Kitabı oxu: «O mar dos teus sonhos»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
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© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
O mar dos teus sonhos, n.º 1865 - julho 2021
Título original: The Greek’s Virgin Temptation
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1375-519-9
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Epílogo
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Prólogo
Tinha chegado o grande dia. Estava a amanhecer. Kimmie subiu as persianas do seu idílico quarto, contemplou a gloriosa praia que se abria à sua frente e respirou fundo para sentir o caloroso aroma das flores.
Ainda podia desistir.
Mas, por que iria desistir do seu próprio casamento? Além disso, já era tarde para mudar de ideias. Ia casar-se com Mike, que conhecia desde sempre. E, como Mike era muito mais velho do que ela, comandava a relação com mão firme.
Ou com mão de ditador?
– Deita-te cedo, e fica na cama até eu ligar-te – ordenara-lhe na noite anterior. – Tens de dormir.
Amanhã é um dia importante.
Ao recordar isso, Kimmie franziu o sobrolho e perguntou-se quando se tinha tornado tão obediente. Sentia-se como se estivesse a perder partes do seu próprio ser. Seriam os típicos nervos do dia do casamento? Presumiu que sim, e que um passeio pela praia lhe faria bem, por isso afastou-se da janela.
O sol já aquecia a ilha grega de Kaimos quando abriu o armário, vestiu um top e uns calções e se dirigiu para o quarto de Janey, a sua madrinha. Pensava levá-la à praia, molhar os pés na sua companhia e, com um pouco de sorte, esquecer as suas preocupações. No entanto, não parava de pensar que se estava a enganar.
Será que Mike era mesmo a melhor opção?
Para dizer verdade, era a única que tinha. E, se não aproveitava a ocasião de assentar com um bom homem, o seu passado iria dominá-la e convertê-la-ia numa mulher amargurada.
Mas, estava apaixonada por ele?
Isso dependia do que se entendesse por amor. Mike e ela eram velhos conhecidos. A sua familiaridade era inegável e, por outro lado, tinha a certeza que nunca lhe pediria explicações. Já para não falar do facto de que nenhuma mulher quereria estar sozinha.
Mas, estava apaixonado por ela?
Farta de fazer-se perguntas, ergueu a mão e bateu à porta da sua amiga.
– Janey? Estás acordada? Posso entrar?
A Kimmie pareceu-lhe ouvir Janey a emitir um som para ela entrar, por isso abriu a porta. Desculpou-se logo por acordá-la tão cedo, mas subitamente ficou petrificada.
Mike estava na cama, nu. Ainda por cima dele, a cavalgá-lo como uma amazona, estava Janey. Kimmie deu meia-volta e foi-se embora.
Capítulo 1
O seu primeiro dia em Kaimos tinha sido um desastre. Chegou de noite, e decidiu ficar no iate para dar um mergulho na manhã seguinte; mas, depois de chegar à sua praia preferida, Kris deparou-se com um grupo de turistas que pareciam alheios a um facto importante: que aquele lugar era o seu paraíso pessoal.
Resignado, nadou um momento e saiu da água. Foi então que reparou naquela mulher, que estava com o grupo, com umas pernas fantásticas e um belo par de seios. Tinha o cabelo preto, com reflexos roxos, e usava o biquíni mais pequeno que já vira na vida.
E como se a sua figura não chamasse suficientemente a atenção, a desconhecida estava a dançar ao ritmo de um velho aparelho de música que um dos seus acompanhantes levava ao ombro. Mas havia algo estranho no seu comportamento, como se dançasse para esquecer alguma experiência desagradável e não tivesse nada a perder.
Kris, que tivera sempre um fraquinho por mulheres extravagantes, observou-a com mais atenção. Tinha um lenço à cintura, com um montão de guizos que tilintavam sempre que se movia, e usava tantos colares de contas que, se entrasse no mar, se afundaria de imediato.
Nesse exato momento, viu que os turistas se dispunham a acender uma fogueira na sua praia, e que um deles abria uma mochila e tirava o que parecia ser um vestido de noiva.
Seria da mulher extravagante? Devia ser, porque pôs um ar de nojo, recusou-se a tocar-lhe e afastou-se do grupo, deixando que os seus amigos atirassem a peça de roupa para o que evidentemente era uma espécie de pira cerimonial.
Noutras circunstâncias, Kris teria intervindo para ordenar-lhes que apagassem a fogueira, mas estava tão interessado no estranho drama que se limitou a olhar enquanto o fogo devorava o vestido.
Quando só restavam cinzas, a mulher agarrou um pau e cravou-o nelas como se quisesse assegurar-se de que não tinha sobrevivido nem um minúsculo pedaço de tecido. Depois, atirou o pau, aproximou-se do mar, tirou um anel e lançou-o à água, com tal azar que a potente maré o devolveu de imediato à praia. Mas nem se deu conta, porque já se tinha afastado dali.
Decidido a conhecê-la, Kris agarrou no anel e aproximou-se antes de ela voltar para ao pé dos amigos.
– Isto é teu? – perguntou-lhe.
Ela olhou para o objeto sem dizer nada e estremeceu.
– Que faço com ele? – continuou Kris. – Devolvo-o ao mar?
Kimmie não sabia o que fazer. Primeiro, tinha encontrado o seu noivo na companhia da sua madrinha e, quando tentava esquecer tudo isso com ajuda dos amigos, aparecia um deus saído da mitologia grega e oferecia-lhe o anel que ela acabara de atirar ao mar.
Pelo seu aspeto, devia ter em redor de trinta anos. Era alto, belo e brutalmente masculino, isto é, a última coisa de que Kimmie precisava naquele dia. Os seus traços pareciam esculpidos em pedra. A sua pele, bronzeada pelos elementos, enfatizava o negro azeviche do seu cabelo. E, para piorar as coisas, tinha um corpo que roçava a perfeição e um olhar carregado de inteligência.
Seria um pescador da zona?
– Ah, encontraste-o – conseguiu dizer.
– Sim, isso é óbvio.
– Como é possível? Atirei-o há um segundo.
– E a maré devolveu-o à praia – replicou ele, com voz profunda. – Achei que devias saber.
– Sim, claro. Obrigada.
– Atiro-o outra vez? – perguntou, olhando-a com humor.
– Se não for grande incómodo…
– Claro que não.
– Mas assegura-te de que não volta.
– Está descansada.
Ele baixou a cabeça nesse momento e cravou os olhos numa das mãos de Kimmie, que lhe estava a tocar o braço.
Desconcertada, afastou-a a toda a pressa e engoliu em seco. Em que raio estava a pensar? Como lhe ocorria tocar um desconhecido? Pelos vistos, a traição do seu noivo tinha-a afetado mais do que pensava.
Ainda não tinha saído do seu assombro quando ele cumpriu a sua palavra e lançou o anel tão longe que não havia nenhuma possibilidade de este voltar.
– Tenho a sensação de que o teu dia não começou com o pé direito – comentou o deus grego.
– Não, pode dizer-se que não – disse ela, fazendo um esforço para não admirar os seus ombros.
– Bom, todos temos dias maus.
– Sim, mas este é especialmente horrível.
– E, no entanto, organizaste uma festa.
– Não é uma festa, mas uma espécie de despertar.
Kimmie virou-se para os seus amigos, que estavam a dançar junto à fogueira.
– Um despertar? – interessou-se ele.
– Desculpa, mas não quero falar disso.
– Como preferires.
Enquanto olhava para ele, Kimmie perguntou-se o que teria feito para chegar a um dos pontos mais baixos da sua existência. Mas não se podia dizer que fosse uma grande história: Jocelyn, uma amiga da universidade, tinha-a apresentado ao seu irmão, que se chamava Mike. Depois, uma coisa tinha levado à outra e, no final, o encantador e refinado Mike tinha-se cansado dela e fora para a cama com Janey.
– Bom, já te roubei demasiado tempo – disse, olhando para o deus.
Ele arqueou uma sobrancelha, e Kimmie soube que não estava acostumado a ser contrariado com tanta facilidade, o que a levou a perguntar-se outra coisa: por que se tinha aproximado dela? Teria visto a cena do fogo? Teria sentido pena?
– Posso oferecer-te um copo como agradecimento? – prosseguiu, decidida a saber mais.
– Receio que isso não seja possível. Tu e os teus amigos têm de se ir embora.
– Como? – perguntou, perplexa.
– Vocês estão numa praia privada, e não têm permissão para ficar.
– E tu sim? – atirou-lhe.
Ele ficou em silêncio.
– Não estamos a fazer nada de mal – insistiu ela. – Limparemos tudo antes de nos irmos embora.
– Lê aquele cartaz.
Kimmie virou-se para o lugar que ele estava a apontar, e viu um cartaz de cor vermelha que proibia expressamente a passagem.
– Oh, lamento. Não vimos – desculpou-se. – Quem és tu? Uma espécie de guarda?
– Sou a parte interessada, digamos assim.
– Nesse caso, terás algum documento que prove isso. Não pensarás que nos vamos embora só porque tu nos dizes isso.
Ele olhou para ela com irritação.
– Onde queres que traga a documentação? Estou praticamente nu – replicou, apontando para o seu impressionante corpo.
Kimmie afastou o olhar, incomodada.
– Pois lamento muito. Se não tens provas, ficamos.
Ele respirou fundo e disse:
– Vão-se embora de uma vez.
– Este é o tipo de boas-vindas que dão às pessoas de Kaimos? – protestou ela. – Não deixareis boas memórias nos vossos visitantes.
– Tu já tens coisas para recordares.
– Obrigada por o mencionares.
Ele voltou a ficar em silêncio.
– Olha, tive um dia terrível, e gostaria de equilibrá-lo de alguma maneira – prosseguiu Kimmie, mudando de tática. – Posso fazer algo para que mudes de opinião?
Ele não disse nada.
– A propósito, quem és tu? Um tripulante do iate que está ancorado na baía? Dessa gigantesca aberração?
– Um tripulante? Eu? – disse, franzindo o sobrolho. – De uma aberração?
– Sim, daquele barco… – declarou, apontando com o dedo.
– Não, não sou um tripulante. E, quanto ao barco que tanto te desagrada, chama-se Spirit of Kaimos.
– Fico feliz por ti, mas continuo a sem saber quem és.
– Importa-te assim tanto?
– Não. Mas sinto curiosidade.
– E eu.
Kimmie continuava espantada com o que se estava a passar. Por que fazia questão de discutir com um desconhecido? Tinha começado a dançar para expulsar os fantasmas que carregava e, em vez de expulsá-los, dedicava-se a falar com um homem incrivelmente arrogante que os queria fora da ilha. Mas isso não era tão mau quanto a reação do seu corpo, deliciado por aquele deus grego a devorar com os olhos.
– Façamos uma coisa – prosseguiu ele. – Se me falares de ti, considerarei a possibilidade de vocês ficarem.
Kimmie cerrou os punhos, tentando conter-se. Não queria causar problemas aos seus amigos. Já se tinha enganado bastante por um dia, ainda que os seus erros viessem de longe. Como era possível que tivesse confiado em Mike?
Se tivesse estado mais atenta, ter-se-ia dado conta de que o seu interesse por ela começara quando acabara a universidade e vendera os seus primeiros quadros, que foram um sucesso. A única coisa que lhe interessava era o seu dinheiro. Mas Jocelyn gostava dela como se fosse sua irmã e, como ela gostava do mesmo modo da sua amiga, não tinha duvidado da bondade de Mike.
– Está bem, não fales se não quiseres – disse ele com frieza. – Não estou aqui para resolver os teus problemas, nem para ser objeto da tua ira.
Ela olhou-o nos olhos. Não tinha dúvidas de que aquele homem intimidava muita gente, mas o seu dia tinha sido tão terrível que já nada a assustava. Se pensava que se ia render, estava muito enganado. Limitar-se-ia a tratá-lo com cautela, para bem dos seus amigos.
– Lamento, mas não nos vamos embora se não me mostrares alguma prova de que tens autoridade sobre esta ilha.
– Estou-te a pedir com bons modos – insistiu ele.
– E eu digo-te com bons modos que não estamos a fazer nada de mal e que deixaremos a praia tão limpa como a encontrámos.
Kris pensou que a mulher dos guizos estava a cometer um erro, embora não pudesse negar que o tinha impressionado. Era óbvio que tinha tido um problema grave e que ardia de desejo de retirar-se para algum lugar tranquilo, onde pudesse estar a sós com os seus pensamentos; mas, apesar disso, desafiava-o.
Além disso, também era óbvio que se estava a conter porque não queria meter os seus amigos num sarilho, o que a condenava a uma situação difícil: mantê-lo à distância sem exagerar em nenhum momento. Definitivamente, não se parecia nada com as mulheres a que estava acostumado. Não se submetia à vontade de ninguém. E tinha despertado o seu interesse de tal maneira que agora estava encurralado entre a necessidade de pô-la fora e o desejo de que ela ficasse por ali.
Que devia fazer?
No final, optou por suavizar as coisas e disse, estendendo-lhe uma mão:
– Chamo-me Kris.
Ela franziu o sobrolho.
– Isso significa que podemos ficar?
– Eu não disse isso.
Kris sorriu e fixou os seus olhos, que escureceram subitamente. O impulso de beijá-la foi avassalador, mas estava habituado a dominar-se.
– Está bem, jogaremos ao teu modo – disse ela, que deu um passo atrás e lhe apertou a mão. –Kimmie Lancaster. E, antes de que o perguntes, Kimmie não é diminutivo de nada. Chamo-me assim. Simplesmente Kimmie.
– Muito prazer em conhecer-te, simplesmente Kimmie – ironizou. – Mas, que te aconteceu? Atiras um anel de diamantes ao mar, queimas um vestido de noiva e, depois, dispões-te a fazer uma festa.
– Já te disse que não é uma festa, mas um despertar – recordou-lhe ela. – Além disso, não queríamos desperdiçar a comida do casamento. Kyria Demetriou, a dona do hotel onde estamos, deu-se a muito trabalho com o copo d’água, e pareceu-nos uma boa forma de mostrar-lhe a nossa gratidão.
– Ah, sim, a dona do Oia Mare. É minha amiga.
– A Kyria?
– Sim.
Kimmie tranquilizou-se um pouco. Kyria sabia julgar as pessoas e, se ela era amiga daquele homem, não podia ser tão horrível assim.
– Bom, não me surpreende que se conheçam, tendo em conta que a ilha é muito pequena – replicou.
– Realmente é – disse. – Mas, por que ficaram no Oia Mare? É muito caro.
– Porque queria agradar os meus amigos.
– Porquê? – perguntou, surpreendido.
– Que tem de mal?
– É que deve ter-te custado uma fortuna.
Ela ficou em silêncio.
– Não teria sido melhor que pagassem uma parte das despesas?
– Não quero que paguem nada. Tive um golpe de sorte e decidi partilhá-la com eles. Quase tudo o que ganhei está investido num projeto que me interessa, mas sobrou o suficiente para fazer algo especial, algo diferente.
– E o teu noivo achou bem?
Kimmie respirou fundo.
– Não sei por que te estou a falar disso.
– Talvez porque precises de falar com alguém.
Ela encolheu os ombros, sem dizer nada.
– Estão juntos há muito tempo?
– Se eu te disser, vais rir-te.
– Põe-me à prova.
– Está bem, tu é que pediste… Sou uma pintora que acaba de terminar o curso e que teve uma boa surpresa quando a sua primeira exposição se tornou um sucesso – começou a dizer. – Uma noite, Mike apareceu na galeria e começámos a falar. Mike é o irmão da minha melhor amiga, e ambos estávamos tão encantados com o meu sucesso que nos entusiasmámos e acabámos noivos.
– Pediu-te em casamento nessa mesma noite?
– Sim, e eu aceitei sem hesitar – respondeu. – Sei que soa estúpido, mas às vezes a vida leva-te por caminhos estranhos.
Sobretudo, quando queres fugir ao teu passado.
– E que passado é esse?
Ela olhou para ele durante uns segundos e abanou a cabeça.
– Não, não te vou dizer mais nada.
– Como quiseres – disse ele, pensando que devia ser um passado terrível para que se comprometesse com um estúpido. – Mas, o que fez o tal Mike? Suponho que te enganar com outra, claro.
– Brilhante dedução – replicou com sarcasmo.
– Pois, é um problema. Uma noiva sem noivo – disse. – Belo casamento.
– Bom, eu diria que tenho tido sorte.
– A sério?
– Sim. Tem sido uma espécie de lição de vida.
– Desde que isso não te deixe amargurada…
– Não, de modo nenhum. Irá tornar-me mais cautelosa e terei cuidado para não voltar a cometer o mesmo erro.
– Isso é fácil de dizer, mas não tão fácil de fazer.
– Tu não me conheces.
– Estás a desafiar-me outra vez?
Ela não respondeu à pergunta, e ele começou a ponderar uma ideia. Desde logo, teria de refletir um pouco antes que as coisas fossem mais longe, mas o seu inesperado encontro com Kimmie Lancaster recordou-lhe uma conversa que tinha tido com o seu tio, e tinha a sensação de que o destino estava a bater-lhe à porta.
– Enfim, suponho que nos veremos pela ilha – disse ela, mudando subitamente de tema.
– É o mais provável, sendo tão pequena.
– Tentarei não me cruzar no teu caminho.
– Isso quer dizer que se vão embora? – perguntou, olhando para os amigos dela.
Ela suspirou.
– Não comeces outra vez, por favor. Prometo-te que seremos cuidadosos. Encarregar-me-ei pessoalmente pela limpeza da praia.
Ele soltou uma gargalhada. Kimmie tinha ganhado a partida, embora não soubesse se a tinha ganhado por se atrever a enfrentá-lo ou por ser tão especial.
– Espero que cumpras com a tua palavras, ou terás de dar-me explicações.
O súbito rubor de Kimmie fê-la pensar que não lhe desagradava a ideia de dar-lhe explicações, o que adorou. Era uma mulher corajosa e muito atraente; uma mulher que, pelos vistos, estava tão ansiosa de tocar-lhe a ele como ele a ela.
Infelizmente, as convenções sociais interpunham-se no seu caminho, e não podia passar a outro nível sem o preâmbulo de se conhecerem melhor, por isso perguntou:
– Por que não me apresentas a teus amigos?
Capítulo 2
Em que se estava a meter? Será que os seus neurónios tinham entrado em curto-circuito quando descobriu que Mike e Janey eram amantes? Aparentemente, sim. Caso contrário, por que se tinha prestado à insensatez de apresentar os seus amigos?
Tinha a sensação de que tinha saltado da frigideira para o fogo, e contemplava a cena como se não estivesse ali, como se não fosse real. Mas era: Kris tinha mudado tanto que já não parecia o ditador da praia.
Que se estava a passar? Por que se mostrava tão amável?
– É encantador – disse uma das suas amigas.
– Sim, suponho que não está mal – replicou ela.
Durante a meia hora seguinte, dedicou-se a observar o deus grego que tinha conhecido na praia. Tinha a certeza de que estava a tramar algo, mas o seu comportamento deitava por terra qualquer suspeita: tratava os homens com uma cordialidade sem condescendências, e não tentava namoriscar as mulheres, apesar de algumas serem bastante bonitas. Parecia um bom tipo; nada mais e nada menos que um bom tipo.
Estaria a tornar-se paranoica? Talvez, embora a sua experiência com Mike lhe tivesse ensinado que as aparências enganavam.
– Bom, podemos ficar na praia? Ou teremos de ir embora quando te fores embora? – perguntou-lhe a dado momento.
– Os teus amigos podem ficar, mas tu não.
– Estás louco? Eu não vou a lado nenhum. Fico com eles.
– Então, terão de sair todos.
Kimmie ficou atónita, e a sua surpresa aumentou quando ele fez um gesto para que o seguisse e disse:
– Anda, vem comigo.
Ela olhou para ele furiosa. Por quem a tomava? Pensaria que era uma cadelinha, feliz por poder seguir o seu dono?
– De modo algum – resmungou, cravando os pés na areia.
– Não queres vir comigo?
Para dizer a verdade, Kimmie ardia de desejo de ir com ele. Mas, se Mike a tinha traído sendo tão confiável como parecia ser, que faria aquela maravilha com corpo de gladiador, tatuagens nos braços e uma argola na orelha? Kris era a quintessência do perigo.
E vendo bem, não era isso de que precisava? Uma distração amorosa. Se funcionava com as suas amigas, funcionaria com ela.
– Pois é uma pena – continuou ele. – Pensava que quererias falar um pouco mais.
Ela ficou em silêncio. Estavam tão perto que podia sentir o seu calor, e imaginou-se abraçada ao seu moreno corpo.
– Oh, vamos, só te estou a pedir para darmos um passeio e conversarmos um pouco.
Kimmie lançou um olhar aos seus amigos. Tinham visto Kris, e iriam reconhecê-lo se tivessem algum problema com ele.
Além disso, que podia acontecer? Iam apenas conversar, e sentia-se perfeitamente capaz de controlar a situação.
Convencida de que não corria nenhum risco, aceitou o convite e seguiu-o. Momentos depois, Kris começou a subir por uma duna e, ao ver que ela ficava para trás, deteve-se e disse:
– Estou a ir demasiado depressa?
Kimmie olhou para ele e perguntou-se se Kris estaria consciente do caos hormonal que lhe estava a provocar. Mas, apesar do seu incómodo, disse-se que falar lhe faria bem. Tinha demasiadas coisas na cabeça, e precisava de desabafar de algum modo.
– Faz como a Xerazade – disse ele com um sorriso. – Conta-me histórias. Assim, poderás manter-me entretido e os teus amigos poderão estar mais tempo na praia.
– Se só se trata de falar…
– Claro.
Kimmie voltou a pensar que estava a cometer um erro, mas esqueceu os seus temores ao ver o sorriso do seu acompanhante. Depois, ele estendeu-lhe mão para ajudá-la a subir e ela aceitou.
Kimmie estava sem fôlego quando chegaram ao alto da duna. Ainda conseguia ver os seus amigos, mas perdeu-os de vista ao descer pela ladeira contrária.
– És uma mulher surpreendente. A maioria das noivas fechar-se-iam em casa e desatariam a chorar se o seu noivo as tivesse traído.
– Sim, mas não estou em minha casa. E tenho de cuidar dos meus convidados.
– Pois eu diria que conseguiste – replicou. – Para de te torturar.
– Quem disse que me estou a torturar?
– Eu.
Ela arqueou uma sobrancelha.
– Sou assim tão transparente?
– Receio que sim.
Kris levou-a a um lugar relativamente recolhido e convidou-a a sentar-se, o que fez. Depois, acomodou-se ao seu lado e disse:
– Vamos, abre-me o teu coração.
– Só vamos conversar – recordou-lhe ela, olhando para ele com desconfiança.
– Era esse o acordo.
Kris perguntou-se quem seria Kimmie Lancaster. Em princípio, não se parecia nada com as mulheres com que estava habituado a sair. Tinha todos os traços de uma ingénua sem experiência, como indicava o unicórnio que tinha tatuado no ombro. Mas comportava-se como se fosse capaz de enfrentar qualquer desgraça.
– Quero perguntar-te uma coisa.
– Só uma? – ironizou ele.
– Sim, só uma – respondeu. – Como é possível que possas estar neste lugar e nós não? O cartaz que assinalaste antes diz que é uma reserva natural, e que só se pode aceder com licença do proprietário.
– Uma permissão que tenho – disse Kris –, embora agora não a possa mostrar.
– Pois não me parece justo.
– Poderias mudar de assunto?
– Porquê?
– Porque esse começa a aborrecer-me.
Ele pôs-lhe uma mão no braço, e ela olhou para ele com uma mistura de horror e fascínio, como se tivesse medo de que ele a fosse beijar e, ao mesmo tempo, o estivesse a desejar.
Naturalmente, Kris reparou, e disse-se que o seu carácter romântico lhe podia ser de grande utilidade se no final fosse em frente com a ideia que acabava de ter. O seu tio ficaria petrificado se ele a apresentasse como sua noiva. Tinha-lhe ordenado que se casasse, mas tinha a certeza que ele não estaria a pensar numa mulher como Kimmie.
– Já está na altura de deixares os teus engates e procurares uma boa esposa – dissera-lhe Theo. – Precisamos de um herdeiro.
Seria Kimmie a solução dos seus problemas?
Depois de pensar por um momento, desistiu da ideia. Queria fazer feliz o homem que o tinha criado como se fosse seu filho, mas casar com Kimmie era uma extravagância. Afinal, acabavam de conhecer-se. E, por outro lado, suspeitava que uma mulher tão obstinada recusaria a sua proposta sem hesitar.
Kris não a beijou, e Kimmie sentiu-se estúpida por dois motivos: porque tinha a certeza de que a ia beijar e porque queria que a beijasse. Estaria destinada a ser vítima das circunstâncias? Ou reagiria em algum momento e recuperaria o controlo da sua vida?
– É melhor eu ir-me embora – disse, levantando-se do chão.
– Para onde?
– Para ao pé dos meus amigos.
– Mas se ainda nem começámos a falar…
– Talvez tenha mudado de opinião.
– Pois não devias.
Kris levantou-se e pôs-lhe as mãos nos ombros.
Durante uns segundos, Kimmie desejou render-se ao calor do seu contacto. Precisava de estar com alguém forte que ouvisse o que tinha a dizer e a ajudasse a manter o seu precário equilíbrio emocional. Além disso, afastar-se dos seus amigos era um alívio. Por muito que tentassem dissimular, era visível que sentiam pena dela. E não queria a pena de ninguém.
O seu plano para esquecer Mike tinha sido um desastre. Como poderia ter-lhe ocorrido que organizar uma festa e dançar como uma louca apagaria a imagem de o ter encontrado com Janey? Era uma ideia patética. Só tinha servido para que se sentisse pior.
– Sentes-te bem? – perguntou ele, franzindo o sobrolho.
Kimmie optou por ficar em silêncio, porque a sua pergunta tinha tantas respostas que não soube o que dizer. E, quando o olhou nos olhos, teve a sensação de que todos seus problemas desapareciam de repente.
– Tens medo do sexo, Kimmie? Foi por isso que o teu noivo te traiu?
Kimmie ficou tão desorientada que deu um passo atrás.
– Como te atreves a perguntar-me isso?
Ele encolheu os ombros.
– Não é para tanto.
– Claro que é. E não tens direito a perguntar nada.
Desta vez foi Kris que ficou calado.
– Será melhor eu ir-me embora – repetiu ela.
– Se é o que queres, vai. Mas também tens a possibilidade de falares comigo – disse. – Pensa bem. Não tenho pressa.
– Que queres que te conte?
– Não sei. Começa pela tua infância.
– Quem és tu, uma espécie de psicólogo?
– Não, mas sei que botões devo carregar – respondeu. – Anda, senta-te.
– Posso confiar em ti?
– O que tens a perder se confiares em mim?
– Suponho que nada.
– Então, comecemos outra vez.
– Está bem, mas antes quero fazer-te umas perguntas – disse ela, voltando a sentar-se.
– Força.
– És um pescador local?
Kris soltou uma gargalhada.
– És ou não és? – insistiu Kimmie.
– Sou o teu sultão, e tu és a Xerazade que me conta histórias para que os teus amigos possam estar mais tempo na praia.
– Deixa-te de tolices. Chateias-me com isso – declarou ela. – Além disso, não tenho muito tempo. Os meus amigos virão à minha procura a qualquer momento.
– Duvido. Sabem que estás comigo. E não quererás estragar-lhes a festa, não é?
– Não, claro que não – admitiu.
– Pois começa pelo princípio, pelo capítulo um da história de Kimmie Lancaster.
– Está bem…
– Falar é terapêutico, não achas?
Kimmie demorou um pouco a relaxar, mas descobriu que desabafar com um desconhecido era mais fácil do que com outra pessoa.
De facto, foi como curar uma ferida e, quanto mais falava, mais vontade tinha de falar.
Longe de deprimir-se ou afundar-se na tristeza, deu por si a rir enquanto lhe contava episódios da sua infância. E Kris ficou em silêncio e ouviu-a com atenção, completamente concentrado nela.
Pulsuz fraqment bitdi.