Kitabı oxu: «Uma esposa para o príncipe»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
© 2019 Maya Blake
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Uma esposa para o príncipe, n.º 1847 - janeiro 2021
Título original: Crown Prince’s Bought Bride
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-247-1
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Epílogo
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Capítulo 1
Remirez Alexander Montegova, príncipe herdeiro de Montegova, parou à frente da imponente porta e levantou o punho, tão gelado quanto o resto do seu corpo.
Quem o conhecesse ficaria surpreendido com tão estranha hesitação. Desde a infância que era celebrado pela sua temeridade, pela sua valentia. Todos o viam como um líder que um dia conseguiria para o seu país muito mais do que qualquer um dos seus antepassados.
Mas ali estava ele, acobardado à frente de uma porta.
Obviamente, não era uma porta qualquer. Era o portal para o seu destino. Por mais pretensiosas que parecessem estas palavras, isso não as tornava menos verdadeiras.
Tinha temido aquele dia.
A verdade era que não queria entrar. Não queria enfrentar a mãe, a rainha, porque o instinto dizia-lhe que quando saísse de ali não seria a mesma pessoa.
Claro que nunca tinha sido dono de si mesmo. Ele pertencia à história de Montegova, ao destino forjado pelos guerreiros que tinham lutado em sangrentas batalhas para criarem aquele reino do Mediterrâneo Ocidental.
«Dever» e «destino». As duas palavras estavam gravadas a fogo na sua alma.
– Sua Alteza? – murmurou o empregado. – Sua Majestade está à sua espera.
Remi sabia-o. E o telefonema daquela manhã fora imperioso.
A sua mãe exigira a sua presença às nove em ponto e o antigo relógio de ouro num dos muitos corredores do palácio real de Montegova anunciou solenemente que estava quase atrasado.
Deixando escapar um suspiro de resignação, Remi bateu à imponente porta e esperou a ordem de entrar.
Esta chegou logo de seguida, enérgica e firme, mas envolta numa capa de inegável afeto.
A voz refletia fielmente a mulher que estava sentada na cadeira que parecia um trono, sob o escudo das armas da casa real de Montegova.
A rainha fez um gesto de aprovação quando ele inclinou respeitosamente a cabeça antes de se sentar à frente dela.
– Perguntava-me quanto tempo irias ficar à porta. Tens realmente assim tanto medo de mim? – perguntou-lhe, com um brilho de pesar nos olhos.
Remi observou a mãe para ver se, por uma vez, o seu instinto estava enganado. Mas o perfeito penteado, a impecável maquilhagem, o clássico fato Chanel e o broche de esmeraldas e diamantes com as cores da bandeira de Montegova deixavam claro que aquela reunião era exatamente o que tinha suspeitado que era.
O machado estava prestes a cair.
– Não tenho medo de ti, mas suspeito que esta reunião não me vai fazer saltar de alegria.
A mãe franziu os lábios antes de erguer-se. Era uma mulher alta, impressionante, que chamaria as atenções mesmo que não fosse a rainha de Montegova. Antes de tornar-se rainha tinha ganhado vários concursos de beleza e, quando se dignava a sorrir, o seu sorriso podia deixar qualquer homem sem fôlego. Remi sabia-o por experiência própria.
O seu cabelo, que se tinha tornado grisalho quase da noite para o dia dez anos antes, depois da morte do seu pai, fora outrora tão escuro quanto o dele, mas ela carregava esse sinal visível de dor com a mesma força com que tinha evitado que o reino caísse no caos após a repentina morte do rei e o escândalo que se seguiu. Aos vinte e três anos, Remi era demasiado jovem para subir ao trono, por isso a sua mãe tinha ocupado o cargo como regente. Ele devia ser coroado um dia depois de fazer trinta anos, mas tinham sofrido uma nova tragédia que obrigara a mudar o plano.
A mãe apoiou as mãos sobre a polida superfície da secretária e olhou-o nos olhos.
– Chegou a hora, Remirez.
Remi fez um esgar. A sua mãe não costumava tratá-lo pelo seu nome próprio completo. Em pequeno, isso nunca era bom sinal e continuava a não o ser.
Incapaz de permanecer sentado, levantou-se e andou de um lado para o outro frente à secretária.
– Quanto tempo tenho? Semanas, meses?
Não podiam ser anos. Já lhe tinha dado dois anos e, ultimamente, passara a ideia de que era altura de esquecer e seguir em frente.
– Gostaria de anunciar a minha renúncia ao trono durante o próximo festival do solstício – disse a mãe. Na terceira semana de junho.
– Dentro de três meses – murmurou Remi.
A realidade foi como um balde de água fria.
– E isso significa que temos pouco tempo. Temos de ter tudo em ordem antes de fazer os anúncios reais.
– Anúncios, no plural?
– Não vou renunciar apenas ao trono, Remi. Também me vou demitir dos meus deveres oficiais durante algum tempo.
Isadora Montegova não era só a rainha, também era membro do Parlamento.
– Vais renunciar? Porquê?
– Os últimos anos têm sido muito difíceis para mim e preciso… de afastar-me um pouco de tudo.
Se alguém tinha direito a retirar-se por algum tempo era a sua mãe, que não só tinha suportado estoicamente a repentina morte do esposo, como o escândalo que se seguiu ao descobrir-se o segredo que ele tinha guardado durante décadas.
Mas, na intimidade, Remi tinha visto quanto isso a magoava. E ele mal tinha conseguira controlar a fúria ao descobrir que o pai que adorava fora infiel. Com o passar dos anos a ira transformara-se num surdo ressentimento, mas nunca desaparecera. Porque, além do mal que causara à mãe, a descoberta provocara o caos e a confusão no reino durante anos. Uns anos muito difíceis para a sua mãe, para ele e para Zak, o seu irmão mais novo.
Segredos e mentiras. Aí estava um cliché que só se percebe quando nos acontece a nós e toda a gente fica a saber.
– E isso leva-me ao problema seguinte – disse a rainha então, agarrando numa pasta que deslizou pela secretária.
E ali, real e palpável, estava o mais recente motivo da angústia da sua mãe.
Jules Montegova.
O rude meio-irmão que lhes tinha sido apresentado momentos após o enterro do seu pai. Um adolescente, na altura, um jovem de vinte e oito anos agora, resultado de uma aventura ilícita do seu pai enquanto estava em Paris em funções diplomáticas. A paternidade fora provada graças a um discreto teste de ADN.
Jules era o escândalo que quase levara à queda da monarquia de Montegova. Os paparazzi tinham andado como loucos, tentando descobrir mais segredos.
O escândalo teria sido mais suportável se Jules não tivesse sido uma constante aflição desde que chegara a Montegova dez anos antes.
Remi olhou para fotografia e apertou os dentes ao ver os olhos vidrados e o aspeto desalinhado de bêbado.
– Que fez ele agora?
A rainha Isadora torceu os lábios.
– Deverias perguntar o que não tem feito. Há três semanas gastou uma fortuna em Monte Carlo, depois foi para Paris e continuou a jogar durante quatro dias. O tesoureiro de palácio ficou perplexo quando recebeu as faturas. Há dez dias apareceu em Barcelona e foi de penetra a uma festa que o duque Armando organizara para a sobrinha. Desde então está em Londres, e nos últimos dias em companhia desta mulher – disse a mãe, apontando para umas fotografias.
Em todas elas aparecia a mesma mulher, de cabelo loiro, pernas longas, brilhantes olhos verdes, lábios carnudos e um corpo de fazer parar o trânsito. Era impressionante. Com aquele sorriso poderia acender uma lâmpada de dez mil volts.
Mas havia muitas mulheres como ela no mundo de Remi, só aparência e nenhuma substância. Numa das fotografias exibia literalmente a roupa interior, como se não se importasse que o mundo inteiro pudesse ver a tanga de renda enquanto lançava os braços ao pescoço do seu meio-irmão.
Remi analisou-as, em silêncio. Olhou para o nariz respingão, os sensuais lábios, as maçãs do rosto elevadas, o delicado queixo, os ombros bronzeados e a atraente curva dos seus seios. Umas pernas intermináveis completavam o pacote.
Era fabulosa, pelo menos fisicamente, mas Remi tinha a certeza de que teria muitas falhas noutros aspetos. Exceto talvez em…
– Quem é? – perguntou, irritado com os seus próprios pensamentos. Que importava como fosse a fulana na cama?
A sua mãe voltou a sentar-se.
– Os detalhes estão na outra página. O resto continua a ser um pouco impreciso, mas já vi o suficiente para saber que é um problema. Para começar, Jules não costuma ficar num lugar mais do que alguns dias e está há duas semanas em Londres. E, desgraçadamente, estas são as fotografias menos ofensivas. O que há entre eles tem de terminar agora mesmo, mas Jules recusa-se a voltar para Montegova – a rainha deixou escapar um suspiro. – Não sei como, mas tenho de encontrar uma maneira de o meter na ordem.
Remi olhou para a última página do relatório, a descrição da mulher que acompanhava ultimamente o seu meio-irmão resumida em quatro linhas.
Madeleine Myers
Empregada de café
Vinte e quatro anos
Deixou a universidade sem terminar os estudos
– Queres que eu me encarregue disso? – perguntou-lhe.
Pelo bem do país, as palhaçadas do seu meio-irmão tinham de terminar.
– O Jules não tem interesse em ser membro da família real a não ser para ter entrada facilitada em casinos e festas, mas isto não pode continuar. Ele finge, mas eu sei que te respeita. Até diria que te receia. A ti, Remi, ele dará ouvidos. E tu és o único que pode resolver a situação discretamente – a rainha aclarou a garganta. – Não podemos permitir-nos outro escândalo quando estás prestes a anunciar o teu casamento.
Remi ficou sem fala durante uns segundos.
– O quê? – exclamou quando recuperou a voz.
– Não me olhes com essa cara de surpresa. Tu sabes que tens de casar, Remi. Ias fazê-lo há dois anos.
Remi experimentou uma mistura de dor, raiva, amargura e sentimento de culpa. A dor de perder um ser querido nunca desaparecia, como a raiva por uma vida terminada demasiado cedo, por todos os planos que nunca chegaram a bom termo. E a amargura pela crueldade do destino…
Tinha sido tudo culpa dele e agora tinha de carregar aquela pesada cruz.
– Serias rei e estarias casado se Celeste não tivesse morrido – disse a mãe.
Um lembrete desnecessário que levou Remi a cerrar os dentes.
– Sei isso muito bem, mãe – murmurou, num tom gelado. – Mas diz-me uma coisa, onde vou arranjar uma noiva em três meses?
A mãe abriu uma gaveta e tirou um papel.
– Ainda tenho a lista de candidatas que fizemos há cinco anos.
– Há cinco anos não me rebaixei a escolher uma esposa dessa lista feita por conselheiros e não penso fazê-lo agora.
– Mas desta vez não há tempo e talvez seja a melhor solução. Eu casei-me por amor, tu estiveste quase a casar-te com a escolhida do teu coração… e olha onde isso nos levou!
Remi observou a palidez da mãe sob a maquilhagem, as rugas de stress em redor dos olhos. Ele tinha-se encarregado de mais deveres oficiais no último ano, mas podia ver que o cargo de rainha também tinha sido cansativo para a sua mãe.
A coroa, temporária ou não, era realmente muito pesada. Uma coroa que em breve estaria na sua própria cabeça.
Mas antes que pudesse dizer algo, a sua mãe recuperou a compostura.
– Não vou ficar de braços cruzados a ver tudo o que ergui nos últimos dez anos a afundar-se só porque a tua sensibilidade não te permite cumprir o teu dever. Irás a Londres, separarás o teu meio-irmão dessa mulher e irás trazê-lo para casa. Depois escolherás uma noiva e anunciarás o teu casamento uma semana antes do festival do solstício. Durante o festival, fixaremos a data do casamento, que acontecerá três meses após o noivado. Assim terás seis meses para habituar-te à ideia.
– Mãe…
– Chegou a altura de ocupares o teu lugar no trono, Remirez. Sei que não me falharás.
Um minuto depois, Remi saía do escritório. E, como previra antes de entrar, tudo tinha mudado.
Mais cinco semanas.
Maddie Myers conteve o desejo de tirar o telemóvel para ver as horas e saber quanto tempo faltava para que aquele pesadelo terminasse.
Não deveria ter aceitado uma proposta tão absurda, mas as suas opções eram muito limitadas e, quando um luxuoso Lamborghini lhe bateu de lado e agravou as suas desgraças, fazendo-a deixar cair as compras que tinha pago com o último dinheiro que lhe restava, teve de aceitar que a situação era desesperada.
Por sorte, conseguira escapar do horrível incidente apenas com um par de hematomas, uma pontada de dor nas costelas e um braço dolorido.
Na verdade, tinha a certeza de que fora o susto de quase ter sido atropelada a levá-la a aceitar a proposta de Jules Montagne. Estava desesperada e quando o proprietário do Lamborghini lhe ofereceu uma solução para os seus problemas…
Nesse momento estava a pensar vender um dos seus rins, portanto aparecer-lhe um tipo cheio de dinheiro parecera-lhe uma resposta às suas preces. Embora ainda tivesse demorado quarenta e oito horas a aceitar a proposta. Provavelmente porque ele não tinha deixado claro o motivo por que precisava dela. Se aprendera algo na vida era a olhar antes de saltar; a confiança cega já não era um dos seus defeitos.
Tinha pensado que a sua mãe estaria presente para ajudar a família que ela mesma dilacerara. Tinha confiado no seu pai de cada vez que ele lhe dizia que tinha controlado os seus vícios. E Greg… esse fora o pior de todos.
Quando Jules Montagne lhe fizera um ultimato: «Sem fazer perguntas», o instinto dissera-lhe para sair a correr. Mas por muitas vezes que revisse a sua conta bancária ou procurasse entre os seus pertences com a esperança de encontrar algo que pudesse penhorar, o resultado era o mesmo.
Restava muito pouco tempo ao seu pai e não tinha outro remédio senão retribuir o telefonema de Jules. Naturalmente, a sua ajuda não era gratuita, por isso estava vestida como uma cara acompanhante, a ouvi-lo falar com o seu círculo de aristocratas enquanto bebiam litros de champanhe caríssimo na sala VIP de uma discoteca.
Maddie tinha deixado para trás a eterna questão de «porque é que a vida é tão injusta comigo» e, depois do abandono da mãe, também tinha deixado de pensar que tinha alguma esperança.
– Sorri! – incentivou-a Jules. – Olhas para o teu copo como se alguém tivesse morrido.
Ela esboçou um sorriso falso, contendo o desejo de começar a gritar. Não, ninguém tinha morrido, mas o homem que uma vez tinha sido o seu forte e orgulhoso pai, um homem agora tristemente abatido, morreria a não ser que ela interpretasse o seu papel e arrecadasse o pagamento prometido.
Setenta e cinco mil libras.
O custo exato da operação aos rins em França.
A quantia que Jules aceitara pagar-lhe se fingisse ser a sua noiva durante seis semanas.
Maddie levantou o olhar e deparou-se com os olhos metálicos do seu falso noivo, o homem que mal lhe dirigia a palavra quando se afastavam dos paparazzi que os perseguiam a cada momento.
– Sorri, chérie – insistiu Jules, com um brilho vítreo nos olhos, antes de continuar a conversar e a rir com os seus amigos.
Maddie exalou um suspiro de alívio, fazendo uma expressão de dor ao sentir uma pontada nas costelas, e perguntou-se se conseguiria sobreviver àquilo.
Na primeira vez em que que tinham saído juntos, um jornalista fizera perguntas sobre a família de Jules, especificamente o que pensava «a rainha» do seu comportamento. Maddie quisera saber a que se referia, mas Jules limitara-se a recordar-lhe a regra de não fazer perguntas.
Embora precisasse de dinheiro desesperadamente, a possibilidade de tornar-se membro de uma família real enervava-a e não tinha a intenção de responder às perguntas dos repórteres. Jules sugerira que levasse auriculares com a música no máximo e foi isso que decidiu fazer. Afinal, não poderia responder a perguntas que não tinha ouvido.
A sua aparente antipatia devia ter suscitado muitas críticas nas redes sociais, mas o lado positivo de ter vendido o seu computador portátil para comprar comida ou só usar telemóvel para chamadas de emergência permitia-lhe uma abençoada ignorância. Era melhor não saber o que diziam dela.
E, assim, ali estava, firmemente instalada no país das maravilhas, sem saber por que se fazia passar pela noiva de um homem bonito, caprichoso e talvez membro de uma família real que viajava com dois guarda-costas.
Jules pediu outra meia dúzia de garrafas de Dom Perignon e depois fez um gesto a um dos seus guarda-costas, com o qual desapareceu nas traseiras da discoteca.
A suspeita de ter-se aliado a um homem que tinha tomado o mesmo caminho que o seu pai foi suficiente para que se levantasse da cadeira. Não sabia o que faria se encontrasse Jules a tomar drogas, mas não conseguiria conter a raiva.
Estava no meio da sala quando um alvoroço à porta lhe chamou a atenção. Dois guarda-costas, mais altos e encorpados que os que seguiam Jules, afastaram as pessoas e Maddie ficou sem fôlego ao ver o homem que apareceu atrás deles.
Gelada, imóvel, estava certa de que o fumo artificial e as luzes da discoteca eram responsáveis pela sua imaginação ao fazê-la ver uma criatura tão magnífica assim à sua frente.
Mas não, era de carne e osso. E, a julgar pela autoridade com que se movia, e os guarda-costas que formaram uma barreira semicircular ao seu redor, tinha sangue real.
Havia algo de vagamente familiar nele, embora estivesse certa de nunca ter visto aquela mandíbula quadrada, aquelas maçãs do rosto altas e lábios tão sensuais. Uns olhos como prata derretida brilhavam sob umas sobrancelhas arqueadas enquanto abria caminho entre as pessoas.
Quando se aproximou, Maddie pensou que deveria afastar o olhar, não por vergonha ou incómodo, mas por instinto de sobrevivência. O desconhecido irradiava um estranho poder que a levava a afastar-se da sua órbita antes que ele a engolisse inteira. E, no entanto, não conseguia mover-se. Não conseguia deixar de olhar para o homem que se movia como um felino à caça. Totalmente magnético, hipnótico.
Quando se aproximou dela, o seu aroma, tão poderoso quanto o próprio homem, invadiu-lhe os sentidos. Cheirava a gelo e a terra, algo tão especial, tão único que poderia ter ficado ali a respirar durante uma eternidade.
– Onde está? – perguntou-lhe.
O seu tom altivo provocou-lhe um calafrio. Tinham baixado o volume da música e ouviu a sua voz profunda, com um toque de pronúncia. E soube que quando aquele homem falava não era em vão.
– A quem se refere?
– Ao homem com quem veio.
Jules apareceu então.
– Que fazes aqui? – perguntou-lhe, num tom de raiva, pânico e desafio.
E Maddie deu-se conta então de que o recém-chegado a conhecia, sabia que estava com Jules.
– Que achavas que ia acontecer quando te recusasses a responder aos nossos telefonemas? – atirou-lhe o desconhecido num tom gélido. – Pensavas que não iríamos intervir?
– Tu não…
– Não vou ter esta conversa aqui, enquanto tu estás nesse estado. Vai ao meu hotel amanhã de manhã, e então falaremos.
Cada frase era uma ordem que não admitia desacordo ou desobediência.
Jules endireitou as costas, olhando-o com ar de desafio.
– Pas possible. Tenho planos para amanhã.
O homem fulminou-o com o olhar.
– Segundo o teu assistente, a única coisa que tens para fazer é dormir para curares a ressaca. Espero-te na minha suíte às nove em ponto. Está claro?
Olharam-se durante uns segundos, em silêncio, e por fim Jules assentiu sob o olhar implacável daquele homem. O desconhecido virou a cabeça para ela e olhou-a de alto a baixo, desde o laço solto às sandálias de salto. O seu olhar parecia queimá-la e Maddie queria retroceder, afastar-se, mas havia algo de estranhamente hipnótico nos seus olhos que a mantinha imóvel.
– Viens, mon amour, vamos para casa – disse Jules então, dando-lhe o braço.
Maddie fez uma careta. Nunca a tinha chamado assim, nem nunca a tinha convidado para a sua casa. Em geral, quando saíam de algum clube ou restaurante, e os paparazzi perdiam interesse por eles, um dos seus guarda-costas metia-a num táxi.
– São duas da manhã e já bebeste o suficiente – disse o desconhecido. – Vai dormir. Eu encarregar-me-ei de que a menina Myers chegue a casa sã e salva.
– Achas que não vai para a minha casa – protestou Jules, com um brilho de raiva nos olhos. – Achas que não é minha noiva.
– E é? – perguntou o homem, cravando nela os seus olhos cinzentos.
– Essa não é a questão – respondeu Jules antes que Maddie pudesse dizer uma palavra.
– Ou é ou não é, responde à pergunta.
– Não vivemos juntos – disse Maddie por fim.
Jules apertou os dentes, mas ela não ligou. Se queria dar a impressão de que a sua relação era mais séria deveria ter-lhe dito. Sentia-se incomodada com o subterfúgio e aquilo era demasiado.
– Vai para o hotel, Jules – ordenou-lhe o desconhecido, olhando para a mão que tinha posto no seu braço.
Jules murmurou um palavrão em francês e depois, de repente, envolveu-a nos seus braços e apoderou-se dos seus lábios.
O beijo terminou nuns segundos, mas o surpreendente encontro deixou Maddie atónita e furiosa. Viu Jules sair da discoteca sem olhar para trás e teve de conter o desejo de passar o dorso da mão pela boca para apagar a impressão de tão desagradável carícia.
Sabia que a tinha beijado para chatear o homem dominante que estava à frente dela. E sabia também que, apesar do desejo de apagar todos os sinais do beijo, que essa revelação poderia custar-lhe cara.
– Anda – disse ele abruptamente. Depois, como Jules, deu meia volta.
Maddie abanou a cabeça, perplexa. Não tinha a menor intenção de seguir aquele arrogante e atraente desconhecido. Só queria voltar para o apartamento que partilhava com o seu pai, para a segurança e o incómodo da sua diminuta cama.
O cochichar geral e os telemóveis que apontavam na sua direção, fizeram com que se apressasse. Ainda não sabia o que ocorrera uns minutos antes, mas não pensava ficar ali a suportar os olhares de todos.
Falaria com Jules de manhã, pensou. Por agora, o mais importante era comprovar que o pai aguentaria mais um dia sem sucumbir ao vício que destroçara não só a vida dele, mas também a dela.
Tentando não pensar na sua triste vida, Maddie deu meia volta… e deparou-se com uma parede de músculo.
– Menina? Venha comigo, se faz favor.
Era um dos guarda-costas. O desconhecido tinha deixado para trás um segurança de forma a garantir que obedeceria às suas ordens.
Tinha de tomar uma decisão. Ficar ali e lutar com um monte de idiotas ou sair da discoteca e lutar com um desconhecido que, por alguma razão, a assustava e excitava ao mesmo tempo.
– Santo Deus, viste-o bem? – escutou uma voz feminina.
– É como um deus, lindo de morrer.
– Mas quem é ele?
Maddie deu um passo em frente, convencida de que o guarda-costas era capaz de a carregar ao ombro se hesitasse.
Quando saiu à rua e viu a brilhante limusina estacionada à porta sentiu um calafrio. E não tinha nada a ver com o fresco ar de março.
A luz do interior estava apagada e Maddie só viu umas pernas masculinas e uns sapatos de pele.
– Entre, menina Myers – a ordem era seca e impaciente, mas ela olhou em volta. Estava certa de que poderia sair a correr. – Aconselho-a a não tentar – disse ele então.
Maddie queria desobedecer à ordem com todas as fibras do seu ser, mas sabia que não serviria de nada. Aquele homem emanava poder e autoridade. Além disso, os seus guarda-costas estavam em perfeita condição física.
De maneira que, suspirando, entrou na limusina. Quanto mais depressa terminasse aquilo, mais depressa estaria em casa, disse a si mesma. Tinha de ir trabalhar dentro de poucas horas.
Assim que entrou para o carro, a porta fechou-se atrás dela. Durante uns tensos segundos fingiu interesse pelo luxuoso interior da limusina, mas, quando por fim olhou para ele, o brilho dos seus olhos cinzentos deixou-a a tremer.
– Quem é você e como me conhece? – perguntou-lhe.
– O meu nome é Remirez Alexander Montegova, príncipe de Montegova. E sei quem você é porque uma equipa de investigadores me deu essa informação. E agora, diga-me o que quer em troca de afastar-se do meu irmão.
Capítulo 2
– Do seu irmão? – exclamou Maddie.
– Na verdade, meu meio-irmão. Temos o mesmo pai – respondeu ele num tom gélido.
– Mas ele chama-se Jules Montagne e é francês.
Já a pronúncia daquele homem era uma estranha mistura de italiano, francês e espanhol.
O príncipe Remirez encolheu os ombros.
– O Jules nasceu em França e suspeito que o nome que utiliza é uma artimanha para despistar.
– Para despistar quem? – perguntou ela, pensando que tudo começava a fazer sentido.
Parecia maior no interior da limusina; o cabelo mais negro e brilhante, os ombros sob o casaco mais largos e imponentes.
– Os golpistas, os aproveitadores – respondeu por fim, com tom acusador.
Sem dúvida, a acusação ia dirigida contra ela, e Maddie chateou-se consigo mesma porque nem sequer isso parecer acalmar o calor que sentia entre as coxas.
– Ah, estou a perceber.
– Aposto que sim – replicou ele, irónico.
Maddie apoiou-se na porta da limusina, mas afastou-se logo, fazendo uma expressão de dor.
– Para onde me leva? – perguntou, esfregando o antebraço sem se dar conta.
– Para onde disse que ia levá-la, para a sua casa – respondeu ele. – Que tem no braço?
– Nada, estou bem. Sabe onde vivo?
– Sim, sei. E também sei onde trabalha, onde estudou e quem é o seu dentista.
Ela olhou para ele, apreensiva.
– É uma ameaça?
– Não, só digo o que sei. Afinal, a informação é poder, não? Não entrou neste carro em busca de informação?
– Entrei no carro porque você enviou o seu guarda-costas para procurar-me.
– Não lhe tocou – disse ele num tom seco, como dando a entender que não lhe tinha tocado porque ele não tinha ordenado que o fizesse.
– Ah, ena, então devo considerar-me uma afortunada.
Sabia tudo sobre ela, pensou. Saberia também sobre o seu pai, a sua mãe, Greg? Conheceria os vergonhosos segredos que a perseguiam a cada dia?
– Não respondeu à minha pergunta.
– E não penso fazê-lo porque é insultante – disse Maddie. – Acha que pode dar-me dinheiro para que faça o que você quiser? Mas se não o conheço de lado nenhum…
– Não lhe ofereci nada porque você não me disse o seu preço. Desde quando conhece o Jules?
– Não sei por que se importa com isso…
– Conhece-o há uma semana – interrompeu-a ele. – Tem saído com ele quase todas as noites e, no entanto, nunca foi a sua casa.
– Isso não significa nada.
– Pelo contrário, isso leva-me a pensar que me esconde algo. O que é, menina Myers?
– Sexo, drogas e rock and roll, claro – respondeu ela, irónica.
– Eu sei que o Jules não toma drogas.
– Como sabe?
– É uma condição para que o tesoureiro de palácio lhe dê dinheiro. Em troca de uma generosa soma, o Jules faz testes todos os meses.
Embora essa informação tivesse dissipado os seus medos, também era uma revelação perturbadora.
– Faz testes? Está a dizer que lhe pagam para que não se drogue?
O príncipe franziu a testa.
– Entre outras coisas – murmurou.
– Que coisas? – perguntou-lhe ela, pensando que estava na altura de saber algo mais sobre o homem que prometera pagar-lhe para fingir ser sua noiva.
– Coisas que não são assunto seu – respondeu o príncipe. – Mas aviso-a de que se algo disto sai nos jornais vou processá-la por tudo o que tem.
– Sim, pois boa sorte – replicou ela.
– Não acredita em mim?
Maddie suspirou, aliviada, quando a limusina parou à frente da porta da sua casa.
– Não, quero dizer que pode processar-me à vontade, que não irá receber nada.
Assim que pronunciou estas palavras quis retirá-las, mas era demasiado tarde.
– Está na miséria – disse ele.
Maddie sentiu uma onda de vergonha e raiva.
– A minha vida não é assunto seu. E, se não der por garantido que sou uma golpista desejosa de ligar a um jornalista, eu também não pensarei que você é um rico e pomposo imbecil que olha por cima do ombro para os restantes mortais.
– Não tenho provas de que seja uma golpista, mas sei que é uma exibicionista – respondeu ele, com a sua carismática pronúncia.
– Desculpe? Que direito tem…? – Maddie não terminou a frase, sentindo a cara a arder.
«Ai, meu Deus».
O vestido tinha-lhe subido quase até entre as pernas e o top decotado não conseguia esconder tudo o que deveria. O vestuário que Jules tinha decretado para as suas saídas noturnas era uma das muitas coisas que lhe desagradavam naquele acordo, mas uma das coisas que ele tinha exigido.
– Sugiro-lhe que se acalme – aconselhou-lhe ele.
A sua voz profunda e o seu ardente olhar aqueciam lugares que não deveriam aquecer e Maddie puxou o vestido, sabendo que estava a ser julgada e condenada.
– Já terminámos?
– Isso depende.
– Depende do quê?
Ele limitou-se a sorrir, mas o sorriso provocou um fogo no seu ventre.
Maddie estava quase exigir uma resposta quando alguém abriu a porta do carro.
– Vai descobri-lo no momento certo. Boa noite, menina Myers.
Desde que se vira obrigada a abandonar os seus estudos de psicologia infantil e voltar para casa para cuidar do pai, as noites de Maddie estavam repletas de preocupações. Não dormir era algo habitual e o rangido do estrado de quinta categoria sob o colchão era o acompanhamento das suas ansiedades.
No entanto, nessa noite outros pensamentos, outras imagens davam voltas à sua cabeça e o que o impedia de dormir era uma estranha mistura de emoções. Incredulidade por ter conhecido um príncipe a sério, um príncipe lindo que parecia saído do grande ecrã. Fúria porque estava a ameaçá-la. Desejo? Não, não ia pensar nisso.
E ansiedade.
Era evidente que o príncipe tinha um grande poder sobre o seu meio-irmão, apesar da atitude desafiante de Jules. Atrever-se-ia a negar-lhe o que Jules lhe tinha prometido?
Este último pensamento manteve-a acordada até que por fim saltou da cama antes que o despertador tocasse às seis.
O seu pai já se tinha levantado, embora não estivesse vestido, quando chegou à cozinha. Maddie parou à porta, contendo o fôlego enquanto o examinava. Estava raquítico, resultado de uma falha renal causada pelos fortes analgésicos em que se viciara quando a sua próspera imobiliária falira dez anos antes.
Tinha escondido os seus vícios durante anos para manter as aparências e agarrar-se a uma esposa que esperava um verdadeiro estilo de vida e exigia que o seu marido lho proporcionasse.
Uma sobredose tinha posto tudo em claro três anos antes, mostrando o surpreendente dano que Henry Myers fizera ao seu corpo. E também tinha sido o princípio de muitas promessas de deixar as drogas, de muitas recaídas, e da ruína em que se metera.
Por fim, passar de uma vida acomodada a cuidar de um viciado num apartamento diminuto num dos bairros mais pobres de Londres fora demasiado para a sua mãe.
Anos atrás, o seu pai tinha sido um homem rico e admirado pelos seus colegas. Maddie tinha sido uma menina mimada e alegre, com uma mãe mais interessada em comprar-lhe vestidos do que em dar-lhe afeto e um pai carinhoso, embora sempre ocupado.
Mas a sua vida tinha dado uma volta após um telefonema de Priscilla Myers, quando Maddie estava na universidade. Estava farta, tinha-lhe dito. Tinha de voltar para casa para cuidar do seu pai porque ela já não podia mais e não estava disposta a continuar a viver na pobreza. No seu tom não havia vergonha nem sentimento de culpa por abandonar o marido e filha. Partira sem olhar para trás e sem deixar morada.
Maddie tentou conter a angústia enquanto entrava na cozinha.
– Levantaste-te muito cedo – disse-lhe.
O pai encolheu os ombros.
– Não conseguia dormir.
– Queres tomar o pequeno-almoço? Torradas e chá? – perguntou-lhe ela, tentando animar-se.
O pai evitava o seu olhar, sinal de que os demónios do vício estavam novamente a apertá-lo. Sentiu o coração encolhido. Se pudesse, tiraria o dia e ficaria em casa para oferecer-lhe o apoio de que precisava.
– A senhora Jennings virá dentro de um momento – disse-lhe, tentando sorrir. – Ela far-te-á o almoço se tiveres fome.
O seu pai não disse nada e Maddie tentou não se sentir culpada. O desespero tinha-a levado a pagar à vizinha um pequeno salário para cuidar dele umas horas por dia e o seu pai sabia-o.
Depois de o terem tirado da lista de transplantes duas vezes, por culpa das recaídas, recorrera a todo o tipo de tretas para o vigiar, mas os últimos exames revelavam que em poucas semanas poderia ter uma falha renal grave.
Os médicos tinham-lhe dito que não aprovariam a operação a não ser que estivesse limpo durante pelo menos seis meses e, por agora, não tinha recaído, mas precisava de dinheiro para pagar a operação; um dinheiro que dependia de que cumprisse o acordo com Jules Montagne. Correção, Jules Montegova, meio-irmão do príncipe Remirez Alexander Montegova.
A imagem do imponente homem de olhos cinzentos fez com que sentisse um calafrio na espinha.
Horas depois, quando acabou de atender os clientes do pequeno-almoço no café em que trabalhava, Maddie começava a estar realmente preocupada.
Normalmente, Jules enviava-lhe uma mensagem à noite, antes de ir para a cama, dizendo-lhe onde e quando voltariam a ver-se. E, quando a meio do dia continuava sem saber nada dele, a sua preocupação converteu-se em autêntica ansiedade.
Não queria desbaratar preciosos minutos do telemóvel com ele, mas tinha a impressão de que algo se passava. Tanto dependia desse acordo com Jules que não poderia deixar passá-lo, por isso decidiu ligar durante a hora de descanso.
– Santo Deus, é o príncipe Remirez! – exclamou Di, uma colega que estava a limpar as mesas.
Maddie quase soltou a dúzia de garfos que tinha nas mãos.
– O quê?
Di, boquiaberta, apontou para a rua, à porta do café. E ali estava o homem em que tinha pensado durante demasiadas horas à noite, examinando o menu do café com o mesmo desdém que tinha mostrado pelo seu bairro na noite anterior.
O sol de março abriu caminho por entre as nuvens nesse momento, sublinhando o seu altivo rosto. Estava convencida de ter exagerado ao considerá-lo perfeito na noite anterior. Agora, com o sol a acariciar-lhe as espetaculares feições, Maddie não tinha a menor dúvida de que o herdeiro do trono de Montegova era um magnífico exemplar masculino da cabeça aos pés.
– Conhece-lo, Di? – perguntou, afastando o olhar daqueles traços cativantes.
A sua colega arregalou os olhos.
– Por favor! Todas as mulheres do mundo sabem quem ele é. O seu irmão Zak também é lindo. Mas nem imagino o que andará por aqui a fazer. Ai, meu Deus, que ele vai entrar!
Maddie voltou-se, rezando para que Di estivesse enganada. Não estava ali por ela, não podia ser. Na discoteca, sendo a acompanhante do irmão dele, era fácil explicar o interesse fugaz de um príncipe por ela… mas ali, entre talheres de plástico e comida barata, era difícil entender por que o homem mais atraente do mundo a vinha procurar.
Mas por que outra razão iria ali?
Di continuou a dar à língua enquanto Maddie, de costas para a porta, fingia ocupar-se da arrumação dos talheres.
Um momento depois fez-se silêncio no café e ouviu os firmes passos do homem que parecia pensar ser o dono do universo.
– A menina Myers…
«Ai, Deus». Não tinha imaginado o impacto da sua voz. E também não tinha imaginado o efeito no seu pulso.
Tentou dissimular enquanto se virava, mas sem dar-se conta largou os talheres que tinha na mão e o estrondo foi chamativo.
Com o rosto a arder, Maddie inclinou-se para recolhê-los apressadamente. Recusava-se a levantar os olhos, negava-se a reconhecer a existência do homem vestido com um fato que seguramente custava mais do que ela ganhava num ano.
– A menina Myers?
Maddie teve de levantar a cabeça e os seus olhos encontraram-se com os olhos prateados em que cintilava um brilho de troça.
– Sim? – conseguiu dizer, com voz apertada. Era a vergonha que a tornava rouca, não o calor que sentiu na pélvis ao aperceber-se de que os seus olhos estavam à altura de entre as pernas dele.
Ficou imóvel quando o príncipe Remirez lhe ofereceu a mão. Não podia recusar sem o ofender, por isso aceitou. Uma vez tinha lido uma novela em que a heroína descrevia uma sensação semelhante a uma descarga elétrica ao tocar a mão do homem dos seus sonhos. Então, tinha arregalado os olhos, incrédula. Agora enviou uma silenciosa desculpa à criticada personagem. O príncipe Remirez nunca seria o homem dos seus sonhos, mas nunca poderia tocar a mão de um homem sem recordar esse momento.
Ele não parecia nada afetado com aquele toque, mas pareceu dar-se conta da expressão de dor que se lhe escapou quando lhe puxou o braço.
Quando conseguiu voltar a respirar, Maddie olhou furtivamente à sua volta. Como suspeitava, toda a gente estava a observá-los. Incluindo o seu chefe, embora a sua curiosidade começasse a transformar-se em irritação.
– Quer uma mesa… Alteza? – perguntou-lhe, sem saber se aquela era a forma correta de se dirigir a um príncipe. – Pode escolher a que quiser. Eu vou atendê-lo assim que acabe de…
– Não vim cá para comer, menina Myers – interrompeu-a ele, sem se dar ao trabalho de baixar a voz ou dissimular o seu desdém.
– Nesse caso, não sei em que posso ajudá-lo. Estou a trabalhar.
– É no seu próprio interesse arranjar tempo para mim. Agora mesmo.
Quase recusou logo, porque o seu coração enlouquecera e porque aquele homem era demasiado… tudo. Mas Maddie pensou um momento. Algo no seu tom de voz lhe dizia que não devia recusar.
Recordou então que ele ordenara a Jules que fosse à sua suite naquela manhã. Teria Jules lhe contado a verdade sobre a relação deles? Era por isso que estava ali?
Era uma da tarde. Dentro de meia hora o café estaria cheio de clientes.
– Jim, posso fazer a minha pausa agora? Se for preciso, compenso-te mais tarde.
O chef, que também era o dono do café, olhou para o príncipe Remirez tentando dissimular a sua irritação.
– Está bem, pode ser.
Maddie entrou no armazém para trocar de roupa e saiu uns minutos depois com a mala ao ombro. Havia gente à porta, todos dispostos a captar com os telemóveis a imagem do homem mais cativante do mundo.
– Estaremos melhor no carro – disse o príncipe, pondo uma mão na sua cintura para empurrá-la em direção à porta aberta da limusina.
A porta fechou-se e Maddie engoliu em seco, tentando controlar a louca urgência de afundar a cara no seu pescoço e afogar-se no seu aroma, letal e viciante para qualquer mulher.
«Viciante».
A palavra fê-la voltar à realidade.
– Muito bem, Alteza. Tem quinze minutos.
Ele puxou os punhos da camisa e apoiou as elegantes mãos sobre as coxas antes de cravar os olhos nela.
– A sua relação com o Jules terminou – anunciou.
Tentando não se assustar, Maddie tirou o telemóvel do bolso.
– Se não se importa, prefiro que seja ele a dizer-mo pessoalmente.
– Neste exato momento já está num avião para Montegova. Não voltará a vê-lo nem a falar com ele. O seu número foi bloqueado, portanto pode poupar-se a esse trabalho.
Maddie sentiu um calafrio.
– Por que está a fazer isto?
Ele meteu uma mão no bolso do casaco e tirou um cartão cor de vinho com letras douradas.
– Vim para dizer-lhe que estou disposto a ouvir a sua versão da história – disse-lhe, apontando para o cartão. – A minha morada e a o meu número privado estão atrás. Tem vinte e quatro horas para usá-lo. Depois disso, também não poderá pôr-se em contacto comigo.
Capítulo 3
Na noite anterior, ao vê-la em pessoa pela primeira vez, Remi tinha pensado que era de uma beleza excecional. Agora, de dia e tão perto, parecia-lhe ainda mais extraordinária.
A beleza de Maddie Myers era extraordinária, única. Era incompreensível que tivesse um aspeto tão fabuloso com aquela insossa farda de empregada. Ele tinha saído com muitas mulheres bonitas, mas Madeleine Myers provocava nele um desejo que não era capaz de controlar.
Um desejo que despertou assim que entrou no café e se intensificou quando ela se pôs de joelhos para recolher os talheres.
Muitos anos a aperfeiçoar a arte de dissimular os sentimentos tinham-no salvado de mostrar a sua reação, mas a imagem estava gravada no seu cérebro e tornou-se excitante ao ver que ela entreabria os lábios.
– O Jules foi-se mesmo embora?
Remi apertou os dentes porque não lhe apetecia falar do seu meio-irmão com aquela mulher.
– Sim.
Umas sobrancelhas algo mais escuras que o seu cabelo uniram-se numa expressão de confusão.
– Mas… não compreendo.
– O que não compreende? Que o meu meio-irmão tenha por fim decidido portar-se como um adulto e contribuir um pouco para o seu país?
– Assim, de repente? – perguntou ela, cética.
– Não, claro que não. Custou-me muito a convencê-lo.
– E veio a Londres para isso?
O príncipe encolheu os ombros.
– Já estava na altura de alguém fazer esse trabalho.
– E disse algo sobre mim?
– Que poderia dizer? – respondeu ele, irritado.
Suspirando, Maddie virou a cabeça para olhar pela janela e Remi continuou a analisá-la. Embora agarrasse a alça da mala nervosamente, a sua expressão não refletia a angústia de uma amante abandonada. A atitude de Maddie Myers dava a ver muito mais a sua frustração e o seu medo.
Jules tinha sido importante para os seus planos. Uns planos que foram frustrados.
– Não lhe retribuiu o beijo – disse então, porque queria ter a certeza.
Ela virou a cabeça, olhando-o com uma expressão de estranheza.
– O quê?
– Ontem à noite, o suposto beijo. Você não retribuiu. De facto, parecia estranhamente apática.
Maddie Myers olhou-o com uma altivez de que os seus tutores se teriam orgulhado.
– Acho que está enganado.
– Não, não é verdade. Por que está com ele?
– Ao que parece, Jules está a muitos quilómetros daqui. Portanto, o motivo por que estávamos juntos já não importa.
– Importa se vai contactá-lo assim que eu me for embora. Se é assim, aconselho-a a não o fazer.
Ela olhou para ele com uma expressão desafiante.
– Não sei como poderia impedir-mo. Assim que sair deste carro não tenho a menor intenção de voltar a vê-lo.
– Engana-se a si mesma se acha que se vai livrar de mim tão facilmente.
– E você engana-se a si mesmo com… este interrogatório. Eu não lhe devo nada. Entrei no carro por cortesia e quero voltar ao meu trabalho antes que o meu chefe se chateie.
Tentou abrir a porta, mas ele agarrou-a pelo pulso com a fúria misturada com algo mais alarmante. Ainda que se dissesse a si mesmo que não tinha nada a ver com a suavidade da sua pele.
– Você é sempre assim tão temeraria? – atirou-lhe com um tom seco.
– Não perguntou ao seu irmão como nos conhecemos?
A única coisa que ele queria de Jules nessa manhã era que entrasse no avião que o levaria de volta a Montegova e que prometesse não voltar a pôr-se em contacto com Madeleine Myers. A discussão sobre os seus deveres e responsabilidades terminou quando se deu conta de que o seu meio-irmão tinha uma ressaca horrível.
– O tema não veio à baila.
– Pois quase me atropelou com seu supercarro. Foi assim que nos conhecemos.
Remi apertou os dentes. Durante os últimos dois anos tinha revisto na sua cabeça tudo o que poderia ter feito para evitar a morte de Celeste, e a imagem de Maddie Myers sem vida sobre o pavimento despertou novamente esses demónios.
– O Jules atropelou-a?
Sem dar-se conta tinha-lhe apertado o braço e, ao ver a sua careta de dor, tudo começou a encaixar-se no seu lugar.
– Tirando algumas nódoas negras, eu diria que os sacos de compras sofreram mais do que eu.
– Não seja frívola.
– Não sou frívola, é que não teve qualquer importância. Por sorte, claro.
– Foi nessa altura que chegou a um acordo com ele?
– Esta conversa terminou. Adeus, Alteza.
Remi não tinha intenção de a deixar ir até aprofundar esta nova revelação.
– Mudei de opinião. Já não tem vinte e quatro horas – disse-lhe, agarrando o cartão que ela tinha deixado no banco para guardar no bolso do casaco. Depois fez um gesto ao condutor, que arrancou de imediato, deixando o café para trás.
– Pode-se saber o que está a fazer? – exclamou Maddie.
– Vamos dar um passeio. No espaço de uma hora terá de decidir que deixa o seu trabalho no café. Ou que voltará e o seu chefe será adequadamente compensado pela sua ausência. Em qualquer caso, você não perderá nada. Ponha o cinto.
– Não sei como funcionam as coisas no seu país, mas isso aqui chama-se sequestro!
Maddie tentou abrir a porta do carro e Remi agarrou-lhe o braço com força, sentindo como era suave a sua pele e o estremecimento que pareceu percorrer os seus dedos.
– Não me toque – avisou ela, com voz entrecortada, como se também a tivesse afetado o seu toque.
Contrariado, Remi soltou-a, mas Madeleine olhava-o como se também não compreendesse a estranha química que havia entre eles.
– Diga-me por que razão quer entrar em contacto com o Jules – Remi franziu o sobrolho. – E por que não há um relatório de visita ao hospital?
– Um relatório? Por que pensa ter o direito de pesquisar-me?
– Por que não há um relatório do hospital? – insistiu ele.
– Porque o seu irmão não me levou a nenhum hospital.
Nesse momento, Remi não conseguiu conter um palavrão.
– Ele atropelou-a e você não exigiu que a levasse ao hospital?
– Já lhe disse…
– Está a tentar esconder que lhe dói o braço. Ou tenta enganar-se a si mesma pensando que é uma lesão sem importância ou há outra razão pela qual está disposta a enterrar a cabeça na areia.
– Em qualquer caso, não tem nada a ver consigo – ripostou ela.
– Aí é que você se engana, menina Myers.
Remi premiu o intercomunicador e falou brevemente com o motorista.
– Que quer dizer? – perguntou-lhe Maddie.
– É minha obrigação assegurar-me de que nada do que faça um membro da minha família possa afetar a coroa. Agora penso já ter percebido o que havia entre si e o meu meio-irmão, mas quero que seja você a contar-me.
– Não sei a que se refere.
– Vou levar-te ao hospital, Madeleine – disse ele então, tratando-a por tu pela primeira vez. – Podes protestar se quiseres, mas asseguro-te que o quanto mais depressa solucionarmos isto, mais depressa poderemos livrar-nos um do outro.
– Muito bem, concordo.
– Ótimo – murmurou Remi, estendendo um braço para pôr-lhe o cinto de segurança e tentando roçá-la o menos possível.
Uns minutos depois, a limusina parava à frente de um elegante edifício na rua mais cara de Londres.
– Onde estamos?
– Na clínica privada do meu médico.
– Uma clínica privada na rua Harley?
– Que importa a localização da clínica?
– Claro que importa. Eu não posso pagar um médico privado – protestou ela, agitada, enquanto tirava o cinto de segurança.
– Santo Deus, acalma-te. Só vais agravar a lesão.
– Para começar, não sabemos se tenho uma lesão. E pare de dar-me ordens.
Remi respirou fundo, recordando-se a si mesmo por que estava a fazer aquilo: pela sua família, pelo seu país.
Por razões que pensava averiguar antes do fim do dia, nem Jules nem os seus guarda-costas o tinham informado do acidente. Não queria nem imaginar o que diriam na imprensa se descobrissem e tinha de fazer as coisas bem para evitar um escândalo.
Mas tinha outra razão, teve de admitir. Não queria que a história se repetisse. Não queria passar noites acordado a sentir-se culpado pela desgraça de outra pessoa, ainda que essa pessoa fosse aquela belíssima loira que não se parecia nada com a Celeste e que, no entanto, o excitava de um modo surpreendente.
– Eu dou valor ao meu tempo e à minha privacidade. Asseguro-te que aqui encontraremos isso. E asseguro-te também que não terás de pagar nada. Mais alguma objeção?
Maddie negou com a cabeça antes de sair do carro. Ele seguiu-a, dizendo-se a si mesmo que o formigueiro que sentia nos dedos não era pelo desejo de voltar a tocar-lhe, de pôr a mão na sua delicada cintura para guiá-la até à porta da clínica. Mas sabia que era mentira.
Uma enfermeira acompanhou Maddie para o exame e, uma hora depois, Remi olhava pela janela da limusina enquanto se dirigiam para o hotel.
– Exigiu que fizesse todos os exames e mais algum e agora não vai dizer nada? – atirou-lhe Maddie, irritada. Ele continuou a olhar pela janela. Parecia-lhe mais seguro, porque olhar para ela e vê-la com um braço ao peito deixava-o furioso.
– Uma fissura no cúbito, duas nas costelas e pisaduras profundas na anca esquerda que levarão semanas a curar-se.
As palavras saíam dos seus lábios como pedaços de vidro.
– Eu sei que o médico disse. Eu também estava presente.
Remi sabia que ela não tinha a culpa, mas, incapaz de se controlar, virou-se e segurou-lhe o rosto entre as mãos.
– Não sei com quem estou mais zangado, contigo por não teres pedido ao meu meio-irmão que te levasse ao hospital, ou com ele por ser tão irresponsável e por me ter posto nesta situação – murmurou ele sobre a boca dela.
Ela, mostrando-se sensata, por uma vez, não disse nada. Mas, no silêncio, Remi reparou na sua respiração agitada, no calor da sua pele, no selvagem latejar da sua garganta, a aveludada suavidade dos seus lábios.
Sabia que era um erro, mas passou o polegar pelo seu lábio inferior e teve de conter um gemido quando ela abriu a boca…
Por sorte, recuperou logo de seguida o senso comum. Como a vergonha e o sentimento de culpa.
«Celeste».
A cada momento que passava com aquela mulher, comportando-se como um animal, traía a recordação da sua falecida noiva. E arrastava-o mais para o pântano do qual começava a temer nunca conseguir sair.
O último piso do hotel Four Seasons estava sempre reservado para a família real de Montegova, já que visitavam Londres com frequência. E a maior vantagem era o acesso privado que evitava olhares indiscretos. Não queria testemunhas da sua agitação, muito menos ter de explicar por que motivo levava para a suíte uma mulher vestida com uma farda de empregada de mesa e um braço ao peito.
Uma mulher linda, perigosa e com uns lábios que pareciam tão suaves como a seda.
Remi apertou os punhos, amaldiçoando o mau momento que a sua libido tinha escolhido para despertar. Apesar das revelações das últimas horas, não tinha mudado de opinião sobre Madeleine Myers, uma típica fura-vidas a tentar tirar proveito de um infeliz acidente.
Mas Jules tinha-a atropelado e poderia tê-la matado.
Remi recordou Celeste, pensando na fragilidade da vida. As circunstâncias da morte da sua noiva e o acidente de Maddie eram totalmente diferentes. No entanto, ele sentia a mesma impotência.
– Nunca ninguém lhe disse que é uma falta de educação olhar fixamente para uma pessoa? – atirou-lhe ela enquanto esperavam o elevador.
– Ninguém se atreveria a dizer-me tal coisa – respondeu Remi, amaldiçoando Jules em silêncio.
Mas não era culpa do seu irmão que ele se sentisse encurralado pelo passado. A conversa com a sua mãe tinha-o feito penar num tema em que, na verdade, não queria pensar, mas que, no entanto, teria de enfrentar o mais cedo possível.
Quando saíram do elevador uns segundos depois, surpreendeu-o que Maddie não mostrasse admiração pelos quadros e esculturas do corredor. Todos os visitantes ficavam admirados pela opulência e grandiosidade da suite. A sua mãe não tinha poupado em despesas quando contratara a decoradora, cinco anos antes.
Ainda assim, Remi continuava convencido de que ela procurava algo e estava decidido a averiguar o que era.
– Podemos terminar com isto de uma vez por todas para que eu possa voltar à minha vida normal? – atirou-lhe ela.
– É isso que pensas fazer depois, voltares à tua vida e esqueceres o Jules e a minha família?
Maddie franziu o sobrolho.
– Claro. Que outra coisa acha que vou fazer?
– Detesto mentirosos, Madeleine.
– E eu detesto abusadores, portanto estamos quites.
– Senta-te.
– Não, obrigada. Não penso ficar aqui por muito tempo.
– Ficarás aqui o tempo que eu disser.
– Ou o tempo que demore a eu chamar a polícia – replicou ela, indignada. – Vim aqui voluntariamente e vou-me embora quando bem me apetecer.
Remi deixou escapar um suspiro.
– Assim não vamos chegar a lado nenhum.
– Então sugiro que vá direto ao assunto.
Que temperamento, pensou ele. Tê-lo-ia impressionado se não fosse pelo desespero que pressentia nela.
– Muito bem. Quero fazer um acordo contigo – disse-lhe.
– Um acordo?
– O Jules já se foi embora. Fosse qual fosse o acordo que tivesses com ele já não conta e agora quero que faças um acordo comigo.
– O que é isto, um jogo? Você não sabe nada sobre o acordo que eu tinha com Jules.
– Nem interessa, porque não conseguiste nada. Caso contrário, não terias ficado tão angustiada ao descobrires que ele tinha partido.
Ela levantou o queixo com um misto de orgulho e vulnerabilidade ao mesmo tempo. Remi não queria sentir-se atraído por ela, mas não podia evitá-lo.
– Você tem a mania de que sabe tudo, não?
– Achas? Queres que te faça a vontade e te acompanhe à porta?
Maddie baixou a cabeça para ocultar a sua expressão.
– Veio mesmo a Londres para obrigar o Jules a voltar para casa?
– Esse era o principal objetivo da viagem, sim.
– Então, por que não foi com ele? Disse-me que partiria em vinte e quatro horas.
– Não, disse que esse era o tempo que estava disposto a esperar para ouvir a tua versão da história. Ainda que, francamente, tivesse pensado que demoraria mais tempo a convencer o Jules.
– Mas conseguiu despachá-lo em doze horas, não? E que quer que eu faça? Que o entretenha como se fosse o bobo da corte? – atirou-lhe Maddie, com uma altivez que teria impressionado os seus professores de etiqueta.
– Era esse o personagem que fazias com o Jules?
Pulsuz fraqment bitdi.