Kitabı oxu: «Pelo mundo fóra»

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Maria Amalia Vaz de Carvalho

Pelo mundo fóra


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066409944

Índice de conteúdo

PELO MUNDO FÓRA

Maria Amalia Vaz de Carvalho

PELO MUNDO FÓRA

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

X

XI

XII

XIII

XIV

Segunda parte

O fim do Paganismo

Anthero de Quental

Anatole France

Ernesto Renan

Oliveira Martins

Antonio Maria PEREIRA—Editor

OBRAS de Maria Amalia Vaz de Carvalho

OBRAS DE TEIXEIRA DE QUEIROZ

Collecção Antonio Maria PEREIRA

A 200 RÉIS O VOLUME

Volumes publicados






LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira—editor 50, 52—Rua Augusta—52, 54 1896


PELO MUNDO FÓRA

Índice de conteúdo





Maria Amalia Vaz de Carvalho

Índice de conteúdo

PELO MUNDO FÓRA

Índice de conteúdo






LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira—editor 50, 52—Rua Augusta—52, 54 1896




LISBOA

Typographia e Stereotypia Moderna

II—Apostolos—II 1896





I

Índice de conteúdo


Não ha de certo ninguem, por pouco imaginativo e pouco phantasista que seja, que não tenha architectado um complicadissimo e alegre sonho dando-lhe por base o prazer das viagens. Aos homens é o interesse de visitar cousas novas, de experimentar sensações mais vivas, que os attrahe e chama; ás mulheres é o amor do desconhecido que lhes irrita a insaciavel curiosidade.


Imaginamos todos que a ventura está justamente... onde nós não estamos. E que seria facil conquistal-a, indo em demanda d'ella um pouco longe, em um logar d'onde ella nos sorri, d'onde ella nos acena, cariciosa... traiçoeira.


Eu cedi tambem á estranha, á irresistivel suggestão. Fui-me por esse mundo fóra em busca do pomo d'ouro, que tantas vezes se parece com aquelle fructo colhido em terras da Palestina—mimo e velludo por fóra, cinzas escuras no interior.


Era bem natural que, para mim tão profundamente modelada pelo espirito da França, o primeiro objectivo fosse a terra onde a civilisação franco-latina se resume em synthese deslumbradora.


Chamava-me Paris. E Paris não era, já se vê, a cidade luxuosa e alegre do boulevard, a cidade da permanente festa, do prazer que se elabora de todos os requintes de uma decadencia, da phrenetica aspiração ao gozo material da vida.


Paris era a terra sagrada d'onde brotára para a especie humana a primeira scentelha da Liberdade.


Paris era a patria, pelo menos moral—d'aquelles espiritos de que a minha alma colhêra, n'um vago extase fecundante, a flôr maravilhosa e inspiradora.


Todos os que eu intellectualmente mais amára tinham ido alli receber a consagração suprema da gloria ou da desgraça, ás vezes de ambas ellas.


Eram, no grande seculo classico, Pascal, Racine e Molière; eram, na soberba Renascença franceza, Rabelais e Montaigne; eram depois, n'esse seculo XVIII hoje tão calumniado, mas sempre tão grande, e que tão indomitas energias acordara na alma do homem, Rousseau com a sua morbida sensibilidade de ambicioso e de revoltado, que nós hoje comprehendemos tão bem; era Voltaire, a sã ironia hoje desdenhada, mas que tão benefica acção exerceu na treva do espirito humano; era Diderot, o profundo precursor de todas as modernas theorias criticas, o homem que no seu tempo moveu maior numero de idéas novas e suggestivas; era a pleiade formidavel e fascinante da Revolução, a que na minha mocidade me dera sensações de tão absoluto assombro, a que, desde Turgot e Mirabeau até Robespierre, refizera em novos moldes o mundo moral e o mundo politico; era, na cumiada mais alta e mais luminosa da montanha da Historia, essa grande figura immortal, o Alexandre do seculo XIX, o heroe de Homero, o phrenetico conquistador, que empobreceu talvez a França, que dizimou as populações e crucificou as mães e as noivas, que sangrou do seu melhor sangue as nações e as raças, mas que imprimiu na sua patria o cunho epico, inapagavel, inolvidavel, com que ella ainda hoje espanta e assombra o espirito dos estrangeiros! Parece dos tempos lendarios e é de hontem esse homem soberbo e fatal—em cujo olhar profundo ha reverberações do Olympo, e cuja fronte pensativa fez parar embevecidos, silenciosos, os mais impassiveis e os mais frivolos—cuja figura nós topamos a cada passo na Capital do Mundo.


Modernamente, quantos outros me chamavam, ainda mais queridos ao meu coração, ainda mais intimamente e estreitamente identificados com todas as recordações mais doces da minha vida intellectual... Era Michelet, o poderoso encanto allucinante; era Balzac, a vida intensa que pullula em creações immortaes; era Renan, a graça emballadora, ondeante e morbida, que anesthesia e faz sonhar; e Taine, o vigor soberbo da idéa servido por um temperamento possante de artista e de poeta, um Spinosa que tivesse o pincel do Veronez para traduzir as visões do seu pensamento altissimo; era Musset, o divino; era Sand, e Sainte Beuve, e Hugo, e Lamartine: e cada um me attrahia por um lado ou por muitos lados da sua sensibilidade e do seu genio, e cada um me dizia a palavra magica que faz parar, suspenso, embevecido, um espirito de poeta e de artista, humilde embora...


Eram mais, eram muitos mais, todos lidos, todos decorados com enternecimento e apaixonado enlevo. Eram os que eu sempre amei desde que abri os olhos d'alma, e a quem devo os prazeres mais ardentes, mais refinados ou mais subtis da minha vida interior.


Todos alli me chamavam—côro de mortos que eu tinha a louca illusão de encontrar ainda. Parecia-me que o sorriso aberto e expansivo do pae Dumas havia de accentuar-se sympathicamente ao encarar com o meu assombro extatico; que a voz mordente de Voltaire se amolleceria para acolher em mim a mais fervente enthusiasta do espirito francez; que Beaumarchais me contaria, entre risonho e caustico, uma nova travessura de Figaro, uma nova paixão de Cherubin; que Molière, descendo do seu pedestal marmoreo, me diria ao ouvido uma d'aquellas profundas reflexões satyricas que elle não poupára ás bas-bleus do seu tempo!


Para mim confundiam-se n'um cahos allucinante as épocas, os seculos, os periodos historicos.


O meu humilde espirito colhêra apaixonadamente scentelhas soltas de todos esses espiritos; a minha memoria guardava reverente, em relicario precioso, perfumes vagos de todas essas essencias raras! Amara-os tanto! Sonhara-os tanto! O scenario onde elles se tinham movido interessava-me tão profundamente!


Oh! Balzac ia decerto contar-me a historia, para elle real, das suas elegantes e pallidas heroinas; elle que era forte e bom, compadecido da minha pequenez, não duvidaria apresentar-me a esse mundo mais humano, mais verdadeiro que o outro em que tanto á vontade sabia mover-se.


A viscondessa de Beauseant, a espirituosa e aristocratica rainha do faubourg, aquella que amára tanto um portuguez, e que tivera no seu abandono uma dignidade tão gentil e uma attitude de tão romanesco encanto, ao vêr-me patrocinada pelo seu grande artista, far-me-hia o que fez a Eugenio de Rastignac: proteger-me-hia, introduzir-me-hia, carinhosa e maternal, no circulo estreito, exclusivo, selecto onde viviam as suas eguaes.


Então, n'este ponto do meu sonho galopante, mais rapido que o trem que me levava, mais vertiginoso que o scenario mudavel que me envolvia, eu deixava o mundo da realidade sempre limitado, sempre condicional e sempre estreito, por outro amplissimo, fascinador e deslumbrante.


A multidão prestigiosa das figuras de Balzac cercava-me n'uma especie de circulo encantado. Todo o sortilegio poderoso com que esse grande artista—o Napoleão da litteratura—actuou sobre o nosso tempo, descia sobre o meu cerebro, excitava-o, estimulava-o perigosamente.


Todos os meus gostos de observadora achavam alli a sua satisfação plena. Esquecia, n'esse mundo de tão frisante realidade, de tão intensa vida, tudo que o mundo actual tem de nauseante e de triste...


De resto, Nucigen, o formidavel banqueiro da Comedia humana, é bem mais assustador que Reinach e que todos os judeus modernos da Columna da Bolsa; Vautrin tem um porte épico de criminoso que deixa a perder de vista Cornelio Herz, ou Arton; de Marsay, esse personagem que é de Balzac como Hamlet é de Shakespeare, como Tartufo é de Molière, como D. Juan é de Byron, é um politico, um diplomata, um perverso das altas cumiadas sociaes, bem superior a Rouvier, a Clemenceau, aos pobres pygmeus da terceira Republica; Lousteau, Claude Vignon, Emilio Blondet, Nathan, os principes do jornalismo, os grandes criticos e os manipuladores de successos ou de derrotas litterarias, não podem realmente comparar-se ao sr. Mayer, ao sr. Magnard, ao proprio sr. Rochefort.


E que pleiade encantadora de artistas e de sabios! Que lindas figuras luminosas de pintores, de esculptores, de romancistas, de pensadores! D'Arthez! Joseph Bridau! Camille Maupin! Leon Giraud! Fulgence Ridal!


Em Miguel Christien transparece a integridade rigida, a consciencia admiravel, a fogosa independencia de Armand Carrel; em D'Arthez a bella alma, a vida modesta e simples, a magnificencia intellectual de um Berryer...


E todos desfilavam ante os meus olhos offuscados, os cinzeladores da palavra, os manejadores soberbos ou do escalpello que abre as entranhas humanas para extrahir d'ellas o segredo da vida, ou do pincel que rasga janellas de luz para o azul, para o Ideal! Os mestres da sciencia e da arte, os grandes typos que constituiram essa sociedade imaginaria da obra de Balzac, reflexo idealisado da outra que elle frequentava e conheceu tambem.


Ao pé d'esse agrupamento sublime de figuras que o genio creou, e que illuminam o talento, a gloria, a ambição ou a desventura, que ora se contorcem como os personagens que Miguel Angelo pintou nos seus frescos soberbos, sob o influxo de uma dôr tremenda, ora sorriem olympicamente, como os retratos do Ticiano, surge uma legião adoravel de mulheres, em quem a graça indefinivel da parisiense se allia ao eterno mysterio da poesia feminina, mulheres que se vestem como duquezas modernas, e sorriem, enygmaticas e suggestivas, como a Monna Lisa, eternamente indecifravel, do pintor florentino.


Mulheres que sabem ouvir, que sabem comprehender, e julgar, e consolar, e amar; mulheres que, sendo perversas, teem o encanto diabolico da princeza de Cadignan e de Mme. Marneffe, e que, sendo puras, se chamam Henriette de Morsauf, Duqueza de Langeais; mulheres que são ao mesmo tempo imaginarias e reaes; que ficaram representando na historia um papel preponderante e caracteristico, como as inspiradoras da Renascença italiana, como as amigas gregas de Socrates e de Platão.




II

Índice de conteúdo


O comboio levava-me, rapido, ferozmente rapido. Levava-me para longe do meu ninho, dos meus filhos, de tudo que me faz a vida consolada e boa, de tudo que me dá força para o trabalho, para a lucta, de tudo que enche de bençãos a minha existencia laboriosa e triste...


Á paizagem arida, pedregosa, da Extremadura hespanhola succedia um scenario mais animado, mais caracteristico. Aldêas que desde os tempos hispano-arabes se conservam na mesma immobilidade barbara, sinos altos de egrejas gothicas, perfis apenas entrevistos de velhos conventos, ninhos de cegonhas nas arvores que pareciam correr commigo, sombrias manchas de arvoredo que o vento torcia em attitudes de desesperada supplica...


A grandeza alpestre dos Pyrenéos e a França, a França emfim!... Oh! que jubilo estranho e mysterioso se mesclou então com a saudade que me ia alanceando e cortando as raizes da alma!


A França! Como eu tinha levado annos a amar e a sonhar esse paiz entre todos aureolado aos meus olhos da luz que vem de cima!


Outras que para lá partem levam projectos de requintada elegancia para pôr em pratica. Irão ao Redfern, o alfaiate afamado da rua Rivoli, que veste tão primorosamente as francezas de alto cothurno; irão ao Worth, popularisado pelos romances modernos; á Laferrière, que veste as actrizes de mais fama; ao Felix, que principescas encommendas acabam de singularisar; comprarão na Virot o ultimo modelo de chapéo; receberão chez Lenthéric des conseils de beauté, que elle dá carissimos, pela hora da morte, segundo a expressiva phrase portugueza, e que de resto tão pouco aproveitam a quem os recebe; interrogarão anciosas a elegancia avulsa da parisiense que passa, pedindo-lhe o segredo, que só ella tem, de andar por sobre o solo molhado ou enlameado, sem macular de leve a fimbria, gentilmente arregaçada, do seu simples, gracioso e bem posto vestido escuro, que se amolda sobre um espartilho de mestra, com a nobreza com que sobre o corpo de uma estatueta de Tanagra se amolda a roupagem de linhas magistraes que o envolve sem encobril-o; o segredo de collocar sobre a sua fina cabeça pequenina, lindamente penteada, ou antes, lindamente despenteada, um minusculo chapéo, similhante a uma borboleta ou a uma flôr, que o vento parece querer levar, e que não leva nunca...


O Paris que as attrahe é o Paris da moda, da elegancia, do chic, do concours hippique, da avenue des Acacias, do vernissage e dos pequenos theatros gaiatos. O Paris que as attrahe é o dos figurinos, das lojas de modas, dos ourives da rua de la Paix, dos frequentadores do boulevard des Italiens e da Madeleine.


O Paris que, na velocidade vertiginosa, quasi tragica do expresso, surgia ante meus olhos, era um Paris phantastico, unreal, feito, construido, cimentado com o genio dos seus grandes artistas, dos seus grandes poetas, dos seus historiadores, dos seus moralistas, dos seus sabios, dos seus criticos, dos seus dramaturgos, dos seus romancistas geniaes!


A França, a que minha alma aspirava, como aspira ás paizagens desoladas da Palestina a alma dos grandes ascetas do christianismo, como aspiram á mystica e penetrante atmosphera de Bayreuth os fanaticos da religião wagneriana, era a França que desde Jean Goujon até Rodin, e desde o Poussin até Puvis de Chavannes, e desde Froissart até Michelet, e desde Mme. Laffayette até Georges Sand, e desde Balzac até Zola, e desde Pascal até Renan—um, o catholico que se inclina sobre o abysmo da duvida, outro, o sceptico que tem a uncção evangelista de um santo... e desde Montaigne até Anatole France, e desde Racine até Bourget... os finos psychologos do eterno feminino—e desde Ronsard até Victor Hugo, e desde Marot até Verlaine, e desde a grande renascença do seculo XVI até ao magnifico movimento do romantismo, têem enchido o mundo da arte, e da poesia, e da realidade, e da ficção, de obras primas sem conta e sem medida!...


De pequena tinham-me ensinado essa lingua tão clara, que milhares de artistas forjaram, bateram, cinzelaram, incrustaram de pedrarias coruscantes, esmaltaram de riquissimas côres, metal precioso feito de todos os metaes, e que tem qualidades de flexibilidade, de elegancia, de sonoridade, de harmonia, de colorido, e de pujança absolutamente incomparaveis e inimitaveis... De pequena tinham-me mettido nas mãos as obras primas dos seus genios mais brilhantes, e eu sentia-me no intimo da minha alma mais franceza ás vezes do que propriamente peninsular.


Ah! mas que melancholico foi o despertar do meu ambicioso, do meu doido sonho!...


Atravessei, com uma rapidez que me deixou confusa e palpitante, o Paris da minha evocação de vidente; estavam mortos os amigos que me tinham alimentado com a medula do seu cerebro, ou com o leite da sua poesia, e, vivos que fossem, alli perto d'elles, na atmosphera em que elles tinham respirado, nas ruas em que elles tinham morado, no scenario que elles enchiam do seu nome é que eu, pela primeira vez, ia sentil-os longe, muito longe de mim, na incommensuravel distancia moral, que a proximidade physica revelava de repente ao meu chimerico espirito de sonhadora!



Senti então o que nunca julguei que sentiria n'esse paiz que eu reputava positivamente a patria do meu espirito! Senti uma nostalgia tão violenta, tão dolorosa, que pensei morrer d'ella! Uma especie de desaggregação intellectual, que deve ter nome na pathologia do cerebro, mas que eu não sei scientificamente classificar—o que de resto não admira nada!


Esqueci-me do que aprendera, fiquei-me em uma especie de assombro mudo, em que a saudade de Portugal punha uma nota alanceadora, torturante.


O que os livros me tinham revelado foi como que varrido da minha memoria; os sonhos que eu tinha edificado sobre a minha vinda a Paris, desmoronaram-se em uma especie de estranho cataclysmo, e percorri a linda capital da Europa civilisada, não como uma pessoa que de antemão, e por muito os ter visto descriptos, conhecesse os seus encantos, as suas bellezas soberanas, os filtros subtis que do seu pavé de bois se exhalam de envolta com o cheiro penetrante da terra sempre humida e sempre regada, a festa perenne das suas ruas e avenidas onde a miseria não vem pôr a sua mancha livida, onde perpassa uma multidão sempre garrida e sempre feliz, a perfeição nos seus theatros, a perversa poesia das suas canções fim de seculo, a tenra verdura das suas arvores, tão bem cuidadas que parece que de manhã cedo as lava todos os dias, a esponja e sabonete, um exercito de invisiveis jardineiros, a lindeza da sua luz que á tarde se faz de um cinzento roseo como o das paizagens de Corot, tão inexprimivelmente bellas... mas como um ser inteiramente novo às impressões da vida extra-civilisada e que d'ella recebesse uma especie de choque estupidificante!


Através de tudo, o que eu sentia vivo, absorvente como um cauchemar, era a saudade do meu paiz, da minha Lisboa das sete collinas, construida em amphitheatro, sobre o Tejo amplo e azul, da bonhomia d'este nosso viver um pouco provinciano, pacato apesar do ridiculo de parodia involuntaria que ás vezes o desfigura e o desnacionalisa, da familiaridade com que todos nos conhecemos, nos amamos através do debique permanente, em que andamos uns a respeito dos outros, da tranquillidade um tanto adormecida do nosso espirito, do amor da casa que distingue todo o bom lisboeta, da ausencia de ambição que, exceptuando as alturas procellosas da politica, imprime o seu cunho esterilisador, mas calmante, em todas as nossas almas serenas...


A lingua então, a musica da lingua patria, fazia-me uma falta dolorosa. Tinha sêde de ouvir falar portuguez!


E preferia aos divertimentos que a engenhosa amabilidade do meu querido hospedeiro me proporcionava, e ás excursões artisticas em que elle era um cicerone incomparavel, instruidissimo, raffiné, cheio de idéas originaes e suggestivas, as tranquillas e doces noites passadas em Neuilly, na luz discreta da lampada Carcel, que um quebra-luz côr de rosa fazia mais acariciadora e mais suave, e onde a familia adoravelmente intelligente, e inolvidavel para mim, de um escriptor portuguez, que é um artista da mais pura raça intellectual e da mais ampla envergadura de engenho, me fazia uma especie de pequenina patria. Alli a conversa tinha o tom preguiçoso da nossa conversa, os gostos combinavam-se com os meus gostos, os nossos geitos especiaes de portuguezas manifestavam-se a cada instante, e o que a graça feminil de umas combinada com o genio nervoso e original de outros podiam dar de delicioso ao meu espirito, harmonisavam-se para me fazer esquecer a patria, os filhos, os outros amigos ausentes!


Nem sabem—n'esse ideal cantinho do mundo onde vivem, um pouco alheados da civilisação babylonica que os aperta, os cinge e os invade ás vezes—elle, o artista laborioso e apaixonado mettido no seu trabalho austero e impeccavel, como um monge na sua cella estreita, ellas, as duas encantadoras irmãs, envoltas na grinalda viva de lindissimas flôres humanas, que são para uma tudo, e quasi tudo para o coração instinctivamente maternal da outra,—nem sabem o bem que me fizeram n'uma d'estas crises absurdas que só os nervosos conhecem e das quaes o mundo estupidamente ri!


Foi ahi sobretudo que eu, curada d'aquella violenta nostalgia que ameaçava inutilisar inteiramente o resultado moral da minha viagem, reaprendi a gosar Paris, não já o meu Paris ideal, especie de babylonia construida em nuvens, mas o Paris verdadeiro, o Paris real, tal como elle lentamente me foi sendo revelado pelo intelligente cicerone que eu tive a fortuna de ter no meu divagar de touriste.




III

Índice de conteúdo

Folheio ao acaso as notas escriptas a correr, na rapidez da minha viagem, e transcrevo-as para aqui, na sua sinceridade frisante.

É, de resto, o unico merito que hoje podem ter as notas de viagem, o temperamento pessoal do artista que viu, através das impressões que a sua visão lhe deu. Mais nada. Tudo está dito, e não ha quem acorde uma emoção nova, na alma do leitor blasé pelo conhecimento da obra dos grandes artistas que viajaram. O proprio Bourget, que é um mestre, cujo unico defeito é ter vindo um pouco tarde, depois de muitos outros, está reduzido a chamar Sensações de Italia ao seu livro encantador de viagem na terra classica da Arte. As sensações que a Italia lhe deu a elle, eis unicamente o que o delicado escriptor se atreve a contar, certo de que toda a essencia de poesia que d'esse maravilhoso e fecundo solo se pode extrahir, outros a extrahiram antes d'elle por lá ter passado.

A minha unica desculpa vem a ser esta: costumada a contar n'este mesmo logar as impressões colhidas na leitura dos livros, porque me não atreverei a completar, a ampliar, a desenvolver essas impressões livrescas com outras colhidas em diversos ramos de arte; mais directas, mais reaes?...

—Acabo de sahir do Louvre, onde fui visitar as galerias da esculptura e principalmente essa sala entre todas privilegiada e bemdita, onde a Venus victoriosa, a Venus de Milo, esplende na sua sagrada formosura.

Chamava-me de longe, como um sortilegio poderoso exercido pelo Bello, essa figura que eu tinha mil vezes visto em reproducções, em estampas, em photographias, que me tinham dito ser a suprema divinisação do corpo feminino, e que eu ia pela primeira vez contemplar na sua genuina pureza marmorea.

A minha impressão, comquanto profunda, tem o seu quê de incerto e duvidoso. Porque? Será porque a Venus não realisou o sonho que eu fizera da perfeição ideal dos seus contornos e das suas linhas? Não. Ella é realmente a belleza augusta, sobrehumana, ideal, como a proclamam unanimes os que a tem visto e julgado.

Mas é que eu não tenho em mim enraizado como uma religião da infancia, fazendo corpo com as minhas crenças, idéas e sentimentos, esse culto da belleza physica que foi a feição primacial da civilisação dos gregos.

Para mim um corpo divino é uma expressão litteraria, não é um dogma de esthetica instinctiva.

Por isso, através da bella estatua procuro adivinhar, nas suas linhas mais geraes, a extincta civilisação que ella representa, de que ella é como que o remate e a flôr!

Como Taine diz tão bem, «todas as grandes cousas um pouco remotas correspondem a sentimentos que já não temos.»

Precisamos de os reconstruir pela reflexão; e como ainda os menos profundamente instruidos têem uma educação cosmopolita e multipla, em que umas poucas de concepções de arte se ajustam e sobrepõem, como nós temos, adquirida laboriosamente, ou bebida no ar que respiramos e nas rapidas leituras que fazemos, uma noção, profunda ou elementar, de cada uma das civilisações que antecederam a nossa, acabamos depois de algum tempo de meditação por comprehender, com o espirito, não com a alma, o sentimento que inspirou a obra de arte que estamos contemplando um pouco inintelligentemente.

O snobismo artistico consiste em fingir que se entende tudo á primeira vista, mesmo as cousas mais avêssas ao nosso temperamento individual ou nacional. Evitar esse snobismo a todo o custo, deve ser o decidido empenho de qualquer espirito honesto e sincero.

A Venus é, mesmo para o simples profano, uma esplendida revelação de arte? É, de certo.

Não póde um corpo feminino ondular em linhas mais puras, não póde a branca flôr do marmore palpitar com mais intensa vida.

Pela graça magestosa da sua mutilada attitude (que fazia ella quando tinha os seus divinos braços, perguntam debalde os criticos especiaes da arte grega!), pela serenidade ineffavel da sua posição, pela harmonia absoluta das suas linhas esculpturaes, pelo rythmo inspirador do seu corpo marmoreo,—a Venus de Milo, brotada do cinzel de desconhecido artista, na hora mais feliz da arte da Grecia, logo depois de Phidias lhe haver imprimido o sello supremo de sua grandeza, antes do escopro de Praxiteles a haver impregnado de uma languida graça voluptuosa, de um sensualismo requintado e enervante, que decahe mais tarde na imitação anti-esthetica da Natureza, nos realismos da polychromia, na extincção final do gosto e do puro ideal artistico: a Venus de Milo merece ser considerada, como diz Paulo de Saint Victor, aquella Eterna Belleza que Platão adorava, a Venus victrix cujo nome Cesar dava por senha aos seus soldados na vespera de Pharsalia, e em todo o caso a mais bella interpretação, que os modernos possuem d'esse feminino eterno que a Grecia tanto amou, que no mundo historico ella foi a primeira a amar, e cujo culto poetico e sensual traduziu nos seus mythos divinos, nos seus ritos magnificos, na sua arte incomparavel...

Comtudo, nós sómente possuimos truncados restos, fragmentos secundarios da esculptura grega e não somos capazes, senão por dilettantismo e por curiosidade intellectual, de comprehender bem o culto apaixonado que ao corpo humano foi consagrado pela Grecia.

É necessario avistar ao menos de longe essa raça simples, viril, intelligente e bella, que foi de todas as raças a unica que poz a sua concepção da felicidade humana em perfeito accordo com a sua concepção das leis do Universo, que á realisação positiva de todos os seus instinctos chamou Virtude, e á encarnação de todos os impulsos naturalistas deu o nome de deuses; que tendeu ao aperfeiçoamento, e ao desenvolvimento pleno da natureza humana na sua constituição politica, no seu organismo social, nos seus costumes, na sua arte, na sua religião; que fez deuses á similhança dos homens para os poder amar, e que, chegada ao ponto culminante da sua perfeição artistica, esculpiu homens á similhança de deuses para lhes render culto...

Que nos importa hoje, a não ser como exercicio d'arte, a belleza ideal de um corpo de homem ou de um corpo de mulher?

Para nós a belleza tem outras regras bem mais complicadas, bem mais subtis, e tão difficil nos é conceber um corpo sem defeito, movendo-se na plena graça e na plena liberdade da sua harmonia muscular, como seria á Grecia conceber o nosso moderno ideal do bello, todo em expressão, com a alma atormentada e complexa que se revela principalmente através do gesto, através do olhar, através da physionomia ardente e devastada...

Para a Grecia, porém, habituada a realisar a perfeição, não sómente no marmore, que isso veiu mais tarde como complemento e como resultado, senão na propria carne humana, e que seguia todos os processos pelos quaes uma raça de homens se desenvolve, se robustece, se apura, se requinta, até poder attingir a belleza suprema: que empregava não só a eliminação systematica de todos os productos defeituosos, não só o cruzamento forçado dos fortes e das bellas, mas tambem os exercicios permanentes da força, e da graça robusta e livre, nos jogos do gymnasio, na orchestrica, nas dansas guerreiras ou sacerdotaes, na educação, emfim, do corpo levada ás mais minuciosas praticas que podem depurar-lhe as formas e desenvolver-lhe as latentes energias—para a Grecia a belleza physica é mais que uma virtude, é uma condição absoluta da vida nacional.

Sem belleza, isto é, sem harmonia, não ha força; sem força como é que a pequena Grecia venceria a poderosa Persia? Como é que ella chegaria a ser o nucleo de extraordinaria civilisação, de que ainda hoje, apesar de trinta seculos de mutilações continuas, a nossa alma se alimenta, nutre e revigora?

IV

Índice de conteúdo

Mas quem nos diz a nós que a Venus de Milo, objecto de uma ardente e justa admiração entre os modernos, não fosse no fim de contas uma estatua vulgar no seu tempo?

Os grandes esculptores gregos, aquelles cuja chronologia e cuja historia chegaram até nós, descobertas pela paciente erudição, em alguns fragmentos de Plinio, de Pausanias, de Cicero, de Quintiliano, não faziam as suas obras mais preciosas senão em ouro, em prata, em marfim, em materias firmes bem mais raras que o paros e o pentelico, de que hoje se guardam nos museus os torsos mutilados, os fragmentos soltos, as reconstituidas estatuas.

Ao pé do que se sumiu d'essa sublime estatuaria grega, flôr suprema d'aquella civilisação de athletas, de gymnastas, de oradores e de heróes, quantas attitudes para a «esculptura»! O que resta vale bem pouco, e representa apenas como documento de uma éra extincta.

Mas pelo que resta, nós sabemos que o corpo bello, viril, robusto e são, movendo-se livremente sob a claridade azul de um céo sem manchas, era o ideal artistico d'esse povo que, mais feliz que nenhum outro, traduziu integro e immaculado o seu sonho da vida, e—para quem é a vida, mais que um sonho?—na religião, na arte, na poesia, nas paginas luminosas de Homero, Eschylo e Platão, na fórma sublime da sua Acropole, ante a qual Renan soltou aquelle melancolico e sublime grito de amor, nas frisas e estatuas dos seus templos, nas ceremonias divinas e inspirativas do seu culto, que ora são castas como a longa procissão das Panatheneas, ora são soberbas de força e de pujança animal como as dansas e os jogos de ephebos nús...

A Grecia amou a sobriedade, a correcção, a graça e a força.

E depois de percorrer um periodo longo e o progressivo da iniciação, chegou ao ponto de combinar e fundir os extremos mais oppostos n'aquella completa harmonia, que só uma vez se realisou na terra e que não torna mais!

Que importa, porém, que não torne?

Bastou que apparecesse uma vez, que brilhasse sobre nós, astro longinquo e puro hoje apagado e de que ainda vêmos o reflexo calmo, para que o mundo ficasse eternamente ungido d'aquella graça mysteriosa, d'aquelle divino atticismo que em alguns raros eleitos resplandece e de que todos temos o presentimento, a sêde, ou a avidez!

Por isso Renan, a alma mais accessivel á influencia do bello de que talvez possa ufanar-se o nosso tempo, dizia no alto da Acropole estas palavras que traduzem um sentir universal que até alli não achára expressão condigna:

—«Ó Natureza impeccavel! Oh! simples e verdadeira Belleza! Deusa cujo culto significa sabedoria e razão! oh! tu cujo templo é uma lição eterna de sinceridade e consciencia! chego bem tarde aos umbraes dos teus mysterios; venho ao teu altar cheio de remorsos! Para te encontrar, que infinito esforço eu fiz!

«A iniciação que, n'um sorriso, davas ao atheniense na primeira infancia, só á força de reflexões e de esforços eu pôde conquistal-a!

«Tu só és moça! tu só és pura! tu só és sã! tu só és invencivel!»

Um outro critico profundo, que estudou a Grecia com o amor com que se estuda a civilisação-mãe, de que todas mais ou menos dependeram depois, diz que no caracter nacional d'essa raça se discriminam claramente os tres traços fundamentaes que constituem a intelligencia de um artista.

Estes tres traços são a delicadeza da percepção, a necessidade absoluta da clareza e o amor e culto da vida presente.

O primeiro d'esses traços permittiu-lhes perceber as relações secretas das cousas, deu-lhes o sentimento fino e raro das nuances, e a suprema aptidão para construirem conjunctos de fórmas, de seres e de côres, combinações de circumstancias e de elementos tão bem ligados entre si e por tão estreita identidade de relações, que a sua creação de arte foi tão viva que excedeu no mundo imaginario a harmonia preestabelecida no mundo real e verdadeiro.

Ao segundo deveram o sentimento da proporção que possuiram como nenhum outro povo, o odio ao vago e ao abstracto, o desdem pelo monstruoso e pelo enorme,—que é a marca distinctiva do Oriente, do qual elles só aproveitaram o bom,—o gosto dos contornos firmes e precisos. O amor e o culto da vida presente bem o revelaram na sua religião sem mysterio e sem au delá, na sua paixão pela belleza plastica, na sua sêde de serenidade e de alegria, no seu antagonismo ingenito com a doença, com as miserias physicas ou moraes, no seu encantamento absoluto, e que é para nós immoral mas que para elles o não era, deante do corpo nú, representação suprema da força, da graça, da saude e da belleza...

Uma raça tão maravilhosamente dotada, idealista e positiva a um tempo, tinha por força de traduzir-se no esplendor das artes plasticas.

O espectaculo permanente dos bellos corpos nús, ou envoltos lassamente na elegante e longa tunica que na altura do joelho se duplica e cahe sobre os pés em pregas esculpturaes de inimitavel graça, a contemplação habitual d'essa raça que se distingue pela nobreza simples das attitudes, pela perfeição athletica da fórma, pela serenidade do aspecto que as nossas mesquinhas ambições ou o nosso devastador pensamento não tinham convulsionado,—tudo devia naturalmente produzir, pelo pendor imitativo que caracterisa o espirito do homem, a maravilhosa floração de artistas sublimes que ao principio tentaram e depois conseguiram libertar a noção do bello da estreita prisão que o cingia e apertava, fixar no marmore, no ouro, no marfim e no bronze a soberba visão da força militante ou graça ingenua e pura!

Como é interessante seguir a evolução da arte grega desde o ponto em que ella parece ainda pedir á inspiração hieratica do Egypto o molde incorrecto que a liga e mumifica, até a hora em que Praxiteles arranca do marmore a sua Venus de Gnido, de que a Anthologia canta assim a voluptuosa formosura:

«Cythera trazida pelas ondas foi a Gnido admirar a propria imagem, e após longa contemplação falou d'est'arte: Onde é que Praxiteles me viu sem véos?... Não, Praxiteles não ousou violar-te com olhar sacrilego. O que elle fez foi representar-te com o cinzel qual te havia sonhado!»

Ao principio, a architectura e a estatuaria, estreitamente unidas, pareciam identificadas e inseparaveis; mas quando a estatuaria se emancipou, não foram sómente as frisas e os baixos relevos dos templos, as colossaes effigies da «cella» interior, que captivaram e deslumbraram o olhar do povo grego, foram as soberbas figuras erguidas ao ar livre, a Athenêa colossal de Phidias, a Sosandra de Kalamis, as mulheres de Carya, a Artémis divina em volta de cuja estatua as virgens da Lacedemonia vêm tecer annualmente as suas dansas rituaes!

Desappareceu o ingenuo symbolismo primitivo, que representava cada divindade com os attributos do seu poder, ou com os accessorios significativos das transformações naturaes de que ellas todas eram a concreta imagem; agora o que se revela ao fanatismo de belleza que palpita na alma grega, são divinos corpos de mulheres em toda a magnifica pujança da sua belleza creadora, em toda a graça adoravel da sua feminina poesia.

V

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A estatua deante da qual eu acabo de passar algum tempo, pedindo-lhe o segredo do perdido Ideal que ella traduz, representa, como eu já disse, esse momento fugitivo e bello da vida grega.

Esculpiu-a um desconhecido artista: mas não são totalmente desconhecidos tambem para nós, os pobres oleiros que amassaram e modelaram as lindas estatuas encontradas nos tumulos de Tanagra e não são tambem ellas a poesia, o encanto, o velado mysterio, a ineffavel graça?

Falando d'ella, diz Paulo de Saint Victor: «Oh! bemdito seja o camponez grego, cuja enxada exhumou a deusa enterrada ha dois mil annos em uma leiva de trigo!... Graças a elle, a idéa do Bello ascendeu mais um gráu sublime, o mundo plastico encontrou a sua Rainha!... A belleza ondula d'essa cabeça divina e espraia-se em todo o corpo como uma luz!... Só a lingua de Homero e de Sophocles seria digna de celebrar tão regia Venus! Sómente a amplidão do rythmo hellenico poderia moldar, sem deslustral-as, fórmas tão perfeitas!

«Por que palavras exprimir a magestade d'esse marmore triplamente sagrado, a attracção mesclada de assombro que elle inspira, o ideal supremo e ingenuo que revela?»

E Theophile Gauthier, descrevendo-a, diz assim:

«A fronte soberba, de linhas curvas, cingida pelas bandelettes do penteado, é tal qual a podiamos sonhar para séde de uma alma divina; o collo direito e firme lembra o fuste de uma columna dorica, o seio de virgindade eterna é digno de servir de modelo, como o de Helena, para a taça dos altares!»

E, no emtanto, essa bella e pequenina cabeça, que uma graça ideal nimba eternamente, não é tal como elle diz, séde de uma alma divina. A Venus de Milo não pensa. N'aquella branca flôr marmorea uma alma vegetativa sonha e dorme! Que sabe ella da Vida e das suas longas tragedias, que sulcam de rugas profundas a fronte pallida das mulheres, que contorcem em ancias, indomitas como o Oceano, a alma dos homens?

Quem lhe revelou, a ella, o segredo das nossas paixões que devastam, das nossas luctas que ou disvirilisam ou depravam, das contradicções medonhas de que erriçamos o nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos debaixo dos nossos cançados pés? Que presentimento sequer tem ella—a deusa inalteravel e serena—de tudo que a engenhosa imaginação dos que vieram depois—deuses e homens—inventou para se torturarem e nos torturarem?

Os dois mil annos que temos a pesar-nos sobre a cabeça e sobre o peito, passou-os ella ignorante e tranquilla sob a terra da Grecia.

O que ella representa é um momento risonho e curto da existencia humana; um momento em que tudo é bello e harmonioso na terra e no céo, em que, para imitar os deuses que crearam, os homens não precisam de deixar mutilar as suas energias mais vivas, os seus instinctos mais naturaes; um momento em que o amor é sagrado e puro como a fonte inexgotavel dos sêres, e como tal tem culto e tem altares; um momento em que a Natureza é benevola e sã, e em que da espuma dos mares da Jonia póde brotar a flôr maravilhosa da eterna belleza, em que a inconstancia das ondas, a perfida doçura das sereias, o abysmo glauco, que tem no fundo grutas de esmeralda collaboram em uma obra divina e produzem um symbolo immortal...

Que differença d'essa concepção propria á esculptura antiga e a nossa de hoje, tão fundamentalmente opposta nos fins e nos processos!

E no emtanto a estatuaria franceza representa no seculo XIX um momento glorioso da historia da arte! Mas desenganem-se. Póde a estatuaria franceza moderna revelar um grande talento da parte de quatro ou cinco ou mesmo mais individuos; não é, não pode já ser uma necessidade, uma aspiração da raça, universal e irreductivel!

É um esforço de talento individual, não é o rebento vigoroso e vivaz em que desabrocha finalmente a alma de um povo!

Depois da minha visita incompleta, mas cheia de interesse, ás galerias da antiguidade classica, fui ao Luxemburgo vêr as estatuas francezas modernas, e procurei, nos monumentos erguidos aqui ou alli, á memoria de um artista querido ou de uma gloria nacional, o sello, a marca, pelos quaes uma arte revela as intimas fibras de que é feita.

Vi corpos de mulher verdadeiramente encantadores! O marmore, branco de mais, tinha a fluidez da carne tenra sob a qual o sangue, púrpura viva, circúla rico e livre, mas pareceu-me que a preoccupação da expressão dominava absolutamente os artistas e que elles tinham quasi todos perdido o segredo em virtude do qual um corpo humano, masculino ou feminino, interessa por si só, pela harmonia das suas proporções, pela liberdade com que jogam os seus musculos, pelo rythmo mysterioso de cada uma das suas linhas.

E voltei d'essa peregrinação artistica sempre mais convencida, de que a esculptura é talvez a mais bella das artes, mas a que está em menos harmonia intima com o nosso ideal da vida!

Que temos nós feito em um longo esforço de dezenove seculos, apenas interrompido pelo movimento artificial, erudito e artistico, mas não popular da Renascença?

Temos contrariado pertinazmente a acção da Natureza sobre os nossos gostos, instinctos e paixões. O que é o christianismo na sua essencia philosophica e na sua influencia social? Uma reacção violenta e permanente contra essa noção pagã da existencia que fazia d'ella uma festa perenne e magnifica; que fazia do corpo humano alguma cousa de sagrado e de inviolavel, que tudo devia tender a satisfazer e a servir; que fazia dos instinctos naturalistas da nossa especie a lei suprema a que céo e terra se subordinassem, pois que os deuses para serem amados deviam ter e tinham as paixões que hoje fazem os homens criminosos.

O animal humano era realmente então o rei da creação, mas nenhuma das suas forças enfraquecera ou diminuira, nenhuma das suas energias fôra mutilada, nenhum dos seus instinctos domados, e elle movia-se livre, feliz, triumphante e bello, em uma atmosphera de apotheose, que nenhuma sombra vinha sinistramente obumbrar.

A antiguidade grega não é uma orgia, porque a orgia precisa de ter por fundo a consciencia do peccado, e a Grecia em tudo que fez de peccaminoso e de immoral aos nossos olhos, não violou nenhuma lei divina, não foi de encontro a nenhum preceito dogmatico; pelo contrario, obedecendo ao seu instincto, obedeceu á sua religião.

D'esta harmonia entre a lei moral, que então não existia senão rudimentar, e a realidade physica, vem a sua immensa felicidade e o encanto incomparavel da sua civilisação.

Para o christianismo, pelo contrario, o corpo é o involucro, amaldiçoado as mais das vezes, de paixões condemnaveis, de instinctos que é necessario a todo o custo dominar, subjugar, vencer.

Não é impunemente que a especie humana tem vivido acurvada durante longos seculos a este jugo incomportavel.

Resente-se d'elles até a revolta dos atheus.

Por isso a nossa concepção da belleza physica, partindo de outras fontes mais profundas e mais turvas, não podia ter nunca a incomparavel claridade que tem o ideal grego. Os esculptores, que conservam na sua alma o cunho indelevel que alli tem imprimido a civilisação christã, á belleza do corpo humano prendem fatalmente considerações de ordem complexa que não influenciaram a estatuaria antiga.

As mulheres teem a attitude languida de peccadoras nuas, a carne, que o marmore quer fingir, e que tem d'ella ás vezes a flexibilidade, a macieza, a vibratil poesia, tem tambem palpitações e solicitações voluptuosas que a grave e simples belleza nunca deve suggerir aos que a contemplam e que não suggeria aos contemporaneos de Phidias!

Isto não quer dizer que desde a antiguidade a esculptura seja uma arte morta. E seria realmente sacrilego que tal avançasse, quem viu curvada, em religioso assombro, a reproducção fiel d'essa Noite de Miguel Angelo, de uma tristeza tão tragica e sublime, e o grandioso Moysés de biblica magestade incomparavel, e o Penseroso, e o San Jorge do Donatello, cuja nobre attitude altiva faz passar um calafrio de admiração pelos nervos ainda mais resistentes.

Mas quer dizer que a estatuaria é hoje uma arte destinada a satisfazer, não a alma collectiva das multidões, mas o espirito culto dos dilettanti e dos artistas; uma arte em que o genio individual póde manifestar-se sublimemente e lá está a Porta de Bronze que Rodin anda esculpindo que o diga, e lá estão os tumulos de Barrias, e lá está o baixo relevo de Rude, e lá estão as innumeras estatuas, os innumeros monumentos que enchem as praças e os museus affirmando que a França d'este seculo possue uma intensa vitalidade artistica que a honra a deve encher de justo orgulho. O proprio Falguière, um pouco amaneirado como é, e dando ao marmore palpitações sensuaes e lubrica languidez, lá tem no monumento erguido na Escola das Bellas-Artes a Henri Regnault uma figura de mulher deliciosa e viva, que faz estremecer de goso o verdadeiro artista, isto para não fallarmos na sua formosa Diana por quem consta que morreu de amor um pobre hysterico, dos muitos que andam enchendo este triste mundo com o espectaculo das suas perversões morbidas!

A arte moderna, a que inspira a todas as almas de hoje o mesmo spasmo de agonisante prazer, é a musica. Essa sim, que é para nós o que a estatuaria pura, augusta e simples foi para os athenienses, o que a architectura gothica foi para as torturadas almas idealistas da idade media, o que a pintura foi para os renascidos pagãos da Renascença italiana, ébrios de côr, de luz, de vida. Essa sim, que é de nós todos, e que nos faz vibrar, chorar, soffrer, e nos consola e nos tortura, e nos arranca a nós mesmos e nos leva ao Inferno e ao Céo.

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Litresdə buraxılış tarixi:
11 oktyabr 2024
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4064066409944
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