Kitabı oxu: «O último comboio para a liberdade»

Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
O último comboio para a liberdade
Título original: The Last Train to London
© 2019, Meg Waite Clayton, LLC
© 2020, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.
Publicado originalmente pela HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Tradutor: Fátima Tomás da Silva
Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.
Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.
Desenho da capa: Andrea Guinn
Imagens de capa:
© Mark Owen/Trevillion Images (chico)
© Serjio74/olga che/Shutterstock (estación de tren)
1ª edição: Junho 2020
ISBN: 978-84-9139-494-5
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Nota da autora
Primeira parte. A época anterior. Dezembro de 1936
Na fronteira
Rapaz conhece rapariga
Rubis ou imitação
Velas ao amanhecer
Em busca de Stefan Zweig
Um pouco de chocolate ao pequeno-almoço
Giz nos sapatos
O paradoxo do mentiroso
A maior máquina de escrever do mundo
A busca
Klara van lange
Através da janela, às escuras
Auto-retrato
Pés descalços na neve
Exposição da vergonha
Junto ao cais
Diamantes, não imitações
Motorsturmführer
Decisões
As matemáticas da canção
Kipferl e chocolate quente vienense
Um código errado
Escrever entrelinhas
A teoria do caos
Cartões de baile vazios
O Anschluss
Segunda parte. A época intermédia. Março de 1938
Depois de se recusar a dançar
Decisões
Dia de limpeza
O ficheiro
Os problemas que não podemos antecipar
A saudação da vergonha
Entrelaçadas
Hitler
Truus no hotel Bloomsbury
As portas do inferno
Transferência
O problema judeu na Áustria
Na grande roda
Abandonar
As amizades vão e vêm
Leitura
Amável
Confissão
Fingir
A coisa mais simples do mundo
Crisálida
Grandes esperanças
O preço do chocolate
Os lençóis brancos da morte
Na fronteira
Uma distracção
O andar dos empregados
Cuidados
Velhos amigos
–Sara–
Assalto
Um é sempre melhor do que zero
A noite de cristal
Uma noite fora
Pai
À espera
As notícias
Ave-maria
Combater o fogo
Sem escapatória
Abandonado
Apenas um apelido
Os gémeos
Ajuda para o pai
À procura do pai
O rapaz com bombons no bolso
Poder de princesa
Bloomsbury, Inglaterra
Uma mulher com visão
Botas brilhantes
Gavetas vazias
O debate de Westminster
Saída, sem visto
O pedido do visconde Samuel
Desejos grandes e pequenos
Otto
Em busca de Stephan Neuman
Clandestino
Desafio
Toda essa tinta
Prometo
O gueto de Leopoldstadt
Viena
Não está dentro da nossa jurisdição
Um menino muito bom
Walter
O hotel Bristol
Sem saída
No canal
Escondido na sombra
A cela
Começa o interrogatório
A promessa
Continua o interrogatório
E, agora, a saia
Quem se ri por último
A forma de um pé
Algo divertido
Uma mulher de amesterdão
Qualquer criança que corra perigo
Deuses diferentes
Tira de papel
Binário
Mesmo que nos desterrem, nos expulsem e nos injuriem
Mesmo separados
A mala
Despedida
Números
Colar
Um rapaz judeu de dezassete anos
A outra mãe
Quinhentos
Fraldas húmidas
Tjoek-Tjoek-Tjoek
Gémeos que desaparecem
Meninos sem número
O paradoxo de Eichmann
O infinito escondido
Noutra direcção
Carl Füchsl
Juntos
Desmontagem
No hotel Metropole
As luzes de Harwich
Harwich
Dovercourt
Um visto de saída de outro tipo
Terceira parte. A época posterior. Janeiro de 1939
Coelho número 522
Dezanove velas
Os não eleitos
Outra carta
Na praia
Um bebé num comboio
Irmãos
O paradoxo de Kokoschka
Na estação de comboio de Praga, 1 de setembro de 1939
Faculdade Newnham, Cambridge
Estação londrina de Liverpool street: 3 de setembro de 1939
Paris: 10 de maio de 1940
Ijmuiden, Holanda: 14 de maio de 1940
Quarta parte. E então…
Agradecimentos
Para Nick
e em memória de
Michael Litfin
(1945-2008),
que contou as histórias do
Kindertransport ao meu filho
e que, por sua vez, mas transmitiu,
a Truus Wijsmuller-Meijer
(1896-1978)
e às crianças que salvou.
«Lembro-me: Aconteceu ontem ou há uma eternidade…
E, agora, o menino vira-se para mim. “Diga-me”, pede-me, “O que fez com o meu futuro, o que fez com a sua vida?”… Uma pessoa íntegra pode fazer a diferença, a diferença entre a vida e a morte.»
— Elie Wiesel, no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz, entregue em Oslo no dia 10 de dezembro de 1986.
NOTA DA AUTORA
Depois da anexação alemã do país independente da Áustria em março de 1938 e da violência da «Noite de Cristal» naquele mês de novembro, começou uma tentativa extraordinária de levar dez mil crianças para a Grã-Bretanha. Embora seja uma obra de ficção, este livro foi baseado no Kindertransport de Viena gerido por Geertruida Wijsmuller-Meijer, de Amesterdão, que começara a salvar pequenos grupos de crianças em 1933. Para as crianças, era conhecida como Tante Truus.
Primeira parte A ÉPOCA ANTERIOR DEZEMBRO DE 1936
NA FRONTEIRA
Uns flocos grossos suavizavam a paisagem da janela do comboio: Um castelo coberto de neve numa colina nevada erguia-se como um fantasma entre a tempestade de neve. O revisor gritava: «Bad Bentheim; chegámos a Bad Bentheim, na Alemanha. Os passageiros que vão seguir para os Países Baixos devem mostrar os seus documentos.» Geertruida Wijsmuller — uma holandesa de queixo e nariz pronunciados, com a boca grande e os olhos de um cinzento de caxemira — beijou o bebé que tinha ao colo. Beijou-o uma segunda vez e deixou os lábios na sua testa suave. Entregou-o à irmã e tirou o quipá ao irmão do meio. «Es ist in Ordnung. Es wird nicht lange dauern. Dein Gott wird dir dieses eine Mal vergeben», respondeu Truus às queixas das crianças, na sua própria língua. «Não faz mal. Será apenas um instante. O vosso Deus vai perdoar-vos desta vez.»
Quando o comboio parava, o menino pequeno aproximou-se da janela, gritando: «Mamã!»
Truus tentou arranjar-lhe o cabelo enquanto seguia o seu olhar através do vidro manchado de neve: Os alemães em filas ordenadas na plataforma apesar da tempestade, um bagageiro com um carrinho cheio de malas, um homem curvado com um cartaz que anunciava um alfaiate. Sim, também lá estava a mulher que o menino via. Uma mulher magra, vestida com casaco escuro e um cachecol, de pé junto do carrinho das salsichas, de costas para o comboio, enquanto o menino a chamava novamente: «Mamã!!!»
A mulher virou-se, dando uma trinca gordurosa à sua salsicha, enquanto levantava o olhar para os letreiros informativos da estação. O menino fez um ar triste. Não era a mãe, claro.
Truus aproximou-o dela e sussurrou: «Já passou, já passou», incapaz de fazer promessas que não podia cumprir.
As portas do vagão abriram-se com um assobio alto e muito barulho. Um guarda fronteiriço nazi da plataforma esticou o braço para ajudar uma passageira que saía do comboio, uma alemã grávida que aceitou a sua ajuda com uma mão enluvada. Truus desabotoou os botões de pérolas das suas luvas amarelas de couro e afrouxou os punhos ornados. Tirou as luvas e o couro prendeu-se num anel de rubi situado entre outros dois anéis enquanto, com mãos que já começavam a enrugar-se e a encher-se de manchas, limpava as lágrimas do rapaz.
Arranjou-lhes o cabelo e a roupa, dirigindo-se a eles pelo seu nome, mas sem perder um segundo, atenta à fila minguante de passageiros.
— Muito bem — disse, limpando a baba do bebé enquanto os últimos passageiros desembarcavam. — Vão lavar as mãos, como praticámos.
O guarda fronteiriço nazi já estava a subir as escadas.
— Vá lá, apressem-se, mas lavem muito bem as mãos — indicou Truus, com calma. E disse à menina: — Mantém os teus irmãos na casa de banho, querida.
— Até voltares a calçar as luvas, Tante Truus — concluiu a menina.
Era necessário que não parecesse que Truus estava a esconder as crianças, mas também não queria tê-las demasiado perto durante a negociação. «Não fixamos o olhar no que se vê, mas no que não se vê», pensou e levou inconscientemente o rubi aos lábios, como um beijo.
Abriu a mala, algo mais delicado do que teria levado se soubesse que regressaria a Amesterdão com três crianças. Procurou no seu interior, tirando os anéis enquanto as crianças, agora atrás dela, se afastavam pelo corredor.
À frente dela, apareceu o guarda fronteiriço. Era um homem jovem, mas não o suficiente para não ser casado ou para não ter filhos.
— Vistos? Tem vistos para sair da Alemanha? — perguntou a Truus, a única adulta que restava no vagão.
Truus continuou à procura na mala, como se fosse pegar nos papéis que lhe pedia.
— As crianças podem ser difíceis, não é? — replicou, com amabilidade, enquanto tocava no seu passaporte holandês, ainda na mala. — Tem filhos, agente?
O guarda ofereceu-lhe a ameaça de um sorriso.
— A minha esposa está grávida do nosso primeiro filho. Talvez nasça no dia de Natal.
— Que sortudos! — exclamou Truus, sorrindo devido à sua sorte enquanto o guarda olhava para onde se ouvia o barulho da água a correr e as crianças a tagarelar. Deixou que o homem assimilasse aquela ideia: Em breve, teria um bebé, tal como o pequeno Alexi, que cresceria até se transformar num jovem como Israel ou a sua querida Sara.
Truus brincou com o rubi, reluzente e quente no anel solitário que usava.
— Imagino que tenha algo especial para a sua esposa, para celebrar a ocasião.
— Algo especial? — repetiu o nazi, devolvendo-lhe a sua atenção.
— Algo bonito para que possa usar todos os dias, para recordar um momento tão especial. — Tirou o anel e acrescentou: — O meu pai ofereceu isto à minha mãe no dia em que nasci.
Com dedos firmes e pálidos, ofereceu-lhe o anel de rubi, juntamente com o seu passaporte.
O jovem aceitou apenas o passaporte, examinou-o e olhou novamente para a parte traseira do vagão.
— São seus filhos?
As crianças holandesas podiam incluir-se nos passaportes dos pais, mas, no dela, não aparecia nenhuma.
Virou o rubi para que refletisse a luz e disse:
— As crianças são o mais prezado que existe.
RAPAZ CONHECE RAPARIGA
Stephan saiu pela porta e desceu os degraus cobertos de neve a correr, com a mochila a bater contra o casaco da escola enquanto corria para o Burgtheater. Parou perto da papelaria: A máquina de escrever continuava lá, na montra. Puxou os óculos pelo nariz, colou os dedos ao vidro da montra e fingiu escrever.
Continuou a correr, abrindo caminho entre a multidão de Christkindlmarkt, com o cheiro do vinho quente com especiarias e do pão de gengibre, dizendo: «Desculpe, desculpe! Desculpe!», com o gorro puxado até às orelhas para evitar que o reconhecessem. A família era boa: A sua riqueza provinha da empresa de chocolates fundada com o seu próprio dinheiro e mantinham as suas contas na sucursal de Haber do Banco Rothschild. Se chegasse aos ouvidos do pai que empurrara outra idosa na rua, aquela máquina de escrever continuaria a estar mais perto da árvore de Natal de Rathausplatz do que da árvore que tinham na sala de inverno em casa.
Cumprimentou o idoso do quiosque de imprensa.
— Boa tarde, herr Kline!
— Onde deixou o seu casaco, jovem Stephan? — perguntou o idoso.
Stephan olhou para baixo — voltara a deixar o casaco na sala de aula —, mas só diminuiu a velocidade quando chegou a Ringstrasse, onde um protesto nazi bloqueava o caminho. Dirigiu-se para a entrada do metro, coberta de cartazes colados, e desceu os degraus metálicos para a escuridão do mundo subterrâneo vienense, para sair depois pelo lado da rua onde era o Burgtheater. Atravessou as portas do teatro e desceu os degraus de dois em dois até à barbearia da cave.
— Jovem Neuman, que bela surpresa! — exclamou herr Perger, arqueando as sobrancelhas brancas por trás dos seus óculos, tão pretas e redondas como as do próprio Stephan, embora menos sujas de neve. O barbeiro baixou-se e apanhou com a pá os últimos bocados de cabelo daquele dia. — Mas cortou o cabelo recentemente…
— Só um corte rápido. Já passaram semanas.
Herr Perger endireitou-se e atirou os cabelos para o lixo. Depois, pousou a vassoura e a pá junto de um violoncelo apoiado na parede. «Enfim, a memória não é tão rápida numa mente idosa como numa mente jovem, imagino», comentou, com carinho, apontando com a cabeça para a cadeira. «Ou talvez não seja tão rápida na mente de um jovem com dinheiro a mais.»
Stephan deixou cair a mochila da escola e algumas páginas da sua nova peça espalharam-se pelo chão, mas o que importava? Era apenas herr Perger. Tirou o casaco, acomodou-se na cadeira e tirou os óculos. O mundo tornou-se impreciso, o violoncelo e a vassoura pareciam um casal a dançar a valsa num canto e a cara que aparecia no espelho por cima do laço poderia ser a cara de qualquer pessoa. Tremeu quando herr Perger o cobriu com a capa. Stephan não gostava nada dos cortes de cabelo.
— Ouvi dizer que vão começar os ensaios de uma nova peça — comentou. — É do Stefan Zweig?
— Ah, sim, és um grande admirador do herr Zweig. Como pude esquecê-lo? — redarguiu Otto Perger, troçando, de certo modo, com Stephan, mas com carinho. Além disso, herr Perger conhecia todos os segredos dos dramaturgos, das estrelas e do teatro. Os amigos de Stephan não sabiam de onde tirava todos os seus exclusivos. Pensavam que conhecia alguém importante.
— A mãe do herr Zweig continua a viver aqui, em Viena — indicou Stephan.
— E, mesmo assim, não costuma anunciar as suas visitas quando vem de Londres. Bom, a risco de te dececionar, Stephan, a nova peça de teatro é do Csokor, 3 de novembro de 1918, sobre a queda do império austro-húngaro. Especulou-se muito sobre se se representará finalmente ou não. Receio que o herr Csokor tenha de viver sempre com a mala feita. Mas disseram-me que segue em frente, embora com um termo de responsabilidade que garante que o autor não tenciona ofender nenhuma nação do antigo império alemão. Um pouco disto, um pouco daquilo, o que for necessário para sobreviver.
O pai de Stephan teria dito que aquilo era a Áustria, não a Alemanha. O levantamento nazi fora sufocado há anos. Contudo, Stephan não se importava com a política. Stephan só queria saber quem seria o protagonista da peça.
— Não queres tentar adivinhar? — sugeriu herr Perger, enquanto virava Stephan para ele na cadeira. — Tens muito jeito, se bem me lembro.
Stephan manteve os olhos fechados e voltou a tremer involuntariamente, ainda que, por sorte, nenhuma madeixa de cabelo lhe caísse na cara.
— Werner Krauss? — disse.
— Aí está, finalmente! — exclamou herr Perger, com um entusiasmo surpreendente.
O barbeiro virou novamente a cadeira para o espelho e Stephan assustou-se ao ver — impreciso, sem os óculos postos — que herr Perger não se referia à sua resposta, mas falava com uma menina que saíra, como um girassol surreal, da ventilação situada na parede por baixo do seu reflexo. A menina parou à frente dele, com os óculos sujos, as tranças loiras e os seios incipientes.
— Ai, Žofie-Helene, a tua mãe vai passar a noite inteira a limpar-te esse vestido — queixou-se herr Perger.
— Não era uma pergunta muito justa, avô Otto, porque há dois protagonistas masculinos — indicou a menina alegremente, com uma voz que fez Stephan tremer, como o primeiro si bemol do Ave Maria de Schubert. A sua voz e o som lírico do seu nome, Žofie-Helene, para além da proximidade dos seus seios…
— É a lemniscata do Bernoulli — disse ela, tocando num fio de ouro que tinha ao pescoço. — O polinómio X ao quadrado mais E ao quadrado elevado ao quadrado é igual ao produto de X ao quadrado menos E ao quadrado multiplicado por dois A ao quadrado.
— Eh… — Stephan corou ao perceber que o apanhara a olhar para os seios dela, embora ela não soubesse.
— O meu pai ofereceu-mo — declarou. — Também gostava de matemática.
Herr Perger tirou-lhe a capa, entregou-lhe os óculos e não aceitou o cuproníquel, dizendo que, desta vez, não teria de pagar. Stephan voltou a guardar as páginas da peça na mochila, porque não queria que aquela menina a visse. Também não queria que soubesse que tinha uma peça de teatro e que imaginava que conseguiria escrever algo que valesse a pena ler. Parou, confuso: O chão estava totalmente limpo?
— Stephan, esta é a minha neta — indicou Otto Perger, com a tesoura ainda na mão e a vassoura e a pá sem tocar junto do violoncelo. — Žofie, é possível que o Stephan esteja tão interessado no teatro como tu, embora goste mais de ter o cabelo bem arranjado.
— É um prazer conhecer-te, Stephan — disse a menina. — Mas não vieste para fazer um corte de cabelo que não precisavas?
— Žofie-Helene — repreendeu-a herr Perger.
— Estava a ver-vos enquanto falavam. Não precisavas de cortar o cabelo, portanto, o avô Otto fingiu que to cortava. Mas, espera, não me digas! Deixa-me adivinhar. — Olhou à volta: Para o violoncelo, o bengaleiro, o avô e, novamente, o próprio Stephan. Reparou na mochila. — És ator! E o avô sabe tudo sobre este teatro.
— Acho que descobrirás em breve, Engelchen, que o Stephan é escritor — indicou Otto Perger. — E deves saber que os grandes escritores fazem coisas muito estranhas só para viverem a experiência.
Žofie-Helene olhou para Stephan com um interesse renovado.
— És mesmo escritor?
— Vão… Vão oferecer-me uma máquina de escrever no Natal — indicou Stephan. — Ou, pelo menos, é o que espero.
— Fazem máquinas especiais?
— Especiais?
— Não é estranho ser canhoto?
Stephan olhou para as mãos, confuso, enquanto ela voltava a abrir o ralo de onde saíra e entrava na parede de gatas. Segundos depois, voltou a espreitar.
— Então, anda, Stephan. Os ensaios estão quase a acabar — replicou. — Não te importarás de sujar um pouco essa tua roupa de escritor, pois não? Para viver a experiência.