Kitabı oxu: «Versos de Bulhão Pato»
Raimundo António de Bulhão Pato
Versos de Bulhão Pato

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066408114
Índice de conteúdo
A HELENA
I
A CONVALESCENTE NO OUTONO
II
FELIZ DE AMOR!
III
VAES PARTIR!
IV
A JULIA
(Da Paquita)
V
IMPROVISO
VI
A UM RETRATO
VII
QUIEN NO AMA, NO VIVE
VIII
AMANHÃ!
ANJO CAÍDO
X
PIEDADE!
XI
BELLEZA E MORTE
XII
ORAÇÃO DA MANHÃ
Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho
XIII
CARIDADE
Á Ex. ma Sr. a Viscondessa d'Asseca
XIV
BELLA SEM CORAÇÃO
XV
PERDOASTE!
XVI
TRES RETRATOS
(Num album)
XVII
ADEUS
XVIII
A VISÃO DO BAILE
XIX
RECEIOS
XX
LEMBRAS-TE?
XXI
POIS SER PALLIDA É DEFEITO?
XXII
DEVER
XXIII
Á morte da Ex. ma Sr. a D. M. Henriqueta de Campos Valdez
XXIV
PARISINA
A Pedro Jacome Corrêa
PARISINA
Imitação
XXV
A VALSA
XXVI
RECORDAÇÕES
XXVII
SÊ FELIZ
XXVIII
A FOLHA DESBOTADA
XXIX
NUM ALBUM
XXX
ONDE SE ENCONTRA A VENTURA?
XXXI
QUEM DIRÁ?
XXXII
UM BRINDE
(Improviso)
XXXIII
AQUELLE DIA!
XXXIV
PARA RECITAR AO PIANO
(Primeira)
XXXV
(Segunda)
XXXVI
(Terceira)
XXXVII
CIUMES DO PASSADO
XXXVIII
NUM ALBUM
(Improviso)
XXXIX
AMOR E DUVIDA
XL
NUM ALBUM
XLI
SE CORAS NÃO CONTO.
XLII
ANJO E VIRGEM.
XLIII
A M. ME LOTTI
Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo de infancia desvallida.
XLIV
PRIMAVERA
XLV
VOLTAS
(Improviso)
XLVI
LELIA
XLVII
HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA
XLVIII
GRATIDÃO E SAUDADE
(Recitada no Theatro)
XLIX
Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua filha.
L
CANÇÃO DOS PIRATAS
(Traduzido do Corsario de Byron)
LI
NUM ALBUM
Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns versos.
LII
Á memoria da Ex. ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha.
A HELENA
Índice de conteúdo
Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos
O teu saudoso valle, e lentamente
Pela elevada encosta caminhámos?
O sol do estio ardente,
Já não brilhava nos frondosos ramos
Do arvoredo virente.
Chegára o fim do outono: a natureza,
Sem ter os mimos da estação festiva,
Nem aquelle esplendor e gentileza
Que tem na quadra estiva,
Na languida tristeza,
Na luz branda e serena
D'aquelle ameno dia,
Que immensa poesia,
E que saudade respirava, Helena!
Subindo pelo monte,
Chegámos ao casal onde habitava
A tua protegida,
Aquella pobre anciã que se agarrava
Aos restos d'esta vida!
Assim que te avistou, ergueu a fronte
Curvada ao peso de tão longa edade,
Sorrindo nesse instante
Com tal vida, que a luz da mocidade
Parecia alegrar o seu semblante!
Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella,
Grosseiras pelo habito constante
Do trabalho da terra,
Queimadas pelo vento sibilante,
E pelo sol da serra,
Produzia essa mão graciosa e bella,
Effeito similhante
Ao que por entre o mato
Produziria a rosa de Benguela,
A flor mais alva e de mais fino trato!
Vinte annos tu contavas nesse dia;
A fiel servidora,
Era a primeira vez que não podia
Deixar a casa ao despontar da aurora,
E cheia de alegria
Caminhar para o valle como outr'ora,
Depôr uma lembrança em teu regaço,
E unir-te ao coração num meigo abraço!
Tu, na força da vida,
Circundada de luz e formosura,
Foste levar á pobre desvalida
Os dons do lar paterno;
Alegrar com teu riso de ternura
Aquelle frio inverno!
Ao ver-te com teus braços,
Nos seus braços senis entrelaçados,
A ventura nos olhos encantados,
A inspiração na fronte deslumbrante,
Afigurou-me então o pensamento
Ver um anjo descido dos espaços,
D'aspecto fulgurante,
Enviado por Deus nesse momento,
Para animar os derradeiros dias
De quem cançado do lidar constante
Abre o seio na morte ás alegrias!
As lagrimas de gosto,
Corriam cristalinas
No rosto d'ella e no teu bello rosto!
Como orvalhos do ceo aquelles prantos,
Um brilhava na hera das ruinas,
Outro na flor de festivaes encantos,
Na rosa das campinas!
Quando voltaste a mim illuminava
O teu semblante uma alegria infinda.
Depois quizeste ainda
Ir visitar a ermida que ficava
No apice do monte:
Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos.
No esplendido horisonte
Já declinava o sol quando chegámos.
Era singelo, mas sublime o quadro!
Em roda o mato agreste;
No meio a pobre ermida; ao lado d'ella
Um secular cypreste,
E sobre a cruz do adro
Pendente uma capella
De algumas tristes, desbotadas flores,
Talvez emblema de profundas dores!
Oh! como tu, suspensa
Num extasi ideal de sentimento,
Expandias o livre pensamento
Pela amplidão immensa!
Como depois descendo das alturas
Aonde te arrojára a phantazia,
Parece que a tua alma me trazia
Occulto premio de immortaes venturas!
Tanto expressava o teu olhar profundo,
Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia
O homem neste mundo,
Jámais me trouxe a idéa
Do suppremo poder da Providencia
Com tamanha eloquencia!
O sol quasi no termo
Com um brando reflexo,
Cingia a cruz do ermo
Em amoroso amplexo!
O rei da creação, o astro orgulhoso,
Que enche a terra de luz,
Tambem vinha prostrar-se saudoso
Aos pés da humilde cruz!
Era solemne e santo
Naquell'hora supprema o teu aspecto!
Nos labios a oração, no rosto o pranto,
As mãos cruzadas sobre o seio inquieto,
Os olhos postos na amplidão do espaço,
E em derredor da frente
Um luminoso traço
A inundarte de luz resplandecente!
..................................
Branda a tarde expirou! D'aquelle dia,
E de outros dias de íntimas venturas,
De immensa poesia,
Nasceram essas paginas obscuras,
Que hoje a teus pés deponho,
Como saudoso emblema,
Do tempo em que sorrira
O nosso bello sonho!
Terias um poema,
Se tão gratas memorias
Podessem ser cantadas numa lyra
Votada a eternas glorias!
Emfim: se um pensamento,
Se uma singela idéa onde transpire
O perfume de vivo sentimento,
Nestas folhas traçar a minha penna...
A estrophe, o canto que o leitor admire,
Seja o teu nome, Helena!
6 de Junho de 1862.
I
Índice de conteúdo
A CONVALESCENTE NO OUTONO
Índice de conteúdo
Revive teu rosto pallido
Á chamma do meu amor;
De novo com mais ardor
Pula em teu seio, querida,
O sangue, o prazer, a vida.
O sopro que na existencia
D'esta luz nos illumina,
Não se ha de extinguir jámais;
Oh! provém da mesma essencia,
Da mesma porção divina,
Com que a mão da Providencia
Torna as almas immortais!
Firma teu braço ao meu braço,
Vem commigo respirar
Este ar vivo e salutar.
Não sentes na luz do ceo,
E no perfume saudoso
Do bosque espesso e formoso,
Que o doce outono volveu?
As folhas que pelo chão
Crestadas dispersa o vento,
Não desprendem um lamento
Que intristece o coração!?
E a voz d'essa ave amorosa,
Que alem na balsa murmura,
Melancolico modilho,
Não parece a voz saudosa
Da mãe que adormenta o filho
Entre os braços com ternura?
D'aquelle pobre casal,
O fumo que vae subindo
Em ondulante espiral,
Não diz que em volta do lar
Se reune a pobre gente,
Que já de perto pressente,
O frio inverno chegar?
Não vês que ha tanta tristeza
Na voz que se eleva a Deus
Agora da natureza!
Oh! mas como aos olhos teus,
E como ao meu coração
É grata a melancolia
D'esta languida estação!
Toda a explendida poesia
Do ceo, da terra, e das flores,
Quando mil cansões de amores
Improvisa o rouxinol,
Alegrando o mez de maio
Desde os clarões do arreból
Até que em doce desmaio
Nas aguas se occulte o sol,
Terá, sim, tem mais frescura,
Mais vida e mais esplendor,
Mas não tem tanta ternura,
Nem respira tanto amor!
Paremos aqui, descansa
Um momento neste abrigo;
O sopro da aragem mansa
Anda em roda a murmurar,
E um raio de sol amigo,
A teus pés se vem prostrar
...........................
Oh! que noites de amargura!
Que horas lentas de agonia!
Que instantes naquelle dia,
Quando tu sem voz, sem gesto,
Suspensa num fio a vida...
Emfim te julguei perdida!
Chegára a noite; uma estrella,
Uma só, não transluzia
No ceo triste e carregado;
Oppresso e desalentado,
O coração me batia.
Pouco a pouco no horisonte
Foi rompendo a nevoa densa;
Era a vida, a luz, o dia,
Aquella alegria immensa,
Que no murmurar da fonte,
No perfume da campina,
Na brisa e na voz divina
Do amoroso rouxinol,
Seduz, arrebata, inspira,
Quando acorda a terra em canticos,
Aos raios vivos do sol!
«Pois tudo se anima agora,
Tudo nasce com a aurora,
Tudo é vida e tudo é luz;
Só nesta face adorada,
Inerte, fria, gelada,
Nem um só clarão reluz!»
Ouviu Deus naquelle instante
A minha supplica ardente;
Em teu lívido semblante
Vi despontar docemente
Um reflexo semelhante
Ao que o sol derrama á tarde
Sobre as nuvens do ponente.
Prostrei-me a rogar então;
E essa estrella de bonança,
Essa casta divindade,
Risonha irmã do infortunio,
Companheira da saudade,
Que o mundo chama—Esperança—
Senti-a no coração!
Com aquelle sol explendido
Que rompêra a nevoa densa,
E com a alegria immensa
Do mar, da terra, e dos ceos,
Quiz de novo a Providencia
Que eu visse nos olhos teus
O mundo, a luz, a existencia!
Agora pois, neste instante,
Agora, que lá distante,
O sino da pobre ermida
Dá signal do fim do dia,
Co' a prece da Ave-Maria, Ergâ-mos, ambos querida, Graças mil a Deus piedoso, Por te haver tornado á vida!
Setembro de 1854.
II
Índice de conteúdo
FELIZ DE AMOR!
Índice de conteúdo
Não sabes que ao ver-te triste,
E pensativa a meu lado,
O rosto na mão firmado.
E os olhos postos no chão,
Calado, ancioso, anhelante,
Quero ler no teu semblante
A causa da dôr constante
Que te opprime o coração?
Pois não basta o meu amor
Para te dar a ventura?
Responde: quando a luz pura
Do sol vem beijar a flor,
Não lhe accende mais a côr?
Não lhe dá mais formosura?
Agora, quando se inflamma
Em teu peito aquella chamma,
Á qual tudo se illumina
De viva, encantada luz,
Dize: é quando, minha vida,
Pallida, triste, abatida,
A tua fronte se inclina,
E melancolica sombra,
De mal contida amargura
Nos teus olhos se traduz?!
Certeza de que és amada
Com quanto poder na terra
Em peito de homem se encerra,
Tem-la em tua alma gravada!
Então de fundo desgosto
Porque vem nuvem pesada
Carregar teu bello rosto?
Pois se ao vívido calor
Do sol a rosa fulgura
E redobra aroma e côr,
Não te ha de dar a ventura
A chamma do meu amor?!
Maio de 1859.
III
Índice de conteúdo
VAES PARTIR!
Índice de conteúdo
Vaes partir! cada instante que passa
Aproxima o adeus derradeiro,
Para mim neste mundo o primeiro,
Que teus olhos proferem aos meus!
Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
Treme agora uma lagrima anciosa,
Já deslisa na face formosa,
Já teus labios me dizem adeus!
Vaes partir! contemplar esses campos,
Que o sol vivo de abril illumina,
Ver as relvas da alegre campina
Já cobertas agora de flor.
Escutar as estrophes sentidas
Que de tarde improvisam as aves,
Recordar os instantes suaves
De outros dias de encanto, e de amor.
Vaes partir! vaes tornar aos logares
Testemunhas de um ceo de delicias,
Que em suaves risonhas caricias,
Para nós neste mundo brilhou!
Cada flor, cada tronco viçoso,
Cada espaço de relva florída
Vae lembrar-te uma scena da vida,
Um momento feliz que passou!
Quando for aos clarões da alvorada
O perfume das plantas mais brando,
Quando as aves voarem em bando,
E cantarem ditosas no val;
Quando as aguas correrem mais vivas,
Pelo verde declivio do monte,
Quando as rosas erguerem a fronte
Animadas de um sopro vital...
Que saudade! ai que funda saudade
Has de ter d'esse tempo encantado,
Em que bella e feliz a meu lado
Viste as pompas da terra e dos ceos!
Quando a aurora era a pura alegria,
Uma vaga saudade o sol posto,
Quando meigo sorria teu rosto
Se eu fitava meus olhos nos teus!
.................................
Vaes partir! cada instante que passa
Aproxima o adeus derradeiro,
Para mim neste mundo o primeiro
Que teus olhos proferem aos meus!
Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
Treme agora uma lagrima anciosa,
Já deslisa na face formosa,
Já teus labios me dizem adeus!
Abril de 1855.
IV
Índice de conteúdo
A JULIA
Índice de conteúdo
(Da Paquita)
Índice de conteúdo
Naquella deserta ermida,
Que alveja na serrania,
Deu signal, Julia querida,
O sino da Ave-Maria. Este som tão conhecido Da nossa innocente infancia, Como agora vem sentido Trazer-me viva á lembrança, Toda essa doce fragrancia D'aquelle existir d'então! Ai! lembrança não, saudade! Saudade Julia, tão funda... Mas tão grata, que me innunda De ventura o coração. Espera... se neste instante Mandasse á terra o Senhor, Anjo de meigo semblante, E aos dias d'aquella edade Nos tornasse o seu amor... Oh! responde-me, querida, Se quanto depois na vida De bello nos ha passado, Não devera ser trocado Por esses dias em flor?! Que lá vão! lembras-te ainda? Tu risonha doidejavas, Por entre as moitas de flores Como ellas fragrante e linda. Quando o som pausado e lento D'Ave-Maria escutavas, Então naquelle momento Aos pés da Cruz te prostravas!... Que fronte de anjo era a tua Vista ao reflexo amoroso Dos frouxos raios da lua! Uma tarde, ao pôr do sol, No recosto pedregoso Do monte nos encontrámos; Lembras-te! essa hora bateu, Porem nós mal a escutámos! Os olhos, tu perturbada, Baixavas, e no semblante Não sei que luz te brilhava, Eu sei que naquelle instante O prazer me enlouqueceu. Oh! fatal loucura aquella! Tinha-me ali tão perdido, Que, sem mais ver, delirante Nos braços te arrebatei. Não sei por onde vagava, Nem quanto, nem como andei; Só me lembra que a ventura Ali real me fallava, E que aos incertos lampejos Das estrellas desmaiadas, Impremi ardentes beijos Nas tuas faces rosadas! Foi breve aquelle delirio; Ao menos breve o julguei; E quando, outra vez á vida De sobressalto voltei, Desbotada como um lyrio Pelos vendavaes batido, Nos meus braços te encontrei!
Setembro de 1851
V
Índice de conteúdo
IMPROVISO
Índice de conteúdo
Porque languida essa frente
Descai, quando a tarde espira?
Porque nesse olhar dormente
Tua alma ingenua suspira?
Porque? ai! porque? responde;
Que se amor do ceo procura,
Eil-o; em meu peito se esconde;
Vive, é teu, tens a ventura!
Verás como então brilhante,
Seduz, toma vida, inspira,
Esse teu bello semblante,
Que apenas hoje se admira!
Ilha da Madeira—Novembro de 1850.
VI
Índice de conteúdo
A UM RETRATO
Índice de conteúdo
És tu, sim, o mesmo olhar,
A mesma ardente expressão,
Com que teus olhos sabiam,
Tão habilmente occultar
O gêlo do coração.
Como fascina o teu ser?
Agora, que eu posso ver,
Vejo bem que não és bella.
Quem for buscar no teu rosto,
A severa correcção
Que esta palavra revela,
Tirar feição, por feição...
Não pode achal-a, bem sei.
Oh! mas nessa viva luz,
Que teus olhos illumina,
Ha de achar, como eu achei,
O fogo que nos seduz,
A chamma que nos fascina!
E agora vais escutar;
Agora, que a Providencia
Piedosa me quiz salvar
D'essa fatal influencia,
Vais saber como te amei!
Não é sómente da gloria,
Das illusões, da ventura,
Que é doce narrar a historia.
Repassando na memoria
Tantas scenas de amargura,
Vendo-as saltar palpitantes
Ante meus olhos agora,
Com toda a sinistra pompa
Da vida que tinham d'antes,
Ao ver de quanto é capaz,
Não sabes?... na propria dor,
O coração se compraz!
Medindo o padecimento
Do martyrio atroz e lento
Que me trouxe o teu amor,
S'inda aterrado contemplo,
As crenças que fui depôr
Sobre as aras d'esse templo,
A dor do arrependimento
Ha de salvar-me da culpa
Ante os olhos do Senhor.
Ai de ti! mil vezes mais
És tu desgraçada agora!
Viveste, reinaste um'hora,
E com que imperio! jámais,
Em delirio o pensamento
Te fez julgar adorada
Como eu te adorei, jámais!
Ninguem neste mundo ousára,
Erguer a mão para um culto
Tão santo como eu criára!
Tu foste a que, cega um dia,
Por loucura e por vaidade,
As crenças que nelle havia,
Destruiste sem piedade!
Punida estás, bem punida,
Sabe pois que amor do ceo,
Amor como foi o meu,
Encontra-se um só na vida!
Inda ao ver-te... porque não,
Porque t'o devo occultar?!
Este morto coração,
De novo sinto pular
Em meu peito fatigado!
Emfim, se o destino agora,
Quer que não possa existir
Da esperança do porvir,
Deixal-o existir embora,
Da saudade do passado!
Esse é meu como tu foste
Na illusão de tanto amor,
E tu mesma, tu, que um dia
Com semblante mudo e frio
Lhe disseste o extremo adeus,
Com quanto remorso e dor
Has de ter rogado a Deus
Perdão de tal desvario!
E dizes tu que ao dever, Sacrificaste a existencia E sujeitaste o meu ser!!... Pois ha dever neste mundo, Que aos olhos da Providencia, Possa mais alto valer Do que aquelle amor profundo Que tu fizeste nascer?! ............................. ............................. Quando foi? vivo o momento, E quanto então nos cercava Existe em meu pensamento: Era á tarde; o firmamento, De nuvens se carregava, E nos fraguedos da costa O mar soturno quebrava. Olhei-te, e vi nesse instante, Assumir o teu semblante, Aquella mesma expressão, Que de toda a natureza Fatal respirava então. Pausada, lenta, glacial, A tua voz respondia, A tudo que eu proferia! E depois dos labios teus Desprendeste um frio adeus! Cuidaste sacrificar A Deus em tua loucura, Sem ver que foste apagar A chamma d'essa ternura Que só elle pode dar, E te atreveste a tentar O poder do Creador, Na obra da creatura! Ai de ti! mil vezes mais És tu desgraçada agora! Viveste, reinaste um'hora, E d'esse imperio, jámais Na terra serás senhora!
Fevereiro de 1855.
VII
Índice de conteúdo
QUIEN NO AMA, NO VIVE
Índice de conteúdo
Pois não vês que se a luz do sol nascente
Á rosa na manhã desabroxada,
Não illumina as folhas, desbotada
Fica n'aste pendente,
Sem perfume, sem vida abandonada?
Dize: então queres tu que a formosura
Que o Senhor estampou no teu semblante,
Sem renome, sem gloria, passe obscura
No mundo em que radiante
Ostentar-se podia magestosa?
Queres vel-a abatida como a rosa
Que o sol não illumina?
Pois o que falta a essa fronte bella?
Oh! vais sabel-o:—O amor!
Que se anime e reviva á luz divina
E verás se depois alguem ao vel-a
Lhe nega o seu fulgor!
Ajuda 1850.
VIII
Índice de conteúdo
AMANHÃ!
Índice de conteúdo
Resta um dia, mais um dia,
Algumas horas ainda
De amor, de ternura infinda!
Amanhã nos olhos teus,
Uma lagrima sentida;
Em teus labios, um adeus! O instante da despedida Tão perto está!... Minha vida, Crava teus olhos nos meus, Um sorriso, um beijo ainda, Mais um'hora de ternura, De amor, de alegria infinda Antes d'esse longo adeus! Adeus de tanta amargura! Sabe Deus! oh! sabe Deus, Quando outros dias virão, Tão gratos ao coração! Quando nessa face linda Verei sorrir a ventura; Mas agora um beijo ainda Antes que chegue o momento De soltar o extremo adeus! Oh! tira do pensamento, A hora da despedida; Mais um instante de vida, De delicia e gloria infinda!... Amanhã!... ai! não te lembres De tal dia de amargura! Crava teus olhos nos meus; Inda um'hora de ventura, De amor, de alegria infinda Sorrindo nos olhos teus: Um beijo, mais outro ainda, O derradeiro: oh! adeus!
Abril de 1857.
ANJO CAÍDO
Índice de conteúdo
Na flor da vida, formosa,
Ingenua, casta, innocente,
Eras tu no mundo, rosa!
Quem te arrojou de repente
Para o abysmo fatal!
Viste um dia o sol de abril;
O teu seio virginal
Sorriu alegre e gentil.
Ergueu-se aos clarões suaves
D'aquella doce alvorada
A tua face encantada.
Amaste o doce gorgeio
Que desprendiam as aves,
E no teu candido seio
Quanto amor, quanta illusão
Alegre pulava então!
Mal haja o fatal destino,
Maldita a sinistra mão,
Que em teu calix purpurino
Derramou fera e brutal
Esse veneno fatal.
Hoje és bella; mas teu rosto
Que outr'ora alegre sorria,
É todo melancolia!
Hoje nem sol, nem estrella,
Para ti brilha no ceo;
Mal haja quem te perdeu!
Novembro de 1857.
X
Índice de conteúdo
PIEDADE!
Índice de conteúdo
Em torno da mesma idéa,
Meu ardente pensamento
Constantemente volteia.
Que horas estas de tormento!
E póde viver-se assim?
Que força tens, coração?
Pois tudo que sinto em mim
És capaz de supportar?
Oh! basta! por compaixão
Deixa emfim de palpitar!
Agosto de 1856.
XI
Índice de conteúdo
BELLEZA E MORTE
Índice de conteúdo
Quando Deus á terra envia
Um anjo dos seus, é breve
A vida que lhe confia.
.........................
Como a flor branca de neve
Que ao primeiro alvor do dia
No prado desabroxou,
Assim ella veiu ao mundo,
E tão rapida passou,
Que d'este rumor profundo
Nem um som, nem um gemido
Por esse anjo foi ouvido!
Nasceu, e sorrindo amou!
Quem ao vel-a tão ditosa
Tão feliz por ser amada,
E tão feliz por amar,
Bella, fragrante, viçosa,
Cheia de vida no olhar,
De luz na face encantada;
Quem diria que esse amor
Seria a chamma fatal,
Que a devia emfim matar!?
Pobre florinha do val,
Da aurora ao primeiro alvor
Nasceu, e sorrindo, amou,
Mas com a tarde... expirou!
Junho de 1857.
XII
Índice de conteúdo
ORAÇÃO DA MANHÃ
Índice de conteúdo
Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho
Índice de conteúdo
Vem reflorindo a aurora;
A voz do rouxinol,
Mais inspirada agora,
Sauda a luz do sol.
A perfumada aragem
Beija no campo a flor;
Tudo sorri á imagem,
Do nosso Creador.
No bosque as avesinhas
Soltam os hymnos seus;
No berço as criancinhas
Resam tambem a Deus.
«Por minha mãe, por ella,
E por meu pae, Senhor!
Dai-lhes propicia estrella,
Gloria, ventura, amor!
«Cercai de mil delicias,
A sua vida emfim,
Como elles de caricias
Me tem cercado a mim.
«As preces da innocencia
No ceo ouvidas são;
E a minha, oh Providencia,
Parte do coração,
«Parte ao florir da aurora,
Co'a voz do rouxinol,
Que se desprende agora
Saudando a luz do sol!»
Junho de 1859.
XIII
Índice de conteúdo
CARIDADE
Índice de conteúdo
Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca
Índice de conteúdo
Como avesinhas implumes
Enjeitadas nos seus ninhos,
Deixa a sorte os pobresinhos,
Sem lar, sem pão, sem carinhos
De maternal coração.
Escutando os seus queixumes,
Compassiva a Providencia,
Volve os olhos á innocencia,
E em sua eterna clemencia
Da-lhes lar, ensino, e pão.
Mais vivos torna os desejos
No seio da caridade,
Que á desvalida orfandade
Vai com sincera piedade
Inundar de puro amor;
Amor, que em candidos beijos,
Suavemente procura
Dar conforto na amargura,
Aos que fez a desventura,
Orfãos no berço e na dor.
A quem busca a Providencia
Para amparar o destino,
Do que pobre e pequenino
Se encontra sem luz, sem tino,
Logo no mundo ao nascer!?
Anjos de viva clemencia,
Que onde existe o sofrimento,
Correm, voam num momento,
A dar todo o sentimento,
Que taes almas sabem ter!
São ellas mães, são esposas,
E recordando os carinhos
Que tiveram seus filhinhos,
Não podem ver pobresinhos
Sem amor, sem lar, sem pão!
No berço desfolham rosas,
Onde espinhos só havia,
E o sol de pura alegria,
Já de affectos alumia,
Dos orfãos o coração.
Salve pois, oh Caridade!
Que assim abres o teu seio,
Áquelle que sem esteio,
Á luz d'este mundo veiu
Para viver na afflicção.
Salve casta divindade!
Terna irmã da desventura,
Que os suspiros da amargura
Convertes á creatura
Em risos de gratidão!
Junho de 1856.
XIV
Índice de conteúdo
BELLA SEM CORAÇÃO
Índice de conteúdo
Era uma esplendida imagem
De olhos rasgados e bellos;
Negros, negros os cabellos;
Boca gentil como a rosa,
Que á luz da manhã formosa
Sorri ao sopro da aragem.
Alta, graciosa, elegante,
Um ar de tal distincção,
Na figura e no semblante,
Que eu disse commigo ao vel-a:
«Como esta mulher é bella,
Sobre tudo na expressão
De pallidez namorada,
Que tem na face encantada!
Esta sim, por Deus o juro,
Esta ha de ter coração!»
A estação, o sitio, a hora...
Era a hora do sol posto,
E um frouxo raio de luz
Vinha bater-lhe no rosto.
A estação o meigo outono,
Quando o prado se descora,
No bosque cessa a harmonia,
Quando tudo emfim seduz
Com vaga melancolia.
O sitio, ameno e saudoso,
Onde livre a alma podia
Dar-se inteira aos sentimentos
De paz, de amor, de poesia!
Aproximei-me da imagem
Meiga, risonha, singela;
Soltára a voz, era bella,
Bella sim, vibrante e pura,
Mas sem aquella ternura,
Sem aquelle sentimento,
Que diz tudo num momento!
Sem tremor, sem sobresalto,
Voz que dos labios saía,
Dos labios só, que se via,
Não provir do coração;
Voz sonora, porem fria;
Bella sim, mas sem paixão.
«Pois essa gentil figura,
Esse pallido semblante,
Essa expressão de ternura
Que todo o teu ar respira,
A luz do olhar scintillante,
Dize emfim: quanto se admira,
Quanto ao ver-te nos encanta,
Será sem alma, e sem vida?!»
Sorrindo me respondeu:
«Aqui não ha coração!»
Mas eu vi que elle bateu
D'essa vez precipitado
Por que a sua nivea mão
Tentou comprimil-o em vão!
E no olhar enamorado,
E na voz que estremecia,
Oh! Deus! o que não dizia
A bella sem coração!
Setembro de 1856.
XV
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PERDOASTE!
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Anjo offendido; outra vez,
Volve teus olhos do ceo
Áquelle que te offendeu!
Vel-o abatido a teus pés,
Anjo esquece, e compassivo,
Num sorriso de perdão,
Torna a dar-lhe o coração.
A cada instante mais vivo
O remorso cresce em mim;
Perdoa, oh! perdoa, emfim!
Offendi-te num momento
De terrivel desvario;
Era o ciume violento!
O rubor da castidade
A tua face affrontava,
E eu cego, eu perdido, ousava
Proseguir! oh! por piedade,
Por piedade, anjo do ceo,
Perdoa a quem te offendeu!
Em breve a razão voltou,
E com ella essa anciedade
Do desgraçado que ousou
Num momento de loucura
Offender a divindade.
Nas trevas da noite escura,
Nem ao menos uma estrella,
Brilhava serena e bella!
E eu caminhava em delirio
Sem força para acabar
A vida que era um martyrio!
A tão profunda amargura
Quem me podia arrancar,
Quem, senão um teu olhar?
Lá, nas sombras do horisonte,
Despontou por fim a luz,
A mesma que em tua fronte
Bella e placida reluz.
No peito afflicto e cançado
Senti dilatar-se então
Este oppresso coração;
O teu olhar adorado
A mim outra vez volveu,
Terno, meigo, apaixonado.
Perdoaste, anjo do ceo!
Abril de 1857.
XVI
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TRES RETRATOS
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(Num album)
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Como as horas passam rapidas
Nesta doce companhia!
Brilha impaciente alegria
Em tudo á roda de mim.
Nunca fui tão venturoso,
Nunca a mão da Providencia
Fez com que eu visse a existencia
Tão bella e risonha emfim.
Esta noite, quando a lua
No horisonte resvalava,
Inspirado a saudava
Nas balsas o rouxinol.
Vem agora a primavera
Abrindo o virginio manto,
Cada dia um novo encanto
Nos traz o romper do sol.
Como a vida assim é bella,
Nesta amena convivencia,
Com tres anjos de innocencia
De formosura, e de amor!
Dezaseis annos talvez
Não tem Julia, bem contados,
Alta, airosa, olhos rasgados,
E sorriso encantador.
O pesinho estreito e breve
Cinturinha delicada,
A fronte um pouco inclinada,
Com seu ar sentimental.
Na ramagem das pestanas
Occulta a traidora chamma,
Que no instante em que se inflamma
Dardeja um raio mortal.
Mas que morte tão suave!
Inda ha pouco, em certa hora,
Que essa chamma seductora
O coração me accendeu...
Se é morte esquecer a terra,
Naquelle instante morria,
Por que tudo o que sentia,
Era a ventura do ceo!
Vel-a sorrir entre os campos,
Bella, candida, animada,
Como as flores que a alvorada
De sua luz inundou!...
Vel-a, co'as mãos impacientes,
Afastar do rosto bello,
O basto e fino cabello,
Que a aragem desalinhou!
Vel-a depois pensativa,
Quando tibio o sol declina,
Na corrente cristalina
Os olhos negros fitar!
Vagas sombras de tristeza
Que vem toldar-lhe o semblante,
São tão bellas nesse instante,
Dizem tanto sem fallar!
Laura, Elisa, as outras duas,
Laura, pallida e morena,
Baixa um pouco, mão pequena,
Expressivas as feições;
Os olhos claros e vivos,
No seu brilho insinuante,
Reflectem a cada instante
Milhares de sensações.
Eliza, a timida Eliza,
Que innocente singeleza,
Que perfume, que belleza
Naquella face gentil!
Cabellos loiros cendrados,
Olhos d'esse azul escuro,
Que é semelhante ao ceo puro
De um bello dia de abril!
As rosas da formosura
Sempre vivas no semblante,
O corpo esbelto e ondulante,
Se é permittida a expressão;
Uma tal ingenuidade,
No seu todo se revela,
Que em se olhando para ella,
Bate alegre o coração.
Tirados daguerreotypo
Não ficavam mais exactos
De certo estes tres retratos
Que procurei desenhar;
Qual porém é mais sympathico,
Mais perfeito, deve agora
Dizel-o a amavel senhora
Do livro onde os vou deixar.
Eu de certo não me atrevo!
Nos olhos tem Julia a chamma
Que nos sentidos derrama
Torrentes de languidez!
Laura... Eliza... mil encantos;
Emfim, não sei qual prefiro,
Não sei a que mais admiro,
Sei que adoro a todas tres!
Setembro de 1857.
Pulsuz fraqment bitdi.