Kitabı oxu: «Mais do que uma dúvida»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2002 Sara Craven

© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Mais do que uma dúvida, n.º 698 - setembro 2020

Título original: His Convenient Marriage

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-799-1

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

– Chessie… Oh, Chess, não vais acreditar no que ouvi nos correios.

Francesca Lloyd franziu ligeiramente o nariz, mas não afastou os olhos do monitor do computador, quando a sua irmã mais nova entrou na sala.

– Jen, já te disse um milhão de vezes que não deves vir para esta parte da casa, sobretudo quando estou a trabalhar.

– Deixa-te de parvoíces – Jenny sentou-se num canto da mesa depois de afastar os papéis para se poder sentar. – Tinha que te ver e o ogro ainda vai demorar umas quantas horas antes de voltar de Londres – acrescentou. – Reparei que o carro dele não estava aqui.

Chessie cerrou os lábios.

– Por favor, não lhe chames isso. Não é justo.

– Ele também não é justo – Jenny fez uma careta. – E talvez não seja preciso que continues a trabalhar para ele por muito mais tempo – excitada, respirou fundo. – Ouvi a senhora Cummings dizer que a administradora dos correios recebeu ordens para abrir novamente Wenmore Court, o que quer dizer que Alastair finalmente vai voltar.

Chessie parou de escrever momentaneamente e o seu coração deu um salto.

– A povoação vai receber a notícia com alegria – comentou Chessie, obrigando-se a manter uma voz neutral. – A casa tem estado fechada há demasiado tempo, mas seja como for, a nós não nos vai afectar.

– Por favor, Chessie, não sejas tola – Jenny suspirou, impacientemente. – Claro que nos vai afectar, não te esqueças que Alastair e tu estiveram quase noivos.

– Não – Chessie olhou para a sua irmã – não estivemos quase noivos. E não voltes a dizer isso.

– Terias sido a noiva dele se o seu pai não o tivesse mandado para os Estados Unidos para estudar Economia – replicou Jenny. – Toda a gente sabia que vocês estavam apaixonados.

– Éramos muito novos – Chessie voltou a escrever no teclado. – Aconteceram muitas coisas desde essa altura, tudo mudou.

– A sério que achas que Alastair se vai importar com o que aconteceu? – inquiriu Jenny, num tom de desafio.

– Sim, é isso que penso – ainda a magoava lembrar-se que as cartas, semanais no início, tinham-se tornado em mensais e, depois do primeiro ano, tinham parado completamente.

Desde aquela altura, a única notícia que recebera dele fora uma breve mensagem para lhe dar as condolências pela morte do seu pai.

E se Alastair soubera que Neville Lloyd tinha falecido, também deveria saber as circunstâncias da sua morte.

– Às vezes, és insuportável – declarou Jenny, num tom acusador. – Pensei que irias ficar contente com a notícia. Vim a correr para te contar.

– Jen, não deves ter ilusões – Chessie, fez um esforço para utilizar um tom de voz suave. – Já passaram três anos e eu e Alastair já não somos os mesmos – Chessie endireitou os ombros. – E agora tenho que continuar a trabalhar. Não quero que o senhor Hunter te encontre aqui outra vez.

– Está bem – Jenny desceu da mesa. – Mas adoraria que Alastair te propusesse casamento, assim poderias mandar o ogro e o seu maldito trabalho à fava.

Chessie conteve um suspiro.

– Não é um trabalho maldito. É um bom emprego e o salário também é bom. Permite-nos sobreviver e continuar na nossa casa.

– Como empregadas! – exclamou Jenny, com profunda amargura. – Mas que sorte!

Jenny saiu da sala e bateu com a porta.

Chessie ficou imóvel durante uns instantes. Preocupava-a que Jenny, apesar do tempo que correra, não se tivesse adaptado às novas circunstâncias.

A sua irmã não conseguia compreender que Silvertrees já não lhes pertencia, nem que a única parte que podiam ocupar fosse o andar da antiga governanta.

– E é isso que eu sou agora, a governanta – declarou Chessie, em voz alta.

– Não quero, nem preciso de muito serviço – dissera Miles Hunter, naquela primeira entrevista. – Preciso de alguém que se encarregue da casa com eficiência e também preciso de trabalho de secretariado.

– Que trabalho de secretariado, exactamente? – perguntara-lhe, fitando o seu impassível e provável patrão, tentando avaliá-lo. Mas não era uma tarefa fácil. As roupas dele, informalmente elegantes, não encaixavam com as duras feições do seu rosto, ainda marcadas pela cicatriz que ia desde uma das maçãs do rosto até à comissura da boca, que nunca sorria.

– Estava a utilizar uma velha máquina de escrever, menina Lloyd. No entanto, agora os meus editores pediram-me para entregar os manuscritos em disquete. Poderá tratar disso?

Ela anuíra.

– Bom, quanto ao trabalho doméstico, a menina é quem decidirá que ajuda é que vai precisar. Suponho que irá precisar de alguém que venha diariamente limpar a casa, mas o primordial é que eu tenha paz e sossego enquanto escrevo. Também é fundamental que não seja incomodado por ninguém.

Miles Hunter fizera uma pausa antes de acrescentar:

– Sei que vai ser difícil para si, no fim de contas, morou em Silvertrees toda a sua vida e está habituada a fazer o que quer e receio que isso não vá ser possível.

– Não. Compreendo – replicara Chessie.

Fez-se outro breve silêncio.

– Talvez não queira aceitar este emprego, no entanto, o seu advogado é da opinião de que isto nos evitaria problemas aos dois.

Os olhos azuis do homem contrastavam com o profundo bronzeado do seu rosto magro.

– Então, o que é que acha, menina Lloyd? Está disposta a sacrificar o seu orgulho e aceitar a minha proposta?

Ela mostrou-se indiferente perante o ligeiro tom de troça do homem.

– Neste momento, e com uma irmã a meu cargo, o orgulho é um luxo que não me posso permitir, senhor Hunter. Agradeço e aceito a sua oferta na qual está incluída a casa para morar – fez uma pausa. – Vamos tentar não incomodar.

– Não se limite a tentar, menina Lloyd, faça-o – Miles Hunter agarrou nos papéis que estavam em cima da mesa, indicando com um gesto que a entrevista acabara.

Quando ela se levantou, Miles Hunter acrescentara:

– Vou falar com os meus advogados para que façam a redacção do contrato de trabalho.

– Isso é necessário? Não podemos ter um acordo… de palavra?

– Não sou um homem de palavra, menina Lloyd – comentara ele. – E tendo em conta as circunstâncias em que se encontra, também não tenho a certeza de que a menina o seja. Será melhor ter tudo por escrito, não lhe parece?

E assim fora. A sua irmã e ela ocupavam o andar da antiga governanta, pagando um aluguer mínimo, enquanto trabalhava para Miles Hunter.

Naquela altura, desesperada como estava, com pena e com a culpa que sentia pela morte do seu pai, parecera-lhe a melhor solução.

Agora, no entanto, perguntava-se se não deveria ter rejeitado a oferta e ter-se afastado dali.

No entanto, aquilo significara uma escola nova para Jenny, justamente antes dos exames importantes, e ela não tinha querido criar mais problemas na vida da sua irmã.

No início, parecera-lhe que tinha valido a pena: Jenny estava a ir bem na escola e ela tinha a esperança de que mais tarde pudesse ir à universidade. Tinham-lhe dado uma bolsa de estudo, mas, no entanto, isso significava gastos extras.

Por esse motivo, Chessie via-se obrigada a passar os romances policiais de Miles Hunter a computador durante mais uns anos e tomar conta da casa dele.

Não era uma tarefa fácil. Tal como suspeitara no início, não era fácil trabalhar para aquele homem. No entanto, fora da sua jornada laboral, ela mantivera-se escrupulosamente no seu território, mas Jenny não fizera o mesmo.

A sua irmã deixara bem claro que considerava o novo dono da casa como um intruso e que a casa continuava a pertencer-lhe, o que ocasionara algumas vezes sérios problemas.

Chessie levantou-se da cadeira e aproximou-se da janela. De repente, sentia-se inquieta.

Jenny, às vezes, mostrava-se muito intolerante. A queda em desgraça do seu pai e o seu falecimento tinham-na traumatizado, mas isso já não era uma desculpa válida. A sua irmã mais nova não queria aceitar a perda da sua cómoda vida anterior.

Jenny queria que tudo voltasse a ser como antes… mas isso era impossível.

«Eu aceitei», pensou Chessie, com tristeza. «Porque é que ela não o pode fazer?».

Agora, para piorar a situação, parecia que Alastair iria voltar para casa e Jenny tomara isso como a solução para o seu problema e o meio para voltar à sua antiga vida.

Chessie suspirou. O que é que ela daria para ser tão nova e optimista como a sua irmã!

Como fora no passado, quando ela e Alastair namoravam e achavam que o mundo era deles.

Alastair fora o seu primeiro amor, um amor idílico, com passeios no Verão: nadar e jogar ténis e ir ver Alastair a jogar cricket. Um amor cheio de beijos, murmúrios e promessas.

Alastair desejara-a, mas nem sequer agora sabia qual era o verdadeiro motivo pelo qual se contivera.

– Qualquer homem seria capaz de dizer fosse o que fosse para te levar para a cama, querida – dissera Linnet, com a sua voz profunda e rouca. – Não o tornes fácil para ele.

Naquela altura, ela sentira desprezo ao ouvir aquelas palavras, no entanto, não as esquecera, como não esquecera muitas das coisas que Linnet dissera ou fizera.

E, se realmente voltassem a abrir a casa, Linnet também voltaria.

De certa maneira, tinha sido Linnet quem no início os juntara, a ela e a Alastair.

Sir Robert Markham, tal como o pai dela, era viúvo há alguns anos. E todos pensavam que se alguma vez voltasse a casar seria com Gail Travis, a directora do canil local e a sua acompanhante durante os últimos anos.

Mas uma noite, numa festa de caridade, conhecera Linnet Arthur, uma actriz que ganhava a vida a trabalhar como modelo e que também participava em concursos de televisão. Linnet, com o seu cabelo louro, dentes perfeitos e longas pernas, era muito chamativa. E, desde aquela altura, a senhora Travis passara à história.

Depois de um breve noivado, Sir Robert casara com Linnet e levara-a a morar consigo.

Dera uma festa no jardim da mansão para a apresentar e Chessie encontrara Alastair sentado sob uma árvore, ao lado do rio.

– Lamento muito, Alastair.

Ele olhara para ela, com os seus olhos castanhos.

Alastair, de cabelo castanho, extraordinariamente bem parecido e com mais de um metro e oitenta de estatura, tinha sido sempre o seu Deus.

– Como é que ele se atreveu a fazer isto! – exclamara ele. – Como se atreveu a colocar esta boneca no lugar da minha mãe?

Desde aquela altura, os dois tinham começado a chamar Linnet de: «A Bruxa da Madrasta» e tinham passado horas a criticá-la.

– Graças a Deus que vou para a universidade – declarara Alastair, um dia, com resignação trocista. – E, se o puder evitar, não voltarei nas férias.

Não voltaram a ver-se senão passados três anos, mas depois do reencontro tinham-se tornado inseparáveis. Ela tinha acabado o bacharelato e ia começar a trabalhar com o seu pai no fim do Verão, como a sua secretária particular.

Supusera que Alastair faria o mesmo na empresa electrónica do seu pai.

Naquele Verão, Chessie passava muito tempo na casa dele, onde Linnet convencera o seu marido a construir uma piscina.

– Olá – declarara Linnet, um dia, quando se tinham encontrado na piscina. – Então, tu é que és a namorada de Ally deste Verão, não é verdade?

Chessie mordera os lábios.

– Bom dia, Lady Markham – replicara ela, educadamente.

– Por favor, trata-me por Linnet – declarara a mulher, a sorrir. Afinal, somos quase da mesma idade.

Chessie tivera que suportar o venenoso bombardear de perguntas e conselhos a que Linnet a submetera.

Mas nada do que Linnet dissera ou fizera conseguira acabar com a sua felicidade nem com os seus sonhos sobre o futuro.

Isso acontecera inesperadamente, quando Sir Robert anunciara que iria enviar o seu filho para os Estados Unidos para estudar Economia. No início, Alastair opusera-se, mas, no fim, acabara por aceitar os desígnios do seu pai.

– Não podes convencê-lo? – implorara ela.

– Não serve de nada, querida – replicara Alastair, com uma expressão dura. – Quando o meu pai mete uma na cabeça, é inútil tentar fazê-lo mudar de ideias. Mas não te preocupes, Chessie, que eu vou voltar. Isto não é o fim da nossa relação, não o vou permitir.

E ela acreditara nele.

Para a surpresa de toda a gente, umas semanas depois de Alastair ter ido para os Estados Unidos, Sir Robert anunciara a sua retirada dos negócios e a venda da sua empresa a outra empresa europeia. Imediatamente a seguir, fechara a sua mansão e o casal Markham mudara-se para Espanha.

Agora, segundo parecia, iam voltar, embora isso não queria dizer necessariamente que Alastair também voltasse. Talvez fossem os sonhos infantis da sua irmã Jenny.

Chessie não tinha querido fazer perguntas sobre o que ela ouvira nos correios por dois motivos: em primeiro lugar, Jenny não devia ouvir as conversas das outras pessoas. E, em segundo lugar, não queria dar a impressão de estar interessada no regresso daquelas pessoas.

Estivera apaixonada por Alastair e desta vez ia ter mais cuidado.

Quase que não se parecia nada com a rapariga de há alguns anos atrás, uma rapariga de cabelo dourado, pele bronzeada e olhos castanhos que sorriam de felicidade.

«Agora o meu tom é acinzentado», pensou, fitando a blusa. E não era só a sua roupa que era cinzenta, o seu reflexo no vidro da janela mostrava uma mulher cansada e vencida. Uma mulher que tinha sido derrotada durante as semanas entre a prisão do seu pai por fraude e o seu enfarte.

Sobrevivera aos artigos dos jornalistas, às visitas à esquadra da polícia e à crescente histeria de Jenny… E fizera-o deliberadamente, reprimindo a sua identidade, ocultando-se no anonimato. E, desde aquela altura, tinha sido assim.

Tinha esperado ser marginalizada, no entanto, salvo algumas excepções, as pessoas da povoação tinham-na tratado com tacto e delicadeza, facilitando-lhe a adopção da sua nova identidade, da sua nova versão da vida.

Trabalhar para Miles Hunter também a ajudara. E, durante os últimos meses, conseguira inclusive um certo estado de satisfação emocional.

Mas agora, graças à notícia de Jenny, voltava a sentir inquietação.

Ia virar-se para voltar para a mesa, quando ouviu o motor de um carro. Esticou o pescoço e viu o veículo de Miles Hunter a virar a prolongada curva do caminho antes de parar diante da porta principal.

Passado um momento, ele saiu do carro, ficou imóvel durante uns segundos, depois agarrou na sua bengala e, lentamente, coxeou até aos degraus que davam para a porta.

Enquanto o observava, Chessie mordeu os lábios. Os seus problemas não eram nada comparados com os dele e sentiu uma súbita compaixão que nunca se atrevera a mostrar diante dele.

– Tinha o mundo aos seus pés – dissera o senhor Jamieson, o advogado da família, quando ela lhe mencionara a oferta de emprego e a possibilidade de permanecer em Silvertrees. – Era jogador de rugby e um jornalista famoso, tanto dos jornais como da televisão. Teve má sorte quando o carro onde ia passou por cima de uma mina, durante a reportagem de uma guerra.

O advogado abanara a cabeça e acrescentara:

– Sofreu muitas feridas, pensavam que não voltaria a caminhar. No entanto, surpreendeu toda a gente quando, durante a sua estadia no hospital, escreveu o seu primeiro romance. Um mau dia.

– E, desde essa altura, não olhou para trás – replicou ela, com ironia.

O senhor Jamieson fitara-a solenemente por cima da armação das suas lentes.

– Não, não, querida – declarara, com gentileza. – Acho que pensa muito no passado.

E Francesca sentira-se censurada.

Estava novamente sentada à sua mesa, a trabalhar, quando Miles Hunter entrou.

– Acabo de ver a tua irmã – declarou ele, sem preâmbulos. – Ia de bicicleta e estive quase para a atropelar. A sua bicicleta não tem travões?

– Sim, claro que tem – replicou Chessie, rapidamente e a resmungar para si mesma. – Mas anda sempre demasiado depressa. Vou falar com ela.

Miles lançou-lhe um olhar trocista.

– E isso vai servir para alguma coisa?

– Pelo menos, vou tentar.

– Mmmm – Miles fitou-a pensativamente. – Pareceu-me que estava bastante excitada e tu também pareces estar inquieta. Voltou a fazer qualquer coisa que te tenha aborrecido?

– Jenny não me aborrece – Chessie levantou o queixo ao responder.

– Não, claro que não – replicou ele, afavelmente, depois suspirou com impaciência. – A quem é que estás a tentar enganar, Francesca? És sempre demasiado condescendente com ela para não ferir os seus sentimentos. Oxalá ela fizesse o mesmo em relação a ti.

Chessie sentiu-se surpreendida e indignada por Miles estar a tratá-la por tu. Antes, sempre a chamara «menina Lloyd».

– Foi um dia muito difícil para ela… – começou a dizer Chessie, defensivamente.

– Mais do que para ti?

– Sim, de certa maneira sim. Verá, Jenny… – subitamente, Chessie percebeu que estivera para dizer que Jenny era a favorita do seu pai. Aquilo era algo que nunca antes admitira para si mesma. – Jenny era muito nova quando aquilo aconteceu.

– E não achas que estava na altura de ela assumir as suas responsabilidades? – inquiriu aquele rosto moreno, com uma expressão interrogativa.

– O senhor é o meu patrão, só isso – replicou Chessie – e não tem o direito de julgar a minha situação. Jenny e eu temos uma relação muito boa.

– Mas eu e ela não temos uma relação assim tão boa – replicou ele. – Ao dizer-lhe que tivesse cuidado e que visse por onde ia, a tua irmã respondeu-me que não me preocupasse, que brevemente vocês as duas deixarão de me incomodar. O que é que quis dizer com isso?

Chessie teve vontade de torcer o pescoço de Jenny naquele momento.

– Deve ter percebido mal. O que Jenny quis dizer é que no Outono vai para a universidade e…

– Se tiver boas notas nos exames.

– Isso não é um problema – replicou Chessie, secamente. – É uma rapariga inteligente, não duvido que vá ser bem sucedida nos exames.

– Esperemos que o teu optimismo seja recompensado. Não posso dizer que tem sido um prazer tê-la aqui em casa.

Chessie mordeu os lábios.

– Lamento muito.

– Tu não tens que te desculpar. Não tens nem a idade nem a experiência necessária para controlar uma adolescente temperamental – Miles fez uma pausa. – Bem, deixemos isso. Vim para te perguntar se queres jantar comigo esta noite.

Chessie não pôde evitar ficar de boca aberta.

– Não… não percebo.

– É muito simples. Pode ser que não o pareça, mas tive um dia maravilhoso hoje. O meu agente vendeu o romance Maelstorm a uma produtora de cinema, a Evening Star Films, e também querem que escreva o guião, o que quer dizer que poderei salvar algo do argumento do meu romance.

Chessie via-o sorrir com tão pouca frequência que se esquecera do irresistível que poderia ser o seu sorriso. Com perplexidade, reconheceu que aquele homem era atraente.

– Gostaria de o celebrar – continuou Miles. – E como Maelstorm é o primeiro romance que escreveste para disquete, gostaria que o celebrássemos juntos.

Ela continuou a olhar para ele.

– Comes todos os dias, não é? – inquiriu ele, finalmente.

– Sim, mas…

– Mas o quê?

– É muito amável da sua parte convidar-me, mas não me parece apropriado. No fundo, isto é uma aldeia.

– Pedi-te para ires jantar fora comigo, não te pedi que fosses para a cama comigo – replicou ele, com paciência. – Se quiseres, ponho um panfleto na porta da igreja a explicar o motivo do jantar.

Chessie ruborizou-se

– Pode achar provinciano, mas consegui deixar bem claro à povoação que a nossa relação é estritamente profissional, algo muito importante, dado que moramos sob o mesmo tecto. Se nos vissem a jantar juntos, as pessoas pensariam que a relação tinha mudado e isso tornaria a situação incómoda para os dois.

«E eu já tive que suportar todo o tipo de boatos ao viver um escândalo na minha família», pensou ela. «E não quero que isso volte a acontecer».

– Eu não me envergonho com facilidade – declarou ele, sem lhe dar importância. – Mas se quiseres posso chamar um pedreiro para fechar a porta de comunicação do teu andar com o resto da casa. Isso acabaria com os boatos.

– Estou a falar a sério – protestou ela.

– E eu, para variar, estou a tentar ser frívolo, mas sem o conseguir. Não podes considerar o convite como uma expressão de gratidão? E, para além disso, estás muito magra, não te faria mal comer bem de vez em quando.

– Obrigada – respondeu Chessie. – Mas não penso que…

– É isso mesmo, não penses – interrompeu-a Miles. – Actua impulsivamente, embora só seja por uma vez. Por amor de Deus, é só um jantar. Ou desagrada-te tanto assim a minha aparência física? Porque te asseguro que as piores cicatrizes não estão à vista.

– Não! – o rubor de Chessie intensificou-se. – Não tem o direito de insinuar uma coisa dessas.

– Acontece muitas vezes – comentou ele. – Vivia com uma mulher quando sofri o acidente. Tínhamos falado em casar, no entanto, quando saí do hospital e ela me viu nu, decidiu que não queria saber mais nada de mim. Só estou a afirmar um facto, não estou a implorar compaixão.

– Eu sei. Deixou-me muito claro que a última coisa que quer é que sinta compaixão por si – Chessie hesitou. – Está bem, vou jantar consigo… se é isso que quer.

– Obrigado – replicou ele, em voz baixa. – Serias capaz de quebrar outra regra e tratar-me por tu? O meu nome é Miles.

Chessie, de repente, sentiu-se confusa. Aquilo não era apropriado e devia pôr um ponto final na situação.

No entanto, ouviu-se a si mesma responder:

– Está bem, Miles.

Ele anuiu, seriamente.

– Bom, vejo-te lá em baixo, no carro, às oito.

Miles dirigiu-se a coxear para a porta que dava para o seu estúdio e fechou-a atrás de si.

Chessie, com olhar perdido, fitou o monitor.

«Aceitei jantar com Miles Hunter? – inquiriu-se, com incredulidade.

Capítulo 2

– O ogro convidou-te para jantar? – inquiriu Jenny, surpreendida. – E tu aceitaste? Meu Deus, Chessie, deves estar doida!

Chessie encolheu os ombros com um gesto defensivo.

– Não percebo porquê. Hoje teve um bom dia e apeteceu-lhe celebrar.

– Não me digas que inventaram uma máscara para ele – comentou, trocista.

Chessie ficou a olhar para a sua irmã com uma expressão de perplexidade.

– Como é que podes dizer uma coisa dessas? Miles é o meu patrão e estamos em dívida para com ele, no entanto, não és capaz de mostrar-te agradecida.

– Estamos em dívida para com ele? – o rosto de Jenny ficou vermelho. – O que é que lhe devemos? Tirou-nos a casa e trata-nos como empregadas.

– A sério? – inquiriu Chessie. – Não tenho visto nenhum servilismo da tua parte. E se Miles não tivesse comprado a casa, outra pessoa o teria feito e nós teríamos ficado na rua. Não podíamos ficar com a casa, quando é que vais compreender isso?

Jenny fitou-a furiosa.

– Poderíamos ter feito qualquer coisa. No outro dia, na televisão, vi um programa sobre casas de campo transformadas em hotéis. Era uma boa ideia. Poderíamos ter feito isso com a nossa casa.

– Sim, talvez dentro de vinte anos, mas os credores do pai não estavam dispostos a esperar todo esse tempo.

– Continuo a pensar que o poderíamos ter feito – insistiu Jenny, com teimosia.

Chessie, de repente, não soube se rir ou chorar. Era extraordinária a maneira como Jenny, que era tão inteligente nos estudos, tinha tão pouco sentido da realidade.

– E outra coisa, se vais sair para jantar fora esta noite, importavas-te de me dizer o que é que eu vou jantar? Aposto que o ogro não me convidou a mim.

– Não, não te convidou – replicou Chessie. – Mas não te preocupes que não vais morrer de fome. Há estufado de frango no frigorífico e a única coisa que tens que fazer é aquecê-lo no microondas.

– Isso não se pode comparar a um jantar fora – replicou Jenny, fazendo uma careta. – E mais uma coisa, desde quando é que o ogro é «Miles»? Pensei que fosse: «o senhor Hunter isto» e «o senhor Hunter aquilo».

– E talvez volte a sê-lo amanhã – replicou Chessie, com calma. – Isto é só um jantar e mais nada.

«Quantas vezes terei de o repetir para me convencer?», interrogou-se Chessie, enquanto examinava o seu escasso guarda-roupa.

A maioria das suas roupas entrava em duas categorias: a roupa de trabalho elegante e a roupa de trabalho quotidiana. Por fim, optou por uma saia preta lisa e uma blusa de cor creme. Os brincos dourados e um fio dourado no pescoço fizeram com que parecesse mais elegante.

Chessie tinha vinte e poucos anos, mas sentia-se uma anciã. Tinha rugas de preocupação na testa e a curva dos seus lábios já não tinha a frescura da juventude.

Normalmente, levava o seu cabelo castanho dourado apanhado num rabo-de-cavalo, mas desta vez decidiu deixá-lo solto. Pintou os lábios e colocou um pouco de cor no rosto. Como toque final, agarrou no seu frasco de L’Air du Temps e deitou umas gotas nos pulsos e no pescoço: «quando acabar não terei outro» e fechou o frasco com cuidado.

O salário que Miles pagava era bom, mas não sobrava para luxos como o perfume.

Jenny ganhara uma bolsa de estudo para estudar na escola da povoação vizinha. Por isso, ela não tinha que pagar as mensalidades. No entanto, tinha outros gastos, como o equipamento desportivo e a farda da escola. A farda era um pesadelo, tendo em conta como Jenny crescia rapidamente.

Chessie colocou-se diante do espelho e olhou-se com uma atitude crítica.

Parecia o género de rapariga que um escritor famoso convidava para jantar? A resposta era negativa e perguntou-se porque é que Miles não teria arranjado uma companheira mais apropriada.

Porque para além dos comentários cruéis de Jenny, não duvidava das atracções de Miles Hunter, apesar da cicatriz do seu rosto. E Chessie perguntou a si mesma por que é que não tinha percebido isso antes.

Pensou na mulher que o tinha deixado ao ver as suas cicatrizes. Estaria amargurado por causa disso? Continuaria apaixonado por aquela mulher que o abandonara na altura em que ele mais precisara dela?

Seria esse o motivo pelo qual não havia amor nos seus romances?

Era um escritor extraordinário, no entanto, ela achava a sua obra escura e, inclusive, estéril.

«Mas essa é só a minha opinião», disse para si mesma, ao mesmo tempo que saía do quarto. O público comprava os seus romances sem mostrar as mesmas reservas.

Miles estava à sua espera ao lado do carro. Vestia umas calças de corte perfeito, que moldavam as suas pernas, e uma camisola de gola alta de caxemira. No ombro levava um casaco desportivo.

– Boa tarde – cumprimentou ela, timidamente.

Ele levantou o olhar e anuiu bruscamente.

– Tão pontual como sempre – comentou Miles, abrindo-lhe a porta do carro.

«O que é que esperava?», pensou Chessie, enquanto apertava o cinto de segurança. Não ia fazê-lo esperar.

Quando ele se sentou ao volante, Chessie sentiu o aroma de uma água de colónia cara.

– Pensei que poderíamos ir ao The White Hart – declarou Miles, ao mesmo tempo que ligava o motor do carro. – Disseram-me que a comida é boa. Isto é se não te importas por ser o pub da povoação.

– Não, não me importo – Chessie não tinha vontade de ir a um lugar mais elegante e a sua roupa também não era a apropriada para um restaurante mais elegante. – A senhora Fewston é uma boa cozinheira. Antes dela e o seu marido ficarem com o pub, ela costumava fazer comida para festas. Acho que ainda o faz.

– Terei isso em conta no futuro. Acho que já está na hora de dar alguma festa – Miles olhou para ela de relance. – Não posso continuar a aceitar convites sem os retribuir.

– Não… suponho que não. Silvertrees é uma boa casa para dar festas.

– E como a minha irmã não pára de me dizer, também o é para uma família – Miles fez uma pausa. – Acho que isso deve ser uma indirecta para a convidar a ela e aos seus filhos endiabrados.

– Não gostas de crianças?

Miles encolheu os ombros.

– Nunca lidei muito com crianças. Mas a verdade é que os filhos de Steffie são adoráveis, apesar dela os chamar monstros.

«Se não fosse pela mina, Miles teria filhos», pensou Chessie. Tentou imaginá-lo como pai, mas não conseguiu.

The White Hart era uma bonita construção de madeira que ficava nos arredores da povoação e estava sempre muito concorrida. Jim Fewston sabia de vinhos tanto como a sua esposa de cozinha e o pub estava sempre cheio. Aquela noite não era excepção e o estacionamento estava quase cheio quando chegaram.

– Fico contente por ter reservado uma mesa – comentou Miles, enquanto estacionava o carro. – No entanto, não me parece que todos os que estão aqui tenham vindo pela comida – acrescentou, com ironia.

Chessie seguiu o seu olhar e viu movimento dentro de um carro estacionado sob umas árvores. Viu as figuras de duas pessoas abraçadas apaixonadamente e desviou o olhar.

– Não é o lugar apropriado – comentou ela.

– Não, se se tratar de uma relação ilícita – Miles encolheu os ombros.

No bar, Chessie bebeu um excelente xerez e Miles um gin tónico, enquanto examinavam o menu.

Muitas das pessoas presentes conheciam Chessie e cumprimentaram-na cordialmente, no entanto, alguns lançaram-lhe olhares interrogatórios ao vê-la na companhia de Miles.

Chessie escolheu sopa de agriões e um guisado de faisão; Miles optou pelo patê e pelo bife com molho de cerveja e ostras.

– O que se costuma perguntar nestes casos é… «Costumas vir aqui com frequência?» – comentou Miles, trocista, quando a empregada se foi embora. – Mas como sei que isso não é verdade, que tema sugeres para a conversa?

– Não sei. Há muito tempo que não vou jantar fora.

– Nesse caso, suponho que vai ser um serão um tanto silencioso – declarou ele, a sorrir.

– Estou habituada ao silêncio – replicou ela, devolvendo-lhe o sorriso. – Jenny passa a maior parte do tempo no quarto a estudar, por isso… estou habituada a estar sozinha.

– Muita gente considera a solidão um luxo – comentou Miles. – No entanto, não acho que seja um bom estilo de vida. Diz-me, o que é que a tua irmã quer fazer quando acabar o liceu?

– Gostaria de estudar Ciências Naturais, mas não me parece que saiba bem o que é que quer fazer. Bom, ainda é cedo e não precisa de tomar nenhuma decisão definitiva.

Chessie reclinou-se contra o confortável respaldo da cadeira estofada e acrescentou:

– A mim custou-me muito fazer o bacharelato, mas Jenny aprende sem fazer esforço.

– Fico contente por ouvir isso – declarou Miles, educadamente. – Vi um Saint Emilion muito bom na lista dos vinhos ou preferes vinho de Borgonha?

– Não, eu gosto de Bordéus – Chessie lembrou-se de umas férias que fizera com o seu pai no Sudoeste de França. Aquele tinha sido um tempo mágico para ela, apesar da preocupação constante do seu pai por Jenny, que tinha ficado em Inglaterra com uma tia.

– Voltámos ao mesmo – comentou Miles, em voz baixa.

Chessie fitou-o surpreendida.

– O que é?

– Fizeste a mesma expressão que uma criança faria se lhe dissessem que não vai ter férias de Natal.

– Desculpa, de agora em diante, vou esforçar-me por parecer animada – replicou ela, ironicamente.

– São assim tão terríveis as tuas lembranças?

– Como é que sabes que estava… a lembrar-me de qualquer coisa?

– Imaginei que assim fosse, dado que a mim acontece-me algo parecido – Miles acabou de beber o seu gin tónico. – Queres falar sobre isso?

Chessie abanou a cabeça.

– O que é que poderia dizer? Estás no topo do mundo e, de repente, num abrir e fechar de olhos, encontras-te num poço escuro do qual não sabes se conseguirás sair algum dia.

– Bom, não vais dizê-lo? – inquiriu Miles, com suavidade.

– Dizer o quê?

– Que o teu pai era completamente inocente e que, se não tivesse sido pela sua repentina morte, teria demonstrado a sua inocência.

Chessie abanou lentamente a cabeça.

– Se não tivesse morrido, acho que agora estaria na prisão. De certa maneira, a morte foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. Ele não teria suportado…

Chessie mordeu os lábios e fez uma pausa. Depois acrescentou:

– Lamento muito, supõe-se que isto é uma celebração e não um funeral.

– Não to teria perguntado se não tivesse querido saber, Francesca – replicou, em voz baixa.

Porque é que quereria saber?

Chessie bebeu um gole de xerez. Fosse como fosse, teria gostado de falar sobre algo menos pessoal, como de cinema ou de literatura.

De que é que um homem e uma mulher falavam quando iam jantar fora e bebiam vinho? Ela não tinha a menor ideia e sentia-se nervosa.

Não saíra com nenhum homem desde que estivera com Alastair. Até àquela noite. Embora isso não contasse.

Sentiu-se aliviada quando a empregada se aproximou para lhe dizer que a sua mesa estava pronta. A sopa e o patê estavam tão bons que se limitaram a comer e a comentar a excelência da cozinha.

Enquanto esperavam pelo segundo prato, Chessie perguntou-lhe sobre o guião do filme. Não o fez por ser um tema impessoal, realmente estava interessada, no fim de contas, ela ia trabalhar no projecto.

Mas quando aquele tema se esgotou… sobre que outra coisa poderiam conversar? Sobre o tempo?

«És uma conversadora extraordinária, querida Chessie», disse para si mesma.

– É assim tão difícil conversares comigo? – inquiriu Miles, fitando-a com os seus olhos azuis.

Chessie bebeu um gole de vinho, enquanto sentia que se ruborizava.

– Não, claro que não.

– Talvez devesse ter-te pedido que trouxesses o caderno de notas para te ditar algumas cartas enquanto jantamos – comentou ele, ironicamente. – Assim, ter-te-ias sentido melhor.

– Duvido – Chessie pousou o copo na mesa. – O que acontece é que não percebo o que é que estou a fazer aqui.

– Estás a jantar uma comida deliciosa sem teres de lavar os pratos – replicou Miles.

– E é só isso? – Chessie sentiu que lhe faltava a respiração.

– Não, mas o resto pode esperar – o rosto dele era frio e enigmático. – Queres mais vinho?

– Não, é melhor não beber mais – Chessie tapou o copo com a mão. – Qualquer coisa me diz que será melhor manter a mente lúcida.

Ele sorriu trocista.

– Se estás a pensar que te quero seduzir, enganas-te.

– Isso nem sequer me passou pela cabeça.

– Como és inocente – murmurou Miles. – Tendo em conta o tempo que passamos juntos, nunca te perguntaste, porque é que não me insinuei? Ou achas que as minhas cicatrizes tornam-me imune aos desejos?

Ela mordeu os lábios.

– Não, não acho, mas mantemos uma relação profissional e…

– E?

Chessie engoliu em seco.

– Isso não seria apropriado. As aventuras entre patrão e secretária são um cliché e tu não gostas de clichés.

– Obrigado… suponho. No entanto, é precisamente sobre a nossa situação que te queria falar.

– Decidiste vender a casa? – o último bocado de faisão engasgou-a.

De repente, ficou aterrorizada com a ideia de se ver na rua e a ter de procurar um emprego.

– Não, não é isso – Miles pareceu surpreendido. – Como é que te ocorreu essa ideia? Não me ouviste dizer que estou a pensar em dar uma festa?

– Sim… desculpa – Chessie hesitou. – Suponho que a insegurança torna-me paranóica.

– Compreendo – com o sobrolho franzido, Miles pousou o garfo e a faca no prato. – É esse precisamente o motivo pelo qual quero que penses sobre uma possível mudança na nossa relação.

– Uma mudança? – inquiriu Chessie, sem compreender. O contrato de trabalho que Miles redigira estava meticulosamente definido. – Que género de mudança?

Ele bebeu mais vinho, o seu olhar azul adquirira uma expressão de meditação.

– Ocorreu-me que poderíamos casar.

Chessie sentiu que o mundo de repente tombava. O seu corpo ficou rígido enquanto o fitava e tentava compreender o significado das palavras dele.

– Desculpa, acho que não ouvi bem – conseguiu dizer Chessie.

– É muito simples, acabei de te fazer uma proposta de casamento, pedi-te que fosses a minha esposa – replicou Miles, num tom profissional, como se estivesse a falar de negócios. – Se quiseres, podes considerá-lo como um tipo diferente de contrato.

«É doido», pensou ela. Perdera por completo a cabeça.

– O casamento… não é um negócio.

– Eu diria que isso depende das pessoas que se casam. Se considerares as nossas circunstâncias pessoais, o casamento entre nós é muito razoável.

Miles fez uma pausa.

– Tu precisas de mais estabilidade e da segurança que não tens e eu preciso de uma anfitriã para além de uma governanta. Acho que poderia ser um acordo satisfatório para os dois.

– Assim de repente? – inquiriu ela, com a voz fraca. Ainda não conseguia acreditar no que estava a ouvir.

– Não, claro que não – declarou Miles, com uma ligeira impaciência. – Não precisas de responder imediatamente, mas gostaria que considerasses racionalmente a minha proposta antes de tomares uma decisão.

«Racionalmente», interrogou-se ela. «Racionalmente… tratando-se de uma coisa dessas?».

– Pareces muito surpreendida – continuou ele.

– Sim, é verdade – Chessie engoliu em seco. – O que acontece é que quase não nos conhecemos.

– Trabalhamos juntos todos os dias e vivemos na mesma casa.

– Sim, mas… sabes perfeitamente ao que me refiro.

– Sim – a expressão de Miles adquirira um tom de troça. – Continuas sem perceber porque é que ainda não me insinuei, não é?

– Não é só isso – Chessie empurrou o seu copo de vinho na direcção dele. – Por favor, serve-me mais um pouco, acho que estou a precisar.

Chessie observou Miles enquanto ele a servia. Estava completamente calmo e inclusive distante. Como podia ser?

– Até agora não tem havido nada pessoal entre os dois – declarou ela. – E, embora trabalhemos juntos todos os dias, da única coisa que falamos é do trabalho e da casa.

– A minha proposta traumatizou-te? Não era a minha intenção causar-te nenhum trauma – comentou Miles, com ironia.

– Não, mas isto é tão repentino.

– Se esperavas algo mais… convencional, peço-te que me desculpes. Mas mantivemos sempre uma relação laboral muito racional e o nosso casamento só seria uma prolongação dessa relação. O pragmatismo pareceu-me preferível aos bombons e às flores.

– Não te importas com o facto de não estarmos apaixonados? – inquiriu Chessie, com dificuldade.

– Esqueceste que já passei por isso. Claro que não posso falar por ti – declarou, com uma expressão ilegível. – Há alguém na tua vida?

Chessie abanou a cabeça.

– Não, já não – olhou para a mesa. – Então, queres dizer que seria uma espécie de negócio e não um casamento a sério?

– Sim, é isso – replicou Miles. – Pelo menos, no início.

Chessie sentiu que o seu coração dava um salto.

– E depois…?

Miles encolheu os ombros.

– Quem sabe – os olhos azuis fitaram os dela. – Pode ser que reconsideremos a nossa relação, mas qualquer mudança seria sempre de mútuo acordo.

– Eu… não sei o que dizer.

– Nesse caso, não digas nada. Ainda não. Pensa nisso, toma todo o tempo de que precisares. Prometo que não te pressionarei.

Chessie humedeceu os lábios.

– E se a resposta for negativa, ficarei sem emprego?

– Dou-te a impressão de ser vingativo?

Chessie ruborizou-se.

– Não, claro que não – respirou fundo. – Está bem, vou pensar no assunto.

– Bom – desta vez não havia troça no olhar de Miles. – E agora, queres que peça a sobremesa?

– Não, obrigada – Chessie não tinha estômago para mais nada. – Só café, por favor. E desculpa-me, volto já.

A casa de banho das senhoras, por sorte, estava vazia. Chessie deitou água nas mãos e na face para se descontrair.

Ao olhar-se no espelho, viu que tinha os olhos maiores do que habitualmente e o rosto vermelho. No entanto, não tinha o aspecto de ser a futura senhora Hunter.

De repente, começou a tremer.

– Não o posso fazer, não posso – murmurou Chessie, ao espelho. – Vou dizer-lhe já que o que me propôs é impossível.

Mas prometera-lhe considerar a proposta racional e detidamente, pelo menos, teria de fingir que o iria fazer.

No entanto, não se podia casar com ele. Nem sequer no caso de Alastair não voltar…

Chessie suspirou. Por fim, atrevera-se a enfrentar o assunto. Permitira-se albergar um sonho, uma esperança que se reavivara com as notícias de Jenny.

Era irónico que Miles tivesse escolhido aquele dia para lhe expressar os seus planos para o futuro.

Chessie resmungou para si própria, assim que comunicasse a Miles a sua decisão, seria impossível para ela continuar em casa. Apesar do que ele dissera, a sua relação tornar-se-ia difícil.

Na povoação vizinha havia uma agência de emprego. Teria que ir falar com eles. Depois, teria que ir a uma agência imobiliária para alugar um andar.

«Porque é que Miles fez isso?», perguntou, desesperada. A sua vida começava a desfazer-se.

E ele nem sequer a desejava.

Durante um segundo, com perplexidade, imaginou-se nos braços de Miles, respirando o seu aroma, sentindo a sua boca na dela. O corpo esbelto dele colado ao dela num abraço apaixonado…

Chessie, ofegante, voltou à realidade. Tinha os mamilos duros e o seu corpo queimava-a.

Não podia voltar para a mesa naquele estado. Ele daria pelo que tinha acontecido e então estaria perdida.

«Meu Deus! O que é que tenho? O que é que me estou a fazer a mim mesma?».

Mas não encontrou uma resposta que fizesse sentido.

Capítulo 3

«Se eu não voltar rapidamente para a mesa», pensou Chessie, escovando o cabelo pela centésima vez, «Miles virá buscar-me».

A pele já não lhe queimava, mas continuava a tremer.

A porta da casa de banho abriu-se e duas raparigas entraram a rir.

Enquanto se dirigia para a sala de jantar, encontrou-se com Jim Fewston.

– Boa noite, menina Lloyd. Espero que tenha gostado da comida.

– A comida estava deliciosa – assegurou ela.

– Como é que está a sua irmã? – o dono do restaurante abanou a cabeça. – Crescem tão rapidamente… ficam adultos antes de darmos por isso.

– Sim, tem razão – comentou Chessie.

– Às vezes, pensam que são adultos antes de o serem realmente – acrescentou o senhor Fewston.

Chessie, de repente, sentiu-se inquieta. Até àquele momento as palavras do dono do restaurante tinham-lhe parecido um comentário sem importância, no entanto, já não tinha tanta certeza disso.

Ele baixou a voz para um tom confidencial.

– Lamento muito o da outra noite, mas não tive outra alternativa. Noutro bar, talvez tivesse levado a sua avante, mas eu conheço-a desde pequenina e sei que não tem dezoito anos.

O senhor Fewston fez uma pausa antes de continuar:

– A polícia é muito severa com os menores que tentam beber álcool, e eu não estou disposto a perder a licença por uma coisa dessas. Quando ela e o rapaz que a acompanhava pediram vodka com tónica, não tive outro remédio senão pedir-lhes que se fossem embora.

O homem suspirou.

– Tenho a certeza de que compreende a minha postura e espero que não o tenho tomado mal.

– Acho que não percebi – Chessie abanou a cabeça. – Está a dizer que Jenny entrou aqui e pediu que lhe servissem bebidas alcoólicas? Desculpe, mas deve tratar-se de um engano.

– Não, menina Lloyd, não se trata de nenhum engano – replicou o homem, amavelmente, mas com firmeza. – Por que é que não pergunta à sua irmã? Frequentemente, uma pequena conversa costuma solucionar tudo. Sei que não deve ser fácil para si, que é só um pouco mais velha do que a sua irmã. Eu, se fosse a si, teria cuidado com o namorado da sua irmã.

– Jenny não tem namorado – protestou Chessie. – Nem sequer sai à noite, passa todo o tempo a estudar no seu quarto.

– Nem todas as noites, menina Lloyd. E há outras pessoas que lhe poderão dizer o mesmo do que eu estou a dizer. Sugiro que fale com a sua irmã – o homem despediu-se dela e dirigiu-se para o bar.

Chessie ficou imóvel durante uns momentos, para assimilar o que ouvira sobre Jenny.

Quando voltou para a mesa, viu que a empregada que os tinha atendido acabara de chegar com os cafés. Chessie parou. A empregada estava a colocar as chávenas e o leiteiro na mesa, inclinando-se para Miles, alisando o decote da blusa e atirando o cabelo para trás das orelhas.

«Deus do céu! Está a namoriscar com ele!», pensou Chessie, com incredulidade. «E ele está a divertir-se».

Naquele momento, percebeu o pouco que conhecia Miles Hunter.

Voltou para a mesa rapidamente. A empregada, ao vê-la, lançou um último sorriso a Miles, antes de se ir embora.

Quando Chessie se sentou, Miles olhou para ela e franziu o sobrolho.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não, nada – Chessie sorriu. – Estava a pensar que o atendimento neste estabelecimento é muito bom.

Ouviu um tom de ciúmes na sua voz. Felizmente, Miles não pareceu dar por isso.

– Os teus amigos sabem como fazer um bom negócio – replicou ele. – Mas isso não altera o facto de que sei que aconteceu alguma coisa. Sentes-te mal?

– Não… – Chessie hesitou. – Está a fazer-se tarde. Poderias pedir a conta para irmos embora?

– Não – replicou ele, surpreendendo-a. – Não sei o que foi que Jenny fez, mas seja o que for, pode esperar até acabarmos de jantar como deve ser. E mais, vou sugerir que bebas um conhaque, pareces precisar disso.

De repente, Chessie sentiu-se indignada.

– Por que é que tens que pensar que Jenny tem sempre a culpa?

– Pela expressão que tens no rosto – Miles, com um olhar, desafiou-a a negar. – Vais deixar que peça um conhaque?

Chessie mordeu os lábios e anuiu.

– Bom – depois de sorrir para ela, fez um gesto para a empregada. – Irritar-te não vai solucionar nada.

– Para ti é fácil dizer – replicou Chessie, com amargura. – No fim da contas, Jenny não é da tua responsabilidade.

– Por enquanto não. Vamos, Francesca, reconhece que a tua irmã, embora seja inteligente, é muito mimada e cheia de ressentimentos – Miles agradeceu à empregada quando ela trouxe o conhaque de Chessie, depois agarrou no leiteiro. – Bebes o café com leite e açúcar?

– Não, obrigada – Chessie, de repente, sentiu-se desolada. – Falhei com a minha irmã, não foi?

– Claro que não. No entanto, ainda não tens a experiência necessária para descobrires com tempo os problemas e solucioná-los – Miles interrogou-a: – O que é que aconteceu? Tem andado por aí, na povoação, a fazer coisas sem tu o saberes?

– Parece que sim. Pelos vistos, entrou aqui e pediu que lhe servissem uma vodka com tónica e vinha acompanhada por um rapaz que, segundo Jim Fewston, não é de confiança.

Miles arqueou as sobrancelhas.

– Pelo menos, não bebe sozinha, poderia ser pior.

Chessie sorriu.

– Não podia ser pior.

– Se pensas isso é porque és muito inocente – declarou ele, com gentileza. – Mas compreendo que queiras falar com Jenny quanto antes. Por isso, assim que acabarmos de beber o café, vamos para casa.

– Obrigada, desculpa se te estraguei a celebração.

– Não estragaste nada – Miles sorriu para ela. – Pelo contrário.

Chessie percebeu que Miles achava que ia aceitar a sua proposta. E tal como estavam as coisas, era o que deveria fazer. Casar com Miles dar-lhe-ia a segurança de que precisava.

Obviamente, para ele era mais uma solução prática aos problemas dos dois. Era a mesma frieza que havia nos seus romances.

«Mas não o posso enganar», pensou ela, engolindo em seco. «E também não me posso enganar a mim mesma. Os dois merecemos melhor da vida e não faz sentido que nos conformemos com passar o resto das nossas vidas juntos, só porque os dois sofremos desilusões amorosas».

Olhou para ele dissimuladamente, perguntando-se como seria a mulher pela qual estivera apaixonado. Não duvidou que se tratava de uma mulher atraente, inteligente e cheia de energia. E também cruel.

Chessie sobressaltou-se ao ouvi-lo dizer baixinho:

– Estás ausente. Será melhor irmos embora rapidamente.

Enquanto Miles foi pagar, Chessie dirigiu-se para a zona da recepção para esperar por ele, enquanto contemplava umas aguarelas de um pintor local.

De repente, sentiu um aroma familiar, embora meio esquecido, avisando-a de que já não estava sozinha. Chessie virou-se e, com incredulidade, ficou a olhar para a mulher que estava junto do arco que dava acesso ao bar.

Bonita, com um corpo escultural, vestia um vestido estampado a imitar a pele de leopardo.

Uns olhos cor de violeta fitaram-na de cima a baixo com insolência. Uns lábios vermelhos sorriram com troça e malícia.

– Então… – declarou Linnet Markham, suavemente. – A pequena Francesca. Quem o teria imaginado?

– Boa noite, Lady Markham – Chessie engoliu em seco. – Quero dizer, Linnet. Estou a ver que já voltou.

– Não sei por que é que te surpreendes, não ouviste dizer que íamos voltar? – Linnet aproximou-se de Chessie. – Estou surpreendida por ainda estares aqui. Supus que terias ido para outro lugar para começar uma nova vida… Um lugar onde não fosses conhecida.

Chessie ruborizou-se.

– Felizmente, nem todos pensam da mesma maneira. E a minha irmã precisava de um pouco de estabilidade.

– Sim, a tua irmã… Se bem me lembro era a irmã bonita, não era?

– Exactamente – replicou Chessie. – E também inteligente. Na realidade, até me parece incrível sermos irmãs – Chessie fez uma pausa. – Sir Robert está consigo?

O sorriso de Linnet tornou-se tenso.

– Não, ainda está em Londres. Eu vim à frente para supervisar a abertura da mansão. Não se pode confiar nas empregadas – declarou Linnet, desdenhando o trabalho da fiel senhora Cummings. – As duas primeiras noites vou passá-las no hotel e vim ao pub pelos velhos tempos.

– Não sabia que tinha sido uma frequentadora do pub local.

Linnet encolheu os ombros.

– Foi sempre um bom local para contactar com as pessoas e para que as pessoas me vissem. No entanto, não sabia que te podias permitir o luxo de vir aqui – Linnet olhou para a roupa de Chessie. – Ou estás a trabalhar aqui como empregada? Não tens um curso superior, pois não? E não me parece que, depois de teres trabalhado para o teu pai, tenhas boas referências.

Linnet franziu a testa e acrescentou:

– Onde é que moras? Suponho que tiveste que vender Silvertrees.

Estava a tornar-se numa noite inacreditável e Chessie levantou o queixo para responder:

– Sim, claro, mas continuamos a morar em casa, dado que trabalho para o novo proprietário. Sou a sua secretária e governanta.

– Tiveste sorte, pareces ter caído de pé – comentou Linnet. – E quem é o felizardo para quem trabalhas?

– Miles Hunter, o escritor de romances policiais – replicou Chessie, com pesar.

– Hunter? – os olhos cor de violeta de Linnet escureceram. – É um escritor de best-sellers, não é? Os seus livros estão nas montras de todas as livrarias. Deve ter uma fortuna.

– Sim, é um escritor de sucesso – declarou Chessie.

– E, pelo que se vê, muito compreensivo – declarou Linnet, viperinamente. – Como foi que o conseguiste?

Chessie encolheu os ombros, enquanto tentava controlar a fúria.

– Ele precisava de alguém que se encarregasse da casa e eu estava disponível.

– Não tenho a menor dúvida disso – Linnet soltou uma gargalhada. – No entanto, aconselho-te a não teres ilusões. Nem todos são assim tão compreensivos.

Chessie cerrou os punhos, cravando as unhas nas palmas das mãos. Por cima do ombro de Linnet viu como Miles se aproximava.

– Obrigada pelo conselho, Linnet, mas asseguro que não preciso.

Chessie aproximou-se de Miles e deslizou o braço possessivamente pelo braço dele, a sorrir.

– Querido, esta é Lady Markham, que acaba de voltar para abrir a mansão de Wenmore Court. Linnet, este é Miles Hunter, o meu noivo.

Miles não se mexeu, mas Chessie sentiu a repentina rigidez do seu corpo.

Sabia que iria arrepender-se do que acabava de dizer, mas a expressão de Linnet fez com que tivesse valido a pena.

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