria carthagineza o conhecimento das terras percorridas em tão memoravel expedição, preferindo tambem, ao que parece, esses filhos de paiz africano, as costas geladas e os mares tempestuosos da Europa ao clima quente e ao mar sereno da Africa Occidental?
O que é estranho realmente, é que o alto espirito de Humboldt acceitasse sem exame as pretenções dos Normandos, limitando-se a observar na sua Historia da geographia do Novo Continente que esses factos citados não diminuem a gloria de quem tentou a exploração seguida das costas africanas![1] Não viu o grande historiador, o immortal geographo, que esses factos isolados bastavam para destruir todas as lendas, que eram a chave com que ficava para sempre aberto o mar Tenebroso, que só se abriu comtudo radiante de luz deante dos esforços dos navegadores portuguezes, que bastavam para abrir o caminho para a terra antichtona, para o alter orbis, onde muitos diziam que ficava situado o Paraizo Terrestre, e que nós não poderiamos conhecer nunca, porque ás duas zonas temperadas se interpunha, intransitavel e terrivel, a zona torrida completamente queimada pelo sol? Tão profunda seria a ignorancia em Dieppe que ninguem visse a importancia da maravilhosa expedição? Nos seculos XIII e XIV, sobretudo, em que já começava a actuar nos espiritos europeus a febre das viagens, já depois de Marco Polo ter escripto a sua curiosa narrativa, depois das viagens para o Oriente de Rubruquis e de Carpino, e das viagens de sir John Mandeville, quasi um normando tambem? Ninguem via semelhante coisa! Tendo de casa quem lhes ensinasse a verdade, continuavam geographos e cartographos, todos os sabios, todos os estudiosos a repetir as velhas fabulas, a encher de monstros horrificos os desconhecidos plainos africanos, a pintar a vermelho nos mappas, para bem indicar o ardor do clima, os mares equatoriaes? Possuindo colonias na costa africana, tendo marinheiros que tão bem conheciam esses mares podiam os reis de França consentir que, por bulla de 8 de janeiro de 1454, o papa Nicolau V concedesse aos reis de Portugal «todas as conquistas da Africa com as ilhas nos mares adjacentes desde o cabo Bojador e de Não até toda a Guiné com toda a sua costa meridional?»[2]. E era possivel ainda que no principio do seculo XV os capellães de João de Bethencourt, fidalgo normando que occupára as Canarias, compondo a narrativa da famosa expedição, nem uma palavra escrevessem ácerca das expedições dos seus patricios, e que pelo contrario dissessem, elles normandos, que «si aucun noble prince du royaume de France ou d’ailleurs vouloit entreprendre aucune grande conqueste par deçà, qui seroit une chose bien faisable et bien raisonnable, le pourroit faire à peu de frais; car Portugal et Espagne et Aragon les fourniroient pour leur argent de toutes vitoailles et de navires plus que nul autre pays, et aussi de pilotes qui savent les ports et les contrées?»[3]
Com tanta superficialidade porém se estudam estes assumptos que nem se pensa em se saber se a Guiné do seculo XIV é a Guiné posterior aos descobrimentos. Isso leva escriptores francezes e o proprio Humboldt a allegar que este mesmo Bethencourt explorou a Guiné antes dos portuguezes, sem verem que o que os seus capellães contam é o seguinte: que «os navegantes normandos se affogaram nas costas da Barbaria ao pé de Marrocos»,[4] e que Bethencourt tencionava visitar a parte da «terra firme que fica entre o cabo Cantim e o Bojador»[5] que para isso consultara o livro de um religioso hespanhol «que visitára a Guiné, mas que, chegando ao cabo Bojador se limitára a reconhecer as ilhas que ficavam áquem».[6] A Guiné do tempo de Bethencourt era, como se vê, a que ficava para cá do cabo Bojador, e tanto assim que o papa Innocencio VII disse, escrevendo a Bethencourt, que sabia ficarem as ilhas Canarias a doze leguas de Guiné.[7]
Que immenso cuidado é necessario, quando se procura destruir uma tradição profundamente e fortemente documentada! Quantas causas de erro escapam ao investigador ou frivolo, ou negligente, que se ufana de encontrar n’um velho alfarrabio um facto que vem destruir completamente o que parecia assente e demonstrado! Basta uma variação de nome para transtornar todas as deducções. Basta que uns não saibam, que outros não reparem que o nome de Guiné foi mudando de sitio, como outros muitos nomes geographicos, á medida que os descobrimentos foram caminhando, para que todas as interpretações caiam por terra! Não basta que se diga que no seculo XIV ou XV houve Francezes que chegaram á Guiné, torna-se indispensavel apurar tambem se a Guiné do principio do seculo XV era a mesma que assim se denominou depois dos descobrimentos. Este apuramento, d’onde resulta sabermos que a Guiné ficava, para os capellães de Bethencourt, áquem do cabo Bojador, destruiria completamente a singularissima reivindicação franceza se tantos argumentos fortissimos não houvesse para lhe demonstrar a inanidade.[8]
É o que succede tambem com os detractores de Colombo. Não vêem immediatamente os que dizem que antes de Colombo chegaram a terras americanas João Vaz Côrte Real, ou o francez Jean Cousin, que, se algum d’elles tivesse levado a termo tão importante expedição, bastava isso para ficar logo resolvido o grande problema do fim do seculo XV que trazia preoccupados sabios e estudiosos, deante do qual tanto hesitou D. João II, que inflammou em França o animo do cardeal Pedro d’Ailly, em Italia o do famoso Toscanelli! Com que jubilo se saudaria essa resolução do grande problema!
O que faz tambem com que homens de valor no nosso tempo possam acceitar fabulas tão pueris, como a de João Vaz Côrte Real e a de Jean Cousin, é que raros estudam a fundo o problema que pretendem resolver a seu modo, e não o sabem pôr em equação. Uns estabelecem a lenda de Christovão Colombo considerado como um visionario por dizer que se encontraria a India navegando-se pelo occidente, outros a lenda de Christovão Colombo tratado como um louco por imaginar que para o lado do occidente havia terras. E por isso dizem uns que elle sabia perfeitamente que havia terras porque tinha conhecimento de viagens a que os navegadores não tinham ligado importancia alguma e que tinham passado despercebidas, outros que algum dos reis com quem elle tratara, D. João II por exemplo, não ignoravam que havia terras para o occidente a grandissima distancia da Europa, porque a essas terras já um portuguez aportara, mas estavam convencidos que essas terras não eram a India, e n’isso, accrescenta-se, eram elles que tinham razão e não Colombo.
É mal posto o problema: que se poderia chegar á Asia indo-se pelo occidente, raros seriam os homens de alguma instrucção que o podessem pôr em duvida. A idéa da esphericidade da terra já penetrara em todos os espiritos, e a sua consequencia natural era que pelo occidente se poderia chegar ao oriente. Que devia haver terras para o occidente era por conseguinte egualmente incontestavel. A questão toda estava exclusivamente na distancia.
D. João II não julgava Colombo um visionario por elle lhe dizer que pelo occidente se chegaria á India, julgou-o um visionario por elle suppôr que poderia atravessar para chegar ao seu destino a enorme extensão dos mares. Não o suppoz visionario por elle cuidar que encontraria terras ao occidente, ainda que essas terras não fossem a India, suppôl-o visionario por elle imaginar que teria tempo de chegar a essas terras a salvamento. Logo, se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem realisado essa façanha, estavam dissipadas todas as duvidas.
Havia terras a grande distancia da Europa, terras que ou seriam a India, ou algum d’esses archipelagos em que Toscanelli tinha fé, que serviriam de escala aos navios que demandassem pelo occidente a Asia?[9] O jubilo immenso que se sentiu na Hespanha quando Christovão Colombo voltou, sentir-se-hia em Lisboa quando João Vaz Côrte Real tornasse, ou sentir-se-hia em França quando Jean Cousin entrasse n’algum dos seus portos.
O erro d’aquelles que assim procuram contrapôr a glorias consagradas não só pela tradição, mas pelos factos incontestados e pelos resultados conseguidos, estas lendas pueris forjadas ou pela inveja dos contemporaneos, ou pela phantasia audaciosa dos historiadores sem probidade scientifica que abundaram no seculo XVII, está em pôrem completamente de parte o estudo do meio em que os grandes descobrimentos se fizeram, de modo que o infante D. Henrique e Colombo apparecem como uns vultos inexplicaveis sem raizes no passado e sem relações de especie alguma com o espirito das gerações de que fizeram parte. Querem então reduzir á estatura normal esses vultos descommunaes, e aproveitam qualquer tradição apocrypha para mostrarem com um sorriso de mofa, que elles não fizeram senão aproveitar os esforços inconscientes feitos por alguns vultos humildes, para forjarem com esse metal roubado a pobres as estatuas da sua grandeza.
Applique-se o methodo scientifico ao estudo d’estes grandes phenomenos da vida da humanidade, e ver-se-ha como o genio d’estes dois homens apparece ainda mais brilhante quando vemos que elle resume as vagas aspirações da geração a que pertencem, satisfaz a anciedade que ella sente, encontrando a solução que os outros debalde procuram. O infante D. Henrique surge no meio de uma geração que se debate na ancia do desconhecido, que se julga apertada na jaula d’este mundo antigo, e anceia por encontrar espaço mais amplo em que mais livremente respire. Havia um seculo já que a sede das viagens se apoderara dos espiritos, que o conhecimento da terra era a preoccupação constante de todos os espiritos mais illustrados e cultos, em que já se multiplicavam os documentos cartographicos, em que aquellas encyclopedias medievaes que tinham o titulo quasi consagrado de Imago mundi se enchiam com as mais phantasticas noções, revelando comtudo o ardor com que se procurava supprir com uma geographia conjectural a falta do conhecimento verdadeiro da terra. Já se tinham emprehendido as grandes viagens terrestres pela Asia, procuravam os povos maritimos sondar os segredos do Occeano. Tentavam os Normandos perscrutal-os, e a expedição de João de Bethencourt bem o demonstrou, aspiravam a descobril-os os Genovezes, e a infeliz expedição de Vivaldi de que nunca mais houve noticias depois das suas galés terem transposto o estreito de Gibraltar confirma-o cabalmente, queriam os Catalães encontral-os e Jayme Ferrer, que apenas transpoz o cabo Não, e não conseguiu passar além do Bojador, foi um dos que se illustraram n’essas tentativas; mas paralysou-os a tradição geographica tão enraizada nos seus espiritos como o estão hoje no nosso as theorias da geographia moderna. Logo que a costa africana, em vez de voltar para o oriente, continuava a seguir para o sul, internando-se por conseguinte na zona torrida, a affirmação scientifica de que o sol a ia tornar impossivel de se transpôr impunha-se ao espirito dos navegantes, e bastaria para os fazer recuar, ainda que as affirmações cathegoricas da orthodoxia e os terrores da superstição os não movessem. D. Henrique teve o genio de um livre espirito que se revolta contra uma tradição que se não baseia em dados positivos, e que a submette audaciosamente ao exame da experiencia, teve a coragem que transmittiu aos seus navegadores de arcar contra as affirmações da sciencia, contra os dogmas da religião, contra os pavores da lenda. Continuou e venceu! E a noticia do triumpho correu a Europa toda, e resoou em toda a parte como uma grande conquista do espirito humano, e a theoria das zonas inhabitaveis desappareceu, e a da impossibilidade de communicação entre as duas zonas temperadas dissipou-se, e a Egreja teve de se conformar com a existencia dos antipodas que ella considerava como uma affirmação incompativel com o espirito christão. Pois não se vê que tudo isso aconteceria, logo que um navegador audacioso tivesse penetrado na zona torrida, muito para além das regiões habitaveis? E não se vê tambem que semelhante navegação não passaria despercebida n’uma epocha em que era universal a anciedade pela ampliação dos conhecimentos geographicos?
Succede o mesmo com Christovão Colombo. A existencia de terras para o occidente é um dos sonhos da humanidade desde longas eras. Quanto esse problema preoccuparia os navegadores portuguezes n’esse seculo XV todo illuminado pelas suas glorias pode bem imaginar-se. Attestam-n’o as aventurosas expedições dos mareantes açorianos; mas, como Vivaldi que procurou sondar as regiões inexploradas da Africa, muitos d’esses audaciosos se perderam no vasto Occeano, como Jayme Ferrer, outros chegaram a terras um pouco afastadas e foi assim que a ilha das Flores se descobriu, mas como o mesmo Ferrer recuando deante do Bojador, como Bethencourt não ousando afastar-se para além das costas de Marrocos, os açorianos desmaiaram deante da infinita solidão do Atlantico. Quando Colombo quebrou essas ultimas barreiras, com que enthusiasmo o receberam, com que despeito por lhe não ter dado inteiro credito o acolheu D. João II! Como logo partiram de toda a parte navios a sondar esses mares desconhecidos! Não aconteceria o mesmo se Jean Cousin ou João Vaz Côrte Real tivessem, antes de Colombo, vencido o grande obstaculo? Não seria para Lisboa ou para Dieppe que se voltaria logo a attenção e a inveja de toda a Europa?
Assim, resumindo as questões capitaes em que se condensa o nosso ponto de vista, temos que os dois grandes problemas geographicos que foram resolvidos pelos navegadores do infante D. Henrique e pelas caravellas de Christovão Colombo eram as seguintes:
1.º Atravessar a zona torrida, que, segundo as affirmações da sciencia, tornava impossivel a communicação entre as duas zonas temperadas, entre a terra em que habitamos e a terra antichthona, entre o mundo antigo que tinha Jerusalem no centro e o alter orbis onde a humanidade vivera antes do diluvio, transpôr o Atlantico, pintado pela lenda e pela tradição antiga como o mar tenebroso, entrar n’um occeano que passava por sobrenatural, onde se estava talvez á mercê das potencias infernaes;
2.º Atravessar a solidão do Atlantico do occidente ao oriente, até chegar ás praias orientaes da Asia.
A resolução do segundo problema estava dependente da resolução do primeiro. O primeiro acto de audacia era abrir os mares fechados, mostrar que não tinha o Atlantico os perigos reaes e sobrenaturaes de que o rodeiavam a tradição scientifica e a lenda popular. Esse resolveram-n’o os Portuguezes, e ninguem os precedeu nem os podia preceder, pelo simples motivo de que, se alguem antes d’elles tivesse aberto o mare clausum, não teriam elles que o tornar a abrir. Não se fecha o mar como se fecha uma porta. Não tornam a crear-se os phantasmas que o primeiro audacioso dissipou. Se alguem, antes do infante, houvesse rasgado a cortina do mysterio que sequestrava o Atlantico, estava o Atlantico patente. A geographia systematica da antiguidade e da edade média caía em ruinas logo que o primeiro facto real e tangivel tivesse mostrado a inanidade do systema.
Resolvido o primeiro problema, trepidou-se deante do segundo. Não se oppunham á sua resolução nem as theorias geographicas dos antigos, porque bem conhecidas são, acima de tudo, as opiniões de Eratosthenes, nem as opiniões orthodoxas que não contrariavam de um modo formalmente directo as doutrinas de Colombo, nem as lendas maravilhosas que, depois da desapparição do mar Tenebroso, não faziam senão excitar os navegadores a procurarem no Occidente as ilhas paradisiacas de que S. Brandão voltára com as vestes rescendentes a celestiaes perfumes. O que se oppunha simplesmente á resolução do problema era a immensidade do Occeano, que parecia confirmada exactamente pelas navegações portuguezas. Navegara-se durante annos e ainda se não chegara ao sul da Africa. Quanto tempo teria de se navegar para se chegar á India! Embora! exclamava Toscanelli, um dos enthusiastas da escola colombina, porque, se lá não chegardes em breve, encontrareis disseminadas pelo Occeano centos e centos de ilhas e de archipelagos que servem de guarda avançada ao grande continente oriental. Sonho de visionario! dizia-se e Colombo era repellido. Mas Colombo persistiu e foi elle que rompeu o encanto, elle e só elle que por ninguem poderia ter sido precedido, porque, se o fosse, tinham caido por terra todas as objecções, visto que o problema estava reduzido a este simplissimo termo: atravessar o Occeano e encontrar terra a distancia a que cheguem os viveres de uma caravela. O primeiro que o conseguisse tinha quebrado o feitiço, tinha desvendado o mysterio. Portuguez, francez, hespanhol ou italiano, seria a sua volta saudada pelas acclamações freneticas de toda a Europa maritima. Se foi essa gloria que aureolou Colombo foi por que só a elle podia competir.
Curvemo-nos com respeito deante dos precursores, deante dos marinheiros que tentaram romper o mysterio, deante da intrepidez dos normandos que, depois de occupadas as Canarias, tentaram reconhecer a costa africana, e cujos cadaveres despedaçados nas rochas da costa marroquina foram o primeiro cimento com que se começou a erguer o monumento da gloria portugueza, deante da audacia dos catalães que mais adeante foram ainda, que já transpozeram o cabo Não, e que investiram talvez com o Bojador, mas não sacrifiquemos a essa homenagem a justa gloria que cabe aos que mais felizes, mais perseverantes, e sobretudo dirigidos por um genio excepcional, quebraram definitivamente as barreiras, e, sem hesitar um momento, proseguiram no caminho encetado, e methodicamente foram desenrolando folha a folha o livro do mundo desconhecido, ainda enrolado nas vagas, como se enrolavam em volumes os antigos papyros. Não acceitamos como uma especie de premio de consolação para os precursores menos felizes a phrase de Humboldt, que diz como que encolhendo os hombros deante da injustiça do mundo que as descobertas só se principiam a contar desde que formam serie. As descobertas contam-se desde que se fazem, e, se os Catalães ou os Normandos ou os Genovezes as tivessem feito, para elles iria a gloria. Não esperou a Europa que as caravelas do infante D. Henrique fossem muito adeante para que affluissem a Portugal estrangeiros, nem o governo portuguez esperou por isso para reclamar do Papa o reconhecimento do seu direito. Descobrem-se as Canarias? Logo apparecem Portuguezes, Francezes e Hespanhoes a reclamar a sua posse. Descobriam-se os Açores e a Madeira e ninguem com isso se importava. Não, o Homero da grande epopéa maritima foi o infante D. Henrique. Antes dos grandes epicos apparecem os cantos vagos e anonymos, em que se desata a inspiração da musa popular, em que se modulam as aspirações e os enthusiasmos do povo. Chega emfim o grande cantor, o epico inspirado, em cuja fronte Deus accendeu a scentelha do genio, e que escuta pensativo esses echos da guerra, essas cantilenas sublimes. Incende-se-lhe a imaginação, concentra na sua alma as palpitações da alma nacional, e dos seus labios brota emfim a epopéa victoriosa em que tudo se condensa, e encontra a sua expressão definitiva, que se fixa para sempre na memoria do povo e na memoria da humanidade. As caravelas que iam ainda, silenciosas e timidas, aventurar-se ao mar mysterioso, e que ou voltavam sem ter rompido o mysterio, ou no mysterio das vagas envolviam os seus cadaveres fluctuantes, eram os bardos isolados que afinavam pelo rugido do Occeano os seus epodos audaciosos, mas o infante foi o poeta soberano que fez irromper da sua alma, pela voz dos seus marinheiros, a epopéa triumphal e definitiva, a Iliada da audacia portugueza, como foi Colombo depois que desenrolou no sulco argenteo dos seus navios a Odysséa do Atlantico.
II
Causas de erro para a historia da solução dos problemas
Índice de conteúdo
Para podermos seguir passo a passo a marcha dos descobrimentos, para vermos como pouco a pouco se foi correndo a cortina que escondia aos olhos dos homens da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos actuaes, para nos collocarmos no ponto de vista em que os homens de eras anteriores se collocavam em virtude do que elles então sabiam. A falta d’essa correcção indispensavel arrasta muitos escriptores notaveis a erros grosseiros, que muitas vezes lhes escapam exactamente por não terem o cuidado constante de applicarem essa correcção ás tradições que dos tempos passados lhes vem. O proprio Humboldt, que frequentemente observa quanto é funesto esse erro, a esse erro cede só porque uma vez se esqueceu de verificar qual era a região que nos principios do seculo XV era conhecida pelo nome de Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava comprehendida entre o cabo Cantim e o Bojador não acceitaria a pretenção franceza de terem chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt a essa Guiné tropical que já muito para além fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo que nota como é fallaz a denominação de India dada pelos antigos a varias regiões, visto que muitas vezes comprehendia as regiões meridionaes da Asia, a parte da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o extremo Oriente. Marco Polo designava tres Indias, havia a India exterior e a India inferior, a India superior que era a parte mais oriental da Asia etc.[10] Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens instruidos não de que Colombo julgasse ter encontrado a Asia, mas de que imaginasse ter encontrado a India, arrastados pela tendencia natural de vermos com os nossos olhos de agora a geographia dos outros tempos; e de suppôrmos que a India não podia ser no seculo XV senão a que nós hoje conhecemos e como tal designamos.
Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a posição geographica de varias terras, a que attribuimos a sua posição actual, logo que lhes encontramos em mappas antigos os nomes! Quantas terras differentes receberam o mesmo nome que de umas a outras foi passando, segundo as conjecturas dos geographos! As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante de Delos, foram sempre navegando para o occidente, até que a geographia positiva as fixou nas Canarias, arrancando-lhes o véo da lenda em que os antigos as envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no Egypto, passaram depois para o sul da Cyrenaica, depois ainda para defronte do rio Lukkos, quer dizer, quasi pegadas com a costa marroquina, e só depois para o ponto em que estão as Canarias.[11] A quantas ilhas se applicou o nome de Taprobana, que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando muitas vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, e quando outras vezes a collocava a geographia conjectural dos antigos no oriente das Indias![12] A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome de Aurea Chersoneso que arbitrariamente suppomos agora que correspondia á peninsula de Malaca![13] Como é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos de alguma força apresentados por Mr. d’Anville, a identificação de Sofala com Ophir![14] Como ainda se illudem hoje os mais serios investigadores com o nome de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição dos antigos, abrangia toda a parte meridional da Africa e vinha ligar-se com a costa marroquina![15] Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações, se vemos que os antigos e os Arabes, e os povos da edade média davam á India uma fórma completamente phantastica, suppunham que o mar das Indias era um mar mediterraneo, approximavam assim a costa asiatica da costa africana, como a costa africana está proxima da Europa no Mediterraneo europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse Ophir na Africa como na India!
Depois que enorme cautella é ainda necessaria para o exame dos antigos mappas, onde a phantasia se dava largas, e onde se misturavam com alguns factos positivos todas as conjecturas que formava ou a imaginação ou o espirito reflexivo d’aquelles que os traçavam! Como é ridiculo para quem conhece o espirito que presidia á elaboração dos mappas ouvir escriptores serios fallarem com muita gravidade no famoso mappa trazido pelo infante D. Pedro das suas viagens, e onde estão traçados o cabo da Boa Esperança e até o estreito de Magalhães! Não sabem esses escriptores que, até depois de feitos os descobrimentos, a phantasia dos cartographos não se contentava com os factos positivos narrados pelos navegadores e continuava a ampliar por sua conta o mundo conhecido! Os proprios navegadores ás vezes contribuiam para illudir os cartographos. Christovão Colombo, ao tocar na ilha de Cuba, julgou ter chegado a terra firme e tanto d’isso se convenceu que fez jurar aos seus tripulantes que fôra n’um continente que tinham effectivamente tocado![16] Pedro Alvares Cabral tomou o Brazil por uma grande ilha. Em mappas muito posteriores aos descobrimentos americanos, feitos já depois de Vasco Balboa ter encontrado o Pacifico, collocou-se no sitio em que está o isthmo de Panamá[17] um estreito que punha em communicação os dois mares. Mas isso não impediu os que se enlevam na demolição de glorias estabelecidas de sustentar que o infante D. Henrique tinha mappas que até lhe mostravam onde era o cabo da Boa Esperança, que Colombo levava comsigo mappas que lhe davam o traçado da America, que Fernão de Magalhães n’um globo de Martim de Behaim vira traçado o estreito famoso que hoje tem o seu nome, e que Pedro Alvares tinha um mappa tambem que lhe designava o sitio em que encontrou o Brazil! Puerís tentativas! Quantas vezes effectivamente n’esses mappas conjecturaes podia fazer o acaso que coincidisse com a descoberta a ilha ou a terra phantasiada pela imaginação dos cartographos; mas logo o formigar dos erros perfeitamente incompativeis com o imaginario descobrimento prova exuberantemente que só em coincidencias fortuitas e insignificantes elle se poderia basear.
O que melhor pode mostrar como faltava completamente aos antigos o conhecimento da terra, para além dos estreitos limites em que se concentraram as civilisações do Oriente e a civilisação greco-romana, está na variedade dos systemas com que se procurava explicar a fórma do mundo. A sciencia não caminhava com passo seguro, juntando ao thesouro das idéas conquistadas cada idéa nova que ia sendo adquirida. Como todas as explicações eram conjecturaes, cada nova theoria provava apenas a argucia e o engenho do espirito que a concebia, mas estava sujeita á discussão e á contradicção como todas as soluções que não assentam em factos positivos e incontestaveis. Pode dizer-se que a idéa da esphericidade da terra triumphou na antiguidade, mas pode dizer-se que triumphou porque a sustentavam os mais esclarecidos espiritos, não porque todos a reconhecessem, e porque não houvesse tambem homens de primeira plana que absolutamente a negassem. Sustentou-a Ptolomeu, mas contestou-a vivamente Plutarcho.[18] A theoria de ser a terra um disco cercado pelo rio Oceano, que é a theoria homerica, essa desappareceu é certo, porque a observação dos phenomenos celestes mostrou de um modo evidente quanto era absurda, porque se via bem que não era possivel que o sol se sumisse no occidente, e voltasse depois pelo mesmo caminho e em segredo de noite para reapparecer no Oriente, porque o movimento apparente do céo não podia explicar-se senão allegando-se que os corpos celestes n’uma parte da sua marcha passavam por debaixo da terra, para reapparecerem no sitio opposto áquelle por onde se tinham sumido. Então sim, então a idéa de que a terra assentava em bases solidas, tendo por cima de si o céo estrellado, desappareceu completamente, e a primeira conquista da sciencia foi a que suspendeu a terra no espaço, embora fizesse d’ella ainda o centro da creação, embora suppozesse que tudo se fizera no Universo em sua honra, que em torno d’ella giravam no immenso espaço em varias espheras concentricas os orbes luminosos que entoavam a harmonia, que Platão julgava escutar n’um arrobamento infinito, e que espalhavam nos intermundios a chamma ora intensa como a do sol, ora meiga como a da lua, ora palpitante e suavissima como a das estrellas, das corôas resplandecentes com que a Divindade as cingiu.
Mas com relação á fórma da terra que diversidade de opiniões! Pomponio Mela considerava a terra chata como a suppunham os Hebreus, como a suppozeram depois os Padres da Egreja, e entre elles Santo Agostinho, Lactancio, S. Justino martyr; Ephoro dava-lhe a fórma de um quadrilongo, Cicero, no famoso Sonho de Scipião, acceitava as doutrinas dos geographos mais notaveis, considerava-a espherica, e essa opinião foi seguida por Macrobio, que tambem dava, como Cicero, á parte habitada a fórma de uma chlamyde. Entre os sabios que sustentavam na antiguidade o principio de que a terra era espherica, avulta o grande nome do geographo antigo Ptolomeu. Outros porém baseiam-se na doutrina de Thalés, suppõem a terra ovoide, e Posidonius suppõe que essa ellipse estreita que constitue a terra termina em duas pontas agudissimas.[19]
Apezar d’essas differenças porém, a opinião da esphericidade da terra é a que predomina entre os antigos, é a que tem a seu favor a enorme authoridade de Ptolomeu e de Platão e de Aristoteles e de Eratosthenes e de Hipparcho e de Cicero e de Strabão, a que é preconisada pela escola de Alexandria e que adquire por conseguinte um verdadeiro valor scientifico, mas a religião christã intervem no debate, e a theoria dos antigos é considerada como heterodoxa pelos Santos Padres. A terra tem a fórma de tabernaculo, a existencia dos antipodas é condemnada como absolutamente contraria á logica divina, e esta opinião tão respeitada, tão importante introduz immediatamente a confusão nos espiritos da edade média. O conhecimento da sciencia arabe traz ainda um novo elemento de complicação. Na sciencia oriental sente-se de um modo accentuadissimo o reflexo da tradição grega. Ptolomeu e Aristoteles teem ferventes discipulos nos sabios orientaes, que podem esfumar as suas doutrinas no vago do seu maravilhoso, mas que no fundo as acceitam e as applaudem. E assim vamos encontrar por toda a edade média a velha theoria grega reforçada agora pela adhesão arabe em lucta com as prescripções christãs. Não se pode apagar n’esses espiritos medievaes, que tinham pelo saber da antiguidade um supersticioso respeito, a influencia de Ptolomeu, mas deante da voz auctorisada dos Santos Padres tudo se inclina e emmudece. Então vamos encontrar os cartographos da edade média empenhados na improba tarefa, que tantas vezes se tem repetido, de procurarem conciliar as doutrinas da Egreja com a tradição da sciencia. Apparece-nos muitas vezes a terra como um quadrado inscripto n’um circulo, e, ao passo que o systema das espheras applicado ao systema cosmographico encontra nos espiritos da meia edade um verdadeiro engodo, a terra fixa no meio do universo espherico mantem a fórma especial que os Santos Padres decretaram que tivesse.[20]
Durante largos seculos pairou sobre a humanidade a duvida mais profunda ácerca da fórma do planeta que ella habita. Se alguns sabios entrevêem a verdade, e a sustentam e a defendem, é simplesmente pelas deducções que tiram dos seus calculos e das suas observações astronomicas, não pelo conhecimento directo que possam ter do planeta. Por isso tambem a orthodoxia triumpha, embora as razões em que se funda não sejam bastante poderosas contra o raciocinio dos philosophos, mas, apezar da fraqueza da argumentação, a fé supera sempre facilmente as theorias conjecturaes dos seus adversarios. É por isso que ella ainda hoje é sempre victoriosa na sua lucta contra os systemas philosophicos adversos. Ella dá uma certeza sem fundamento que não seja a auctoridade respeitada da tradição e da crença, os outros oppõem-lhe theorias mais ou menos verosimeis, mas todas baseadas em simples conjecturas. No dia em que o materialismo conseguir fazer palpar o principio vital, ainda hoje incoercivel, e que se representa por esse nome fascinador da alma dotada de immortalidade, o espiritualismo cahiu para não mais se levantar. Emquanto a demonstração da redondeza da terra e da existencia dos antipodas não sahiu do dominio conjectural, a fé que oppunha a essas vagas theorias uma affirmação baseada em tradicções tão conjecturaes como os raciocinios adversos mas aferradas ao espirito humano pelas raizes potentissimas da tradição, os Santos Padres triumphavam. Veiu um dia, porém, em que um pequeno povo debruçado sobre os mysterios do Oceano resolveu sondal-os e quebrar as barreiras que separavam do mundo conhecido essa região enigmatica, transpôr o que lhe diziam que era inultrapassavel, chegar ás regiões defezas, arrombar as portas fechadas pela triplice chave da sciencia, da fé e da lenda, e o que dezenas de seculos não tinham conseguido conseguiu-o meio seculo apenas. Então a sciencia não parou, não retrocedeu, não se contradisse, não se perdeu em conjecturas. Cada facto que se adquiria era uma confirmação de uma theoria contestada, ou a revelação de uma theoria nova. A fé cedeu deante da evidencia. Quando os marinheiros portuguezes entraram na zona torrida, cahiu por terra a idéa consagrada da impossibilidade d’alli se viver, quando entraram na zona temperada do sul, desappareceu, substituida pela real, a terra antichthona, e a Egreja teve de acceitar os antipodas; quando Colombo transpoz o Oceano occidental, a idéa da immensidade dos mares perdeu-se para sempre; quando Fernão de Magalhães passou do Atlantico ao Pacifico, e quando o seu ultimo navio veiu fundear n’um porto da peninsula hispanica depois de ter dado volta completa ao mundo, não teve mais contradictores nem descrentes a theoria da esphericidade da terra. O quadrado dos Santos Padres cahiu desfeito pelas cargas repetidas d’esses cavalleiros do Oceano.
Não é já só, porém, com as phantasias orthodoxas, nem com os devaneios dos sonhadores scientificos, que a terra depois de explorada audaciosamente se torna incompativel. O proprio systema scientifico de Ptolomeu, essa gloria da antiguidade greco-romana, estala não podendo conter em si o mundo tal como foi estudado e descoberto. O systema de Copernico restitue ao sol a sua magestade e a sua humildade á terra. Se não era o sol que percorria lentamente o zodiaco, illuminando no mais alto do seu curso com a sua luz fecundante a terra privilegiada, e queimando quando se abaixava a terra condemnada e maldita, se a zona torrida não era um inferno sempre em chammas, nem nas suas proximidades pullulavam os monstros como os Cerbéros d’esse Tartaro, como as viagens portuguezas amplamente demonstravam, que motivo havia para se suppôr que o Sol não era senão o instrumento das bençãos ou das maldições de Deus sobre a Terra, e porque não seria antes a Terra que adejaria no espaço, irmã d’esses numerosos planetas que no céo resplandeciam, atomo no meio d’essa immensidade de atomos, bago d’essa poeira de luz dispersa no firmamento, e posta em movimento pelo sopro mysterioso da grande attracção universal? E a Copernico succediam Képler e Newton, e as leis do Universo iam-se coordenando n’um Codigo formulado pela sciencia, não ao acaso das conjecturas, mas segundo as indicações positivas dos factos. E assim foi que a audacia portugueza transformou completamente a sciencia humana, e iniciou esta epocha portentosa que dura ha quatro seculos apenas, e que deu mais á humanidade que as dezenas de seculos da historia conhecida que a precederam. E assim é que, se a Colombo cabe a indisputavel gloria de ter destruido a fabula que tornava inaccessiveis as terras do occidente, ao infante D. Henrique mais do que a nenhum outro cabe a gloria immensa de ter affrontado a sciencia, a fé e a lenda para fazer da sciencia conjectural uma sciencia positiva, da fé que amesquinhava a humanidade a fé que a ampliou, da lenda que acovardava a alma humana a epopéa que a enalteceu.
Foi grande Colombo, grande Vasco da Gama, e grande Magalhães! Formam um grupo de heroes os audazes marinheiros que desde Gil Eanes até Bartholomeu Dias, desde Pinzon até Queiroz, sulcaram todos os mares, e affrontaram todas as tempestades, compõem uma phalange benemerita os missionarios da sciencia, que, desde João Fernandes o humilde iniciador da exploração scientifica do continente africano até aos modernos sabios viajantes, se internaram nos sertões affrontando os povos barbaros, como formam uma legião sagrada os missionarios da fé que não recúaram deante dos mais horridos perigos para levarem a regiões ignotas a palavra divina, mas o genio iniciador, que tornou possiveis todos estes feitos, e concebiveis essas audacias, foi o pensativo infante, que accendeu com as suas mãos intrepidas, entre os motejos da sciencia, os anathemas da Egreja e os gritos pavidos da superstição, esse pharol glorioso que projectou de Sagres sobre o vasto Oceano, por cima das suas ondas tenebrosas, a luz radiosa e serena que foi a verdadeira aurora da civilisação moderna.
III
A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média
Índice de conteúdo
Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul, mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano, não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem?
Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos, aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé? N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares, é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será esta definitivamente a verdadeira!
Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes, é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel, cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo. Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses, que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste?
Essas doutrinas de Ptolomeu passaram para a edade média, que teve sempre pela sciencia antiga um louco fanatismo. Encontramol-as ás vezes adulteradas, misturadas com manifestações de ignorancia, com superstições e crendices, mas naturalmente arraigadas nos espiritos, e exaltadas com enthusiasmo pelos sabios da primeira Renascença, pelos que arrancaram das trevas a Europa barbara, e que levantaram como um facho luminoso a doutrina já completa e bem comprehendida do grande geographo antigo.
Vamos encontrar n’um dos livros d’esses sabios medievaes, n’uma d’essas Imago mundi ou Thesaurus, que eram as encyclopedias do tempo, a condensação de toda a sciencia, a doutrina antiga resumida, explicada, mas tambem modificada. Queremos falar nos Dialogos de Pedro Affonso. Os dois que dialogam são Pedro e Moysés. Aquelle é o mestre, este o discipulo.
Diz Moysés:
—Não ha pois da terra senão uma só parte habitavel. Que parte?
Pedro—Desde o meio da terra até á parte septentrional.
Moysés—Demonstra-me isso n’uma figura geometrica, porque n’essa materia cada nação tem tido, segundo os auctores, idéas differentes. Divide-se effectivamente a terra em cinco zonas: uma no meio, queimada pelo ardor do sol, e por conseguinte inhabitavel; duas nas extremidades, muito afastadas do sol, e egualmente inhabitaveis, por causa do rigor do frio; e duas médias, temperadas pelo calor da primeira e pelo frio das outras duas, e unicas habitaveis[21].
Pedro—Esse systema está em contradicção com o testemunho dos nossos olhos. Vemos effectivamente Aren situado no centro da terra; no seu zenith principiam o Aries e a Balança; o ar é alli tão suave que a temperatura das quatro estações é quasi sempre a mesma. Nascem alli plantas aromaticas de côr brilhante e de sabor delicioso; os homens não são nem descarnados, nem obesos, mas de uma compleição bem proporcionada. O clima que exerce esta salutar influencia no corpo não actúa menos efficazmente sobre o espirito que brilha pela sensatez e por uma moderação cheia de acerto. Como se pode pois dizer que um logar que o sol percorre em linha recta em toda a sua extensão é inhabitavel? Não: todo o espaço de terra comprehendido entre esse logar e o segmento septentrional é habitavel sem interrupção, e os antigos dividiram-n’o em sete partes chamadas climas, em conformidade com o numero dos sete planetas. O primeiro clima está na linha do meio; ahi é que Aren foi fundado. O setimo occupa a extremidade do mundo septentrional. Nenhuma d’essas partes é inhabitavel, se exceptuarmos os sitios em que grandes massas de areia quasi sem agua ou então montanhas pedregosas se recusam ao trabalho da charrua.
Moysés—Resta-me pedir-te que me demonstres como succede que esta parte da terra que fica para além de Aren para o sul não é habitada como a que está para áquem para o norte, de modo que Aren se ache no centro da região habitavel, ou então tambem porque não é a parte meridional que é habitavel, emquanto a parte septentrional seria inhabitavel, ao inverso do que succede.
Pedro—Porque o circulo do sol é excentrico relativamente ao circulo da terra, e porque essa excentricidade atira a maior parte da circumferencia para uma distancia maior do septentrião. Segue-se d’ahi que, logo que o sol passa para os signos do hemispherio meridional, quer dizer para a parte da circumferencia comprehendida entre a Balança e Aries, approxima-se da terra, e, queimando os seus raios o solo a esta curta distancia, tornam-n’a esteril e por conseguinte inhabitavel. Só a partir do primeiro clima para o norte é que o espaço que comprehende os sete climas é habitavel. Mas tudo o que vem depois a partir do setimo clima é privado de todo o calor, por causa do afastamento do sol, que vae percorrer os seis signos meridionaes; d’ahi o excesso das nuvens, dos nevoeiros e das geadas; e emfim a ausencia de toda a creatura animada n’essa parte da superficie terrestre[22]».
Não era esta, porém, a doutrina de Ptolomeu. Esta era a doutrina que procurava conciliar a theoria scientifica com as palavras da Egreja. A doutrina de Ptolomeu, a doutrina em geral de todos os sabios da antiguidade e da edade média, era que a zona torrida estava collocada debaixo do zodiaco, que, proxima do sol por conseguinte, era por elle abrazada, mas que para além d’essa região havia outra temperada como a nossa, assim como outra tambem glacial como a zona arctica. Essa foi sempre a doutrina predominante, embora contra ella protestasse a orthodoxia; mas qualquer das duas sustentava como facto incontroverso que a zona torrida era absolutamente inhabitavel, quer fosse, como queria Ptolomeu, que o sol, descrevendo um circulo perfeito em torno da terra durante as vinte e quatro horas, e descrevendo-o ao longo do zodiaco perfeitamente parallelo á zona torrida, sobre ella fizesse caïr perpendicularmente os seus raios e a queimasse e destruisse, ou, como pretendia Pedro Affonso, não descrevendo o sol esse circulo perfeito que Ptolomeu imaginára, mas descrevendo um circulo excentrico ao da terra, d’ahi resultasse que, ao passar pelos signos meridionaes do zodiaco, estivesse mais proximo da terra, e fosse o hemispherio meridional o que os seus raios incendiavam.
Devemos notar que esta ultima hypothese era a que se approximava mais da ellipticidade da orbita da terra hoje demonstrada. Se não se suppunha ainda que o sol descrevesse uma ellipse em torno da terra como hoje se sabe que a terra descreve uma ellipse em torno do sol, já se principiava a querer applicar ao sol a theoria dos epicyclos e dos excentricos, com que a astronomia antiga procurava conciliar com a theoria geral do Universo as contradicções que resultavam do movimento apparente de muitos planetas. A theoria de Pedro Affonso conduzia-o á doutrina moderna da periphelia e da aphelia. Adivinhava que ha um periodo em que o sol está mais afastado da terra do que n’outros, e dava-se a coincidencia de que, dando-se a periphelia, quer dizer o periodo de maior approximação do sol, em janeiro, quando é verão no hemispherio austral, d’ahi resulta que effectivamente os verões austraes são mais quentes do que os nossos, e Pedro Affonso adivinhou assim uma verdade hoje perfeitamente demonstrada. Acontece porém que, sendo a terra que se move e não o sol, quando chega a aphelia, quer dizer o periodo de maior afastamento do sol, em julho, sendo então verão entre nós e inverno no hemispherio austral, tambem succede que são os seus invernos mais regelados. Mas, se a terra se conservasse immovel, como até Copernico se suppoz, passando o sol sempre á mesma distancia do mesmo ponto da terra, seria sempre effectivamente o hemispherio austral o que mais lhe sentiria os implacaveis ardores.
Comtudo era incontestavelmente o systema de Ptolomeu que triumphava nas escolas, era esse o que tinha a sua consagração scientifica. Segundo a theoria do grande geographo, a terra espherica estava dividida em cinco zonas, as zonas glaciaes tão longe do sol que a vida era alli impossivel por causa da falta absoluta de calor, a zona torrida tão proxima do sol, que em torno d’ella descrevia a sua enorme e rapidissima viagem, que a vida era impossivel pelo excesso do calor, emfim as zonas temperadas onde nem o calor era extraordinario nem extraordinario o frio, e que a vontade suprema destinara evidentemente para habitação do homem.
Era conforme esta theoria com o espirito, com o pensamento grego que em tudo se manifestava, na arte, na poesia, na philosophia, no viver social e politico. O ideal grego é a moderação e a harmonia. O universo devia regular-se tambem por essas leis harmonicas, que marcam tanto o rhythmo da architectura do Parthenon como o da poesia de Sophocles, tanto o da philosophia de Platão e de Aristoteles e o da eloquencia de Demosthenes e de Lysias como o das concepções mythicas d’aquelle harmonioso anthropomorphismo hellenico, que produziu aquelles typos idealmente bellos nas suas proporções sublimes, Apollo e a Aphrodite. Assim o homem tambem não poderia viver senão nas regiões em que o clima tivesse a harmonia e a moderação compativeis com o desenvolvimento normal da vida humana. Logo que o calor principiasse a exaggerar-se, desmanchando o equilibrio da temperatura, desmanchava-se tambem o equilibrio das proporções e da fórma humana. Por isso nas proximidades d’essa pavorosa zona torrida começava a terrivel degeneração da raça, surgiam creaturas cada vez mais monstruosas, e era assim effectivamente que Plinio explicava essa efflorescencia de monstros que, no seu entender e no entender dos outros geographos antigos, se manifestava nas regiões mais proximas da zona torrida[23], onde desapparecia emfim no immenso incendio com que o sol abrazava o mundo.
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